UMA HUMANIDADE BRUTALIZADA
Neste domingo estava em casa sossegado tomando uma gelada e ouvindo umas músicas, mas terminei me contrariando por causa de umas cenas de estupidez do ser humano, aquelas que já se tornaram comuns de linchamentos e do querer fazer justiça com as próprias mãos. Confesso que fiquei revoltado com tanta violência consentida como se fosse normal.
Tudo começou na rua “G” – Jardim Guanabara ou Bairro Felícia, quando um rapaz tentou furtar no carro a carteira de um morador. Foram ao encalço dele e próximo à casa de eventos Paradise derrubaram o cara em frente de um prédio abandonado e começaram as sessões de espancamentos e torturas.
Coisa de bárbaros enfurecidos que se dizem cristãos e sempre estão falando e fazendo tudo em nome Deus, como agredir os outros. Um colocou logo o pé na cabeça do acusado (agora virou prática fazer isso) e os outros aproveitavam para dar chutes e porradas. Teve até quem apareceu com uma taca e deram várias chibatadas como nos tempos da escravidão. Um bando de covardes!
Essa brutalidade durou quase uma hora e sempre aparecia mais um para dar sua porrada. Na roda, cerca de dez moradores (muitos vizinhos presenciando da porta de suas casas) com xingamentos e agressões contra o indivíduo pardo de uns 35 a 40 anos.
Não me contive e, para não ser conivente e incoerente com meus princípios o com que prego no que tange aos direitos humanos, fui até lá dizer que eles não podiam cometer aquela brutalidade e fazer justiça com as próprias mãos.
Como já esperava, fui prontamente rechaçado com argumentos fúteis típicos de pessoas ignorantes e brutas, de que logo eu morador da rua estava defendo um bandido. Alguém indagou o que eu faria se fosse a vítima.
Um até foi mais ameno e disse que entendida o que eu estava falando, mas isso não impediu de os brutos continuarem torturando o rapaz. Até um motoboy que passava deu seus ponta pés e porradas. Olhei ao redor e vi rostos raivosos e rancorosos de gente a destilar seus ódios e frustrações pessoais. Cada um ali queria mostrar sua força cavalar. Confesso que até tive medo de também ser agredido. Nessa hora, pensei, nem estão aí se sou ou não um idoso.
Debaixo do pau, o moço já gritava de dores e pedia para parar. Foi quando passou um carro da polícia (alguém deve ter ligado), algemou-o e o colocou no camburão. Foi nesse momento que dois ou três gritaram para os policias darem “um cafezinho” nele, isto é, baterem mais.
Com a deterioração ou degradação do ser humano, é essa própria sociedade hipócrita que incentiva e estimula a polícia ser mais violenta. Ouvi de um do grupo que tem mesmo que matar. A polícia demorou quase uma hora para chegar e tirar o acusado de furto das mãos dos estúpidos ensandecidos assassinos.
É essa a sociedade em que vivemos, fruto de vários governantes do passado que, na falta de educação, criaram monstros. Ela própria não tem a mínima consciência que foi fabricante da bandidagem, da marginalidade, assaltantes, dos traficantes de drogas e sequestradores impiedosos que têm o sangue na boca. Nessa guerra não haverá vencedor. Todos estão sendo derrotados.
Como agora essa sociedade se sente ameaçada, entende que vai combater essa violência com a própria violência, com tanques, fuzis, metralhadoras e mais soldados nas ruas para baixar o cassete. Essa sociedade nem tem o poder de percepção que é ignorante e bruta e que, ao bater no ser humano, não importa se ladrão ou não, está se igualando ao mesmo.
É triste dizer isso, mas nossos corações estão cheios de ódio e intolerância, de racismos, homofobias e desprezo pelo outro. Em nome de Cristo e de Deus partem logo para violência. Tem pessoas que saem da igreja e agridem o primeiro que encontrar, basta não concordar e ser diferente à opinião dele.











