Até preencher fichas em balcões de hotéis, postos de saúde, clínicas, renovação de carteira de habilitação e outros troços, me deixa engastorado, quanto mais extensos formulários burocráticos que escarafuncham toda nossa vida e ainda fazem indagações idiotas e desnecessárias. Alguns só faltam pedir a data do seu batizado.

   Quando estou acompanhado com alguém, peço, por obséquio, fazer o preenchimento por mim e até assinar em meu lugar. Quando vou me hospedar num hotel, sempre solicito ao atendente ou balconista preencher o protocolo.

  São coisas da vida que acho um saco. Às vezes penso não ter nunca saído da minha pequena aldeia para os grandes centros. Meu desejo é voltar a ser um roceiro, um tipo eremita, sem lenço e sem documento, para não aturar essas formalidades instituídas pela sociedade moderna.    

    Não consigo ver um formulário em minha frente que já me deixa logo estressado. Nem vou aqui citar esses editais de projetos culturais, de concursos e premiações que os considero um terror em burocracia, mesmo nos tempos avançados da tecnologia. Vai de retro satanás! Fujo deles como o cão foge da cruz.

  Dia desses uns amigos me falaram que ficaram irritados quando foram fazer uns exames numa instituição de saúde pública, quando a recepcionista, exercendo sua função de fazer a ficha do paciente, indagou quais eram suas raças, branca, parda, mulata, negra, marrom, cor do barro, do jambo, do leite ou amarela.

   Eles responderam, insistentemente, que eram da raça humana, enquanto, não satisfeita, a funcionária repetia a mesma pergunta e que se tratava da cor da pele. Houve um momento de bate-boca e irritação por parte dos clientes que continuaram dizendo raça humana.

 – Por acaso, a senhora está vendo aqui um extraterrestre, um ET marciano? Indagou o paciente que ficou impaciente, com pressão arterial alta. Argumentam que o item é necessário para efeitos estatísticos e também para detectar determinadas doenças a partir da cor da pessoa.

  Que seja, mas continuo tendo horror a formulários e fichas. Acho até que devo procurar um psicanalista, mas, pensando bem, nesta idade não tem mais jeito, sem reversão. Seria dinheiro e tempo perdidos.  

    Pode até ter lá seu fundamento, mas continuo sofrendo do horror a formulários, fichas e editais. Meu caso é perdido e não adianta tratamento psiquiátrico. Não aguento essas traquitanas! Vamos simplificar ao invés de complicar!

   Semana passada, terminei discutindo com um cantor e músico amigo meu, lá de Fortaleza, no Ceará, com quem fiz uma parceria em algumas composições. Ele simplesmente me pediu para preencher uma ficha de direitos autorais. Na discussão, disse-me que o artista em geral é desorganizado. Respondi que, se assim não fosse, não seria artista.