ENTRE ÁRVORES E NUVENS
A Praça Tancredo Neves, antiga Praça das Borboletas, uma das mais bonitas do interior baiano, pode ser vista de diversos ângulos, depende da perspectiva de cada um que passa. Entre as árvores e as nuvens, por exemplo, captei a cruz da catedral, símbolo da fé cristã. Uns vão para namorar, outros para aliviar a mente dos problemas e muitos, de tanto passar em frente todos os dias, nem chega a descobrir os detalhes escondidos da sua beleza. Tem o correr das águas, o frescor e o cheiro das plantas e das árvores, o perfume das flores e as aves que convivem com todo burburinho da cidade. Mais linda seria a praça se ali fosse hoje o Centro Histórico de Vitória da Conquista, mas a ganância do homem se encarregou de destruir o patrimônio arquitetônico (um casarão está em ruínas). Todos as vezes que transito por aquele local consigo ver pontos diferentes, como da cruz lá no alto entre árvores, nuvens e palmeiras, representando o símbolo da cristandade que aqui foi fincado pelos primeiros desbravadores portugueses. Quer queira ou não, a Tancredo Neves, antiga Rua Grande, é o marco primeiro da nossa história.
CADA UM SABE DE SI
Autoria de Jeremias Macário
Quando a pedra,
No sapato aperta,
Cada um sabe de si,
Como dizia o Vizir.
A vida é assim:
Cada um sabe de si,
Onde castiga sua dor,
Pode ser por amor,
No sofrer calado sozinho,
Pra não incomodar o vizinho.
Em meu canto,
Curto meu pranto,
No canto do Zé, Chico e Vandré,
Uns com bom pé de meia,
Outros de barriga vazia;
Pinga água fraca na pia,
Até no rico da lua cheia.
Nessa terra de gigante,
De tanto ouro e diamante,
Cada um sabe de si,
Uns gastando solas,
Outros nas enrolas.
Quando o vento sopra forte,
Seja do sul ou do norte,
Cada um sabe de si,
Um sorriso,
Pode não ser de alegria,
Cada choro com sua travessia.
NAS ESTÓRIAS DE NINAR CRIANÇAS SEMPRE SE COMEÇA COM “ERA UMA VEZ”…
Um passarinho de papo amarelo entrou subitamente em meu escritório e quase pousou em meu computador para contar uma estória de ninar, daquela dos pais para fazer a criança dormir, se bem que esse hábito se tornou cada vez mais raro. A agitação da vida e a corrida desumana pelo dinheiro excluíram esse afago entre pais e filhos.
Não se narram mais estórias como antigamente de reis e rainhas, príncipes, de bichos da floresta, de terras estranhas, do nosso folclore e de personagens do bem e do mal. O passarinho balançou a cabeça com o bico, como se dissesse que hoje os pais andam em correrias e quando chegam em suas casas cansados pouco falam com seus filhos ou já estão a dormir.
Nem as babás sabem contar as estórias de ninar que sempre começa com “era uma vez… um país rico habitado por indígenas que foi invadido e saqueado por um bando de depravados vindos do outro lado do mar. Aqui chegaram, estupraram as índias e começaram a levar nossas riquezas.
De lá trouxeram os piores hábitos e, entre eles, os maiores até hoje a perdurar foram a corrupção, a pilantragem política de enganar os outros com promessas falsas, não cumprir com os acordos, tratados, convenções e contratos e o vício de levar vantagem em tudo.
Nesse país criou-se o costume de os mais espertos roubarem, trapacearem, desviarem recursos dos súditos, e o rei faz de conta que nada ver. Embora os pais não sejam mais dedicados como antigamente, aqui tudo começa com “era uma vez…
De estórias para histórias, o passarinho cantou em meu ouvido que “era uma vez” uma linha férrea leste-oeste até Ilhéus, na Bahia, que já dura mais de vinte anos, cortando serras, agrestes, matas e morros, deixando um rastro de desvios de verbas, dos quais ninguém mais fala.
É mais um projeto anunciado com alardes e propagandas, cujas obras estão emperradas e não se sabe quando serão concluídas. No início, as entrevistas são sempre bombásticas com manchetes da imprensa. Os relatórios econômicos anunciam milhares de empregos e prosperidade para uma vasta região. Tudo depois é frustração.
Outra história semelhante de “era uma vez” está na ponte Salvador-Itaparica. Está ainda está nos papéis dependendo de uns acertos com os chineses que não são nada bestas quando se trata de negociar com brasileiros, famosos na arte da malandragem.
“Era uma vez”, meu passarinho, o projeto duplica BR-116 da Via Bahia que só fez um pedaço e agora está na encrenca do duplica sudoeste de passagem por Vitória da Conquista. A empresa é de portugueses que por ironia alegam que o Brasil não cumpre os acordos. O filho aprendeu com o velho pai velhaco.
Fora projetos e realização de obras, existem outras tantas histórias com início de “era uma vez”… quando se referem à nossa lenta e cega justiça que só pune os pobres. Nesse campo dos malfeitos e das roubalheiras, são incontáveis um “era uma vez…
A lista é enorme e são conversas para boi dormir, como “era uma vez” uma chamada Operação Laja Jato onde juízes e promotores do Ministério Público viraram réus e estes se tornaram vítimas com direito a promoções e medalhas de heróis.
“Era uma vez” uma mutreta bem armada dos políticos que deram o nome de “Mensalão”, mas existem tantos outros de horrores e de terrores que até o passarinho que veio me visitar bateu assas e foi respirar um outro ar que também “era uma vez… quando a natureza não estava tão poluída como hoje. “Era uma vez”… um meio ambiente…
OS INTOCÁVEIS NÃO SERÃO ATINGIDOS PELO BLOQUEIO DE QUASE DOIS BILHÕES
O presidente Lula gira o mundo com seu governo populista de 36 ministérios, o Congresso Nacional nada na piscina luxuosa de suas mordomias, os magistrados do judiciário ganham astronômicos salários e o orçamento vai sofrer um bloqueio de quase dois bilhões de reais para conter o buraco do déficit fiscal no chamado teto de gastos.
São tantos os ministérios que agora eles estão entrando em conflitos de funções. As ações interpostas, o que era de se esperar entre agricultura, reforma agrária, da pesca, agricultura familiar, igualdade racial e direitos humanos, sem levar em conta outros, como do meio ambiente, levam os ministros a bater cabeça e cada um brigar pelo seu quinhão.
Quanto ao bloqueio de verbas, não se sabe ainda quais setores serão atingidos, só a certeza de que não serão os intocáveis pertencentes às castas brasileiras que são os três poderes. Esse arcabouço fiscal e a essa reforma tributária não passam de engodo para não tocar na área administrativa, onde Brasília tem o maior nível salarial do Brasil.
Com cerca de 15 bilhões ou mais de reais por ano, temos um Congresso Nacional mais caro do mundo num país de mais de 30 milhões que ainda passam fome e vivem na pobreza extrema, embora estejam sendo despendidos uma cifra em torno de 170 bilhões de reais com o Bolsa Família, sem um projeto alternativo para tirar esse povo da miséria.
Ainda temos 5 bilhões de reais que são destinados ao Fundo Eleitoral ou partidário, dos quais muita grana é desviada para outros fins escusos, sem levar em consideração que muitos partidos políticos (um monte) deixam de prestar contas e não cumprem com as exigências das leis na forma correta da distribuição do dinheiro.
Agora mesmo, eles de direita, de extrema, de centro e de esquerda, inclusive o PT, que sempre pregou honestidade e justiça, estão todos unidos no sentido de que haja anistia para os malfeitos. Aliás, o que mais temos nesse Brasil são anistias da impunidade, como as dos torturadores e matadores da ditadura civil-militar de 1964 que durou quase 30 anos.
É este, meus camaradas, o Brasil burguês elitista que temos onde as montanhas de leis não são iguais para todos. Aqui reina a injustiça, a violação dos direitos humanos e o faz de conta que o aluno aprende e o professor ensina.
A única coisa que o povo tem o direito nesse país é o de votar de dois em dois anos para eleger os mesmos de sempre e seus descendentes. Essa população de maioria semi e analfabeta vai contente às urnas, guiada pela propaganda do Supremo Tribunal Eleitoral de que você está exercendo sua plena cidadania.
Ninguém fala em reduzir o número de parlamentares no Congresso, nas assembleias e nas câmaras de vereadores com mais de cinco mil municípios entupidos de cargos comissionados, com suas verbas indenizatórias, de gabinete e penduricalhos a perder de vista, sem falar nos nepotismos.
OS ARTISTAS “BRIGAM” PELOS EDITAIS E CADÊ OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS?
Será que somente o dinheiro vos une? Não quero aqui criticar e nem julgar os nossos artistas conquistenses que agora vejo a se reunir e a se organizar para apresentar seus projetos e trabalhos com vista à Lei Paulo Gustavo que contemplará Vitória da Conquista com pouco mais de dois milhões e setecentos mil reais.
É mais que louvável a atitude, mas quero aqui chamar a atenção de que a categoria deve sempre estar unida o tempo todo na luta para que Conquista tenha o seu plano municipal cultural e não fique apenas a depender desses editais. Para começar, o município hoje não tem um equipamento cultural aberto e funcionando onde a classe possa fazer suas oficinas e exibir suas produções.
Há anos que estão fechados o Teatro Carlos Jheová, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha, estes dois últimos adquiridos há pouco tempo pelo poder executivo. Onde serão apresentados os projetos da Lei Paulo Gustavo? Ao lado dos editais, temos que nos manifestar e cobrar no sentido de que esses equipamentos sejam reformados e abertos para os artistas e a população.
Insisto num manifesto conjunto de todas as linguagens artísticas, deixando as diferenças e o individualismo de lado. Comentei várias vezes e repito que o Carlos Jheová está fechado desde o período da pandemia e até o momento nada foi definido sobre seu destino ou uma reforma do prédio.
O Cine Madrigal foi comprado com recursos do Tesouro Municipal por pouco mais de um milhão de reais há dez anos e está sob a gestão da Secretaria da Educação, quando deveria ser também compartilhado com a Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel como sala de cinema e um cineteatro. Caso contrário, poderá ficar subutilizado.
A Casa Glauber Rocha, na rua Dois de Julho, foi adquirido recentemente e o tempo está se encarregando de destruir suas instalações, como as duas outras unidades. A proposta ali é transformar o local num espaço multicultural, um cineclube, uma cinemateca, audiovisual ou coisa assim.
Não em termos de talentos, que são muitos e valiosos que chegam a brilhar em outras paragens, mas com referência a espaços culturais, planejamento e atividades, Conquista ainda é uma província cultural, o que é uma vergonha para uma cidade de 350 mil habitantes e a terceira maior da Bahia.
Conquista representa o quinto PIB (Produto Interno Bruto) da Bahia, conta com obras estruturantes, uma das cidades mais bem saneadas do Brasil, um dos melhores aeroportos do interior, além de ter um papel importante nos setores privados da educação e da saúde.
Agora mesmo a prefeita Scheila Lemos está requerendo da Câmara de Vereadores a aprovação de um empréstimo internacional no valor de 160 milhões de reais, para serem aplicados em calçamentos, pavimentações de ruas e outras obras de infraestrutura. Não dá para entender que a cultura fique descoberta com seus equipamentos fechados onde sua memória está simplesmente sendo destruída.
Aqui não existe um museu municipal. O Regional e o Pedagógico Padre Palmeiras são administrados pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – Uesb. As obras do artista Aurino Cajaíba estão se perdendo lá no alto da Serra do Periperi por falta de um museu que abrigue seus trabalhos.
Os artistas têm que buscar, reivindicar e lutar por muito mais, além dos editais do governo federal. Estamos esquecendo do nosso patrimônio material e imaterial, como os ternos de reis, a capoeira, os terreiros de candomblé, a conservação do arquitetônico, a nossa expressão forrozeira, a cultura popular e oral.
NOSSA MEMÓRIA ESTÁ SE PERDENDO POR FALTA DE MAIS MUSEUS EM CONQUISTA
Fora o Museu de Kard, do artista Alan Kardec, que já é um sucesso garantido de conhecimento estadual e nacional, Vitória da Conquista ainda é carente em termos de museus públicos que garantam o resgate da nossa memória, a qual está se perdendo com o tempo.
Para uma cidade de cerca de 350 mil habitantes e a terceira maior da Bahia, Conquista só possui dois museus, o Regional e o Pedagógico ou Padre Palmeiras regidos pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, sem contar que são pouco visitados e divulgados.
Na Semana Nacional do Museu e no dia Internacional dos Museus (18/05) era para ter ocorrido uma vasta programação com seminários, debates e discussões na mídia e outros órgãos sobre a importância dessas casas de cultura como preservação da nossa história.
Estive hoje no Museu Padre Palmeiras (no momento nenhuma visita) e aproveitei para fazer uma reflexão quanto aquele conceito ou preconceito de muitas pessoas que se referem aos outros de museus quando falam ou cuidam das coisas antigas, como simples lembranças de suas famílias. Ainda tem aquele que interpreta o museu como lugar de guardar coisas velhas. “Quem gosta de velho é museu”.
Tudo isso não passa de ignorância e deficiência educacional e cultural, marca registrada do nosso país. Na Europa, a exemplo da França, onde estive há poucos anos, os museus estão sempre lotados de turistas, e olha que não são poucos em Paris. Por outro lado, os tempos mudaram e os museus se modernizaram, nem tanto assim no Brasil.
Museus Cajaíba e da Imprensa
Deixo aqui essa questão de lado e aproveito a oportunidade para afirmar que Conquista ainda é muito carente em termos de museus e muita coisa da nossa memória, infelizmente, está se perdendo. Cito como exemplo as obras do artista Aurino Cajaíba que estão lá no alto da Serra do Periperi sendo desgastadas pelo tempo por falta de preservação e manutenção.
Ainda recente, a professora Janicleide Moreno Gonçalves fez sua dissertação de mestrado sobre seu trabalho e recomendou que o poder executivo, através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel elabore um projeto para criação do Museu Histórico Cajaíba, como lugar pedagógico e de cultura.
De acordo com ela, esse acervo museológico pode ser utilizado para aprendizagem e valorização da memória histórica local entre alunos de escolas públicas dos municípios. Defende que o projeto deverá resultar em forma de abordagem da história de Conquista a partir da recuperação das obras de Cajaíba e da sua produção artística (são esculturas de centenas de personagens locais, estaduais, nacionais e internacionais).
O Conselho Municipal de Cultura apreciou sua proposta e aprovou os termos de um ofício solicitando a criação desse projeto, o qual foi encaminhado à Secretaria de Cultura. O colegiado fez sua parte. Além do Cajaíba, Conquista já deveria ter outros museus de referência, como o da Imprensa, cujo material (jornais, máquinas em geral, objetos e outros utensílios) está se acabando e muita coisa deixou de existir.
“FLUXO E REFLUXO” XX
DO TRÁFICO DE ESCRAVOS AO COMÉRCIO DO AZEITE DE DENDÊ APÓS 1810
Por volta de 1850/51 os ingleses “engrossaram o caldo” com seus potentes cruzadores para impedir de vez o tráfico ilegal de escravos e chegaram a invadir as águas brasileiras. Na África, derrubaram à força os reinos de Lagos e Daomé, no Golfo do Benin. Nessa época estava em ascensão o comércio do azeite de dendê no lugar do tabaco e da cachaça.
Os aprisionamentos de navios negreiros eram levados a julgamento para a colônia de Serra Leoa e lá os libertos não tinham muita opção a não ser irem para as ilhas britânicas (Jamaica, Barbados, Demerara, Trindad) para o trabalho da cana de açúcar como “trabalhadores livres”, com salário reduzido. Pelos tratados, os negros capturados deviam ser fixados nas colônias da nação de origem. Muitos eram empregados na marinha e no exército, sem suas próprias vontades.
De qualquer forma, os ingleses aproveitavam da situação. Essa emigração era confundida pelas potências estrangeiras como tráfico de escravos. Os inglese ofereciam casa e um terreno para cultivar seus vegetais e cada trabalhador recebia meio dólar, meia libra de peixe e uma pequena quantidade de rum. Assim eles reduziam custos se os negros ficassem em Serra Leoa. Além do mais, vendiam fuzis e armas. As outras nações aproveitavam para fazer seus negócios, inclusive de bíblias. O capitão Canot dizia que o tráfico dos negros é a abominação das abominações, mas o ouro não traz o cheiro de onde vem. Os tratados são legais e pagos pontualmente.
Um estudo do Select Commitee apontava que os produtos manufaturados serviam para facilitar o comércio de escravos. Indiretamente, através do Brasil e Cuba, pelas mercadorias da Inglaterra vendidas às pessoas que as utilizavam para trocá-las por escravos. Entretanto, o impedimento do comércio seria um sério prejuízo para o povo da África. Não havia meio de distinguir o que era legal do ilegal. O único meio de lutar contra o tráfico era o bloqueio, segundo as autoridades inglesas.
O homem mais rico da terra, o baiano Francisco Félix de Souza, o Xaxá de Souza, foi o único a resistir na negociação de escravos, ao lado de Joaquim Pereira Marinho, Domingos Martins e José Cerqueira Lima. Ele, o Xaxá, sempre aparece no livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger como maior protagonista da história da escravatura. O navio Brasileiro Relâmpago foi o último a atravessar o Atlântico na prática do tráfico ilegal por volta de 1851.
Mesmo com o abandono dos fortes inglês, francês e português, na cidade de Uidá, o maior porto africano a transportar escravos e outras mercadorias, o Xaxá de Souza continuou lá com seus interesses na Bahia, mesmo com as explosões feitas pelo rei de Daomé, Abandozan.
Apesar do tratado de 1810 com os portugueses que permitia realizar seu “diabólico comércio”, os navios examinados em Porto Novo e Onim (Lagos) eram levados para Serra Leoa e acabavam condenados. Na época havia 45 navios da Bahia fazendo o tráfico entre Palmas e Calabar. Todos partiam para a Costa da Mina e traficavam em Popo, Ajudá (Uidá), Porto Novo, Badagri e Onim.
Mesmo com a proibição, o tráfico continuou florescente no século XIX até por volta de 1851. A Bahia era o porto principal de onde os navios partiam sob as cores brasileiras e estrangeiras para burlar a vigilância inglesa. Colocavam como destino Molembo, mas iam para Lagos. Usavam falsos livros, passaportes e bandeiras diferentes. A bandeira brasileira desapareceu do tráfico pela entrada em vigor, em 13 de março de 1830, do tratado de 1826, mas o comércio permaneceu sob bandeira portuguesa.
Verger relata que em 1835 quatro vasos portugueses e doze espanhóis foram julgados e condenados, quando 4.645 escravos foram libertados. O total desde 1819 é de 37.248 africanos. Após o tratado com a Espanha, em 1835, um grande passo foi dado em direção á abolição. No entanto, no futuro os espanhóis obtiveram documentos portugueses.
Em 1839 houve uma diminuição do tráfico por causa da vigilância dos cruzadores ingleses e pelos incêndios das feitorias em Onim que continham bens de valor. Por volta de 1840, os britânicos começaram também a destruir instalações e depósitos de escravos na costa da África. Os navios presos e condenados eram por vezes recomprados pelos comandantes dos cruzadores ingleses que os transformavam em auxiliares da esquadra ou pelos próprios donos e capitães dos vasos.
O autor da obra também fala das lucrativas negociações com mercadorias encontradas a bordo dos navios negreiros condenados. Eram vendidas em leilão a um preço baixo. Graças a isso, a população negra de Serra Leoa se beneficiava das vendas e os moradores se tornavam mascates e comerciantes ambulantes em países vizinhos. Eles eram bons comerciantes e chegaram a acumular bens. Os akus, por exemplo, eram os judeus da África e fizeram fortunas, retornando para seu país.
O COMÉRCIO DO AZEITE DO DENDÊ
A conversão do tráfico de escravos para o azeite de dendê, do algodão, de peles e outros produtos que vinham se juntar ao comércio estabelecido de ouro, da goma arábica, da pimenta, da cera e do marfim foi, no começo, mais o resultado de iniciativas privadas de alguns comerciantes de Londres e Marselha, do que de uma política deliberada dos governos. Foi criado o Comitê dos Mercadores de Londres.
Do lado francês, armadores de Havre, Bordeaux, Marselha e Nantes enviavam navios para fazerem trocas na costa. Os irmãos Regis Victor e Louis tinham o monopólio e chegaram a fundar feitorias em Uidá, em 1841, o maior centro do tráfico de escravos.
ARTISTAS DOS SEMÁFOROS
Em tempos bicudos de mais de dez milhões de desempregados no país, cada um se vira como pode, que os digam os sem ocupação trabalhista, que vivem na informalidade e sem emprego. Para seu sustento e das suas famílias, eles precisam fazer seus bicos nos semáforos, vendendo balas, livros, CDs, distribuindo folhetos de propaganda e outros produtos quando o sinal fecha. Eles têm que se “virar nos trinta” ou mais alguns segundos para conseguir uns trocados dos mais abnegados. Eles sabem muito bem na cabeça o tempo que têm para dar conta do recado, pois o tempo não para. É aquele negócio de correr contra o tempo, e ele não perdoa para quem fica parado. Cada segundo é tudo e é preciso ter arte para acompanhar o tic-tac, tic-tac do relógio.
Além desses vendedores, estão lá os artistas dos semáforos que merecem destaque e alguns segundos de atenção pelo que fazem, como este rapaz na foto flagrado pela lente da minha máquina no cruzamento entre a Avenida Luis Eduardo Magalhães com a Juracy Magalhães. Seu malabarismo de jogo de facões (três) para o alto é impressionante, e o mais difícil é pegar todos de volta pelos cabos na descida, sem se ferir. Pela sua agilidade e treino, ele conseguiu chamar a atenção de todos que passavam, não somente dos motoristas, motoqueiros e ciclistas, como dos pedestres. É um verdadeiro artista dos facões, coisa que somente se ver em circos. Pela sua plasticidade e habilidade, sua arte é poesia e coragem. Imagino que deve ter passado muito tempo de treinamento para apresentar suas exibições com destreza e maestria. É o Brasil da criatividade para ganhar um dinheiro, se bem que ainda tem gente indiferente que passa sem nem olhar para o trabalho desses verdadeiros artistas dos semáforos. Ele não brinca apenas com bolas no ar. O mais incrível é que não perde uma e nem deixa um facão cair no asfalto.
INGRATA
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando te conheci
Pedra reluzente ametista,
Arco-íris do horizonte,
Me encantou teu olhar cigana:
Foi amor à primeira vista,
Religiosa e profana,
Solene nos beijamos;
Bebi da tua fonte,
Como amantes viajantes.
Te cobri de ouro e prata,
Entreguei minha alma a ti;
Tudo fiz para te ver,
No jornal, na rádio e na TV,
Como deusa rainha,
Mas com o tempo,
Não passastes de ingrata,
Individualista,
Com teu ego narcisista,
Moça nordestina,
Com ar de sulina.
Doei minhas veias,
Para pulsar teu coração;
Ajudei a tecer tuas teias,
E esquecestes, afinal,
De ao menos,
Afagar minha mão,
Impávida Ingrata,
Depois de farta,
Me tratas como anormal.
OS GUARDAS MUNICIPAIS E OS DESVIOS DE CONDUTA
Com o argumento de proteção do patrimônio público, para ganhar simpatia e votos dos eleitores, ansiosos por mais segurança nacional, houve uma onda de candidatos no país que lançaram programas de criação de guardas municipais. Isso foi uma febre e contou com apoio das comunidades que acreditaram nas propostas.
No entanto, o objetivo principal foi invertido, e hoje o que presenciamos é que as guardas municipais tomaram outros rumos e houve um desvio de conduta. Na verdade, essas guardas, todas treinadas e comandadas por oficiais da reserva, passaram a ser uma extensão da polícia militar e acham que podem fazer de tudo, menos proteger o nosso patrimônio.
Ontem mesmo, o Blog do Sena noticiou protestos dos alunos do Colégio Milton Santos, na Patagônia, onde eles se posicionaram contra a atitude truculenta da guarda municipal na porta da escola, na última terça-feira (dia 16/05). Portanto cartazes, os estudantes reclamaram da forma como os guardas têm procedido nas abordagens.
Nesta terça-feira, dois menores de idade foram abordados pelos guardas de forma violenta e colocados no fundo de uma viatura (um tremendo absurdo). De acordo com manifestantes (citação do Blog), esses guardas chegaram a solicitar que os meninos tirassem a roupa (abuso de “autoridade”).
O relato é que a guarnição deixou o local por volta das 18h40min, mas só chegou ao Disep às 21 horas. O que eles fizeram com os menores durante todo esse tempo pela cidade? Será que levaram lá para a “Torre”, na Serra do Periperi, como eles têm feito com andarilhos e moradores de ruas quando fazem alguma arruaça?
Para completar a arbitrariedade, o blog informa que um idoso foi reclamar da violência e terminou sendo agredido com cassetete. Outras pessoas também que foram intervir receberam agressões verbais. Afinal, os que esses guardas pensam que são? Nem que fossem militares poderiam agir assim com tanta brutalidade contra jovens estudantes adolescentes e com nenhum cidadão.
Por que a guarda municipal, criada com intuito falso de proteger o patrimônio público, não é treinada e comandada por um civil preparado? Obrigatoriamente tem que ser por um militar da reserva? A disciplina que recebem é militar. Nosso patrimônio continua sendo depredado como antes.
Esse desvio de conduta das guardas municipais não tem acontecido somente em Vitória da Conquista, mas em muitos outros municípios, inclusive daqui da nossa região, como no ocorrido ano passado em Itapetinga. Esse problema precisa ser revisto e corrigido urgentemente pelos prefeitos e prefeitas.
Em minha modesta opinião, foi mais um projeto político onde nosso dinheiro foi jogado fora, quando deveria ter sido investido em mais escolas, qualificação profissional dos professores e estruturação dos postos de saúde.
Enquanto guardas municipais fazem o papel de polícia, nossa educação e saúde estão caindo aos pedaços. Faltam escolas, transporte escolar decente, materiais de ensino, bem como médicos, enfermeiros e mais profissionais da saúde nos postos. Está tudo errado nesse nosso Brasil gigante.























