Depois das eleições e mesmo com os malucos extremistas fazendo “protestos” em frente a quarteis, batalhões, Tiros de Guerra e outras unidades militares, numa acintosa pressão para que as forças armadas saiam às ruas para decretar um golpe contra a democracia, milhões de brasileiros se dirigiram aos cemitérios de velas e flores nas mãos (não armas) para homenagear seus mortos.

Não vou aqui misturar atitudes irracionais e fascistas com o Dia de Finados porque os mortos não falam, mas seus espíritos, onde quer que estejam, devem ter ficado envergonhados e tristes com os vivos que destilam ódio e intolerância. Os que aqui ainda continuam passageiros desse trem chamado terra deveriam refletir sobre a dor da finitude que carregamos do nascer ao dia da despedida final.

Se todos pensassem nessa dor da finitude talvez houvesse mais amor, mais compreensão, mais paz, solidariedade e menos ganância, barbárie e autoritarismo. Talvez não se usasse o nome de Deus em vão, nem pregassem um cristianismo falso e mentiroso e nem manipulassem os mais fracos e vulneráveis.

Fui hoje, ou ontem (dia 02/11) ao cemitério e senti nas pessoas essa dor da finitude através de suas expressões, no silêncio, nas orações, nas conversas bem baixas e arrastadas e até nas lágrimas caídas de alguns mais sentimentais que se foram há pouco tempo.

Pensei num Brasil mais unido, sem esse rancor, respirando mais liberdade e democracia. Pensei num Brasil sem intervenção militar, sem ditadura e, especialmente, sem fome e miséria. Pensei também nessa dor da finitude, título de um poeminha que fiz há uns dois anos e que aqui apresento aos meus parcos leitores:

A DOR DA FINITUDE

Dizem que a morte é matreira;

Líquido eterno da vida finita;

Outro que é o veneno sem sentido,

E que a vereda é via passageira,

Que traz na lida a dor da finitude,

Com seu baú de coragem e medo,

Nos laços do intrincado segredo.

 

A finitude pode até aliviar seu temor;

O sábio manda conhecer a ti mesmo;

Um que nada muda em sua forma;

Outro que tudo vai e se transforma;

Você se depara com o ser, ou não ser,

E o poeta faz sua escala fora dessa bitola;

Não se conforma e se embriaga no amor.

 

Tudo passa, é mutável e se transforma,

Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão,

Nada começa, nada se acaba, nada torna;

A flecha que voa está parada no ar;

É tudo finito, infinito, mistério e confusão;

Uns preferem o delírio etílico da festa;

Se afundar nas ondas que se quebram no mar.