SEM ÂNIMO PARA ESCREVER
De tanto ver retrocessos nesse Brasil, de tantas barbaridades violentas, tanto desprezo pela educação e nossa cultura, de tanta destruição de nossas tradições e do nosso patrimônio, tantas atitudes fanáticas religiosas em nome de Deus e de Cristo, tantas imbecilidades poluindo nosso ar, tantas derrubadas e queimadas de nossas florestas, tantas atitudes de homofobia e racismo, de tanto ver prosperar a corrupção, muitas vezes perco o ânimo para escrever, porque é como se estivesse pregando num deserto sem fim.
Agora mesmo fico a matutar o porquê de estar rabiscando essas linhas, se elas não serão lidas? Antes de começar, muitos dirão que ninguém tem mais tempo, e que estou atrasado e defasado. A nova regra tecnológica diz que você tem que redigir e se expressar em textos curtos, coisa de cinco ou dez linhas. Seu espaço acabou. Você deixou de ser útil. Seja breve. Melhor ir catar conchas na praia ou morar numa tapera. Ufa, sou teimoso! Já fui longe demais!
Nosso Brasil de hoje está mais para uma sequidão de conhecimento, saber e de lideranças, com apenas alguns oásis aqui e acolá, sem um litoral de águas para refrescar seus habitantes e aliviar suas dores desse sol inclemente. O mau caráter virou moda e o fazer trambicagens, safadezas e roubos se tornaram práticas normais. Quase sempre, ninguém acredita mais em ninguém e, na concepção das pessoas, todos são desonestos, até que se prove o contrário. O quanta deterioração!
A maioria esmagadora não quer mais saber de ler, mas só clicar no celular; fazer o “ctrl c e o ctrl v”, copiar e colar; encaminhar as besteiras, as futilidades e as mentiras sem checar; agredir e xingar os outros, como loucos das extremas direita e esquerda. Mesmos assim, ainda existem os arautos que insistem em escrever, poetar e realizar arte, correndo o risco de serem queimados na fogueira da inquisição. No entanto, tem momentos que bate o desânimo.
Os assuntos são os mais variados. Não falta matéria prima. Todos os dias acontecem fatos inusitados e surpreendentes; coisas de horror que, infelizmente, se tornaram banais e poucos ficam chocados, estremecidos. Nosso país é um recheio de temas políticos, econômicos e sociais degradantes, tanto que fica difícil se inovar na escrita. A tinta quase sempre contém sangue. A pena sempre fala do penar, do choro e dos sofrimentos de milhões e milhões de brasileiros abandonados à própria sorte.
Nesse cenário, como escrever coisas positivas; delinear boas perspectivas a curto prazo; ser otimista e dizer que estamos num Brasil maravilha, abençoado por Deus, por todos os santos e orixás? Como enxugar as lágrimas? Como consolar os desamparados, os desempregados, os famintos, os tratados como apenas números, os injustiçados filhos da miséria, se essa grande maioria nem teve a chance de aprender a ler? Os que sabem se omitem em seus coitos de luxúria e individualismo.
Está difícil escrever, se poucos são os leitores para apreciar suas palavras. A maioria prefere o mais fácil, sem o esforço de pensar e refletir. Até os poetas, compositores e músicos não aceitam mais textos longos como nos festivais passados e nos tempos onde os grandes autores e escritores tinham suas torcidas, como nos estádios de futebol. Os jovens indicavam seus livros prediletos e havia o embate de ideias.
Nas ruas, bancos de praças, nos bares e restaurantes, todos estão com seus celulares na mão, e a conversa virou virtual, mesmo que exista um próximo ao lado. O outro sempre está distante, e não existe mais o olho no olho. Agora é tudo na base da curtida que se transforma em até milhões de “seguidores”. Inventaram até a profissão do digital influencer, ou influencer digital, sei lá. Pode até se tornar numa faculdade para os espertos ganharem dinheiro.
CONSELHO DE CULTURA DISCUTE PLANO MUNICIPAL E AUDIÊNCIA
Em sua reunião mensal, na Casa Regis Pacheco, o Conselho Municipal de Cultura discutiu, ontem, à noite, diversos assuntos pertinentes ao setor, como a questão dos festejos juninos, a audiência com a prefeita Scheia Lemos, no próximo dia 28 e a instalação do Plano Municipal de Cultura ainda em maturação.
Na ocasião, a convite do colegiado, esteve presente a presidente da Casa da Cultura, Poliana Policarpo, que falou sobre a história da criação da entidade em Vitória da Conquista, suas atividades ao longo de seus 50 anos e as principais dificuldades enfrentadas para disseminar a cultura.
Os membros do Conselho fizeram um apelo ao poder público e, particularmente, à Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, para realização de oficinas destinadas aos artistas, no sentido de passar informações sobre como lidar com as exigências burocráticas no momento de inscrições nos projetos e editais culturais.
Os artistas têm reclamado que existem muitos pedidos de papéis e documentos quando são abertos editais de participação nas festas, como agora no São João. Do outro lado, a Secretaria, através da sua coordenação, explica que são obrigações ditadas pelas leis, especialmente de responsabilidade fiscal, para que o executivo não caia em irregularidades. Outra resposta, enfatizou que os artistas precisam melhor se organizar para atender às normas estabelecidas.
Outro ponto em debate foi a audiência que a diretoria do Conselho terá no próximo dia 28 de junho com a prefeita quando estarão em pauta os problemas da interdição e da reforma do Teatro Carlos Jheová, a utilização do equipamento do Cine Madrigal, a conservação do monumento do Cristo de Mário Cravo, a necessidade de uma maior visibilidade para a cultura com a alocação de mais recursos e a realização de uma Conferência Pública, para elaboração do Plano Municipal e criação da Fundação Cultura de Vitória da Conquista.
OS REINOS DE DAOMÉ E OIÓ
No segundo volume da trilogia “Escravidão”, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a história do rei Agaja, de Daomé que, com seus exércitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Aladá, pertencente ao soberano Huffon que fugiu às pressas para uma ilha.
As tropas do Daomé tomaram o palácio e, em seguida dirigiram-se ao templo de Dangbe, onde as serpentes pítons eram cultuadas como divindades pelos huedas, designação do povo habitante do reino de Ajudá.
O saldo da ofensiva foi trágico. Dez mil pessoas foram escravizadas. Todos os fortes e entrepostos europeus existentes na região foram saqueados.
O capitão britânico William Snelgrave, que ancorou seu navio em Aladá (capital de um reino do mesmo nome vizinho de Ajudá), ficou horrorizado com a quantidade de moscas, todas atraídas pelas cabeças em decomposição de quatro mil guerreiros huedas sacrificados por Agaja em sinal de júbilo pela vitória em Ajudá.
Antes de Aladá, maior fornecedor de cativos na região, Agaja havia devastado dois reinos. Segundo relatos, ao fim dos combates, o rei capturou oito mil guerreiros que se tornaram cativos. De acordo com o historiador inglês Robin Law, “a guerra era a própria razão da existência do Daomé”.
No entanto, como descreve Laurentino em sua obra, o Daomé estava longe de dominar sozinho o tráfico de escravos na Costa da Mina (Golfo de Benin e região da Nigéria). Agaja e seus sucessores eram vulneráveis aos ataques de um reino ainda mais forte que o seu, o de Oió, situado a noroeste, no interior do continente, no território da atual Nigéria.
Os guerreiros de Oió eram exímios cavaleiros que, partindo do interior, conseguiam chegar ao litoral na época das secas. No tempo das chuvas, o charco impedia o avanço dos animais. Entre 1726/27, Oió destruiu vários vilarejos no campo do Daomé.
Em 1730, Agaja foi obrigado a fechar um acordo pelo qual concordava em pagar tributos e permitir que as caravanas de escravos dos adversários cruzassem seus territórios.
Laurentino narra que Daomé e Oió se tornaram tão eficientes no negócio negreiro que essa região logo se transformou na segunda maior fornecedora de cativos para a América, atrás apenas de Angola e Congo.
A demanda dos europeus (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e o Brasil, na América do Sul) por escravos era grande no século XVIII. Os reinos de Daomé e Oió não tinham condições de suprir toda procura. Foi então que os reis passaram a promover novas guerras contra os vizinhos, com o objetivo de vender prisioneiros aos traficantes. “O comércio de escravos dependia essencialmente da violência” – escreveu Robin Law.
Como consequência dessas razias, foram embarcados para o Brasil milhares de negros escravizados falantes de línguas jejes (hulas, huedas, aves, adjas, aizos, mahis e outras etnias). Juntos vieram também falantes de línguas iorubás( egbas, egbados, saves e anagôs), povos que viviam sob a influência do reino de Oió.
Essas nações se concentraram na Bahia que são os jejes e os iorubás, identificados como nagôs, que forneceram o modelo organizacional de formas rituais e de associativismo religioso que resultaram no candomblé na Bahia, no xangó de Pernambuco e no tambor de mina no Maranhão – destacou o historiador Luis Nicolau Parés.
Para Laurentino, deve-se aos africanos escravizados dessa região a principal influência no desenvolvimento de religiões de matriz africana no Brasil.
SÃO SALVADOR DA CIDADE BAIXA
Uma imagem da Cidade Baixa da capital São Salvador onde estão localizados o Mercado Modelo, o Museu do Som, o imponente Elevador Lacerda, a Marinha e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Saudades das festas de largo. Bem nessa encosta da montanha, as ondas das águas do mar batiam no entorno da velha “serra do índio tupinambá”, quando aqui chegou o primeiro governador Thomé de Souza. Com o tempo, o mar foi sendo empurrado para mais distante, dando lugar a moradias, e depois prédios comerciais, bancos, um porto mais moderno, empresas de exportação e importação, lojas, bares e restaurantes, a Associação Comercial e outras instituições, como a sede da Federação das Indústrias do Estado da Bahia. Até os anos 80, o local representava o centro comercial e financeiro da capital, mas tudo isso depois foi deslocado para as bandas da hoje Avenida Bonocô, Iguatemi e Centro Administrativo, na Paralela, destruindo boa parte da Mata Atlântica. É o progresso desumanizando a vida e impactando o meio ambiente. Lembro muito bem dessa efervescência capitalista quando era repórter de economia do jornal “A Tarde”, e era ali onde estava minha principal matéria-prima das reportagens jornalísticas do dia a dia. Conheci, praticamente, cada edifício, andar por andar onde estavam instaladas minhas fontes. Numa época, entre os anos 90 e 2000, a chamada Cidade Baixa virou uma cidade fantasma, só tomando novo impulso de atividades nos últimos anos, mas ainda de forma tímida. Mesmo assim, ali ainda reside a história da Baia de Todos os Santos da São Salvador.
BA-HIA
Versos de autoria do jornalista Jeremias Macário
Ba-hia, rainha do mar,
Baia de Todos os Santos,
Do índio tupinambá,
Das mitologias dos orixás,
Aprendi a fazer essa prosa,
No Seminário de Amargosa,
Ba-hia escrita com “H”.
Ba-hia dos cancioneiros,
Abençoada pela natureza,
Gil, Caetano, Novos Baianos,
Raul “Maluco Beleza”,
Do Rio e São Paulo, pioneiros,
Do Águia de Haia para o mundo,
Ba-hia encanto do canto profundo.
Ba-hia de São Salvador,
Mistérios e dos Terreiros,
Com seu manto de igrejas,
Senhor do Bonfim ou Oxalá,
Nos guie e nos protejas,
Raízes jejes, nagôs e iorubá.
Ba-hia do sertanejo catingueiro,
Resistente menino de pés no chão,
Filho do cacto e do mandacaru,
Nordestino, estrangeiro no sul.
Ba-hia de se perder de vista,
Nas histórias de Jorge Amado,
Dos coronéis de Itabuna e Ilhéus,
Tem cacau, café e o sol de Jequié,
Memórias de Vitória da Conquista,
Anísio Teixeira de Caetité,
Filmes de faroeste agreste,
Glauber, Elomar menestrel,
Repentistas versando nas feiras,
E grãos do oeste Barreiras.
Ba-hia do gado de Itapetinga e Caatiba,
Tem a Chapada Diamantina;
Foi lá que namorei uma menina,
No Piemonte de Piritiba,
Com ela fui me banhar,
Nas águas do São Francisco,
Virei pescador ribeiro,
Nas fartas frutas de Juazeiro.
O RAPÉ NAS PROSAS DOS COMPADRES
Para uma boa prosa e contação de causos na varanda de uma casa sertaneja, nada melhor que acompanhadas de uns bules de café e um rapé. Quer espirrar? Toma um rapé do tabaco bem torrado e temperado, como faziam os mais antigos e o preto velho sentados em seus bancos de madeira na boca da noite, que seja enluarada de deixar o terreiro prateado.
Depois de uma semana de labutas na roça, os compadres vizinhos costumavam se reunir para prosear, falar do tempo, da seca, das histórias de gente que deixou tudo para trás e foi para São Paulo, dos cabras valentes, das rixas de mortes entre famílias por causa de terras e das moças perdidas que fugiam com os namorados porque os pais não aceitavam o casamento. Com o rádio, a televisão e até a internet, em muitas casas, hoje não se encontra mais essa tradição da cultura oral.
Eram conversas de varar a madrugada. Algumas comadres apareciam, mas elas batiam os papos de mulher em separado, na sala ou na cozinha. O costume, machista ou não, falava mais alto. Cada rodada de café era seguida de outra de binga com o rapé. Um tinha que provar a pitada do outro, e sempre havia aquela que era a melhor. O segredo estava no saber fazer o rapé, como a do preto velho, com 90 anos que mais escutava que proseava.
Oi compadi Amanço, passe ai a binga do seu fumo! Esse tempo tá anunciano sequidão e já tô furano um poço pra não fartá água pra nós. Vamo fazer um adjutório. É cumpadi Calixto, a coisa tá feia, tudo caro na fêra. Parece fim dos tempos. O mundo tá virano um furmiguêro de gente pra lá e pra cá. O outro comentava a moça que fugiu de casa para se amancebar com um sujeito que apareceu nas redondezas. Não era gente que prestava.
A prosa começava a ficar animada nos causos de coronéis, como de Honorato Calunga que foi morto por um jagunço vindo de lá das bandas das Minas Gerais para se vingar da irmã que foi desonrada por ele há muitos anos. Sua mãe morreu de desgosto e o pai até se matou. Coronel Honorato tinha fama de cruel naquelas bandas nordestinas.
O cabra se acoitou na fazenda e esperou o momento certo para dar o bote com uma espingarda papo amarelo e ainda sangrou o danado no chão. Foi num descuido dos seus capangas quando ele saiu para fazer suas necessidades fisiológicas no mato. Depois caiu no mundo. Ninguém teve mais notícias dele. Contam que o “bicho” tinha parte com o satanás e se transformava até num toco quando era perseguido pela polícia.
Lembro desde menino das estórias de assombração do cavaleiro invisível que nas noites sem lua saia de uma cancela da mata. Dava para se ouvir a batida nos mesmos horários. Descia e sobia a ladeira do Corcunda numa picada só, aboiando gado como se estivesse numa comitiva. O compadre do lado garantiu que já viu o tal vaqueiro passar por ele numa sexta-feira treze.
É cumpadi Selestino, sabe daquela linda moça que foi assassinada a faca toda vestida de noiva quando já ia pra igreja? Pois é, cumpadi, tudo por ciúme porque ia se casá com outro. Foi um horror, muito choro e bafafá. E o sem vergonha safado do coisa ruin do Tião que dormia com as fias! Teve três fios com as fias. Morreu berrano e espumano como boi no matadoro.
O preto velho, mais calado, com seu cachimbo, contava sempre as histórias de seus avós que eram escravos nas plantações de cana e levaram muitas chibatadas de um tal coronel Carvalho, muito perverso com os negros que ele mandava o capataz castigar no reio até cortar a carne. Amarrava o cativo no mourão e jogava sal e vinagre nas feridas do pobre coitado.
O preto velho, com sua sabedoria e conhecimento de quem já viu muito sofrimento do seu povo pela vida, tinha sempre um bom conselho para dar. Sua palavra ponderada, como de um profeta dos acontecimentos, era escutada com atenção. Previa anos difíceis para a população urbana e rural e recomendava a todos que preparassem seus espíritos para não se deixar enganar com a chegada dos anticristos.
Quando a prosa ficava mais baixa, era coisa de mulheres para as comadres não escutarem. Cada um tinha alguma quenga no povoado ou na cidade. Coisa bem escondida, na treita, por dentro da moita. O rapé rolava, e o compadre dono da casa dizia que era bom para jogar o catarro para fora.
Ali, naquela irmandade, cada um ajudava o outro quando a seca batia forte de rachar o chão nas lagoas e tanques sem água. Em alguns pedaços, a terra começava a virar sal. Apareciam as clareiras desérticas. O mandacaru e o xique-xique ainda sobreviviam, até nos lajedos e nos pedregulhos. Só bem tarde da noite, os compadres se despediam com abraços e louvar a Deus.
Para quem não sabe, o tabaco, do qual se fazia o bom rapé, o charuto e o cigarro, foi um dos primeiros produtos de exportação do Brasil colonial para a Europa e para África. Ao lado do açúcar, da cachaça, peles, o ouro, outras mercadorias e utensílios, era trocado por escravos na costa africana, principalmente na Nigéria, Gana, Benin, Angola, Congo, Guiné, Cabo Verde e até Madagascár. De lá nasceram as religiões matrizes do candomblé, mas ai são outras histórias antropológicas dos nossos antepassados.
UM GOL COM SABOR DE DESFORRA
Carlos González – jornalista
Ao marcar, aos 13 minutos do 2º tempo, o gol que deu o 14º título de campeão da Europa ao Real Madri, o brasileiro Vinicius Júnior não podia imaginar que estava reativando um conflito, que já dura três séculos, entre Espanha e Grã-Bretanha, cujo alvo é Gibraltar ou The Rock, um cabo, dominado por um rochedo com 426 metros de altura, no Mar Mediterrâneo, ao sul da Península Ibérica. A disputa por esse e outros territórios ultramarinos – são 15 no mundo – da Commonwealth, “onde o sol nunca se põe”, tem se refletido nas disputas esportivas.
Para nós, cidadãos espanhóis, a vitória de um clube ou da seleção diante de adversários ingleses tem um significado muito mais relevante. Provavelmente, catalães e bascos, que sonham em se separar da Espanha, não partilhem do mesmo sentimento.
Na sua trajetória até o título, com o apoio de cinco jogadores brasileiros, o conjunto madrilenho derrubou três expoentes do futebol britânico: Manchester City, Chelsea e Liverpool.
A indignação que sentem os espanhóis contra aqueles que, em pleno século 21, praticam o estúpido colonialismo, é dividida com os argentinos, que não contavam com a reação da Grã-Bretanha, quando tentaram reaver o arquipélago das Malvinas, que dista 480 km do sul do continente sul-americano, e desde 1833 seus governadores são escolhidos em Londres.
O espírito patriótico da Junta Militar que governava a Argentina foi respondido com dureza pela Dama de Ferro, a primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013). A Marinha e a Força Aérea da rainha derrotaram nossos vizinhos em dois meses (de 21 de abril a 14 de junho de 1982), com o registro de 649 militares portenhos mortos e 255 britânicos. Após o fim do conflito, a sangrenta ditadura argentina, implantada em 1976, durou só um ano, deixando mais de 30 mil famílias enlutadas.
“Com um gol da mão de Deus e outro do pé do Capeta”, a Argentina derrotou a Inglaterra nas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, no Estádio Azteca, na Cidade do México. O jogo simbolizou para os sul-americanos uma revanche da guerra das Malvinas, quatro anos mais tarde. Havia na época e permanece até hoje uma atmosfera de ódio entre jogadores (em campo, Maradona foi marcado com faltas violentas) e torcedores (barras bravas e hooligans trocaram socos nas proximidades do estádio, com saldo negativo para os ingleses, sendo que alguns deles tiveram de ser hospitalizados).
Poucos antes de morrer, Diego Maradona, autor dos dois gols, sendo que o segundo foi escolhido como o “gol do século”, declarou que “o clima da partida fez parecer que íamos participar de outra guerra”. Sobre o gol de mão, disse: “Foi tão rápido que o juiz de linha não percebeu. O árbitro olhou pra mim e disse “gol”. Foi uma sensação agradável, como uma espécie de vingança simbólica contra os ingleses”. E finalizou: “Na verdade, o povo argentino foi iludido pelos militares, que divulgavam outro cenário da guerra”.
Voltando a Gibraltar, o território ultramarino tem uma enorme importância econômica, geopolítica e militar para o Reino Unido. Distante 13 kms. da costa espanhola, com uma área de 6,8 km², Gibraltar foi fundamental para as vitórias dos aliados nas duas grandes guerras, e atualmente abriga uma base aeronaval da Otan.
A atividade econômica de Gibraltar se concentra no suporte (reabastecimento e reparo) aos 85 mil cargueiros em viagens para a Europa, África e Ásia, que atravessam anualmente o estreito, reduzindo tempo e despesas. A maioria dos seus 30 mil habitantes ganha a vida no porto e nas docas, e residem em cidades espanholas.
Ao longo dos anos, a Espanha tem procurado negociar, solicitando a mediação da ONU, a soberania de Gibraltar, mas seus diplomatas esbarram na índole belicosa e colonialista dos britânicos. Há poucos dias foi conhecido um documento do Ministério da Defesa, onde o primeiro-ministro Boris Johnson se compromete a empregar a força militar para defender colônias e territórios, citando as Malvinas e Gibraltar, ressaltando que medidas eficazes devem ser tomadas para impedir a presença de navios de guerra espanhóis no estreito.
EDUCAÇÃO, CORRUPÇÃO E FOME
Alguém poderia até indagar o que um tem a ver com o outro. Tem tudo, e ainda poderia acrescentar a violência. Se a criança não tem educação, ela vai crescer pobre e viver de bicos e na informalidade pelo resto da vida. Será sempre um “Zé Ninguém” ou vivo-morto. Dificilmente, esse mercado irá absorvê-lo. A corrupção rouba o dinheiro que deveria ser aplicado na educação e, sem ela, vem a fome e a miséria que hoje assolam mais de 50 milhões de brasileiros.
Ouvi muitas vezes falarem que o Brasil necessitaria de 20 anos priorizando a educação, para o Brasil entrar na esfera do desenvolvimento sustentado, como fizeram outros países como a Coreia do Sul, Japão, Finlândia e outros tantos. Tivemos praticamente esse tempo nos governos do PT, e continuamos patinando e sendo uma vergonha nacional e internacional nos índices de reprovação escolar.
Para dizer a verdade, que poucos gostam de ouvir, nenhum governante colocou a educação em primeiro lugar, mas o populismo das cestas básicas do Bolsa Família. Comida no prato é essencial, mas se não vier com uma educação básica de qualidade para todos, a danada da fome vai permanecer a bater nas portas com sua caveira e foice da morte.
E a corrupção? Ela é a mais mortal e carrasca porque deixa um rastro de destruição na alma humana, mesmo que se tenha a educação como meta de investimento. Seu estrago pode ser detectado em todas as partes, como na falta de mais recursos para a saúde, o saneamento básico, a segurança e para realizar políticas públicas sociais.
O sujeito pode ter recebido um bom ensino, ser instruído e rico e ser um safado corrupto, caso do Brasil, cuja maldita vem lá de cima e contamina até as camadas mais pobres. Mas alguém poderia perguntar, por que isso acontece? Responderia que a atual educação do faz de conta e a formação familiar estão degeneradas e podres. Praticamente, todo cesto de frutas está bichado.
Como resultado de tudo isso de ruim e nojento, temos uma sociedade depravada e promíscua, passando de avós para país e de pais para filhos, com o um só intuito de se tirar proveito em tudo, não importando que isso vá gerar fome e mortes. As desigualdades sociais profundas são apenas consequências desse cenário de lento massacre humano, não tão perceptível como numa guerra onde as bombas esquartejam e fulminam corpos.
A negação da educação e a prática da corrupção poderiam levar seus responsáveis aos tribunais como réus considerados a crimes de guerra e pegarem, pelo menos, prisões perpétuas, mas isso no Brasil da impunidade é impensável e utópico. Então, sem educação e com a corrupção, infelizmente, só nos restam mais fome e uma infância perdida nas ruas. O populismo, seja de direita ou esquerda, só nos tem a oferecer um paliativo, como um analgésico que alivia a enxaqueca por algum tempo, mas não cura a doença.
É inconcebível viver num país onde esse quadro da falta de educação, da corrupção e da fome faz parte das nossas vidas e se transformou numa rotina como se fosse tudo normal. O pior de tudo isso é o silêncio dos “bons” e todos acharem que não têm culpa nessa desgraça. A imagem que passa, não somente lá fora, é que o Brasil é um caso perdido, e não me venham com essa de pessimista e espírito de derrotado.
Jamais uma ditadura, porque a situação só iria se agravar sem o mais precioso da vida que é a liberdade, essa que me faculta o direito de dizer o que estou escrevendo. No entanto, a verdade, é que estamos ainda bem longe de uma democracia ideal e desejada, quando convivemos ainda, lado a lado, com essa educação mambembe, com a corrupção e a fome que ceifa a vida de milhões, sem falar na estúpida violência que compete em superioridade com a morte natural.
CINCO MILHÕES DE ESCRAVIZADOS
Antes de Cabral chegar ao Brasil, Portugal já explorava a costa africana e começou a traficar cativos no final do século XV. Segundo o banco de dados Slavevoyages.org, no primeiro século da colonização, da chegada da esquadra de Cabral à Bahia até 1600, entraram na América Portuguesa cerca de 30 mil africanos escravizados.
“O número teria sido multiplicado 26 vezes, para aproximadamente 784 mil, entre 1600 a 1700, em razão, principalmente, dos cultivos das lavouras de cana-de-açúcar no Nordeste brasileiro. No século seguinte, cresceria mais duas vezes e meia, chegando perto de dois milhões num espaço de apenas cem anos.
Outros dois milhões viriam até a metade do século XIX, no auge da cultura do café no Vale do Paraíba e na região oeste de São Paulo, transformando o Brasil no maior território escravista do Hemisfério Ocidental, responsável pela importação de 4,9 milhões de africanos”. Estima-se que todas as Américas importaram cerca de 12 milhões de escravos.
Um levantamento realizado em Salvador, em 1775, registrou 35.253 habitantes, dos quais 42% eram escravos. Brancos somavam 36%, enquanto negros e mulatos livres totalizavam 22%. Em 1798, a população do Brasil era estimada em 3,25 milhões de pessoas, sem incluir os indígenas “bravios”, ou seja, não incorporados à civilização colonial portuguesa. Quase 50% eram escravos. Nas regiões mineradoras e produtoras de açúcar, a proporção chegava a 70% ou mais”.
Todas essas informações e muito mais, podem ser encontradas nos três volumes dos livros do jornalista e escritor Laurentino Gomes, intitulados “Escravidão”. Diz mais ainda que, entre 1751 e 1842, cerca de 100 mil africanos desembarcaram no porto de São Luis do Maranhão. Quase a metade disso, 49 mil, foi redirecionada para o Pará. O último desembarque de navio negreiro na Amazônia ocorreu em 1846, quatro anos antes da abolição do tráfico de escravos para o Brasil, estabelecida pela Lei Eusébio de Queirós, de 1850.
Na compra dos escravos, os capitães dos navios e os empresários traficantes pagavam com conchas cauris, das Ilhas Maldivas, o zimbo, da Ilha de Luanda, e diversas mercadorias e objetos, como açúcar, algodão, carne seca, madeira, redes de pesca, macacos, pássaros e cachaça do Brasil.
A escravidão no Brasil registrou seu maior auge no século XVIII, principalmente por causa da corrida do ouro. Com isso, segundo Laurentino, os europeus estimulavam as guerras, fornecendo armas, munições, cavalos, armaduras e até treinamento militar aos seus aliados africanos. Com as guerras entre as etnias, aumentava consideravelmente o número de prisioneiros cativos. Os preços por cada cativo foram absurdamente inflacionados
Os portugueses, holandeses, franceses e outros europeus não adentravam ao interior do continente porque era perigoso. Os navios ficavam no litoral esperando as caravanas de escravizados trazidos pelos chefes dos reinos que governavam cada estado.
Em Angola, eram chamadas de “guerras pretas”, expedições punitivas promovidas pelas autoridades coloniais portuguesas com o pretexto para elevar o número de cativos em oferta nas regiões costeiras. A Inglaterra era um dos maiores exportadores de armas para criar conflitos entre os reinos.
SESSÃO VALORIZA O FORRÓ
Foi memorável a sessão mista cultural da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista, realizada ontem (dia 27/05), quando se celebrou e se valorizou o forró, símbolo musical do Nordeste. O evento, proposto pela parlamentar Lúcia Rocha, teve forrozeiros fazendo a festa na abertura e debates onde se condenou a descaracterização dos festejos juninos com a introdução de outros ritmos e bandas que nada têm a ver com o nosso forró.
Muita gente dançou ao som da sanfona, da zabumba, do pandeiro e do triângulo, mas durante os trabalhos, conduzidos pelo presidente da Casa, Luis Carlos Dudé, as falas foram no sentido de valorização em defesa do forró, com denúncias contra prefeitos que contratam cantores e bandas para tocarem o arrocha, o axé, a lambada, o sertanejo e até o rock, assassinando a tradição cultural nordestina.
Sobre esta questão, levantada pelo presidente do Conselho Municipal de Cultura, Jeremias Macário, quando disse que os alcaides fazem isso com o argumento vazio de que esses ritmos atraem mais gente para suas cidades, o secretário de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Eugênio Avelino (Xangai) arrematou que eles estão é traindo o povo que paga a festa.
Dudé endossou as mesmas palavras e destacou que nos carnavais, Escolas de Samba e shows de rock ninguém coloca forró para tocar, acrescentando que as rádios de Vitória da Conquista deveriam colocar músicas de forró durante todo ano, e não somente no período junino. “Temos que fazer forró todos os dias, para valorizar cada vez mais essa nossa cultura nordestina”. Ele ainda propôs a criação, em Conquista, de um centro de tradições nordestinas. O casal de músicos Venicius e Lara sugeriu que se realize um festival de forró na cidade.
Na ocasião, a vereadora Lúcia Rocha anunciou seu projeto de lei 2614 de 2022 que deverá instituir a semana do forró em Conquista. O seu colega Valdemir Dias enfatizou que todos gostam do forró e dos festejos juninos por serem populares. “É aquela coisa de todos estarem juntos em família, e temos que resgatar as tradições”.
Outro ponto discutido pelo Conselho de Cultura foi quanto ao problema da burocracia do poder público municipal em relação aos editais de seleção de artistas para se apresentarem nos palcos da cidade. De acordo com o Conselho, as normas precisam ser mais simplificadas e flexibilizadas para que o artista tenha acesso à participação da festa. Todos vereadores presentes concordaram com a crítica e pediram redução das exigências documentais.
















