O ÓDIO DESONRA O DIA DA PÁTRIA
Carlos González – jornalista
O brasileiro pergunta o que poderá acontecer no feriado do Dia da Pátria após a explosão de ódio que, provavelmente, abafará o ruído dos tiros de canhão do Forte de Copacabana, sob o olhar de reprovação do Cristo Redentor, do Alto do Corcovado. Os mais antigos recordam as comemorações do Sesquicentenário da Independência, em 1972, quando a Igreja Católica esteve ausente, por se opor à ditadura militar (1964-1985), que atravessava seu período mais repressivo.
Membro de devotada família católica do interior paulista, Jair Bolsonaro (PL) converteu-se em evangélico carismático, com as bênçãos e as imersões nas águas do Rio Jordão, do pastor Everaldo Pereira, dirigente do PSC, preso em 2020 por desvio de recursos da Saúde, no governo fluminense. A conversão faz parte de um projeto do presidente de se manter no cargo – até quando? -, a qualquer custo.
Perguntado na sua posse como arcebispo de Aparecida em 1995, sobre as medidas que tomaria para conter a saída dos fiéis da Igreja Católica, o cardeal Aloísio Lorscheider (1924-2007), um dos 273 religiosos detidos pela ditadura, respondeu que havia um engano naquela informação, “porque os que saíram não foram fiéis e sim os infiéis”
Presidente duas vezes da CNBB e indicado para suceder ao papa João Paulo I, o cardeal Lorscheider, se vivo fosse, chegaria a conclusão que a palavra “infiel”, bastante empregada na Idade Média, para nomear os povos árabes que ocuparam a Terra Santa e a Península Ibérica, cairia perfeitamente no Brasil de hoje entre os que estão se armando, “em nome de Deus”, para submeter a sociedade brasileira a um projeto cultural e religioso, que se assemelha à ideologia talibã.
Num artigo publicado há nove anos num jornal de Campo Grande (MS), o doutor em Teologia, Carlos Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil, alertou: “O movimento evangélico é um dos maiores perigos para a sociedade brasileira e o estado laico, por seu potencial fundamentalista, com poucas diferenças do fundamentalismo islâmico”.
O reverendo anglicano previu na ocasião que a tomada de poder no Brasil seria alcançada com a ocupação de cargos no Executivo e Legislativo, a custódia do potencial bélico das Forças Armadas, a abolição do ecumenismo, posse dos meios de comunicação, e persuadindo uma plateia de “analfabetos funcionais”, que compram sementes de feijão para a cura da covid.
Ao concluir seu artigo, dom Calvani avisou: festas populares, como Carnaval, São João e shows musicais, serão proibidas, assim como as romarias e procissões católicas; símbolos de outras religiões serão destruídos; a comunidade LGBTQIAP+ será confinada em campos de concentração; e imposto o uso da burca (traje feminino usado em alguns países islâmicos que cobre o corpo, cabelo e rosto).
Os influenciadores do povo evangélico omitem aos seus seguidores que, em setembro de 2009, participaram no Palácio do Planalto (morada de Satanás até a chegada do seu marido em 2018, afirmou Michelle Bolsonaro do alto de um trio elétrico) do ato de assinatura, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do decreto-lei 12.025/09, de criação do Dia Nacional da Marcha para Jesus. No final, de mãos dadas, oraram pela saúde da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
As perseguições àqueles que ousam não declarar seu voto a Bolsonaro estão ocorrendo no interior das igrejas evangélicas, como denunciou a deputada presbiteriana Benedita da Silva (PT-RJ), revelando que na última quarta-feira (dia 31) um fiel foi baleado em Goiânia por discordar da fala do pastor, que “levou o palanque eleitoral para o púlpito”. A parlamentar citou vídeos onde pastores tentam convencer os fiéis de que “Jesus é de direita” e quem não ajuda a reeleger o psicótico do Planalto é “endemoniado”.
Bem contra o Mal
Nessa guerra santa do Bem contra o Mal como os partidários do Bem vão se defender de um inimigo que, nos últimos quatro anos, adquiriu 656.042 armas de fogo, legalizadas por atos administrativos endossados pelo presidente da República?
O mais grave é que parte desse arsenal está nas mãos de políticos, traficantes, milicianos, neonazistas, fundamentalistas, e até de pastores evangélicos (pastor da Igreja Presbiteriana, Milton Ribeiro, acusado de corrupção passiva e tráfico de influência como ministro da Educação, no dia 26 de abril último deixou acidentalmente sua pistola disparar no aeroporto de Brasília, ferindo uma funcionária da Gol).
Moradores das grandes cidades do país ouvidos pela “Folha de S. Paulo” manifestaram preocupação com a mudança nos últimos anos do comportamento de vizinhos, que passaram a portar armas de fogo. O assassinato de um petista em Foz do Iguaçu (PR) está vivo na memória de todos.
As pessoas do Bem pensaram em pedir ajuda à Igreja Católica, mas concluíram que padres e bispos reclamam das perseguições políticas. Em julho de 2020, 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos divulgaram a “Carta ao Povo de Deus”, qualificando o governo federal de “incapaz e inábil” em enfrentar crises, “como o flagelo de milhares de mortes pela covid-19”. O padre Júlio Lancelotti foi ironizado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) por distribuir cobertores e sopa aos moradores de rua, em São Paulo..
OS TRAFICANTES DE ESCRAVOS RECEBIAM HONRARIAS DE NOBREZA
No capítulo “Barões e Fidalgos”, o escritor da trilogia ”Escravidão”, que todo brasileiro deveria ler, Laurentino Gomes, fala do Vale do Paraíba, “o coração do Brasil escravista do século XIX, da nobreza exótica e tropical e da troca de favores entre a Coroa e os senhores da terra”.
Pouca coisa mudou de lá para cá no nosso Brasil oligárquico e burguês provinciano atrasado. “As glebas de terras ao redor do município de Vassouras, um dos grandes centros de produção de café, tiveram a maior concentração de viscondes, barões, marqueses, comendadores, coronéis e detentores de outras honrarias de toda história do império brasileiro”.
Voltemos aos dias atuais e aqui estão os barões da soja e do gado recebendo os elogios e as benesses financeiras dos governantes, sejam de direita ou de esquerda. “A concessão de títulos se acelerou entre 1878 e 1889, período em que a monarquia, sob pressão do movimento abolicionista e da campanha republicana, começou a correr perigo”. Só na década foram criados 370 barões, sendo 155 entre a Lei Áurea e o golpe do marechal Deodoro da Fonseca.
Diante do clima de tensão entre militares e civis, o Visconde de Maracaju, ministro da Guerra, propôs que “os títulos fossem usados como armas para seduzir os oficiais nos quarteis”. Não parece o mesmo retrato borrado de hoje? Na véspera da Proclamação da República, 35 coronéis receberam o título de barão.
“Estamos todos marqueses” – zombou em artigo no jornal Diário de Notícias o baiano Rui Barbosa, ao criticar a inflação nobiliárquica, responsável pele legião de fidalgos baratos – destacou Laurentino no terceiro livro “Escravidão”.
Na guerra contra o Paraguai (1864-1874) os escravos arriscavam suas vidas pegando em armas, enquanto seus donos ficavam em casa recebendo títulos. O escritor sergipano Tobias Barreto se referia à “nobreza feita à mão” que produzia fidalgos de nomes pitorescos, como o Barão de Bojuru, de Botovi e de São José Sepé.
Muitos dos belos casarões senhoriais dessa numerosa nobreza ainda podem ser visitados – assinalou Laurentino. Um exemplo por ele citado é a sede da fazenda Resgate, no município de Bananal (Vale do Paraíba), tombado pelo Iphan. Seu dono Manoel de Aguiar Valim foi um dos homens mais ricos do Brasil.
No Vale do Paraíba, a propriedade que mais impressionava pela riqueza e pelas dimensões era a casa grande da fazenda Flores do Paraíso, no município de Rio das Flores, de Domingos Custódio Guimarães, visconde do Rio Preto.
“O fausto e a riqueza dos fazendeiros escravocratas do Vale do Paraíba eram exibidos também na corte do Rio de Janeiro. Antônio Clemente Pinto, barão do Nova Friburgo, cafeicultor da região de Cantagalo, era dono do mais luxuoso palacete, o atual Palácio do Catete, que serviu de residência para vários presidentes até a transferência da capital para Brasília, em 1960”.
A lista de comerciantes negreiros apontados como cidadãos exemplares e beneméritos é longa. Elias Antônio Lopes doou o Palácio da Quinta da Boa Vista, atual Museu Nacional, para abrigar o príncipe D. João VI.
Joaquim Pereira Marinho, o homem de pedra, primeiro conde Pereira Marinho em Portugal, foi um dos maiores traficantes de escravos na história do Brasil. “Sua estátua erguida há mais de um século no centro da maior cidade negra do mundo fora da África, é hoje alvo de acalorada polêmica”.
“Sua imponente estátua está na entrada do Hospital Santa Isabel, em Salvador, por ter ajudado a construir a unidade. Ele doou dinheiro a instituições de caridade e socorreu flagelados da seca no Nordeste. Como tantos outros, foi um cruel opressor e racista. Um traço comum na biografia dos grandes traficantes e senhores de escravos está exemplificada na história de Joaquim Pereira Marinho”.
Muitos foram convertidos em mecenas, tanto no Brasil, como Estados Unidos, Inglaterra, França e Holanda. “Patrocinaram artistas, apoiaram a construção de museus, organizaram teatros e companhias de dança, financiaram expedições científicas, doaram somas expressivas para igrejas, irmandades religiosas, hospitais, e obras de assistência aos pobres e doentes”.
A PAUTA É COLOCAR COMIDA NO PRATO E ELOGIAR OS BARÕES DA ELITE
“SAI DAÍ, CÃO, QUE TE FAÇO BARÃO”.
A LINGUAGEM DA DIREITA E DA ESQUERDA SE CONFUNDEM. ELAS SE ACASALAM QUANDO SE TRATA DO SOCIAL E POUPAM OS AFORTUNADOS BARÕES DO AGRONEGÓCIO, BEM COMO OS EMPRESÁRIOS QUE FIZERAM A REFORMA TRABALHISTA ESCRAVISTA. SÃO OS INTOCÁVEIS. ABRAÇAM OS POBRES PARA SE BANQUETEAR COM OS MAIS RICOS.
Nos tempos do império, principalmente no segundo período, e em épocas de crise, o imperador D. Pedro II agraciou os fazendeiros do café (Vale do Paraíba), os comerciantes em geral e até os traficantes ilegais de escravos africanos com títulos de nobreza de barões, duques, marqueses, condes, viscondes e coronéis em troca de dinheiro, na base do “toma lá, dá cá”, para sustentação no poder, que foi derrubado por eles mesmos.
Dessa enxurrada de condecorações surgiu o ditado “Saí daí, cão, que te faço barão”. Muitos se passaram por “mecenas” das artes; e construíram obras de caridade e hospitais, como as Santas Casas das Misericórdias. Para eles, que praticaram crueldades e enriqueceram com a escravidão (milhares morreram na travessia do Atlântico, cemitério dos cativos), foram erguidas estátuas em suas homenagens.
Os poderosos da oligarquia e da aristocracia atual, sem mais as medalhas de nobres, mas com outros tipos de premiações, continuam sendo os protegidos dos reis a ganhar fortunas transgredindo a ordem e a lei. Parta eles, elogios e promessas de mais recursos baratos. Para o agricultor familiar uns trocados cheios de burocracias.
O “toma lá e dá cá” nunca acabou para as castas de políticos, executivos e judiciário, bem como para os barões da soja, do milho, do gado, do café, do algodão, do comércio e da indústria que recebem polpudos subsídios da União (grana do povo), e ainda exploram a mão de obra do trabalhador através de uma reforma escravista.
As campanhas eleitorais estão de vento em poupa, com a mesma linguagem chata e nojenta invadindo nossos lares com o nosso dinheiro. Todos são alinhados à direita capitalista, mas uma parte se acha sangue puro da esquerda quando a questão é fome, miséria e comida na mesa. Fazem “gracinhas” para as minorias.
No entanto, os dois lados e mais o centro saem pela tangente quando se fala em cortar as benesses dos barões das elites, como por exemplo, os donos do agronegócio e os empresários que construíram essa maldita reforma trabalhista para encherem mais ainda seus bolsos.
Outros temas também como aborto e a descriminalização das drogas são evitados, e cada um tem uma palavra “mágica” mentirosa para resolver o problema do tráfico de armas e ilícitos, os quais geram mais violência e mortes.
A saída deles é sempre de mentalidade militar, no sentido de reforçar o armamento (tanques, fuzis e metralhadoras nas ruas e nas favelas) e o número de efetivos do policiamento, as mesmas medidas direitistas retrógradas arcaicas que há séculos não têm dado resultados, só desastre e matanças. Somente alguns pequenos partidos de esquerda condenam essas políticas.
A esquerda de hoje no Brasil só existe quando se fala do social, das minorias, dos negros e indígenas para enganar e embromar essas classes. A reforma agrária nesse Brasil nunca foi levada a sério e posta em prática porque a elite não deixa. Da última vez que se tentou, os generais e os civis burgueses deram um golpe que virou ditadura com dias de chumbo.
Gritam e berram para dizer que vai acabar com a fome e a miséria, oferecendo mais esmolas, sem, no entanto, apontar um projeto socialista verdadeiro de distribuição das riquezas, que faça esses milhões de brasileiros caminhar com suas próprias pernas, sem depender dessas bolsas e doações eleitoreiras. É a perpetuação da ignorância, da falta de educação, de cultura e do aumento do analfabetismo.
Quanto mais auxílios, sem alternativas econômicas e sociais, mais filas de pobrezas e mais sofrimentos para adquirir a prometida ajuda. Entra ano e sai ano, e o quadro só tende a piorar, com choros e derramamento de lágrimas. Nessa de dar aos pobres sem tirar dos barões, a renda só faz concentrar mais ainda nas mãos dos poderosos, gerando mais desigualdade social, que envergonha a nós e ao mundo.
Esse esquema só faz afundar o Brasil numa crise fiscal sem fim, porque tudo vem do Tesouro que é sustentado pelo povo, e aborta mais inflação e desemprego. A nossa esquerda não passa de um fantasma brasileiro que vive às custas da desgraça da pobreza, da fome e da miséria. É um verdadeiro estupro explícito. O sistema eleitoral vigente não passa de um grande estelionato.
MORADORES E OS ANIMAIS
Como criaturas, todos somos animais, inclusive na classificação social onde uns poucos vivem com dignidade e outros muitos na mais profunda desigualdade. Como os humanos moradores de rua, os cachorros, principalmente, vagam abandonados pelos seus donos nas ruas e praças das cidades, sujeitos à fome, ao calor e ao frio, dormindo debaixo de marquises e viadutos. No caso dos cachorros, existem aqueles bem tratados em mansões de ricos que levam uma vida melhor que milhões de seres humanos brasileiros. Como na imagem da foto, estes são os considerados miseráveis renegados. A mesma coisa acontece com os humanos que também são divididos por classes, e comem o que os outros dão. Quanto aos cachorros, nem existe essa capacidade de colaboração e solidariedade entre eles. Numa análise mais filosófica no campo da superioridade racional, o homem é ainda pior porque larga seu bicho na rua, com a mínima condição de sobrevivência. Nessa ótica de visão, somos mais estúpidos que os outros animais. São os paradoxos que se cruzam com as comparações da vida na terra.
PARADO NA ESQUINA
Mais uma produção poética social do jornalista Jeremias Macário
Ei, seu cabra suspeito!
O que está a pensar,
Aqui parado,
Neste poste da esquina,
Com esse jeito,
De quem vai roubar?
Seu polícia,
Meu nome é fome,
Que não me deixa raciocinar.
Só estou assuntando,
Essa sociedade assassina,
Metida a grãnfina,
Que concentra toda riqueza,
Pra gerar nossa pobreza.
É, seu preto meliante!
Com esta cara de traficante,
Se vire pra uma revista,
E “tege” preso,
Vagabundo subversivo,
Que nem deve estar vivo.
Seu soldado,
Só estou aqui parado,
Neste poste da esquina,
Esperando o carro do osso,
Pra pegar umas pelancas,
Fazer um angu,
Pra Zefa de Manu,
E minha criança menina.
Não passo de um cidadão,
Sem no bolso um tostão,
E o senhor, um cativo
Do capital patrão.
Está algemado e detido
Por desacato à autoridade,
Sem essa de liberdade,
Seu bandido atrevido.
Por ter reagido,
Jogaram o moço na viatura,
Nem passaram na delegacia,
Muita porrada e tortura,
Deram cabo do coitado,
Com tiros na travessia.
CASA EM RUÍNAS, UMA AMEAÇA À SAÚDE
Carlos González – jornalista
Várias administrações passaram nos últimos dez anos pela Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura de Vitória da Conquista, mas nenhuma delas se dispôs a apurar a verdadeira situação de uma casa abandonada, no mínimo nesse mesmo período, na Rua Ayrton Senna, nº 49 , uma das transversais da Avenida Rosa Cruz, próximo ao Centro de Convenções Divaldo Franco, bairro Candeias para uns e Alto Maron para outros.
O imóvel, pelo seu aspecto externo – possui até uma chaminé –, não tem condições de ser recuperado, e, segundo os moradores mais antigos, foi um dos primeiros a ser construído naquela rua. Responsáveis por considerável parcela da arrecadação municipal – o IPTU da região é um dos mais altos de Conquista – esperam uma urgente resposta do poder público.
A casa, de muro baixo e o mato bem alto no seu interior, com energia elétrica e água desligadas, serve de habitat para animais peçonhentos (lacraias, cobras, aranhas e escorpiões) e mosquitos transmissores da dengue, zica de chikungunya. O lixo acumulado em sua área externa propicia o surgimento dessas espécies de animais, encontradas com freqüência em moradias próximas.
Ressalte-se que a Secretaria de Saúde do município reconhece a alta incidência de doenças causadas pelo mosquito aedes aegypti e pelos escorpiões, que podem levar até à morte. Campanhas elucidativas têm sido dirigidas à população, principalmente nos bairros da periferia e na zona rural. Portanto, aguarda-se que o “exército” de mata mosquitos saia dos “quartéis” e vá para as ruas.
O secretário de Serviços Públicos, Kairan Rocha, deve conhecer detalhadamente o Código de Polícia Administrativa (Lei 695/93), cujo primeiro capítulo deixa explícito que cabe à administração pública criar normas de proteção à saúde dos munícipes, competindo aos seus servidores, entre outras atribuições, observar, realizando inspeções periódicas, a higiene, o aspecto e a segurança das unidades imobiliárias.
O artigo 23 da lei determina que os proprietários de edificações em ruína são obrigados a evitar o acúmulo de lixo, a estagnação de águas e o surgimento de focos de doenças nocivas à saúde. O parágrafo 3º desse mesmo artigo observa que “as construções em ruínas devem ser demolidas ou isoladas do público por meio de muros”.
No anexo referente às penalidades, o Código prevê que o infrator, após ser autuado, terá dez dias para apresentar sua defesa, prazo que poderá ser prorrogado. Se a justificativa do autuado for considerada inconsistente, o processo será encaminhado à Procuradoria Geral do Município, “que adotará as medidas cabíveis”. No caso, demolição da edificação irregular e multa pecuniária.
A Prefeitura Municipal, que tem se mostrado tão eficiente na tarefa de enviar tratores no meio da madrugada para derrubar barracos, rotulados como ilegais, tem “fechado os olhos” quando se trata de casas de luxo, que há mais de uma década agridem o meio ambiente e a saúde de quem paga seus impostos em dia.
OS LIMITES DO CENSO DO IBGE
Pelo que me lembre, pela primeira vez fui entrevistado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na semana passada na porta da minha casa. Não demorou cinco minutos. Confesso que fiquei decepcionado com o limite da pesquisa que não chegou a dez perguntas, coisas que qualquer órgão do governo ou uma instituição financeira não saiba.
Esse censo já deveria ter sido realizado há dois anos, mas foi prorrogado pelo contingenciamento de verbas desse governo que não dá a mínima importância para a ciência, o conhecimento e o saber. Sempre foi negacionista. Por pressão, a realização do censo foi autorizada com limites de recursos.
Os resultados não vão ser satisfatórios para o que se pretendia extrair, no sentido de estruturação de políticas públicas nas áreas educacional, social e de saúde, principalmente. Aliás, há muitos anos que temos um país sem planejamento. Tudo é feito na base do improviso.
O pesquisador quis saber do meu CPF, da minha cor, quantas pessoas moram na casa (nem indagou se era própria ou não), se aqui faleceu alguém nos últimos anos, se tinha serviço de esgotos e quanto ganhava. Não mais que isso.
Quanto ao nível de escolaridade, fiquei intrigado quando o agente só perguntou se eu e minha mulher sabiam escrever e ler. Ora, como criar um projeto para o setor da educação se o governo não tem nenhuma ideia do percentual de pessoas com grau fundamental, médio e do ensino universitário (graduação, mestrado e doutorado).
Em minha opinião, considerei uma pobreza quanto a apuração de dados no censo, os quais deveriam ser bem mais abrangentes, de modo que as apurações oferecessem mais subsídios sobre o país e os brasileiros que nele habitam.
NADA MUDA NESSE FILME CAPITALISTA
Além de um discurso chato, mentiroso e capitalista, numa mesma linha entre a direita e o centro, já assisti várias vezes esse filme arranhado e velho. Assim foi o debate político que aconteceu ontem (domingo) na TV Bandeirantes. Muitos preferiram ir dormir.
Uma decepção, tendo como painel principal a miséria que assola o país. Todos querem prosseguir com as esmolas, mas ninguém apresenta um projeto para tirar essa gente da fome e fazer caminhar com suas próprias pernas. Até quando vamos continuar convivendo com esse triste quadro de desigualdade social?
Há mais de trinta anos que se faz programas de bolsas, e a situação de necessitados só fez aumentar, com o analfabetismo e a ignorância brutal. Criamos uma multidão de submissos e conformados que sempre estão falando que foi Deus que assim quis.
Todos defendem esse agronegócio dos grãos, que depreda e derruba e queima nossos biomas. Ninguém tem a coragem de dizer que o governo e os bancos oficiais não vão dar mais dinheiro barato para esse pessoal. De falar que, quem quiser que vá buscar recursos nos bancos privados. Que se virem.
Verbas das instituições bancárias públicas, como BNDES, Banco do Nordeste, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal devem ser usadas para fortalecer o médio e o pequeno da agricultura familiar que botam comida em nossas mesas todos os dias.
Os grandes fazendeiros, como nos tempos do império, vão continuar sendo subsidiados para exportar soja, milho e algodão para o exterior, como a China que, em sua maior parte, usa esses produtos para ração animal. Essa classe é intocável porque temem perder votos.
O Brasil vai continuar sendo um eterno exportador de matérias-primas. Manda pra fora um navio de soja e de lá traz uma jangada de aparelhos de celular e umas caixas de remédios. Nossa indústria está sucateada e quase tudo é importado, principalmente matérias da química fina. Como há 500 anos, somos uma província atrasada em relação a outros países.
Se formos olhar bem, os discursos são todos de direita, com o mesmo sentido de arrancar votos da pobreza. Ninguém fala de reativar ou ressuscitar a cultura que foi sepultada, nem mesmo a mídia com suas perguntas enfadonhas.
Muita gente que conheço não suportou as mesmices e caiu na cama. O debate foi um campeonato de mentiras onde a miséria foi a personagem principal, o painel das desgraças que os próprios políticos plantaram e criaram.
O pior de tudo isso é a repetição de erros que aparece nos céus do Brasil. Tudo caminha para uma cópia do que ocorreu em 2018, isto é, vamos cair na mesma burrice, e o Brasil será o maior prejudicado porque mais uma vez o povo vai votar com rancor e depois dizer que não havia opção.
O que será do nosso povo, e como recuperar esse atraso? Cada vez mais o nosso país perde representação lá fora e capacidade de competir com outras nações. Nossa educação é um desastre. Até quando vamos ter que passar o tempo todo administrando a pobreza e a miséria com esse discurso capitalista e oligárquico?
O SERTÃO VAI É VIRAR DESERTO
Poetas, cancioneiros e as violas lembram sempre a sentença do profeta Conselheiro de que o sertão vai virar mar. Em minha humilde visão lunática, entendo que o sertão vai é virar deserto, como já estamos vendo em diversas partes do nosso castigado Nordeste através das secas e depredações do ser humano.
Quando bate a forte estiagem, a paisagem já mostra esse cenário desértico onde o sal está comendo a terra, e o sertanejo não tem mais onde plantar. Os rios que enchiam nossos olhos de fartura de peixes com suas corredeiras, estão secando. Os perenes virando temporários, e outros simplesmente desaparecendo por completo.
O sertão vai virar deserto, meu amigo, porque a nossa exuberante caatinga está definhando pelos desmatamentos. Muitas carvoarias transformaram suas árvores em carvão. As cores das flores do nosso sertão não são as mesmas de antigamente quando batiam as águas de verão.
Os governos não pensam em recuperar e preservar nosso bioma, o único do mundo que está localizado em mais de 60% do nosso Nordeste, conhecido também como o semiárido. Só se vê carros-pipas entre as poeiras das estradas quando a água some dos tanques, dos poços e açudes. O pior é que ela é cada vez mais salgada, que nem serve para os bichos. As pessoas viajam léguas com seus burricos transportando água em carotes. Quem não possui o animal, o jeito é lata d´água na cabeça.
Sem essa de sertão vai virar mar. Não passa de uma falsa lenda profética que caiu na cabeça dos poetas, repentistas e cantadores para juntar gente nas feiras e palcos. É só uma força de expressão.
Quando criaram as barragens no leito do São Francisco, o “Velho Chico”, para produzir eletricidade, a profecia se tornou mais viva. Então cantaram, o sertão virou mar. Bastou uma seca forte para as águas baixarem, as margens ficarem estreitas e os areões encolherem o grande rio. O ribeirinho entrou em desespero.
Sem essa de que o sertão vai virar mar. Acabaram com as matas ciliares, os peixes sumiram e nada de revitalização. Os afluentes estão na mesma situação e só fazem retirar, sem repor. É como gastar dinheiro além do limite. Quem viver verá o sertão virar deserto e a viola bater em outro tom bem mais triste e lamentoso, para contar uma história ao contrário.
“PARA INGLÊS VER”
Essa expressão “para inglês ver” é muito comum no Brasil, mas muita gente não sabe explicar a origem correta. É dita muitas vezes quando se promete uma coisa que não é cumprida, não é concretizada, como fazem nossos políticos. As eleições são espelho disso.
Tudo começou lá pelo início do século XIX com a escravidão, quando o nosso país, por volta de 1831, assinou uma lei parlamentar prometendo acabar com o tráfico negreiro, isto é, com a importação de escravos da África. O Brasil não somente burlou com suas malandragens, maracutais e conluios entre as próprias autoridades, como aumentou o comércio ilegal.
O autor da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes descreve muito bem isso em detalhes no capítulo “Para Inglês Ver”. “O Brasil nunca importou tantos africanos escravizados, e em tão pouco tempo, quanto na primeira metade do século XIX”.
O tráfico só foi interrompido em 1850, com a assinatura da chamada Lei Eusébio de Queirós. Mesmo assim, o tráfico continuaria entre as províncias brasileiras, e alguns traficantes se aventuram atravessar o Atlântico para comprar escravos na Costa da África.
Narra Laurentino que inúmeros tratados internacionais foram assinados e jamais cumpridos. Uma lei de 1831 chegou a ser aprovada no parlamento brasileiro, acabando com a importação de cativos. O imperador Pedro I chegou a empenhar sua palavra.
“A proibição de 1831, segundo Laurentino, passaria para a história com o apelido jocoso de lei para inglês ver. Enquanto isso, navios negreiros abarrotados continuaram a desembarcar homens e mulheres escravizados ao longo do litoral brasileiro sob o olhar cúmplice das autoridades”.
Bem antes disso, em 1810, o príncipe regente D. João assinou com o governo britânico um tratado comercial que incluía uma clausula sobre o tema. Falava-se de uma abolição gradual do tráfico de escravos. Em janeiro de 1815, Portugal assinou um segundo tratado, ratificado por Carta de Lei, em 1817, pelo qual se comprometia coibir o tráfico ao norte da linha do Equador. Tudo se fazia para transgredir as normas.
O acordo autorizava oficiais britânicos a abordar navios mercantes suspeitos de tráfico ilegal. Os infratores e seus navios seriam apreendidos e levados a tribunais especiais estabelecidos no Rio de Janeiro e outro em território britânico na África Ocidental.
Em 1826, D. Pedro I assinou um tratado com a Inglaterra, no qual o Brasil assumia, além de uma dívida de dois milhões de libras esterlinas feita originalmente por Portugal, o compromisso de honrar os acordos celebrados anteriormente pelo governo português com os ingleses em relação ao tráfico. Prometia extinguir o tráfico em três anos. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário.
Em seu terceiro livro, Laurentino documenta em detalhes que todos os tratados e leis foram burlados por traficantes, juízes, fazendeiros, capitães de navios, forças armadas e altas autoridades dentro do próprio império. O escritor cita vários casos em que uns acobertavam os outros com propinas e subornos, de modo que o tráfico continuava a todo vapor.
A coisa era tão escancarada, que navios negreiros faziam o desembarque à luz do dia com gente bem armada, e os guardas imperiais nada faziam. Embarcações trocavam de bandeiras para enganar a marinha britânica. O negócio era tão escandaloso que até comerciantes ingleses se envolviam no tráfico ilegal.
As armações, as mutretas, falsificações de documentos e a impunidade daquele tempo do meado do século XIX são as mesmas de atualmente quando se trata de leis, as quais continuam para inglês ver. Praticamente nada mudou quando os infratores são poderosos do chamado colarinho branco.













