No segundo volume da trilogia “Escravidão”, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a história do rei Agaja, de Daomé que, com seus exércitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Aladá, pertencente ao soberano Huffon que fugiu às pressas para uma ilha.

As tropas do Daomé tomaram o palácio e, em seguida dirigiram-se ao templo de Dangbe, onde as serpentes pítons eram cultuadas como divindades pelos huedas, designação do povo habitante do reino de Ajudá.

O saldo da ofensiva foi trágico. Dez mil pessoas foram escravizadas. Todos os fortes e entrepostos europeus existentes na região foram saqueados.

O capitão britânico William Snelgrave, que ancorou seu navio em Aladá (capital de um reino do mesmo nome vizinho de Ajudá), ficou horrorizado com a quantidade de moscas, todas atraídas pelas cabeças em decomposição de quatro mil guerreiros huedas sacrificados por Agaja em sinal de júbilo pela vitória em Ajudá.

Antes de Aladá, maior fornecedor de cativos na região, Agaja havia devastado dois reinos. Segundo relatos, ao fim dos combates, o rei capturou oito mil guerreiros que se tornaram cativos. De acordo com o historiador inglês Robin Law, “a guerra era a própria razão da existência do Daomé”.

No entanto, como descreve Laurentino em sua obra, o Daomé estava longe de dominar sozinho o tráfico de escravos na Costa da Mina (Golfo de Benin e região da Nigéria). Agaja e seus sucessores eram vulneráveis aos ataques de um reino ainda mais forte que o seu, o de Oió, situado a noroeste, no interior do continente, no território da atual Nigéria.

Os guerreiros de Oió eram exímios cavaleiros que, partindo do interior, conseguiam chegar ao litoral na época das secas. No tempo das chuvas, o charco impedia o avanço dos animais. Entre 1726/27, Oió destruiu vários vilarejos no campo do Daomé.

Em 1730, Agaja foi obrigado a fechar um acordo pelo qual concordava em pagar tributos e permitir que as caravanas de escravos dos adversários cruzassem seus territórios.

Laurentino narra que Daomé e Oió se tornaram tão eficientes no negócio negreiro que essa região logo se transformou na segunda maior fornecedora de cativos para a América, atrás apenas de Angola e Congo.

A demanda dos europeus (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e o Brasil, na América do Sul) por escravos era grande no século XVIII. Os reinos de Daomé e Oió não tinham condições de suprir toda procura. Foi então que os reis passaram a promover novas guerras contra os vizinhos, com o objetivo de vender prisioneiros aos traficantes. “O comércio de escravos dependia essencialmente da violência” – escreveu Robin Law.

Como consequência dessas razias, foram embarcados para o Brasil milhares de negros escravizados falantes de línguas jejes (hulas, huedas, aves, adjas, aizos, mahis e outras etnias). Juntos vieram também falantes de línguas iorubás( egbas, egbados, saves e anagôs), povos que viviam sob a influência do reino de Oió.

Essas nações se concentraram na Bahia que são os jejes e os iorubás, identificados como nagôs, que forneceram o modelo organizacional de formas rituais e de associativismo religioso que resultaram no candomblé na Bahia, no xangó de Pernambuco e no tambor de mina no Maranhão – destacou o historiador Luis Nicolau Parés.

Para Laurentino, deve-se aos africanos escravizados dessa região a principal influência no desenvolvimento de religiões de matriz africana no Brasil.