O MAIOR QUEBRA-MOLA DO MUNDO
Dizem que o brasileiro e o baiano são os maiores piadeiros do mundo, com tudo faz chacotas e gozações, no bom sentido. Vitória da Conquista já foi a cidade das flores, das boiadas, do frio, capital dos quebra-molas e agora inventaram essa de “Suíça Baiana”, coisa de complexo de pobre querendo ser rico. Quando se quiser dar uma referência para um encontro qualquer nas imediações da Avenida Régis Pacheco se diz perto do “Bigode de Pedral”, uma piada que pegou. Essa obra também levou a alcunha de maior quebra-mola do mundo. Poderia até ser inscrito no livro dos recordes. É a nossa Conquista de clima ameno e inverno rigorosos como foi neste ano. Com a minha idade já avançada ando pensando até em passar esse período em Teresina, em Palmas, Fortaleza ou aqui mesmo em algumas terras quentes baianas, mas sem grana para isso, preciso de um benfeitor ou patrocinadores porque o véio não aguenta mais essas baixas temperaturas. Mudei até de assunto, mas aqui, ou em outro lugar, sempre vou lembrar do maior quebra-mola do mundo onde milhares todos os dias cruzam aquele elevado vindo do oeste com destino ao centro resolver seus problemas do dia-a-dia naquela cotidiana correria pela sobrevivência.
UNS TÊM, OUTROS NÃO…
Mais recente poema de autoria de Jeremias Macário
Uns nascem,
Outros morrem.
Muita gente a guerrear,
Outros preferem amar;
Uns a brigar por ideologia;
Outros na labuta do dia a dia.
Tem a luta de classe,
Do capital contra o trabalho,
A crise e a boa fase,
Encruzilhada e atalho.
Uns se casam,
Outros se separam.
Tem a despedida na partida,
Os que ficam,
No adeus da saudade.
Existem os livres,
E os que não têm liberdade;
Os oprimidos e opressores,
Os rotos e esfarrapados,
Nobres, pobres e doutores,
Nesse mundo de todos,
Dos odiados e amados.
Uns colhem espinhos,
Outros rosas e flores.
Tem as mesclas e os linhos,
E cada um com suas dores.
Para uns, o céu,
Outros, o inferno.
Tem a abelha no mel,
A praga no plantio,
O simples passageiro,
O Supremo eterno,
E a terra com seu cio.
Uns pensam ser duque e barão,
Outros só querem viola e canção.
Tem a tirania,
A prosa e a democracia,
O alvorecer e o poente,
O pensar em cada mente.
Uns sobem e outros descem,
Nessa louca multidão,
Onde o monge faz sua oração.
Uns protestam,
Outros ficam calados;
Uns no forró e samba,
Outros vão de valsa e fados;
Uns gozam e amam,
Outros fingem que sim,
No início, meio e fim.
Tem o choro em pranto;
Muitos sem nada,
E poucos com tanto.
Muita fonte e fartura,
Tanque seco, gado berrando;
Saúde e doente sem cura.
Uns com alma de menino,
Outros com instinto assassino.
Tem o pau-de-arara retirante,
E o patrão escravista arrogante.
Uns semeiam primaveras,
Outros taras e feras.
Tem a pura ternura,
O sangue frio da secura,
Os estradeiros da poeira,
E os que nem abrem porteira.
Tudo é mistério e filosofia,
Encanto e poesia.
UM FUTURO SOMBRIO E TENEBROSO
Até o dia 30 de outubro não sabemos o que pode acontecer com o Brasil nos próximos quatro anos. Por enquanto estamos atravessando uma tempestade em mar revolto e não sabemos quanto tempo irá durar para termos uma calmaria e navegar em águas tranquilas.
Os ventos fortes com ciclones e tufões, os trovões e os relâmpagos nessa travessia tormentosa podem nos levar a um futuro sombrio de mais ódio, intolerância e destruição. Até pouco tempo era apenas uma ideologia de cunho fascista e conservadora que está se transformando numa seita tenebrosa.
Essa metáfora do tormento é o Brasil que há quatro anos vem sendo ameaçado em sua frágil democracia, e tudo começou com os movimentos de rua para dar um recado de que “o PT nunca mais” depois dos desastres na corrupção e nos malfeitos.
No entanto, pelo bem da nação, essa sentença feiticeira deve ser desfeita. Acontece que os raivosos não querem saber mais disso, não sabendo que também vão cair em desgraça. Chegou-se a uma cegueira tamanha que eles não querem mais enxergar a realidade e nem têm mais capacidade para tanto.
Essa tormenta tem origem também numa elite burguesa e num grupo de extremistas nazifascistas que viviam calados no armário porque não tinham quem lhes dessem voz e ação. Nas sombras das trevas surge um desconhecido que aproveitou a oportunidade dos conflitos e das divisões para renascer da sua tumba.
A senha já estava sendo anunciada por governos de extrema que tomaram o poder no exterior, principalmente na Europa. Os cientistas políticos, os sociólogos, os intelectuais e os analistas de plantão deram pouco ouvido para o que estava ocorrendo e não previram o pior.
A esquerda acomodada foi caindo nessa armadilha e não deu conta que por detrás de suas barreiras havia um inimigo perigoso. Uma turma aloprada foi fazendo suas estripulias e só pensou em tirar proveito e viver em suas mordomias, esquecendo do povo. Traiu um socialismo humano que havia pregado anos atrás. Da cachacinha tomou gosto pelo uísque e não quis mais largar o copo.
Outro fator que muito contribuiu para essa derrocada desastrosa foi o ajuntamento de 35 partidos, cuja maioria de tendência conservadora e moralista, formada, principalmente, por pastores evangélicos moralistas, foi comendo pelas beiradas do poder, sem contar a própria ajuda de um sistema eleitoral anacrônico coronelista que excluiu os bons de participarem da política.
O Congresso Nacional com suas negociatas escandalosas, inclusive contando como uma “oposição” que perdeu sua função histórica e filosófica, foi aninhando monstros do terror em sua casa, os quais se elegeram com o voto de um povo desassistido e desiludido com as promessas perdidas pelo meio do caminho.
Esse conjunto de fatores foi nos empurrando até os dias atuais para um precipício incerto de um país dividido. Para nos livrar dessa praga demoníaca e satânica de um futuro sombrio que se apresenta, a única saída é esquecer aquele grito de ordem de “PT nunca mais”, mas está muito difícil convencer o outro lado que, a esta altura está hipnotizada pelo mal.
O QUE SERÁ DO CINE MADRIGAL?
Lá está aquele imponente prédio na rua Ernesto Dantas há cerca de 15 anos fechado sendo desgastado pelo tempo. Ali tem história quando bons filmes atraíram milhares de moradores conquistenses. Guarda lembranças na mente de muita gente, namorados, casais, jovens, professores, intelectuais e gente do nosso povo. Eu mesmo estive lá por várias vezes assistindo boas películas.
Foi o último dos cinemas de rua de Vitória da Conquista. Como se diz no popular, o último dos moicanos. Quando encerrou suas atividades por causa da onda da internet, dos DVDs e fitas cassetes, a Igreja Universal – se não me engano – tentou compra o prédio, mas não deu certo.
Depois de muito discutir, a Prefeitura Municipal, entre os anos 2015/16, no governo de Guilherme Menezes, adquiriu o antigo Cine Madrigal por cerca de um milhão e 100 mil reais, barato pela sua estrutura e localização. Foi utilizado o dinheiro do Tesoura, isto é, do povo, e passado para a gestão da Secretaria de Educação.
São sete anos sem ser utilizado, coisas da Bahia e do nosso Brasil. A intenção do governo passado era transformar o antigo Madrigal num cineteatro, conforme garantiu o secretário de Educação da época, Valdemir Dias, hoje vereador. Até o momento nada aconteceu e lá está o elefante branco.
Quando de uma audiência do Conselho Municipal de Cultura, a prefeita Sheila Lemos explicou que o propósito era reativar o Cine Madrigal, mas antes tem que ser realizadas obras de reforma interna e externa de acessibilidade de modo a atender as exigências do Corpo de Bombeiros e do Conselho de Engenharia e Arquitetura.
Estamos sabendo que já existe um projeto de licitação para fazer os devidos reparos visando a abertura de suas instalações. No entanto, fica a pergunta, inclusive dos artistas em geral e da população sobre a sua utilização. Vai ser mesmo um cine teatro, ou apenas mais um estabelecimento de uso da Secretaria de Educação para reuniões, oficinas de capacitação e local de eventos de formatura? É isso que toda sociedade está querendo saber.
Existe a discussão de que haja uma gestão compartilhada entre a Educação e a Cultura através das duas secretarias, mas até o momento pouco se sabe e se anuncia sobre o assunto. O poder público tem a obrigação de informar e dar uma satisfação, mesmo porque é recurso do contribuinte. A Câmara de Vereadores também precisa se pronunciar e entrar nesse debate.
Com a interdição do Teatro Carlos Jheová, na Praça 10 de Novembro, os artistas em geral, músicos, as artes cênicas e outras linguagens ficaram sem local para realizar seus ensaios e eventos. Estão indo, com sacrifícios para outros locais, como o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima que pertence ao estado.
O antigo Cine Madrigal seria o ideal para atender a demanda, mas a nossa cultura, infelizmente, está órfã de pai e mães. Anda aí pelas ruas como uma mendiga maltrapilha com a cuia na mão pedindo esmolas. Todos passam e poucos dão alguma atenção jogando umas moedinhas em seu prato.
Queremos uma posição sobre este e outros equipamentos culturais, como a Casa Glauber Rocha que também se encontra fechada a mercê do tempo que não perdoa no quesito desgaste e destruição do nosso patrimônio histórico, na verdade, um resto que ainda está de pé. Tende misericórdia de nós, oh Senhor!
O NORDESTE NÃO É CURRAL DO SUL
BASTA DO POVO NORDESTINO SER TRATADO COMO COISA INFERIOR QUE PODE SER DESCARTADO!
Os extremistas de direita nazifascistas do Sul têm o desejo de transformar o Nordeste num holocausto e sempre menosprezam nosso povo com xingamentos e até com expressões assassinas de que todo nordestino deveria ser morto.
Isto ocorre, principalmente, em épocas de eleições quando a região vota ao contrário de suas ideias burguesas, como agora com a onda de áudios malditos e raivosos nas redes sociais, tratando o Nordeste como se fosse uma escória do país que merece ser varrido do Brasil.
Quero apenas dizer a esses imbecis retrógrados e amantes do retrocesso saídos da era medieval, ou para ser mais recente, do nazismo hitlerista, que sinto muito orgulho de ser sertanejo catingueiro nordestino, e não somos currais desses escravocratas. Se no Brasil as leis fossem severas para punir com rigor esses xenófobos, esses elementos bandidos e bandidas deveriam ir para a cadeia.
Estão circulando mensagens de ódio porque o Nordeste deu maioria ao candidato do PT. Não se trata apenas de uma questão política, mas de uma barbárie praticada por indivíduos do Sul onde mais cresce a ideologia nazista de supremacia da raça. Entendem eles que os nordestinos devem ser extintos.
Esquecem esses radicais conservadores que numa “guerra” de expressões culturais, de ideias, de escritores, poetas, cancioneiros, compositores, repentistas, músicos e pensadores, o Nordeste escorraça todos eles e ainda ganhamos nas tradições populares.
Não somos só bons no facão, na foice e na peixeira, mas também na coragem, na resistência, no trabalho, no caráter e na força da palavra. Somos fortes, e todo nordestino já nasce lutador com espirito de vencer, mesmo diante de tantas adversidades, inclusive das climáticas e da própria exploração do Sul.
Existe sim uma grande desigualdade regional secular e ela foi criada desde o período imperial, o qual se submetia ao patronato dos senhores do café e do comércio. Na República, o quadro continuou o mesmo onde os governantes tiraram recursos do Nordeste para despejar no Sul, especialmente enquanto perdurou a política do café com leite.
Quando o grande planejador economista Celso Furtado idealizou a Sudene (Superintendência de Desenvolvimento Regional) muitos sulistas foram contra. Outros até aproveitaram das facilidades dadas através da liberação de impostos para passar o calote e não implantar as empresas previstas nos contratos.
De forma direta e indireta, o Sul cresceu às custas do Nordeste quando serviu da sua mão-de-obra e utilizou do seu poder de barganha para desviar verbas da região. Como a elite rica capitalista que não quer ver o pobre melhorar de vida, o Sul sempre teve o mesmo comportamento com relação ao Nordeste.
Qual moral tem esses meliantes de ameaçar a matança de nordestino quando eles próprios destruíram o seu meio ambiente e definharam suas terras com plantios de soja e milho e depois vieram para nossos cerrados da Bahia (região Barreiras), do Piauí e Maranhão explorar nossos solos?
Eles estão aqui utilizando nossas águas, nosso chão, secando nossos rios com suas barragens e escravizando nosso trabalhador para lucrar com a exportação de grãos para China e outros países. A bancada ruralista xenófoba no Congresso Nacional é formada por qual região, ou quais?
Quem mais recebe dinheiro com juros subsidiados do governo federal, através dos bancos oficiais, para depois derrubar e queimar florestas para plantar soja e criar bois? Como jornalista acompanhei a criação do Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, e os cargos de diretoria e chefias foram ocupados pelos sulistas.
Os nossos governantes do Nordeste, tanto de direita como de esquerda, têm grande parcela de culpa quando aceitam isentar impostos (ICMS) por dez ou mais anos a indústrias sulistas em troca de umas migalhas de empregos com salários mais baixos que os operários de suas matrizes.
Um exemplo disso são as fábricas de sapatos, tecidos e tênis que são instaladas em nossa região, inclusive com doações de terrenos. Esses empresários do Sul usam o tempo em que o imposto é liberado e depois fecham as portas deixando os trabalhadores na amargura. Depois levantam acampamento e vão para outro lugar utilizando dos mesmos métodos.
As lojas Avan do fascista fazem o mesmo nos municípios onde chegam, se apropriando da isenção do ISS. É o dinheiro do povo sofrido do Nordeste que alimenta esses sanguessugas que depois desprezam os nordestinos e os trata como se fossem inferiores e um bando de imprestáveis que merecem ser mortos.
É A EXTREMA INVADINDO O BRASIL
Não sou nenhum profeta, cientista político, sociólogo, historiador ou coisa assim, mas há anos, por mais de dez, venho dizendo que a extrema direita ia invadir o Brasil, principalmente quando começou a crescer a participação dos conservadores evangélicos em pleitos políticos.
Não somente isso, mas o cenário assim se apresentava quando o PT começou a se desviar de seus princípios e se aliar à grande elite burguesa. Outro fator foi o crescimento contínuo das bancadas conservadoras no Congresso Nacional, sem contar que o nosso povo traz em sua história cultural um DNA do atraso.
Sobre o resultado das eleições, o professor de história e cientista político, Chico Carlos, fez uma previsão sombria do que vai acontecer a curto prazo no Brasil. Disse ele que em todo seu tempo de ofício nunca esperava um avanço tão acelerado da barbárie.
Em seu ponto de vista, não se trata de mudar o povo, mas transformá-lo através do investimento na educação. “Mais violento são os anos de fascismo que se abaterão sobre o Brasil. As florestas e os biomas Amazonas e Pantanal serão destruídos”.
Ele prossegue afirmando que os índios serão abandonados e depois declarados extintos pelo Bolsonaro. A cultura irá se transformar em programas de auditórios pelos cruéis conservadores, e as universidades em escolas para disseminar a ideologia do fascismo.
É muito triste desenhar esse quadro, mas é a verdade. Alguém do PSOL comentou que essa situação é uma tragédia e que a direita se enraizou em todos estados. As eleições acabaram de comprovar essa catástrofe a começar pelo número de senadores e governadores eleitos. O Bozó segue forte para o segundo turno.
Em minha humilde opinião, ficou registrado que aquele ódio de 2018 contra o PT ainda persiste. O partido se mantém em seu orgulho prepotente de não pedir desculpas pelos erros do passado. Nas majoritárias não aceita ser vice numa chapa. Quase ninguém entrou nessa campanha olhando o bem do Brasil, mas apenas com sede no poder, como se os meios justificassem o fim.
O Geraldo Alkmin, vice de Lula, não transferiu votos como se imaginava. Ao contrário, milhares de seus eleitores migraram para o Bozó. Em São Paulo, o Haddad é tão pesado junto ao eleitorado que ficou atrás do candidato do capitão-presidente, enquanto o Boulos, do PSOL, que deveria ser o nome a disputar o governo, conseguiu mais de um milhão de votos para o Senado.
Os quadros do PT estão ficando enferrujados e, mesmo assim, não faz um acordo onde não seja o cabeça de chapa. Além do mais, esqueceu suas bases populares e suas origens quando foi fundado. Passou do tempo de outros partidos da esquerda se unirem com um discurso sério e ações firmes de coerência ideológica que ficaram lá atrás. Como resgatar a confiança, sem dividir?
É angustiante ver essa extrema negacionista, arcaica, medieval, fascista e nazista avançar em nosso território. Por que tudo isso está ocorrendo? É hora de refletir, analisar, reconhecer os erros e tomar outras atitudes.
Temos hoje um Brasil cada vez mais inculto e com uma população ainda mais fácil de ser manipulada. Não dá para entender como um maluco psicopata, totalmente apagado como parlamentar, com ideias fascistas e totalitárias, sai da Câmara e faz todo esse estrago.
Lamentavelmente, o nosso país já está praticamente nas mãos desses extremistas. Vamos ter mais quatro anos de inferno? Esse segundo turno é incerto e tudo depende das alianças dos eleitores de Simone e Ciro, o qual está muito ressentido.
Essa polarização serviu mais ainda para dividir a nação com dois projetos bem opostos. Muita gente acreditou numa vitória no primeiro turno. Uns chegam a falar que o povo não acorda, mas, na verdade é produto desse sistema que eles (políticos) e nós mesmo criamos.
Mesmo com tanta desgraça em vários aspectos da vida brasileira, como depredação do meio ambiente (desmantelamento dos órgãos de fiscalização e liberação para derrubar floresta e grilar), invasão de terras indígenas pelos garimpeiros, discriminação racial e de gênero, misoginia, raiva contra jornalistas, relações péssimas no exterior, apoios a uma ditadura e tantos outros absurdos, o capitão conseguiu 45% dos votos.
Ser socialista sempre foi uma tarefa difícil, principalmente quando se está numa democracia burguesa onde elege Damares, Mourão, Marcos Pontes, Sérgio Mouro e tantos outros do mesmo naipe. Está na hora de toda esquerda fazer uma revisão, ser mais coerente e conquistar a confiança perdida do povo.
UM DEBATE DANTESCO E MENTIROSO
O povo já não aguenta mais as propagandas eleitorais, da forma como elas são expostas, nas emissoras de rádio e televisão, nem dos formatos dos debates. Eles viraram motivos de chacotas e piadas. São todos enfadonhos, e a maioria das pessoas desligam essas mídias.
O debate de sexta-feira na Globo foi um exemplo claro de como esses programas eleitorais perderam a credibilidade. Não decidem mais votos, nem dos indecisos. O “padre” Kelmon foi o destaque com aquela figura dantesca como se estivesse ressurgindo das sombras da inquisição da Idade Média.
Sempre disse que o capitão-presidente era imbatível em termos de pensamentos retrógrados, anacrônicos e ações de retrocesso. No debate de sexta descobri que me enganei, tendo em vista que o “padre” laranja superou o seu mandante a se candidatar a presidente. Com aquela indumentária esquisita, ele chamou a atenção do Brasil.
Outro fato de destaque foi a avalanche de mentiras propaladas pelos dois pretendentes ao cargo que estão na ponta das pesquisas. Nesse embate, o Bozó ganhou com larga vantagem do seu adversário. Como disse num de meus versos, ele mente descaradamente.
O mais hilário de tudo isso foi a cena do “padre” impostor lado a lado com seu aliado capitão discutindo políticas culturais. O “sacerdote” fez uma pregação dos “bons costumes morais” dos tempos da inquisição, condenando as peças teatrais de nudez e tantas outras que não rezam em sua cartilha. Só rindo para não chorar!
Coitada da nossa cultura, tão pisoteada e maltratada! O capitão em tudo concordava com que dizia o “padre” e acrescentava mais outras asneiras. Falaram de pátria, família, Cristo, catequese com as crianças nas escolas e tradição, mas nada de cultura. Aliás, temos que admitir que é a cultura deles. Sobre o tal debate vergonhoso, nada mais a comentar.
A ESCRAVIDÃO NA PRÓPRIA ÁFRICA
“No passado, nós pensávamos que era da vontade de Deus que os negros deveriam ser escravos dos brancos. Os brancos primeiro nos disseram que era para vender escravos para eles e nós vendemos. Agora, dizem que não devemos mais vender. Se os brancos pararem de comprar, os negros vão parar de vender”.
Isto foi o que o chefe africano, obi Assai, de Aboh, reino situado no delta do rio Níger, disse a uma comissão britânica que o visitou em 1841. Ele não conseguia entender por que até poucas décadas antes os europeus faziam todos os esforços para obter cativos na região e, de repente, haviam decidido parar com as compras.
O jornalista e escritor da trilogia “Escravidão”, Laurentino Gomes, em suas pesquisas, constatou que os chefes africanos achavam comum que seus próprios povos e prisioneiros de guerra de outras etnias e reinos se tornassem cativos. Muitos venderam príncipes e rainhas que eram seus rivais para o Novo Mundo.
Mesmo com as proibições do tráfico negreiro pelos britânicos, por Portugal e o Brasil, em 1831 e 1850, o comércio continuou clandestino e aumentou a procura por escravos na própria África. A escravidão, na verdade, era a atividade mais lucrativa para os dois lados e prosperava a troca de mercadorias, como tecidos, cachaça do Brasil, tabaco e outros utensílios.
A Costas da Mina (Golfo do Benin, no trecho entre o Togo e a Nigéria) era tão importante no tráfico de escravos que os principais chefes de estado a reconhecer a Independência do Brasil eram dessa região, conforme destacou Laurentino. O gesto, de acordo com ele, aconteceu mediante uma embaixada enviada ao Rio de Janeiro, em 1824, pelo ologum Osinlokun, rei de Onim, atual cidade de Lagos, na Nigéria.
Sobre o estranhamento da proibição do tráfico, o governador de Angola, Adrião Acácio da Silveira, em 1849, fez o mesmo comentário sobre as pressões dos ingleses pelo fim do comércio. Ele disse que, enquanto houver quem compre escravos, há de haver quem os venda. o pensamento tem semelhanças com o que ocorre atualmente no Brasil com relação ao tráfico de drogas. O reino do Daomé era uma das peças centrais dessa lógica escravista. O próprio reio Guezo (Benin) recusou-se a assinar, em 1848, um tratado sob o argumento de que a proibição seria o mesmo que mudar a maneira de sentir do seu povo.
O forte de São Batista de Ajudá (Benin) onde Francisco Felix de Souza, o maior traficante baiano, se estabeleceu após chegar à África, foi erguido pelos portugueses em 1721 para proteger o tráfico negreiro na Costa da Mina. Em 1727, o reino Hueda, do qual Ajudá fazia parte, seria invadido e devastado pelos exércitos de Agaja, um soberano implacável e perverso. Os derrotados eram vendidos como escravos.
O ENCANTADO
Por que as pessoas de um modo geral ficam encantadas com o pôr-do-sol? Em meu entendimento porque acalma o ser humano e o faz refletir sobre a vida que nos tempos atuais é tão corrida em busca da sobrevivência e da solução dos problemas. O pôr-do-sol tranquiliza o espírito como se fosse um encantado e nos faz pensar sobre os mistérios do universo. Transmite paz, amor e esperança de que depois do pôr-do-sol virá o alvorecer, o nascer de novo. Além do mais, um pôr-do-sol é sempre diferente do outro, dependendo do local onde a pessoa esteja colocado e em que ponto ele se despede do dia para dar passagem à noite. É reflexão e meditação. Ele faz você dar um mergulho em si mesmo, sem contar que é poesia e canção.
CULTURA! CULTURA!
Alguém aí ouviu eu falar cultura?
Dizem ser essa economia criativa;
O homem arrastando enxada,
Papo da comadre e do compadre,
Cantoria no mutirão do adjutório,
A pegada da parteira,
A folha benta da rezadeira,
Os versos do Assaré Patativa,
A batida do martelo na noite calada,
O som do violino e do violoncelo,
Boiada e foice cortando roçado.
Cultura! Cultura!
Um banquinho, voz e violão,
Pena imaginativa da literatura,
A vida no campo ou na cidade,
Vênia do súdito à sua majestade,
Luta pela liberdade de expressão.
Cultura! Cultura!
Está em tudo que se faz,
Na lida atrás daquele monte,
Onde o índio faz sua dança;
É água da primeira fonte,
Mergulhar no desconhecido,
Transgredir o “proibido proibir”,
Dar sentido à sua andança.
Cultura! Cultura!
Maracatu, Congo, Ternos de Reis,
Canção, violar, forrozar e sambar;
Embolada de nó, sarau e repente;
Cordel nas feiras do varal;
Inventar uma nota de três;
Ser sal e aceitar o diferente;
Viajar pelos mistérios do Além Mar.
Cultura! Cultura!
É o Baobá do africano,
A gameleira do baiano,
O atabaque no terreiro do orixá,
A tradição do cigano,
A arte do escrever e pintar,
E zelar da terra e do mar.
Cultura! Cultura!
Luz, lente, cinema e imagem;
Está na batida da palha do feijão;
Ternura, bravura e razão.
Cultura! Cultura!
Está no canto da poesia,
Nos editais da burocracia,
Nos relatórios e falatórios,
Na fome do conhecer,
No maldito corte da censura,
No saber traçar sua travessia,
Sou eu, o outro e você.


















