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:: 10/out/2022 . 22:12

O ISOLAMENTO DO NORDESTE

  1. Carlos Albán González – jornalista
  2. O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais irrompeu entre os seguidores fanáticos de Jair Bolsonaro uma onda de insultos contra os nordestinos. O nazifascismo tropical, que usa desrespeitosamente o verde e o amarelo, quer transformar a terra berço do Brasil num imenso campo de concentração. Costurada por um presidente que há quatro anos faz de conta que trabalha, uma cortina de ódio foi erguida nas nossas divisas.“Morte (a bala ou de fome) aos nordestinos”, esbravejam os mais exaltados. Os parâmetros de retaliação criados por mentes poluídas vão desde a venda das nossas praias (a idéia do ministro Paulo Guedes, da Economia, esbarra na Constituição), à morte – seria em câmeras de gás como nos campos de concentração nazistas ? . Houve até quem sugerisse a construção de muros nas divisas dos estados nordestinos (o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump seria consultado).Se uma barbárie desabar sobre a cabeça dos brasileiros no dia 30, o nordestino, no futuro, vai precisar de salvo-conduto para ir a uma cidade do Sul ou Sudeste, ou a Brasília. O capim será nosso alimento, como induz o presidente, mesmo porque, os que passam fome, imaginaram um dia comer carne humana.

    O incitamento à violência, à intolerância religiosa, à xenofobia – que não é de hoje – contra o nordestino revelam que o Brasil pode se tornar o bastião da extrema direita no continente. A cruzada antidemocrática do militar expulso do Exército foi reforçada pela eleição para o Congresso do que há de mais retrógado neste país, em termos de política.

    Antes mesmo da posse os radicais escarrados das urnas já falam em alterar a Constituição para tornar permanente o orçamento secreto, o que significa seqüestrar as verbas da merenda escolar, das pesquisas, das universidades, da cultura e da saúde.

    Além dos assédios moral e sexual, a classe trabalhadora vem sendo vítima de um novo tipo de assédio, o eleitoral. A opressão do empregador bolsonarista tem ocorrido principalmente no meio rural.  Uma produtora de Luís Eduardo Magalhães (um dos dois municípios baianos onde o ex-capitão venceu) divulgou um vídeo pedindo a “demissão sem dó do eleitor de Lula”.

    Servidores da Prefeitura de Salvador reclamam de que estão sendo pressionados para votar em ACM Neto. Esse tipo de coação, que pode ser denunciado ao Ministério Público do Trabalho e aos sindicatos, está enquadrado no artigo 301 do Código Eleitoral, sujeito a pena de quatro anos de reclusão,

    Separatismo

    No Brasil nunca houve uma forte tendência separatista entre regiões, muito menos entre os nordestinos, embora a cantora paraibana Elba Ramalho tenha sugerido oficializar a música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga, como hino da região. Lá pelas bandas do Sul, o gaúcho, de tempos em tempos, reúne seus vizinhos do Paraná e de Santa Catarina, para reacender o sonho de criação de uma nação que se chamaria Pampas..

    A Espanha, minha segunda pátria, convive há quase um século com os movimentos de independência da Catalunha e do País Basco.  Líder de uma das mais longevas ditaduras (1936-1975) no mundo, Francisco Franco procurou sufocar os opositores, inclusive proibindo que os povos de diferentes etnias que unificaram o país se comunicassem em suas próprias línguas, no caso, o catalão, o basco e o galego.

    O Generalíssimo, como gostava de ser chamado, enfrentou uma guerra civil, que matou 500 mil espanhóis, nos seus três primeiros anos no poder, graças ao apoio que recebeu de outros dois ditadores europeus, Adolf Hitler e Benito Mussolini. Para demonstrar força, Franco pediu ao III Reich que bombardeasse uma das cidades do norte da Espanha.

A pequena Guernica, no País Basco, com apenas 5 mil habitantes, foi atacada em 26 de abril de 1937. A aviação nazista lançou 22 toneladas de bombas, matando 1.645 pessoas. O massacre inspirou o artista andaluz Pablo Picasso a pintar “La Guernica”, a mais famosa tela do século XX, mantida num museu de Nova Iorque até o fim da ditadura franquista.

O sentimento separatista de catalões e bascos não se rompeu com a morte de Franco em 1975 e a conseqüente volta da Espanha ao regime democrático. O ETA, organização nacionalista basca, que evoluiu para o terrorismo, vive hoje na clandestinidade. A Catalunha optou pelo repúdio à monarquia, ao hino, à bandeira e ao idioma espanhóis.

“Matar, em nome de Deus”

Para evitar uma punição após a passagem da faixa presidencial pelos crimes cometidos durante seu mandato, Bolsonaro vai usar de todos os meios, lícitos e ilícitos, para vencer no segundo turno. Neste fim de semana, desagradando seus apoiadores evangélicos,  compareceu ao Círio de Nazaré.

O arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira, divulgou nota informando que Bolsonaro não foi convidado e que não permitiria que o evento da Igreja Católica fosse usado com fins políticos. Contrariado, o “penetra” ficou confinado num navio da Marinha..

Afinal, qual a religião professada pelo genocida? Isso não importa para os líderes evangélicos do Brasil. Leonel Brizola, um dos mais brilhantes políticos brasileiros, ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, perguntou certa vez: “Qual a legitimidade de tantos pastores no governo fluminense? Assumem posição ambígua, se queixam de tudo, fazem denúncias, mas não deixam os cargos que ocupam”. E profetizou: “Se necessário, matarão em nome de Deus, para chegarem ao poder”

“Fundamentalismo evangélico ameaça a democracia”, título do artigo assinado há nove anos pelo Reverendo Carlos Calvani, publicado num jornal de Campo Grande (MS). Membro da Igreja Anglicana no Brasil, Calvani advertiu que os pentecostais “têm um projeto político muito perigoso para o Brasil, utilizando as Escrituras Sagradas como lhes convém”.

Calvani comparou o movimento evangélico carismático com o fanatismo islâmico do talibã, movimento nacionalista e fundamentalista difundido no Paquistão e Afeganistão, países asiáticos onde a mulher é humilhada.

 

 

“ESSE SAPATO É A SUA CARA”!

(Chico Ribeiro Neto) – jornalista

“Parece que foi feito de encomenda. E aproveite logo, porque só tem esse do seu número, é o único par. E essa semana vai ter aumento”.

Atendimento nas lojas tem hora que é fogo! Tem aquele vendedor que gruda logo em você assim que você entra na loja e não lhe deixa à vontade para circular e escolher.

Se o sapato está apertado nos dedos: “É bom assim, porque depois folga, e esse couro elastece bem”.

Se o sapato está folgado: “Melhor assim, porque os dedos ficam soltos e não incomoda”.

Uma amiga de São Paulo me contou que lá o chinês da loja já fica aborrecido quando você pega um segundo produto na hora de escolher. Ele acha que se você pega o primeiro produto tem que pagar logo e ir embora. E o pior é que quando paulista chega aqui diz que é mal atendido.

Mas também tem o comprador chato. Aquela mulher que experimenta mais de dez pares de sapatos e depois vai embora prometendo voltar. “O meu nome é Ivan”, diz o vendedor sem acreditar muito no retorno daquela escolhe-escolhe.

Meu irmão Zé Carlos, de saudosa memória, trabalhou na seção de tecidos da loja Duas Américas, na época a melhor loja da Rua Chile ou talvez de Salvador. Ele contou que às vezes chegava uma mulher, pedia amostras de 12 tipos de tecidos e depois ia embora: “Qualquer coisa eu volto”.

E o atendimento no serviço público? Com exceção do SAC, onde você é sempre bem atendido e em pouco tempo, o resto é brabo. Quem já precisou resolver alguma coisa na Secretaria de Educação sabe o que é padecer. Tem muita secretaria em que logo atrás da recepção está colado um cartaz em letras garrafais: “Artigo 331 do Código Penal Brasileiro: Desacatar funcionário público no exercício da função ou em razão dela: Pena – Detenção de seis meses a dois anos ou multa”.

Tem aquele funcionário que perdeu a voz e só sabe apontar onde fica o próximo atendimento. Tem a funcionária que está limpando as unhas com um palito e que dispara logo: “Estou no meu horário de descanso, a outra moça tá vindo aí”, e retorna ao celular. Acho que uma boa solução seria tudo virar SAC.

Ainda não aprendi a comprar pela Internet. Mas ela também tem os seus chatos. Outro dia consultei preços de máquina de lavar e logo depois choveram ofertas no meu Face.

Enfim, não acredite muito quando o vendedor disser: “Essa camisa é a sua cara”. Um cara de pau.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 





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