OS LEILÕES COMO SE FOSSEM ANIMAIS
Desde quando começou a escravidão africana rumo ao continente americano no início do século XVI, os cativos eram leiloados nos entrepostos ou armazéns como se fossem objetos ou animais, na base do peso, da idade, dos dentes e do estado de saúde. O Valongo, por exemplo, no Rio de Janeiro, foi um dos maiores entrepostos de escravos das Américas.
Em sua terceira obra “Escravidão”, o jornalista e escritor Laurentino Gomes relata que “a prática antiga, herdada dos primeiros tempos da colônia portuguesa, os leilões de pessoas só foral legalmente proibidos no Brasil por decreto de 15 de setembro de 1869, faltando menos de duas décadas para a Lei Áurea”.
No mesmo decreto, segundo ele, se proibiu a separação de marido, mulher e filhos em idade inferior a quinze anos. No entanto, como tudo em nosso país até nos dias atuais, dava-se um jeitinho para burlar as leis. Como sempre, a prática ilegal era feita pelos poderosos senhores escravistas que terminavam ficando impunes.
Nos leilões, uma vez fechada a compra, os escravos eram marcados a ferro quente, com o nome de seus donos. De acordo com citação de Laurentino, o tenente alemão Julius Mansfeldt, que visitou o Rio de Janeiro, em 1826, contou que primeiro o marcador lambuzava a área da pele com gordura animal e depois aplicava sobre ela um pedaço de papel mergulhado em óleo. Por fim, uma haste aquecida sobre um braseiro, recortada com as iniciais do senhor, era pressionada sobre esse retalho de papel.
As boas “peças de qualidade” eram leiloadas nos armazéns do Valongo, e existiam também as encomendas feitas diretamente pelos senhores aos traficantes ou capitães dos navios. As mulheres, crianças, os mais velhos e com defeitos físicos eram comercializados no mercado secundário por preços mais em conta por pessoas de menor poder aquisitivo.
Tropeiros, mascates e até ciganos entravam nesse mercado. Viajavam léguas pelo interior oferecendo esses cativos como se fossem quaisquer mercadorias. Nas transações, existiam também os chamados alugueis de escravos que, como a venda, eram anunciados pelos jornais da época. Todos queriam ter um escravo, até o pobre e o alforriado que juntavam dinheiro para adquirir uma “peça”, mesmo que fosse doente.
Agências de compra, venda e aluguel se multiplicavam pelas cidades brasileiras. O autor de “Escravidão” narra que uma dessas casas, chamada Narcizo e Silva forneceu, em 1856, uma escrava para José Thomaz Nabuco de Araújo, ministro do Império e pai do abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco.
Sobre o Valongo, diz Laurentino que é um dos mercados de escravos mais bem documentado na história da escravidão, graças aos relatos de diversos viajantes que estiveram no Brasil entre o final do século XVIII e nas primeiras décadas do XIX. Os armazéns chegavam a acomodar até quatrocentos escravos cada um.
Em 1826, um viajante escocês chegou a calcular dois mil escravos em exposição para venda no Valongo, estocados em cerca de cinquenta barracões. Somente na primeira década do Brasil independente, o mercado e seu vizinho cemitério dos pretos novos começaram a ser alvos de protestos dos moradores por causa do mau cheiro e doenças.
Os mortos eram enterrados em covas rasas e quando batiam as chuvas, seus cadáveres apareciam em terra nua. Eram mais de mil sepultamentos por ano. As reclamações só foram atendidas em 1830 quando o cemitério deixou de funcionar.
CADÊ A PRAÇA DOS ORIXÁS?
Temos belas praças em Vitória da Conquista, algumas bem arborizadas e conservadas, a começar pela Tancredo Neves, a mais visitada, principalmente na época do Natal. Temos ainda a Sá Barreto, a Gerson Salles, a Praça do Gil e a Victor Brito na saída da Avenida Bartolomeu de Gusmão. As mais urbanizadas estão localizadas justamente na zona leste. Os poderes públicos precisam olhar mais para a zona oeste, sempre esquecida. No entanto, a questão maior não é esta. Sempre me pergunto do porquê ainda não termos, em Conquista, a Praça dos Orixás, tendo em vista que o candomblé é forte no município com cerca de 200 terreiros entre as zonas urbana e rural? Temos a Praça do Índio, que demorou de ser criada, a da Bíblia e até, porque não dizer, da Catedral que está integrada à Tancredo Neves? O assunto já foi comentado pelos povos de axé, mas até o momento nenhum prefeito tomou a iniciativa de construir a Praça dos Orixás. Lugares existem de sobra. Será preconceito religioso?
SEUS CABELOS
Mais um verso da lavra de Jeremias Macário
De seus cabelos,
Cor da graúna,
Finos fios,
Tecem nessa teia,
Enredos e segredos.
Seus cabelos ternura,
De pura seda,
Deusa grega,
Tão meiga,
Do cisne Zeus,
Ou cigana alegria,
De alma indiana,
A irradiar energia.
O poeta navegante,
Das espumas flutuantes,
Encantado se enamorou,
Com aquela sereia,
Serena a flutuar,
No mar das águas nua,
Prateada da lua,
E de seus cabelos,
Dela fez musa amor,
Com seu poema eternizante.
Seus cabelos,
Na rede balança,
No vaivém da trança,
Flor da poesia,
De sorriso menina,
Que me ilumina.
CENTRO CULTURAL, DE CONVENÇÕES OU ADMINISTRATIVO PARA A CIDADE?
Quando aqui cheguei em 1991 para chefiar a Sucursal do Jornal A Tarde, o Clube Social, em frente à Praça Sá Nunes, foi um dos primeiros lugares que visitei e onde recebi as boas vindas por um grupo de empresários. A unidade de lazer, esportes e entretenimento gozava de fama, e muitos ainda se sentiam privilegiados e orgulhosos em ter uma carteirinha como sócio.
Trinta e dois anos depois lá está um terreno vazio de pouco mais de um campo de futebol e que se tornou alvo de discussões sobre o que deve ser construído ali, de forma que Vitória da Conquista seja beneficiada. O que se sabe é que a Prefeitura Municipal adquiriu a área através de uma permuta com outro espaço. Localizado no centro, sem dúvida é um ponto bem valorizado e, por isso, deve ser bem aproveitado.
Correm as conversas que o local será transformado numa espécie de praça de lazer e entretenimento, o que seria um total desperdício, tendo vista que entre o finado Clube Social já existem as praças Sá Nunes e a Tancredo Neves. Numa matéria jornalística, entre os entrevistados, uns concordam e outros apontam outras utilidades.
CENTRO CULTURAL OU DE CONVENÇÕES
Estou no segundo grupo que tem a opinião de ali ser construído um Centro Cultural ou um Centro de Convenções Multiuso, duas edificações carentes em Conquista. Alguém aí lembra do projeto anunciado no Governo do PT quando se falou de criar naquelas imediações um Centro Cultural, numa parceria com o Banco do Nordeste? A instituição, inclusive, entraria com todos recursos. Sobre o assunto, nunca mais se falou.
Outra opção, no meu modesto entendimento, era edificar um Centro de Convenções à altura do porte da cidade, para realização de seminários, congressos e até servir de shows musicais. Com certeza, esse Centro iria atrair grandes eventos empresariais e de lazer, de forma a atrair turistas da região e de outros estados.
CENTRO ADMINISTRATIVO
Outra ideia vem de Armênio Souza Santos, membro do Conselho Municipal de Cultura, no sentido de que no local seja construído um Centro Administrativo Municipal, ao citar Ismael Santana Bastos quando afirma que “cidade sem memória apaga sua história”, ao se referir ao Clube Social.
Ainda em sua defesa, Armênio ressalta que se trata de uma “área muito ampla possibilitando edificar o Centro Administrativo com espaço de estacionamento no térreo e 1° pavimento e, nos demais, setores administrativos e, no último andar, mirante, restaurante, centro de convenções, teatro e base de teleférico circulando pelo Cristo e Poço Escuro
“Neste momento, dentro do contexto do Programa “VITÓRIA DA CONQUISTA – CASOS E CAUSOS DA NOSSA HISTÓRIA COM H”, estamos a sugerir à gestão municipal, a construção do CENTRO ADMINISTRATIVO na área do Clube Social Conquista, para unificar todos os setores da administração em um só local”.
UMA MONARQUIA BRASILEIRA
Tanta nobreza e luxo no funeral da rainha da Inglaterra, e tanta fome e miséria no planeta! São as contradições da humanidade que perduram a milênios. São coisas de uma democracia ocidental onde até os pobres choram pela morte da monarca, e ai de quem protestar porque logo cai no pau.
As imagens são da era medieval dos tempos dos reis e rainhas absolutistas onde eles se consideravam enviados de Deus. Seus súditos fazem filas quilométricas e choram para tocar no caixão da rainha, sem contar as sujeiras que deixam com flores, plásticos e bichos de pelúcia que depois serão desenvolvidos à natureza.
Na verdade, somos todos insanos numa terra que, aos poucos, está se acabando com o aquecimento global. Os incêndios engolem as florestas; as guerras matam e escorraçam milhões de seus lares; e as catástrofes deixam rastros de destruição. Quem importa com tudo isso? As pessoas são hipnotizadas e inebriadas pelo poder e pela luxúria.
Como o Brasil sempre foi um imitador de outras nações desde os tempos coloniais quando a França servia de espelho dos costumes e hábitos dos senhores coronéis escravistas, seguida depois pela própria Inglaterra e pelos Estados Unidos na atualidade, bem que o nosso país poderia criar a sua monarquia ao molde do Reino Unido!
Imaginou construirmos palácios e castelos para abrigar e sustentar os monarcas? Fazer as devidas venerações e realizar aqueles rituais medievais? Só assim entraríamos no rol das nações civilizadas. Ora, já não temos um dos Congressos de parlamentares mais caros do mundo? Ah, já temos também palácios habitados pelas nobres castas!
Enquanto não chega essa monarquia propriamente dita, vamos nos contentado com os reis, rainhas e príncipes que temos no futebol, nas corridas de fórmula I, nas olimpíadas, na música entre cantores e cantoras, sem contar os heróis que vez por outra dão uma de honestos devolvendo carteiras de dinheiro perdidas nas ruas.
Para acabar com toda essa fuzarca entre os três poderes que recebem salários milionários e gozam de vida nababescas, teríamos um monarca ou uma monarca que faria o papel de conciliador e todos viveriam felizes para sempre.
Os súditos que temos já são conformados com a situação há muitos anos. Portanto, não seriam problema e iriam até agradecer por ganhar uma realeza para adorar, mesmo com a barriga vazia. Esqueci de dizer que já temos uma monarquia disfarçada. Falta somente incorporar o rito e aprender as etiquetas.
ELEIÇÕES, FOME E MISÉRIA
Tentei falar com Brasilino da Silva Santa Cruz, mas ele se manteve recluso e apenas disse que ainda não se recuperou da decepção que teve com o Bicentenário da Independência. Definitivamente respondeu que só iria sair do seu silêncio depois das eleições. Parou de usar celular, ler jornais ou revista e, acima de tudo, assistir televisão, principalmente agora com essas propagandas mentirosas dos candidatos.
Devido a minha insistência, ele mandou que eu fosse catar coquinho ou conchas na praia. Sem sua opinião, fui obrigado a falar um pouco das eleições que já estão batendo em nossas portas no dia 2 de outubro.
Como todas as outras passadas, a propaganda eleitoral é mesmo um tédio, porque você não vê conversa séria de projetos para resolver os principais problemas do nosso país. É o prior horário na Tv que uma lei eleitoral teve a proeza de instituir. Poderia até ser premiado como o mais enfadonho.
Nesses dias ouvi o papo de alguém que também escutou de um andarilho numa discussão com um assistente numa dessas casas de abrigo do governo que acolhe pessoas que estão de passagem pela cidade, viciadas e moradores de rua.
Num certo momento, o cara, que se recusava a seguir as regras da casa, se dirigiu ao agente de forma grosseira e afirmou que o mesmo deveria agradecê-lo e a todos que ali estavam pelo emprego que tinha. Consultei os meus botões e refleti que de certa forma o indivíduo acertara em sua fala, filosófica, econômica, social ou sei lá o que.
Grosseiramente conclui que a fome e a miséria no Brasil têm sido incentivadoras de empregos quando as secretarias estaduais e municipais montam suas estruturas exclusivamente para cadastrar a pobreza nos bolsas famílias, nos auxílios e outros serviços de assistência social.
Como só tem aumentado o número de necessitados passando fome e vivendo na extrema pobreza (quem precisa tem pressa), pouco espaço tem sobrado no sentido de realizar programas voltados a tirar essa gente desse estado de calamidade. Veio-me à cabeça o ensinamento do não dê o peixe, mas ensine a pescar.
Com base nisso, até que o cabra desaforado lá do abrigo tem certa razão. No fundo ele quis dizer que as eleições, a fome e a miséria têm sido grandes empreendedoras na geração de emprego. É lamentável termos chegado a esse ponto tão paradoxal.
Para completar esse quadro de horror, nas campanhas, as palavras fome e miséria são, infelizmente, as mais pronunciadas pelos pretendentes aos cargos nos executivos e legislativos. Todos prometem que vão aumentar os auxílios e dar isso e aquilo aos pobres, mas não se vê um projeto de renda e emprego parta tirar essa gente das esmolas que não estão mais envergonhando o cidadão, como, ao contrário, cantou em sua sanfona Luiz Gonzaga, o rei do baião.
O COLÉGIO DA “ESCOLA NORMAL” ESTÁ PASSANDO POR OBRAS DE REVITALIZAÇÃO
Algumas informações deram conta de que o Governo do Estado estaria se desfazendo de mais uma escola, e esta é símbolo e orgulho dos conquistenses que ali aprenderam as primeiras letras; estudaram e se formaram rumo ao sucesso do conhecimento e do ensino. Muitos se tornaram até famosos pelos seus feitos.
Não por menos, bateu a revolta dos jovens e da velha geração em defesa de um patrimônio histórico com 70 anos de existência em Vitória da Conquista (foi criado em 1952). A notícia correu por causa dos movimentos das máquinas derrubando a fachada do prédio. Entidades, instituições, colegiados e a sociedade começaram a se mobilizar.
Estamos falando sim da Escola Normal, ou Instituto Euclides Dantas, localizada na famosa Praça Guadalajara, palco de muitas manifestações, encontros e ponto de partida para passeatas e reivindicações da sociedade. Pela sua grandiosidade e importância na cidade, não se pode desfazer de uma edificação daquele porte. Basta de destruição do nosso patrimônio!
No entanto, de acordo com a professora e vice-diretora, Margareth Rocha Lima Matos, não se trata de derrubar o prédio como muitos têm comentado. Seria um absurdo e motivo de ira, principalmente daqueles que ali frequentaram suas instalações por muitos anos.
Conforme explicou, a Escola Normal está no momento passando por obras de reforma e revitalização, especialmente do seu auditório e laboratório que já estavam a reclamar reparos para atender a demanda dos professores e estudantes.
“Os próprios professores já vinham solicitando a realização desses serviços” – disse, ao assegurou que sua estrutura arquitetônica não será descaracterizada. O ginásio coberto com quadras esportivas é outra construção em andamento bem adiantada, que deverá ser concluída ainda neste ano.
Com cerca de mil alunos nos três turnos matutino, vespertino e noturno, o Instituto absorveu estudantes do Colégio Adélia Teixeira que, infelizmente, foi fechado pelo Governo do Estado. Pela precarização da nossa educação, já não é nada correto encerrar as atividades de nenhuma escola, não importando os motivos, especialmente quando se fala em reduzir gastos.
Pelas informações da professora Margareth Rocha, desde 2009 lecionando naquela unidade, a Escola Normal hoje abriga onze turmas, sendo três do antigo colégio Adélia Teixeira. Sete turmas são de tempo integral onde são oferecidas merendas e refeições para que os jovens tenham mais tempo para aprimorar seus trabalhos e estudos.
Da formação de professores, a unidade hoje realiza cursos profissionalizantes de técnico de segurança do trabalho, de nutrição, de alimentação, de enfermagem e educação, sem contar que na parte da noite existe o programa Eja – Educação para Jovens e Adultos.
O VALONGO DA MORTE
A própria mídia brasileira deu pouco destaque à questão da escravidão nas “comemorações” do bicentenário da independência. Em seu lugar, assistimos a espetáculos e cenas de terror protagonizadas, principalmente, pelo capitão-presidente, que destilou ódio e intolerância, fazendo simplesmente campanha eleitoral dentro dos 200 anos de “emancipação”. A festa cívica foi uma decepção e, porque não dizer, uma vergonha nacional.
No entanto, queria aqui me reportar a um capítulo do último livro da trilogia “Escravidão”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes que fala do Valongo, e o que representou esse nome, no Rio de Janeiro. O chamado Cais do Valongo começou a funcionar no final do século XVIII e só terminou lá pelos meados do século XIX.
De acordo com o autor da obra, o Valongo foi o maior entreposto de compra e venda de seres humanos do continente americano. Por mais de 70 anos, aquele lugar significou a morte para os escravos africanos que atravessaram o Atlântico até o Brasil.
Na primeira metade do século XIX, segundo Laurentino, o Brasil bateu todos os recordes em 350 anos de escravidão africana. “No espaço de apenas cinco décadas, 2.376.141 homens e mulheres foram arrancados de suas raízes, marcados a ferro quente e despachados rumos às cidades e lavouras brasileiras. Nunca tantos escravos chegaram ao país em tão pouco tempo”.
Cita o escritor que ao todo foram 10.923 viagens, quase um terço do total de 36.110 catalogadas para todo continente americano ao longo de três séculos e meio. Do total de embarcados, apenas 2.061.624 atingiram o destino. Os demais 314.517 morreram e foram sepultados no mar, isto nos primeiros 50 anos do século XIX.
Consta das suas pesquisas que, uma vez embarcados, muitos não tinham condições de sobreviver mais do que alguns dias em solo brasileiro. Conforme historiadores, cerca de 15% dos “pretos novos” morreriam nos três primeiros anos de vida no Brasil, o que corresponderia a 310 mil pessoas no período citado, quase a metade das mortes pela Covid-19 em pouco mais de dois anos.
“As pedras nuas do Valongo e os ossos da Gamboa são testemunhas dessa história brutal e dolorosa. Ali jazem os dez escravos que o traficante Miguel Gomes Filho mandou sepultar de uma só vez, na mesma vala, em agosto de 1826”. O cemitério de escravos foi por décadas ignorado nos mapas de ruas e nos guias turísticos.
Situada entre os bairros da Gamboa, da Saúde e do Santo Cristo, a antiga rua do Valongo mudou de nome e hoje se chama Camerino. Ao final dela, em direção à Praça Mauá, uma ladeira denominada Morro do Valongo, é a única referência geográfica que restou.
Os escravos, diferente dos brancos, eram jogados em terrenos baldios ou valas comuns, nas quais se ateava fogo, como relata o escritor. Tudo era depois coberto por uma camada de cal, para evitar a propagação de mau cheiro e doenças.
Em razão das descobertas de ossadas e materiais usados pelos escravos, somente em 2017 o Valongo foi incluído na lista dos patrimônios mundiais da humanidade pela Unesco, uma agência da Organização das Nações Unidas.
Antes da criação do Valongo, as operações de compra e venda de escravos aconteciam na rua Direita, atual Primeiro de Março, no centro do Rio de Janeiro. Os africanos desembarcavam na antiga Praia do Peixe (atual Praça XV). Muitos eram ali mesmo comercializados ou entregues a compradores que os haviam encomendados com antecedência aos traficantes. Os demais iam para a rua Direita, onde ficavam expostos em meio a caixas e fardos de mercadorias. Aqueles que morriam eram levados para o Cemitério dos Pretos Novos, no Largo de Santa Rita.
Segundo Laurentino, por volta de 1817, já havia 34 grandes estabelecimentos de comércio de escravos em atividade no Valongo. Era um dos locais mais movimentados do Rio de Janeiro. Os recém-chegados deixavam os navios negreiros completamente nus e eram levados para a Casa da Alfândega. Em seguida passavam por uma quarentena de oito dias. Depois disso seguiam para as mãos de um mercador de escravos no Valongo.
Como a passagem de escravos nus pelas ruas criou constrangimento entre as famílias, D. João VI ordenou, em 1808, que os cativos fossem vestidos até o Valongo. Dali em diante poderiam continuar nus. Ao chegar ao Valongo, os escravos eram banhados e untados com óleo de dendê, como disfarce para parecerem saudáveis. Os homens tinham a barba e o cabelo raspados. As rações eram mais generosas como forma de engorda.
Pais, mães, filhos e irmãos eram vendidos separadamente, sem nenhum respeito aos vínculos familiares. Laurentino destaca que o processo de venda envolvia uma série de humilhações, como exame minucioso de seus corpos, incluindo as partes íntimas. Inteiramente nus, eram pesados, medidos, apalpados e cheirados nos mínimos detalhes, sem contar os dentes.
O doutor francês Jean Baptiste Imbert, que chegou ao Brasil em 1831, numa espécie de cartilha médica, descrevia que os compradores evitassem negros de cabelos demasiadamente crespos, testa pequena ou baixa, olhos encovados e orelhas grandes, todos, segundo ele, tinham indícios de mau caráter. Desaconselhava ainda a compra de negros com nariz muito chato e ventas apertadas, sinais de que prejudicavam a respiração, comprometendo a capacidade de trabalho. Para uma boa compra, Imbert recomendava os cativos de “pés redondos”, barrigas das pernas grossas, tornozelos finos, pele lisa e sem manchas no corpo.
UM SURTO PSICÓTICO E DIABÓLICO
Brasilino da Silva Santa Cruz, depois de 200 anos de ser testemunha de tantas barbaridades, de encontros e desencontros, avanços e retrocessos, finalmente estava contente em poder celebrar o bicentenário da independência do seu país, mas ficou estupefato e horrorizado com o que viu, mais para cena de terror do que homenagem pela magna data do seu povo.
Eu, que nasci há 200 anos atrás, vi com os próprios olhos que um dia a terra há de comer, que o cara capitão-presidente negacionista deu um surto psicótico e diabólico – desabafou o próprio Brasilino, que ficou, por um instante, praticamente mudo de tanta indignação.
Meninos eu vi! Estava lá no asfalto misturado àquela multidão de gente e presenciei atos de ódio, de intolerância, de racismo, machismo, misoginia, homofobia e tantos outros malefícios saídos daquela boca, do alto de um palanque eleitoral, sem nenhum pudor e respeito ao Dia da Nossa Pátria.
Foi horrível, meu amigo! Eu vi e ouvi tudo! Disse-me Brasilino cabisbaixo, triste e envergonhado. Se não fosse ele a me contar, confesso que não acreditaria, diante de tantas mentiras e fake news soltas por aí. É uma pura verdade, porque tudo foi registrado pela sua máquina do tempo.
“Eu nasci há 200 anos atrás” e nunca vi um presidente surtar tanto, justamente no bicentenário do grito da “Independência ou Morte”, quando a festa deveria ser cívica e civilizada, e não de xingamentos de campanha eleitoral. Um atentado flagrante que deveria ser punido com o rigor da lei”.
Foram estas as palavras amargas de repúdio ditas por Brasilino, entre uma talagada e outra de pinga, e olha que ele não é muito de beber, a não ser para comemorar as coisas boas da vida. Sem dúvida, será um dos capítulos mais macabros que a história irá escrever sobre nossa nação – profetizou.
Com seu sentimento peculiar de tristeza e sinceridade, Brasilino afirmou que nos seus 200 anos de existência nunca viu tamanha estupidez e agressão. O pior de tudo foi quando ele leu os cartazes dos extremistas raivosos, inconsequentes e fanáticos, os quais pediam ditadura das forças armadas, fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Ele viu militares, evangélicos e talibãs.
“O bobo da corte a tudo aplaudia. Um circo de enlouquecidos, um bando de ensandecidos raivosos, cães das estepes” – foi assim por ele pintado o quadro de horrores que acabara de ver. Logo o velho Brasilino que estava animado em festejar o bicentenário da sua vida.
Com sua idade já avançada e calejado de ver tantas desgraças, maldades, violências hediondas e injustiças por aí, em suas longas andanças, Brasilino voltou a entrar em profunda depressão de tanto escutar, nesse sete de setembro, os montes de contradições e paradoxos em nome de Deus, da pátria e da família brasileira.
Apenas pronunciou que nasceu há 200 anos atrás e não tinha mais vontade de continuar a existir. Preferiu o silêncio e, com sua expressão de protesto, repreendeu duramente quem lhe fez mais perguntas sobre o que viu no Bicentenário da Independência.
Simplesmente pegou sua surrada mochila e avisou que ia sumir para uma terra bem distante, talvez morar numa caverna qualquer nesse ermo de mundo. Pediu para que ninguém lhe procurasse mais.
EM NOME DE DEUS…
Este é o monumento à Bíblia, erguido na Praça Vitor Brito, em Vitória da Conquista. Trata-se de um símbolo do cristianismo, e dizem ser o livro mais lido no mundo. Tenho minhas dúvidas nos tempos de hoje. Por que não temos em Conquista outros monumentos dedicados às outras religiões? Por que não temos, por exemplo, a Praça dos Orixás? No Brasil de hoje, do fundamentalismo fanático dos evangélicos, influenciados por falsos pastores, inclusive corruptos que colocam o poder político acima de tudo, este livro, chamado de Bíblia, vem sendo mal interpretado e deturpado. É triste ver que em nome de Deus, para defender sua religião como a única que salva, muitos, e não são poucos, praticam o ódio e a intolerância contra aqueles que adotam outra fé em seus rituais religiosos. Aqui reitero os comentários feitos pelo meu amigo e jornalista Carlos Gonzalez, que do alto da sua visão, condena o extremismo e o conservadorismo que avançam em nosso território. Segundo ele, usam o nome de Deus para jogar pedras nos templos dos outros e destilar sua raiva naqueles que não seguem sua doutrina. Essas pessoas não se contentam somente com isso: Pregam o retrocesso medieval, negam a ciência e se alimentam do preconceito, do racismo e da homofobia. Para eles, só existe a luta do bem contra o mal. Em nome de Deus e da sua Bíblia, odeiam, ao invés, de amar o próximo. Em nome de Deus, roubam e até matam. O péssimo exemplo disso vem do Planalto com as barbaridades proferidas pelo capitão-presidente que engana os incultos quando fala em Deus, pátria e família. Infelizmente temos um povo de fácil manipulação onde os “fieis” são vítimas de lavagem cerebral.





















