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O MUNDO ATUAL ESTÁ INSUPORTÁVEL!

Tenho ouvido por aí de alguns internautas nas redes sociais muitos pensamentos aproveitáveis sobre a vida, o amor, o nosso cotidiano, com cunho positivo e outros até de revolta e desabafo negativista contra tudo que ocorre ao nosso redor nesse bruto sistema do qual somos vítimas.

Antes as pessoas olhavam olho no olho e tinham aquele papo reto de confiança um no outro. Hoje as amizades são mais virtuais e não se pode falar muita coisa porque corre o risco de se comprometer, ser mal interpretado ou se expor. Existe um monte de besteiras que podem ser jogadas na lixeira.

Como dizia, tenho lido expressões de incentivo para seguir em frente, mesmo diante das adversidades, e também de ansiedade e angústia, como esta de que o mundo atual é insuportável. Não deixa de ser uma verdade diante dos absurdos que vemos, da ganância do ter sobre o ser, das injúrias, mentiras, do ódio e da intolerância.

Essa tecnologia tanto pode nos aproximar para o bem como para o mal e é vista por muitos com desconfiança porque nela existe por detrás um inimigo invisível que pode nos ferrar com imagens montadas, falas simuladas e outros truques maldosos. Não se sabe quem está do outro lado da linha. Muitas são figuras fantasmas.

Sobre a questão do mundo insuportável, a pessoa que disse isso certamente se sente decepcionada e desiludida, talvez tanto quanto eu com essa humanidade falsa capitalista, não que todos sejam assim. No entanto, no geral nos sentimos menos humanos quando vemos brotar por aí tantas injustiças e desigualdades sociais.

Mesmo com a evolução tecnológica nos deparamos com tanta burocracia para se viver e ainda ficamos discutindo as questões sobre a cor da pele, de gênero, de sexualidade, de religião e outras idiotices, o que só faz demonstrar que não nos evoluímos.

Mundo insuportável porque hoje com essa onda onde tudo é visto como racismo e preconceito, não podemos expor abertamente nossas ideias, separando o que é meritocracia do que é mediocracia. Sem essa se sou negro, mulato, sarará, amarelo, moreno ou branco. O que deve contar é o caráter, a honestidade e, sobretudo, a capacidade.

Mundo insuportável porque não nos sentimos humanos nesse mundo quando se destrói o meio ambiente em prol de um desenvolvimento de concentração de rendas onde os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. Insuportável porque o outro lhe acha insuportável. Insuportável porque não tenho mais segurança de andar nas ruas com tranquilidade. A violência nos acompanha.

Insuportável quando vemos imagens esqueléticas de crianças, jovens e idosos famintos. Insuportável pela falta de respeito para com o outro quando se pensa em só passar a rasteira. Insuportável pelo consumismo exacerbado que muitos acham que traz felicidade. Insuportável pela falta de convivência mútua e sincera onde o amor virou objeto descartável.

O próprio mundo político e social dos tempos atuais se tornou insuportável. O que temos hoje são oportunistas e aproveitadores sem nenhuma ideologia que vive a trair o voto do eleitor, não importa se de direita, centro ou de esquerda.  Insuportável para os honestos de senso crítico que pensam no coletivo e suportável para os insensatos e aqueles que só pensam em seus interesses individuais.

Mundo insuportável! O que podemos fazer para que ele se torne suportável? Alguns devem perguntar: Será que ainda existe conserto? Os otimistas acreditam que sim e responderão que insuportável deve ser sua vida. Cada um faz por torná-la em céu e inferno. Para os pessimistas realistas, a tendência, meu amigo, é piorar porque está muito difícil voltar ao tempo da concórdia.

 

 

DIA NACIONAL DO FORRÓ

Não poderia deixar de registrar e passar em branco o Dia Nacional do Forró, pouco comemorado na data de 13 de dezembro. Na verdade, forró virou sinônimo de Luiz Gonzaga, o rei do baião que, se vivo fosse, estaria completando 110 anos.

É o nordestino “cabra da peste” que saiu daqui e foi divulgar nossa cultura no Rio de Janeiro, na Feira de São Cristóvão. Aliás, ele levou o nosso forró para todo Brasil e para o mundo com canções memoráveis e eternas, como Asa Branca, Triste Partida e tantas outras.

Por ser um ritmo principal das festas juninas do Nordeste, mais ainda me identifico porque me sinto orgulhoso de ter nascido nessa região, tão rica culturalmente. No entanto, quando se fala do “Gonzagão”, temos que lembrar também de seus parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas, sem esquecer Patativa do Assaré, que fizeram com ele lindas canções.

O Dia Nacional do Forró não é tão celebrado quanto o samba quando sambistas fazem festas em vários cantos do país, inclusive com arrastões e carros de som pelas ruas e avenidas atraindo multidões. Por que será? Entendo que o samba tem tanto seu valor quanto o forró, dois ritmos populares que estão ligados às raízes da nossa gente.

Aproveitando a ocasião, quero deixar aqui o meu recado, como sempre faço em meus comentários na época dos festejos juninos. Trata-se do meu repúdio sobre a descaracterização que vem sofrendo o nosso forró ao longo dos últimos anos numa mistura de lambada, arrocha, axé, pagode e até rock, não que seja contra quem gosta desses sons.

Fico muito triste quando vejo prefeitos em pleno São João contratarem bandas a preços altos, com o dinheiro do contribuinte, que nada têm a ver com o nosso forró. Deveria haver uma lei nacional rígida aprovada pelo Congresso, proibindo esse tipo de coisa com punição severa para qualquer executivo municipal que colocasse no palco qualquer cantor ou banda que não fosse forrozeira.

Não me venha com essa que tal artista “famoso” de outro ritmo atrai mais a população. Muitas vezes são lixos musicais sem letra e conteúdo que fazem deformar mais ainda o nosso povo.

Coloquem coisa de qualidade do nosso forró legítimo, chamado “forró pé de serra”, que enche qualquer praça, como já aconteceu aqui em Vitória da Conquista. Tudo depende de uma decisão política com seu coordenador ou secretário de cultura.

Vamos sim, valorizar o nosso forró que nasceu no Nordeste e encanta os nordestinos nas festas. Não adianta decretar o Dia Nacional do Forró se não houver por detrás uma campanha dos governantes e de todos artistas no sentido de valorizar o nosso patrimônio imaterial.

Forró é Maranhão, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará, Paraíba, Sergipe, Alagoas e Bahia. Forró é a sanfona, o zabumba e o triângulo. São dois pra lá a dois pra cá. São letras que falam da nossa terra, das tradições e dos costumes da nossa gente.

 

O SARAU A ESTRADA E A CASA DA CULTURA DISCUTIRAM “TROPICÁLIA”

Dessa vez, o Sarau Colaborativo A Estrada foi realizado, no último sábado (dia 10/12) na bela casa do poeta, compositor e músico Dorinho Chaves, no Bairro Brasil, numa parceria com a Casa da Cultura Carlos Jheovah. Conceição (Conça), a companheira de Dorinho, foi a nossa anfitriã, bastante atenciosa e dedicada com os convidados presentes.

O tema foi “Tropicália” em homenagem a Gal Costa, conduzido por Dorinho que falou das origens do movimento, misturando “Por que não dizer que falei das Flores (Caminhando e Cantando) de Geraldo Vandré, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinan, Tom Zé e outros grandes artistas famosos que fizeram músicas de protesto contra a ditadura civil-militar de 1964.

Na verdade, foi um movimento de cunho modernista que teve suas origens entre o final dos anos 50 e início dos 60 até os 70, com a rebeldia dos jovens (hippies) que resolveram fazer uma radical mudança das ideias conservadoras, coincidindo com o regime ditatorial.

Na ocasião também foi lembrado “O Movimento Modernista de 1922” (cem anos) com Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral dentre outros que revolucionaram as artes no Brasil, criando o modernismo e culminando com o Manifesto Antropofágico.

O professor Itamar Aquiar, um dos maiores frequentadores dos nossos saraus, numa linha mais academicistas foi bem mais longe no tempo e nos trouxe Jean Paul Sartre com sua filosofia existencialista até chegar aos tempos atuais da Tropicália com sua linguagem de protestos contra o sistema daquela época.

Foi mais uma bela noite cultural onde o nosso diretor artístico Manu Di Souza comandou as cantorias ao lado de Papalo Monteiro, o próprio Dorinho e logo depois o nosso amigo Baducha, exaltando a nossa música popular brasileira. Não faltaram as comidas (uma gostosa carne com aipim) e as bebidas, sem falar no bom papo na troca de conhecimentos, num clima sempre fraternal.

Participaram do evento cultural o jornalista e escritor Jeremias Macário com sua esposa Vandilza Gonçalves, José Carlos, Cleide, Maria Luiza, amigos de Dorinho e o pessoal da Casa da Cultura. Foi mais uma noite prazerosa que deverá ser repetida em fevereiro do próximo ano no “Espaço Cultural A Estrada” com o tema sugerido “Uma Nação em homenagem aos ciganos que nunca tiveram sua pátria.

MARROCOS SE “VINGA” DOS SEUS COLONIZADORES

Carlos González – jornalista

Os deuses do futebol estão proporcionando neste momento ao Marrocos a oportunidade de se “vingar” dos colonizadores, que ocuparam seu território desde o período das Grandes Navegações, financiadas pelos monarcas portugueses e espanhóis, a partir dos primeiros anos do século XV. Na surpreendente campanha na XXIIª Copa do Mundo, a seleção marroquina eliminou os dois países da Península Ibérica, e, se depender do apoio do mundo do futebol, “dará o troco” à França na segunda semifinal de amanhã (dia 14).

Ao contrário dos métodos ambiciosos e opressivos de belgas e britânicos, que exploravam as riquezas do solo dos territórios invadidos, ou a exploração da mão de obra dos seus povos, portugueses, espanhóis e franceses se sentiram atraídos pela posição geográfica do Marrocos, cujo imenso litoral é banhado pelo Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, e pela facilidade de acesso ao sul da Europa através do Estreito de Gibraltar.

A vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial causou a desocupação de territórios ocupados na África. Antes, uma insurreição popular expulsou os colonizadores portugueses, mas França e a Espanha só aceitaram a independência do Marrocos em março de 1956, e a consequente volta ao país do sultão Maomé V, que se achava no exílio. A Espanha mantém sob sua jurisdição em território marroquino, as cidades de Melilla e Ceuta (porto de grande importância comercial situado na entrada do Estreito de Gibraltar).

Marrocos conseguiu envolver sob sua bandeira uma enorme legião de torcedores, não somente o mundo árabe e a África Negra, mas legiões de imigrantes que vivem na Europa. Uma das virtudes dos torcedores marroquinos, que têm lotado os estádios no Catar, é o de ter abraçado a causa palestina, cujo território no Oriente Médio é reconhecido como Estado pela FIFA, mas não pela ONU, devido a pressão de Israel e Estados Unidos.

Após a desclassificação de sua seleção e a de Portugal, os brasileiros vestiram a camisa do Marrocos. Está provado que nove entre dez brasileiros escolhem a cidade de Buenos Aires quando planejam fazer sua primeira viagem ao exterior, mas, nem por isso, sugira a um torcedor da amarelinha dar seu apoio hoje aos “nuestros hermanos argentinos”,

“Pachequismo” e “vira-latismo”

“Acorda Pacheco e vai trabalhar porque o Brasil já está fora da Copa do Mundo”. O fanático torcedor ainda não tinha tomado consciência de que nesta terça-feira, dia 13, sua seleção já havia deixado o Catar. O chamado da mulher desfez o seu sonho. Comércio e indústria funcionarão normalmente; os órgãos governamentais não decretarão ponto facultativo; professores e alunos estarão nas salas de aula; e a campanha de vacinação não será interrompida.

“Pacheco”, personagem desconhecido para os que nasceram neste século, foi criado por uma agência de propaganda um ano antes do Mundial 82 da Espanha, estimulada pelo clima de euforia dos torcedores. Ninguém duvidava que a seleção que tinha Júnior, Falcão, Zico, Cerezo e Sócrates traria o “caneco”.

A Gillette do Brasil abraçou “Pacheco” e até selecionou um dos seus funcionários, o carioca de 40 anos, Natan Pacanowski, para dar vida ao personagem, que, vestido a caráter, desfilava pelo Rio de Janeiro, incentivando os torcedores e promovendo um produto comercial.

Contrariando o técnico Telê Santana, Pacheco (ou Natan) estava presente em toda a programação da seleção, viajando inclusive no mesmo voo para a Espanha e se hospedando nos mesmos hotéis. Medrado Dias, chefe da delegação da CFB, comentou que “Pacheco” estava “aparecendo mais dos que os jogadores”.

Depois dos três gols do italiano Paolo Rossi, que decretaram a eliminação do Brasil, “Pacheco” despiu a fantasia e assumiu sua verdadeira identidade. Decepcionado, trocou os jogadores de futebol pelos cavalos e foi ser comentarista de turfe num rádio carioca. “Pacheco” deixou milhões de descendentes, que a cada quatro anos jogam suas fichas na bilionária seleção brasileira.

O “pachequismo” teve pelos menos a virtude de desmistificar (talvez) o conceito de vira-lata atribuído ao brasileiro pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, após a derrota de 50, no Maracanã:  “Entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”, escreveu.

Num ano marcado pelo ódio bolsonarista e religioso – será que vão chamar Sherlock Holmes para descobrir quem incendiou a escultura de Mãe Stela de Oxóssi, em Salvador, quando todos nós sabemos? -, os brasileiros mais humildes, moradores das periferias, que levam dias sem ter o que comer, fazem um esforço e compram no camelô a “amarelinha” da seleção, e ornamentam de verde e amarelo os becos onde moram.

Esse ritual vem se repetindo desde 2006, mas sempre há um time da Europa (pela ordem, França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia) para impedir o tão sonhado hexa – o técnico Tite se recusou a fazer amistosos contra seleções europeias -, sob os mais diversos motivos.

A imigração africana e a desvalorização das moedas sul-americanas, principalmente o real e o peso argentino, vêm contribuindo para a evolução do futebol europeu, um cenário que não vai mudar nem a longo prazo. É o velho capitalismo, o mesmo sistema que na Copa de 54 derrubou a Hungria (soviética) diante da Alemanha Ocidental, em plena Guerra Fria.

A terra e a grama dos campos de futebol no Brasil, se procuradas, não seriam encontradas nas solas das chuteiras de 23 dos 26 jogadores que estavam no Catar.

 

 

 

NA PÁTRIA DAS DANCINHAS

Não que esteja condenando as danças (do pombo) dos jogadores brasileiros na Copa do Qatar, mas parodiando o cronista Nelson Gonçalves quando intitulou o Brasil de pátria das chuteiras, vimos mais dancinhas que foco no objetivo principal que seria chegar ao final do campeonato, pelo menos isso. Terminamos na pátria das dancinhas.

Muitos pintaram as cabeças de branco a lá Neymar em formatos de cuia e esqueceram de usá-la para se concentrar melhor nos lances quando o Brasil estava dando um a zero na Croácia. Vão dizer que brasileiro é assim mesmo, mas para que tanta papagaiada?

A Croácia, com mais seriedade e apetite de decisão, terminou dando pipoca para os pombos. O favoritismo repetido tantas vezes pelos técnicos adversários subiu à cabeça da equipe e não deram conta da missão que era ganhar de um país menor que o estado de Sergipe.

Com eles levaram as famílias, mulheres, filhos, netos, sobrinhos, cachorro e papagaio como se fossem a um piquenique ou a uma viagem de férias, como fizeram na África do Sul onde até alugaram casas. Numa competição como esta, os atletas (muitos desconhecidos dos torcedores) precisam é de concentração total e não de distrações, passeios e até folgas.

Tudo começou errado lá atrás em 2018 quando a seleção foi eliminada nas quartas (o Brasil sempre cai de quatro) pela Bélgica e a Globo, na voz do Galvão Bueno (poucos lembram disso), foi a primeira a defender a permanência de Tite como treinador. Ganhou todas dos pernas de paus, até de goleada.

A CBF acatou o grito de Galvão, o polivalente que faz as narrações, os comentários, papel de juiz e ainda a função de técnico dando berros nas jogadas, como passa a bola, pra cima deles, cruza, não faça isso e aquilo. Galvão deve achar que os jogadores ouvem  ele no campo. Montaram uma Central da Copa que se fala de tudo, menos de futebol. Mais parece um programa de humorismo. Talvez o Brasil fosse hexa se colocasse o Galvão como técnico e Tite como narrador.

Foi muita empolgação quando o Tite saiu arrasando os sul americanos nas eliminatórias, competindo com países fracos como Venezuela, Paraguai, Equador, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai, com exceção da Argentina, a mais forte.

Foram para o Qatar todos cheios de certeza de que a taça já era nossa e de mais ninguém. Foi fácil passar na fase de grupos. Nas oitavas pegou uma Coreia do Sul cujos atletas só fazem correr como tontos e ainda não aprenderam a jogar futebol.

Fizeram aquela lambança ou dança do pombo, enquanto os outros técnicos e suas equipes estavam nos hotéis concentrados, estudando os movimentos do Brasil em campo para neutralizar as “estratégias” do senhor Tite. Tirando o Neymar, o melhorzinho porque pouco se cuida, o resto dos jogadores é do mesmo nível. Nas substituições, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Não faz muita diferença.

Com as dancinhas e outras presepadas encheram os torcedores – a maioria entra na onda e pouco entende de futebol – de confiança ao acreditar que o Brasil estava com um time imbatível. Sobrou festa das dancinhas e faltou concentração e disciplina para enfrentar os inimigos na “guerra” da bola.

 

“FLUXO E REFLUXO” II

“As Três razões Determinantes das Relações da Costa a Sotavento da Mina com a Bahia de Todos os Santos”

A importância do tabaco da Bahia como produto nas negociações em troca de cativos africanos, principalmente na Costa da Mina.

Neste capítulo do livro de “Fluxo e Refluxo”, o fotógrafo e etnólogo Pierre Verger trata das negociações dos traficantes negreiros da Bahia na Costa da Mina entre os holandeses, ingleses e franceses, principalmente entre os séculos XVII e XVIII, incluindo o período em que a Espanha dominava Portugal que vivia em guerra contra a Holanda.

A pesquisa de Verger, que durou 20 anos, é recheada de dados históricos, datas e relatos de viajantes, capitães dos navios e governadores das províncias e fortalezas que existiam na Costa da Mina. Por Costa da Mina ele mapeia o Golfo ou a Baia de Benin, Guiné até o rio Lagos.

Em seus estudos, assinala que a Costa da Mina (Castelo São Jorge da Mina fundada pelos portugueses em 1482) era desprovida de interesse por Portugal. Nela não se encontrava ouro, especiarias e marfim para negociar.

Essa parte da África só veio adquirir importância no final do século XVII porque era lá que os navegantes da Bahia iam buscar seu reabastecimento de escravos. Apesar do tráfico na região ter sido posteriormente proibido aos portugueses, o nome Costa da Mina ficou ligada durante os séculos XVII e XVIII à parte leste de São Jorge da Mina.

Na Bahia “negro da mina” era aquele vindo da Costa a Sotavento, atual costa do Togo e do Benin. Somente nessa parte os negociantes baianos encontravam saída para seu fumo de terceira categoria que era proibido entrar em Portugal.

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, fundada em 1621, que reservava o monopólio do comércio para si na Europa e Costa da Mina, após a tomada do Castelo de São Jorge da Mina e o tratado de 1664, deixava livre somente o comércio do tabaco da Bahia e Pernambuco. Porém, a população banta da costa ocidental dava mais valia para as fazendas, aguardente e outras quinquilharias. Os navios levavam bugigangas da Europa para África, os negros da África às Américas, e açúcar, anil, rum e outros produtos das Américas para Europa.

Em 1644, um decreto real autorizava os navegadores portugueses, carregados de tabaco, a irem diretamente da Bahia para a Costa da Mina a fim de procurar escravos e trazê-los para o Brasil. Nessa época, Angola estava ocupada pelos holandeses e só foi libertada em 1648.

Sobre a cultura do tabaco, muito negociada por cativos, o padre André João Antonil fez um minucioso estudo da sua cultura. Ele estimava que por ano entravam em Lisboa 25 mil rolos de tabaco da Bahia e 2.500 de Alagoas e Pernambuco. Esse tabaco ruim passava por um beneficiamento e se tornava bem aceito na Costa a Sotavento da Mina.

Os portugueses de Lisboa tentavam impedir que os negociantes da Bahia traficassem na Costa da Mina, mas eles possuíam suas artimanhas com subornos e conseguiam realizar seu comércio. Eram obrigados a pagar dez por cento de tudo que vendiam.

No próximo comentário vamos falar da regulamentação do comércio do tabaco, uma mercadoria muito apreciada pelos negros, especialmente no uso do cachimbo.

 

SOS FUTEBOL

SOS FUTEBOL

Carlos González – jornalista

Em 1970, opositores à ditadura militar mostraram ao país que a seleção que conquistou o tricampeonato mundial no México, ao som de “Prá frente Brasil”, era um troféu que o general-presidente Garrastazu Médici exibia para abrandar os efeitos do AI-5. Mais de 50 anos depois,  “patriotários”, financiados por empresários e políticos, que nos últimos quatro anos assaltaram os cofres públicos, receiam que as vitórias do Brasil no Mundial do Catar possam contribuir para o esvaziamento do movimento de caráter golpista.

A proibição transmitida pelas lideranças não chegou aos ouvidos daqueles fanáticos que acreditam até nos deuses do futebol. Assim, como invocaram a ajuda de seres extraterrestres, exibem faixas nos acampamentos pedindo socorro à FIFA. Trata-se, sem dúvida, de mais uma insanidade de um grupo de inocentes úteis, desocupados, que não têm consciência do papel ridículo a que estão sendo submetidos.

Maliciosamente, Eduardo Bolsonaro, após passar por Nova Iorque, onde foi ouvir conselhos dos ultradireitistas Donald Trump e Steve Bannon,  seguiu imediatamente para o Catar, revelando que ia conversar com a cúpula da FIFA, presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, e com as diretorias das 32 seleções classificadas para a XXIIª Copa do Mundo.

Na verdade, o filho 03 de Bolsonaro viajou com a família para assistir ao Mundial, o que gerou forte descontentamento entre os bolsonaristas, incluindo o irmão Carlos. “Dormimos em barracas de lona, muitas vezes passamos fome, e o Edu gozando as delícias de uma Copa feita para os exageradamente ricos.”, comentou um acampado enquanto fazia um “gato” nas imediações do Tiro de Guerra de Conquista.

Copa da Vergonha

 

O Golfo Pérsico, uma área de 251 km2 no sudoeste da Ásia, concentra alguns dos países mais ricos do mundo, com destaque para os que adotam o regime monárquico, se comunicam em árabe e professam o islamismo. Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman, Bahrein e Arábia Saudita têm como maior fonte de renda gás e petróleo em seu subsolo. O Irã (potência islâmica, com forte opressão às mulheres) e o Iraque (terra arrasada após invasão americana) completam a lista de países da região.

Antiga aldeia de pescadores, o Catar, que ocupa uma área de 11.610 km2, menor que o Estado de Sergipe, é um país relativamente novo, haja vista que somente em 1971 obteve sua independência do Reino Unido. Sua caminhada até ser considerada hoje como a nação mais rica do planeta teve começo com a descoberta de reservas de petróleo e gás, sob as areias do deserto.

Com um PIB de US$ 179 bi, o Catar deixou de ser uma obscura colônia britânica, transformando-se num país com uma infraestrutura moderna e futurista. Na falta de mão de obra – hoje são apenas 350 mil catarianos numa população de 3 milhões de habitantes – suas fronteiras foram abertas, principalmente para indianos, paquistaneses e egípcios. Calcula-se que há cerca de 800 brasileiros radicados em Doha e outras cidades, desde uma professora de equitação dos filhos da família real até trabalhadores da construção civil.

Nos últimos cinco anos o Catar se tornou um dos principais destinos turístico do mundo, organizando eventos culturais, esportivos e comerciais, mas, nenhum deles, teve mais repercussão na imprensa ocidental do que o Mundial-2022, o primeiro numa nação árabe, enxovalhado por denúncias de corrupção. A partir daí o mundo passou a conhecer o Catar e os seus vizinhos árabes, onde a chamada monarquia absolutista soa como uma ditadura; a se estarrecer com o trabalho semi-escravo imposto aos imigrantes; com a morte de mais 3 mil operários na construção de oito arenas; no desrespeito âs mulheres; nas áreas insalubres destinadas à moradia da classe operária, onde no verão a temperatura chega aos 50 graus; e na condenação e repressão ao movimento LGBT+. Democracia e direitos humanos não foram convidados para a festa do futebol no Catar.

Os catarianos esperam que o Mundial desfaça os estereótipos que o Ocidente revela em relação aos povos árabes e muçulmanos. As autoridades do país qualificam o noticiário da imprensa mundial de “difamatório e arrogante”.

Os “estrangeiros”.

Nos últimos anos, o Brasil tem recorrido aos jogadores que atuam na Europa para compor sua seleção, mesmo porque a “prata da casa” perdeu o brilho. Foi-se o tempo do futebol brilhante das seleções de 50, 58, 62, 70 e 82, quando os clubes do Velho Mundo ainda não haviam aberto suas “janelas” para entrada dos importados. Sair do Brasil virou o sonho de todo peladeiro.

Estudos recentes mostram que 55% dos 360 mil jogadores dos clubes brasileiros inscritos na CBF recebem um salário mínimo, com a agravante de que ficam desempregados antes de chegar ao fim do ano .  Mas, para uma minoria, a realidade é bem diferente: se for bolsonarista tem dívida milionária com a Receita Federal perdoada, ou paga uma conta de R$ 950 mil num restaurante em Doha, sem lembrar que há 50 milhões de brasileiros passando fome.

O que mais chama a atenção nessa XXIIª Copa do Mundo é a evolução do jogador africano, tanto no aspecto conjunto (as seleções nacionais), quanto na presença destacada de seus atletas nas equipes da Europa.  Essa aglutinação Europa-África está comprovada na seleção da França, escalada com cinco ou seis naturalizados, além de Benzema (filho de argelinos) e Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina).

Na história dos mundiais de futebol pela primeira vez uma seleção da África chega às quartas. Dos cinco países de continente negro presentes no Catar, o Senegal foi às oitavas, mas a melhor campanha, sem dúvida, é a de Marrocos, uma monarquia constitucional, árabe e   islâmica. Os marroquinos, que, ao lado das demais nações árabes abraçaram no Catar a causa palestina, se colocaram entre os oito melhores times do planeta.

Em que lugar do mundo o comércio, às vésperas do Natal, fecha suas portas para que todos possam assistir um jogo de futebol, sem noção de onde fica o Catar. O funcionalismo público ´- a prefeitura de Conquista suspende a vacinação – espera quatro anos por esses dias, quando a pátria calça chuteiras, como diria o jornalista Nélson Rodrigues Amanhã vão todos se queixar de que as vendas natalinas foram inferiores as do ano passado. O torcedor esquece que Bolsonaro deixa um rombo de R$ 400 bi; que continua cortando as verbas da educação e da saúde; que estamos no mapa da fome; e que uma nova variante da coronavírus já faz vítimas.

 

 

 

NATAL É LUZ

Natal nos faz lembrar de muitas coisas, como banquete com peru, mesa vazia para os pobres, vinho, árvores cheias de lâmpadas pisca-pisca, abraços, confraternizações, notas e mensagens (agora pela internet) de Feliz Natal, presépio do menino Jesus, cristianismo, mas, acima de tudo, luzes para dar o sentido de vida. Assim é que todos os anos a Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, já se tornou um ponto de tradição, quando ela fica toda iluminada e recebe milhares de moradores e visitantes que passam pela cidade na época. Para ser sincero, é uma festa que bate em mim uma certa tristeza (não gosto), como em muitas outras pessoas, e não sabemos muito como explicar, talvez esteja dentro do sentimento humano de cada um, quando se vive numa sociedade tão desigual e injusta. No entanto, as luzes animam nossos espíritos. Por alguns momentos nos fazem esquecer dos problemas e quebram aquele clima de certa angústia interna. Natal é luz.

PÁSSARO SOLITÁRIO

Mais uma da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário

Voa pássaro solitário!

Com sua magia existencial,

Nas asas do seu ideário,

No ventre do vento açoite,

Nas correntes do dia e da noite,

Entre divisas do bem e do mal.

 

Voa pássaro solitário!

Corta as águas desses mares,

Como navegador planetário,

Bailando nesse céu dos ares!

 

Voa pássaro!

Testemunha dos navios negreiros,

Dos gemidos da escravidão,

Que aqui criaram terreiros,

Nos atabaques fizeram religião.

 

Voa pássaro solitário!

No rasante da liberdade,

Nessa terra tão desigual,

Da mediocridade virtual.

 

Voa pássaro solitário!

Acalenta minha alma,

Que vem do além-mar,

Do índio, banto-jêje,

Do nagô-iorubá.

 

Voa pássaro solitário!

Nessa seca do sertão;

Recarregue minhas forças,

E me devolva inspiração.

 

Voa pássaro solitário!

Conte para mim,

O segredo dessa vida,

Se nela existe sentido,

Entre chegada e saída.

 

Voa pássaro!

Ensina a esse rebanho,

Seguir crente em frente,

Na alegria ou na agonia,

Espinhos nas flores amores,

A nunca perder seu sonho.

 

PALHAÇOS E COISAS DA VIDA

Levantei hoje, ou ontem, sem saber o que escrever – meu exercício diário, além da leitura, é claro – por que são tantos assuntos que nos deixa confuso. A nossa mente é fértil e imaginativa, mas nem tudo na vida pode ser dito e escrito. Até a democracia e a liberdade têm suas regras próprias, inclusive o anarquismo de Prudhon. Fazer o quê, meu camarada, se não somos uma ilha?

Essa politicagem já nos deixa com o estômago embrulhado. Foram quase três meses de papo furado nas emissoras de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais entupidas de falsas notícias. Depois entrou essa Copa Maluca do Qatar escravista e machista, misturada com as propagandas de Natal. Confesso que não consigo respirar! Se você tem algo a contestar, bote a boca no trombone!

Ouvi uma música Palhaço, de Nelson Gonçalves, onde a letra diz que a amizade é uma fumaça, que palhaço é todo homem que não sabe envelhecer e se entrega ao desespero, nem compreende que o passado já morreu. Entro com meu contraditório de que ele (passado) nunca morre. Palhaço é todo homem e todos nós que acreditam na mentira e perdoa a traição.

Lembrei também do nosso saudoso filósofo e cronista do cotidiano, Nelson Rodrigues, que nos fala do complexo de vira lata que ainda permanece dentro de todos brasileiros. Ele escreveu sobre a vida como ela é, nua e crua, com seus absurdos. Rodrigues retratou a hipocrisia e o moralismo dessa sociedade onde muitos aparentam ser uma coisa que não é. Foi excomungado por muitos críticos como demônio escandaloso e imoral.

Cada um acorda e levanta de um jeito, na maioria das vezes com a cara amassada para cumprir a mesma rotina da sobrevivência. Uns dormem bem e outros têm pesadelos terríveis de suar o pijama ou a cueca, a camisola ou a calcinha. Tem gente que dorme nu. Uns em silêncio e outros roncam se virando de um lado para o outro. E aqueles que sonham falando? Um perigo dizer coisas comprometedoras!

E quanto ao dia? O pobre já sai de casa mal alimentado pelo salário que recebe, com medo do patrão lhe demitir. Come o pão que o diabo amassou. Nessa roda da vida, o mundo continua a girar. Tenho dúvidas se os terraplanistas pensam assim. Temos mais insatisfeito que satisfeitos com o que faz, mas não existem muitas saídas e escolhas, companheiro. Não se irrite com os falsos boatos que têm suas origens na humanidade. Aliás, é até uma redundância porque o boato já é falso.

O patrão empresário ganancioso acorda com a cabeça cheia de contas e dívidas, matutando como ganhar mais e mais dinheiro. Pior ainda se for o tipo trapaceiro. Uns levam a vida com humor e bom astral, sempre com pensamento positivo. Outros acordam de mau humor que nem falam com os filhos e a mulher, que também tem seus momentos de aperreios porque ela hoje é peça chave dessa engrenagem mercadológica capitalista e selvagem da competição.

Se analisarmos lá no fundo, todos têm um pouco de palhaços e escravos de seus problemas. É a vida como ela é, meu amigo! Encare isso e toque para frente que atrás vem gente. Nos encontros do dia a dia, muitos fazem aquela clássica pergunta: Como está? Sempre se responde “tudo bem”, quando, na verdade, nem está. Ás vezes falo que vou levando a vida e a vida me levando, como diz Zé Pagodinho em seu samba canção.

Não estou me referindo ao palhaço no sentido do profissional, alegre e triste, mas daquele lado profundo existencialista do Jean Paul Sartre que escreveu “Náuseas” e nos faz entrar na fossa (depressão) quando procuramos o sentido da vida, logo ela, a passageira que se vai com a morte. Nos ensinaram sempre a dizer que a vida é bela e vale a pena ser vivida. Será que isso se encaixa em todos viventes?

Lembra daquela frase de que o ignorante é mais feliz que o instruído, o estudioso, o iluminado e o sábio? Será uma verdade? Ela existe como padrão ou cada um tem a sua? Todos os filósofos gregos da antiguidade tinham seus tormentos, fantasmas, demônios e momentos de felicidade. Os brutos também amam e têm seus sentimentos e angústias internas. Somos todos palhaços ou coisas da vida?

Meu amigo camarada, só sei que a vida é assim como ela é, com suas diferenças de altas e baixas, de alegria e agonia, de surpresas boas e decepções de gente que menos se esperava. Quem já não foi palhaço, enganado e iludido que levante a primeira pedra, principalmente em se tratando de brasileiros que têm fama mundial de malandragem e a magia de para tudo dar aquele jeitinho para desatar o nó das coisas da vida.





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