Pela passagem dos 182 de emancipação de Vitória da Conquista, hoje a terceira maior cidade da Bahia, com mais de 400 mil habitantes, esbanjando desenvolvimento, com uma economia pujante, foi aberto ontem à noite (dia 9/11) o Festival de Educação e Cultura de Conquista, o Festeccon, com as presenças da prefeita Sheila Lemos, do secretário de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Eugênio Avelino (Xangai) e do secretário de Educação Edgar Larry.

O evento, que contou com exposições de vários produtos do município, como licores, biscoitos, artesanatos, ações realizadas na área da educação, salão de artes plásticas dos grandes artistas e shows musicais, está instalado no Espaço Glauber Rocha, localizado no Bairro Brasil, e ficará aberto à visitação até o próximo dia 12 (sábado).

O Festeccon foi uma programação conjunta das secretarias da Cultura e da Educação através da Prefeitura Municipal para comemorar os 182 de emancipação do município, mostrando todo potencial de Conquista, principalmente nos setores da cultura e da educação. Merece ser visitado por todos moradores porque representa a memória do município, principalmente seu desenvolvimento nos tempos atuais.

Além dos estandes com produtos e apresentações de atividades na área educacional, a população vai contar com shows musicais de reconhecimento nacional e internacional, como Elomar Filgueira, nesta quinta-feira, e Guilherme Arantes no fechamento do Festiccon. No palco armado no Espaço Glauber Rocha estarão também artistas locais com suas bandas.

UM POUCO DA SUA HISTÓRIA DE VILA DA VICTÓRIA A UM DOS MAIORES PÓLOS DE DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE

Os índios mongoiós ou monochós, também conhecidos como camacans, além dos pataxós e amborés, ou imborés, eram os verdadeiros donos das terras do sudoeste baiano, compreendidas entre os rios Pardo e das Contas, indo da região do São Francisco até São Jorge dos Ilhéus.

Eles guerreavam entre si, mas eram livres dos brancos colonizadores. Depois tornaram-se escravos e foram praticamente extintos. As terras chamadas de “Sertão da Ressaca”, a Imperial Vila de Nossa Senhora da Victória, antes Arraial da Conquista, virou Vitória da Conquista e se tornou um dos polos mais dinâmicos de desenvolvimento do Nordeste e do país.

Em 2022, no dia 9 de novembro, o município completou 182 anos de emancipação política, esbanjando crescimento. A Vila da Victória foi criada pelo Decreto Imperial número 124, em 19 de maio de 1840, desmembrando-se da Comarca de Caetité.

A data política, no entanto, é comemorada em nove de novembro, quando aconteceu a posse da primeira Câmara Municipal em forma de “Concelho”, com “c” mesmo, conforme a ortografia da época. Com a Proclamação da República, a Vila passou a se chamar Cidade da Conquista, em 1º de junho de 1891. E, em 1943, recebeu o nome de Vitória da Conquista.

O pequeno povoado, fundado entre finais do século XVIII e início do XIX, cresceu a partir das primeiras habitações de taipa. Em 1817, conforme registrou o príncipe alemão Maximiliano Wied-Newied, em visita, o lugarejo já contava com 40 casas. A Vila expandiu-se aos poucos na encosta verdejante da Serra do Periperi; foi parada de tropeiros; mudou de nome; e começou a prosperar a partir da década de 1960, com a chegada da rodovia BR-116 (Rio-Bahia).

A cidade ampliou sua economia com a introdução da cafeicultura em meados dos anos 70; e se firmou no início do século XXI com a implantação de novos projetos nas áreas de educação e da saúde, transformando-se num dos maiores polos regionais da Bahia e do Nordeste, sendo hoje a 3ª cidade do estado.

SERTÃO DA RESSACA

Quanto a ocupação do “Sertão da Ressaca”, o historiador Ruy Medeiros escreveu em 2009 sobre o tema, tomando como base os documentos da Torre do Tombo (Arquivo Nacional), do Arquivo Histórico Ultramarino (ambos em Lisboa) e do Arquivo da Propaganda Fide em Roma.

Da Torre do Tombo, Medeiros cita a carta de Pedro Barbosa Leal onde propõe a conquista de toda faixa de terra entre os rios Pardo e das Contas, nos “campos que abeiram as matas que se avizinham do mar”, e as terras entre os rios Doce e Jequitinhonha.

Outro documento refere-se ao “Regimento” onde Pedro Leolino Mariz conferiu a André da Rocha Pinto o título de cabo maior da conquista das terras ocupadas pelo gentio bravo, desde Rio das Contas até o rio São Matheus. Declara Medeiros que o documento de Pedro Barbosa é muito importante porque dele pode-se extrair o grau de conhecimento que os portugueses possuíam, por volta de 1720, da vasta região entre os rios Pardo e das Contas.

A partir disso, fica claro que Pedro Barbosa queria ocupar o planalto de Conquista. Sua estratégia era desencadear uma operação de guerra com o aprisionamento de índios como escravos, estabelecendo um arraial no Morro de São Paulo, meio caminho entre Salvador e Rio das Contas. A motivação para a invasão do Sertão era também a procura de ouro e os estabelecimentos de arraiais.

O documento da Torre do Tombo “Regimento” que Pedro Leolino passou a André da Rocha, tem caráter estratégico-militar, conforme assinala Ruy Medeiros. Foi organizada uma bandeira para ocupar as terras, incluindo o Planalto da Conquista. Os objetivos eram encontrar minas de metais preciosos; estabelecer fazendas de gado; e travar guerra com os índios. Há quem julgue que João Gonçalves da Costa e sua gente (primeiro aqui esteve João da Silva Guimarães) foram enviados para o Sertão da Ressaca “pela corte de Portugal para vigiar e fiscalizar a saída ilegal do ouro e outros metais.

Há também quem argumente que a história de Conquista precisa ser recontada. Quem tem essa caixa-preta é a Igreja Católica. Como João Gonçalves da Costa conseguiu fazer tão grande fortuna e João Guimarães ter morrido pobre? Outros documentos da ocupação se encontram no Arquivo Histórico Ultramarino. Um é o ofício de João Gonçalves da Costa, em 1783, ao Ouvidor de Porto Seguro dando conta das conquistas feitas no “Sertão da Ressaca”.

Outro é a Memória Sumária e Compendiosa da Conquista do Rio Pardo, de 1806. Pelo primeiro documento, o capitão já andava pela encosta do planalto (Jequié e Ipiaú), região Pastoril de Itapetinga, mencionando lutas contra os índios mongoiós e imborés.

O segundo contém informações sobre os índios e a luta sobre a conquista, especialmente a ocorrida na proximidade de Couro D`Anta. Quanto ao rico acervo do Arquivo da Propaganda Fide, da Ordem dos Capuchinhos, em Roma, Medeiros menciona que a historiografia conquistense ainda não explorou esse documento.

Na maioria são cartas e relatos dos capuchinhos italianos que trabalharam na bacia dos rios Catulé, Verruga e Pardo, na área de Itambé, Itapetinga, Potiraguá e Cachimbo (Ribeirão do Largo). Atuaram nessa região frei Ludovico de Livorno (camacãs e aimorés por volta de 1817/20); frei Francisco Antonio de Salerno, entre mongoiós e imborés pela região de Inhobim; frei Rainero de Ovada, na Barra do Catulé (aimorés).

Todos deixaram escritos e cartas que estão no Arquivo da Propaganda Fide, inclusive do frei Ludovico, datada de 14 de julho de 1817. Na busca por riquezas, especialmente o ouro, a primeira investida no sertão da Bahia foi feita pelo castelhano Francisco Bruzza de Spinosa, em 1553, acompanhado de 12 portugueses, partindo de Porto Seguro e indo até o rio São Francisco. A passagem dos bandeirantes pelas terras dos índios significava expulsão, escravidão e morte. A descoberta de ouro nas imediações do Rio das Contas e em Jacobina, no início do século XVIII, aumentou o povoamento em Minas Gerais.

Já em 1724, a hoje cidade Rio de Contas passava à categoria de vila, com a implantação de vários órgãos de administração pela coroa portuguesa. Como descreve a historiadora Maria Aparecida Silva de Sousa, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, no seu livro “A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e posse da terra no interior da Bahia”, por volta de 1728, o coronel Pedro Leolino Mariz recebe do governo português a missão de desbravar diversas áreas do interior da Bahia e do norte de Minas Gerais.

Essa personagem aparece como importante figura da história que realizou investigações nos rios das Contas, Paramirim e Rãs, chegando a ocupar o posto de superintendente geral de todas as minas da Bahia e das Minas Novas do Araçuaí.

Sabedor de que essa porção de terra era uma das melhores do Brasil para criação de gado e a cultura de lavouras, o Governo de Portugal mandou que Pedro Leolino averiguasse as notícias. Em recompensa pelo seu trabalho, o superintendente recebeu uma sesmaria em 1743.

Visando obter o mesmo êxito conseguido na região vizinha de Rio das Contas e Jacobina com a descoberta de ouro, o coronel organizou uma bandeira, sob a direção de André da Rocha Pinto, para conquistar o sertão entre os rios das Contas, Pardo e São Mateus. A intenção era também a de encontrar ouro, estabelecer fazendas de gado e matar os índios que se opusessem à conquista.