:: ‘De Olho nas Lentes’
A SERRA QUE SE MOVE
Reza a lenda que durante o nevoeiro do frio rigoroso, principalmente nos séculos passados, a Serra do Periperi se movia lentamente como se fosse um navio no mar, daí a explicação do sumiço dos índios quando em combate com o colonizador João Gonçalves da Costa que se perdia no meio da mata. Essa movimentação deixou de ser perceptível depois que depredaram e depenaram cruelmente a Serra com a retirada de árvores, terra, areia, pedras e outros materiais para a construção civil. Anos atrás alguém a apelidou de “Serra Pelada” depois de tanta exploração do homem pela ganância do dinheiro, sem contar as invasões dos mais pobres em suas encostas para erguer seus casebres. Depois do seu tombamento, por volta de 1996, bem que houve certa recuperação do seu ecossistema, mas muitas feridas continuam abertas, tanto que do seu alto descem toneladas de detritos que invadem e alagam as ruas mais localizadas ao centro de Vitória da Conquista. Ainda se paga caro pelas depredações do passado. Lendas a parte, a Serra exibe toda sua beleza com o que ainda restou da sua fauna e da sua flora, como o pedaço da floresta do Poço Escuro, sem considerar o monumento do Cristo, do artista Mário Cravo. Proporciona belas fotografias e imagens, principalmente durante o pôr-do-sol, quando ela para de se mover e entra na escuridão da noite para depois despontar no alvorecer com aquele bom dia a todos conquistenses.
SEM EXAGEROS NAS INFORMAÇÕES!
O que leva uma pessoa a produzir um vídeo dizendo que Vitória da Conquista é a cidade mais fria do Nordeste e a denominá-la de “Suíça Baiana”? Como se fala no ditado popular, “vamos devagar que o santo é de barro”! Sem exageros, meu camarada, senão o que seria um gesto de enaltecimento e divulgação, termina caindo no ridículo e no deboche. Isso é um desserviço, sem contar que é uma mentira que tem sua origem num bairrismo barato. A cidade mais fria e mais alta do Nordeste, com 1.268 metros de altitude, é Piatã, localizada na Bahia, chegando até 1 grau no inverno rigoroso. Temos ainda na Bahia, a cidade de Morro do Chapéu, mais alta e mais fria que Conquista. Existem outras. Toda propaganda, principalmente a pública, leva pitadas de informações exageradas e fantasiosas, características próprias do propagandista ou do publicitário que a constrói e elabora, com vistas a atrair quem ler, assiste ou ouve. No entanto, não se deve enganar quando se trata de dados históricos e estatísticos que passaram pelo crivo da pesquisa. Pode-se até florear um texto usando uma linguagem poética, com metáforas, parábolas ou outras figuras artísticas literárias, mas não mentir e passar uma informação errada. Muitos incorrem nesse erro por falta de conhecimento ou faz de propósito, achando que sua afirmação incorreta não será desmascarada e terminará virando verdade. Quando alguém faz esse tipo de crítica construtiva, sempre é mal interpretado como persona não grata que menospreza a cidade, e ainda é alvo de ofensas e pedradas. Digo isso porque já fui vítima e ainda sou quando coloco o dedo nas feridas. Vou sempre afirmar que é uma imbecilidade chamar Conquista de “Suíça Baiana. Meu recado é que estudem mais sobre a história do seu município, coisa rara de se encontrar quem faça isso, porque, a cada dia que passa, a nossa cultura só se esvazia, especialmente pelo poder público. Qual orgulho em dizer que temos o maior Cristo crucificado do mundo, se aquela área, mesmo com as novas obras de um mirante, está abandonada (quiosques fechados) e é pouco visitada por falta de segurança e outros serviços de infraestrutura? Pela lógica, se é o maior, deveria ter uma tremenda estrutura de urbanização e ser ponto turístico de atração como cartão postal da cidade. Acho tudo isso uma vergonha! Não é assim que Conquista se transformará numa cidade turística.
NÃO SE TRATA DE UM SÍTIO
A imagem bucólica parece ser de uma fazenda ou de um sítio, mas pode ser vista em plena Vitória da Conquista nos terrenos vazios em bairros da periferia, em meio ao lixo e ao matagal. Nossas lentes flagraram cavalo e cabras pastando numa área da Avenida Sérgio Vieira de Melo, no Zabelê. Em meio ao lixo, pelo menos esses animais estão contribuindo para o capim não ficar mais alto e se transformar em esconderijo de bandidos. Além do mais, evita que alguém toque fogo e provoque aquele “fumacê” tão prejudicial à saúde humana. No corre-corre da vida, muita gente passa e não percebe estas cenas de interior da zona rural. Com o progresso, o trânsito agitado e engarrafado de carros soltando gases tóxicos e multidões em correria, quase ninguém ouve o canto dos pássaros nas praças arborizadas, muito menos uma noite de lua cheia. Como ainda tenho minhas raízes fincadas no sertão da roça, costumo parar para matar a saudade dos tempos de menino quando vivia no campo. Mesmo com a destruição provocada pelo bicho homem predador, a natureza ainda sobrevive ao nosso lado nas grandes cidades e ela atua como bálsamo da alma. Pena que a grande maioria não para um pouco para apreciar sua beleza e seu encanto. Maior parte da minha vida foi em centros urbanos, mas até hoje ainda me sinto um ser campesino. Quando estiver estressado, aporreado ou banzo, escute o canto das aves e olhe um pouco para as árvores e plantas ainda vivas nas pequenas, médias e grandes cidades. Mesmo assim, vamos cobrar do poder executivo que fiscalize os terrenos abandonados e obrigue por lei que seus proprietários os cerquem ou murem.
TERRENOS BALDIOS
Matagais, entulhos, garrafas, plásticos, lixo de moradores, camas, sofás, pneus velhos, ferragens e outros objetos servem para atrair ratos, escorpiões, cobras, mosquitos da dengue e insetos diversos se acumulam nos terrenos baldios e abandonados pelos donos desses imóveis que não são fiscalizados, conforme determina a lei do código de postura. As próprias imagens extraídas das nossas lentes mostram esta calamidade pública em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, pejorativamente chamada de a “Suíça Baiana”. A situação chega a ser tão caótica em algumas ruas e bairros que muita gente toca fogo para minimizar o problema, que se agrava com as fumaças. Não tem dúvidas que o maior culpado por tudo isso é o poder público, e não adianta dizer que é falta de educação das pessoas que despejam todas sujeiras nesses terrenos. Vamos esperar que todos se eduquem, ou exigir que os proprietários murem ou cerquem suas áreas, aplicando as punições cabíveis? Por que a Prefeitura Municipal não toma logo uma providência urgente? Acho que a maioria tem uma resposta certa para esta pergunta. Além da incompetência, tem o poder econômico do setor imobiliário que o executivo prefere não bater de frente. A própria prefeitura não dá o exemplo, pois nem ela cuida devidamente de seus terrenos. Cadê a Câmara de Vereadores, o Ministério Público, a mídia e outros órgãos que não cobram o cumprimento da lei? Trata-se de uma questão de atentado à saúde pública.
UM TELEFÉRICO PARA O CRISTO
Sobre a questão da urbanização e da segurança na área do Cristo da Serra do Periperi, do escultor Mário Cravo, o nosso amigo e companheiro Dal Farias nos lembra que um dos maiores projetos discutido na Câmara de Vereadores, no início dos anos 90, foi do parlamentar Adison Vilas Boas (in memoriam) visando tornar o local no maior ponto turístico de Vitória da Conquista, inclusive com a implantação de um teleférico (um bondinho) ligando a Serra ao Poço Escuro. Essa iniciativa me faz lembrar também da proposta do ex-prefeito Raul Ferraz quando se candidatou ao poder executivo, pela segunda vez, se não me engano no início dos anos 2000. Sua ideia era construir um bondinho ligando o Cristo ao final da Ernesto Dantas. Bem, o projeto do vereador foi engavetado. Dal nos recorda ainda que, quando Conquista ainda não tinha virado uma “Suíça Baiana”, uma comissão com o governador ACM esteve na cidade, para mostrar as potencialidades regionais e turísticas do Planalto de Conquista. “Em minha opinião está faltando na Câmara lideranças robustas que voltem a encampar os grandes assuntos de interesse da cidade e da região. Fazem algumas audiências públicas, mas ineficazes, que não fazem o efeito esperado para a população. Os grandes temas de Conquista estão ficando no esquecimento” – brada Dal Farias. É isso aí, meu amigo, até quando aqueles quiosques vão continuar fechados por falta de segurança permanente no local? Vamos nos contentar apenas com aquele mirante e o resto permanecendo no mesmo? As pessoas ainda têm medo de visitar o monumento e apreciar a cidade lá do alto. Não bastam esses eventos promovidos pela Polícia Militar. Aquela área merece muito mais que isso.
QUIOSQUES FECHADOS
Todas as vezes que vou visitar o Cristo da Serra do Periperi, do artista plástico Mário Cravo, fico a me perguntar do porquê aqueles quiosques sempre estarem fechados, quando poderiam estar abertos para atender os visitantes com lanches e bebidas? Ninguém se interessou em se habilitar para explorar aqueles pontos, ou a Prefeitura Municipal não abriu concorrência? Os quiosques se transformaram em pontos das cachorradas de ruas, como flagraram minhas lentes, na mais recente ida ao local, no feriadão de final de ano, quando levei meu filho, sua esposa e minha neta que vieram do Rio de Janeiro. Apesar das obras elevatórias para se ter uma vista melhor da cidade lá do alto, pouca gente tirando fotos e uma sensação de insegurança. O local, que poderia ser um cartão postal de Vitória da Conquista, bem visitado, passa uma impressão de verdadeiro abandono, sem uma digna urbanização e mais vigilância para quem chega de fora. Há 35 anos, quando vim trabalhar em Conquista como jornalista de A Tarde, pouca coisa mudou, e cada prefeito faz um tiquinho. Passa um tempão para vir outro e colocar um tijolo para dizer que fez alguma coisa. Aqui ali era para ser um ponto de encontro, lazer e divertimento todos os dias, principalmente em finais de semana, com bares e restaurantes abertos, com muita segurança e estrutura. Toda vez que subo à Serra ao encontro do Cristo, tenho a sensação que ele se sente esquecido, na solidão do tempo e no zunir do vento. Aliás, sua base está suja de velas, santinhos e outros objetos como sinais de promessas de religiosos. Nada contra a fé, mas a escultura do Cristo não pode se transformar numa romaria. É lamentável e vergonhoso!
O HERBÁRIO DA SERRA
Para quem mora dentro da cidade numa selva de pedra, no corre-corre do dia a dia, entrar numa floresta é sentir uma sensação de paz, frescor e quietude na alma. Só em ouvir o canto dos pássaros e o farfalhar das folhas, parece que nos transportamos para um paraíso. Os problemas voam e nos sentimos mais leves. Depois de mais de 20 anos fui, nesta semana, ao Herbário (ainda pequeno) da Serra do Periperi e, imediatamente, bateu a lembrança de Walter, o criador daquele local mágico, que dedicou quase toda sua vida, com amor e dedicação, a cuidar das plantas, num descampado onde existia ao lado um camping, um espaço de acampamentos para os amantes da natureza. Hoje o Herbário fica dentro da mata de cipó, uma extensão até o Poço Escuro, inclusive com uma trilha de acesso. Foram momentos de prazer e encantamento, flagrados pelas lentes da nossa máquina. Fui recepcionado por Lázaro que cultiva mudas que são distribuídas aos interessados em plantar uma árvore em sua calçada ou no quintal. Walter nos deixou há uns quatro anos, mas lá ficou sua viva presença através de seus pertences e anotações. Fui testemunha como ele amava aquele local e muito contribuiu para sua preservação. Merece toda nossa homenagem. Por sua vez, fiquei triste ao ver o avanço das habitações do Bairro Guarani até o topo da Serra, por muitos anos castigada com a retirada de terra, areia, pedra e outros materiais pelo setor da construção civil. Para o porte de Vitória da Conquista, é um Herbário que precisa ser ampliado com mais espécies para atender a demanda. Se houvesse mais investimentos por parte do poder executivo, o local poderia até ser transformado num ponto turístico, com trilhas e outros equipamentos atrativos aos visitantes.
ÁRVORE FRONDOSA
Em 2026 continue sendo como uma árvore frondosa que, além de oferecer sombra contra o sol escaldante, produz frutos para alimentar as pessoas. Muitas vezes, nem todos são sadios por causa das pragas. É só saber separar os bons dos ruins, mas o que importa mesmo é dar frutos do bem. Sejamos, então como uma árvore frondosa, principalmente neste mundo tão conturbado e difícil de se viver. Vamos cuidar da nossa árvore. Nela, as aves fazem seus ninhos e se abrigam, inclusive de possíveis predadores. Que neste 2026 sejamos árvores frondosas, para acolher a todos estradeiros e rancheiros da vida.
POLITICAGEM PARA AGRADAR
Que me lembre, nestes mais de 34 anos em Vitória da Conquista, não via um recesso tão extenso e longo para os servidores públicos municipais, de duas semanas, com a grande maioria das secretarias fechadas. Pelo decreto da prefeita, só estão funcionando os serviços essenciais. No meu entendimento, todos são imprescindíveis para o cidadão. Trata-se de uma politicagem para agradar os funcionários, mas prejudicial aos usuários contribuintes que pagam altos impostos. Neste país e nesta Bahia, especialmente, já temos muitos feriados e feriadões que atrasam o desenvolvimento econômico e social, sem contar que é o período de mais gastanças e acidentes no trânsito, com aumento de mortes. São as épocas em que o sistema SUS fica sobrecarregado, com mais custos para o Tesouro. Na Bahia, por exemplo, as festas começam em início de dezembro e só terminam em março. O legislativo e o judiciário entram em recesso por dois meses, e agora vem o poder executivo de Conquista querendo fazer quase o mesmo. Tudo isso é muito bom para o setor de turismo em geral, como agências de viagens, transportes e hotéis. Do outro lado, deixa a classe com menor poder aquisitivo, que sempre está imitando o rico, ainda mais endividada. Vamos todos às farras e às favas para o trabalho.
TEM DE TUDO NA FEIRINHA
As feiras nasceram com as primeiras tribos humanitárias de agricultores, classificados como sedentários, diferente dos caçadores e coletores que eram nômades. São tão antigas quanto a humanidade e surgiram da necessidade da troca de seus produtos entre as pequenas comunidades. Elas existem em qualquer parte do planeta, incluindo as grandes metrópoles, e sobrevivem ao mundo moderno das tecnologias, desde a criação dos armazéns, das lojas comerciais, dos supermercados e até dos mercados virtuais. Não existem cidades, vilas e distritos que não tenham a sua. Nas grandes são várias, como é o caso de Vitória da Conquista, mas sempre tem uma que entra nas graças de seus moradores. Em Salvador é a Feira de São Joaquim. Em Conquista é a Feirinha do Bairro Brasil, a mais famosa e graciosa, considerada patrimônio cultural da cidade. Aliás, toda feira é um palco livre da nossa expressão cultural, como a nossa histórica Feirinha onde se encontra de tudo, desde boxes de carnes, peixes, frutas, verduras, bebidas (cachaças), um caldo de cana com pastel (para quem aprecia o pastel), temperos, cereais em geral, a utensílios usados de casa, roupas, sapatos, ferragens, artesanatos, mesas, cadeiras, objetos de uso pessoal e um monte de bugigangas, superando os supermercados, com o diferencial que na feira o cliente pode pechinchar os preços. É gostoso passear na feira e fazer suas compras ao ar livre, sem estar empurrando carrinhos e pegando filas naquelas máquinas registradoras. Nos encontros com os amigos e conhecidos, até o papo na feira é mais prazeroso que o de um supermercado. Na feira você não precisa ficar rodando entre prateleiras para encontrar um produto. As mercadorias ficam em bancas e até no chão. Além de ter de tudo, na feira existe muito mais calor humano e você pode até trocar um dedo de prosa com o vendedor, como se tornar freguês e selar uma amizade duradoura. Quando vou à feira, lembro dos meus tempos de moleque roceiro do interior onde fui até comerciante de farinha. A Feirinha do Bairro Brasil, por exemplo, tem algo de especial e é ali onde você se sente mais gente, mais humano e menos número e máquina. Trata-se de um ambiente mais social, bem mais popular, principalmente pela simplicidade da sua gente por onde circula. Nossas lentes flagraram esse colorido de imagens que não existe num supermercado.








































