A TECNOLOGIA ULTRAPASSADA
Nem tanto antiga assim, mas com os avanços acelerados das pesquisas, ninguém mais se fala através de um telefone público. Numa viagem pelo sertão da Bahia até Juazeiro me deparei com essa peça que caiu em total desuso, mas ainda continua lá como relíquia de museu e nos faz lembrar daqueles tempos das moedas e dos cartões telefônicos. Havia até filas para alguém se comunicar com um amigo ou parente, muitas vezes distante, em outros estados. Podia ser para namorar, dar notícias da vida e a negócios urgentes. As lentes da minha máquina flagraram duas peças dessas, um no povoado de Jenipapo, em Jacobina, e outra na Tabela, um lugarejo rural pertencente a Piritiba onde me cresci moleque. Naquela época o fogão era a lenha e quase não se tinha energia elétrica, a não ser movida pelo motor a diesel. No interior, nem se falava em telefone, quanto mais o público. Na tecnologia atual, pouco se fala pelo telefone, mas através de mensagens, vídeos ou áudios nos celulares móveis que ninguém larga da mão por nada, até na hora de comer e tomar banho, inclusive de mar. Virou um vício para a grande maioria, para não dizer uma droga. Para uns, o antigo era os melhores tempos. Para outros as coisas mudaram para melhor, mesmo com a violência e os assaltos. É o avanço da tecnologia que vai deixando rapidamente as inovações para trás, sem uso e ultrapassadas.
O SERTÃO EXUBERANTE!
Depois que batem as chuvas, o sertão do semiárido brota exuberante de encher os olhos, como observei nas paisagens verdes saindo de Vitória da Conquista para Juazeiro. As flores se abrem, as águas jorram para todos os lados, os rios transbordam e a terra fica viçosa para alegria do sertanejo que vê chegar a fartura.
Logo partindo de Conquista, na boca do sertão para Anagé, o colorido toma conta com árvores floridas que substituem os engaços cinzentos dos tempos da seca onde só o mandacaru, os cactos e a palma sobressaem, para tristeza do homem do campo que fica sem água e alimentação para si e seus rebanhos.
As duas épocas servem de contrates nas lentes das máquinas fotográficas e ambas produzem lindas fotos, umas de desolação e outras de esperança e fé. As reportagens são diferentes, mas enchem as páginas dos jornais, e as imagens ilustram as televisões e as redes sociais.
Os açudes, tanques e barreiros secos voltam a dar vida com as chuvas, como nos últimos meses. Dá gosto ver a natureza renovada e sentir o vento cortante balançar as árvores exuberantes, como os ipês e outras espécies da caatinga.
Os animais se alimentam da seiva de barriga cheia. Os sapos saltam das lagoas e as aves cantam com mais harmonia. Todos agradecem a fartura. Os frutos ficam mais saborosos, como os umbus e até me aventureirei nos matos para catar essas delícias.
Pena que o homem não aprendeu zelar por toda essa riqueza natural e ainda joga lixo nas estradas e derrama esgotos e detritos nos rios. Toda essa sujeira pode ser vista nas corredeiras e nas margens dos rios e riachos, poluindo nosso amado meio ambiente.
É o sertão forte e bonito de se ver. Entristece a alma quando bate a estiagem e o sertanejo é obrigado a se retirar para outros rincões mais distantes da sua terra natal. É bom retornar, mas é necessário refletir e mudar de comportamento quando se trata de preservar a natureza que ela nos presenteia com suas dádivas.
Confesso que fiquei encantado em ver toda essa exuberância nos mais de mil quilômetros de viagem, mas em minha mente também passavam os fleches dos engaços e bagaços, dos carros-pipas levantando a poeira das estradas para abastecer as cisternas desse semiárido tão castigado que os governantes pouco dão a devida assistência e apoio para se conviver com as secas.
DO SUDOESTE, NORTE E SUL
NOSSO SÃO FRANCISCO CONTINUA MALTRATADO
Foi uma viagem que me fez lembrar dos velhos tempos que saia de férias cortando estradas de carro por vários estados, especialmente na região Nordeste, da qual me orgulho em apreciar suas lindas paisagens e interagir com a cultura das pessoas.
Foram cerca de quinze dias e quase três mil quilômetros percorridos com minha companheira e parceira Vandilza Gonçalves. No início do mês atravessamos a Chapada Diamantina por várias cidades históricas, como Ituaçu, Barra da Estiva, Mucugê, Andaraí, Rui Barbosa, entre outras, rumo a Juazeiro, no norte da Bahia.
Nem é preciso dizer o quanto prazeroso ver um sertão exuberante e colorido que há sete meses estava entre os engaços e bagaços da sequidão. Muita água nos rios, tanques, açudes e barreiros, sem falar das corredeiras das cachoeiras e das árvores coloridas, como dos ipês amarelos.
Foi uma viagem para rever amigos e parentes mais próximos, como minha filha Cíntia e primos. Prazer por mais uma visita ao “Velho Chico”, dessa vez transbordando, mas ainda necessitando de revitalização. No retorno fizemos o roteiro por Senhor do Bonfim, Jacobina e Piritiba, com a mesma finalidade.
Felizmente as estradas estão recuperadas, o que facilitou esse trajeto sem aquele cansaço e irritação quando se depara com buraqueiras. Mesmo assim, falta acostamento nas estaduais. Vimos coisas que não gostamos, como as sujeiras por esgotos nas margens do rio São Francisco.
Procurei me desligar dos assuntos mais polêmicos e falar de assuntos mais leves sobre a vida e outras fofocas de parentes que sempre estão no script, mas fui arrebatado com a invasão dos vândalos e terroristas aos três poderes, no domingo dia 8 de janeiro.
Procurei deixar o espírito fluir com as prosas dos caboclos e caboclas nas paradas estratégicas. É bom sentir aquela aconchego sincero e hospitaleiro das pessoas simples que nos recebem com presentes nas saídas. Mesmo com essa tecnologia de doido, ainda existe vida.

CACHOEIRA NA CHAPADA, EM ANDARAÍ
Em Jacobina, no povoado de Jenipapo, onde moram uma das minhas irmãs e sobrinhos, um senhor já idoso gostou quando falei que residia em Vitória da Conquista. Lembrou dos tempos de caminhoneiro e foi logo dizendo que a cidade era dividida em duas pela Rio Bahia, ou BR-116, uma era Vitória e a outra era Conquista. Não quis se convencer que era em duas zonas, a oeste e a leste.
Papos engraçados e muitas estórias, como em Piritiba, mais precisamente na localidade chamada de Calderãozinho onde me criei ainda menino. Foi como entrar no túnel do tempo no chão que plantei mandioca e transportava farinha em lombos de jumentos com meu pai.
SUJEIRAS DE ESGOTOS NO RIO PARDO, EM CANAVIEIRAS
Não sabia que era tão famoso por aquelas vizinhanças dos povoados da Tabela e Andaraí. Aquele jeitão rústico e “bruto” do velho deixou suas marcas com suas cismas, mas, principalmente, por ser um homem de palavra, coisa que não mais existe.
De Vitória da Conquista fomos ver o mar nas praias de Canavieiras, saindo do norte para o sul da Bahia. Pela rota de Itambé, Itapetinga e Potiraguá, entramos na BR-101 e saímos em Santa Luzia até o trevo para Canavieiras.
O cenário de boa parte das estradas é de buraqueiras e, em alguns locais, como próximo a Potiraguá, nem existe mais asfalto. Um verdadeiro sofrimento para os turistas que descem de Brasília e Goiás.
De Santa Luzia até perto de Canavieiras, a situação é precária com alto risco de acidentes. Uma vergonha para o governo baiano que faz propaganda enganosa sobre vias que ainda se encontram em estado de conservação.
Fiquei triste com as sujeiras que vi nas margens do rio Pardo que desagua no mar. O homem continua destruindo a nossa natureza, não sabendo que terá um retorno desastroso.
No centro histórico, carente de reformas, muitos casarões estão abandonados, mas compensa visitar a Galeria do Porto de um senhor suíço por nome Cristian que criou um verdadeiro museu com antiguidades preciosas e raras. No mais, sentimos na pele a carestia e a exploração, como sempre, dos turistas nesta época do ano.
EM VISITA AO “VELHO CHICO”
Mais uma vez cá estou eu visitando o “Velho Chico” e desta vez cheio e “exuberante”, nem tanto porque ele continua recebendo detritos e esgotos das cidades que o margeiam, como em Juazeiro.
Isso é triste de dizer, mas é uma verdade porque passam anos e as autoridades nada fazem para sua revitalização e limpeza. Há anos que o homem só faz dele retirar seu alimento e utilizá-lo para irrigação de seus frutos.
Lembro que há anos estive aqui e em outras cidades. Fiquei triste porque estava vazio e seco mostrando ilhas de areias. Havia locais que se passava andando e nem os barcos nele navegavam.
Atualmente tem água em abundância graças as chuvas enviadas por São Pedro, como sempre fala o homem popular e os ribeirinhos. É tempo de abundância natural, mas basta um período de estiagem para o “Velho Chico”, ou o São Francisco, pedir socorro.
Por enquanto, ninguém mais fala da escassez de peixes, das plantações morrendo, dos rebanhos percorrendo distancias para saciar sua sede, da sua foz sendo invadida pelo mar e o sal penetrando em seu leito adentro.
Quem mais lembra do frade à beira do rio fazendo greve de fome para impedir a transposição do rio para os estados nordestinos? Faz muitos anos e, de lá para cá, nenhum projeto para impedir que as sujeiras das cidades sejam jogadas no “Velho Chico”.
O homem é um predador voraz que não respeita o meio ambiente e não aprende que ele reage quando é maltratado! Depois que chegam as mazelas, é só rogar a Deus e pedir que mande chuva! Além do mais, quando a situação fica difícil diz que é assim que o Senhor quis.
“FLUXO E REFLUXO” V
Costa a Sotavento da Mina: O tráfico em Ajudá (Uidá)
Os primeiros navegadores, os portugueses, fundaram o castelo de São Jorge da Mina, em 1482, na Costa da Mina. Mais tarde Portugal ficou sob domínio da coroa da Espanha, de 1580 a 1640. No século XVII os holandeses se apoderaram de Pernambuco e das ilhas de São Tomé e Príncipe, bem como de Angola e do castelo, em 1637.
Com essa intervenção holandesa, conforme cita o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger em sua clássica obra “Fluxo e Refluxo”, Portugal perdeu o monopólio do comércio na costa da África. Por mais de um século, o tráfico negreiro dos negociantes baianos, principalmente, viveu períodos de desordens e intrigas, sem falar no contrabando do ouro, subornos e conflitos.
Somente no final do século XVII o comércio na Costa da Mina se desenvolveu com a Bahia. Segundo Verger, o estatuto das nações europeias era diferente na Costa do Ouro e na Costa a Sotavento (Golfo do Benin).
Na Costa do Ouro, elas estavam fortemente entrincheiradas em fortalezas construídas à beira mar, sólidas para resistir aos assaltos dos chefes indígenas ou das embarcações piratas. Os europeus dominavam o mercado local e proibiam o acesso aos navios das nações estrangeiras, caso de Portugal.
No entanto, na Costa da Mina, as fortificações em Uidá se situavam no interior das terras, sendo incapazes de resistir por muito tempo aos ataques das autoridades indígenas (reinos que sempre viviam em guerras).
Em “Fluxo e Refluxo” o autor destaca que havia ao longo da costa uma série de pequenos reinos que guerreavam uns contra os outros, especialmente na Costa da Mina. O reino de Ardra, por exemplo, controlava os caminhos desde o interior. Podia bloquear quando bem quisesse e cortar o abastecimento de escravos em benefício do seu porto. Por sua vez, esse reino era submisso ao seu vizinho Oyó, ou Ulcumy, que era grande inimigo do rei de Daomé.
Como a situação era vexatória e o comércio desorganizado por causa das intervenções holandesas que obrigavam que baianos e portugueses negociassem com eles no castelo de São Jorge pagando um tributo de dez por cento, desde 1680 Portugal tentava construir um forte em Uidá, mas sem sucesso.
Por volta de 1698 as desordens prosseguiam na costa em virtude dos conflitos entre os reinos que impediam que o tráfico fluísse. A situação dos portugueses era delicada e desconfortável depois da tomada do castelo de São Jorge pelos holandeses.
Os descendentes dos antigos comerciantes que viviam na costa serviam de intermediários para o fornecimento de escravos às embarcações do tráfico do Brasil e das diversas nações europeias.
No entanto, muitas vezes o comércio se invertia e as trocas ocorriam com os ingleses, franceses e holandeses que tinham interesses em negociar com tabaco e ouro que no Brasil levava para a Costa da Mina de forma clandestina.
As autoridades, como os vice-reis, governadores, o Conselho Ultramarino e os comitês (Mesas de Negócios da Bahia) tentavam estabelecer regras, mas eram violadas pelos próprios negociantes e donos de navios onde cada um procurava realizar seu negócio.
Essa falta de ordem e má conduta dos portugueses terminavam arruinando o comércio e elevando os preços dos escravos que já eram escassos por causa das guerras. Para ter cativos de qualidade, capitães de navios chegavam a pagar o dobro do preço.
Existia até uma rivalidade entre Lisboa e a Bahia pelo controle do comércio na costa da África. Os negociantes da Bahia se recusavam a buscar escravos em outras regiões, como recomendava Portugal.
Na tentativa de resolver o problema, o vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Menezes autorizou, em 1721, o capitão Joseph de Torres a construir um forte em Uidá (Ajudá), só que tempos depois foi destruído nas guerras. O próprio capitão tinha fama de trapaceiro e chegou a ser preso pelo reino de Portugal. O projeto não deu os resultados esperados.
MONUMENTO AOS PRESOS POLÍTICOS
Está na Praça Tancredo Neves. Muitos passam por lá, mas não sabem o que representa aquela escultura que, inclusive, serviu de ilustração para a capa da minha obra “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio”. Trata-se de uma homenagem aos presos políticos baianos que tombaram durante a ditadura civil-militar de 1964. Na lista, a conquistense Dinaelza Coqueiro que lutou na Guerrilha do Araguaia. Nessa época, o monumento está todo iluminado, e a imagem é justamente de uma pessoa que se rende à brutalidade do regime dos generais que durou quase 30 anos no Brasil. Vitória da Conquista também esteve no roteiro das prisões em maio de 1964 quando o prefeito Pedral Sampaio, eleito democraticamente em 1962, foi cassado do seu cargo pelas tropas do exército. Perdeu seus direitos políticos por 20 anos. Toda essa história é contada no livro “Uma Conquista Cassada”, do escritor Jeremias Macário. O monumento é uma homenagem aos que lutaram pela democracia. Infelizmente, a nossa juventude pouco sabe sobre esse período. O pior é que muitos nem acreditam que aconteceu, principalmente nestes últimos quatro anos de um governo negacionista que tentou apagar nossa memória, mas isso nunca irá acontecer.
VIOLEIRO VIAJANTE
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pelo meu canto de tocador,
Um dia meu pai,
Me chamou de vagabundo.
Botei minha viola na sacola,
Gastando sola, girando mundo,
Com meu pranto profundo.
Do Oiapoque ao Chuí,
Chorei nas motosserras Amazonas;
Naveguei pelos rios das chalanas,
Entre fumaças do Pantanal,
Onde o homem destila seu mal,
Contra a fauna e a flora,
Manda embora o tuiuiú e a sucuri.
Como violeiro viajante,
Fiz um tour,
Pela cultura gaúcha do Sul;
Bebi das maiores fontes,
Nas terras do meu Nordeste,
Dos cancioneiros cabras da peste.
Como violeiro viajante,
Cortei pontes, estradas e montes,
Pelos canais dos festivais,
Desses rincões nacionais,
Espalhei minhas mensagens,
Nessas longas viagens.
TEM UM NERO INCENDIÁRIO NA CIDADE
Primeiro foi o Atacadão, depois a garagem da Novo Horizonte e agora a Loja Havan, do bolsonarista Luciano Hang, que pegaram fogo e viraram cinzas. Minha intuição diz que tem um Nero incendiário rondando Vitória da Conquista, ou então o espírito dele que saiu lá de Roma para vagar por aqui.
Coisas misteriosas! Fui averiguar com meu antigo faro jornalístico, não tão bem apurado como nos velhos tempos. É a idade, meu amigo! Aliás, pelo que eu saiba, esses incêndios de grandes proporções em ricos estabelecimentos ainda não foram esclarecidos pelos peritos militares e o Corpo de Bombeiros que neste ano usou muita água e equipamentos para apagar as chamas.
Em primeira mão, como furo de reportagem, consegui entrevistar esse Nero incendiário (pediu para usar máscara para não ser reconhecido) e me afiançou que vem outros por aí, mas que vai deixar para o próximo ano que já está batendo na porta.
Adiantou, porém, que está ganhando uma grana boa para fazer isso, só não revelou o mandante, senão vai secar a fonte. Sua festa de final de ano vai ser boa e gorda! Certamente vai celebrar com muito fogos no réveillon da Boca do Rio, em Salvador, ou em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Esse Nero também toca sua lira quando sobem as labaredas, mas do seu esconderijo que ele não é besta de ser apanhado. O cabra fica mais delirante e eufórico quando a notícia nos blogs e redes socais correm mais rápido que rastilho de pólvora, sem contar os curiosos desocupados que se amontoam em frente dos incêndios, com o fumacê a invadir os céus de Conquista.
Pelo menos por um dia as pessoas esquecem dos acampamentos dos estúpidos irracionais “bozoristas” e até que o Lula vai tomar posse nesse domingo, coisa que eles ainda não acreditam. A esperança deles é pelo retorno de D. Sebastião, vindo das areias marroquinas, para decretar a intervenção militar.
Pelo menos Nero está conseguindo distrair os radicais extremistas e, por algumas horas, os opostos param de se odiar e xingar uns aos outros, mas ele disse que a intenção dele é outra, longe dessa política malvada. Vai e vem e ele está sempre falando em muito dinheiro rolando por aí. Será uma forma de lavagem através do fogo, ou queima de arquivos?
Em uma conversa descontraída, deixou transparecer que existe uma ponta de concorrência nesses atos, por isso que os setores são diversificados entre alimentos e bebidas, empresa de ônibus e o comércio de roupas, confecções e móveis. A única coisa que o Nero se incomoda é com a natureza que termina recebendo essa carga tóxica no ar, mas acrescentou que não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos.
Pelo menos o incendiário tem procurado fazer tudo com cuidado que se requer de um bom especialista, no sentido de evitar mortes humanas, mas solta uma risada quando afirma que está dando muito trabalho aos bombeiros que não conseguem conter as labaredas.
A ideia, segundo ele, é essa mesma, queimar tudo, sem deixar rastro, ou pistas. Indagado se pretende colocar a culpa em alguma religião, como católicos ou evangélicos, respondeu que eu estava especulando e querendo saber demais. No entanto, contou outras coisas que não posso citar aqui por questão de ética profissional.
UM ESTADO ASSISTENCIALISTA QUE TRAVA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL
Ninguém de bom senso é contra a urgência de matar a fome de mais de 30 milhões de brasileiros e dar comida a todos três vezes por dia, mas esse Estado de assistencialismo indefinido está a travar o desenvolvimento de uma sociedade mais igualitária onde todos tenham seu sustento com o trabalho do seu suor.
A situação tomou tais proporções que o Brasil está se tornando um país inviável em termos de crescimento econômico sustentável e não de altos e baixos de ciclos variáveis como virou comum. Esse quadro vem se arrastando e se agravando há séculos quando se deixou de priorizar a educação.
Chegamos ao ponto crítico onde mais de 100 bilhões de reais estão sendo carreados para tirar a nação do mapa da fome, quando essa montanha de recursos poderia estar sendo investida no ensino de qualidade, na saúde e no saneamento básico.
Mesmo de barriga cheia, todo esse contingente de famintos não vai deixar de ser pobre e miserável em seus barracos como pessoa humana. Esses milhões vão permanecer analfabetos ou semianalfabetos sem instrução para ingressar no mercado de trabalho.
Seus filhos, de um modo geral, vão deixar de receber uma educação integral porque vai faltar recursos suficientes no Estado para aplicar massivamente no setor e reduzir as desigualdades tão profundas. Sem dúvida, esses bilhões de reais vão circular no comércio de supermercados e lojas, apenas engrossando a concentração da riqueza em poucas mãos.
Pode até criar mais empregos, mas não para esses pobres que já não têm capacidade para atender as exigências das empresas por uma mão-de-obra mais qualificada. A classe média mais baixa que luta para elevar seu nível será a mais afetada. É o caso do cobertor curto que cobre a cabeça e deixa os pés desprotegidos.
Tudo é uma questão sociológica que deveria ter sido resolvida com a primeira Constituição de 1823, logo após a Independência do Brasil, quando o reformador e iluminista José Bonifácio de Andrada e Silva clamou por mudanças sociais, inclusive de distribuição de terras, visando a melhoria do povo, a grande maioria analfabeta (cerca de 98%) naquela época.
No entanto, D. Pedro I e sua elite oligárquica rural não deixaram e fizeram sua própria Carta onde todo poder teria que continuar emanando do imperador, tanto que a Assembleia Constituinte foi dissolvida.
Pelo menos era ali que deveria ter acabado com a vergonhosa escravidão. Nisso, até o Bonifácio dizia que ela teria que ser gradual e lenta para o bem dos poderosos que diziam que sem os escravos o destino do Brasil seria a ruína.
Outra oportunidade perdida para fazer um Brasil socialmente justo foi em 1888 quando da atrasada proclamação da Lei Áurea. Os abolicionistas André Rebouças, Luiz Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco fizeram manifestos e panfletagens por reformas estruturais. Muitos deles incluíram na lista a reforma agrária como uma das medidas para indenizar os ex-escravos.
Mais uma vez, os senhores proprietários de terras (os grandes cafeicultores) e a burguesia usaram de seus poderes e pressionaram o Império a deixar tudo como estava, na miséria total. Eles mesmos derrubaram o imperador D. Pedro II em 1889 com seus marechais e tudo continuou como estava mandando no poder.
A partir dali a pobreza só fez aumentar e o caldo engrossou mais ainda com o êxodo rural do campo para as cidades a partir do início e meados do século XX. Com o processo de industrialização os centros urbanos incharam nos morros e favelas, sem nenhuma estrutura, com uma massa de trabalhadores desqualificada e desempregada a vagar pelas ruas como mendigos.
Desse imbróglio indigesto brotaram a pobreza e a extrema pobreza onde o Estado, por obrigação e dever se tornou assistencialista por natureza. É uma dívida de séculos a ser paga agora, com um alto custo e sacrifício para as finanças, ainda mais que serve para parir votos a fim de que tudo permaneça no mesmo. O resultado é que os outros setores essenciais (educação, saúde e saneamento básico) ficam a descoberto (cobertor curto), inviabilizando o desenvolvimento de uma nação.
Infelizmente, as nossas elites capitalistas retrógradas e os políticos reféns delas estão no cerne de toda essa história macabra, para não dizer trágica, que é um país de mais de 100 milhões que são vítimas da insegurança alimentar, comem alguma coisa hoje, mas não sabem do dia do amanhã.
Na verdade, estamos num beco sem saída em um Estado que está se tornando inviável. Não se sabe quando esse quadro será revertido. O futuro é nebuloso. Até quando vai perdurar esse esquema assistencialista? Essa PEC bilionária fora do teto de gastos, aprovada pelo Congresso, para acudir os que passam fome, tem duração de apenas um ano, mas daqui para lá dá-se um jeito.
TEM VAGA PARA TODO MUNDO
Há um mês que o Lula vem preenchendo seus ministérios (36 ou mais) e secretarias para atender aos seus apoiadores onde cada um quer levar seu quinhão no bolo que lhes pertencem. Na política pode até ser natural “presentear” quem também comeu “poeira” nas eleições, mas será válido inchar a máquina do Estado mais ainda?
Calma gente, vai ter vaga para todo mundo, não briguem! Acontece que nessa repartição já apareceram os descontentes porque as maiores e as melhores fatias vão ficar para a turma do PT. Para atender a todos os gostos, o negócio é criar novas pastas esquisitas com cargos comissionados por todos esse país de mais de 30 milhões de famintos.
No governo da Bahia, o estilo é o mesmo de distribuição de secretarias, inclusive da Juventude. Por que não do idoso? Esta categoria nem é lembrada pelas políticas públicas que se resumem no Bolsa Família. Até o momento não vi falar num projeto sequer para reduzir a miséria através da geração de emprego e renda para esse contingente populacional.
Na verdade, o Brasil é um país rico que se dá ao luxo de ter um dos Congressos mais caros do mundo. De acordo com estudos, a Justiça no Brasil tem quatro vezes mais funcionários em relação ao tamanho da população e gasta quatro vezes mais em relação à sua economia do que nos países ricos.
Essa bagunça não é de hoje, vem de séculos quando o reino de Portugal, mesmo nos anos mais cruciais e difíceis mantinha seu luxo com as riquezas das suas colônias, especialmente o Brasil que sempre foi a maior galinha dos ovos de ouro, literalmente.
Nessa hora, todos partidos esquecem de suas ideologias quando disseram lá atrás que entraram no jogo apenas para defender a democracia e que não iam participar diretamente do governo. Falam de independência crítica, mas na hora dos postos de primeiro e segundo escalões, mudam de ideia.
É uma penca de ministérios e secretarias que vão faltar sedes, salas e cadeiras para tanta gente. Haja grana para montar toda essa estrutura pesada. É o chamado elefantismo estatal que poderia ser reduzido à metade, provavelmente funcionando melhor com menor custo.
Estamos falando apenas nos ministérios, sem contar os cargos de gabinete dentro do Palácio do Planalto onde todos são chamados de ministros, com direito a todas as mordomias e benesses pagas pelos contribuintes. Haja cartões corporativos!




























