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:: 25/nov/2022 . 23:16

A MARCHA DOS ABANDONADOS, A EUGENIA E A QUEIMA DE REGISTROS

Numa espécie de êxodo, foram cenas de proporções bíblicas. Assim descreve o jornalista e escritor Laurentino Gomes na obra final da sua trilogia “Escravidão”, no capítulo “O Dia Seguinte”, ao se referir à Lei Áurea da Abolição de 13 de maio de 1888.

Essa debandada das fazendas de café do Vale do Paraíba (SP) e da zona da mata de Minas Gerais foi seguida da tentativa do esquecimento por parte das autoridades de que houve um regime escravista no Brasil, tão cruel como em outros países. Na época centenas de documentos foram queimados por ordem do baiano Rui Barbosa.

“Milhares de homens, mulheres e crianças se puseram em marcha, sem destino algum”. Simplesmente vagavam pelas estradas, pelo menos gozando da liberdade do ir e vir. Não demorou para serem tratados como vadios, vagabundos e malfeitores preguiçosos, surgindo daí a Lei da Vadiagem, com pena de prisão.

“Alguns acampavam ao redor de vendas e tabernas, onde passavam as noites dançando e cantando em celebrações de alegria”. O jornal Novidades, de Vassouras, registrou que eles perambulavam em grupos.

Do outro lado, os cafeicultores, nos anos seguintes, entraram em pânico e muitos que não se prepararam foram à falência. O plantel de escravos valia mais que as terras. Com a desvalorização dos imóveis, a Abolição comprometeu parte dos fazendeiros de contrair crédito bancário. Antas os cativos funcionavam como garantias.

No entanto, conforme citou Laurentino, embora não tenham sido indenizados como queriam, os produtores, inclusive com a República, obtiveram generosas linhas de crédito agrícola. Os cofres públicos foram abertos numa tentativa de pacificar os senhores que queriam indenização.

Surgiu um boato que, através de um acordo secreto entre governo e senhores, a Lei Áurea havia sofrido uma emenda de que os ex-escravos deveriam servir mais sete anos em regime de escravidão, antes do direito à liberdade definitiva.

Não houve isso, mas ninguém lhes daria trabalho. Os negros, famintos e esfarrapados, continuaram a esmolar de casa em casa, de fazenda em fazenda em busca de comida e amparo. Outros dirigiram aos centros das cidades e nas periferias criaram as chamadas favelas, existentes até os dias atuais.

Muitos estavam morrendo de fome ao longo das estradas, sem local onde abrigar. Ninguém os queria e ainda eram perseguidos, assinalou o escritor Coelho Neto, maranhense da cidade de Caxias. Com o passar do tempo, os ex-cativos voltaram às fazendas e entraram num acordo com os senhores fazendeiros, morando nas mesmas senzalas de antes, sob as mesmas condições, em troca de um minguado salário. Permaneceram escravos.

Espertos no campo da exploração, muitos proprietários abriram suas próprias vendas e lojas dentro de suas terras para fornecer alimentos, roupas e outras mercadorias aos libertos. Vendiam fiado e a crédito a preços extorsivos, de modo que o trabalhador ficasse endividado e impossibilitado de deixar a fazenda antes de quitar o débito.

Diz Laurentino que as antigas senzalas passaram a se chamar de dormitórios de empregados. Na ala feminina, as tarimbas de madeira ganharam o nome de quartos de empregadas. Os alojamentos dos libertos eram descritos como casa coberta de telhas. Os feitores e capatazes cruéis foram ser apontadores. No lugar do chicote, espingardas e revólveres. Nas cidades, a casa-grande se tornou mansão, e a senzala em favela.

Em Salvador, os comerciantes ficaram incomodados com as festas que os negros promoviam e pediam providencias para criação da Lei da Vadiagem. Queriam que os negros voltassem logo ao trabalho. Em 1890, Alberto Brandão, diretor do Tesouro do Estado da Bahia, preparou um relatório ao governo do Rio de Janeiro onde exigia que um artigo do Código Penal fosse aplicado para forçar os libertos a retornar às fazendas.

O baiano abolicionista César Zama, entretanto, defendia que os ex-escravos tinham o direito de exigir instrução e educação para que pudessem representar o papel de cidadãos úteis à pátria. “Quem se encarrega de quebra as cadeias da escravidão tem também o dever de quebrar as da ignorância”.

A EUGENIA E A QUEIMA DE REGISTROS

De acordo com Laurentino, o período da Abolição coincidiu com o nascimento de uma pretensa nova ciência, a eugenia, que estaria na raiz do extermínio dos judeus, ciganos e outras populações consideradas indesejáveis na Alemanha nazista.

No Brasil, dentre os expoentes dessa ciência, podemos apontar Henrique Roxo, médico do Hospital Nacional, que afirmou em 1904, no II Congresso Médico Latino-Americano, que os negros e pardos eram tipos que não evoluíram e ficaram retardatários na história humana.

Em 1911 tivemos João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que defendia ideias semelhantes. Ele afirmava que dentro em breve a herança africana desapareceria do sangue brasileiro dando lugar a um Brasil branco e civilizado.

Em 1929 o antropólogo Roquette Pinto chegou a prever em que ano exatamente o Brasil deixaria de ser negro. Em 2012, segundo ele, a população seria composta por 80% de brancos e 20% de mestiços. Não haveria negro e índio.

Quanto ao esquecimento, o próprio hino da República, em janeiro de 1890, proclamava em sua letra: “Nós nem cremos que escravos outrora/Tenha havido em tão nobre país!”

Como assinalou Laurentino no final do terceiro livro, caberia ao baiano Rui Barbosa, como ministro da Fazenda, ordenar em dezembro de 1890, a queima de todos registros sobre a escravidão existentes em arquivos nacionais.

Sobre essa medida há quem diga que foi visando apagar a escravidão no Brasil. Para outros teve o sentido de evitar que os senhores da terra entrassem na justiça para reivindicar as pretendidas indenizações por conta da Abolição.

O próprio, que deixou o cargo em 1891, justificou que a iniciativa foi um ato humanitário em benefício dos ex-escravos. Era necessário apagar e esquecer o “passado negro” do Brasil.

Conta o autor da trilogia “Escravidão” que em 13 de maio de 1893 várias autoridades e cidadãos de todas as classes sociais reuniram-se no Campo da Pólvora, em Salvador, e receberam dois carroções com papéis que foram destruídos numa fogueira por várias horas.

Apesar de tudo isso, muitos documentos sobreviveram à ordem de Rui Barbosa, os quais servem para comprovar que o escravismo brasileiro foi tão brutal e cruel quanto em qualquer outra parte do mundo.





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