ESSA GENTE!
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Essa gente berra,
Se desespera,
Se angustia,
Um numa boa,
Outra se ferra,
Não dá mais liga,
Na roda do vai e fica.
Essa gente não cordial,
Quer mais folia;
Procura abrigo,
Na rede social,
Do falso amigo,
E a tragédia,
triste comédia,
Do desabrigo.
Tem gente que luta,
Outro se emberna,
Em sua caverna,
Na multidão que passa,
Apressada, cortando
A avenida e a praça,
E pouco se escuta,
O gemido da fome e do frio;
Prefere cair atrás do trio,
De um povo no cio.
Essa gente sofre,
Do Nordeste ao Norte,
Na busca da sorte.
Um nasce e outro morre,
Mas quem importa,
Se só se pensa
Em arrombar outra porta!
Essa gente se revolta,
Uns pro mal,
Outros pelo bem,
No vai e vem,
Do circo e da festa,
Que pouco interessa.
Essa gente,
Que quer ser gente,
É dominada pelo agente,
Que impede,
De ser gente,
De livre mente,
De todo dia,
Na tristeza e na alegria.
Essa gente aflita,
Que nem mais grita,
Maldita e bendita,
Na luz e na escuridão,
Vivendo na escravidão.
NÃO DÁ PARA ENGANAR A NATUREZA
Você engana as pessoas, os amigos, parentes e até a si mesmo, mas existem coisas que não se enganam nunca, como exemplo a natureza, além do tempo e da morte. Poucos param para refletir sobre isso. As imagens mostram as sujeiras do Rio Pardo, na cidade de Canavieiras, que desemboca no mar. Todo mal é provocado pela ação do homem que, de tão burro e idiota, acha que ela (a natureza) não reage para dar o troco. Por causa da ação perversa do ser humano, rios desaparecem e morros deslizam em cidades, como agora no litoral paulista, matando dezenas e centenas de pessoas. As mudanças climáticas são bruscas no planeta como sinais do aquecimento global. Num lugar é seca, como no Rio Grande do Sul, e em outros são tempestades de ventos e chuvas que saem arrastando tudo pela frente, como casas, prédios, pontes, ruas e estradas. As habitações são feitas em locais impróprios e irregulares e o poder público é o maior culpado, embora nunca é punido pela justiça. Mesmo assim, o homem continua emporcalhando nosso meio ambiente, como exemplo do Rio Pardo, que nasce em Minas Gerais e despeja suas águas contaminadas no mar de Canavieiras. O castigo está chegando em todas as partes e, nesse ritmo acelerado, mais anos e nossa terra será destruída pelo próprio homem. São terremotos, tufões, vendavais, ciclones e outros fenômenos numa só cadeia acabando com o nosso planeta.
O IDOSO INÚTIL E LESADO DA CUCA
Muito se fala sobre a discriminação contra o negro, a violência contra a mulher, a intolerância religiosa e de gênero, mas pouco se comenta sobre o idoso que a nossa sociedade virtual descartável trata como se fosse um inútil, imprestável e lesado da cuca.
Para muitos, todo idoso deveria ser jogado num abrigo como tralha velha num depósito de lixo. É gente que não é mais gente. Os jovens não mais o respeitam porque os pais perderam a cultura dos seus antepassados e os criam sem ensinar que o tempo passa e todo ser humano se envelhece.
Dizem que existe um estatuto para protegê-lo, mas foi esquecido num baú de coisas antigas. Você já viu num noticiário algum idoso indo a uma delegacia para prestar uma queixa de discriminação ou maus tratos dos filhos, parentes ou até mesmo de um desconhecido nas ruas?
Certo dia estava no centro da cidade e dei sinal antecipado para entrar na vaga de idoso. O cretino dito jovem com titica de galinha na cabeça me atravessou e entrou na vaga como se fosse a coisa mais normal. Fechou o carro com a maior rapidez e entrou numa clínica.
Confesso que dá vontade de ir lá, engargelar o elemento pelo pescoço e fazer ele tirar o veículo na marra. Não existe fiscal para ver essas agressões. Infelizmente, vivemos numa terra de ninguém, como no antigo faroeste norte-americano. É tudo uma questão de formação familiar, nem tanto de educação escolar.
Na concepção dos jovens, atendentes de lojas, escritórios e repartições, todo idoso é um senil e caduco, quando nos tempos atuais a maioria tem mais memória e história que eles. Não têm o mínimo de consciência social, quanto mais de direitos humanos.
Você já experimentou ir resolver uma questão burocrática, tirar um documento ou fazer uma reclamação com um acompanhante, filho ou mulher mais novos na idade? Você senta e não tem direito a falar por si, porque a atendente ou o atendente só olha e faz perguntas para a pessoa ao seu lado. Tudo não passa de um ato de desprezo.
Simplesmente, o idoso é ignorado, um invisível. Isso é total discriminação. O gerente ou chefe da loja, do estabelecimento público ou privado não treina o funcionário como tratar o idoso, com respeito e sem discriminação.
Esse tipo de coisa já ocorreu comigo quando, por acaso minha mulher mais jovem estava comigo. Fiquei pasmo porque a jovem atendente só dirigia a palavra para ela, como se eu fosse mudo e surdo. Ela nem experimentou a minha lucidez e pouco me deu atenção.
O homem considerado idoso casado com uma mulher mais moderna na idade, ou vice-versa, paga um alto preço na sociedade porque é discriminado onde chega. Muitos olham com a cara de reprovação, e tem gente que se atreve a flertar com sua mulher, inclusive pessoas que dizem ser seu amigo-irmão.
Essa gente imbecil, preconceituosa e idiota acha que não pode existir amor entre duas pessoas com diferenças de idades. Tudo é visto como interesse pecuniário onde um tem mais dinheiro que o outro. Não conta o conteúdo, se um tem mais ou igual conhecimento. Não contam os sentimentos!
Um intelectual pobre idoso com uma mulher mais jovem que ele, mesmo sendo mais abonada ou não, é até mais aceitável que um burro rico casado com uma pobretona. Aos olhos da sociedade ela está ali dando um golpe na certa. É vista como uma aproveitadora. A discriminação e o julgamento cretino são bem maiores, porque tudo gira em torno do dinheiro.
Depois que o bebê nasce, ele passa a ser um “idoso” para quem ainda está na barriga. Um de 20 anos já é um idoso para o de oito ou dez, tanto que existe o velho hábito de ser chamado de tio ou tia, outra forma de discriminação disfarçada.
O preconceito contra o idoso é também estrutural e cultural, mas ninguém analisa assim, e o tratamento de menosprezo, de desrespeito e de deboche se tornaram coisas comuns e normais nessa sociedade hipócrita e falsa.
OS JOVENS E AS “LETRAS” DO CARNAVAL
No final da tarde de ontem (dia 21/02), estava eu sentado na varanda do quintal da minha casa lendo o livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo francês-baiano Pierre Verger e alguém toca a campainha. Interrompi minha leitura, como se não existisse essa folia maluca do carnaval, e fui atendê-lo.
Me certifiquei ser um jovem de uns 25 a 30 anos da vizinhança que me pedia umas canas que tenho em minha área e, prontamente, convidei-o para entrar. Ficou perguntando algumas coisas sobre as esculturas de cipó que fiz nas minhas horas vagas. O Espaço Cultural A Estrada lhe chamou a atenção e logo indagou se se tratava de uma instituição de ensino.
Fui respondendo as coisas, mas senti sua falta de conhecimento e cultura quando insinuou ali ser também um terreiro de candomblé. Para não estender a conversa, chamei-o para entrar em nosso acervo cultural onde realizamos nossos saraus. Fui mostrando os livros, as fotos, chapéus, artesanatos e demais itens da nossa sagrada biblioteca.
Percebi que não se encantou com o que viu diante das perguntas meio que ingênuas que fazia. Me esforcei para detalhar o que significava aquele espaço como recinto cultural. Olhava os livros meio que assustado e num repente me interrogou se eu era de esquerda.
Confesso que fiquei surpreso e atordoado com aquela indagação tão inusitada fora de tempo, se ele nem conhecia minhas ideias. Será que já nasci com cara de esquerda e comunista porque ele ainda quis saber qual minha religião? O que o cara entende por ideologia de direita, centro e esquerda?
Sabe daquilo sobre certas perguntas de criança que você fica meio que engasgado para responder? Tentei resumi um pouco sobre essa questão de ideologia, mas vi que não entendeu nada. Passei a outro ponto e mostrei os livros de minha autoria. Como o senhor faz isso? É o senhor mesmo?
Novamente pulei o assunto e citei alguns nomes famosos da nossa música brasileira, do cinema e da literatura, inclusive da nossa terra, mas o moço jovem afirmou desconhecê-los e ignorá-los completamente.
Isso não me causou tanto espanto. Com certeza saberia descrever detalhadamente se falasse em “Safadão”, Leo Santana, Bel Marques, Claudia Leite, Ivete Sangalo, Marília Mendonça e esses “sertanejos” da vida do mundo comercial das “músicas e letras” de lixos rebolados.
Matutei comigo mesmo, com poucas exceções, sobre o baixo nível educacional e cultural dos nossos jovens desse nosso Brasil varonil. O jovem saiu sem nada entender do que viu. Por mais simples que fui nas palavras, para ele eu estava ali falando uma língua estrangeira.
AS “LETRAS” HORROROSAS DO CARNAVAL
Meu sentimento de perda desses jovens na área do conhecimento e da cultura baixou mais ainda meu sistema imunológico espiritual quando recebi um vídeo desse aparelho que deixou as pessoas ainda mais fúteis. Não consegui mais me concentrar em minha leitura. Hora dos meus exercícios físicos.
“E as Músicas desse Carnaval? Tem gente que senta pra beber. Aqui nós bebe pra sentar” – apontava na tela o título do vídeo. Na voz de revolta de uma mulher, não identificável, ela indaga que festival de merda é esse que assaltou nossos tímpanos em pleno período carnavalesco? Aliás por muito tempo somos assaltados por músicas ruins, mas agora a privada transbordou.
Comecemos pelo atual pornopagode – alterava a voz com um tom de ira, e foi citando trechos horrorosos das “letras”. “Deixa eu botar meu boneco”. “Bote na panela e está aí o sucesso da desgraça. Viva a pátria educadora Brasil! No meio de tanto bagulho, não espante que a chiclete zona de perigo venha a ser o sucesso do carnaval! Tudo revela a total falta de vocabulário. Morais Moreira, o homenageado, deve estar se revirando no túmulo. Essa plateia imbecilizada reflete os piores anos de títulos de pior educação que amargamos no país”- desabafa a dona do vídeo.
“Vem mete com força no boquete”. “Ela fica de quatro”. “Bota nela, mete seu Cachorro”. “Deixa eu botar meu boneco”. “Coloca nela”. “E você suporta essa métrica de merda. “Cerveja me fode”. Músicas vagabundas – disse.
E por aí vai esse monte de baboseiras das quais chamam isso de música, inclusive na boca dessa mídia comercial que só mostra os trios e os rebolados. Para essa mídia, tudo é maravilha na festa orgástica do deus baco. Não me venham com essa de moralismo!
Se você falar em proibição, vão logo dizer que isso é ditadura e censura. Isso não é liberdade de expressão, tanto quanto pregar o nazismo, o racismo, a homofobia e uma intervenção militar no país. Podemos definir todo esse caldeirão fedorento como degradação total da nossa cultura, da nossas músicas e letras.
.
A MÁFIA DA GASOLINA
O arquiteto Leandro Fonseca em vídeo do dia 18/02 (domingo) faz um desabafo sobre os altos preços da gasolina na cidade de Vitória da Conquista, especialmente no centro, enquanto em Lagoa das Flores, por exemplo, tem um custo menor.
Em sua postagem ele pergunta o que está acontecendo? É, meu amigo Leandro, não é somente você que faz essa indagação. São todos os conquistenses. A resposta mais assertiva, creio eu, é que existe uma máfia da gasolina em Conquista. O nome disso é cartel que as autoridades não conseguem quebrar.
De uns tempos para cá, cada esquina da cidade tem um posto de gasolina. Tudo indica ser o empreendimento mais lucrativo do momento. Na Avenida Juracy Magalhães, por exemplo, aconteceu um boom desse tipo de negócio e os preços são praticamente os mesmos. O consumidor não tem muita escolha. Não adianta ficar rodando à procura de um preço menor.
Leandro destaca que no centro o preço gira na faixa de 5.95 o litro, enquanto no Bairro de Lagoa das Flores houve uma queda para 4.92, uma grande diferença. Há anos que a população quer uma resposta do motivo da gasolina de Conquista ser uma das mais caras da Bahia quando o produto vem de Jequié, cerca de 150 quilômetros de distância.
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista fez uma comissão de inquérito para apurar o motivo desse alto preço e de ser praticamente tabelado. O resultado disso todos sabem que não deu em nada. Cadê o Ministério Público, a Defensoria Pública e a fiscalização que não investigam seriamente essa anomalia?
Ora, aprendemos na escola o básico na disciplina de economia que quanto maior a concorrência, no caso mais postos espalhados na cidade, melhores preços porque há mais disputa entre os negociantes para vender suas mercadorias. No caso dos combustíveis aqui, isso não funciona, mesmo com a procura caiando.
Quando isso não ocorre é cartel, um complô entre os donos para que as bombas mantenham os mesmos custos, com pequenas diferenciações para disfarçar a máfia. Como explicar essa carestia se o frete do transporte é mais baixo em Conquista do que em outras cidades mais distantes de Jequié e de Salvador?
Em janeiro rodei nas regiões norte e sul da Bahia e não encontrei nenhum preço mais alto do que aqui. Muito pelo contrário. Em alguns locais, como na Chapada Diamantina, Rui Barbosa, Baixa Grande, Capim Grosso coloquei gasolina no tanque por um preço bem mais baixo.
Outro problema grave que está acontecendo em Conquista é a adulteração do produto em certos postos. Meu carro apresentou umas falhas no motor, acendendo uma luz amarela. Levei a um mecânico amigo meu e ele explicou que era gasolina adulterada. Disse mais ainda que sempre recebe clientes com a mesma queixa.
Aqui é terra de ninguém onde esse setor comercial faz o que bem interessa. Não está havendo fiscalização por parte dos prepostos da agência de petróleo? Pelo visto, devido a comodidade das autoridades, essa situação vai persistir, e em cada canto aparece mais um posto.
CARNAVAL OU TORTURA PSICOLÓGICA?
Carlos González – jornalista
Um casal deixou na última terça-feira (dia 14), pela manhã, seu confortável apartamento, com vista para o mar e para a Avenida Oceânica, dirigindo-se ao aeroporto de Salvador, onde embarcou num voo às 22 horas. Os dois passageiros tinham um motivo para tomar o intragável “chá de aeroporto”: a circulação de veículos foi interrompida naquela tarde entre o Farol da Barra e Ondina para que milhares de pessoas atendessem ao chamamento do cantor Leo Santana.
Com brigas e prisões de foliões e música de qualidade duvidosa, transmitida por gigantescos trios elétricos, estava desenhado o inferno para os moradores do Circuito Dodô, mais conhecido como Barra-Ondina. Começou a temporada anual, em sua segunda fase, de tortura psicológica para milhares de pessoas, algumas com mais de 60 anos de residência no bairro.
Inaugurado em 1980, o circuito de 4 quilômetros é o mais procurado pelos carnavalescos de todos os bairros e da periferia de Salvador, assim como pelos turistas. Mas, ao lado dessa legião de fãs de promotores do axé e do pagode, estão os ladrões de celulares, estupradores (esta semana uma mulher foi violentada dentro de um sanitário químico), vândalos e valentões.
Residente na Barra (nas proximidades do Iate Clube) durante nove anos, no período de Carnaval me sentia como prisioneiro em minha própria casa. Só podia colocar os pés nas ruas pela manhã, porque a partir do meio-dia o Detran fechava o acesso de veículos ao bairro.
No trajeto até uma padaria, o mau cheiro nas ruas era insuportável. Encontrava foliões embriagados, outros dormindo nos passeios, ao lado de sacrificados vendedores ambulantes, obrigados a ficar uma semana ao lado de sua mercadoria, depois de travarem uma batalha na porta da Secretaria Municipal de Ordem Pública, para conseguir licença para trabalhar, mediante pagamento de uma taxa diária de R$10,72.
A primeira fase da seção de torturas é iniciada nos primeiros dias do ano, quando toda a avenida Oceânica é tomada pelos caminhões que transportam o material para construção dos camarotes, alguns bastante refinados, com cabines anexas destinadas ao “descanso” dos convidados.
Após a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma no calendário católico), retratada no Arrastão puxado por Carlinhos Brown, ao qual, nos últimos anos se associaram animadores do Carnaval baiano, é iniciada a terceira etapa da sessão de torturas, trabalho que pode durar 15 dias. É quando aquele casal a que me referi e seus milhares de vizinhos retornam aos seus lares.
Participei de algumas reuniões da Associação dos Moradores e Amigos da Barra (Amabarra), com a finalidade de promover junto aos poderes públicos, notadamente a Prefeitura, a transferência do Circuito Dodô para outro local, sob o argumento de que o Carnaval no bairro só interessava aos proprietários de bares, restaurantes, camarotes e hotéis.
Pressionado, o ex-prefeito ACM Neto, utilizando-se do jornal “Correio”, perguntou, não somente às pessoas que estão sendo torturadas, mas a toda a cidade: “Você é a favor da mudança do Carnaval na Barra para a Boca do Rio? “ . Como era esperado, o “não” venceu com ampla margem. Animadores, donos de trios e camarotes, comerciantes de bebidas e comidas e patrocinadores comerciais, que se disseram prejudicados com a ausência – houve, inclusive, tentativas de desobediência às autoridades sanitárias – da folia nos últimos dois anos, por causa da pandemia, se posicionaram contra os moradores da Barra.
Derrotados e martirizados, associados da Amabarra propuseram não recolher o IPTU deste ano, um dos mais altos de Salvador, como represália ao gestor do município. Como não há solução governamental para o problema, nem a longo prazo, quem dispõe de condições faz a mala e foge.
O aumento da poluição sonora, acima de 85 decibéis, afeta, segundo cientistas e especialistas, os sistemas nervoso e cardiovascular, além de perda de audição, principalmente dos idosos.
O HUMANO “MODERNO” DESUMANIZADO
Um mauricinho rico esnoba num recinto de uma lanhouse que não entendia como ainda nos tempos de hoje tem gente que não sabe o que é e como fazer um QR Cote ou não tem o PIX.
O pobre ao lado escuta o papo e pergunta se ele sabe como se faz a farinha, um cuscuz de milho, uma farofa ou uma rapadura. Ainda se ele imagina o que é ter fome, se os jovens de hoje respeitam os idosos ou as pessoas diferentes.
O moço metido a sabichão dos truques da internet e do mundo virtual, fica calado e meio envergonhado. Nada mais se falou sobre os golpes nessa terra que não é de ninguém, embora os “especialistas” digam que os golpistas são investigados e punidos de acordo com as leis dessa nova mídia devoradora de humanos.
Vivemos num mundo “moderno” desumanizado onde os pais dão mais atenção ao cachorrinho de raça do que aos seus próprios filhos. A mãe chega cansada do trabalho ou do salão de beleza e mal pega sua cria para fazer um carinho. Brada com a babá que ainda não colocou o menino ou a menina para dormir. Ela só quer estirar as pernas no sofá e clicar no celular.
Dia desses um pai matou acidentalmente seu próprio filho na garagem dando a ré em seu carão de luxo. Se não sabia onde estava a criança é porque nem se despediu dela diante de tantas preocupações, problemas e a pressa pela corrida do ouro, aliás do dinheiro. O tratamento entre o cãozinho de estimação e o humano se inverteram. Será que o cão seria acidentalmente esmagado nas rodas do seu possante?
Nos dias atuais, muitas vezes aparece no noticiário que uma mãe ou o pai esqueceu o bebê trancado dentro do seu próprio carro, mas ninguém deixa um celular para trás. Os imbecis dirigem com o aparelho na mão ou o coloca entre as pernas e nunca deixa sua peça idolatrada no banco.
Muitos têm filhos como obrigação matrimonial ou para cumprir uma norma social. Coisas de aparência e vaidade! Logo que mulher e homem se casam, lá vem a sogra ou o sogro para cobrar uns netinhos. Nos acomodamos numa sociedade das aparências e da procura pela felicidade passageira através das compras num shopping.
Atualmente se diz depois eu te ligo, depois eu falo com você, depois lhe mando o pedido, depois faço aquilo. A conversa com o filho é sempre adiada porque o pai ou a mãe acha que tem algo mais importante para resolver. Os contatos, que não sejam por interesse monetário, se dissolvem como sonrisal na água.
Amigos só no copo num barzinho para passar o tempo, numa festa ou curtição de final de semana. Quando o cara está montado numa grana é como um imã para atrair gente e dar uns tapinhas nas costas. É um tal de dizer você é meu amigo-irmão. Foi-se o tempo onde o amigo era certo nas horas incertas.
NA ESPERA DA GRAÇA
ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS
Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 quando as pessoas estavam todas na espera de uma graça.
A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços” será lançada no próximo dia 3 de março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves), às 19 horas, com apoio da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
Com apresentação do professor Itamar Aguiar, trata-se de um conjunto de textos poéticos, ou versos, com uma pegada do agreste nordestino que fala desse povo sofrido, mas também aborda questões políticas, filosóficas, sociais, amor, dor, saudades e o cotidiano da vida.
O título foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica e apresentada em diversos festivais.
Outros versos da obra também foram musicados por artista locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Na obra, outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.
Outros poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.
Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste onde destaca os costumes, cultura e hábitos do nosso povo na fala e na escrita dos principais personagens escritores e poetas, relatos que podem ser transformados numa peça teatral.
Este é o quinto livro do jornalista e escritor Jeremias Macário que já lançou “Terra Rasgada”, “A Imprensa e o Coronelismo”, “Uma Conquista Cassada” (seis em um) e “Andanças” (dois em um). “Na Espera da Graça” são textos poéticos inéditos e impactantes para o leitor refletir, criticar e divulgar entre amigos, parentes e familiares.
“FLUXO E REFLUXO” VIII
OS EMBAIXADORES DA COSTA DA MINA OU A SOTAVENTO (GOLFO DO BENIN) NA BAHIA, PARA ESTREITAR RELAÇÕES COMERCIAIS E APAZIGUAR CONFLITOS, INCLUSIVE DE INVASÕES DE FORTES.
Entre 1750 e 1811ocorreram quatro embaixadas na Bahia pelos reis do Daomé, de Onim (Lagos) e um do rei de Ardra, para reatar as divergências nos portos entre os diretores dos fortes, capitães dos navios, os traficantes negreiros e incrementar os negócios. Na época, os baianos Francisco Félix de Souza e João Oliveira eram os maiores e mais famosos traficantes.
O livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger dá ao leitor todos detalhes destas missões, com cerimonial rebuscado, sendo que a primeira, em 1750, foi rica, pomposa e inusitada que movimentou os moradores da capital pelo ritual que foi preparado pelo vice-rei para receber os enviados do Daomé, com trajes e costumes exóticos.
Uma das embaixadas foi provocado por um tenente do forte português de Uidá, com fins de prejudicar o seu diretor. A de Onim, um subterfúgio utilizado por um capitão negreiro para salvar uma carga de tabaco em deterioração. Tudo isso mostra a vontade dos reis africanos em manter ligações comerciais entre seus países e a Bahia.
A primeira foi do rei Tegbessu depois de incidentes que resultaram na destruição de um forte pelas tropas do monarca do Daomé, com a consequente expulsão do diretor João Basílio e de um reverendo, em 1743. Seus embaixadores ficaram hospedados no Colégio da Companhia dos Jesuítas (hoje Terreiro de Jesus). Os mensageiros do outro rei, Aganglô, ficaram no Convento dos Franciscanos.
Os reis do Daomé queriam praticamente exclusividade dos negócios em seu porto de Ajudá com a entrada livre de quatro a cinco navios de uma só vez, só que isso tornava alto os custos dos cativos no regateamento das mercadorias, e as embarcações demoravam mais tempo no porto deteriorando os produtos e escasseando os mantimentos.
Em 1747, Lisboa declarava que seria justo que o régulo africano sofresse algum castigo para ter mais respeito com a nação portuguesa. Os negociantes da Bahia concordavam castigar o “bárbaro”, sem prejudicar as extrações de escravos, que são tão necessários para as obras do Brasil. No entanto, existiam outros portos (Badagri, Novo Porto e Onim) como opções, mas os conflitos e intrigas eram parecidos.
Em 1750, o vice-rei da Bahia, Luiz Peregrino de Ataíde, Conde de Atouguia, dizia que não existia nenhum meio de intimidar os negros do Daomé. Não falta outros portos nesta costa, mas serviria somente para experimentar os mesmos inconvenientes, insultos e incivilidade de semelhantes régulos-declarava. Os interesses eram facilitar a compra dos escravos e dar saída à venda do tabaco de terceira qualidade, que só tinha saída para o Golfo do Benin.
Os relatos de Pierre Verger sobre essas embaixadas foram baseados nos escritos de José Freire de Monterroio Mascarenhas. Afirma o autor da obra que o vice-rei se mostrava mais reservado e reticente em suas relações com o enviado de Tegbessu, de acordo com os documentos existentes nos arquivos da Bahia e de Lisboa.
Todas as despesas foram pagas pela Fazenda Real da Coroa Portuguesa. Foram oferecidos preciosas colchas e pavimento de finíssimas esteiras, cadeiras de espaldas magníficas e cobertores de tela carmesi.
A primeira embaixada trouxe presentes da sua terra, escravos e quatro negrinhas de 10 anos nuas ao modo da sua terra para o vice-rei e o monarca D. João V. Eles eram chamados de gentis-homens. Nas vestimentas, além dos turbantes, rolavam muito ouro nas vestimentas.
“A esta grande novidade, descrevia José Mascarenhas, nunca vista no Brasil, começou a concorrer gente de toda parte, e o embaixador, para evitar embaraço que podia fazer-lhe o concurso de tanto povo, disse pelo seu intérprete aos portadores do Palenquin e cadeirinhas que apressassem o passo e chegaram com maior brevidade à portaria do Colégio. Foram recebidos com salvas de tiros e honras dos oficiais e vassalos do vice-rei”.
Na audiência da primeira embaixada de 1750 achava-se o palácio todo bem armado. O vice-rei estava debaixo de um rico docel assistido de todo corpo do Senado e toda nobreza da Bahia, sem se ver outra coisa mais que vestidos ricos e de bom gosto, tudo galhardia, tudo pompa. Era grandiosa a comitiva dos embaixadores, tanto que atraiu gente de toda parte da cidade. O escritor José Mascarenhas se esmerou nos mínimos detalhes desses encontros.
Aconteceram ainda na Bahia as visitas dos enviados do rei de Onim (Lagos), em 1770, na época em que o traficante João Oliveira retornava de Benin e foi preso por ter embarcado num navio onde existiam mercadorias contrabandeadas de um particular.
Uma outra missão ocorreu em 1795 mandada pelo rei do Daomé, Agonglô. Esta embaixada foi provocada pelo tenente Francisco Xavier Álvares do Amaral, no reinado da rainha D. Maria de Portugal, para incriminar o diretor do forte Francisco Antônio da Fonseca e Aragão.
As cartas endereçadas ao vice-rei podem ter sido escritas pelo tenente e pediam exclusividade do tráfico do Brasil para Ajudá. “Garanto à V. Exa. que nenhum dos capitães sofrerá perdas em meu porto, e que podem levar seda, ouro trabalhado e prata sob a forma que queiram, em obra ou peso. Para isso, lá tem cativos em excesso e mais daqueles que se vendem contra o tabaco e aguardente, como sabem aliás os capitães”.
O governador da Bahia, Fernando José de Portugal, escrevia à sua majestade de Portugal ser impraticável o comércio privativo do Porto de Ajudá, como pretende o rei do Daomé. Explicava que concorrendo cinco ou seis embarcações nos portos da Costa da Mina, se forem obrigadas a fazerem as negociações somente em Ajudá, hão de sofrer detrimento, não somente pela demora que irá arruinar o tabaco e consumir os mantimentos para o retorno da viagem, como também porque o potentado aumentará o preço dos escravos devido a grande demanda. Não terão os mestres dos navios liberdade para escolher os escravos e serão obrigados a aceitar os que lhe quiser dar o potentado, pelo preço por ele arbitrado – advertia o governador.
O governador ainda lembrava que todos os mais portos daquela Costa se resgatam os escravos por menor número de rolos do que no Porto de Ajudá, não devendo ser privados dessa comodidade nem os que se empregam neste comércio, de tanto risco e despesa, nem igualmente da utilidade de comprar o melhor preço os escravos nos outros portos. Chamava o potentado Dagomé (Daomé) de ambicioso e soberbo e que na Costa ainda reina muita barbaridade e grosseria.
Em março de 1795, o rei do Daomé escrevia à rainha D. Maria I de Portugal apelando para uma boa união e paz e solicitava que seu porto fosse frequentado pelas embarcações portuguesas, para lucro tanto dos vassalos da rainha como dos meus, e que nossos tesouros cresçam e aumentem. Sobre o diretor Francisco da Fonseca e Aragão afirmava que ele não cumpria com suas obrigações e estava preocupado em aumentar somente suas finanças. Eram como funcionavam as intrigas no tráfico negreiro.
Pierre Verger destaca que, além desses embaixadores, numerosos africanos livres iam para a Bahia, seja para entregar-se ao comércio, ou para receber educação, inclusive filhos de reis e rainhas, muitos até sequestrados para este fim.
ESPELHO
Afonso Manta, da Antologia Poética organizada pelo poeta e companheiro jornalista Ruy Espinheira Filho.
De cada vez que me contemplo, mudo
Face ao espelho que reflete a imagem
De um homem já cansado da viagem,
Sinto uma atroz desilusão de tudo.
Sinto que estou mais triste a cada dia,
Mais doente, mais trágico e infeliz:
Exausto desta longa romaria
Que, pela vida, em desespero fiz.
Sinto que sou a sombra do passado.
Sinto que sou o espectro de mim mesmo.
E que rolei como um navio a esmo
Tangido pelo mar encapelado.
02/05/1979














