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:: 7/out/2022 . 23:13

AS REBELIÕES E OS MANUAIS DOS SENHORES

Entre o final do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, os senhores escravocratas passaram a ter comportamentos mais brandos com seus cativos diante das rebeliões e fugas dos negros que pipocavam em vários estados contra a escravidão, lembrando sempre o massacre que ocorreu no Haiti, em 1791, quando milhares de brancos foram mortos cruelmente.

Diante dos fatos, os patrões começaram a formular cartilhas e manuais para tratar os pretos com mais moderação nos castigos, recomendando mais divertimento, folga do trabalho aos domingos para a prática da religião, folguedos e até cederam pedaços de terra para o cultivo, de modo a evitar levantes e preservar seu capital investido. Com a proibição do tráfico, os negros ficaram mais caros.

Quem narra essas mudanças é o jornalista e escritor Laurentino Gomes em sua trilogia “Escravidão” e cita dois manuais importantes divulgados pelo baiano Miguel Calmon Du Pin e Almeida e Carlos Augusto Taunay que orientavam os fazendeiros de como não perder seus cativos, mas sempre com disciplina, não deixando de castigá-los quando cometessem “erros”.

No capítulo “Medo, Morte e Repressão” ele começa a descrever a revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, que deixou as autoridades apreensivas e reforçaram as seguranças. Na noite em que tudo aconteceu celebrava-se a “Noite do Destino” e o encerramento do Ramadã pelos haussás e os nagôs iorubás da Nigéria.

Na noite de 24 de janeiro, os boatos corriam na Cidade Baixa nas proximidades do porto do Mercado Modelo, de que cativos mulçumanos procedentes de Santo Amaro tinham ali desembarcado para se juntar a um africano de nome Ahuna, líder envolvido em algum tipo de conspiração.

Houve vazamento, e uma mulher de nome Guilhermina procurou um vizinho de chamado André Pinto da Silveira que comunicou tudo ao juiz de paz José Mendes da Costa Coelho. Este foi ao palácio e fez um relato ao presidente da província, Francisco de Souza Martins. O que se viu em seguida foi uma explosão de violência que se desdobrou em brutais confrontos entre forças militares e negros escravizados.

Na manhã seguinte já havia cadáveres espalhados por diversas ruas, praças e ladeiras da capital. Estima-se em setenta o número de mortos. Nessa devassa, mais de quinhentos pessoas foram punidas com penas de morte, prisão, deportações e açoites. A revolta dos malês levou pânico a outras regiões do país.

Nas quatro primeiras décadas do século XIX foram mais de trinta na capital, no Recôncavo e outras províncias. Metade delas, segundo Laurentino, ocorreu entre 1826 e 1830. Nunca houve uma sequência tão grande de fugas e rebeliões. Os senhores ficaram assustados.

A primeira delas, liderada pela etnia haussá, se deu em 1807. Em 1814 e 1816, os haussás fizeram uma série de ataques no Recôncavo e em bairros de Salvador. Em 1826, um grupo procedente do “Quilombo Urubu” tentou invadir Salvador aos gritos de “morra branco e viva o negro”.

Na revolta de 1835, a rebelião foi antecipada por cousa das delações, mas ampliou-se em vários lugares, como no centro, nas imediações do Campo Grande e Cidade Baixa. Tudo começou na Ladeira da Praça com a prisão de líderes, como Aprígio e Manuel Calafate. No local, cerca de cinquenta negros enfrentaram os soldados com pistolas e espadas. No confronto inicial morreram um africano e um soldado.

Mesmo às pressas, os rebeldes conseguiram arregimentar quinhentos combatentes que passariam as três horas seguintes enfrentando os agentes da lei nas ruas de Salvador. Acuados pela guarda, eles se espalharam entre o Terreiro de Jesus e na Praça Castro Alves. Seguiram depois rumo ao Bairro da Vitória. Houve assaltos no quartel da polícia no Largo da Lapa.

A última batalha aconteceu no Quartel da Cavalaria (Água de Meninos). Cerca de duzentos escravos participaram da luta com porretes, pistolas, espadas e lanças. Foram recebidos a bala e muitos terminaram sendo retalhados e baleados, enquanto outros se refugiaram no mato, morros e até se afogando no mar. Na conspiração ficou evidenciado que o levante teve motivação religiosa. A liderança era toda mulçumana com aspecto de guerra santa, uma jihad.

Laurentino destaca que, na época da Revolta dos Malês, entre oito a dez mil africanos escravizados desembarcavam anualmente no Porto de Salvador, a grande maioria do Golfo do Benin (Togo, Benin, Nigéria e Camarões). A região se converteu na principal fonte de escravos enviados à Bahia durante o século XVIII em razão da prolongada guerra entre o reino do Daomé e seus vizinhos.

Eram designados como pretos minas, devido a proximidade do antigo castelo de São Jorge da Mina, Elmina, em Gana. O censo de 1808, realizado em Salvador e freguesias próximas, constatou que dos 250 mil habitantes, só pouco mais de 50 mil eram brancos.

Nesse período de 1835 reinava ainda um clima de agitação originária da independência brasileira. Na Bahia, negros, mestiços, cativos e libertos foram recrutados e participaram de episódios como a Conjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates), de 1798, da Independência da Bahia em 2 de julho de 1823 e da Sabinada, movimento republicano e federativo comandado por Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira.

Outras revoltas ocorreram durante a Regência entre a abdicação de D. Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II, em 1840, em Minas Gerais e no Maranhão, em 1838, com a Balaiada. Essas rebeliões escravas fizeram com que as autoridades adotassem medidas drásticas. Na Bahia, as batidas policiais depois de 1835 resultaram na detenção de centenas de suspeitos.

Essas questões serviram de roteiro para uma série de manuais e roteiros, muitos deles escritos por grandes fazendeiros, com o objetivo de adequar aos novos tempos o tratamento dedicado aos escravos. Alguns eram chamados de manuais agrícolas.

O baiano Miguel Calmon, por exemplo, escreveu “Ensaio sobre o Fabrico de Açúcar”, aconselhando moderação com os cativos, como fornecer moradia, alimentação e vestuário mais decentes, liberação de pedaços de terra para o trabalho deles, que constituíssem famílias, cuidados com a criação dos filhos dos escravos, divertimentos e castigos com prudência.

 

UMA CARTA DE REPÚDIO AOS FASCISTAS

INTELECTUAIS, OAB, PROFESSORES, ESTUDANTES, CLASSES, CATEGORIAS, TRABALHADORES, ARTISTAS E TODO POVO NORDESTINO, ESTÁ NA HORA DE SE UNIR EM TORNO DE UMA CARTA ABERTA DE REPÚDIO EM DEFESA DO NOSSO QUERIDO NORDESTE. NÃO SOMOS BAGAÇOS DESSES SENHORES TIRANOS. ATÉ QUANDO VAMOS CONTINUAR LEVANDO CHIBATADAS SEM DAR UM BASTA NISSO TUDO? AFINAL, FOI AQUI QUE NASCEU O BRASIL. FICO UMA FERA QUANDO FALAM MAL DO MEU NORDESTE.

No Rio de Janeiro eles são chamados de “paraíbas” e em São Paulo de “baianos”. Não se trata de carinho, mas de chacotas e discriminação, uma maneira de tratar os nordestinos de forma desprezível e preconceituosa, como se fossem gente inferior, esquisita, não civilizada fora do contexto padrão do resto do país.

Como se não bastasse tudo isso, nos últimos anos nas eleições, principalmente agora na voz do psicopata nazista capitão-presidente que injeta ódio em seus seguidores, os sulistas aproveitaram para descarregar seus xingamentos ao povo do Nordeste, chegando a apelar para a pratica da matança.

Contra esses bárbaros, o que mais nos incomoda é o silêncio perturbador e a falta de indignação, inclusive por parte da mídia. Tem um ditado que diz: “Quem cala consente”. Estamos agindo como o escrevo que baixa a cabeça diante do seu senhor para não ser chicoteado.

Na Faculdade de Direito de São Paulo, um movimento se uniu para defender a democracia ferida pelos agressores extremistas que se manifestaram a favor de uma ditadura. Foi divulgado uma carta em defesa do estado de direito e da liberdade de expressão.

Somos humilhados, chamados de candangos imprestáveis e não reagimos. Passou da hora dos intelectuais, dos artistas, líderes políticos da esquerda, estudantes, professores, trabalhadores em geral, entidades e associações, sindicatos, OAB e outras instituições fazerem uma carta aberta em defesa da nossa região.

O que me deixa inquieto é que poucos levantam a voz pedindo respeito para calar a boca desses imbecis cretinos que ainda falam em pátria, Deus, família e liberdade, mas não passam de anticristos demoníacos que só destilam veneno e nada têm de cristãos, muitos menos prezam o livre pensar.

O Nordeste que já fez tantas rebeliões, como a conjuração baiana, a revolta do malês, a balaiada, canudos, a expulsão dos portugueses na Bahia, com a independência do Brasil, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e em seus outros estados, agora se faz submisso e se deixa ser humilhado como raça inferior.

Onde está a fibra do nordestino, celeiro da cultura e das artes, de gente forte e destemida que enfrenta todas as adversidades, como a inclemência da seca, e não arreda pé de uma boa briga, nem leva desaforo para casa? Vamos continuar inertes ouvindo xingamentos e preconceitos xenófobos contra nós, sem nada fazer? Viro uma fera quando falam mal do meu Nordeste.

O MAIOR QUEBRA-MOLA DO MUNDO

Dizem que o brasileiro e o baiano são os maiores piadeiros do mundo, com tudo faz chacotas e gozações, no bom sentido. Vitória da Conquista já foi a cidade das flores, das boiadas, do frio, capital dos quebra-molas e agora inventaram essa de “Suíça Baiana”, coisa de complexo de pobre querendo ser rico. Quando se quiser dar uma referência para um encontro qualquer nas imediações da Avenida Régis Pacheco se diz perto do “Bigode de Pedral”, uma piada que pegou. Essa obra também levou a alcunha de maior quebra-mola do mundo. Poderia até ser inscrito no livro dos recordes. É a nossa Conquista de clima ameno e inverno rigorosos como foi neste ano. Com a minha idade já avançada ando pensando até em passar esse período em Teresina, em Palmas, Fortaleza ou aqui mesmo em algumas terras quentes baianas, mas sem grana para isso, preciso de um benfeitor ou patrocinadores porque o véio não aguenta mais essas baixas temperaturas. Mudei até de assunto, mas aqui, ou em outro lugar, sempre vou lembrar do maior quebra-mola do mundo onde milhares todos os dias cruzam aquele elevado vindo do oeste com destino ao centro resolver seus problemas do dia-a-dia naquela cotidiana correria pela sobrevivência.

UNS TÊM, OUTROS NÃO…

Mais recente poema de autoria de Jeremias Macário

Uns nascem,

Outros morrem.

Muita gente a guerrear,

Outros preferem amar;

Uns a brigar por ideologia;

Outros na labuta do dia a dia.

Tem a luta de classe,

Do capital contra o trabalho,

A crise e a boa fase,

Encruzilhada e atalho.

Uns se casam,

Outros se separam.

Tem a despedida na partida,

Os que ficam,

No adeus da saudade.

Existem os livres,

E os que não têm liberdade;

Os oprimidos e opressores,

Os rotos e esfarrapados,

Nobres, pobres e doutores,

Nesse mundo de todos,

Dos odiados e amados.

Uns colhem espinhos,

Outros rosas e flores.

Tem as mesclas e os linhos,

E cada um com suas dores.

Para uns, o céu,

Outros, o inferno.

Tem a abelha no mel,

A praga no plantio,

O simples passageiro,

O Supremo eterno,

E a terra com seu cio.

Uns pensam ser duque e barão,

Outros só querem viola e canção.

Tem a tirania,

A prosa e a democracia,

O alvorecer e o poente,

O pensar em cada mente.

Uns sobem e outros descem,

Nessa louca multidão,

Onde o monge faz sua oração.

Uns protestam,

Outros ficam calados;

Uns no forró e samba,

Outros vão de valsa e fados;

Uns gozam e amam,

Outros fingem que sim,

No início, meio e fim.

Tem o choro em pranto;

Muitos sem nada,

E poucos com tanto.

Muita fonte e fartura,

Tanque seco, gado berrando;

Saúde e doente sem cura.

Uns com alma de menino,

Outros com instinto assassino.

Tem o pau-de-arara retirante,

E o patrão escravista arrogante.

Uns semeiam primaveras,

Outros taras e feras.

Tem a pura ternura,

O sangue frio da secura,

Os estradeiros da poeira,

E os que nem abrem porteira.

Tudo é mistério e filosofia,

Encanto e poesia.





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