Carlos González – jornalista

“Bota o retrato do velho de novo/Bota no mesmo lugar/O sorriso de velhinho faz a gente se animar”. Versos de uma marcha, interpretada por Francisco Alves, cujos autores, Haroldo Lobo e Marino Pinho, homenageavam a volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, em outubro de 1950.

Sucesso do Carnaval do ano seguinte, a marcha acompanhou as manifestações de entusiasmo do brasileiro com o retorno do político de 68, que durante seis anos esteve asilado nos Pampas gaúchos.

Há certa semelhança entre o cenário de 1950 e aquele que se desenhou após a apuração dos votos do 2º turno das eleições para o cargo de presidente da República. Uma parcela do povo brasileiro festejou ontem nas ruas a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, outro velho político de 77 anos, que, na verdade, não tem o mesmo carisma de Vargas, lembrado até hoje por aqueles que conviveram com o getulismo.

O vermelho predominou entre os saltaram e dançaram atrás dos trios elétricos, celebrando o fim do ódio, da intolerância, da violência, da prepotência, do escárnio, da corrupção, dos preços altos dos alimentos, que nesses últimos quatro anos asfixiou a classe média e os que não têm o que comer no dia a dia.

Reconheçamos que entre os que deram um terceiro mandato a Lula havia os antipetistas, que, honestamente, não concordam com a prescrição de crimes cometidos pelo PT no passado. Mas, no interior da cabine de votação, veio à lembrança o alerta do cardeal de Aparecida, Dom Orlando Brantes: “Pátria amada e não Pátria armada”.

Num comentário anterior escrevi que o bolsonarismo não morre com a derrota de seu líder, assim como o fascismo não desapareceu com Benito Mussolini.

“Não daremos um minuto de sossego a Lula”, declarou ontem, à noite, um ativista do ódio, ao lado de produtores rurais e caminhoneiros, que poderão ser criminalmente acusados pelo bloqueio de rodovias em 12 estados, e incitações a um golpe militar.

Senhores golpistas: em 1950 e em 1956, dois marechais (não foram generais, nem um ex-capitão expulso de Exército), Eurico Gaspar Dutra e Henrique Teixeira Lott, garantiram as posses de dois civis, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, cujas eleições pelo voto direto eram contestadas pelos fascistas de ontem.

Senhores inconformados com o resultado das urnas: voltem ao trabalho e aguardem para dentro de 20 dias o início da Copa do Mundo do Qatar, quando voltarão a vestir a amarelinha, cantar o “Prá frente Brasil” e torcer pelo bolsonarista evangélico Neymar Jr, que responde por sonegação fiscal (R$ 188 mi) no Brasil, e corrupção empresarial (dois anos de prisão e multa de 10 milhões de euros, cerca de R$ 10 mi) na Espanha.

Contrariando determinação da FIFA, Neymar promete fazer o 22 a cada gol marcado.  Na Olimpíada de 2016, no Brasil, ele foi punido por exibir na testa uma faixa com a frase “Deus é fiel”.