:: ‘De Olho nas Lentes’
O ANEL VIÁRIO E A ROTA DO LIXO
Meu amigo “Zé Maria”, do Movimenta Conquista, a duplicação da BR-116 é para inglês ver. Deveríamos concentrar nossas forças para a construção de viadutos e passarelas no Anel Viário em torno da cidade. Esses pontos (zonas sul, oeste, leste e norte) se tornaram em passagens da morte. Quando fizeram o Anel, há cerca de 30 anos, prometeram fazer estas obras e até agora nada, só armengues, e agora umas sinaleiras da prefeitura que não solucionam o problema. São apenas paliativos. Na boca do sertão, quem sai de Conquista para Anagé e Brumado, no sapé da Serra do Periperi, entre o Bairro Senhorinha Cairo e Henriqueta Prates, nossas lentes flagraram o tormento dessa travessia para motoristas e pedestres. É só confusão e, vez por outra, acontecem acidentes. Cadê os nossos políticos que, cinicamente, abrem a boca para dizer que estão trabalhando pelo povo. Conquista é uma cidade grande em termos de habitantes, mas pequena em sua infraestrutura.
Nesse trevo louco, sem viaduto e passarela, observei também que aquele local pode ser chamado de rota do lixo, a começar pela “Sucata Esperança”, que nada tem de esperança, mas de perturbação aos moradores da vizinhança. Além da zoeira das máquinas, o dia todo ela solta fuligem e poeiras tóxicas no ar poluindo as casas próximas. É um verdadeiro atentado à saúde pública. Cadê o poder executivo, o Ministério Público, a OAB e a própria Câmara de Vereadores que não tomam providências para relocalizar esse entulho para outro ponto distante da cidade. Além da sucata, ainda temos duas unidades de reciclagem do lixo, menos grave, mas que fazem parte da rota do lixo de Vitória da Conquista. Ainda tem gente idiota burguesa que chama aqui de “Suíça Baiana”. Essas pessoas não passam de alienadas que não conhecem as periferias da cidade, a maioria vivendo nas encostas da Serra do Periperi. Bem que essa rota do lixo poderia se transformar em mais um ponto turístico, já que aqui existem poucos para se visitar.
A SERRA E O TEMPO
O tema daria para se fazer um poema e ser musicado, uma crônica, um filme de ficção ou documentário, outro gênero literário e até mesmo uma tese de doutorado. Claro que estou a me referir sobre a nossa popular Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, que poderia ser chamada de Serra dos Mongoiós, Monachós, também conhecidos como Camacãs. A Serra e o Tempo, dela sobrou o vento no lamento zunido de seus antepassados espíritos.
A Serra tem muitas lendas e histórias para serem contadas. São poesias do tempo, matas que pertenceram aos índios, expulsos e exterminados de suas terras virgens pelos colonizadores. Corredeiras de águas que alimentavam o rio Verruga e matava a sede de seus primeiros nativos.
Há mais de 100 anos, em 1817, quando aqui chegou (Arraial da Conquista) o príncipe alemão Maximiliano Wied-Newied, ele ficou encantado com a exuberância da sua floresta, ainda praticamente virgem. Se retornasse depois ao túnel do tempo, ficaria horrorizado e decepcionado pela ação predadora do homem.
Dela sobrou uma pequena área do Poço Escuro, mesmo assim carente de preservação e urbanização. Por mais de 100 anos depredaram a Serra, derrubaram suas árvores, retiraram terra, pedras e areia, aterraram suas nascentes e, ao longo desse período, seus habitantes invadiram suas encostas. Maldita exploração imobiliária! O capital tem o dom do extermínio.
No final dos anos 90 ela foi cortada de ponta a ponta para construir o asfaltamento do Anel Viário, como mostram as imagens de comboios de carretas flagradas pelas nossas lentes. Lembro que se criou uma grande polêmica na época com opiniões contrárias dos ambientalistas e defensores da preservação da Serra, a esta altura totalmente desfigurada, verdadeira terra arrasada. A discussão custou a demissão do secretário municipal do Meio Ambiente que contestou pontos do projeto.
Toda sua encosta hoje, praticamente de ruas de chão, sem saneamento básico, está tomada pela pobreza periférica que mais sofre com as fortes chuvas. As partes altas e baixas da cidade também são atingidas por lamas, pedras e todos tipos de detritos que descem da Serra pela falta de uma vegetação mais densa como naqueles tempos da visita do príncipe.
O ANTIGO E O MODERNO
No bico da pena, o grande artista das pegadas nordestinas, no sabor da vida simples dos sertões, Silvio Jessé nos apresenta uma exposição inédita que retrata o antigo e o moderno dos 185 anos de emancipação de Vitória da Conquista. Vale a pena visitar seus trabalhos que estão no “Memorial” da Câmara Municipal de Vereadores. A partir da visão do príncipe alemão Maximiliano, que visitou o arraial da Conquista, por volta de 1917, Jessé nos presenteia com belos quadros sobre a cidade antiga e a moderna, mostrando sua evolução nos tempos. Sua sensibilidade ultrapassou fronteiras entre o regional e o internacional, com pinturas encantadoras e realistas sobre o nosso sertão nordestino. Ele tem um olhar artístico que faz a pessoa penetrar em suas paisagens, de tão reais que são.
Como o pintor espanhol Pablo Picasso que retratou os horrores da guerra civil espanhola e as atrocidades do ditador Franco, o nosso artista conquistense Silvio Jessé pincela, em outras obras, os sofrimentos dos sertanejos diante da seca e da omissão dos políticos e governantes em resolver os problemas do homem do campo. Sílvio é o Picasso do sertão, embora com outras formas, linhas e estilos modernistas.
Lembro como jornalista de uma entrevista que fiz há muitos anos sobre o trabalho de Silvio onde ele recordava da sua infância numa fazenda do município de Vitória da Conquista. Dizia que foi ali que começou a aprender a pintar, usando a terra e olhando as pessoas, seus costumes e hábitos. Tudo isso é vida e pura poesia que transborda da alma.
Como escreveu a curadora Ester Figueiredo sobre sua última exposição no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, com o tema “Sertão Colorido Quanto Preto e Branco, obras inspiradas no grande fotógrafo Evandro Teixeira (saudades do amigo que se foi), Silvio Jessé é tudo isso, expressão maior do seu tempo de moleque travesso na roça.
EXÓTICA FLOR
Essa nossa caatinga exótica tem suas espécies únicas que só existem em nosso Nordeste místico carregado de símbolos e fé. Assim são suas raras flores, como a estrela marrom de um cacto, primo do mandacaru, que também produz a sua uma vez por ano. Por serem diferentes, são difíceis de serem captadas pelos olhos humanos, mas são espíritos encantados ou espelhos encantadores da alma. São elas rústicas as minhas preferidas que representam o reflexo do meu ser. Para mim, elas têm um grande significado e retratam o que eu penso. Podem ser amor, tempo, vida, existência, conflito ou sentido do viver. Criaturas que brotam do chão, mesmo em tempos de seca em meio a uma paisagem cinzenta, como esta que tem a sua cor distinta entre o verde. É um tipo exótico, mas é uma flor das flores.
O RAIMUNDO PINTOR
Com sua paciência, voz mansa e calma, Raimundo José dos Santos, o “Raimundo Pintor”, a longos anos nesse ofício, em Vitória da Conquista, vai aos poucos fazendo um encontro das cores nas paredes, que dão vida e charme aos lugares. Raimundo não é somente um pintor qualquer, como tantos outros por aí. É também uma espécie de grafiteiro e desenhista das palavras e figuras. Basta uma ideia, e do seu pincel vão brotando as imagens reais, como neste letreiro do Espaço Cultural A Estrada onde estão os traços de um “S” no formato de uma estrada, com gentes andantes numa peregrinação ao seu ponto final. Um livro representa a fonte da vida onde, como diz o nosso estradeiro Dal Farias, o conhecimento liberta. Raimundo não é somente requisitado em Conquista, mas também em outras cidades da região para pintar mercadinhos, oficinas, casas comerciais e até letreiros em prédios. Sente-se que ele faz sua pintura com amor e dedicação. São obras que merecem ser admiradas pela sua perfeição. Nossas lentes flagraram suas pinceladas. “Raimundo Pintor” vai além das tintas combinadas em paredes de muros e cômodos. É também um propagandista dos slogans e marcas empresariais. Com ele, segue o dom de pintar, sem melar sua arte. Não é somente um simples pintor, é um artista das letras e das ideias desenhadas.
ECONOMIA CRIATIVA E CULTURAL
Mais do que economia criativa, o evento realizado pelo instituto da Clínica São Lucas, organizado pela médica Rosa Aurich, nos dias 7 e 8 de novembro, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, foi também cultural, com uma programação plural, envolvendo artesanato, apresentação teatral de alunos de escolas, como o Juvêncio Terra, e shows musicais, inclusive com a participação do músico e compositor Alisson Menezes. Dentro da programação coube uma roda de conversa sobre a Serra do Periperi, só que o tempo foi curto para se falar sobre essa faixa de terra em torno de Vitória da Conquista, que durante anos foi depredada pelo homem através da extração de areia, pedras e outros materiais utilizados, principalmente, na construção civil. Com uma vegetação baixa e maltratada, a Serra já foi uma mata como bem descreveu o príncipe alemão Maximiliano, em visita ao Arraial Imperial da Vitória, em 1817. Da Serra hoje só resta o Poço Escuro, cuja preservação ainda deixa a desejar. Além de abrigar o Cristo erguido pelo escultor Mário Cravo, um centro de proteção de animais, torres de operadoras de telefonia, rádio e televisão; ser cortada pelo Anel Viário e abrigar moradores pobres em suas encostas, a Serra tem suas histórias e personagens que nela habitaram, como o escultor Cajaíba que se inspirou para esculpir figuras importantes do cenário nacional e internacional. Foi uma programação plural, mas muita coisa deixou de ser dita nessa roda de conversa, como a de que a cidade tem uma grande dívida para com a Serra do Periperi.
UM ACERVO ARTÍSTICO CULTURAL E SUA HISTÓRIA DE LUTA PELA PRESERVAÇÃO
Há mais de 30 anos, desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, venho construindo, aos poucos, um acervo cultural que hoje contém cerca de sete mil itens entre livros, artesanatos, vinis, revistas em geral, recortes de jornais antigos, CDs. DVDs, quadros fotográficos autorais, outros objetos de valor e uma coleção em torno de 200 chapéus.
No decorrer deste tempo, o acervo passou a se chamar de Espaço Cultural a Estrada e já sofreu quatro mudanças, sendo a última do Bairro Felícia para o loteamento Sobradinho (Zabelê). Entre essas mudanças perdi alguns materiais, mas, os mais valorosos ficaram em minhas lembranças que foram umas gramáticas e dicionários raros de latim e grego.
Em todas as mudanças é sempre normal que alguma coisa se quebre pelo caminho. Este acervo foi crescendo e tomando dimensões que nem eu mesmo esperava e, consequentemente, os problemas foram aumentando no sentido da responsabilidade pela sua preservação para que fique para outras gerações.
A última mudança foi realizada com muito sacrifício e luta. No entanto, o mais grave estava por vir e confesso ter ficado muito abalado porque ele já faz parte da minha vida, como se fosse um filho, e de tantas outras pessoas amigas frequentadoras deste espaço através do Sarau A Estrada, que completou quinze anos de existência.
Em razão de um telhado mal feito, sem o devido caimento, por um “mestre de obra” de nome Luciano Gomes, as águas da chuva do último domingo (dia 19/10/2025) e as outras que vieram em sequência na segunda-feira penetraram entre as telhas como cachoeiras. A cena era de total alagamento.
O desespero não poderia ter sido maior e imaginei naquele momento que tudo estaria perdido, mas não existia outra opção a não ser lutar até o fim para salvar o nosso acervo que, há muitos anos, não mais pertence a mim. É como uma obra de arte que se torna pública e de pertencimento coletivo. É um acervo de todos nós.
Foi nessa hora de agonia que eu e minha esposa juntamos forças e coragem para arrastarmos com rodo, baldes e outros utensílios as águas que não paravam de cair. Tudo estava prestes a alagar, mas conseguimos conter e evitar que tudo fosse por “água abaixo”. As nossas lentes registraram a situação.
Nos momentos de maior perigo, nossas forças humanas de preservação duplicam e triplicam. Se lá atrás, em maio, sua mudança foi complicada, o inesperado superou e, depois do cansaço, bateu o dilema da reconstrução da parte física para asseguráramos a integridade deste patrimônio cultural.
Foi aí que entrou o grupo de estradeiros do Sarau a Estrada que nos deu ânimo e nos encheu de esperanças para recomeçarmos. Antecipadamente, agradecemos a todos que, de forma voluntária e espontânea, estão chegando juntos através de suas contribuições.
Nossa gratidão é também extensiva aos que não puderam contribuir financeiramente, mas expressaram seus sentimentos com relação ao ocorrido e se uniram a todos nós com suas palavras de esperança de nunca desistir.
Este acervo tem outras histórias de lutas e união, bem como de resistência em defesa da nossa cultura que, infelizmente, foi abandonada nos últimos anos em Conquista. É um espaço onde tem o pedaço de cada um, sem nenhuma ajuda do poder público.
É aqui que debatemos diversos assuntos, trocamos conhecimento e saber, fazemos nossas cantorias, declamamos nossos poemas, contamos nossos causos, soltamos nossas vozes e nos confraternizamos. Tornou-se um espaço de visitação de jovens estudantes e estamos com o propósito de levarmos o sarau até às ruas, ou ao povo.
O LIXO E AS FLORES
Difícil falar de lixo e flores, duas coisas que se parecem antagônicas, mas que juntos, com métodos de reciclagem, podem dar belos resultados. É um tema desafio para os poetas transformarem em poesia, extrair o visível do invisível. Nossas lentes conseguiram fazer esse encontro, se bem que um distante do outro numa amostragem nada agradável para o lixo. Primeiro, na porta de uma floricultura, uma das mais antigas de Vitória da Conquista, na praça que fica ao lado da rua Laudicéia Gusmão, um monte lixo contrasta com as flores. Segunda tomada, um terreno vazio cheio de lixo no loteamento Sobradinho (Zabelê) que só atrai insetos, ratos e mau cheiro. Quem gosta de ver lixo em sua porta? Esta é uma outra face, ou imagem feia, do outro lado da nossa cidade que é pouco mostrada. As pessoas ainda trazem lixo e outras tralhas das suas casas e jogam nesses terrenos. O poder público e os moradores são os maiores culpados por esse desastre. O terceiro ponto é que o lixo pode gerar belos canteiros de flores, quando ele é reciclado, triturado, fermentado e seus compostos transformados em adubo para uma variedade de plantas, inclusive em culturas agrícolas, cujos frutos irão parar nas mesas dos seres humanos. Dentro desse conceito e nesse contexto, o lixo e as flores viram poesia num casamento perfeito. Infelizmente, ainda impera dentro de nós o instinto de degradar o meio ambiente, e o lixo e as flores são visões distintas e divergentes.
O FLAGELO DAS SECAS E O SENSO ÉTICO
Entre a segunda metade do século XIX (1877) até meados do século XX (1932/35), principalmente, as secas no agreste nordestino, ao lado do cangaço bandido, ceifaram a vida de milhares de pessoas. Os governantes foram omissos e pouco fizeram para minimizar esse flagelo mortal. Mesmo assim, poucos sertanejos se renderam ao banditismo do cangaço. Em seu livro “Os Cangaceiros”, o pesquisador Luiz Bernardo Pericás narra cenários de horror, onde demonstra que a maioria preferia morrer que cair na criminalidade. Sobre essa questão, o autor descreve que ”é bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria, exploração e falta de emprego, não ingressou no cangaço. Em alguns casos, quando havia épocas de secas intensas, de fome e de miséria, muitos retirantes pobres chegaram ao ponto de vender as próprias roupas do corpo e fazer o percurso do Sertão cearense à capital completamente nus, só para que pudessem ter dinheiro para comprar alimentos. Outros flagelados optavam pelo suicídio a cogitar se tornar bandoleiros. Havia também aqueles que chegavam a comer ratos, cães, gatos, insetos, couro de boi e até mesmo a matar e comer crianças”. Na intensa estiagem de 1932, cerca de 220 mil operários trabalharam como contratados do Ifocs (espécie de Dnocs daquela época) no Sertão, mas não existem indícios de que alguns daqueles homens tenham se incorporado aos bandos de cangaceiros. “A índole e o senso ético da maioria dos nordestinos não permitiam que decidissem entrar na marginalidade, mesmo em situações extremas”.
FOTOS QUE SÃO POESIAS E HISTÓRIAS
Quase todos os dias entro em contato e dialogo com meus quadros fotográficos no Espaço Cultural A Estrada, os quais falam dos sertanejos agrestinos e da vida do homem do campo em geral.
Certa vez meus amigos Dal Farias e Manno me indagaram se eu ainda sabia de cada local e suas histórias. Sempre existiu, por parte de determinadas pessoas, aquela curiosidade por algumas fotografias que chamam mais atenção. Fico gratificado por isso.
São cenários cinzentos da sequidão da terra rachada, capelas, cargas humanas em caminhões, do tipo pau-de-arara, mandacarus, depredação da natureza, a miséria de pedintes nas estradas, antigas estações e linhas ferroviárias, a luta do homem pela sobrevivência e paisagens floridas nas épocas das chuvas. São faces do Nordeste.
Elas me fazem lembrar dos tempos das minhas andanças como jornalista repórter de redação ao lado do meu companheiro de trabalho, José Silva, ou “Zé Silva”, o fotógrafo da fotojornalismo que, de suas lentes, também tirava o olhar crítico onde a imagem se transformava em fortes legendas ou em mil palavras.
Além de serem poéticas em suas essências enigmáticas, só visíveis aos olhos de poucos, cada foto tem sua história e lugar preciso estático, como se estivesse só esperando pelo clique da máquina para dali ser transportada para um outro mundo imaginário da arte, ser apreciada e refletida na mente das pessoas.
Todas essas fotos são crônicas do tempo com seus casos, causos e histórias, como do sertanejo durante o rigor da seca tangendo seu gado para matar a sede em algum barreiro ou tanque distante. Lá estão o jumento com a carga de garotes de água e o carro-de-boi transportando a produção do feirante.
Durante cada narrativa, o nordestino, de tanto sofrer e apanhar, só acredita na providência divina porque o político lhe enganou através das vãs promessas. Com fé e esperança, ele levanta com suas mãos o chapéu em direção aos céus e pede clemência a Deus para que mande logo as chuvas para molhar o chão e plantar sua lavoura para colher o pão.
Tem a mulher, o menino e a menina com feixes de lenha e latas d´água na cabeça, vindos de bem longe no sol inclemente, que nem demonstram cansaço porque o corpo já se habituou com a labuta. Tem também aquela senhora de corpo frágil extraindo areia ou quebrando pedras da Serra do Periperi para ganhar um dinheiro do patrão explorador e depredador do meio ambiente.
Crianças e mães maltrapilhas pedem dinheiro nas pistas assassinas da Rio-Bahia (BR-116). Cada moeda jogada da boleia é um alento e se mistura com o asfalto. Cargas humanas em carrocerias de caminhões atravessam estradas da região, correndo o risco de morte porque não têm outras saídas.
O catingueiro, em seu desespero para encontrar água para matar a sede, forma um adjutório para cavar o terreno seco, de forma manual, no antigo estilo conhecido como “banguê”. Pela experiência secular do homem do semiárido, ali tem olho d´agua. Nem é necessário o aparelho da engenharia.
A trator, quase sempre, vai para o açude do fazendeiro ou do aliado político. O carro-pipa eleitoreiro, que levanta poeira por onde passa, deixa muitos de fora. Alguns ainda se amparam nas cisternas, mas elas não resistem por muito tempo. As capelas nos povoados e distritos são símbolos de uma religiosidade forte que acredita que as coisas vão melhorar um dia.
Nas conversas, bate-papos e prosas com todas essas gentes, de um modo geral, as histórias são parecidas, como das famílias de retirantes que rumaram para o Sul ou terras melhores, das “viúvas das secas”, cujos maridos não mais retornaram, das plantações perdidas, das brigas por terra, mas cada caso é um caso que nos faz partir o coração.
Apesar de todo sofrimento, são pessoas cordiais, cordatas, prestativas e receptivas. A senhora dona de casa nos recebe com prazer, mas enche os olhos de lágrimas quando nos leva até à sua cozinha desprovida de alimentos. Recordo de muitas delas, cheias de filhos pequenos, que me mostraram só uma panela no fogão a lenha com alguns caroços de feijão a borbulhar na fervura da água barrenta.
– É meu filho faz quase um ano que não chove; meu gadinho morreu de fome e sede; vendi um pedacinho da terra, mas o dinheiro está acabando. Só Deus para nos acudir – desabafou o senhor de rasgadas rugas queimadas profundas, com aquele triste olhar fitado no longínquo horizonte.
As fotos e as imagens me trazem essas recordações dos tempos de repórter e se unem e se interagem aos autores escritores, aos chapéus, aos artesanatos em noites de saraus culturais para escutarem as cantorias de violeiros, declamações de poemas, casos, causos e crônicas da vida, na troca do conhecimento e do saber.



























































