:: 29/out/2022 . 1:27
A MARCHA DOS ABOLICIONISTAS E A REAÇÃO DOS AFRICANOS AO CATIVEIRO
Em nossos outros comentários anteriores falamos aqui sobre a intensificação dos movimentos abolicionistas logo após a Guerra do Paraguai, em 1870, mas as primeiras manifestações começaram a surgir nas primeiras décadas do século XIX, influenciadas pela libertação dos escravos africanos no final do século XVIII pela Inglaterra.
Para quem não sabe, a primeira província a decretar a abolição foi o Ceará, em 1884, governado pelo baiano Sátiro de Oliveira Dias, seguido do Amazonas. O primeiro município, ou distrito, foi o de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
É bom que se esclareça que naquela época era reduzido o contingente de escravos por causa das secas e da decadência da cana-de-açúcar e dos engenhos. Havia ainda o tráfico interprovincial do Norte e Nordeste para o Sul, principalmente para o Vale do Paraíba, em São Paulo, e a zona da mata, em Minas Gerais.
No Reino Unido tudo teve início com a Revolução Industrial e o movimento de uma corrente protestante em defesa da abolição da escravatura. Nas primeiras décadas do século XIX, a Inglaterra já pressionava os países escravistas, como Portugal e o Brasil que em 1831assinou uma lei para acabar com o tráfico negreiro africano, mas foi só para “inglês ver”.
Os britânicos ficaram irritados com as trapaças dos fazendeiros e barões brasileiros e resolveram fechar o cerco, inclusive com ameaças de guerra. Sem saída, o Brasil aprovou a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, que poria fim de vez ao tráfico, se bem que muitos ainda se aventuravam a fazer o comércio clandestino.
Os gritos de abolição vieram mesmo após 1870 culminando com a Lei do Ventre Livre, em 1871, e dos sexagenários, no 28 de setembro de 1885. Nessa época, já era bem menor o número de escravos não alforriados. Todos esses relatos podem ser lidos na trilogia “Escravidão”, do escritor Laurentino Gomes que destaca os quatro principais abolicionistas.
Todos eles, em sua ótica, passaram por momentos de conversão à causa abolicionista, com rituais de sofrimento e dor, como o baiano advogado rábula Luiz Gama, o pernambucano, também advogado graduado Joaquim Nabuco, o farmacêutico carioca José do Patrocínio e o baiano engenheiro André Rebouças. Em comum, todos foram jornalistas.
O baiano Luiz Gama se diferencia dos outros por causa de suas origens sociais, por ter sido vendido escravo pelo próprio pai e o único a amargar o cativeiro por oito anos. Depois fugiu, estudou e se tornou advogado defensor dos escravos, tendo libertado cerca de quinhentos das mãos dos senhores fazendeiros, em São Paulo. Afirma Laurentino que Gama foi o primeiro a perceber o quanto a pele negra funcionava como um estigma, “um defeito de cor”, nas palavras do próprio abolicionista.
Joaquim Nabuco era o mais moderado e comportado, frequentador dos salões imperiais e não concordava com ações radicais. Entendia que a abolição era coisa para os políticos e que os negros não deveriam ser meter nisso. Nasceu em Recife, em 1849, filho de um dos mais importantes políticos do império, o senador José Thomaz Nabuco de Araújo. Foi amamentado por uma mulher negra e viveu boa parte com sua madrinha em Pernambuco, no decadente engenho Massangana.
A realidade do chicote e dos grilhões, de acordo com Laurentino, entraria em sua vida devido a um episódio. Certo dia o menino Nabuco foi surpreendido com a chegada de um jovem fugitivo que se ajoelhou em seus pés e suplicou que fosse comprado pela sua madrinha, pois vivia a ser castigado pelo seu senhor. A partir dali passou a defender os oprimidos.
Com a morte da madrinha, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro onde estudou no Colégio D. Pedro II e teve como colega Rodrigues Alves, futuro presidente da República. Em São Paulo foi estudante de direito da Faculdade do Largo São Francisco, com Castro Alves, Rui Barbosa e Afonso Pena, este também futuro presidente do Brasil.
Viajou por vários países como Estados Unidos e da Europa (morou em Londres) onde manteve contatos com os movimentos abolicionistas. Na juventude foi um dândi – estilo de vida celebrizado por intelectuais, como Oscar Wilde e Marcel Proust. Foi correspondente de um jornal carioca em Londres.
Além de abolicionista, Nabuco foi um grande reformador que introduziu mudanças no Império visando a reconstrução do país. Ele propôs a reorganização econômica e financeira, a instrução pública, a igualdade religiosa, a representação política e até a reforma agrária. “A grande questão da democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão – dizia Nabuco.
Para ele, os escravos deveriam ser incorporados à sociedade como cidadãos de direito. Em sua visão, o regime escravo criou um ideal de pátria grosseira, mercenário, egoísta e retrógrado, e nesse molde fundiu durante séculos as três raças heterogêneas. “A escravidão não consentiu que nos organizássemos e sem povo as instituições não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerce”.
Predominava nele o tom caridoso, de compaixão do branco pelo negro. Com a abolição, os brancos também ganhariam. Para Nabuco, o sistema escravista punha em risco a própria nacionalidade, desprestigiando o Brasil perante a comunidade das nações, gerando um permanente clima de instabilidade política. Foi o primeiro embaixador brasileiro na Embaixada dos Estados Unidos, em 1905, e faleceu em Washington, em 1910.
Diferente de Nabuco, um branco conhecido como “Quincas, o belo”, José do Patrocínio não era negro retinto, mas um sarará. Dizia que tinha a cor do “tijolo queimado”. Era negro o suficiente para ser alvo de ataques e injúrias raciais nas ruas, nos comícios e em artigos na imprensa. Era um vulcão de paixões. Dado a ataques violentos de cólera que lhe valeram inúmeros inimigos. Olavo Bilac o comparou a um profeta dentro de uma tempestade de raios.
Em 1878 foi preso por andar nas ruas portando uma navalha, pronto para a briga”. Boêmio e espalhafatoso, gostava de passar a noite cercado de artistas e negros capoeiristas. Nasceu em 1853 em São Salvador dos Campos dos Goitacazes – Rio de Janeiro. Era filho do vigário João Carlos Monteiro com uma escrava adolescente Justina Maria do Espírito Santo.
Fazendeiro, seu pai era dono de fazendas e de um grande plantel de escravos, vereador e deputado provincial. Mesmo não sendo reconhecido como filho do padre, os moradores tinham respeito por ele. Era um garoto arrogante e mimado que mandava e desmandava na cidade.
Sua conversão se deu após agredir na cabeça com um chicote um senhor escravo idoso por este ter demorado de abrir uma cancela, conforme testemunhou seu amigo Luis Carlos de Lacerda (abolicionista). Sabendo do acontecido, seu pai o repreendeu de forma severa. Aos quatorze anos foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou com servente aprendiz na Santa Casa da Misericórdia. Depois conseguiu concluir o curso de farmácia. Virou professor e jornalista.
Com ajuda do sogro, comprou seu próprio jornal o Cidade do Rio, por cuja redação passaram Olavo Bilac e André Rebouças. Ele foi um jornalista agressivo e polêmico. Em 1875 já trabalhava na Gazeta de Notícias. Em 1880, com André Rebouças e Nabuco fundaram a Sociedade Brasileira contra a Escravidão. O objetivo principal de Patrocínio era alcançar a abolição do cativeiro no ano 1889, para comemorar o centenário da Revolução Francesa.
Tanto quanto o Nabuco, era um monarquista e admirador da princesa Isabel. Foi ovacionado quando foi decretada a Lei Áurea. Como vereador pelo Rio de Janeiro, concedeu a ela o título de A Redentora. Foi também criador da Guarda Negra para proteger o Terceiro Reinado. No governo de Floriano Peixoto foi preso e deportado para um local distante no Amazonas. Morreu em 1905, aos 51 anos, pobre e vivendo de favores.
Baiano de Cachoeira, nascido em 1838, André Rebouças só foi se dar conta que era um negro tempos depois numa viagem aos Estados Unidos quando foi discriminado. Barrado num hotel, conseguiu um quarto apertado sob as condições de fazer as refeições no apartamento. Tomava banho numa barbearia ao lado do hotel. Antes disso, porém, viajou por vários países europeus sem ser importunado.
Rebouças era filho do jurista e conselheiro do Império Antônio Pereira Rebouças. Formou-se aos 22 anos em Engenharia Militar na Escola de Aplicação da Praia Vermelha. Ele e seu irmão completaram os estudos na Europa onde Rebouças foi apresentado nas altas rodas. Esteve em Viena e Paris. Depois atravessou o Atlântico e aportou em Nova York onde descobriu que, por ser negro, não teria onde ficar e comer.
Nos Estados Unidos vagou por vários hotéis e apenas conseguiu uma pousada no Washington Hotel com a ajuda da Embaixada Brasileira. Mesmo na Filadélfia, na Pensilvânia, foi discriminado. Um dia foi dormir com fome por ter sido vetado nos restaurantes. Como disse a historiadora Ângela Alonso, pela primeira vez, Rebouças deu-se conta de que era também rebento do tráfico africano.
Laurentino enfatiza que da traumática experiência norte-americana nasceria o abolicionista que de forma mais organizada pensaria na realidade e no legado da escravidão brasileira. “Precisamos educar esta nação para o trabalho, estamos cansados de discursos” – diria numa carta dirigida ao professor baiano Abílio Borges. Em 1879 tentou a carreira política pelo Paraná, mas perdeu.
Rebouças começou a escrever na Gazeta da Tarde, jornal de Patrocínio, seu compadre. Em 1880 foi um dos fundadores da Associação Central Emancipadora. Em 1883 redigiu com Patrocínio o manifesto da Confederação Abolicionista. Em sua luta pela abolição se coligou ao general Henrique Beaurepaire Rohan que participou das guerras pela independência da Bahia e do Piauí.
Dentre todos os projetos abolicionistas, o de Rebouças e do general foi dos mais radicais, conforme observou Laurentino. Rebouças sustentava que a libertação dos escravos por si só, não seria suficiente. Para ele seria necessária uma reforma agrária para acabar com o latifúndio. O ex-escravo deveria se tornar em pequeno produtor. Como se sabe, seu projeto foi rejeitado. Entrou em processo de depressão.
Em 15 de novembro de 1889 tentou convencer D. Pedro II a resistir ao golpe republicano. Na sua ideia, o imperador deveria permanecer em Petrópolis e de lá seguir para Minas Gerais e tramar uma resistência. Como não deu certo, Rebouças decidiu seguir os passos do imperador e se exilou na Europa. Em 1891 escreveu uma carta ao seu amigo José Carlos Rodrigues, dono do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro, na qual referia a si mesmo como Negro André.
No ano seguinte foi para África do Sul. “Sou, em corpo e alma, meio brasileiro e meio africano, não podendo voltar ao Brasil, parece-me melhor viver e morrer na África”. Em 1898 seu corpo apareceu boiando no mar, ao pé de uma rocha em frente à casa em que vivia na cidade de Funchal, na Madeira, seu último refúgio.
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