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:: ‘De Olho nas Lentes’

AO RELENTO DA VIDA E DO VENTO

No banco da praça frienta, ele, ou ela, se protege com um fino lençol. Foi assim que minhas lentes fotográficas fizeram esse flagrante, tão recorrente nas grandes cidades brasileiras. É a triste cara realista das desigualdades sociais, tão profundas, criadas pela própria sociedade, por esse sistema cruel e canibal. Ao lado, as máquinas passam cortantes e velozes, cada um no seu destino das obrigações materiais pela sobrevivência.  A praça é morna, o vento corre ligeiro entre as árvores a balançar suas folhagens e lá está aquele ser ao relento da vida.

Muitos não percebem sua presença. Não passa de mais um número entre os dos milhares de desvalidos. Essas cenas, essas constantes imagens não deveriam existir, nem nas linhas dos escritores e poetas. A imaginação me leva aos “Miseráveis”, do grande escritor revolto francês Victor Hugo. Não consigo entender como ainda tem gente que diz que bandido bom é bandido morto. Temos uma massa encefálica, amorfa, cega e inconsciente que não consegue reconhecer que foi esta sociedade hipócrita e perversa que criou o bandido e agora deseja excluí-lo, matá-lo, literalmente.

A pobreza, a miséria, a fome e todos esses que vivem ao relento da vida fomos nós mesmo os autores desse trágico cenário. Poucos se refastelam nas riquezas e muitos não passam de mortos vivos. Não temos consciência social e política. Achamos que uma simples doação de comida ou agasalho resolve tudo, quando a situação de miséria persiste e só cresce. Repetimos tudo outra vez, com aquele velho mote de solidariedade e caridade, mas deixamos de fazer o principal que é cobrar dos nossos governantes que nossos impostos sejam revertidos para acabar com essa pobreza e não dissolvidos nas corrupções e roubos.

A ÁRVORE E OS ENGAÇOS

O desmatamento de uma floresta deixa um vazio no espaço, só de engaços e bagaços. Depois vem a queimada e tudo vira cinzas. O que era vida se torna morte, como a árvore envenenada, cujo o verde se transforma em engaços, conforme flagrante das nossas lentes fotográficas. A seca inclemente muda a paisagem do nosso sertão, mas a chuva faz brotar o verde e tudo se arrebenta em cores. O colorido atrai aves, insetos, animais rastejantes e outras espécies que se alimentam dessa renovação. Os ciclos se repetem diante dos fenômenos naturais, mas quando entra a mão assassina do homem, a natureza simplesmente morre, fica sem alma.

O PÔR-DO-SOL, AS CABRAS E O LIXO

Nas cidades grandes existem muitas cenas visíveis que se tornam invisíveis porque os olhos das correrias ficam cegos para o olhar mais apurado da coisa existencial. No entanto, as imagens que brotam das lentes poéticas nos fazem enxergar o invisível para muitos que passam e não observam. É o caso desse pôr-do-sol, das cabras pastando no final da tarde e o lixo dos humanos mal-educados na Avenida Sérgio Vieira de Mello, no Bairro Sobradinho, em Vitória da Conquista, que se localizada na boca do sertão, na saída para Anagé. Se pararmos um pouco e esquecermos os problemas da vida cotidiana por alguns instantes, vamos ouvir também o canto dos pássaros em algum lugar, como nas praças e avenidas arborizadas. Num semáforo ou numa árvore, você pode até descobrir um ninho de passarinho, uma casa de João de Barro e até uma coruja solitária na comieira de uma casa ou de um prédio. Basta uma pequena parada para uma reflexão dos sentidos numa rua ou banco e você vai escutar o silêncio do ronco dos motores e a agitação estressada do povo. Os gritos podem ser só sussurros.  O pôr-do-sol e as cabras celebrando suas últimas refeições do dia me fizeram lembrar o cenário roceiro do campo onde o sertanejo faz parte desse conjunto bucólico, menos o lixo que, infelizmente, é uma caraterística das cidades, sobretudo as de médio e grande porte. Nos centros urbanos, a grande maioria nem vê a lua cheia passar, muito menos o luar pratear o terreiro, o quintal e a serra. A poesia e a vida se perdem no progresso, e este é o preço que se paga pela corrida do ouro. Fico com o pôr-do-sol e as cabras. Rejeito o lixo que agride nosso meio ambiente.

AS ANTIGAS IMPRESSORAS E UM MUSEU

Aos 14 anos de idade, seu Mário Macedo Soares já era um gráfico em Vitória da Conquista, isso nos anos 70, e até hoje ainda trabalha com algumas impressoras antigas, em contraste com os tempos atuais da evolução tecnológica onde tudo é produzido através de modernos equipamentos, mais ágeis e automatizados. No entanto, a eficiência das gráficas antigas é reconhecida até hoje. Ao longo dos anos, como acontece com o nosso patrimônio histórico arquitetônico, essas preciosas peças, muitas italianas, inglesas e alemãs, flagradas pelas lentes digitais, foram sendo vendidas como sucatas e depois derretidas como ferro velho para siderúrgicas. É como o desmatamento das nossas florestas. Uma pena que pouca coisa foi conservada e hoje é raro encontrar, por exemplo, uma máquina linotipo, que me faz lembrar dos anos 70 quando ingressei na profissão jornalística, primeiro como revisor e depois como repórter e editor. Com a evolução tecnológica, passamos da impressão chamada a quente (linotipos à base do chumbo) para técnica a frio.

MUSEU DA IMPRENSA

Várias vezes comentei com amigos companheiros de profissão e interessados no assunto de preservação da nossa memória, sobre a ideia de fundarmos aqui em Conquista um museu da imprensa, como forma de resgatarmos a história do jornal impresso. Lamentável que essa iniciativa não foi para frente e terminou ficando no imaginário, muito por conta da falta de recursos para adquirir esses maquinários e jornais impressos, bem como de um local adequado para instalação desse museu. Quanto mais o tempo passa, mais fica difícil concretizar esse projeto que, com certeza, seria de grande valia para a cidade, para toda região sudoeste e para a classe jornalística. Cada um de nós tem suas atividades, suas individualidades, seus interesses próprios e um projeto desse porte, que seria um legado para a posteridade, vai ficando de lado, como se não tivesse nenhuma importância. Nem o poder público se mostra interessado em apoiar a criação desse museu.

 

CENAS DAS SECAS

Em minha carreira de cobertura jornalística, muitos fatos me marcaram, mas as cenas das secas por esse sertão sofrido do homem do campo foram as que mais me sensibilizaram. Vez ou outra costumo dar uma espiada em meu computador e lá estão as matérias e as fotografias que me fazem reavivar as lembranças dos tempos em que comia poeira por esse agreste ao lado do meu companheiro repórter fotográfico José Silva. Recordo dessa foto registrada pelas minhas lentes por aquelas bandas da região de Jânio Quadros em plena sequidão de um sol inclemente que castigava as plantações e deixava os tanques e barreiros sem água para o consumo humano e dos animais que lambiam o tacho de lama. Era triste e, ao mesmo tempo, agradável conversar com o sertanejo simples e forte que nunca perdia a fé e as esperanças. A nossa missão era retratar a realidade e mostrar aos governantes a situação de penúria do lavrador que passava um tempo plantando e colhendo e outro a olhar para os céus e rogar a Deus pelo socorro. Lembro muito tempo dos carros-pipas cortando as estradas poeirentas (ainda perduram) que eram e ainda são utilizados como política eleitoreira. Quase nada mudou depois de mais de 20 anos para cá. Apertava nas tintas para dar voz ao clamor do sertanejo quando batiam as estiagens que deixavam feridas abertas no chão.

SEM ESSA DE “SUÍÇA BAIANA”

É até ridículo e motivo de chacota ficar chamando Vitoria da Conquista de “Suíça Baiana”, uma cidade nordestina sertaneja onde a maior parte do seu território é semiárido e está sempre sofrendo as intempéries da seca, sem falar na pobreza e os altos índices de desigualdade humana, como em todo Brasil. Pior ainda é quando essa denominação é endossada pela mídia local. Recentemente venho observando um aumento de mais pedintes e ambulantes no centro da cidade, sem falar em crianças vendendo balas e doces nos semáforos, o que significa mais pessoas desempregadas que vivem na informalidade. Em minha opinião, chamar Conquista de “Suíça Baiana” é até uma insanidade mental que serve de piada lá fora. Uma “Suíça Baiana” que não tem nem um voo direto para sua capital Salvador. Uma “Suíça Baiana” onde as unidades de saúde são precárias e sempre faltam médicos nos postos. Uma “Suíça Baiana” onde o fornecimento de água pode entrar em colapso se houver uma estiagem mais prolongada porque há quase 20 anos se promete construir uma barragem e o projeto está emperrado. É uma grande cidade, a terceira maior da Bahia com quase 400 mil habitantes, com um desenvolvimento avançado, mas está muito longe de ser uma “Suíça Baiana”, nem no quesito frio, cujas temperaturas mais baixas chegam a 5 ou 7 graus. Nem existe neve na Serra do Periperi. Me dá uma gastura por dentro quando ouço esse papo de “Suíça Baiana”. Trata-se de uma crítica construtiva e de preservação da nossa imagem.

UMA PARCERIA COM A IGREJA

Não restam dúvidas que a área do Cristo do artista Mário Cravo, na Serra do Periperi, está bem mais apresentável e atraente para os visitantes, mas o mérito não é somente da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Lembro que quando era presidente do Conselho Municipal de Cultura (2021/2023) e tivemos uma audiência com a prefeita Sheila Lemos, reivindicando melhorias para a cultura, como a abertura dos equipamentos culturais da cidade, ela anunciou que havia firmado uma parceria com a Arquidiocese e outras igrejas, se não me engano, para realização de obras naquele local histórico, como o mirante e outras benfeitorias. Estive lá no último domingo e observei uma placa onde só consta o nome da executiva, do secretário de Cultura e outras secretarias. Achei estranho não mencionar a dita parceria. É assim que é feita a política no Brasil, de uma maneira vergonhosa, sem transparência e sem escrúpulos. Fora isso, não gostei da sujeira de velas ao pé do Cristo, certamente pelos católicos da Semana Santa. Pensei comigo que se não houver uma proibição, o local pode se transformar numa romaria de fé e promessas. Outra questão é a demora na abertura dos quiosques construídos. O visitante ou turista de fora poderia demorar mais tempo ali se houvesse uma sorveteria, uma lanchonete, umas bancas de acarajé ou até mesmo um restaurante. Quanto ao resto, a vista lá do alto de Conquista é deslumbrante e ainda mais empolgante ao pôr-do-sol. Imagine um bonde ligando o Cristo ao centro da cidade? Ficaria perfeito e maravilhoso.

 

O SUCATÃO DA POLUIÇÃO

O nome é “Sucata da Esperança”, localizado no Sobradinho, próximo do Miro Cairo, mas não tem nada de esperança, só desgosto, estresse e tristeza. A empresa bem que poderia ser denominada de “Sucatão da Poluição” sonora das máquinas e criadora de fuligens que incomodam diariamente os moradores daquela comunidade. O movimento das máquinas é infernal e tira o sossego das pessoas, mas o pior de tudo é a fuligem que solta no ar e deixa as casas infestadas de sujeiras, sem contar as doenças respiratórias que a poluição provoca. A comunidade que fica em seu entorno já se reuniu e fez uma abaixo-assinado à prefeitura municipal solicitando a sua relocalização para outro ponto mais adequado, mas até agora não deu em nada. São montes e montes de sucatas e ferros velhos que servem de moradia para todo tipo de insetos, ratos e outros animais peçonhentos. O local também é uma fonte de criação de mosquitos da dengue. É um absurdo que até o momento o poder executivo, a Câmara de Vereadores, o Ministério Público e órgãos sanitários da cidade não tenham tomado nenhuma providência para retirar de uma vez aquele sucatão que tanto vem prejudicando e perturbando os moradores há muitos anos, mesmo com um pedido de socorro por escrito. Os moradores daquele bairro não aguentam mais e precisam ser ouvidos em suas justas reivindicações. As pessoas não suportam mais tanta sujeira. Resido em Vitória da Conquista há mais de 30 anos e confesso que não sabia que existia um sucatão daquela dimensão naquele local tão impróprio para o ser humano conviver diariamente em meio a tanta poluição. Aquilo ali é um atentado à saúde pública e já passou da hora de ser totalmente interditado.

 

O SARAU DOS QUINZE ANOS

Logo mais, entre junho/julho, o nosso “Sarau A Estrada” estará celebrando 15 anos de existência, o mais longevo de Vitória da Conquista que resistiu a diversas dificuldades, inclusive durante a pandemia de 2020 a 2022 quando realizamos encontros virtuais e a produção de vídeos que renderam duas edições documentais memoráveis. Antes disso, porém, temos um evento marcado com os amigos frequentadores e demais visitantes neste sábado (dia 12/04/25), no Espaço Cultural A Estrada, cumprindo a nossa programação bimensal, com o tema (carro-chefe do sarau) sobre “A Coluna Prestes e Seus Desdobramentos”, que abrirá nossos trabalhos depois dos informes e homenagens. O palestrante será nosso companheiro historiador, Eduardo Moraes, membro da comissão, e a cantoria ficará por conta do músico, poeta e compositor Manno Di Souza (voz e violão). Tudo indica que vamos ter mais apresentações com a presença de outros músicos. Além dos cancioneiros e violeiros, haverá declamação de poemas autorais e a contação de causos e estórias. Toda organização está sendo feita pela comissão composta por Cleu Flor, Dal Farias, Alex Baducha e Eduardo Moraes, a qual promete novidades nos comes e bebes. Tudo começou há 15 anos num bate-papo festivo e descontraído numa noite de inverno entre Jeremias Macário, Manno Di Souza e José Carlos D´Almeida, os primeiros fundadores, com o nome de “Vinho Vinil”. O propósito era só tomar vinho e ouvir vinis, mas o grupo foi crescendo e tomou outras proporções. De lá para cá realizamos vários projetos, como um CD autoral, vídeos e até uma apresentação pública no Teatro Carlos Jheovah. Pelo seu reconhecimento cultural, o Sarau A Estrada foi premiado no ano passado com o troféu Glauber Rocha, indicação do Conselho Municipal de Cultura e entrega solene pela Câmara Municipal de Vereadores.

SUAS ESCULTURAS SÃO IMPACTANTES

Um misto de religiosidade e de protesto em defesa da natureza, num barroco que lembra as obras do “Aleijadinho”, Antônio Francisco Lisboa, que nasceu em Vila Rica, atual Ouro Preto (Minas Gerais), no século XVIII. Na verdade, o artista mineiro lhe serviu de inspiração e lhe deu régua e compasso em suas andanças pelas cidades históricas daquele estado onde “Aleijadinho” deixou suas marcas eternas, como legado para a posteridade.

Estou falando de Jota Vieira, um escultor baiano de Carinhanha, que está expondo seus trabalhos na Casa Memorial Regis Pacheco, com mais de 30 peças. Suas esculturas são impactantes (ele tem um olhar também para as questões sociais) que deixam o visitante deslumbrado ao ver sua sensibilidade expressa em seus traços nas fortes imagens da Santa Ceia, de Nossa Senhora da Conceição, do Sagrado Coração de Jesus, dentre outras esculturas de cunho religioso.

Como o uso da madeira (cedro e umburana, principalmente) e da argila, Jota Vieira apresenta personagens da nossa cultura, como do pescador, além de figuras afros, no caso do negro escravo acorrentado e sendo castigado pelo patrão. Com troncos de madeira reaproveitáveis, Jota Vieira chama a atenção quando utiliza as duas faces de suas peças com esculturas distintas. Numa delas, o artista faz seu protesto contra a ação agressiva do homem ao meio ambiente. Sua arte é religiosa e de denúncia quando mostra numa de suas esculturas a imagem de um Tuiuiú, ave símbolo do Pantanal, sapecado pelo fogo.

De família pobre, Viera começou a fazer suas esculturas desde menino com seus carrinhos de brinquedo. Ainda jovem foi gari e pedreiro, mas tinha um dom divino adormecido em sua alma, tanto que só veio mesmo a se profissionalizar a partir de 2006.  Sua exposição já percorreu várias cidades, inclusive Salvador, e é digna de uma apresentação internacional.

Como todo artista neste país, que luta sozinho para compartilhar seu talento com os outros e sobreviver, Jota Vieira precisa de apoio dos poderes públicos e dos empresários para divulgar suas obras pelo Brasil e pelo mundo a fora. Uma das iniciativas seria a impressão de um catálogo sobre suas esculturas, sua trajetória de vida e sua técnica diferenciada de esculpir, com tanta precisão e realismo. Não deixem de visitar e apreciar a exposição de Jota Vieira.  





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