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:: ‘De Olho nas Lentes’

JARDIM BOTÂNICO MEDICINAL

Do mesmo porte de Vitória da Conquista, a cidade de Anápolis, em Goiás, nos causa inveja em termos de arborização, como o Jardim Botânico Medicinal, um extenso parque ao lado e outros locais de lazer para todas as idades. Sem comparar com o nosso Poço Escuro, escondido lá num canto do Bairro Guarani onde ainda se joga lixo na mata e pouco frequentado por falta de segurança, o Jardim Botânico Medicinal é limpo, cheio de trilhas, conta com uma boa estrutura de atendimento e é bastante visitado por moradores e turistas em qualquer hora do dia e nos finais de semana. Aqui, o acesso ao Poço Escuro é horrível e inseguro, tanto que poucos   conquistenses conhecem o local. Quando chega um turista amigo de outra cidade e estado, você fica até com receio de levar a pessoa para uma visitação. Visitei vários pontos de entretenimento e lazer, em Anápolis, e não tem como não lembrar de Conquista que ainda deixa muito a desejar nos itens de melhorias no quesito urbanização e infraestrutura para receber gente de fora. Pelo seu porte como terceira maior cidade da Bahia, o Cristo da Serra do Periperi, a Lagoa das Bateias (mesmo com as obras de limpeza) e o Poço Escuro carecem de mais serviços de melhoramentos que atraiam os turistas com segurança e sejam pontos de destaque e atração da cidade. Na verdade, em Conquista de hoje, só temos como cartão postal o Museu de Kard, que é particular, e deixa o turista encantado com tantas obras importantes do nosso amigo Alan Kardec. Conquista pode se orgulhar desse museu, que é o maior a céu aberto do Norte e Nordeste e não tem nenhum apoio do poder público.

OS TERRENOS E A DENGUE

Não acredito muito nessa de que a maior parte do mosquito da dengue esteja alojada nas casas de Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com maior índice da doença e de mortes. Não tenho dados científicos que comprovem, mas entendo que grande parte das pessoas é picada pelo mosquito nas ruas onde o bicho mais encontra moradia. A maior parte está nos terrenos abandonados, como este localizado na rua Veríssimo Ferraz de Melo (Rua “G”), no Bairro Felícia, com um matagal de capim de quase dois metros de altura. Só nesta rua, num espaço de 50 metros, existe mais outro na esquina da Avenida Felícia. Além dos terrenos abandonados que se tornaram lixeiras em toda cidade, existem ainda os esgotos abertos, o empoçamento de águas nas ruas de chão e locais de oficinas velhas que viraram sucatas de peças de veículos. É a partir desse quadro de sujeiras que afirmo que o maior culpado por essa epidemia em Conquista é o poder público que não fiscaliza e não faz cumprir a lei que exige que os proprietários de terrenos cuidem de seus imóveis, mantendo-os limpos, cercados ou murados. Essa imagem clicada pela nossa máquina é apenas um exemplo entre centenas e até milhares de terrenos nesse estado lamentável em nossa cidade, onde são criadouros de mosquitos de todas as espécies, insetos, ratos e cobras. Sem uma operação de limpeza geral desses terrenos, desentupimento e consertos dos esgotos em conjunto com a Embasa e pavimento das ruas esburacadas que viram lamaçais com as chuvas, não adianta carros fumacês. O poder público (município, estado e União) estão gastando milhões com a saúde, recursos que deveriam ser evitados se antes tivesse tomado essas providências. É uma vergonha Conquista ocupar o topo dessa epidemia na Bahia.

 

SOJA NA CIDADE

Poderia ser uma fazenda de feijão (o Brasil ainda importa mais da metade do seu consumo), que está sempre no cotidiano da mesa dos brasileiros, mas a foto que saiu das lentes da minha máquina é uma grande produção de soja nos limites de vários bairros de Anápolis, em Goiás, o que significa que o visitante ou turista da cidade não precisa ir muito longe para conhecer essa cultura, tão cultuada pelo grande agronegócio porque ela rende dólares no exterior e não reais. Todos sabem que o nosso país ainda é uma colônia, principalmente quando se apura o resultado da balança comercial, isto é, exportação versos importação. Este item é sempre superavitário a favor das exportações porque o maior peso está nas matérias primas, como grãos agrícolas, carnes, petróleo cru, ferro e outros metais. Como forma de dar dimensão a esse estado de coisa, dizem que o Brasil transporta um navio de soja para a China e volta com umas caixas de chips, vacinas ou outros remédios do ramo da química fina. Nossa capacidade industrial ainda é atrasada para o mundo atual. O mais feio é que nossos empresários do agronegócio, além de desmatar nossos cerrados e florestas, causando impacto ao meio ambiente, ainda abrem a boca para dizer que são eles que colocam o alimento na mesa dos brasileiros. Isso é uma mentira (fake news) porque quem nos alimenta é a agricultura familiar, pouco subsidiada pelo governo e pelos bancos. Por que um capitalista desse não planta feijão, arroz, trigo e milho para o consumo interno? Com essa política, vamos sempre ser exportador de produtos primários. Não acreditei quando vi, em Anápolis, quase que dentro da cidade, uma fazenda de soja. Ali naquela região, por onde você viaja o que mais se vê são plantações de soja, o ouro dos exploradores da bancada ruralista no Congresso Nacional, por sinal uma das mais retrógradas.

ENTULHOS NAS ESTRADAS

Quem viaja por aí está sempre se deparando com entulhos e lixos às margens das pistas próximas das cidades, como este flagrante que nossas lentes captaram na entrada de Brumado. É um retrato fiel de como o homem depreda e polui o meio ambiente, sem falar em sacos plásticos, cocos e garrafas pet que viajantes vão jogando nas pistas por onde passa. Se formos bem analisar, no fundo se resume a uma questão de falta de educação, por mais que se faça campanhas de preservação. Na saída da cidade de Ituaçu para Barra da Estiva, por exemplo, conhecida como portal da Chapada Diamantina, na região sudeste baiana, existe um lixão onde são depositados os restos produzidos por moradores. Outra visão triste dessa sujeira está na chegada de Itambé. Os poderes públicos são os maiores culpados por não cumprirem as leis de construção dos aterros do lixo e ainda não fiscalizar e proibir que particulares joguem seus entulhos à beira das estradas. Juntando tudo isso e mais os desmatamentos, os incêndios, a poluição dos rios e mares, dentre outras agressões à natureza, temos aí a autodestruição da própria humanidade através das mudanças climáticas que provocam catástrofes e tragédias. Como forma de enganarmos a nós mesmo, colocamos toda culpa no El Nino, que está indo para dar lugar a El Nina. O lixo só faz aumentar através do consumismo. Por essas e outras é que sempre digo que não temos mais retorno para reverter as altas temperaturas da terra.

 

“MUDANÇA”

A escultura ou performance do artista Fernando Madeira que dá o nome de “Mudança” em sua obra, instalada no Instituto Biapo (visitamos em nossa viagem ao estado), em Goiás Velho ou Velha, localizado em frente da casa da poetisa Cora Coralina, por si só já diz tudo. A palavra mudança provoca arrepios em muita gente que tem receios de sair da sua comodidade e partir para enfrentar desafios. Mudança para outros é ter coragem, é transformação de vida e coragem. Todo ser humano deve estar sempre em processo de mudança para ganhar mais saber e conhecimento, e quem não muda com intuito de melhorar, inclusive em seus conceitos, não merece viver.  A terra está sempre em mudança. Mudança também é renovação, evolução das ideias diante das novas tecnologias, do pensar de outra forma, de acordo com o tempo. O que ontem era antigo, hoje entra o moderno que devemos incorporá-lo. Tem ainda aquela mudança do tipo material, como sair do campo para a cidade, ou de uma cidade para outra. Mudar de emprego, de trabalho para melhorar de vida. Quem não faz mudanças morre sem saber. Existe a mudança para o pior. Cada um faz sua reflexão, mas mudar é essencial. É como no futebol quando o técnico faz mudanças em seu time para ganhar do adversário.

O BEIJA-FLOR

Ele (deve ser) não canta, mas encanta com seu estalo para se acasalar. Está sempre na minha árvore florida do meu quintal (minha esposa a chama de trovão porque nunca para de crescer, mesmo sendo podada) com outros pássaros desde o amanhecer ao anoitecer, se alimentando do néctar da flor. Tem vezes até que tira a concentração das minhas leituras e dos pensamentos no alpendre, do meu rancho. Me faz esquecer até do tempo que nos devora aos poucos, lento para uns e rápido para outros. Dessa vez o beija-flor achou de pousar na palha do coqueiro. Com seu jeito de ave arisca (nem tanto assim) aquietou-se com suas assas como se pedisse para ser retratado pelas lentes da minha máquina. Tanto ele tinha certeza que esperou que eu fosse ao meu escritório e ligasse a máquina fotográfica no ponto de foco e da luz para criar a sua imagem. Me aproximei o bastante e ele posou poeticamente com seu longo bico e até olhou de soslaio. Depois deu um pequeno voo entre as folhas, continuou a estalar e a bicar as flores. Era quase final da tarde. Fui fazer meus exercícios costumeiros. O sol começou a se pôr no horizonte infinito fazendo chegar a sombra da noite. Nos despedimos do dia. O beija-flor deve ter ido para seu ninho ou para sua morada do sono, para retornar no outro alvorecer.

A DENGUE E O PODER PÚBLICO

Dizem (a mídia está sempre anunciando) que 70% ou 80% dos casos registrados de dengue estão dentro das casas e prédios residenciais, só que não se fala de como esses dados foram apurados. Houve uma pesquisa para constatar esse alarmante índice? O esquema é culpar os moradores como vilões e não se mostra o lado negligente do poder público que deixa ruas sem serviços de drenagem, esgotamento e calçamento (empoçamento das águas das chuvas), sem fiscalizar e punir, conforme determina a lei, os terrenos particulares abandonados cobertos de matos e lixo de todo tipo, oficinas que viraram sucatas de carros (o Disep de Conquista é um exemplo) e até os próprios imóveis da Prefeitura Municipal no mesmo estado. Estive tirando umas fotos da Praça Tancredo Neves e visitei o monumento em homenagem aos presos políticos que tombaram durante a ditadura civil-militar de 1964. Os vidros ou os materias plásticos que protegem as luminárias em torno da escultura, de autoria do grande artista plástico Romeu Ferreira, foram quebrados por vândalos. As partes abertas servem para empoçar água e têm muito lixo em seu interior. Ainda sobre a proliferação da dengue (já comentei essa questão aqui) acho um deboche quando um especialista recomenda ao cidadão procurar o médico logo nos primeiros sintomas. Fico a imaginar que sua linguagem está sendo direcionada aos ricos. Os pobres (grande maioria) são dependentes do SUS, cujos postos da família, hospitais e as UPAS estão superlotados. O paciente passa um dia para ser atendido sofrendo de dores em pé e nos bancos desconfortáveis, sendo que muitos retornam para suas casas sem o atendimento. Existem postos que nem têm médicos na cidade. Até parece que cada brasileiro tem um médico à sua disposição. Isso é um acinte, uma vergonha, falta de respeito e revoltante. É muita cara de pau. Quando o indivíduo consegue um pedido de exame, o resultado do teste num laboratório público só sai depois de 10 a 15 dias. Sem mais comentários.

“O ESTRANHO”

Não consegui um dedo de prosa com esse senhor solitário sentado numa cadeira com seu acampamento ao lado, ou uma espécie de barraca, na Avenida Bartolomeu de Gusmão, por isso que resolvi chamá-lo de “O Estranho”, como se fosse seu nome. Cheguei com minha máquina e tentei emplacar uma conversa para saber da sua graça, de onde vinha e o que fazia ali naquela tarde nublada costurando, se não me engano, uma camisa, calça ou calção. Mal me respondeu e não me deu nenhuma atenção. Quando se está com um problema ou aperreio na vida, cada ser humano age de uma forma diferente. Tem uns que vão logo se abrindo, contam sua história e pede uma ajuda para sobreviver. Outros são introspectivos, se fecham e não querem papo com ninguém. Tem   suas próprias razões para assim se comportar. Na minha jornada jornalística de 50 anos como profissional tenho, em alguns momentos, feito o dublê de psicólogo. Na grande maioria das vezes consegui arrancar até um bom papo e fazer uma entrevista, mas não com “O Estranho”, por mais que tenha tentado, e olha que sou insistente. No entanto, senti que melhor seria dizer um “tá bem” e desejar-lhe sorte. “O Estranho” estava “enfezado” ou banzo e, com certeza, passando por uma situação difícil que a nossa sociedade nem quer saber. Seu gesto foi de protesto e de menosprezo com a minha aproximação. Achei mais sensato não o importunar, se ele deu a entender que o deixasse em paz com sua dor, sua mágoa e sofrimento. “ vida é como ela é” – lembrei de Nelson Rodrigues.

O VELHO E O RIO

Oh quantos ensinamentos! Um com sua idade avançada de humano ancião que aprendeu muitas coisas da vida e ainda procura se renovar até a sua finitude. O outro tem milênios de anos e também se renova continuamente, nunca sendo sempre o mesmo. Ambos com suas finitudes. O velho e o rio estão unidos e se respeitam através do prazer de um servir ao outro. Banhar-se no rio e ser banhado por ele, apesar do ser humano não ter tanta consciência disso, ao ponto de estar sempre agredindo com sua ação destruidora e egoísta de só querer receber sem dar em troca o que o seu irmão rio necessita para continuar vigoroso e novo. No entanto, o velho, com sua sabedoria de anos, ao se banhar deve agradecer suas águas que limpam, refrescam seu corpo e confortam sua alma. Deve também pedir perdão pelos males praticados em vida, e os dois, o velho e o rio, seguem sua jornada, cada um procurando ensinar que homem e natureza precisam estar unidos para que não haja retrocessos. Por coincidência, a imagem é um flagrante do encontro do velho ou do idoso, como queiram, com o “Velho Chico”, o nosso conhecido São Francisco, amigo dos nordestinos.

NO BANCO DA PRAÇA

Ali mesmo ele arriou o seu corpo, não se sabe se por cansaço, por fome ou por embriaguez. Quem passa vai seguindo sua vida cotidiana e nem está aí para o moço que dorme no banco da praça, que também é utilizado para um encontro, um bate-papo com um amigo ou até o namoro de um casal. O banco da praça é também um local onde muitos dão uma parada para refletir sobre os problemas e até apreciar o movimento dos carros, dos transeuntes ou observar o comportamento dos outros, como fazem os poetas e escritores quando querem escrever uma crônica da vida. É no banco da praça que artistas escultores se inspiram para construir estátuas de famosos, como Jorge Amado, João Ubaldo, Vinícius de Morais, na Bahia, e Carlos Drummond, no Rio de Janeiro. No entanto, o moço ali, numa praça de Juazeiro (Bahia), flagrado pelas lentes da minha máquina não passa de um simples desconhecido que pode ser até um andarilho qualquer ou mesmo um mendigo. Não deveria ter uma estátua em homenagem a esse anônimo para que as pessoas refletissem mais sobre o outro, o desamparado e abandonado pela sociedade, cada vez mais desumana e individualista que só pensa em si? Ronnie Von fêz “A Praça” (letra e música): A mesma praça/o mesmo banco/as mesmas flores, o mesmo jardim/tudo é igual, mas estou triste. No banco da praça também pode ser título de um belo poema com diversas conotações.





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