:: ‘De Olho nas Lentes’
POSTO DE SAÚDE DO MIRO CAIRO
Semana passada passei no Posto de Saúde do Miro Cairo para me cadastrar porque estou residindo próximo ao bairro e, para minha surpresa (aliás não é novidade), não consegui. Não havia uma assistente social e nem uma agente de saúde. A atendente respondeu que precisava identificar qual agente assistia em minha rua. Acontece que moro há um ano no Sobradinho e até hoje ninguém da saúde bateu em minha porta. Assim fica muito difícil. No Posto, pouca gente e só um médico atendia. A impressão que tive foi de abandono, o que, mais uma vez, se constata que a saúde em Vitória da Conquista anda aos frangalhos, como outros setores, principalmente a nossa cultura. Como as unidades de saúde vivem nesse estado precário, o poder público e outros órgãos ficam por aí fazendo esses mutirões de ruas com carretas para enganar e enrolar o povo desassistido. Esses mutirões, que até deixam pessoas mais doentes, porque são exames rápidos, sem continuidade, não passam de programas eleitoreiros e atestados de que a saúde vai de mal a pior. Creio que não é somente o Posto do Miro Cairo que apresenta esta carência. Neles, quando um paciente consegue marcar um exame, tem que esperar mais de seis meses para ser chamado para consulta, sobretudo quando se trata de um tratamento mais complexo.
DESVIOS DE FUNÇÕES DO GLAUBER
O Espaço Glauber Rocha, na Avenida Brumado, antigo Denit, foi construído no governo de Guilherme Menezes, se não me engano, nos anos 2000, com intuito de ali se tornar numa área voltada basicamente para a cultura, exposições de artes, realização de eventos e shows musicais, como o nosso tradicional São João. Além desses objetivos, o Espaço valorizou a zona oeste. Com o passar dos anos e mudanças de governos, que sempre desfazem as obras de seus antecessores, infelizmente, aquele Espaço sofreu desvios de suas funções, sem falar na festa junina que colocaram lá no Parque de Exposições, sob alegação fajuta de que tem mais capacidade de absorver mais gente. Hoje funcionam outros serviços e boxes de artesanato, pouco visitados. A área aos shows e eventos musicais se tornou num grande vazio e estacionamento de carros de particulares. Praticamente quase nada que lembre a nossa cultura e que faça jus ao nome do cineasta conquistense. A área de alimentação deixou de cumprir sua função. Até nisso a nossa cultura foi entregue às moscas. As pessoas só vão ali quando têm algum problema burocrático para resolver. É assim que querem transformar Conquista numa cidade turística? Pelo menos poderia existir uma sala de cinema, uma cinemateca e oficinas de audiovisuais em homenagem ao Glauber Rocha. Um projeto daquele porte não deveria ser apenas utilizado para prestação de alguns serviços de utilidade pública A impressão que se tem é de abandono de mais um equipamento destinado à cultura.
O COMÉRCIO DOS 10%
Confesso que não gosto dessas festas comerciais de Dia das Mães, dos Namorados, dos Noivos, dos Pais, Natal e os escambaus. É muito mais consumismo, comilança, gastos e falsidades do que sinceridade e amor. No outro dia, volta tudo ao mesmo de sempre na rotina das desavenças. Em todas essas datas, antes das festanças, os lojistas e a CDL sempre dizem que as vendas vão aumentar 10%. Com que base, e tem dados concretos, ou somente chute para atrair o consumidor que cada vez fica mais endividado? A impressão que temos é que o comércio daqui é um paraíso, porque no geral no país, fica em torno de 2% e no máximo 3% quando a situação está boa. Com 10%, a economia de Vitória da Conquista cresce mais do que na China. Não se pode falar nisso porque as pessoas torcem a cara e vão logo me taxando de negativista. Não me importo. Depois dessa idade, de tanto levar pancadas, não ligo mais para as críticas. Falo o que penso e nem estou para o que dizem. Fui vacinado contra as maledicências. Apenas fico invocado com esses 10% todos os anos. Vai crescer assim no raio que o parta. Pode até ser isso em termos de faturamento porque os comerciantes nessas épocas colocam os preços lá em cima, nas alturas. A ordem da mídia e das enxurradas de propagandas são comprar, comprar e comprar. Já comprou seu presente? Se não, você fica fora da fita e é um peixe fora d´água. Esses 10% viram piada, ou um vinil arranhado.
FIAÇÕES NAS REDES
Como se não bastassem os matagais nos terrenos abandonados pelos proprietários, a buraqueira nas ruas, poluição sonora dos carros de som, com músicas do tipo bate estaca, locais de lixo que servem como fonte para a procriação dos mosquitos da dengue, além de outros transtornos que temos que conviver na cidade grande, temos o emaranhado de fios na rede elétrica da Coelba, um risco de vida. É o preço que se paga pelas negligências dos órgãos e poderes públicos. Aqui mesmo no final da Avenida Sérgio Vieira de Melo, há dias deixaram um amontados de fios na rede, num poste esquisito onde tem uma parafernália e uma luminária no meio. Por achar tudo estranho, ligamos para a Coelba e, por incrível que pareça, a atendente recomendou que a gente procurasse a polícia. O que tem a ver a polícia com isso? Só pode ser gozação! Nessa rede, cada um instala aparelhos clandestinos, fiações e outros trambolhos, e a Coelba não toma providências. Outro problema é a queda constante de energia nesta área próxima do tormento de uma sucata que é um verdadeiro atentado à saúde pública, com barulho de máquinas, poluição, local de ferros velhos que servem de coito de ratos, mosquitos e animais peçonhentos. O cidadão paga imposto alto e não tem o direito de reclamar, além de ser tratado com deboche, como fez a atendente da Coelba quanto ao monte de fiação no poste. Quando ocorre o pior, ninguém é responsável. Cada um empurra o problema para o outro.
OS PASSARINHOS E A SERRA
Um final de tarde telúrica e poética, pouco visível aos olhos humanos, que não é no campo, mas na cidade corrida feita de concreto, pedras, asfaltos e multidões com seus problemas. Nela (cidade) também existem cenários de meditação pintadas pela natureza. É só captar suas nuances. Os passarinhos pousam no fio do poste se preparando para o anoitecer, depois de mais um dia cortando ares com suas asas, de galhos em galhos, à procura de alimentos. É a luta pela sobrevivência, bem mais tranquila que a do ser humano. O que será que eles estavam confabulando? Alguns planos para o outro amanhecer? Que nada! Não existem essa preocupação! Nossas lentes não conseguem flagrar suas prosas. Do outro lado, belas imagens da Serra do Periperi ou Piripiri, como queiram, onde o rajar da luz do pôr-do-sol reflete numa nuvem lá no infinito do outro lado do horizonte. São cores que apascentam nossa alma depois de um dia que se vai para dar lugar ao anoitecer. O urbano também é rural, basta parar um pouco para observar os sinais da divina natureza, embora invisível aos olhos das pessoas. Tudo é poesia, dependendo da forma do seu olhar. A vida não é só reboliço, inquietação e tristeza, é também quietude, calmaria e renovação quando se decide observar a rotação natural das coisas. Os passarinhos e a Serra são apenas exemplos de elos que fazem mudar nossos sentidos. Existem muitas outras imagens que nos transportam para outras visões de um além diferente.
OS TRILHOS EM NOSSAS MEMÓRIAS
As linhas férreas por onde passavam os trens de passageiros podem estar abandonadas nos sertões das caatingas, mas nunca deixarão de existir porque ficaram em nossas memórias de menino e perduram até hoje. Não dá para entender como um país tão continental troca o trem pelas rodovias congestionadas de carretas movidas a diesel provocando terríveis impactos ambientais, sem falar nos altos custos para a nação! É o paradoxo se somando à insensatez dos nossos governantes que liquidaram todo um patrimônio valioso da nossa história, pago pelos contribuintes. Assim como os trilhos dentro do mato, flagrados pelas nossas lentes no sertão de Juazeiro, as estações ferroviárias, em sua grande maioria, foram destruídas pelo tempo. Como era gostoso e divertido viajar de trem e sentir o solavanco dos vagões cortando belas paisagens, de estação em estação, de cada cidade e distrito! Mais prazeroso ainda era quando anoitecia e o passageiro podia apreciar da janela o belo luar prateando as serras e os morros. Se tudo isso fosse preservado, teríamos hoje trens modernos, linhas renovadas, e as viagens seriam bem mais econômicas, sem falar que as rodovias seriam desafogadas e haveriam menos acidentes. As velhas gerações nunca vão tirar os trilhos de suas memórias. Eles vão continuar existindo.
HOMENAGEM AO TRABALHADOR
A Chapada diamantina não é somente famosa pelas suas belezas naturais e paisagens encantadoras que atraem turistas do mundo inteiro, não somente do Brasil. Além da mineração de pedras preciosas, como o ouro e o diamante, cujo ciclo terminou lá pelo meado do século XX, dando lugar ao turismo, a região é também rica pelo seu potencial agrícola, destacando os hortifrutigranjeiros (Ibicoara e Mucugê), o café e agora a vinicultura. Estas duas últimas culturas estão espalhadas em vários municípios, como Barra da Estiva, Piatã (1.280 metros de altitude), Morro do Chapéu e Bonito onde a Prefeitura Municipal ergueu um merecido monumento em homenagem ao trabalhador, peneirando à moda antiga, os grãos do café para separar dos bagaços. Nossas lentes flagraram as estátuas do homem e da mulher nessa labuta que, infelizmente, foram substituídos pela máquina, mas não deixa de ser um resgate da memória desse nobre produto que não falta na mesa dos brasileiros e dos estrangeiros. Barra do Choça, aqui em nosso Planalto da Conquista, também é um dos maiores produtores de café do Nordeste que, em épocas passadas, empregou milhares de trabalhadores vindos de várias partes da Bahia e até de outros estados. Bonito fica próximo de Morro do Chapéu que, além do café, introduziu a cultura da uva (passamos por várias fazendas) e já está produzindo vinhos de qualidade.
“CAPITAL BAIANA DO FORRÓ”
Bem louvável a iniciativa da Prefeitura Municipal de Senhor do Bonfim em ter erguido na entrada da cidade um monumento em homenagem à nossa sanfona nordestina, com a frase “Capital Baiana do Forró”, em sua base. Isso nos deixa com orgulho porque o forró e a sanfona são as expressões maiores da nossa cultura popular nordestina e não deixam de ser também uma homenagem ao nosso grande forrozeiro e rei do baião, Luiz Gonzaga. No entanto, é lamentável que nos últimos anos outros ritmos estranhos tenham ocupado mais espaços nos festejos juninos, deixando o forró autêntico em quinta categoria, lá no canto. Nossas lentes flagraram essa bela imagem, mas será que o poder municipal vem correspondendo e honrando mesmo com o que mandou escrever? Será que Senhor do Bonfim é mesmo a capital do forró, ou tudo não passa de mais uma propaganda enganosa, como tantas outras institucionais dos governantes que vimos por aí? Infelizmente, em todo Nordeste, o que tem mais rolado são os estilos musicais de sertanejos, arrochas, lambadas, sofrências, pagodes e outras porcarias mais. O forró não é mais o mesmo. Foi totalmente descaracterizado. Esperamos que a Prefeitura Municipal de Bonfim honre com o que mandou construir, e que o dinheiro investido do contribuinte não seja desperdiçado com contratações caras de bandas e cantores que nada têm a ver com o forró, como ocorrem nos outros municípios baianos e nordestinos em geral.
AVENIDA INTEGRAÇÃO
Quando aqui cheguei há 35 anos (hoje me sinto um conquistense) me disseram que a Avenida Integração (Presidente Dutra) dividia Vitória da Conquista em duas cidades, a mais pobre e abandonada, chamada de Zona Oeste, e a mais rica e privilegiada, a Zona Leste. Quis o destino que eu morasse na segunda, embora não pertencesse à classe alta. Quanto a essa diferenciação social, o povo tinha e tem total razão de assim classificar a cidade, mas com o tempo muita coisa mudou. Entretanto, os desníveis em termos de equipamentos, estrutura e poder aquisitivo ainda permanecem. José Pedral, em seu primeiro governo, a partir de 1963, tinha a intenção de reduzir essa desigualdade, porém seu mandato foi interrompido em maio de 1964 pela ditadura civil-militar. No Governo do PT foram construídos o Espaço Glauber Rocha, que sofreu desvios de suas funções, o CAIC e o Ifba (o Instituto Técnico Federal). Da parte do setor privado, surgiram alguns hotéis, restaurantes e lojas comerciais de porte, mas o peso da economia continua na Zona Leste onde os políticos sempre injetaram maiores volumes de recursos, inclusive em obras de infraestrutura. Até pouco tempo, a Lagoa das Bateias estava em estado lamentável. Que bom que foi revitalizada! A zona Oeste permanece a prima pobre, apesar da famosa Feirinha do Bairro Brasil ser o maior destaque da cidade. Na zona Leste, onde se encontram a UESB, a Universidade Federal, o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima e outros equipamentos de importância, são realizados os maiores eventos. Até o nosso São João foi levado para o Parque de Exposições (uma insanidade). Estou agora residindo na Oeste e aqui é meu lugar. No entanto, observo as diferenças sociais, econômicas, saneamento básico e culturais. Infelizmente, os governantes ainda dão mais atenção ao lado de lá. Quem está lá não gosta de vir para cá, e vice-versa, inclusive quando se trata de vida noturna.
CONQUISTA E AS CHUVAS
Não sou engenheiro e nem especialista no assunto, mas não é necessário para antever que Vitória da Conquista está na mira das tragédias e desastres em futuro próximo diante das mudanças climáticas (aquecimento global) com os temporais das fortes chuvas que hoje castigam o planeta e todo Brasil. Qualquer leigo mais esclarecido sabe que Conquista não tem mais estrutura para receber fortes chuvas, e o que vem acontecendo nas últimas semanas prova isso. Cabem às esferas municipal, estadual e federal, sem intrigas políticas partidárias, tomarem urgentes providências na realização de obras de macro e micro drenagem na cidade, porque os custos são altos e envolvem pesados investimentos. Conquista cresceu rapidamente sem uma infraestrutura adequada. Os serviços de drenagem feitos há mais de 30 ou 40 anos estão totalmente defasados e precisam ser ampliados, com capacidade para receber as grandes enxurradas, principalmente as que descem da Serra do Piripiri, durante muito tempo depredada pela ação humana. Não me lembro da demolição de casas condenadas pela Defesa Civil em áreas irregulares de risco, como ocorreram nesta semana. É um sinal que vem coisa bem pior por aí, a começar pelas encostas da Serra em bairros pobres, como Pedrinhas, Senhorinha Cairo (existem casebres no topo da Serra), Bruno Bacelar, Miro Cairo, imediações da Vila Serrana e outras localidades de invasões. Só vão cuidar quando acontecerem tragédias de grandes proporções. Toda essa encosta da Serra deveria ter sido preservada pelas prefeituras passadas, mas, exatamente elas têm a maior parcela de culpa pela destruição do meio ambiente. Não é por menos que já chamaram a Serra do Piripiri de “Serra Pelada”. Conquista está na rota das tragédias com deslizamentos de terras.









































