Para uma boa prosa e contação de causos na varanda de uma casa sertaneja, nada melhor que acompanhadas de uns bules de café e um rapé. Quer espirrar? Toma um rapé do tabaco bem torrado e temperado, como faziam os mais antigos e o preto velho sentados em seus bancos de madeira na boca da noite, que seja enluarada de deixar o terreiro prateado.

Depois de uma semana de labutas na roça, os compadres vizinhos costumavam se reunir para prosear, falar do tempo, da seca, das histórias de gente que deixou tudo para trás e foi para São Paulo, dos cabras valentes, das rixas de mortes entre famílias por causa de terras e das moças perdidas que fugiam com os namorados porque os pais não aceitavam o casamento. Com o rádio, a televisão e até a internet, em muitas casas, hoje não se encontra mais essa tradição da cultura oral.

Eram conversas de varar a madrugada. Algumas comadres apareciam, mas elas batiam os papos de mulher em separado, na sala ou na cozinha. O costume, machista ou não, falava mais alto. Cada rodada de café era seguida de outra de binga com o rapé. Um tinha que provar a pitada do outro, e sempre havia aquela que era a melhor. O segredo estava no saber fazer o rapé, como a do preto velho, com 90 anos que mais escutava que proseava.

Oi compadi Amanço, passe ai a binga do seu fumo! Esse tempo tá anunciano sequidão e já tô furano um poço pra não fartá água pra nós. Vamo fazer um adjutório. É cumpadi Calixto, a coisa tá feia, tudo caro na fêra. Parece fim dos tempos. O mundo tá virano um furmiguêro de gente pra lá e pra cá. O outro comentava a moça que fugiu de casa para se amancebar com um sujeito que apareceu nas redondezas. Não era gente que prestava.

A prosa começava a ficar animada nos causos de coronéis, como de Honorato Calunga que foi morto por um jagunço vindo de lá das bandas das Minas Gerais para se vingar da irmã que foi desonrada por ele há muitos anos. Sua mãe morreu de desgosto e o pai até se matou. Coronel Honorato tinha fama de cruel naquelas bandas nordestinas.

O cabra se acoitou na fazenda e esperou o momento certo para dar o bote com uma espingarda papo amarelo e ainda sangrou o danado no chão. Foi num descuido dos seus capangas quando ele saiu para fazer suas necessidades fisiológicas no mato. Depois caiu no mundo. Ninguém teve mais notícias dele. Contam que o “bicho” tinha parte com o satanás e se transformava até num toco quando era perseguido pela polícia.

Lembro desde menino das estórias de assombração do cavaleiro invisível que nas noites sem lua saia de uma cancela da mata. Dava para se ouvir a batida nos mesmos horários. Descia e sobia a ladeira do Corcunda numa picada só, aboiando gado como se estivesse numa comitiva. O compadre do lado garantiu que já viu o tal vaqueiro passar por ele numa sexta-feira treze.

É cumpadi Selestino, sabe daquela linda moça que foi assassinada a faca toda vestida de noiva quando já ia pra igreja? Pois é, cumpadi, tudo por ciúme porque ia se casá com outro. Foi um horror, muito choro e bafafá. E o sem vergonha safado do coisa ruin do Tião que dormia com as fias! Teve três fios com as fias. Morreu berrano e espumano como boi no matadoro.

O preto velho, mais calado, com seu cachimbo, contava sempre as histórias de seus avós que eram escravos nas plantações de cana e levaram muitas chibatadas de um tal coronel Carvalho, muito perverso com os negros que ele mandava o capataz castigar no reio até cortar a carne. Amarrava o cativo no mourão e jogava sal e vinagre nas feridas do pobre coitado.

O preto velho, com sua sabedoria e conhecimento de quem já viu muito sofrimento do seu povo pela vida, tinha sempre um bom conselho para dar. Sua palavra ponderada, como de um profeta dos acontecimentos, era escutada com atenção. Previa anos difíceis para a população urbana e rural e recomendava a todos que preparassem seus espíritos para não se deixar enganar com a chegada dos anticristos.

Quando a prosa ficava mais baixa, era coisa de mulheres para as comadres não escutarem. Cada um tinha alguma quenga no povoado ou na cidade. Coisa bem escondida, na treita, por dentro da moita. O rapé rolava, e o compadre dono da casa dizia que era bom para jogar o catarro para fora.

Ali, naquela irmandade, cada um ajudava o outro quando a seca batia forte de rachar o chão nas lagoas e tanques sem água. Em alguns pedaços, a terra começava a virar sal. Apareciam as clareiras desérticas. O mandacaru e o xique-xique ainda sobreviviam, até nos lajedos e nos pedregulhos. Só bem tarde da noite, os compadres se despediam com abraços e louvar a Deus.

Para quem não sabe, o tabaco, do qual se fazia o bom rapé, o charuto e o cigarro, foi um dos primeiros produtos de exportação do Brasil colonial para a Europa e para África. Ao lado do açúcar, da cachaça, peles, o ouro, outras mercadorias e utensílios, era trocado por escravos na costa africana, principalmente na Nigéria, Gana, Benin, Angola, Congo, Guiné, Cabo Verde e até Madagascár. De lá nasceram as religiões matrizes do candomblé, mas ai são outras histórias antropológicas dos nossos antepassados.