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A DOR DA FINITUDE

Depois das eleições e mesmo com os malucos extremistas fazendo “protestos” em frente a quarteis, batalhões, Tiros de Guerra e outras unidades militares, numa acintosa pressão para que as forças armadas saiam às ruas para decretar um golpe contra a democracia, milhões de brasileiros se dirigiram aos cemitérios de velas e flores nas mãos (não armas) para homenagear seus mortos.

Não vou aqui misturar atitudes irracionais e fascistas com o Dia de Finados porque os mortos não falam, mas seus espíritos, onde quer que estejam, devem ter ficado envergonhados e tristes com os vivos que destilam ódio e intolerância. Os que aqui ainda continuam passageiros desse trem chamado terra deveriam refletir sobre a dor da finitude que carregamos do nascer ao dia da despedida final.

Se todos pensassem nessa dor da finitude talvez houvesse mais amor, mais compreensão, mais paz, solidariedade e menos ganância, barbárie e autoritarismo. Talvez não se usasse o nome de Deus em vão, nem pregassem um cristianismo falso e mentiroso e nem manipulassem os mais fracos e vulneráveis.

Fui hoje, ou ontem (dia 02/11) ao cemitério e senti nas pessoas essa dor da finitude através de suas expressões, no silêncio, nas orações, nas conversas bem baixas e arrastadas e até nas lágrimas caídas de alguns mais sentimentais que se foram há pouco tempo.

Pensei num Brasil mais unido, sem esse rancor, respirando mais liberdade e democracia. Pensei num Brasil sem intervenção militar, sem ditadura e, especialmente, sem fome e miséria. Pensei também nessa dor da finitude, título de um poeminha que fiz há uns dois anos e que aqui apresento aos meus parcos leitores:

A DOR DA FINITUDE

Dizem que a morte é matreira;

Líquido eterno da vida finita;

Outro que é o veneno sem sentido,

E que a vereda é via passageira,

Que traz na lida a dor da finitude,

Com seu baú de coragem e medo,

Nos laços do intrincado segredo.

 

A finitude pode até aliviar seu temor;

O sábio manda conhecer a ti mesmo;

Um que nada muda em sua forma;

Outro que tudo vai e se transforma;

Você se depara com o ser, ou não ser,

E o poeta faz sua escala fora dessa bitola;

Não se conforma e se embriaga no amor.

 

Tudo passa, é mutável e se transforma,

Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão,

Nada começa, nada se acaba, nada torna;

A flecha que voa está parada no ar;

É tudo finito, infinito, mistério e confusão;

Uns preferem o delírio etílico da festa;

Se afundar nas ondas que se quebram no mar.

 

 

 

FECHAMENTO DE RUAS E OUTRAS DESOBEDIÊNCIAS A INÚMERAS LEIS

O que mais existem no Brasil são leis, estatutos e decretos nas esferas federal, estadual e municipal, muitos até elogiados em outros países, mas poucos são cumpridos porque o próprio poder público que faz as normas e regramentos não dispõe de estrutura fiscalizadora para coibir e punir as infrações.

Poderia aqui enumerar centenas de leis no sentido de ordenar nossa vida social para que não haja afrontas à liberdade dos outros e violação dos direitos constitucionais. Uma delas se refere à questão do fechamento de ruas por bares, para comemoração de algum evento, principalmente advindas de torcidas de futebol.

No sábado passado fui bebericar umas geladas com meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez no bar Tempero, no Alto Maron, numa rua estreita de duas mãos e bem movimentada. Não sei se havia a permissão da prefeitura, mas o espaço foi fechado à circulação de veículos para colocação de mesas.

Sem falar no som alto (pedimos logo a conta), foi o maior sufoco retirar nossos veículos, inclusive com riscos de acidentes nas manobras de ré. Estou tratando desse problema que é quase comum em Vitória da Conquista, sem a devida fiscalização do executivo.

Outro assunto perturbador que vai de encontro à liberdade dos outros e fere os direitos coletivos é a lei do silêncio a partir de certo horário da noite. Quase sempre não é respeitado, embora exista um departamento numa Secretaria, se não me engano, de Serviços Públicos, para denunciar os abusos.

O fechamento de ruas em Conquista em finais de semana é só um “gancho”, como se diz no jargão jornalístico, mas outra lei que não é seguida e está no Plano Diretor da Cidade, é a que determina que os donos de terrenos limpem e cerquem suas áreas, sob pena de multas.

Essa, meu amigo, não funciona mesmo. São centenas e centenas de terrenos sujos e abandonados espalhados pela cidade que se transformaram em verdadeiros atentados contra a saúde pública. Os locais se transformaram em abrigos de ratos, cobras, escorpiões e fontes de geração dos mosquitos da dengue.

Se formos analisar ao pé da letra, o poder público é o maior culpado por toda essa sujeira porque não faz cumprir a lei. Não é só condenar quem joga lixo nesses terrenos. Na grande maioria das vezes, a própria mídia condena quem põe fogos nesses terrenos, mas esquece de apontar o dedo para a prefeitura.

Não se sabe quem é o pior nesses casos, se o fogo que causa perigo e fumaça aos moradores próximos desses lotes abandonados, ou a sujeira do lixo acumulado que atrai todo tipo de insetos e doenças às pessoas. Quem é mais criminoso? O sujeito que coloca fogo nesse tipo de terreno ou a prefeitura que não faz cumprir a lei?

QUE POVO É ESSE?

Mesmo com todos xingamentos, bravatas, ameaças à democracia, preconceitos, atos de racismo e homofobia, destruição do meio ambiente, fazer do Brasil um pária, desdenhar a vida e debochar dos nordestinos, o capitão Bozó ainda teve uma careta de milhões de votos, perdendo apertado para o Lula, de 77 anos, o mais velho a ser eleito presidente.

Que povo é esse? Ou foi o ódio ao PT de 2018 que veio ainda mais forte em 2022? O despertar dos extremistas nazifascistas e fanáticos que estavam no armário e ganharam voz com seu líder autoritário? Muitos têm seus diagnósticos filosóficos, sociológicos e versões academicistas. Ou é coisa para ser analisada num divã psiquiátrico? Como explicar tudo isso?

Fico aqui a burilar em minha mente que se fosse outro candidato com um partido de centro mais palatável, sem costas largas do passado para bater, a diferença da vitória teria sido bem mais larga. Pelos resultados dessas eleições e da anterior, o país vai continuar dividido, cheio de ódio e intolerância. O outro lado não vai se conformar em apertar as mãos.

Podemos até dizer que nos livramos de um inferno, mas vamos ter de enfrentar momentos difíceis e não sabemos se o Lula irá terminar seu mandato. Será que não se vai repetir o mesmo que ocorreu com Dilma, quando passaram a rasteira nela e assumiu o Temer, mordomo de drácula?

Outra questão é que pela idade já avançada, o Lula não deverá partir para outra eleição. Como sempre arrogante e prepotente, o PT não vai querer largar o osso, ou seja, o poder. Na hora do vamos lá, não existe essa de coligação com objetivo único de se pensar no bem do Brasil. Vamos continuar penando por mais algum tempo até que paguemos nossos pecados, nossos erros e tropeços. Precisamos de purificação.

Pelo estilo louco, raivoso e psicopata do capitão-presidente, não vai haver governo de transição como recomenda o estilo democrático e o “centrão” no Congresso Nacional vai começar a armar seus complôs para que continue o esquema do escambo do toma lá, dá cá. Será que o Lula e o PT vão sentar na mesa e corrigir os erros do passado? Sim, porque houve muitos e precisam ser evitados.

Entendo que, ao lado de matar a fome e dar comida a todos, como insistiu o Lula em toda sua campanha, são mais que necessárias políticas públicas para que esse 33 milhões de famintos não engrossem mais ainda as fileiras das esmolas miseráveis.

As pessoas precisam ganhar autoestima e começar a viver por conta própria através do seu emprego e do seu trabalho. As bolsas, os vales, auxílios e doações viciam, principalmente quando se trata de gente sem instrução que acha que não tem mais saídas para suas vidas.

É preciso fazer diferente, com honestidade, seriedade e, acima de tudo, moralidade com a coisa pública, sem roubos e maracutais, como o PT pregou na sua fundação lá no início dos anos 80. Essa é a única oportunidade para fazer a coisa certa e tirar essa pecha de ladroagem que ainda está impregnada na cabeça de muitos.

Infelizmente, houve desvios de conduta e mudança de rota com alianças burguesas e gente inescrupulosa do pior quilate, sem contar que muitos do partido se deslumbraram e passaram da cachaça para o uísque.

É isso que o povo mais consciente politicamente e os partidos de esquerda que o apoiaram esperam que ocorra. Senão, será outro grande desastre, outra desilusão, outra grande decepção e deixará a porta aberta para volta dos lobos raivosos fascistas. É bom não ficar brincando de se locupletar do poder. Caso contrário o ódio será bem pior, a maldição mais maligna e haverá uma verdadeira convulsão social.

Em seu discurso na Avenida Paulista num caminhão de som, em algumas palavras, Lula não deu aquele tom de conciliação quando em certo momento disse que iria se dirigir à multidão da outra ponta do veículo que estava à esquerda e ao centro, nunca à direita. Isso pode até ser irrelevante, mas não é bom para unir o país. Que nunca mais exista essa de “é nós contra eles”.

O VELHINHO ESTÁ DE VOLTA

Carlos González – jornalista

“Bota o retrato do velho de novo/Bota no mesmo lugar/O sorriso de velhinho faz a gente se animar”. Versos de uma marcha, interpretada por Francisco Alves, cujos autores, Haroldo Lobo e Marino Pinho, homenageavam a volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, em outubro de 1950.

Sucesso do Carnaval do ano seguinte, a marcha acompanhou as manifestações de entusiasmo do brasileiro com o retorno do político de 68, que durante seis anos esteve asilado nos Pampas gaúchos.

Há certa semelhança entre o cenário de 1950 e aquele que se desenhou após a apuração dos votos do 2º turno das eleições para o cargo de presidente da República. Uma parcela do povo brasileiro festejou ontem nas ruas a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, outro velho político de 77 anos, que, na verdade, não tem o mesmo carisma de Vargas, lembrado até hoje por aqueles que conviveram com o getulismo.

O vermelho predominou entre os saltaram e dançaram atrás dos trios elétricos, celebrando o fim do ódio, da intolerância, da violência, da prepotência, do escárnio, da corrupção, dos preços altos dos alimentos, que nesses últimos quatro anos asfixiou a classe média e os que não têm o que comer no dia a dia.

Reconheçamos que entre os que deram um terceiro mandato a Lula havia os antipetistas, que, honestamente, não concordam com a prescrição de crimes cometidos pelo PT no passado. Mas, no interior da cabine de votação, veio à lembrança o alerta do cardeal de Aparecida, Dom Orlando Brantes: “Pátria amada e não Pátria armada”.

Num comentário anterior escrevi que o bolsonarismo não morre com a derrota de seu líder, assim como o fascismo não desapareceu com Benito Mussolini.

“Não daremos um minuto de sossego a Lula”, declarou ontem, à noite, um ativista do ódio, ao lado de produtores rurais e caminhoneiros, que poderão ser criminalmente acusados pelo bloqueio de rodovias em 12 estados, e incitações a um golpe militar.

Senhores golpistas: em 1950 e em 1956, dois marechais (não foram generais, nem um ex-capitão expulso de Exército), Eurico Gaspar Dutra e Henrique Teixeira Lott, garantiram as posses de dois civis, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, cujas eleições pelo voto direto eram contestadas pelos fascistas de ontem.

Senhores inconformados com o resultado das urnas: voltem ao trabalho e aguardem para dentro de 20 dias o início da Copa do Mundo do Qatar, quando voltarão a vestir a amarelinha, cantar o “Prá frente Brasil” e torcer pelo bolsonarista evangélico Neymar Jr, que responde por sonegação fiscal (R$ 188 mi) no Brasil, e corrupção empresarial (dois anos de prisão e multa de 10 milhões de euros, cerca de R$ 10 mi) na Espanha.

Contrariando determinação da FIFA, Neymar promete fazer o 22 a cada gol marcado.  Na Olimpíada de 2016, no Brasil, ele foi punido por exibir na testa uma faixa com a frase “Deus é fiel”.

 

 

 

 

A MARCHA DOS ABOLICIONISTAS E A REAÇÃO DOS AFRICANOS AO CATIVEIRO

Em nossos outros comentários anteriores falamos aqui sobre a intensificação dos movimentos abolicionistas logo após a Guerra do Paraguai, em 1870, mas as primeiras manifestações começaram a surgir nas primeiras décadas do século XIX, influenciadas pela libertação dos escravos africanos no final do século XVIII pela Inglaterra.

Para quem não sabe, a primeira província a decretar a abolição foi o Ceará, em 1884, governado pelo baiano Sátiro de Oliveira Dias, seguido do Amazonas. O primeiro município, ou distrito, foi o de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

É bom que se esclareça que naquela época era reduzido o contingente de escravos por causa das secas e da decadência da cana-de-açúcar e dos engenhos. Havia ainda o tráfico interprovincial do Norte e Nordeste para o Sul, principalmente para o Vale do Paraíba, em São Paulo, e a zona da mata, em Minas Gerais.

No Reino Unido tudo teve início com a Revolução Industrial e o movimento de uma corrente protestante em defesa da abolição da escravatura. Nas primeiras décadas do século XIX, a Inglaterra já pressionava os países escravistas, como Portugal e o Brasil que em 1831assinou uma lei para acabar com o tráfico negreiro africano, mas foi só para “inglês ver”.

Os britânicos ficaram irritados com as trapaças dos fazendeiros e barões brasileiros e resolveram fechar o cerco, inclusive com ameaças de guerra. Sem saída, o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que poria fim de vez ao tráfico, se bem que muitos ainda se aventuravam a fazer o comércio clandestino.

Os gritos de abolição vieram mesmo após 1870 culminando com a Lei do Ventre Livre, em 1871, e dos sexagenários, no 28 de setembro de 1885. Nessa época, já era bem menor o número de escravos não alforriados. Todos esses relatos podem ser lidos na trilogia “Escravidão”, do escritor Laurentino Gomes que destaca os quatro principais abolicionistas.

Todos eles, em sua ótica, passaram por momentos de conversão à causa abolicionista, com rituais de sofrimento e dor, como o baiano advogado rábula Luiz Gama, o pernambucano, também advogado graduado Joaquim Nabuco, o farmacêutico carioca José do Patrocínio e o baiano engenheiro André Rebouças. Em comum, todos foram jornalistas.

O baiano Luiz Gama se diferencia dos outros por causa de suas origens sociais, por ter sido vendido escravo pelo próprio pai e o único a amargar o cativeiro por oito anos. Depois fugiu, estudou e se tornou advogado defensor dos escravos, tendo libertado cerca de quinhentos das mãos dos senhores fazendeiros, em São Paulo. Afirma Laurentino que Gama foi o primeiro a perceber o quanto a pele negra funcionava como um estigma, “um defeito de cor”, nas palavras do próprio abolicionista.

Joaquim Nabuco era o mais moderado e comportado, frequentador dos salões imperiais e não concordava com ações radicais. Entendia que a abolição era coisa para os políticos e que os negros não deveriam ser meter nisso. Nasceu em Recife, em 1849, filho de um dos mais importantes políticos do império, o senador José Thomaz Nabuco de Araújo. Foi amamentado por uma mulher negra e viveu boa parte com sua madrinha em Pernambuco, no decadente engenho Massangana.

A realidade do chicote e dos grilhões, de acordo com Laurentino, entraria em sua vida devido a um episódio. Certo dia o menino Nabuco foi surpreendido com a chegada de um jovem fugitivo que se ajoelhou em seus pés e suplicou que fosse comprado pela sua madrinha, pois vivia a ser castigado pelo seu senhor. A partir dali passou a defender os oprimidos.

Com a morte da madrinha, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro onde estudou no Colégio D. Pedro II e teve como colega Rodrigues Alves, futuro presidente da República. Em São Paulo foi estudante de direito da Faculdade do Largo São Francisco, com Castro Alves, Rui Barbosa e Afonso Pena, este também futuro presidente do Brasil.

Viajou por vários países como Estados Unidos e da Europa (morou em Londres) onde manteve contatos com os movimentos abolicionistas. Na juventude foi um dândi – estilo de vida celebrizado por intelectuais, como Oscar Wilde e Marcel Proust. Foi correspondente de um jornal carioca em Londres.

Além de abolicionista, Nabuco foi um grande reformador que introduziu mudanças no Império visando a reconstrução do país. Ele propôs a reorganização econômica e financeira, a instrução pública, a igualdade religiosa, a representação política e até a reforma agrária. “A grande questão da democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão – dizia Nabuco.

Para ele, os escravos deveriam ser incorporados à sociedade como cidadãos de direito. Em sua visão, o regime escravo criou um ideal de pátria grosseira, mercenário, egoísta e retrógrado, e nesse molde fundiu durante séculos as três raças heterogêneas. “A escravidão não consentiu que nos organizássemos e sem povo as instituições não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerce”.

Predominava nele o tom caridoso, de compaixão do branco pelo negro. Com a abolição, os brancos também ganhariam. Para Nabuco, o sistema escravista punha em risco a própria nacionalidade, desprestigiando o Brasil perante a comunidade das nações, gerando um permanente clima de instabilidade política. Foi o primeiro embaixador brasileiro na Embaixada dos Estados Unidos, em 1905, e faleceu em Washington, em 1910.

Diferente de Nabuco, um branco conhecido como “Quincas, o belo”, José do Patrocínio não era negro retinto, mas um sarará. Dizia que tinha a cor do “tijolo queimado”. Era negro o suficiente para ser alvo de ataques e injúrias raciais nas ruas, nos comícios e em artigos na imprensa. Era um vulcão de paixões. Dado a ataques violentos de cólera que lhe valeram inúmeros inimigos.  Olavo Bilac o comparou a um profeta dentro de uma tempestade de raios.

Em 1878 foi preso por andar nas ruas portando uma navalha, pronto para a briga”. Boêmio e espalhafatoso, gostava de passar a noite cercado de artistas e negros capoeiristas. Nasceu em 1853 em São Salvador dos Campos dos Goitacazes – Rio de Janeiro. Era filho do vigário João Carlos Monteiro com uma escrava adolescente Justina Maria do Espírito Santo.

Fazendeiro, seu pai era dono de fazendas e de um grande plantel de escravos, vereador e deputado provincial. Mesmo não sendo reconhecido como filho do padre, os moradores tinham respeito por ele. Era um garoto arrogante e mimado que mandava e desmandava na cidade.

Sua conversão se deu após agredir na cabeça com um chicote um senhor escravo idoso por este ter demorado de abrir uma cancela, conforme testemunhou seu amigo Luis Carlos de Lacerda (abolicionista). Sabendo do acontecido, seu pai o repreendeu de forma severa. Aos quatorze anos foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou com servente aprendiz na Santa Casa da Misericórdia. Depois conseguiu concluir o curso de farmácia. Virou professor e jornalista.

Com ajuda do sogro, comprou seu próprio jornal o Cidade do Rio, por cuja redação passaram Olavo Bilac e André Rebouças. Ele foi um jornalista agressivo e polêmico. Em 1875 já trabalhava na Gazeta de Notícias. Em 1880, com André Rebouças e Nabuco fundaram a Sociedade Brasileira contra a Escravidão.  O objetivo principal de Patrocínio era alcançar a abolição do cativeiro no ano 1889, para comemorar o centenário da Revolução Francesa.

Tanto quanto o Nabuco, era um monarquista e admirador da princesa Isabel. Foi ovacionado quando foi decretada a Lei Áurea. Como vereador pelo Rio de Janeiro, concedeu a ela o título de A Redentora. Foi também criador da Guarda Negra para proteger o Terceiro Reinado.  No governo de Floriano Peixoto foi preso e deportado para um local distante no Amazonas. Morreu em 1905, aos 51 anos, pobre e vivendo de favores.

Baiano de Cachoeira, nascido em 1838, André Rebouças só foi se dar conta que era um negro tempos depois numa viagem aos Estados Unidos quando foi discriminado. Barrado num hotel, conseguiu um quarto apertado sob as condições de fazer as refeições no apartamento. Tomava banho numa barbearia ao lado do hotel.  Antes disso, porém, viajou por vários países europeus sem ser importunado.

Rebouças era filho do jurista e conselheiro do Império Antônio Pereira Rebouças. Formou-se aos 22 anos em Engenharia Militar na Escola de Aplicação da Praia Vermelha. Ele e seu irmão completaram os estudos na Europa onde Rebouças foi apresentado nas altas rodas. Esteve em Viena e Paris. Depois atravessou o Atlântico e aportou em Nova York onde descobriu que, por ser negro, não teria onde ficar e comer.

Nos Estados Unidos vagou por vários hotéis e apenas conseguiu uma pousada no Washington Hotel com a ajuda da Embaixada Brasileira. Mesmo na Filadélfia, na Pensilvânia, foi discriminado. Um dia foi dormir com fome por ter sido vetado nos restaurantes.  Como disse a historiadora Ângela Alonso, pela primeira vez, Rebouças deu-se conta de que era também rebento do tráfico africano.

Laurentino enfatiza que da traumática experiência norte-americana nasceria o abolicionista que de forma mais organizada pensaria na realidade e no legado da escravidão brasileira. “Precisamos educar esta nação para o trabalho, estamos cansados de discursos” – diria numa carta dirigida ao professor baiano Abílio Borges. Em 1879 tentou a carreira política pelo Paraná, mas perdeu.

Rebouças começou a escrever na Gazeta da Tarde, jornal de Patrocínio, seu compadre. Em 1880 foi um dos fundadores da Associação Central Emancipadora. Em 1883 redigiu com Patrocínio o manifesto da Confederação Abolicionista. Em sua luta pela abolição se coligou ao general Henrique Beaurepaire Rohan que participou das guerras pela independência da Bahia e do Piauí.

Dentre todos os projetos abolicionistas, o de Rebouças e do general foi dos mais radicais, conforme observou Laurentino. Rebouças sustentava que a libertação dos escravos por si só, não seria suficiente. Para ele seria necessária uma reforma agrária para acabar com o latifúndio. O ex-escravo deveria se tornar em pequeno produtor. Como se sabe, seu projeto foi rejeitado. Entrou em processo de depressão.

Em 15 de novembro de 1889 tentou convencer D. Pedro II a resistir ao golpe republicano. Na sua ideia, o imperador deveria permanecer em Petrópolis e de lá seguir para Minas Gerais e tramar uma resistência. Como não deu certo, Rebouças decidiu seguir os passos do imperador e se exilou na Europa. Em 1891 escreveu uma carta ao seu amigo José Carlos Rodrigues, dono do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, na qual referia a si mesmo como Negro André.

No ano seguinte foi para África do Sul. “Sou, em corpo e alma, meio brasileiro e meio africano, não podendo voltar ao Brasil, parece-me melhor viver e morrer na África”. Em 1898 seu corpo apareceu boiando no mar, ao pé de uma rocha em frente à casa em que vivia na cidade de Funchal, na Madeira, seu último refúgio.

 

 

VAMOS FALAR A LÍNGUA DO POVO

A esquerda brasileira precisa deixar de ser metida a besta intelectual, tirada a acadêmica analítica e falar mais a língua do nosso povo para que todos entendam o recado. Em uma reunião de partido, o que mais se vê é gente querendo falar difícil, com citações de filósofos, sociólogos e pensadores estrangeiros de todas as partes e tendências.

Não se trata de questão de baixar o nível, mas de dar um mergulho na realidade dos fatos, na vida como ela é, e fazer um discurso que seja compreensível para todos, como se é feita na técnica jornalística impressa que visa atingir do doutor ao menos instruído. Nos últimos anos as bases foram esquecidas.

Quando se vai a um encontro partidário de esquerda, a impressão que se tem é que estamos ouvindo uma dissertação de mestrado ou doutorado, numa dialética dirigida somente para um grupo restrito de cultos. O resultado é que se passa o tempo fazendo rodeios científicos, circulando e não se chega a lugar algum em termos de ação.

Sempre digo que essa esquerda precisa ser mais objetiva e não ficar fazendo elucubrações abstratas, falando de metafísica quântica ou coisa parecida. Afinal de contas, estamos num pais de semianalfabetos, de uma educação de baixa qualidade e de maioria inculta.

Talvez essa seja uma razão de vermos poucas pessoas do povo, das periferias, operários e iletrados filiados e participando dos partidos de esquerda. Muitos ali presentes se sentem alijados e até com medo de abrir a boca diante daquele falatório rebuscado e barroco.

Parece que cada um vai ali para exibir suas intelectualidades de conhecimento e sabedoria sobre o processo político, cheio de diagnósticos e historicidade. É um tal de falar difícil pra lá e pra cá como se estivessem num sinédrio de cientistas políticos a interpretar o Antigo Testamento.

Essa esquerda necessita ser mais direta e agir bem mais do que falar. É por isso que muitos candidatos bons, com boas intenções, honestos e preparados para o cargo eletivo não conseguem se eleger porque passa uma campanha toda falando línguas estranhas ao povo. Um partido não é para ficar fechado a um grupo. Acima de tudo, é para agregar e somar mais gente.

Se na oralidade a esquerda não tem alcançado a mente do brasileiro menos esclarecido, agora imagina nos textos escritos na mídia em geral! Tem vezes que começo a ler e não consigo chegar ao meio por ser enfadonho, longo e pedante. Os termos mais apropriados são pedantismo, exibicionismo e prepotência.

Essa esquerda solta um intrincado de termos recheados de citações e interpretações incompreensíveis. Muitos se enrolam no próprio pensamento. Entendo que falta mais senso crítico de que estamos falando e escrevendo para uma massa excluída e ansiosa por uma mensagem que leve esperança e seja compreendida. Ela busca pelos seus direitos essenciais.

EM BENEFÍCIO DA APAE

Foi na noite iluminada desta quinta-feira (dia 26/10) que Eugênio Avelino, mais conhecido como Xangai, sempre inspirado em suas cantorias, de palavras afiadas como as espadas do Samurai, nos brindou com seu show de convidados no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Dessa vez, o mais importante é que foi em benefício da Apae de Vitória da Conquista onde fui diretor e conheci de perto as dificuldades que sempre atravessa essa instituição, a qual acolhe crianças e jovens com necessidades especiais. Um bom ato de solidariedade do músico, cantor, compositor e poeta Xangai.

A arte é respiro da vida e o artista precisa repartir o dom que ganhou para também fazer o bem, senão não terá sentido sua existência. O gesto é um grande exemplo, e suas canções de menestrel nordestino encheram as almas de quem lá esteve parta escutá-lo. Todos ganharam.

A apresentação por si só já diz tudo e se for ficar aqui descrevendo e falando pode acabar tirando seu brilho, sua poesia e borrar a imagem. A Apae que, infelizmente, às vezes é usada por oportunistas para interesses próprios, como a venda irregular do seu terreno, na Avenida Juracy Magalhães (triste episódio), deve ter ficada muita grata pela ação e que venham outros artistas para fazerem o mesmo.

DE ENCHER A ALMA…

Um canteiro de flores, principalmente de belas hortênsias nessa cidade de pedra, carregada de boas e ruins energias no ar, nos faz encher a alma de mais vigor e esperança nesse planeta tão destruído pela mão do homem. A mesma mão que faz as guerras, é a mesma que rega as flores, as quais inspiram os poetas para desvendar os mistérios da vida que muitos acham sem sentido. A própria flor já é uma poesia que contrasta com o prédio de concreto onde as pessoas vivem fechadas em seu eu individual. Esse canteiro de hortênsias na imagem clicada reflete também na lente das almas que entram e saiam, mesmo as mais angustiadas e secas de espírito. O mundo precisa de amor e flores para encher nossas almas de fé e esperança.

Do outro lado da rua, na Siqueira Campos, o burburinho das manifestações políticas. Outros pensamentos, outras ideias onde os jovens começam a desperta para a realidade de que política faz parte de nossas vidas, não a demagoga, a mentirosa, a corrupta ou aquela que só visa os interesses próprios de quem se elege. Costumam dizer que os jovens são a esperança do futuro do Brasil. Pode até ser um chavão ultrapassado, mas não é. Se não for, quem mais será? Só que é preciso ter consciência política do servir e não querer ser servido e só aproveitar dos mais fracos para se dar bem. É tempo de cobrar. É tempo de reivindicar e ir para as ruas denunciar e protestar.  Sejamos hortênsias e também espinhos quando for necessário!

SE VOCÊ…

Autoria de Jeremias Macário

Se você não tem o paraíso,

Ao menos tenha juízo,

Melhor sair do inferno,

Do que ser escravo eterno.

 

Se você virou fera,

Nessa era capitalista,

Melhor se livrar dessa lista.

 

Se você não tem o mel,

Melhor o cheiro da abelha,

Que viver na ilusão do céu.

 

Melhor morrer com bravura,

Que divagar nessa loucura,

Com o berro preso de ferro.

 

Se você não é salafrário,

Melhor ser um digno operário,

Na marcha lutar e protestar.

 

Se você não é filósofo pensador,

Melhor regar sua flor.

 

Se você não é amado,

Melhor amar a si mesmo,

Sem ser manada e gado.

 

Se você é discriminado,

Nunca negue seus conceitos,

Defenda seus direitos.

 

A palavra de Deus,

É você quem faz, meu rapaz.

 

Melhor não ser religioso,

Que ser fanático criminoso;

Nunca aceite lavagem cerebral,

Siga sua mente livre racional.

 

ELEIÇÕES SUJAS

Carlos González – jornalista

Dentro de poucos dias o Brasil assistirá a mais suja das eleições nesses 123 anos de República. A produção de toneladas de detritos perigosos está concentrada no Palácio do Planalto, distribuídas por todo o país, em forma de mentiras, através das redes sociais, nos pronunciamentos do candidato Jair Bolsonaro e até mesmo na propaganda eleitoral grátis no rádio e na TV.

O número dos condenáveis “fake news”, como calculou meu colega e amigo o jornalista Jeremias Macário, daria para preencher mil páginas de um livro. Além da enxurrada de mentiras, que o TSE não consegue coibir, o aterro sanitário do Planalto e os seguidores fanáticos do militar expulso do Exército, há todos os tipos de material virulento, impingidos às pessoas sem consciência política.

A pressão ao trabalhador, principalmente na zona rural – no oeste baiano há dezenas de denúncias – não é uma prática, na verdade, dos dias atuais. No tempo dos “coronéis”, o “voto de cabresto” era exercitado livremente – o jagunço levava o homem do arado e da enxada até a cabine “indevassável”. Contou-me uma funcionária aposentada do TRE-BA que as urnas chegavam do interior com os votos “enxertados”, ou seja, fraudados .

O município de Casa Nova, no Médio São Francisco, a 572 kms de Salvador, é um típico exemplo do coronelismo praticado no Nordeste até a ditadura militar (1964-1985). Nas eleições, o candidato do chefe político local recebia 100 por cento dos votos. Certo dia, achou-se um voto contra. Foi decretada caça ao “traidor”.

“Demitam, sem dó nem piedade, quem votar em Lula”. A sentença foi transmitida por uma produtora rural da região de Barreiras, dirigida aos empregadores do agronegócio, que estão orientando seus trabalhadores a esconder o celular no sutiã, calcinha ou cueca, contando, evidentemente, com a ausência de fiscalização de alguns mesários, que no 1º turno não cumpriram o Manual distribuído pelos TREs. Esse crime eleitoral pode também ser coibido pelos partidos que apoiam o candidato de oposição, designando um fiscal para cada seção.

Estão enganados os que pensam que o bolsonarismo acabará com a derrota no domingo do pior presidente que o Brasil conheceu. Assim como os partidários do nazismo, do fascismo, do franquismo e do comunismo modelo soviético, estão espalhados pelo mundo, o bolsonarista, apoiado pelos fanáticos evangélicos, vão continuar exibindo seus arsenais, como fez o ex-deputado Roberto Jefferson. Alguns deles vão se juntar a partir de fevereiro aos membros do Centrão nas casas legislativas.

O bolsonarista sempre existiu, mas se mantinha no anonimato com receio de mostrar as garras. Faltava-lhe um líder, que saiu do baixo clero do Congresso, onde ficou por 27 anos ganhando sem trabalhar. Como estamos num regime democrático, naturalmente, há uma grande parcela do eleitorado que se declara antipetista e que gostaria que não houvesse polarização nessas eleições.

Homofóbico, racista, misógino, violento, odiento. Este é o perfil do bolsonarista, que vem há quatro anos se alimentando dos ideais do seu “mito” com relação ao Nordeste, à destruição das florestas, ao combate às doenças, ao corte nas verbas da educação e saúde, à compra de votos através do orçamento secreto, às agressões físicas aos jornalistas; à destruição de símbolos católicos e umbandistas, à exaltação à ditadura e aos seus torturadores.

Bolsonaro e seus seguidores têm se notabilizado em atacar chefes de governo. A última investida foi contra o papa Francisco, que se referiu à fome no mundo como “um escândalo e um crime contra os direitos humanos”. Os neonazistas brasileiros reagiram, chamando o chefe de Estado do Vaticano de “comunista” (chavão ultrapassado).

Em resposta, a CNBB emitiu nota de repúdio e altos prelados da Igreja inseriram em suas homilias frases como “Pátria amada e não Pátria armada”; “Maria venceu o dragão, mas há outros para serem vencidos”; “um agente de Satanás desrespeitou a casa da Mãe de Jesus fazendo pregação política”. Bolsonaro esteve em Aparecida no Dia da Padroeira.

 

 





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