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“O OLHO DA RUA”

Bem em frente das flores, das palmeiras e das árvores da Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, na Casa Régis Pacheco, uma expografia conta as personagens, histórias, profissões e culturas da região e dos bairros da cidade. Trata-se de um trabalho de fotografias dos estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, intitulado de “O Olho da Rua”, que foi aberto no último dia 30 de março e vai até 30 de abril, e pode ser visitado por fotógrafos, estudantes, professores e interessados em apreciar a boa arte.

Ainda bem que essa iniciativa está saindo do âmbito de uma universidade para se integrar à comunidade, e não fica fechada dentro da própria instituição, longe do alcance de centenas de pessoas, como, na maioria das vezes, acontecem com outras atividades acadêmicas. É como se estivesse saindo das quatro paredes para ganhar a rua.

A coordenação do programa é da professora Adriana Camargo que afirma que o projeto é um espaço que se coloca aberto à experimentação da imagem, do som e das artes integradas… Acima de tudo, a exposição mostra as diversidades dos bairros de Conquista e é uma viagem à realidade da vida onde os estudantes do curso colocaram suas imaginações para trabalhar. É um grande aprendizado teórico que sai das salas de aulas para o campo da prática. Isso é o que nós chamamos de fotojornalismo onde cada estudante desenvolve sua criatividade para mostrar o que aprendeu. “O Olho da Rua” é uma exposição que merece ser visitada por todos.

ALMAS PERDIDAS

Autoria de Jeremias Macário

Dizem que fantasmas

São almas perdidas,

Que vagam no vaivém,

Coisas de carmas,

De abertas feridas.

Para espíritas, morte é vida,

Que retornam do além,

Para pagar suas dívidas,

Encarnam em alguém.

 

Tudo é mistério e confusão.

“Só sei que nada sei”

De céu, purgatório e inferno:

Só sinto o verão e o inverno;

O resto é assombração.

 

Almas perdidas!

Andantes vivas-mortas

Nesta terra de guerra,

Que não são ativas,

E circulam por linhas tortas;

Sem visível passagem

Nessa passageira viagem,

Onde ninguém nota,

Sua atribulada rota.

 

Almas perdidas!

Sem idas e saídas.

Almas perdidas!

Rogai por elas, oh Senhor!

Para que desatem seus nós

De seus antepassados e avós.

 

Almas perdidas!

Meu canto é um pranto,

Cada um com seu santo,

E cada dor em seu canto.

UMA FRENTE PARLAMENTAR PARA A CULTURA DE VITÓRIA DA CONQUISTA

Para uma cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia com mais de 300 mil habitantes, infelizmente, temos poucos representantes no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa da Bahia – ALBA. Na época dos pleitos majoritários aparecem mil candidatos para arrancar votos de mais de 200 mil eleitores, mas depois desaparecem do cenário.

De Conquista mesmo temos os deputados estaduais Jean Fabrício e José Raimundo e federal apenas Waldenor Pereira, na Câmara dos Deputados. Nas campanhas, inclusive municipal, muito se fala sobre obras de infraestrutura para a cidade e quase nada com relação à nossa cultura que tem uma série de demandas reivindicadas pelos nossos artistas em geral e endossadas, continuamente, pelo nosso Conselho Municipal de Cultura.

Vou aqui citar algumas que são básicas e urgentes como razões para que se forme uma frente parlamentar, incluindo a Câmara de Vereadores, numa parceria com o setor privado, para num esforço conjunto, tornar a nossa cultura mais ativa e pujante durante todo ano, não apenas se limitando ao São João e ao Natal, como tem ocorrido ultimamente.

Para começar e ser objetivo, temos o Teatro Carlos Jheová (interditado há mais de dois anos), o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha (rua Dois de Julho), adquiridos com recursos da prefeitura, todos fechados e que necessitam de reformas para que esses equipamentos se transformem em centros culturais multiuso.

Não podemos esquecer também da conservação e manutenção do que ainda resta do Patrimônio Material Arquitetônico onde casarões estão ameaçados de cair, como um imóvel existente na Praça Tancredo Neves. Conquista é uma das cidades baianas que não conta mais com centro histórico para se visitar.

A vida cultural de Conquista hoje está praticamente resumida aos bares e restaurantes noturnos de finais de semana, com shows de bandas e música de cantadores com voz e violão. Precisamos de muito mais que isso. Por exemplo, que ocorram festivais de músicas autorais com premiações, feiras literárias, seminários, encontros da juventude e salões de artes visuais.

Foto de José Silva

Nessas arenas, hoje fechadas e sendo destruídas pelo tempo, poderiam ser realizadas atividades que contemplem as mais diversas linguagens artísticas, como a música, o teatro, o cinema e o audiovisual (cinemateca), a literatura, a dança, oficinas, artes plásticas, o artesanato e tantas outras expressões, movimentando a cidade com mais geração de trabalho e renda. É a chamada economia criativa que está parada em Conquista por falta de espaços municipais.

Não queremos apenas a revitalização do Cristo da Serra do Periperi, obra do artista Mário Cravo Junior. Muitos esquecem do Museu Cajaíba que está lá na serra a céu aberto sendo destruído e carece de um projeto de restauração e preservação por parte do poder executivo. As obras de célebres personagens brasileiras e internacionais, muitas das quais desapareceram, precisam de um local seguro, para que a memória do artista não seja apagada do nosso cenário cultural.

Todos esses pontos e mais outros de fundamental interesse para o fortalecimento da nossa arte, como a implantação de um Plano Municipal de Cultura, têm sido exaustivamente discutidos e cobrados pelo nosso Conselho Municipal de Cultura à Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer- Sectel durante suas reuniões, mas sempre se esbarra na alegação da falta de recursos.

Por falar em Plano Municipal de Cultura, uma luta do Conselho, foi elaborado e está com a prefeita para ser aprovado e colocado em prática, o Plano de Turismo para Conquista, mas, tenho dito que, sem uma cultura forte e ativa na cidade, fica aquela lacuna que por certo irá desmotivar a atração dos turistas da região e de outros estados. Sem eventos culturais constantes, pouco adianta projeto de turismo.

Foto de José Silva

Confesso que da minha parte é muito triste ver a nossa cultura nessa situação de perda de sua identidade e memória. Mais lamentável ainda é não ter as demandas dos artistas atendidas. Existe um sentimento de frustração e até de revolta que, muitas vezes, acirram os ânimos entre a classe e os entes do executivo responsáveis pela cultura municipal.

Não basta a realização de editais e projetos de lei, que, vez por outra ajudam os artistas. Não podemos ficar dependentes das leis federais, como a Paulo Gustavo, Aldir Blanc, Rouanet e outras. O município tem que destinar mais recursos para promoção da sua política cultural própria, especialmente quanto a preservação e funcionamento dos seus equipamentos que estão fechados.

Para somar forças nessa empreitada (a Prefeitura Municipal sempre alega escassez de verbas) é por isso que aponto aqui a necessidade da formação de uma frente parlamentar suprapartidária que destine emendas para nossos projetos numa parceria com os empresários.

Essa provocação e cobrança têm que partir dos diversos segmentos da sociedade, dos órgãos públicos e demais entidades. O Conselho Municipal de Cultura tem levantado essa questão em seus debates mensais, mas não tem o poder de ir mais do que além disso, tendo em vista que não se trata de um órgão executor.

O TEMPO E AS INVERSÕES DE VALORES

Quando se fala em minha época era assim, alguém pula de lá para dizer que os tempos mudaram, que você está antiquado e que isso é puro saudosismo. Tudo bem, mas estou me referindo às inversões de valores dos seres humanos. Com o “progresso” e o avanço da tecnologia moderna, será que houve mudanças para melhor em termos humanos?

Como estava dizendo acima, em meu tempo, lá pela década de 50 e 60 do século passado, quando se tinha 12 anos ou pouco mais que isso, ainda chamava-se de idade da inocência. A criança ou o pré-adolescente dava benção aos pais quando acordava e ia dormir. Brincava-se de amarelinha, esconde-esconde, bola de gude, pião, pular de corda, cavalo de pau e até com ossos de animais. Os carrinhos eram feitos de madeira.

Na escola, todos iam de farda limpa – quem não estava uniformizado não era recebido – e fazia-se fila para entrar na sala de aula depois de cantar o Hino Nacional. Lembro que meu fardamento tinha uma gravatinha com listras que marcavam o ano em que cursava. No primário eram cinco anos. Os estudantes obedeciam aos professores. Os mais peraltas eram castigados e até ficavam de joelhos em caroços de milho. Fiquei muitas vezes.

Quando um aluno fazia uma coisa errada, a diretora chamava o pai ou a mãe que dava aquela bronca no filho. Não se xingava os mestres. Em casa ainda recebia o castigo. As crianças aprendiam desde pequenas a respeitar os mais velhos ou idosos, como queiram, e até pediam licença para passar entre os adultos. Haviam algumas brigas, mas logo se fazia amizade e se pedia desculpas.

Os tempos mudaram e nem se canta mais o hino. Não se usa mais fardas e estudante entra até armado na escola para matar colegas e professores. Os pais brigam com a diretora quando recebe uma queixa de um filho. O professor tem que ter o maior cuidado para repreender o aluno que está perturbando a aula.

O celular na mão virou o brinquedo para revirar as redes sociais das mentiras, das pornografias, com língua em códigos e sinais esquisitos. Não se é mais inocente como antigamente. O idoso é visto como coisa velha, caduco, que só fala besteiras e é um imprestável ranzinza. O ensino mudou para pior e o mestre é encarado como se fosse um inimigo. Praticamente não existe mais essa de repetir de ano, isto é, não passar para o outro curso.

O tempo foi passando e surgiram outras gerações, como a atual, que é bem mais violenta, estúpida, egoísta e agressiva. Não há mais o senso humanitário de um ajudar o outro. Irmão mata irmão e até pai e mãe. O professor tem medo de ensinar em determinadas escolas porque o aluno pode bater nele ou fazer coisa pior.

Houve uma tremenda inversão de valores onde nem se sabe o que é ética e honestidade. O errado tornou-se certo, e o certo ocupou o lugar do errado. O anormal em normal. O incomum em comum. Vale a lei do levar vantagem em tudo. Por qualquer motivo um atira no outro numa simples discussão de trânsito. A população ficou desumana e ninguém confia mais em ninguém. Temos hoje um mundo mais selvagem.

 

 

SEMANA DO JORNALISTA E O DIPLOMA

Há 50 anos me lembro muito bem quando recebi o diploma de bacharel em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e também já são passados 50 anos que comecei a minha carreira profissional no jornal “A Tarde”, como revisor, função que não mais existe, mas que oferecia uma boa formação profissional depois de uma faculdade.

Nessa época uma medida reconhecia a profissão e exigia que as redações dos jornais só recebessem graduados, acabando aos poucos com os chamados provisionados. O registro no Ministério do Trabalho passava a ser definitivo. Lembro que os veteranos, que já atuavam no mercado há anos, criticavam os diplomados quando cometiam algum erro e diziam que a escola não prestava para nada.

Os repórteres, editores, chefes de redação e redatores antigos tudo faziam para desqualificar os diplomados afirmando que chegavam cheios de teorias e quase nada de prática. De certa parte aquilo tinha até razão de ser porque, na verdade, era o dia a dia, ali no batente das matérias, que terminava por formar um grande jornalista.

No entanto, o jornalismo se tornou mais profissional, sério, com maior credibilidade e ética a partir da formação acadêmica somada à prática. O tempo passou e há cerca de 20 anos, se não me engano, um movimento contrário à obrigatoriedade da graduação fez com que o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovasse que, para ser jornalista, não seria mais necessário ter o diploma.

Todo esse “nariz de cera” é para também lembrar que estamos na Semana do Jornalista que se comemora no próximo dia sete de abril. A Federação Nacional dos Jornalistas-Fenarj e os seus sindicatos tentaram reverter aquela decisão do STF, mas, infelizmente, se acomodaram politicamente. Perdemos essa prerrogativa que é dada à grande maioria das profissões.

O resultado disso é que nos tempos atuais, principalmente com o advento das novas tecnologias eletrônicas da informática, dos meios virtuais, todos são chamados de jornalistas e nem mais se pergunta se você tem ou não um diploma. Isso deixa um veio de frustação em quem passou quatros anos numa faculdade.

Agora, a própria Fenarj e os sindicatos estão lançando a chamada Campanha da PEC do Diploma nessa Semana do Jornalista, movimento esse tardio, mas que nunca deixa de ser providencial, e vamos torcer que a categoria se una em torno desse projeto que deverá ser aprovado pelo Congresso Nacional.

Outra questão que deve ser sempre combatida é a da violência contra o jornalista que começou a existir desde os primeiros jornais com a chegada de D. João VI ao Brasil. O profissional sofreu seus períodos mais duros nas eras do coronelismo e, notadamente, nas ditaduras de Getúlio Vargas (1930-45) e na mais recente de 1964 que experimentou o brutal AI-5.

Nessa Semana, o jornalismo tem que lembrar e debater o problema da violência, da qual fui vítima por várias vezes. Essa história da agressão ao jornalista, bem viva entre nós no governo passado do capitão-presidente Bozó, tem que ser contada e discutida.

Não basta a reconquista do diploma, mas também criar dispositivos para que a liberdade de expressão jornalística nunca mais seja tolhida. Temos que permanecer lutando diariamente por uma livre imprensa, porque os agressores contra à democracia continuam sempre de plantão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS MOMENTOS DE AGONIA DE UMA NAÇÃO

OS MOMENTOS DE AGONIA DA NAÇÃO

Estão completando, exatamente, neste primeiro de abril (alcunhado de Dia da Mentira), 59 anos do golpe civil-militar que os generais ainda insistem em datar como 31 de março, quando o comandante Mourão saiu de Juiz de Fora e desceu a Serra de Petrópolis com suas tropas até o Rio de Janeiro, que muitos dizem desarmada.

O chamo de o dia em que separou os brasileiros entre classe média, estudantes, sindicatos, pobres, pais e filhos, a Igreja Católica, amigos de amigos e irmãos de irmãos. É um dia que precisa ser lembrado para que nunca mais aconteça em nossa história, e todos aqueles imbecis que pedem uma intervenção militar, ou seja uma ditadura, sejam repelidos rigorosamente e presos.

Em minha obra “Uma Conquista Cassada- cerco e fuzil na cidade do frio”, faço um relato sobre o que foi o regime em Conquista, na Bahia e no Brasil, não deixando de me reportar sobre as ditaduras na América Latina. Nele escrevi este capítulo: Os Momentos de Agonia de uma Nação.

Foi mesmo em primeiro de abril em que uma corja do Congresso Nacional decretou que o presidente João Goulart havia se ausentado do Brasil e deixado um vácuo no poder, quando ainda estava no Rio Grande do Sul. Foi este Congresso que abriu as portas para as forças armadas darem o golpe definitivo.

O quadro geral do país era de agitação e nervosismo, com intensa movimentação nos quartéis e em todos os setores da sociedade. Mas, ainda existiam possibilidades para virar o jogo a favor do presidente, se este tivesse tido mais firmeza e agido rapidamente.

Foi organizada uma brigada pelo general Luiz Tavares de Mello (1ª Divisão de Infantaria de Niterói), para combater a tropa vinda de Minas Gerais, mas sempre faltava uma ordem de Jango para agir. A brigada tomou posição no Vale do Paraibuna com seus canhões. O pessoal só esperava um sinal para atirar, enquanto o grupamento de Mourão, sem munição, continuava parado. O brigadeiro Teixeira (III Zona Aérea) enviou aviões da Base de Santa Cruz para bombardear Mourão.

Os pilotos queriam jogar as bombas, mas não tinham a ordem de Jango, que mandava esperar. Também o almirante Aragão, dos Fuzileiros Navais, esperava uma ordem de Jango. Os marinheiros esperaram uma noite inteira. Faltou o primeiro tiro, pelo menos para adiar por mais uma vez o Golpe dos Generais.

A tropa legalista recuou e Mourão andou das margens do rio Paraibuna até o Maracanã. Os sargentos e oficiais desmobilizados começaram a passar para o lado dos golpistas. Segundo observadores, Mourão não tinha tropa para enfrentar os 86 legalistas contra o golpe.

A história poderia ter sido diferente, se Jango tivesse tido pulso firme para decidir. Não é por menos que muitos até hoje o classificam de covarde, indeciso e incompetente. Dizem que ele estava negociando e não queria derramar sangue.

O general Costa e Silva, por exemplo, já não acreditava na revolta e até temia que seu grupo pudesse ser preso. Os momentos posteriores até a consumação final do golpe, em 1º de abril, foram de muitas incertezas, angústias e agonia. O povo estava atônito e perplexo; os boatos corriam como rastilhos de pólvoras; e a panela entrava em ebulição prestes a explodir a qualquer hora.

Acontece que o II Exército, em São Paulo, continuava parado e isso deu mais tempo para que os golpistas avançassem, tomassem mais forças e se consolidassem de uma vez. O general Kruel, ainda no muro, com sua cruel dúvida, soltava uma nota de que as tropas no Estado estavam na expectativa.

Caso aderisse ao presidente corria o risco de ser preso, e sabia disso. O chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Pery Bevilaqua, conforme descreve Elio Gaspari, foi o único a visitar Goulart em seu gabinete e tentar uma negociação. Foi lá exigir combate às greves e a derrubada do ministério. Os americanos ainda estavam confusos e desorientados com relação ao movimento.

O coronel Walters dizia que a rebelião estava perdendo forças por falta de adesão de São Paulo e outros estados. Com aquilo tudo, Goulart poderia ter repetido Vargas, em 1937, e decretado um Estado Novo, assim analisaram políticos e intelectuais. O deputado do PTB, Max da Costa Santos achava que Mourão seria esmagado em pouco tempo.

Àquela altura, o país estava em polvorosa com muitas notícias e boatos de prisão; de reação e rendição do governo. Tudo marchava para seu fim. O golpe seguia em ritmo mais acelerado. Soldados começavam a tomar as ruas e praças das cidades.

A ânsia era esmagar de vez o governo. Para colocar mais lenha na fogueira, o chefe das Ligas Camponesas, Francisco Julião, anunciava que a vontade do povo iria prevalecer, com ou sem o Congresso. Luis Carlos Prestes ainda teve tempo de convocar uma reunião do Comitê Central do PCB e manteve seus 40 mil militantes em alerta.

As Ligas Camponesas tinham dois mil homens. Leonel Brizola bem que tentou acionar um esquema militar, mas seus Grupos dos Onze não se moveram. A força das armas dos revoltosos era bem maior. As tímidas reações chegaram tarde demais. Mais uma vez, as esquerdas não se uniram como deveriam.

Apesar de tudo, os líderes dos movimentos, dos estudantes e dos sindicatos ainda acreditavam que as massas iriam reagir. Não paravam de soltar comunicados, mas a repressão já batia e arrombava as portas com seus fuzis. Na realidade, os grupos de esquerda e outras organizações não estavam preparados para aquele momento.

Além do mais, muitos ainda receavam quanto a força que Jango iria ter nas mãos. A Igreja Católica, a classe média burguesa e a grande mídia marchavam ao lado dos generais. O Congresso virou uma torre de Babel. Os parlamentares não se entendiam e partiram para a pancadaria.

Analistas entendem que faltou coragem por parte de Goulart, bem como de todo seu staff, para por fim à rebelião. Só assim liquidaria de vez com as tropas de Mourão. Entre as conjecturas, o presidente poderia ter fechado o Congresso, expurgado oficiais e buscado reforços imediatos no seu “dispositivo” e na máquina sindical. Poderia até, se quisesse, ter usado a força aérea para bombardear as tropas de Mourão, como insinuou o ex-prefeito de Vitória da Conquista, Pedral Sampaio.

Perdeu-se muito tempo. Muitos ficaram esperando por uma ordem contra-revolucionária da parte de Goulart para agir. Caiu-se no imobilismo. Na Câmara, o vice-líder Almino Afonso chegou a discursar, declarando que os trabalhadores iriam parar porto por porto, navio por navio, fábrica por fábrica, e que as greves também iriam parar o campo.

“Querem a guerra civil, pois teremos a revolução social. Uma guerra civil não se faz com marechais, almirantes e generais. Faz-se com a tropa, e essa tropa é o povo que compõe todos os quartéis. São os sargentos, os cabos e marinheiros”.

Muitos estudiosos políticos calculam que, se Jango mandasse reagir, quem iria mandar no poder era a esquerda comunista. Mas outros entendem que a maioria das forças legalistas dentro das corporações militares (mais de 80%) era nacionalista e rejeitaria o comunismo.

O que se sabe é que, depois de ter conversado com o general Kruel, o presidente fez o trajeto de Getúlio Vargas (Distrito Federal – Porto Alegre – São Borja). Só depois foi para o Uruguai. Tudo combinado e negociado? É uma pergunta que se faz.

O “DISPOSITIVO” RUIU

Como vimos, em 31 de março, no meio de todo esse turbilhão, João Goulart mantinha-se em silêncio no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Confiou 88 demais no seu “dispositivo” de esquerda, que não tomou nenhuma iniciativa militar. Por volta das 22 horas do dia 31, o general Kruel ligou para Goulart pedindo para que ele rompesse com a esquerda, demitisse Abelardo Jurema do Ministério da Justiça e Darcy Ribeiro da chefia do Gabinete Civil, além de colocar o Comando Geral dos Trabalhadores (a CGT) fora da lei.

Jango não aceitou o emparedamento, porque depois seria totalmente enfraquecido. Afirmou que não iria trair os amigos. Se ele quisesse, que traísse, colocando suas tropas na rua. O general telefonou na presença de outros oficiais. Kruel passou todo dia 31 e parte da noite sem saber que posição tomar, inclusive não apareceu no seu QG na parte da tarde.

À noite retornou ao seu quartel e ficou com medo de ser sequestrado se aderisse ao governo. O 4º Regimento de Infantaria, de Quitaúna, estava com a rebelião. Kruel tinha que sair da toca e se decidir. Pressionado e acossado, inclusive por Castello Branco, ficou sem saída. Finalmente, quando não tinha mais para aonde ir, por volta da meia noite do dia 31 para o 1º de abril, o general Kruel resolveu aderir à rebelião através de um manifesto.

Declarava ser necessário salvar a pátria em perigo, livrando-a do jugo vermelho. Colocava-se fiel à Constituição e à manutenção dos três poderes. Dizia ainda que a intenção do II Exército era liquidar com o comunismo que estava infiltrado no governo.

O “dispositivo” de Jango começava a ruir de vez. A inércia do governo foi fatal para o seu desmoronamento. Foi assim que, no dia 1º de abril, o “Dia da Mentira” e das “pegadinhas” (ironia do destino) tudo mudou e clareou a favor do golpe definitivo dos generais. Ao amanhecer, o general Kruel, talvez com remorso e querendo remediar sua posição, ainda insistia em emparedar Jango, sem destituí-lo do cargo.

O general Justino Alves Bastos, do IV Exército, em Recife, que também sempre ficou no muro, foi se aproximando do levante. Ele e Kruel ficaram quase um dia esperando para ver onde o vento sopraria mais forte, para pegar carona. Justino recebeu o superintendente da Sudene, o economista Celso Furtado, por volta das 10 horas do dia 1º, e confessou que estava ali para prender quem atentasse contra a ordem pública.

Para o dia 1º de abril estava prevista, no Rio de Janeiro, a greve geral de transportes em apoio às medidas de João Goulart. No final da tarde haveria um comício na Cinelândia, reunindo intelectuais, estudantes e lideranças sindicais. Quem apareceu foi a força do exército com tanques, metralhadoras e equipamentos pesados.

Muita gente alí que esperava o início do comício imaginou que os soldados tinham ido a mando de Jango para prestar segurança ao evento e começou a aplaudir. Só que a tropa apontou suas armas contra o povo que trocou os aplausos pelas vaias. Houve tiros e duas pessoas foram fuziladas.

“Fora.” foi o título do editorial do jornal “Correio da Manhã” (RJ), comentando que não restava outra saída para João Goulart a não ser entregar o governo. Os últimos a segurarem as lanternas foram o Forte de Copacabana e a Fortaleza São João, que continuavam rebelados até ao meio-dia do dia 1º, mas não ofereciam mais nenhuma resistência. Eram poucos homens.

Ainda no dia 1º de abril, a sede da UNE foi incendiada pelo CCC – Comando de Caça aos Comunistas. A partir daquele símbolo destruído, começavam as manifestações de ruas e depois as lutas armadas. Os tanques que, pela manhã, guardavam o portão do Palácio das Laranjeiras, onde se encontrava Jango, à tarde foram proteger o Palácio da Guanabara, onde estava o governador Carlos Lacerda. Na mesma tarde, o governo dos Estados Unidos declarava apoio à rebelião dos generais.

O ministro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro pulou do barco, e Jango resolveu voar para Brasília. Seu “dispositivo” estava dissolvido e diluído. O IV Exército cuidou de cercar e imobilizar o governador de Pernambuco, Miguel Arraes. As tropas do general Kruel marchavam em direção ao Vale do Paraíba.

Em Brasília, por volta das 23 horas do dia 1º de abril de 1964, o presidente abandonou a Granja do Torto e voou para Porto Alegre (Rio Grande do Sul) num avião da FAB. Dizem que toda sua história foi resumida nos dias 31 de março e 1º de abril de 1964.

Na madrugada do dia dois de abril, ainda reuniu-se com o deputado federal Leonel Brizola, e somente aí sua ficha caiu de vez. De Porto Alegre, Jango foi com o general Assis Brasil para a fazenda Rancho Grande, em São Borja.

Não dava para ficar mais em território brasileiro. Num C-47, partiu definitivamente com sua mulher Maria Thereza e seus filhos para o doído exílio no Uruguai. Entre os dias 1º e dois de abril, alguns comandantes ainda tentaram resistir, mas foram logo dominados e presos.

Os tanques, fuzis e metralhadoras tomaram as ruas das cidades. Os suspeitos de serem comunistas, partidários do Governo Goulart, aliados das reformas de base e dos movimentos sociais, abarrotavam as cadeias nos primeiros dias de uma longa noite de trevas.

Muita gente fugia e se escondia das armas como podia. Famílias foram separadas, filhos desgarrados e mães e pais começavam a derramar suas primeiras lágrimas de muitas que viriam depois com as torturas, mortes e desaparecimentos.

Não se imaginava que a ditadura iria perdurar por tanto tempo e que o Brasil iria viver os trágicos anos de chumbo. Analisam os críticos que Jango sempre assumiu uma posição conciliatória e o acusam de ter sido incompetente, covarde, despreparado, indeciso e demagogo. Ao procurar incluir a classe trabalhadora no centro das decisões políticas e desejar realizar as reformas de base, foi tachado de populista, comenta Joviniano Neto, do Grupo Tortura Nunca Mais, da Bahia.

Os grupos de esquerda queriam pressa e criticavam que Jango demorava e abria concessões demais. Com aquele quadro todo de indefinição e espera para o pulo final, o velho general Cordeiro de Farias, depois de tudo consumado, chegou a afirmar que o Exército tinha dormido janguista no dia 31 de março, mas com o propósito já traçado de tirar o presidente do poder. Segundo historiadores, o golpe foi um acidente (foi antecipado), uma conspiração cheia de erros que terminou dando certo.

As comemorações passaram a ser feitas no dia 31 de março, justamente para evitar as chacotas do popular “Dia da Mentira”. No capítulo sobre “A Força Motriz do Processo Revolucionário”, o Centro de Estudos Victor Meyer, da Polop (Política Operária) – “Uma Trajetória de Luta pela Organização Independente da Classe Operária no Brasil”, assinala que na hora do golpe, quando as ditas correntes (Jango, Brizola e PCB) estavam em debandada, “o proletariado foi a única classe urbana que se mantinha como classe contra o golpe”.

Ainda de acordo com os estudos do Centro, o fato que possibilitou a instauração da ditadura, sem uma resistência das massas e dos partidos políticos, foi a ausência de um movimento operário independente, capaz de unir em torno de si o campesinato e as camadas radicalizadas da pequena burguesia. Na verdade, o golpe foi de classe, perpetrado pela burguesia nacional contra a classe trabalhadora, com a cobertura das forças armadas. Portanto, o golpe foi civil-militar.

“FLUXO E REFLUXO” XII

AS CUMPLICIDADES DO GOVERNO COM RELAÇÃO AO TRÁFICO ILEGAL E A COERÇÃO INGLESA

Por volta de 1840 e, precisamente, entre 48 e 49 os ingleses já estavam irritados com os descumprimentos dos acordos e das convenções desde o início do século XIX com o Brasil quanto a questão da abolição em definitivo do tráfico negreiro de africanos.

As intrigas e as cartas trocadas com os ministros e a diplomacia entre os dois países eram constantes, com as contestações do Brasil sobre os aprisionamentos de navios de bandeiras brasileiras e portuguesas. Os comerciantes de escravos jogavam o povo contra os ingleses, com manifestações e cartazes de “morte aos ingleses”.

O Império, que era conivente com os senhores proprietários e a aristocracia, alegava ser injusto as ações da Inglaterra e dizia que em 1845 haviam cessados os tratados. O imperador recorria que os ingleses indenizassem os prejuízos pelas perdas das cargas de escravos, na grande maioria feitas de forma clandestina.

A Grã-Bretanha, com seu maior poderio naval e em armas, resolveu, entre 1848/49, tomar medidas drásticas e colocou seus cruzadores em águas brasileiras com ameaça de invasão do Brasil. Começou a agir até em águas e portos nacionais, prendendo cargas.

Os negros, na sua maioria, eram enviados para as ilhas britânicas (Trindad) como trabalhadores livres, mas o Império queria sua guarda ou que fossem reexportados para seus países de origem, ou Serra Leoa.

Todos esses imbróglios sobre o tráfico proibido estão no livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger, de mais de 900 páginas, com detalhes precisos sobre a escravidão na Costa da África, exatamente no Golfo do Benin, as trapaças e corrupções dos traficantes e o retorno dos cativos emancipados e participantes de levantes e rebeliões para sua terra natal, fazendo uma nova travessia do Atlântico e formando colônias na Guiné, Benin e na Nigéria.

A obra conta todo esse ciclo do “Fluxo e Refluxo. A leitura é acadêmica e de grande importância para o conhecimento de como funcionava esse comércio vergonhoso de escravos que durou mais de 300 anos no Brasil. A pressão inglesa foi fundamental para a Lei Eusébio de Queirós, em 1850, pondo fim ao tráfico de cativos no ano seguinte e finalmente com a abolição da escravidão, em 1888, mesmo com o repúdio dos senhores do café que ajudaram um ano depois a derrubar a monarquia.

Sobre essa questão específica do tráfico proibido nos tratados, mas que eram desrespeitados pelos traficantes, com a conivência das autoridades imperiais, Pierre Verger cita que para a Grã-Bretanha, sob a pena do diplomata Palmerston, as convenções e os tratados tornaram-se “tratados compromissos perpétuos” (Brasil contestava isso juridicamente), e os oficiais da Marinha de Guerra inglesa se comportaram no Brasil como em um país conquistado.

Os cruzadores receberam a instrução de apresar os navios de tráfico, tanto nas águas territoriais brasileiras, quanto fora delas. Em 23 de junho de 1849, o capitão Bailey, do Sharpshooter, tomou um navio negreiro sob os canhões do forte de Macaé. Irritados, alguns membros da Assembleia Legislativa do Brasil quiseram propor um projeto de lei anulando aquele de sete de setembro de 1831 (a chamada lei para inglês ver).

Em cinco de janeiro de 1850, Schomberg, comandante do Crormorant, fazia o apresamento do Santa Cruz em águas territoriais brasileiras. Hudson, o encarregado de negócios britânicos, advertia a Palmerston, em março de 1850: Os atos dos cruzadores de Sua Majestade excitam os espíritos e dão maior poder aos negociantes de escravos.

Relatava ainda que um ataque traiçoeiro e o assassinato a sangue frio de um marinheiro inglês foram perpetrados por um bando de cortadores de garganta, os comerciantes de escravos que são a desgraça deste século. O Hudson pedia à Sua Majestade britânica que mudasse sua maneira de agir e tomasse as próprias medidas para satisfazer o tratado-compromisso da Coroa do Brasil relativo à total e inteira supressão de escravos.

A situação chegou ao um ponto em que o Brasil ficou isolado por causa das importações maciças de escravos (os preços dos cativos subiram no mercado e as mercadorias também). O país perdeu o apoio da França e da Áustria.

Nessa história toda aconteceram fatos interessante como a compra de jornais por parte dos senhores do café para defender o tráfico. Por sua vez, os ingleses soltavam dinheiro para a Correio Mercantil, uma das mais lidas na época e antiescravista. Hudson escrevia que um dos jornais que publicavam artigos contra o tráfico de escravos, o Monarquista, foi comprado por comerciantes de escravos.

Hudson escrevia para Palmerston, em 1850, sobre os atos de corrupções que ocorriam nas alfandegas entre funcionários e traficantes. “Não vejo ainda como o governo brasileiro poderá se queixar do esforço feito pelo governo de Sua Majestade para destruir o tráfico de escravos nas costas do Brasil”.

Nessa época, cresciam os movimentos antiescravistas e os ingleses instigavam o povo a clamar contra a escravidão, inclusive financiando partidos oposicionistas e espionando com seus agentes todas ações ilegais dos comerciantes clandestinos. Os partidos pregavam contra as importações e pediam a extinção gradual da mão de obra escrava.

Esses partidos e os jornais, como o Philantropo, Correio Mercantil e o Grito Nacional expunham todos os casos de cumplicidade do governo com os comerciantes, inclusive publicando os nomes dos proprietários que privam seus escravos da fraca proteção que a lei lhes concede.

As duas câmaras legislativas falavam dessa cumplicidade do governo com os importadores, como sendo a raiz dos grandes males do país, e da origem das medidas coercitivas e desagradáveis impostas pela Grã-Bretanha nas costas brasileiras. A imprensa denunciava os atos criminosos e a versão deturpada que davam os comerciantes quando navios eram capturados.

ALMAS PERDIDAS E AS VIVAS-MORTAS

Lembro ainda menino quando falavam em fantasmas e meu pai dizia que não existia, não tinha medo e que seu maior temor era quanto aos vivos perigosos, assaltantes e traiçoeiros.  Outros comentavam que fantasmas são almas que depois da morte ficaram perdidas vagando por aí por conta de seus passados ou antepassados errantes.

Tem os causos e casos, histórias e estórias de casarões mal-assombrados que inspiraram filmes de terror e, para espantar as assombrações do lugar, entram em ação os caças-fantasmas com aquelas máquinas esquisitas estrambólicas de raios lazer que sugam os espantalhos.

Os exorcistas, padres ou especialistas parapsicólogos também são procurados para benzeções e desvendar as perturbações de batidas, abrição de portas, ventos que derrubam janelas e gemidos estranhos. É o mundo do além das almas perdidas como muitos acreditam e até falam de pé firme que já viram. Isso só acontece com quem é médium ou mais sensível.

Não sei o porquê de estar falando nesse assunto, até de certa forma macabro? Será falta de assunto neste país? Não, temos até de sobra todos os dias, muitos dos quais nos agridem, nos violentam e roubam nossos direitos humanos! Tiram nosso sono. É apenas para descontrair ou assombrar os incrédulos.

Esse negócio de almas perdidas, para mim é tudo mistério e confusão. “Só sei que nada sei”, como já disse o nosso grande filósofo Sócrates da Grécia Antiga. Esse tema dos espíritos já era discutido na Atenas dos sábios Platão, Anaxágoras e Aristóteles.

Se existem mesmo esses fantasmas, são almas de feridas abertas, coisa de carmas que ficaram presas nessa terra. Elas não conseguiram partir ou não tiveram a moeda para pagar ao barqueiro para atravessar o rio para a outra margem. Certamente ficaram por aqui a lamentar suas dores.

Os adeptos do espiritismo explicam que a morte é vida e que as almas depois de um determinado tempo se encarnam em outras em busca da perfeição, para purgar seus erros. A umbanda faz uma viagem ao passado dos ancestrais de vidas que fizeram o bem ou o mal. Pelo olhar, todos cometeram maldades e atrocidades lá atrás.

Seriam essas almas as perdidas que ainda não conseguiram subir ao céu, ficar no mediano purgatório ou descer ao inferno, como sempre pregou a Igreja Católica com suas doutrinas e dogmas de fé? Sinceramente, nesse tempo que nunca para, o que sinto mesmo é o verão e o inverno, a dor, o sentimento, a saudade e essa gente cada vez mais perdida e desumana.

O mais concreto mesmo são as almas, milhões de vivas-mortas dos oito bilhões que se apertam nesse planeta de fronteiras e muralhas de cimento e ferro, inclusive de arame farpado. Falo dessas almas perdidas que andam por linhas tortas, que causam violências, angústias e mortes, sem me imiscuir de citar aquelas invisíveis que nada fazem de bem.

Tem aquelas almas que sempre serão lembradas pelas suas ações, feitos e trabalhos materiais ou espirituais. São pessoas que nunca serão esquecidas porque foram bondosas, generosas, ativistas e até consideradas heróis e heroínas. Tem também as almas perdidas, mornas e insossas que preferem o silêncio ao barulho. Tem as violentas e agressivas, impiedosas e tiranas matadoras de almas.

NO TÚNEL DA FLORESTA

Existem alguns locais em Vitória da Conquista que são poucos conhecidos, comentados e transitados que na entrada dão uma sensação de paz, nem que seja por alguns momentos. Minhas lentes flagraram e assim eu me sinto quando venho do Bairro Recreio ou do “Conquistinha” cortando pelo Horto Florestal para sair na Avenida Luis Eduardo Magalhães. Quando estou por aquelas bandas faço questão de passar por lá e fico encantado com as árvores e as flores quando penetro no túnel dessa floresta. É como se você, por uns instantes, deixasse para trás essa loucura do trânsito da cidade e penetrasse na alma da natureza. É uma passagem que pouca gente usa e outros até desconhecem o local. São árvores frondosas – algumas com um tapete de flores – que lhe cobrem como se fosse um manto protetor. Para mim é um dos locais mais prazerosos de Conquista e dá vontade de ficar ali pensando na vida e jogando os problemas para bem longe. Chamo de túnel florestal, mas pode ser túnel da paz espiritual, da tranquilidade, do sonho e até do amor. Sempre passo devagar por essa pequena selva florestal e peço para que ela não se acabe, mas logo entro na agitação da avenida ou do centro da selva de pedra. Melhor talvez seria passar andando para curtir melhor a sua poesia.

O AGRICULTOR E O PESCADOR

Autoria de Jeremias Macário

Um na labuta do campo,

Outro no rio e no mar,

No rigor do calor e do frio,

Nos cortes das fases lunares,

Pra plantar, colher e pescar.

 

Cada qual com suas marés

De altas e baixas.

Aguaceiro molha a terra,

Agricultor vai semear,

E renova no santo sua fé.

Tempestade agita o mar,

Pescador não vai pescar;

Roga a Iansã e Iemanjá,

Para o vento se acalmar.

 

O agricultor mira as nuvens,

O céu, a cigarra e o ar;

Sente quando a chuva vai chegar.

Pescador também pressente,

No escudo do horizonte quente,

Quando o tempo vai fechar.

 

Joga a rede pescador!

Como ensinou a Pedro, seu Senhor!

Ás vezes vem cheia de peixes,

Outras só sai lixo de lá,

Do homem que só faz sujar.

A seca mata de fome o animal,

Plantação mirrada a murchar,

Com esse aquecimento global.

 

Um com sua enxada a olhar o sol,

O outro com seu barco a navegar,

Os dois pedem a Deus uma graça,

Pra na praça da feira sua safra levar

O surubim, o vermelho e a sardinha,

O milho, feijão, arroz e a farinha.





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