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:: ‘Notícias’

MARROCOS SE “VINGA” DOS SEUS COLONIZADORES

Carlos González – jornalista

Os deuses do futebol estão proporcionando neste momento ao Marrocos a oportunidade de se “vingar” dos colonizadores, que ocuparam seu território desde o período das Grandes Navegações, financiadas pelos monarcas portugueses e espanhóis, a partir dos primeiros anos do século XV. Na surpreendente campanha na XXIIª Copa do Mundo, a seleção marroquina eliminou os dois países da Península Ibérica, e, se depender do apoio do mundo do futebol, “dará o troco” à França na segunda semifinal de amanhã (dia 14).

Ao contrário dos métodos ambiciosos e opressivos de belgas e britânicos, que exploravam as riquezas do solo dos territórios invadidos, ou a exploração da mão de obra dos seus povos, portugueses, espanhóis e franceses se sentiram atraídos pela posição geográfica do Marrocos, cujo imenso litoral é banhado pelo Atlântico e pelo Mar Mediterrâneo, e pela facilidade de acesso ao sul da Europa através do Estreito de Gibraltar.

A vitória dos Aliados na 2ª Guerra Mundial causou a desocupação de territórios ocupados na África. Antes, uma insurreição popular expulsou os colonizadores portugueses, mas França e a Espanha só aceitaram a independência do Marrocos em março de 1956, e a consequente volta ao país do sultão Maomé V, que se achava no exílio. A Espanha mantém sob sua jurisdição em território marroquino, as cidades de Melilla e Ceuta (porto de grande importância comercial situado na entrada do Estreito de Gibraltar).

Marrocos conseguiu envolver sob sua bandeira uma enorme legião de torcedores, não somente o mundo árabe e a África Negra, mas legiões de imigrantes que vivem na Europa. Uma das virtudes dos torcedores marroquinos, que têm lotado os estádios no Catar, é o de ter abraçado a causa palestina, cujo território no Oriente Médio é reconhecido como Estado pela FIFA, mas não pela ONU, devido a pressão de Israel e Estados Unidos.

Após a desclassificação de sua seleção e a de Portugal, os brasileiros vestiram a camisa do Marrocos. Está provado que nove entre dez brasileiros escolhem a cidade de Buenos Aires quando planejam fazer sua primeira viagem ao exterior, mas, nem por isso, sugira a um torcedor da amarelinha dar seu apoio hoje aos “nuestros hermanos argentinos”,

“Pachequismo” e “vira-latismo”

“Acorda Pacheco e vai trabalhar porque o Brasil já está fora da Copa do Mundo”. O fanático torcedor ainda não tinha tomado consciência de que nesta terça-feira, dia 13, sua seleção já havia deixado o Catar. O chamado da mulher desfez o seu sonho. Comércio e indústria funcionarão normalmente; os órgãos governamentais não decretarão ponto facultativo; professores e alunos estarão nas salas de aula; e a campanha de vacinação não será interrompida.

“Pacheco”, personagem desconhecido para os que nasceram neste século, foi criado por uma agência de propaganda um ano antes do Mundial 82 da Espanha, estimulada pelo clima de euforia dos torcedores. Ninguém duvidava que a seleção que tinha Júnior, Falcão, Zico, Cerezo e Sócrates traria o “caneco”.

A Gillette do Brasil abraçou “Pacheco” e até selecionou um dos seus funcionários, o carioca de 40 anos, Natan Pacanowski, para dar vida ao personagem, que, vestido a caráter, desfilava pelo Rio de Janeiro, incentivando os torcedores e promovendo um produto comercial.

Contrariando o técnico Telê Santana, Pacheco (ou Natan) estava presente em toda a programação da seleção, viajando inclusive no mesmo voo para a Espanha e se hospedando nos mesmos hotéis. Medrado Dias, chefe da delegação da CFB, comentou que “Pacheco” estava “aparecendo mais dos que os jogadores”.

Depois dos três gols do italiano Paolo Rossi, que decretaram a eliminação do Brasil, “Pacheco” despiu a fantasia e assumiu sua verdadeira identidade. Decepcionado, trocou os jogadores de futebol pelos cavalos e foi ser comentarista de turfe num rádio carioca. “Pacheco” deixou milhões de descendentes, que a cada quatro anos jogam suas fichas na bilionária seleção brasileira.

O “pachequismo” teve pelos menos a virtude de desmistificar (talvez) o conceito de vira-lata atribuído ao brasileiro pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues, após a derrota de 50, no Maracanã:  “Entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol”, escreveu.

Num ano marcado pelo ódio bolsonarista e religioso – será que vão chamar Sherlock Holmes para descobrir quem incendiou a escultura de Mãe Stela de Oxóssi, em Salvador, quando todos nós sabemos? -, os brasileiros mais humildes, moradores das periferias, que levam dias sem ter o que comer, fazem um esforço e compram no camelô a “amarelinha” da seleção, e ornamentam de verde e amarelo os becos onde moram.

Esse ritual vem se repetindo desde 2006, mas sempre há um time da Europa (pela ordem, França, Holanda, Alemanha, Bélgica e Croácia) para impedir o tão sonhado hexa – o técnico Tite se recusou a fazer amistosos contra seleções europeias -, sob os mais diversos motivos.

A imigração africana e a desvalorização das moedas sul-americanas, principalmente o real e o peso argentino, vêm contribuindo para a evolução do futebol europeu, um cenário que não vai mudar nem a longo prazo. É o velho capitalismo, o mesmo sistema que na Copa de 54 derrubou a Hungria (soviética) diante da Alemanha Ocidental, em plena Guerra Fria.

A terra e a grama dos campos de futebol no Brasil, se procuradas, não seriam encontradas nas solas das chuteiras de 23 dos 26 jogadores que estavam no Catar.

 

 

 

NA PÁTRIA DAS DANCINHAS

Não que esteja condenando as danças (do pombo) dos jogadores brasileiros na Copa do Qatar, mas parodiando o cronista Nelson Gonçalves quando intitulou o Brasil de pátria das chuteiras, vimos mais dancinhas que foco no objetivo principal que seria chegar ao final do campeonato, pelo menos isso. Terminamos na pátria das dancinhas.

Muitos pintaram as cabeças de branco a lá Neymar em formatos de cuia e esqueceram de usá-la para se concentrar melhor nos lances quando o Brasil estava dando um a zero na Croácia. Vão dizer que brasileiro é assim mesmo, mas para que tanta papagaiada?

A Croácia, com mais seriedade e apetite de decisão, terminou dando pipoca para os pombos. O favoritismo repetido tantas vezes pelos técnicos adversários subiu à cabeça da equipe e não deram conta da missão que era ganhar de um país menor que o estado de Sergipe.

Com eles levaram as famílias, mulheres, filhos, netos, sobrinhos, cachorro e papagaio como se fossem a um piquenique ou a uma viagem de férias, como fizeram na África do Sul onde até alugaram casas. Numa competição como esta, os atletas (muitos desconhecidos dos torcedores) precisam é de concentração total e não de distrações, passeios e até folgas.

Tudo começou errado lá atrás em 2018 quando a seleção foi eliminada nas quartas (o Brasil sempre cai de quatro) pela Bélgica e a Globo, na voz do Galvão Bueno (poucos lembram disso), foi a primeira a defender a permanência de Tite como treinador. Ganhou todas dos pernas de paus, até de goleada.

A CBF acatou o grito de Galvão, o polivalente que faz as narrações, os comentários, papel de juiz e ainda a função de técnico dando berros nas jogadas, como passa a bola, pra cima deles, cruza, não faça isso e aquilo. Galvão deve achar que os jogadores ouvem  ele no campo. Montaram uma Central da Copa que se fala de tudo, menos de futebol. Mais parece um programa de humorismo. Talvez o Brasil fosse hexa se colocasse o Galvão como técnico e Tite como narrador.

Foi muita empolgação quando o Tite saiu arrasando os sul americanos nas eliminatórias, competindo com países fracos como Venezuela, Paraguai, Equador, Chile, Peru, Bolívia e Uruguai, com exceção da Argentina, a mais forte.

Foram para o Qatar todos cheios de certeza de que a taça já era nossa e de mais ninguém. Foi fácil passar na fase de grupos. Nas oitavas pegou uma Coreia do Sul cujos atletas só fazem correr como tontos e ainda não aprenderam a jogar futebol.

Fizeram aquela lambança ou dança do pombo, enquanto os outros técnicos e suas equipes estavam nos hotéis concentrados, estudando os movimentos do Brasil em campo para neutralizar as “estratégias” do senhor Tite. Tirando o Neymar, o melhorzinho porque pouco se cuida, o resto dos jogadores é do mesmo nível. Nas substituições, é o mesmo que trocar seis por meia dúzia. Não faz muita diferença.

Com as dancinhas e outras presepadas encheram os torcedores – a maioria entra na onda e pouco entende de futebol – de confiança ao acreditar que o Brasil estava com um time imbatível. Sobrou festa das dancinhas e faltou concentração e disciplina para enfrentar os inimigos na “guerra” da bola.

 

SOS FUTEBOL

SOS FUTEBOL

Carlos González – jornalista

Em 1970, opositores à ditadura militar mostraram ao país que a seleção que conquistou o tricampeonato mundial no México, ao som de “Prá frente Brasil”, era um troféu que o general-presidente Garrastazu Médici exibia para abrandar os efeitos do AI-5. Mais de 50 anos depois,  “patriotários”, financiados por empresários e políticos, que nos últimos quatro anos assaltaram os cofres públicos, receiam que as vitórias do Brasil no Mundial do Catar possam contribuir para o esvaziamento do movimento de caráter golpista.

A proibição transmitida pelas lideranças não chegou aos ouvidos daqueles fanáticos que acreditam até nos deuses do futebol. Assim, como invocaram a ajuda de seres extraterrestres, exibem faixas nos acampamentos pedindo socorro à FIFA. Trata-se, sem dúvida, de mais uma insanidade de um grupo de inocentes úteis, desocupados, que não têm consciência do papel ridículo a que estão sendo submetidos.

Maliciosamente, Eduardo Bolsonaro, após passar por Nova Iorque, onde foi ouvir conselhos dos ultradireitistas Donald Trump e Steve Bannon,  seguiu imediatamente para o Catar, revelando que ia conversar com a cúpula da FIFA, presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, e com as diretorias das 32 seleções classificadas para a XXIIª Copa do Mundo.

Na verdade, o filho 03 de Bolsonaro viajou com a família para assistir ao Mundial, o que gerou forte descontentamento entre os bolsonaristas, incluindo o irmão Carlos. “Dormimos em barracas de lona, muitas vezes passamos fome, e o Edu gozando as delícias de uma Copa feita para os exageradamente ricos.”, comentou um acampado enquanto fazia um “gato” nas imediações do Tiro de Guerra de Conquista.

Copa da Vergonha

 

O Golfo Pérsico, uma área de 251 km2 no sudoeste da Ásia, concentra alguns dos países mais ricos do mundo, com destaque para os que adotam o regime monárquico, se comunicam em árabe e professam o islamismo. Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Oman, Bahrein e Arábia Saudita têm como maior fonte de renda gás e petróleo em seu subsolo. O Irã (potência islâmica, com forte opressão às mulheres) e o Iraque (terra arrasada após invasão americana) completam a lista de países da região.

Antiga aldeia de pescadores, o Catar, que ocupa uma área de 11.610 km2, menor que o Estado de Sergipe, é um país relativamente novo, haja vista que somente em 1971 obteve sua independência do Reino Unido. Sua caminhada até ser considerada hoje como a nação mais rica do planeta teve começo com a descoberta de reservas de petróleo e gás, sob as areias do deserto.

Com um PIB de US$ 179 bi, o Catar deixou de ser uma obscura colônia britânica, transformando-se num país com uma infraestrutura moderna e futurista. Na falta de mão de obra – hoje são apenas 350 mil catarianos numa população de 3 milhões de habitantes – suas fronteiras foram abertas, principalmente para indianos, paquistaneses e egípcios. Calcula-se que há cerca de 800 brasileiros radicados em Doha e outras cidades, desde uma professora de equitação dos filhos da família real até trabalhadores da construção civil.

Nos últimos cinco anos o Catar se tornou um dos principais destinos turístico do mundo, organizando eventos culturais, esportivos e comerciais, mas, nenhum deles, teve mais repercussão na imprensa ocidental do que o Mundial-2022, o primeiro numa nação árabe, enxovalhado por denúncias de corrupção. A partir daí o mundo passou a conhecer o Catar e os seus vizinhos árabes, onde a chamada monarquia absolutista soa como uma ditadura; a se estarrecer com o trabalho semi-escravo imposto aos imigrantes; com a morte de mais 3 mil operários na construção de oito arenas; no desrespeito âs mulheres; nas áreas insalubres destinadas à moradia da classe operária, onde no verão a temperatura chega aos 50 graus; e na condenação e repressão ao movimento LGBT+. Democracia e direitos humanos não foram convidados para a festa do futebol no Catar.

Os catarianos esperam que o Mundial desfaça os estereótipos que o Ocidente revela em relação aos povos árabes e muçulmanos. As autoridades do país qualificam o noticiário da imprensa mundial de “difamatório e arrogante”.

Os “estrangeiros”.

Nos últimos anos, o Brasil tem recorrido aos jogadores que atuam na Europa para compor sua seleção, mesmo porque a “prata da casa” perdeu o brilho. Foi-se o tempo do futebol brilhante das seleções de 50, 58, 62, 70 e 82, quando os clubes do Velho Mundo ainda não haviam aberto suas “janelas” para entrada dos importados. Sair do Brasil virou o sonho de todo peladeiro.

Estudos recentes mostram que 55% dos 360 mil jogadores dos clubes brasileiros inscritos na CBF recebem um salário mínimo, com a agravante de que ficam desempregados antes de chegar ao fim do ano .  Mas, para uma minoria, a realidade é bem diferente: se for bolsonarista tem dívida milionária com a Receita Federal perdoada, ou paga uma conta de R$ 950 mil num restaurante em Doha, sem lembrar que há 50 milhões de brasileiros passando fome.

O que mais chama a atenção nessa XXIIª Copa do Mundo é a evolução do jogador africano, tanto no aspecto conjunto (as seleções nacionais), quanto na presença destacada de seus atletas nas equipes da Europa.  Essa aglutinação Europa-África está comprovada na seleção da França, escalada com cinco ou seis naturalizados, além de Benzema (filho de argelinos) e Mbappé (filho de pai camaronês e mãe argelina).

Na história dos mundiais de futebol pela primeira vez uma seleção da África chega às quartas. Dos cinco países de continente negro presentes no Catar, o Senegal foi às oitavas, mas a melhor campanha, sem dúvida, é a de Marrocos, uma monarquia constitucional, árabe e   islâmica. Os marroquinos, que, ao lado das demais nações árabes abraçaram no Catar a causa palestina, se colocaram entre os oito melhores times do planeta.

Em que lugar do mundo o comércio, às vésperas do Natal, fecha suas portas para que todos possam assistir um jogo de futebol, sem noção de onde fica o Catar. O funcionalismo público ´- a prefeitura de Conquista suspende a vacinação – espera quatro anos por esses dias, quando a pátria calça chuteiras, como diria o jornalista Nélson Rodrigues Amanhã vão todos se queixar de que as vendas natalinas foram inferiores as do ano passado. O torcedor esquece que Bolsonaro deixa um rombo de R$ 400 bi; que continua cortando as verbas da educação e da saúde; que estamos no mapa da fome; e que uma nova variante da coronavírus já faz vítimas.

 

 

 

PALHAÇOS E COISAS DA VIDA

Levantei hoje, ou ontem, sem saber o que escrever – meu exercício diário, além da leitura, é claro – por que são tantos assuntos que nos deixa confuso. A nossa mente é fértil e imaginativa, mas nem tudo na vida pode ser dito e escrito. Até a democracia e a liberdade têm suas regras próprias, inclusive o anarquismo de Prudhon. Fazer o quê, meu camarada, se não somos uma ilha?

Essa politicagem já nos deixa com o estômago embrulhado. Foram quase três meses de papo furado nas emissoras de televisão e rádio, sem falar nas redes sociais entupidas de falsas notícias. Depois entrou essa Copa Maluca do Qatar escravista e machista, misturada com as propagandas de Natal. Confesso que não consigo respirar! Se você tem algo a contestar, bote a boca no trombone!

Ouvi uma música Palhaço, de Nelson Gonçalves, onde a letra diz que a amizade é uma fumaça, que palhaço é todo homem que não sabe envelhecer e se entrega ao desespero, nem compreende que o passado já morreu. Entro com meu contraditório de que ele (passado) nunca morre. Palhaço é todo homem e todos nós que acreditam na mentira e perdoa a traição.

Lembrei também do nosso saudoso filósofo e cronista do cotidiano, Nelson Rodrigues, que nos fala do complexo de vira lata que ainda permanece dentro de todos brasileiros. Ele escreveu sobre a vida como ela é, nua e crua, com seus absurdos. Rodrigues retratou a hipocrisia e o moralismo dessa sociedade onde muitos aparentam ser uma coisa que não é. Foi excomungado por muitos críticos como demônio escandaloso e imoral.

Cada um acorda e levanta de um jeito, na maioria das vezes com a cara amassada para cumprir a mesma rotina da sobrevivência. Uns dormem bem e outros têm pesadelos terríveis de suar o pijama ou a cueca, a camisola ou a calcinha. Tem gente que dorme nu. Uns em silêncio e outros roncam se virando de um lado para o outro. E aqueles que sonham falando? Um perigo dizer coisas comprometedoras!

E quanto ao dia? O pobre já sai de casa mal alimentado pelo salário que recebe, com medo do patrão lhe demitir. Come o pão que o diabo amassou. Nessa roda da vida, o mundo continua a girar. Tenho dúvidas se os terraplanistas pensam assim. Temos mais insatisfeito que satisfeitos com o que faz, mas não existem muitas saídas e escolhas, companheiro. Não se irrite com os falsos boatos que têm suas origens na humanidade. Aliás, é até uma redundância porque o boato já é falso.

O patrão empresário ganancioso acorda com a cabeça cheia de contas e dívidas, matutando como ganhar mais e mais dinheiro. Pior ainda se for o tipo trapaceiro. Uns levam a vida com humor e bom astral, sempre com pensamento positivo. Outros acordam de mau humor que nem falam com os filhos e a mulher, que também tem seus momentos de aperreios porque ela hoje é peça chave dessa engrenagem mercadológica capitalista e selvagem da competição.

Se analisarmos lá no fundo, todos têm um pouco de palhaços e escravos de seus problemas. É a vida como ela é, meu amigo! Encare isso e toque para frente que atrás vem gente. Nos encontros do dia a dia, muitos fazem aquela clássica pergunta: Como está? Sempre se responde “tudo bem”, quando, na verdade, nem está. Ás vezes falo que vou levando a vida e a vida me levando, como diz Zé Pagodinho em seu samba canção.

Não estou me referindo ao palhaço no sentido do profissional, alegre e triste, mas daquele lado profundo existencialista do Jean Paul Sartre que escreveu “Náuseas” e nos faz entrar na fossa (depressão) quando procuramos o sentido da vida, logo ela, a passageira que se vai com a morte. Nos ensinaram sempre a dizer que a vida é bela e vale a pena ser vivida. Será que isso se encaixa em todos viventes?

Lembra daquela frase de que o ignorante é mais feliz que o instruído, o estudioso, o iluminado e o sábio? Será uma verdade? Ela existe como padrão ou cada um tem a sua? Todos os filósofos gregos da antiguidade tinham seus tormentos, fantasmas, demônios e momentos de felicidade. Os brutos também amam e têm seus sentimentos e angústias internas. Somos todos palhaços ou coisas da vida?

Meu amigo camarada, só sei que a vida é assim como ela é, com suas diferenças de altas e baixas, de alegria e agonia, de surpresas boas e decepções de gente que menos se esperava. Quem já não foi palhaço, enganado e iludido que levante a primeira pedra, principalmente em se tratando de brasileiros que têm fama mundial de malandragem e a magia de para tudo dar aquele jeitinho para desatar o nó das coisas da vida.

O VÍRUS DA MEDIOCRIDADE NUM MUNDO FÚTIL E IDIOTA VIRTUAL DA INTERNET

O filósofo e pensador italiano Humberto Eco prognosticou que o advento da internet e a disseminação das redes sociais tornaria o mundo mais imbecil e idiota. Estamos sim, presenciando essa dura realidade onde a mediocridade hoje tem mais valor que a meritocracia e o conteúdo.

Vemos nas redes sociais um monte de baboseiras, besteiras e palhaçadas que viralizam e transformam a futilidade de seus mentores em famosos que ganham as imagens das televisões. Até há poucos dias ouvi falar num tal “Luva de Pedreiro”, um baiano, se não me engano, que saia do seu ofício com o material para pegar no gol de um baba de várzea e fazia suas papagaiadas.

De uma hora para outra o cara se tornou “celebridade” televisa da Globo. No entanto, ele não está só nesse mundo tão fútil e imbecil virtual. Não adianta você fazer um vídeo sério com conteúdo sobre nossos reais problemas que atravessamos porque quase ninguém curte, apenas poucos amigos que lhe conhece.

Para as idiotices, milhões de seguidores. Faça um comendo bosta, titica de galinha, terra, capim ou uma dança maluca com caretices que logo viraliza (de vírus) nas redes! Em pouco tempo o indivíduo terá milhões de curtições e “joinhas”, o que estimula a ele fazer mais e mais mediocridades. Ninguém quer ler mais um texto ou uma poesia, nem que seja um só parágrafo ou uma estrofe.

Agora apareceu um tal de “influenciador digital”! Seria o mesmo que o formador de opinião que é designado para jornalistas sérios que prezam pela responsabilidade da notícia? Não sei, só sei que não vai demorar muito para implantarem o curso de “influenciador digital”, com direito a faculdade e tudo, inclusive com diploma.

Nesse Brasil e nesse planeta, uns poucos milhões devem se sentir como um peixe fora d´água que não se encaixam mais nesse mundo da imbecilidade. A pergunta que vem é o que estou mais fazendo aqui? Estou fora desse espaço. Sou como um ferro velho perdido numa sucata. Muitos perdem o gosto de produzir e até se isolam. Aliás, já são chamados de retrógrados atrasados que não se encaixam mais nesse esquema.

Essa mediocridade da qual eu falo não está somente nas redes sociais das fofocas, dos xingamentos, injúrias, ódios e mentiras. Está em todo lugar do nosso cotidiano. Ela se escancara nas repartições públicos, nos plantonistas da burocracia, nas escolas, nos políticos, entre os jovens atuais que detestam ler, na quase ausência de conhecimentos gerais, na falta de interesse pela nossa história, pela nossa cultura, no desprezo pela memória e na inversão de valores entre o que é o certo ou errado, normal e anormal.

A ideia do levar vantagem em tudo; passar a rasteira nos outros; e achar que ser corrupto também estão na lista das mediocridades que têm suas origens na formação familiar. Quando os pais não dão exemplo, a tendência é que os filhos também se tornem mau caráter e optem pelo desvio de conduta.

A ética, a inteligência, a capacidade e a honestidade estão em desuso e fora de moda. Foram todas engolidas pela mediocridade. O QI (Quem Indica) está acima da meritocracia. O medíocre hoje de fala mansa e todo engomadinho tem muito mais visibilidade e admiração que o desarrumado de conhecimento, mesmo porque ele não é mais entendido.

CINISMO DE UMA CORJA SINISTRA NUM BRASIL SEM ÉTICA E IDEOLOGIA

Até há poucos dias o presidente da Câmara dos Deputados, o Arthur Lira, era visto pela esquerda como um mero puxa saco mequetrefe do capitão-presidente psicopata que enterrou mais de cem pedidos de impeachment contra o chefe da nação. Seu nome é sujo como pau de galinheiro. Foi só terminar as eleições e o PT sair vitorioso para tudo mudar, como se troca de camisa, sem ética e ideologia, coisas raras nesse nosso país.

Basta o barco começar a afundar e a ratazana pula fora para outro mais seguro, caso do histórico centrão mamão. A direita vira esquerda e a esquerda direitona para se agarrar ao poder. É sempre assim que a banda toca. Não existe o mínimo de decência, e as palavras voam aos ventos quando o próprio eleito disse que não iria interferir na eleição do Congresso Nacional. Vivemos e nos alimentamos de mentiras todos os dias.

O Lira agora é o nome dos partidos das bandeiras vermelhas como candidato para permanecer na presidência da Casa. É o cinismo de uma corja sinistra num Brasil sem ideal político onde o eleitor não passa de um metal vil enferrujado que só presta para clicar os números nas urnas.

Eles têm até três aposentadorias, ou mais, como a concedida agora pelo Lira para o capitão, na faixa de 30 mil reais, e ninguém cede um milímetro de suas benesses, verbas de indenização, gabinete, comissões e outros penduricalhos. Todos na fartura unidos para dar um cala boca de osso e pelancas para os mais de 60 milhões, sem projetos para acabar com essa miséria vergonhosa que mancha o Brasil.

Eles fazem seus conluios espúrios para liberar bilhões para o Bolsa Família de seiscentos reais e mais cento e cinquenta para cada filho de até seis anos, mais um estímulo para a procriação de mais bebês que não deveriam vir ao mundo. Os pobres têm uma penca de filhos sem perspectivas de um futuro melhor. Deveria haver um programa de controle familiar.

Quero deixar bem claro aqui que não sou contra socorrer os famintos porque a fome é a pior dor do ser humano. Só quem já passou conhece bem a cara dela. É feia e cavernosa com suas armaduras da morte. No entanto, esse esquema cheira a comodismo e treita de quem tem o interesse de deixar tudo no mesmo para dele tirar proveito no voto lá atrás.

Além do mais, significa decretar a falência fiscal do Brasil, sem falar na inflação que vai correr o mesmo auxílio. Até quando vamos continuar mantendo essas esmolas que só envergonham o cidadão, como já dizia nosso cancioneiro Luiz Gonzaga?

Todos são bonzinhos desde que os desgraçados excluídos não invadam suas mansões e latifúndios. Não existe ideologia de direita e de esquerda, mas ajuntamentos para que as castas permaneçam abastecidas, cada um com seus poderes e mordomias. A ideia é que todos saiam bem na foto com cara de piedosos.

Tudo isso é feito fora do teto de gastos do orçamento. Ninguém até agora apresentou programas alternativos em paralelo de geração de emprego e renda para reduzir essas astronômicas despesas, dando trabalho e autoestima às pessoas. É uma Bolsa Família ad infinitum.

O que o país precisa mesmo é de uma revolução social de base para quebrar de vez esse ciclo assistencialista. Isso só será possível através de educação maciça de qualidade que levará o país ao desenvolvimento e à redução das profundas desigualdades de ganhos. É um sistema perverso que só faz engrossar a ignorância para aplaudir essa corja que há séculos mama nas tetas da população.

AS CONFERÊNCIAS CLIMÁTICAS E A REAÇÃO CONTÍNUA DA NATUREZA

Abordei aqui por várias vezes o blábláblá dos discursos e manifestações das conferências sobre o clima onde os países mais ricos prometem conter o avanço do aquecimento global, mas retornam para suas casas e fazem o contrário do que foi assinado nos planos dos papéis sem valor.

Eles só querem saber de mandar foguetes para o espaço, incentivar o crescimento do deus PIB, o tal Produto Interno Bruto, e pedir a todos que consumam mais, principalmente nessa época do ano com suas festas luxuosas regadas a muitas comidas, bebidas e orgias.

Há séculos que o meio ambiente vem sendo duramente castigado ao ponto de as previsões meteorológicas terminarem em verdadeiros chutes e imprevisíveis porque as mudanças são cada vez mais bruscas. O que tem sido feito em termos de preservação é ínfimo se formos considerar o tamanho do rombo provocado no buraco.

A natureza continua reagindo fortemente, como nos exemplos mais recentes dos deslizamentos de terras, quedas de pontes, de barreiras nas estradas e alagamentos no Brasil nos últimos dias. Só não vê quem é cego ou simplesmente prefere não enxergar, mas a nossa mãe terra está sendo aos poucos destruída.

Como numa maldição ou lei natural das coisas, os pobres (as nações) estão sendo os mais prejudicados e serão os primeiros eliminados. As medidas praticamente isoladas de economia sustentável, reciclagem dos produtos e as campanhas de não jogar lixo no chão não vão deter essa regressão. A conta nunca bate.

No caso específico do Nordeste brasileiro, por exemplo, já foi constado por cientistas que será a região que mais irá sofrer com o aquecimento global, e isso já vem ocorrendo há anos. O planeta está se acabando com as tempestades, as catástrofes e as tragédias e muitos territórios vão desaparecer.

PRAÇA GANHA ORNAMENTAÇÃO ECOLÓGICA E TÚNEIS RETANGULARES DE LUZES

Com mais de um milhão de micro lâmpadas, a Praça Tancredo Neves, em Vitória da Conquista, ganhou uma iluminação ecológica de Natal com caixas de led de 10 metros e túneis retangulares de luzes com mais de 80 metros. É um encantamento para todos os moradores e visitantes que não se cansam de tirar fotos para guardar como recordação.

Desde o ano passado, segundo o coordenador da Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, Alexandre Magno, que os cordões de lâmpadas não são mais colocados nas árvores, uma recomendação do próprio secretário da pasta, Eugênio Avelino (Xangai), de acordo com ele, para preservar o meio ambiente.

“Tivemos, então, que buscar um novo formato com estruturas metálicas visando proteger a fauna e a flora” disse Alexandre. Na verdade, o estilo ficou bem mais atrativo para todas as idades, principalmente a criançada que fica deslumbrada com a nova ornamentação natalina e se diverte o tempo todo.

Logo em frente da Catedral de Nossa Senhora das Vitórias você se depara com um túnel de luzes e outro retangular na entrada da praça na parte superior. Outra iluminação que chama a atenção foi a do monumento erguido em homenagem aos presos políticos baianos que tombaram durante a ditadura militar de 1964.

O presépio em louvor ao Menino Jesus e as fontes de água são os locais mais visitados todas as noites pelas famílias, crianças e jovens namorados que não param de fazer suas selfies românticas para compartilhar com os amigos e até fazer seus álbuns digitais de lembranças.

Há quem arisque um palpite de que seja a praça natalina mais bem ornamentada do interior baiano pela quantidade de lâmpadas e a criatividade de preservação da natureza. Toda essa beleza que introduz as pessoas no sentimento do clima de Natal e final de ano ficará exposta até o dia seis de janeiro quando se comemora a Festa de Santos Reis. Todas as noites o local está superlotado com barraquinhas em torno da iluminação, a qual pode ser vista dos pontos mais altos da cidade.

OS ENDIVIDADOS

Tem aquele consumidor compulsivo como jogador viciado, o que entra na carneirada para não ficar de fora e até é recriminado como mão de vaca por não ter comprado o presente, o necessitado consciente que só adquire o essencial, aquele pobre que tem a mania de imitar o rico e outras espécies de animais irracionais. No final, a grande maioria termina sendo incluída no rol dos endividados.

Dia das mães, dos namorados, dos pais, São João, das crianças, agora a Black Friday e Copa do Mundo, Natal e final de ano funcionam como estouro da boiada. Ninguém resiste às viagens dos feriadões. A família sempre arranja aquele jeitinho do empréstimo e até deixa de quitar a mensalidade escolar do filho.

Basta um tiro ou o rojão de um foguete para o gado sair em disparada. Somente vaqueiros experientes conseguem controlar o rebanho para não cair no abismo. Na corrida, muitas rezes são pisoteadas ou se arrebentam numa ribanceira.

Assim são os endividados, título que poderia se tornar num filme comportamental da sociedade, sobre finanças, numa comédia grega trágica ou até de humor vendo aquelas expressões de desespero e “felicidade” das pessoas nas lojas avançando em objetos e produtos de desejo, todas atraídas pelas propagandas de liquidação, a maioria enganosas. É uma disputa acirrada onde cada consumidor se acha vencedor.

Com as novas tecnologias da internet tem aqueles que acham mais chique e cômodo ficar clicando naquela foto bonita de embalagem exuberante e finalizar a suas compras, muitas com o aviso de frete grátis. Todos acreditam nessa lorota, e aí de quem contestar.

O comprador se acha um esperto que aproveitou a “promoção” e sai contando seu feito para os amigos. Nessa embolada, muitos são vítimas do atraso, da clonagem de cartões e até do calote. Aí o bicho pega, meu camarada! São coisas do mundo moderno que para muitos corresponde a ser feliz e realizado, mesmo que seja por pouco tempo. É a ilusão do imaginário que funciona como a pílula contra a depressão e a ansiedade.

No momento existe a sensação do prazer pessoal para depois entrar na lista dos milhões de endividados. A ressaca vem depois. Aí sua vida vira um inferno de boletos, faturas e papéis na mão com as datas vencidas de pagamento.

Na fase do atraso entra a turma da cobrança ameaçando tornar seu nome sujo na praça ou apreender seu bem móvel. Vem a dor de cabeça, e o devedor parte para os remédios para combater até insônia. É a parte de terror do filme de os endividados. Em cena entra a voz dos economistas para dar aquelas dicas costumeiras para o derrotado.

Não se preocupe, anuncia o credor com a arma da anistia ou o desconto com juros mais baixos. Os lucros do comércio lá atrás com os preços extorsivos e obtidos mediante aqueles que quitaram suas contas abrem espaço para os endividados aliviar seu tormento.

O consumidor fica contente, limpa o nome e parte para outras compras, principalmente torrando seu décimo terceiro salário. É o chamado ciclo vicioso que não acaba nunca. Tudo se repete e a roleta volta a girar. Façam seus jogos que no final uns pagam pelos outros. O único que não perde é o dono da casa.

POR UMA POLÍTICA DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL CONQUISTENSE

Fellipe Decrescenzo A. Amaral 

Ao descrever os aspectos físicos e sociais da ocupação inicial do Arraial da Conquista e da sua evolução urbana, Mozart Tanajura, em seu livro “História de Conquista: crônica de uma cidade”, detalha aspectos muito comuns aos de outras vilas e cidades do período colonial: casas térreas em sua maioria, com paredes feita em taipa ou adobe; presença da Igreja Matriz na principal praça da cidade; desenvolvimento do tecido urbano por meio de um arruamento irregular; bem como a presença apenas esporádica dos fazendeiros na vila.

Adicione-se a isso a modernização de tais residências ao longo do século 19, que recebiam platibandas e ornamentos diversos; a crescente presença de edificações comerciais na paisagem urbana, com sua sequência de portas que denotam o crescimento da própria atividade comercial; e a forma como todas essas edificações eram implantadas, alinhadas às laterais e à testada dos lotes, promovendo-se o contínuo alinhamento das edificações, ainda hoje notado nos centros históricos brasileiros que sobreviveram à sanha demolidora de alguns.

Fotos de Zé Silva

O crescimento exponencial de Vitória da Conquista a partir de meados do século 20, contudo, encontrou uma cidade despreparada para lidar com os problemas daí decorrentes, promovendo-se uma intensa transformação urbana. Esse crescimento se deu, em grande medida, pela consolidação da cafeicultura enquanto uma atividade econômica de peso no município.

Na década de 1970, as políticas do Instituto Brasileiro do Café (IBC) e os recursos do Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agro-Indústria do Norte e do Nordeste (Proterra) contribuíram sobremaneira para a expansão das lavouras de café no interior da Bahia, não somente na região do Planalto da Conquista, mas também na Chapada Diamantina.

No caso dessa última região, entretanto, se suas principais cidades também não estavam necessariamente preparadas para as consequências de um intenso crescimento, pelo menos contaram com importantes ações de preservação do seu patrimônio, possibilitando que chegassem até nós vestígios importantes da sociedade baiana do século XIX, em específico daquela que se desenvolveu em torno da mineração de ouro e diamante.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) instaurou o processo para tombamento de Lençóis em 1971, concluindo-o em 1973, enquanto o de Rio de Contas, iniciado em 1973, foi concluído em 1980. O caso de Mucugê é ainda mais significativo porque a solicitação para que o conjunto fosse tombado surgiu justamente em decorrência da ameaça de demolição de dois imóveis por parte do Banco do Brasil, que chegava à cidade vislumbrando o potencial econômico da cafeicultura e dos demais empreendimentos agroindustriais que se instalavam ali. As discussões para sua patrimonialização tiveram início em 1977, efetivando-se o tombamento também em 1980.

O patrimônio conquistense não teve o mesmo destino. Ao longo das últimas décadas do século XX, assistimos à destruição de muitos dos nossos bens arquitetônicos mais antigos em prol de modernizações que pouco ou quase nada agregaram à paisagem urbana e à cidade como um todo. Isso não quer dizer, contudo, que o discurso da preservação estivesse completamente ausente do debate público.

A Casa da Cultura, fundada na década de 1970, nos parece ter se constituído no principal difusor do debate cultural naqueles anos e, desde maio de 1993, Vitória da Conquista passou a contar com uma legislação específica para tratar da preservação do patrimônio municipal: a Lei nº 707/93, sancionada pelo então prefeito José Fernandes Pedral Sampaio. Diz o seu Art. 1º:

“O Município de Vitória da Conquista procederá, na forma desta Lei, ao tombamento total ou parcial de bens móveis e imóveis, de propriedade pública ou particular, existentes no seu território, cujo valor cultural, histórico, artístico, arquitetônico, documental, bibliográfico, urbanístico, ecológico ou hídrico merecem proteção do Poder Público”.

Define, na sequência, que constituem o patrimônio histórico, artístico, paisagístico e cultural do município “as construções e obras de arte de valor ou qualidade estética, principalmente representativas de determinada época ou estilo; as edificações, monumentos e documentos quando vinculados a fato representativo da história local ou ligado a pessoa de excepcional notoriedade; os monumentos naturais, sítios e paisagens”.

Em 1996, os primeiros bens culturais foram então tombados: a casa do ex-governador Régis Pacheco, que hoje abriga o Memorial Régis Pacheco, a Serra do Periperi e a Lagoa das Bateias. Já em 2000, na gestão do ex-prefeito Guilherme Menezes, foi tombada a sede da Rádio Clube. Não buscamos aqui discutir a atualidade do texto e da sua concepção de patrimônio, mas sim o fato de que há quase trinta anos possuímos um dispositivo para tratar do patrimônio local.

Ao longo dessas quase três décadas não chegou a se constituir, entretanto, uma verdadeira política de preservação do patrimônio cultural da cidade, enquanto as transformações urbanas caminharam em ritmo cada vez mais acelerado. Embora os tombamentos tenham sido realizados por decreto do Poder Executivo, pressupõe-se a existência de um departamento vinculado à Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sectel) para executar uma politica de preservação.

Isso consistiria, dentre outras coisas, na elaboração de pesquisas de identificação para seleção dos bens culturais; no desenvolvimento de estudos para atribuição de valor a esses bens, bem como em sua gestão; além da realização de uma série de iniciativas para promoção e valorização do patrimônio. Um departamento composto por uma equipe multidisciplinar (com a presença de arquitetos e urbanistas), cujo papel seria também o de dar suporte técnico ao Conselho Municipal de Cultura – instância deliberativa acerca dos processos de patrimonialização.

Em 2016, o Ministério Público, por meio da Recomendação 03/2016, pediu providências à Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista (PMVC) quanto à preservação do patrimônio cultural, destacando a inexistência de informações atualizadas sobre a questão e destacando o valor de diversos bens arquitetônicos que até hoje se encontram legalmente desprotegidos. Embora o município tenha regulamentado a Lei nº 707/93 por meio do Decreto nº 18.918/2018 e criado, em 2019, o Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Município, no âmbito da Sectel, não se tem noticia sobre a efetiva atuação desse departamento.

Enquanto isso, acumulam-se as notícias de depredações e demolições de imóveis de interesse histórico e cultural, tornando extremamente atual uma mensagem que o ex-presidente da Casa da Cultura, Carlos Jehovah, escreveu, em outubro de 1993, em um ofício encaminhado ao então prefeito solicitando o tombamento da casa do ex-governador Régis Pacheco: “Mais um atentado à memória de Vitória da Conquista deverá acontecer, ao ritmo dos martelos e alavancas dos demolidores da história, em nome de um nefasto progresso”.

Somente neste último mês de outubro foi noticiada em veículos de comunicação locais a demolição de dois imóveis, localizados na Rua 2 de Julho e na Praça Tancredo Neves. Mas, para além da comoção que tais notícias possam despertar na comunidade conquistense, é preciso destacar que o apagamento silencioso de outros bens e manifestações culturais, não necessariamente de interesse arquitetônico, também fazem parte do cotidiano da cidade.

Não há, por exemplo, ações significativas para a salvaguarda da memória e da cultura indígena, sobrevivente em seus descendentes, que são bens culturais de natureza imaterial de suma importância para a formação cultural conquistense e que necessitam de medidas de apoio para sua documentação, valorização e transmissão. Cito, a título de exemplo, o trabalho com barro desenvolvido pelos indígenas paneleiros-mongoiós. Aí se inserem também os bens da cultura afro-brasileira.

No balanço da gestão que esteve à frente do Conselho Municipal de Cultura entre 2019-2021, publicado no Avoador, menciona-se a realização do primeiro dossiê para tombamento de um terreiro de candomblé, o que corresponde a um avanço duplo: a realização de um estudo prévio ao invés do tombamento de ofício e a seleção de um bem ligado às religiões de matriz africana. Contudo, nem são claras as informações a respeito da consumação do tombamento, nem existe, enquanto o Núcleo de Preservação não receber atenção e recursos do Poder Público municipal, a estrutura necessária para fazer a gestão de um bem cultural dessa natureza, que demanda ações específicas e um olhar cuidadoso a respeito dos valores culturais que devem ser salvaguardados.

Por fim, é imperativo frisar que as ações de preservação ao alcance do município não dependem dos órgãos de preservação estadual ou federal, podendo o Poder Público municipal ser protagonista na preservação do seu patrimônio cultural material e imaterial. Para isso, urge a necessidade de transparência quanto às ações empreendidas e à própria efetivação do Núcleo de Preservação enquanto instância executora de uma verdadeira política de preservação, que encare o ato do tombamento não como o fim em si, mas como uma dentre tantas outras medidas de proteção e valorização dos nossos bens culturais. Quem sabe assim não tenhamos mais que lamentar e sofrer com o constante apagamento de elementos da nossa memória coletiva.

Fellipe Decrescenzo é arquiteto e urbanista. Possui mestrado em Conservação e Restauro pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPG-AU/UFBA). Faz parte dos grupos de pesquisa “Arquitetura Popular: espaços e saberes”, e do “Projeto, Cidade e Memória”. Além disso, atua como docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Independente do Nordeste (FAINOR).

Artigo publicado no site Conquista Repórter

fellipe decrescenzo a. amaral

Arquiteto e Urbanista – estúdio DNZO

Professor Me. – FAINOR

Pesquisador – GP Arquitetura Popular: espaços e saberes | Projeto, Cidade e Memória (PPGAU/UFBA)

 

 





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