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A POLÊMICA LEI ÁUREA

Art. 1º – É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.

“Assim era o texto da lei número 3.353, de 13 de maio de 188, mais conhecida como Lei Áurea, talvez a mais importante de toda história do Brasil”, conforme descreve o jornalista e escritor Laurentino Gomes no seu terceiro volume de “Escravidão”.

O projeto de lei, tão sucinto, foi apresentado à Câmara dos Deputados em três de maio, e foi cercado de grandes polêmicas até sua aprovação final no dia treze e sancionada pela princesa Isabel naquele ano.

Os proprietários de terras, senhores coronéis e a oligarquia ficaram enfurecidos, e não perdoaram o império, quando deram o troco ao apoiar, no ano seguinte, a derrubada do imperador, com a proclamação da República.

Segundo o advogado e historiador Antônio Evaristo de Moraes, durante a votação a Câmara permaneceu cercada, como em estado de sítio. Pelas pesquisas de Laurentino, em 1888, restavam ainda cerca de 750 mil homens e mulheres escravizados no império brasileiro.

Nos três séculos e meio, o Brasil tinha sido o maior território escravista do hemisfério ocidental. Era o mais avesso a qualquer proposta de mudança. Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil por volta de 1538. Nos 350 anos seguintes, o total chegaria a quase cinco milhões.

Em três de maio, coube à princesa abrir os trabalhos parlamentares, mas, em sua fala, em momento algum falou o termo escravidão. O tom foi de elogio aos fazendeiros, e citou apenas que o país precisava extinguir o elemento servil. O seu pai, D. Pedro II se encontrava na Europa, e o projeto desencadeou a primeira grande campanha popular de rua na história do Brasil.

Logo nos debates acalorados, os latifundiários do café, naquela época, exigiram que fossem indenizados em 20 milhões de libras esterlinas, o mesmo que foi pedido e aceito pela aristocracia rural e industrial da Inglaterra, em 1834.

A proposta só veio chegar à Câmara no dia oito, numa terça-feira, pelas mãos do ministro da Agricultura, deputado Rodrigo Augusto da Silva. No mesmo dia foi discutida e aprovada por uma comissão composta pelo deputado pernambucano Joaquim Nabuco.

Colocado em votação no dia 10, o projeto recebeu os votos favoráveis de 83 deputados. Nove foram contra e outros 33 preferiram ficar em casa para não se expor. No dia 11, a lei foi remetida ao Senado. A Câmara alta era o templo da elite escravocrata brasileira – como assinalou o autor de “Escravidão”.

A votação final no Senado se deu numa manhã de treze de maio. Foram 46 votos favoráveis, seis contrários e oito ausentes. A aprovação era tão dada como certa que, no mesmo dia, os jornais do Rio de Janeiro (entre seis a cinco) abriram suas manchetes convocando a população a ir às ruas para as comemorações que duraram uma semana.

Para sancionar a lei, os jornais, logo eles que vendiam anúncios de venda, aluguel e compra de escravos, fizeram uma campanha para doar uma caneta cravejada de ouro, esmeralda e diamantes para a princesa Isabel, cuja peça encontra-se exposta no Museu de Petrópolis.

Outro fato irônico nisso tudo veio da Igreja Católica, através de suas ordens religiosas. A instituição, que tanto explorou a escravidão, inclusive fazendo parte do tráfico negreiro, no final apoiou a ideia da abolição e esteve ao lado dos grandes abolicionistas, como André Rebouças, Joaquim Nabuco, Luiz Gama e José do Patrocínio.

“O RESTO É MAR/É TUDO QUE NÃO SEI CONTAR” (Música “Wave”, de Tom Jobim)

(Chico Ribeiro Neto-jornalista)

Restou um homem ainda cheio de carinho e muita vontade de acreditar, no ser humano, na força do coletivo e na grande arma da paz.

Um cara com qualidades e defeitos, mas a poesia junta tudo e nos joga num grande lago cercado de verde e crianças brincando nas margens. A gente costuma mentir um pouco quando fala de si mesmo.

Aos 74 anos, acho a pior coisa do mundo um velho que não acredita mais em nada. Creio na vida, na natureza e em nossa imensa capacidade de criar. Só se muda e fica vivo através da criação. Aposentado, se não escrevesse pelo menos uma crônica por semana eu já tinha morrido (ou ficado maluco). Um dos momentos mais felizes da minha vida é quando, aos domingos, toco no comando PUBLICAR no Facebook e posto minha nova crônica.

Disse Fernando Pessoa: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”.

Quero um dia ter fôlego e inspiração para escrever um romance. “Haja assunto”, dizia um amigo meu. O pior deve ser escrever o final. O início também é uma luta, e o resto vai saindo. Tem gente que decide se compra ou não um livro depois que lê as primeiras linhas. Nunca esqueço o que me disse um antigo vendedor da Livraria Civilização Brasileira: “Se tivesse mais tempo eu ia ler muito mais”.

Resta um homem que renasce com as manhãs, que adora caminhar, ouvir música e passarinhos, estar com a família e amigos e tomar cerveja. Não sou muito paciente, mas ainda consigo ouvir até o final a música “Eduardo e Mônica”, de Renato Russo. Não tenho paciência é pra torneira pingando nem pra fila de espera em restaurante.

Fiz jornal durante mais de 40 anos. Nada se parece mais com a vida. Como na vida, ninguém quer ler a edição de ontem. A cada manhã tem uma nova edição. Jornal é isso: mal acabou de imprimir a última edição e você já começa a preparar a próxima. Uma vez um taxista me perguntou: “Onde é que vocês acham tanta notícia pra encher tanta página?” Outra coisa aprendi na minha vida profissional: todo chefe que xinga e dá murro na mesa esconde uma incompetência.

Hoje é triste ver o jornal encalhado nas bancas servir para o cocô do cachorro ou para embrulhar peixe. Outro dia vi um cartaz numa banca: “Vendo jornais velhos”.

Resta um homem do signo de Gêmeos com ascendente em Peixes, cheio de lembranças da infância, dos amores e dissabores, das conquistas e perdas, dos beijos e das agressões, dos pecados e dos perdões, dos adeuses e dos senões, das friezas e dos tesões, dos sins e dos nãos. Resta um homem ainda com uma grande capacidade de amar e de se indignar.

Resta um senhor sentado numa pedra da Praia do Unhão olhando o mar, coração tranquilo. “Esse é o meu melhor advogado”, me disse uma vez uma senhora apontando para o mar no Farol da Barra, e explicou: “É só olhar pra ele que resolvo tudo”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

FLORES DOS CIPÓS

Dentro do próprio bioma da Mata Atlântica, ou da própria caatinga e até da ciliar, existe a chamada mata de cipó, uma espécie de vegetação que se entrelaça entre as árvores numa ramificação que se estende por toda floresta. Os cipós, os mais grossos, são até utilizados por micos e macacos como forma de ponte para se comunicarem e buscar comida em folhas e plantas frutíferas. Poucos sabem, no entanto, que os cipós brotam lindas flores como na imagem sobre o telhado do meu rancho.  Como o mandacaru e o cacto, os cipós são resistentes e não precisam de chuvas para suas subsistências, certamente por causa de suas profundas raízes que se nutrem da água do subsolo, pois corto todos os anos e, em pouco tempo, lá estão eles, que são utilizados para fazer cestos, jarros, caçuás e muitas outras peças artesanais, inclusive esculturas. Flores dos cipós também fazem parte do meu quintal, ou da minha pequena floresta caseira, já que ainda não tive a benção de retornar ao campo, como pretendo ainda em vida.

PESCADOR DE PENSAMENTOS

Mais um poeminha da minha lavra, Jeremias Macário, que em breve fará parte de uma obra intitulada “NA ESPERA DA GRAÇA”, só de textos poéticos. Aguardem!

Não sou de peixe pescar,

Nem em rio, nem em mar;

Sou mais da mata do orixá.

 

Curto minha cigana cabana,

Como recluso solitário,

Fugitivo dessa bruta sociedade,

Para ser pescador de pensamentos,

Sobre o sentido da liberdade.

 

Lá fora, o frio cortante,

No açoite dos ventos,

O coiote uiva no monte,

E a lareira aquece,

Minha prece,

Trazendo pensamentos,

 

Misturo Freud, Engls e Marx,

Na porta bate o Prudhon,

Também os antigos gregos,

Nietzsche, Tolstói e Sartre,

Existencialismos e ismos,

De Kafka, o niilismo,

De Shakespeare, o dom,

Na arte de viver sem apegos,

No dito pelo não dito,

Penso em Cristo,

No satanás maldito,

Que dizem ser mito.

 

A noite está se esvaindo,

A lua quase caiando;

Imagino não existir fronteira,

Como na origem dos tempos,

Quando amei aquela feiticeira,

Ladra do meu sonho,

Onde tudo lá deixei,

Para me tornar frei,

Pescador de pensamentos.

 

Nesse gelado inverno,

Escuto Círculo de Fogo,

Penso no céu e no inferno,

Nas palavras como jogo,

No fulk de Boby Dilan,

Milton, Raul e o pop Gil,

O bolero de Ravel,

Morricone e Joan Baez,

No som do piano de Elton John,

Que brotam de uma só vez,

Viçosos rebentos,

De pescador de pensamentos.

 

O sono no labirinto tombou,

Levando meus sentimentos,

De espírito cheio de dor,

Levanto com pensamentos,

De simples pescador.

ENTRE A DESTRUIÇÃO DO MEIO AMBIENTE E A PRESERVAÇÃO, A CONTA NÃO BATE

No momento em que se planta uma árvore, milhões estão sendo derrubadas e queimadas no planeta. O mesmo acontece entre um saco de lixo recolhido numa praia com o que se joga no mar e outras partes da terra. Depois de realizar essas ações generosas, muitos pegam seus carros e vão consumir porcarias nos shoppings.

Pelos séculos de estragos que já cometeram contra o planeta e que ainda cometem, com mais violência ainda, essa conta entre a destruição e as ações de preservação nunca fecha e nem empata. Por isso que, na minha visão racional e lógica, para muitos, pessimista e negativa, não existe mais retorno para o fim.

Na semana passada estava assistindo uma reportagem feita em países da Europa, cujas imagens são chocantes, onde a equipe jornalística mostrava pessoas se banhando para se refrescar do calor de mais de 40 graus, labaredas lambendo as florestas e povoados, o gelo se derretendo nos alpes, o mar revolto e vendavais nos Estados Unidos.

Como nos filmes apocalípticos, bateu logo em minha cabeça que a ficção se tornou realidade. Pela evolução da tecnologia, somada ao aumento do consumismo, as guerras e ainda o uso de combustíveis fósseis, o meio ambiente tende a se exaurir, decretando a destruição do nosso planeta.

Ao invés de investir no combate à fome e na preservação da natureza, os bilionários estão mais interessados em cagar e mijar no espaço em seus foguetes planetários. Para estar sempre lucrando e incentivando o consumo, a indústria não fabrica mais produtos duradouros e resistentes como antigamente.

A duração de vida de um fogão, uma geladeira ou qualquer aparelho eletrônico tem que ser curta, e logo começam a dar defeitos que não compensam mais serem consertados nas oficinas. A única saída é devolver aquilo para o meio ambiente e comprar outro bem.

Ah, muitos falam no processo de reciclagem de papelões, latas, garrafas e aproveitamento de sucatas e peças no uso de artes, mas isso é ainda insignificante se compararmos a ação agressiva e predatória do homem. Nos tornamos vândalos da nossa própria casa. É uma equação que nunca fecha, e a destruição sempre leva vantagem numérica

Nas campanhas de conscientização se ouve muito falar em preservação para que as novas gerações vivam num planeta menos poluído, com uma melhor qualidade de vida. Nas entrevistas em público cada um fala isso, mas lá na frente, tudo é esquecido e lá se vai uma ação contrária com o que se pregou.

Pelo andar da carruagem, esse ideal de reverter o quadro está longe de ser alcançado quando vemos nossos rios secarem e a temperatura só elevar. Dentro de mais 30 ou 50 anos, só enxergo o pior, com mais sofrimentos, tragédias, catástrofes e mortes. Oxalá que essa visão sombria esteja errada.

VAMOS REPETIR OS MESMOS ERROS?

Para o bem do Brasil e o fim dessa polarização extremista odiosa, imbecil e irracional, o ex-presidente Lula não deveria ter saído candidato. O PT poderia ter feito um mea culpa dos seus erros; ser mais humilde; e apoiar outro nome de esquerda no comando de outras lideranças com menor rejeição, sem essa personificação decrépita que só divide.

Aliás, se houvesse espírito de desprendimento, o que não existe na política, os dois poderiam fazer um pacto para unir o que foi rachado, e não entrarem nessa corrida, dando lugar a outros. Essa decisão se tornaria um marco histórico, e ambos seriam até glorificados pela população, mas tudo isso não passa de uma ilusão.

A raiva continua estampada nas redes sociais com suas fake news de ambos os lados, num país tão carente e de milhões de famintos sobrevivendo de esmolas, as quais não lhes devolvem a esperança. Estamos caminhando para a mesma burrice de 2018 e, quem vai levar a pancada, é o país, que continua sendo um desastre lá fora, alvo de piadas e comentários negativos.

De um lado um psicopata aloprado de ideias nazifascistas que não tem nenhum sentimento pela vida, falando de pátria e família, uma que ele destrói dia a dia e a outra coligada com milicianos violentos e corruptos. O que será do nosso Brasil? Vamos virar uma nação nazista latino-americana?

Do outro, um condenado pela Operação Lava-Jato que a própria Justiça (Tribunal Superior Federal) se encarregou de anular, mas as coligações com gente suja, os malfeitos e as trambicagens para se manter no poder nunca vão deixar de fazer parte da história. O “nós contra eles” criou um ambiente de raiva e cegueira.

Ninguém que parar para refletir. Os petistas partem para o linchamento e vão dizer que você é um direita retrógrado que está do outro lado. Acontece também o contrário. Na verdade, cada um só está pensando em tirar proveito da situação.

Com essa mistura indigesta de fanatismo e radicalismo cego, quem mais padece é o Brasil doente, cuja democracia, que não é a ideal, mas ruim com ela, pior sem ela, vive sob ameaças constantes do próprio mentor de uma ditadura, de militares cavernosos e seguidores terraplanistas medievais.

Assim caminha o nosso país que há anos não consegue encontrar o fundo do poço para começar a emergir das profundezas dos males, e começar a viver outra vida de união para reconstruir tudo aquilo que virou ruínas. Será uma maldição dos anjos?

O povo quer dignidade, reconciliação, direitos perdidos, alimento no prato, emprego e crença num futuro melhor, mas, infelizmente, está cego pela ignorância e sendo manipulado para destilar mais ódio, na base de uns contra os outros, do ferro a fogo, sem perceber que está sendo levado para o próprio suicídio.

Depois do mal praticado, engana a si próprio e sai por aí dizendo que não tinha opção para votar, como aconteceu em 2018.Se o passado e o presente estão condenados, a saída não seria seguir em frente para lutar por mudanças?

Mais uma vez vai prevalecer a burrice?  Nem um, nem o outro, seria a resposta para defenestrar de vez esse ódio canino. Fale isso para os petistas e você será imediatamente linchado, xingado como de direita retrógrada e que está apoiando o outro maluco. Acontece também o contrário. Durma com um barulho desse!

UMA INDEPENDÊNCIA QUE NÃO NOS LIVROU DA ESCRAVIDÃO E DA POBREZA

AS SEMELHANÇAS SOCIAIS DOS 200 ANOS ATRÁS PERSISTEM NA ATUAL SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS. AS DESIGUALDADES CONTINUAM PROFUNDAS COMO FERIDAS ABERTAS QUE AINDA NÃO CICRATIZARAM. O QUE TEMOS A CELEBRAR NESSE BICENTENÁRIO?

“O novo país independente nascia empanturrado de escravidão. E assim permanecia até quase o final do século XIX. Homens e mulheres escravizados perfaziam mais de um terço de toda população, estimada em quase 4,7 milhões de habitantes. Outro terço era composto por negros forro e mestiços de origem africana, uma população pobre, carente de tudo, dominada pela minoria branca e que sequer seria contada entre os cidadãos, ou seja, brasileiros aptos a votar, serem votados e decidir o futuro do novo país. Os indígenas, a esta altura já dizimados por guerras, doenças e invasão de seus territórios, sequer apareciam nas estatísticas”.

Este texto narrado pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes, no terceiro volume de “Escravidão” registra o cenário da época da independência, em setembro de 1822. As descrições se encaixam na atual realidade de 200 anos atrás. Ele ainda fala do Calabouço, uma empresa do Estado, onde os escravos eram para lá levados e açoitados. Naquela época, os negros eram presos pelos motivos mais banais como andar na rua “fora de horas”, comportar-se como suspeito, demonstrar “atitude estranha” ou simplesmente estar parado numa esquina.

Para os pobres e desvalidos da sociedade que têm seus direitos violados todos os dias, nada mudou depois de 200 anos. A nossa polícia é violenta, a escravidão, inclusive a trabalhista, continua de outra forma mais sofisticada, e o Calabouço, um lugar sujo, fedorento e macabro como nos tempos medievais, foi substituído pelas cadeias e penitenciárias superlotadas onde são amontoadas as camadas mais miseráveis, vítimas de uma sociedade que lhe virou às costas, negando educação, saúde e saneamento básico.

Do contingente dos indígenas que há 200 anos eram dizimados por doenças e guerras, sobraram algumas aldeias ameaçadas de serem expulsas de suas terras pelos garimpos clandestinos, sem contar que crianças e idosos estão morrendo por falta de assistência médica,  que o Estado, por obrigação, deveria proporcionar a essa gente. O quadro não mudou. Talvez, se formos comparar alguns dados, até piorou porque lá fora o nosso país é visto com de selvagens, com pena e vergonha.

Portanto, o que temos a comemorar nesse bicentenário, quando as florestas estão ardendo em fogo e o nosso meio ambiente sendo destruído? Vamos celebrar a evolução industrial e as novas tecnologias eletrônicas, ainda atrasadas e provincianas em relação a outras nações desenvolvidas? Uma festa verde-amarela de muitas pompas, desfiles militares, tanques, soldados, e civis nas ruas, tremulando suas bandeirinhas, não vão apagar nossas mazelas que são muitas e negativas. Ainda não vivemos uma democracia ideal que é manchada pela fome de mais de 30 milhões de brasileiros, sem falar nos 12 milhões de desempregados.

No sete de setembro de 1822, a escravidão era, na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência, um cancro que contaminava e ruía as entranhas da sociedade brasileira. O racismo persiste como um cancro, e 200 anos depois ainda estão discutindo a questão da cor da pele e odiando uns aos outros, numa nação dividida pelo preconceito e a discriminação. As leis foram feitas para proteger os poderosos que ficam sempre impunes pelos seus crimes de corrupção e ladroagens.

O mais contraditório nisso tudo é que os índios e os negros foram os que mais lutaram para consolidar essa independência, caso da Bahia em 1823, e depois foram excluídos do processo de inclusão.  O Brasil foi o último país do ocidente a abolir o regime escravista, depois de Cuba (1866) e Estados Unidos, em 1865, depois de uma guerra civil que resultou na morte de 750 mil pessoas. Em nosso país, a marcha foi bem lenta, começando em 1850 com a Lei Eusébio de Queiroz pondo fim ao tráfico negreiro, que não era cumprida. Em 1871 foi proclamada a Lei do Ventre Livre, e em 1885, a do sexagenários. Por fim, a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888.

“Os ex-escravos e seus descendentes foram abandonados. A segunda “abolição” defendida por muitos abolicionistas, jamais aconteceu. O Brasil nunca se tornou uma “democracia rural”, mediante uma reforma agrária, como preconizava André Rebouças. Jamais educou, deu moradias, renda e empregos decentes, como propunha Joaquim Nabuco. Nunca promoveu os negros e mestiços brasileiros à condição de cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres assegurados aos demais brasileiros, como desejavam Luiz Gama e José do Patrocínio” – destaca Laurentino em suas obras.

O autor diz mais ainda, que tanto os negros quanto os indígenas foram e continuam vítimas de um processo sistemático de genocídio, na forma definida por Abedias Nascimento. Como também assinalou Florestan Fernandes, o escritor de “Escravidão” concorda que esse processo de genocídio começou no passado e permanece em andamento no presente. “Da escravidão, no início do período colonial, até os dias que correm, as populações negras e mulatas têm sofrido um genocídio institucionalizado, sistemático, embora silencioso” – escreveu Florestan.

POR QUE AS IGREJAS FICARAM FORA?

Nas manifestações desta quinta-feira (dia 11/08) em defesa da democracia e do estado de direito, culminando com a leitura de uma carta aos brasileiros no salão nobre da Universidade de São Paulo, no Largo do São Francisco, por que as igrejas, principalmente a Católica, ficaram de fora?

A mídia passou batida neste questionamento. Gostaria de saber se os criadores do movimento tiveram algum propósito em deixar de fora representantes das igrejas, que não são poucas por esse Brasil, onde a Constituição protege a liberdade de religião? Elas são também as maiores interessadas.

Lá estiveram juntos, inclusive nas ruas e praças, o capital e o trabalho, empresários e operários, estudantes e professores, negros e brancos, todos os gêneros, jovens e idosos, estes testemunhas e vítimas da ditadura civil-militar de 1964, mas as religiões não foram, pelo menos, citadas.

Por que o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), pastores de diferentes igrejas e correntes evangélicas, mães e pais de santo do candomblé, babalorixás, islâmicos, judeus e outras religiões não se fizeram representadas nos discursos e pronunciamentos?

Será que são contra a democracia e o estado de direito? Todas estão ao lado dos negacionistas e concordam com as fake news de fraudes nas eleições? Creio que não é o caso. Alguns até são extremistas, mas não expressam a vontade do “rebanho”.

É verdade que existem muitos líderes de igrejas que compactuam com essa trama diabólica golpista, mas a maioria não comunga mais com essa ideia maluca, e nem está mais ao lado dessa psicopatia comandada pelo capitão-presidente.

Sabemos e está registrado na história que em 1964, a Igreja Católica, que mais tarde se arrependeu e até combateu, foi um dos segmentos da sociedade que se posicionou a favor do golpe militar de 1964, imposto na base da força dos tanques, do fuzil e da metralhadora em plena Guerra Fria onde o comunismo era tido como demônio e inimigo maior.

No entanto, a realidade hoje é totalmente diferente, e a grande maioria das instituições religiosas está ao lado da democracia e a favor das eleições livres, mesmo que o sistema eleitoral vigente seja cheio de falhas e buracos onde os poderosos se infiltram para se perpetuar no poder.

A verdade é que ficou um vazio na representatividade das igrejas, de modo a consolidar o processo de repúdio a qualquer intervenção militar e fechar o círculo de que toda comunidade civil brasileira está unida num só pensamento, o de ir à luta, se preciso for, para impedir um possível golpe na democracia e no estado de direito.

 

A IGREJA FOI CONIVENTE E ESCRAVISTA

De um modo geral, os jesuítas, os beneditinos e outras ordens religiosas sempre foram escravistas e participaram do tráfico negreiro, mas algumas vozes se levantaram contra. Na época, todos tinham escravos, do rico ao pobre e até negros forros libertos, como se fosse uma coisa comum.

Da parte da Igreja Católica, um que se destacou contrário a esse sistema foi o frei José de Bolhona, missionário capuchinho italiano residente na Bahia que, segundo carta de 1794 ao governador da capitania dom Fernando José de Portugal, como relata o jornalista escritor Laurentino Gomes, em sua segunda trilogia “Escravidão”, tentou persuadir seus fiéis de que “a escravidão era ilegítima e contrária à religião”.

A pregação do missionário inquietava as consciências dos habitantes da cidade de Salvador. Diante disso, Bolonha foi proibido de ministrar a confissão e logo despachado para Lisboa. Na Inglaterra, os ventos libertários já sopravam fortes vindos da parte de uma corrente protestante, com o empurrão da Revolução Industrial.

NAUFRÁGIO TRÁGICO

No final da segunda trilogia de “Escravidão”, Laurentino narra um naufrágio trágico que abalou o mundo daquela época. Esse fato aconteceu em dezembro de 1794 com o navio português “O São José Paquete d´África”, capitaneado por Manuel João Pereira.

Essa embarcação saiu de Lisboa em abril e, depois de navegar por mais de 12 mil quilômetros, ancorou em Moçambique, onde foram embarcados cerca de quinhentos negros com destino ao Maranhão, produtor de algodão, arroz e cana-de-açúcar.

Na noite de 27 de dezembro, depois de atravessar o Cabo da Boa Esperança (Cabo das Tormentas), foi pego por forte tempestade e seu casco espatifou-se num banco de pedras. Os alarmes soaram. Socorridos por moradores, os tripulantes e o capitão sobreviveram.

Como era esperado, o desastre sobrou para os escravos aprisionados no porão, onde 212 morreram afogados. Os demais foram resgatados e arrematados pelo melhor preço em leilão nos dias seguintes na Cidade do Cabo. A nau ficou sepultada até meados de 1980, quando arqueólogos conseguiram localizá-la.

POMBAL E A CRISE

De acordo com dados apurados por Laurentino, na história da escravidão foram registrados cerca de mil naufrágios ao longo dos 350 anos do comércio de escravos africanos no Atlânticos, a maior parte no século XVIII, época em que o reino de Portugal vivia em crise. A corrida do ouro e do diamante logo se esgotou.

Em 1750, após a morte de D. João V, o governo passou para as mãos de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro marquês de Pombal. Assim como Rasputin, na Rússia, Pombal foi defenestrado do poder por D. Maria I. Ele era uma espécie de primeiro-ministro do novo rei D. José I.

O período de Pombal ficou conhecido como “despotismo esclarecido”, forma moderna de governar, baseada em princípios do iluminismo europeu, visando reformar a economia, as leis e as instituições.

Pombal enfrentou três principais dificuldades. Uma delas foi a necessidade de reconstruir Lisboa, devastada por um terremoto seguido de um maremoto, no dia 1º de novembro daquele ano. O fenômeno deixou a capital em ruínas, matando 20 mil pessoas. Só três mil, das 20 mil casas, continuaram habitáveis. Das 40 igrejas, 35 desmoronaram. Apenas 11, dos 65 conventos, continuaram de pé.

Outro problema de Pombal foi conter os gastos e pagar as dívidas resultantes de uma sequência de guerras contra a Espanha, entre 1760 e 1770. A pior crise foi o esgotamento das minas de ouro e diamante do Brasil.

Para vencer este último fracasso, Portugal apertou os mineradores na cobrança de altos impostos. Veio, então, a chamada “derrama”, estopim da Inconfidência Mineira. Os preços do açúcar brasileiro também sofreram queda devido a competição das lavouras de engenho nas colônias britânicas, francesas e holandesas. Uma recessão derrubou o volume e a receita no Porto de Lisboa. Muitos comerciantes entraram em falência. No entanto, os gastos na corte não pararam de subir.

Para contornar as dificuldades, Pombal procurou imprimir uma reforma administrativa, inclusive com a polêmica expulsão dos jesuítas de todos domínios portugueses, com o confisco de seus bens. Suas propriedades incluíam 17 plantações de açúcar, sete fazendas com mais de mil cabeças de gado na ilha de Marajó e 186 edificações em Salvador. Era ainda grande proprietária de escravos no Brasil e em Angola.

Outra medida controvertida de Pombal foi o alvará de 1761 onde declarava que todos escravos negros desembarcados em solo português seriam automaticamente livres. Foi apenas uma medida prática de interesse econômico.

O ciclo de reforma terminou em fevereiro de 1777, com a morte de D; José. Sua filha dona Maria I foi a primeira mulher a ocupar o trono, trazendo o conservadorismo. Pombal caiu no ostracismo, e em 16 de agosto de 1781 foi proibido de se aproximar da corte. Ele tinha de guardar uma distância mínima de 110 quilômetros de onde quer que estivesse a rainha.

CONSELHO IMPULSIONA A CULTURA EM CONQUISTA

Carlos González – jornalista

Um ano de trabalho foi o suficiente para que o conquistense observasse que o esforço de um pequeno grupo de voluntários, eleitos em agosto passado para compor o Conselho Municipal de Cultura, deu um impulso num dos ramos mais importantes da política social de qualquer administração pública. A pandemia e o empenho de um governo inteiramente voltado para a reeleição – Cultura, deve ter pensado o gestor, não dá voto – contribuíram para o estado de abandono dos artistas da região.

Na gestão passada, de influência bolsonarista, as atividades culturais em Vitória da Conquista ficaram praticamente limitadas às apresentações da Neojiba, um núcleo de formação de orquestras infantis e juvenis vinculado à Secretaria de Justiça do Estado.

O tratamento dado pelo ex-prefeito Herzem Gusmão (1948-2021) à cultura, dentro da mesma linha do governo federal, com nítido viés evangélico, não traz boas lembranças à classe artística de Vitória da Conquista. Bolsonaristas fanáticos defendiam a queima dos livros do educador Paulo Freire (1921-1997) e do escritor Monteiro Lobato (1882-1948) e modificavam fatos históricos inseridos nos livros didáticos, como por exemplo a ditadura militar (1964-1985).

Manifesto assinado por artistas, intelectuais, políticos e cientistas denunciou na época a “escalada autoritária” do governo Bolsonaro, considerando-o como ultraconservador, colocando-se como censor de livros e de filmes, e dificultando o acesso da ciência às pesquisas nas universidades

Com uma visão menos conservadora, a prefeita Sheila Lemos tem reservado para a cultura parte da sua agenda de trabalho. Depois de nomear para a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sectel) pessoas que não estavam preparadas para o cargo, a gestora foi buscar um nome ligado à música sertaneja de raiz, o cantador Eugênio  Avelino Lopes Souza, popularmente conhecido pelo nome artístico de Xangai. Há mais de 50 anos ele divulga a música nordestina nos palcos e festas populares por todo o Brasil.

Frasista, o romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) manifestou certa vez ser “a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando com as peculiaridades locais”. Na abertura de seu discurso de posse, proferido em julho de 2021, Xangai prometeu, como principal meta de sua administração. “harmonizar o setor, evitar a política e levar a cultura de Vitória da Conquista a todo o planeta”.

Xangai comprometeu-se a batalhar para conseguir recursos com a finalidade de proporcionar, pelos menos sobrevivência, aos artistas conquistenses, “abandonados durante a pandemia”, com muitos deles vivendo no anonimato na zona rural do município.

“Eu estou puto”, protestou Xangai, e completou: “É uma covardia; abuso de confiança”, ao ver o seu nome associado ao do deputado Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Aquela apropriação indébita de seu nome e de sua imagem levou o cantador, ao ser convidado para o cargo, advertir a prefeita de que não se envolve com a política partidária.

Xangai se cercou de pessoas dispostas a colocar em prática seu programa de trabalho, eleitas sem qualquer tipo de ingerência e imunizadas contra a burocracia, um vírus que emperra o serviço nas repartições públicas do país. Assessores diretos do secretário, o Conselho Municipal de Cultura teve recentemente um encontro com a prefeita para fazer a entrega de várias propostas, entre elas a de  criar uma secretaria especial para a Cultura e organizar feiras de livros.

Feira Literária em Belo Campo

Argumentou o CMC que é inviável para qualquer administrador se dedicar, como o município pede, a quatro atividades essenciais à população. Os conselheiros reforçaram a ideia de que o conquistense não lê (livrarias fechando as portas, quatro ou cinco bancas de revistas em toda a cidade e os jornais de Salvador chegando no dia seguinte), conseguindo arrancar de Sheila a promessa de organizar ainda este ano um festival literário.

“Não dá pra entender que municípios de menor potencial promovam eventos literários, enquanto nós conquistenses, que temos uma população de mais de 400 mil habitantes e contamos com cinco universidades, estamos em débito com a nossa Cultura”, lamentou um dos conselheiros.

Nessa reunião foi lembrada a Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, divulgada em rede nacional pelo G1, onde os visitantes conviveram com variadas mostras culturais do sudoeste baiano, e percorreram estandes de vendas e exposições de livros de autores da região. Ainda este ano cinco cidades vão aquecer a cultura baiana. Uma delas é Cachoeira, no Recôncavo, que realiza, entre os dias 24 e 27 de outubro, sua festa literária internacional, a Flica, considerada como a mais charmosa do Brasil.

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