fevereiro 2023
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728  

:: 17/fev/2023 . 22:52

CARNAVAL OU TORTURA PSICOLÓGICA?

Carlos González – jornalista

Um casal deixou na última terça-feira (dia 14), pela manhã, seu confortável apartamento, com vista para o mar e para a Avenida Oceânica, dirigindo-se ao aeroporto de Salvador, onde embarcou num voo às 22 horas. Os dois passageiros tinham um motivo para tomar o intragável “chá de aeroporto”: a circulação de veículos foi interrompida naquela tarde entre o Farol da Barra e Ondina para que milhares de pessoas atendessem ao chamamento do cantor Leo Santana.

Com brigas e prisões de foliões e música de qualidade duvidosa, transmitida por gigantescos trios elétricos, estava desenhado o  inferno para os moradores do Circuito Dodô, mais conhecido como Barra-Ondina. Começou a temporada anual, em sua segunda fase, de tortura psicológica para milhares de pessoas, algumas com mais de 60 anos de residência no bairro.

Inaugurado em 1980, o circuito de 4 quilômetros é o mais procurado pelos carnavalescos de todos os bairros e da periferia de Salvador, assim como pelos turistas. Mas, ao lado dessa legião de fãs de promotores do axé e do pagode, estão os ladrões de celulares,  estupradores (esta semana uma mulher foi violentada dentro de um sanitário químico), vândalos e valentões.

Residente na Barra (nas proximidades do Iate Clube) durante nove anos, no período de Carnaval me sentia como prisioneiro em minha própria casa. Só podia colocar os pés nas ruas pela manhã, porque a partir do meio-dia o Detran fechava o acesso de veículos ao bairro.

No trajeto até uma padaria, o mau cheiro nas ruas era insuportável. Encontrava foliões embriagados, outros dormindo nos passeios, ao lado de sacrificados vendedores ambulantes, obrigados a ficar uma semana ao lado de sua mercadoria, depois de travarem uma batalha na porta da Secretaria Municipal de Ordem Pública, para conseguir licença para trabalhar, mediante pagamento de uma taxa diária de R$10,72.

A primeira fase da seção de torturas é iniciada nos primeiros dias do ano, quando toda a avenida Oceânica é tomada pelos caminhões que transportam o material para construção dos camarotes, alguns bastante refinados, com cabines anexas destinadas ao “descanso” dos convidados.

Após a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma no calendário católico), retratada no Arrastão puxado por Carlinhos Brown, ao qual, nos últimos anos se associaram animadores do Carnaval baiano, é iniciada a terceira etapa da sessão de torturas, trabalho que pode durar 15 dias. É quando aquele casal a que me referi e seus milhares de vizinhos retornam aos seus lares.

Participei de algumas reuniões da Associação dos Moradores e Amigos da Barra (Amabarra), com a finalidade de promover junto aos poderes públicos, notadamente a Prefeitura, a transferência do Circuito Dodô para outro local, sob o argumento de que o Carnaval no bairro só interessava aos proprietários de bares, restaurantes, camarotes e hotéis.

Pressionado, o ex-prefeito ACM Neto, utilizando-se do jornal “Correio”, perguntou, não somente às pessoas que estão sendo torturadas, mas a toda a cidade: “Você é a favor da mudança do Carnaval na Barra para a Boca do Rio? “ . Como era esperado, o “não” venceu com ampla margem. Animadores, donos de trios e camarotes, comerciantes de bebidas e comidas e patrocinadores comerciais, que se disseram prejudicados com a ausência – houve, inclusive, tentativas de desobediência às autoridades sanitárias – da folia nos últimos dois anos, por causa da pandemia, se posicionaram contra os moradores da Barra.

Derrotados e martirizados, associados da Amabarra propuseram não recolher o IPTU deste ano, um dos mais altos de Salvador, como represália ao gestor do município. Como não há solução governamental para o problema, nem a longo prazo, quem dispõe de condições faz a mala e foge.

O aumento da poluição sonora, acima de 85 decibéis, afeta, segundo cientistas e especialistas, os sistemas nervoso e cardiovascular, além de perda de audição, principalmente  dos idosos.

 

 

O HUMANO “MODERNO” DESUMANIZADO

Um mauricinho rico esnoba num recinto de uma lanhouse que não entendia como ainda nos tempos de hoje tem gente que não sabe o que é e como fazer um QR Cote ou não tem o PIX.

O pobre ao lado escuta o papo e pergunta se ele sabe como se faz a farinha, um cuscuz de milho, uma farofa ou uma rapadura. Ainda se ele imagina o que é ter fome, se os jovens de hoje respeitam os idosos ou as pessoas diferentes.

O moço metido a sabichão dos truques da internet e do mundo virtual, fica calado e meio envergonhado. Nada mais se falou sobre os golpes nessa terra que não é de ninguém, embora os “especialistas” digam que os golpistas são investigados e punidos de acordo com as leis dessa nova mídia devoradora de humanos.

Vivemos num mundo “moderno” desumanizado onde os pais dão mais atenção ao cachorrinho de raça do que aos seus próprios filhos. A mãe chega cansada do trabalho ou do salão de beleza e mal pega sua cria para fazer um carinho. Brada com a babá que ainda não colocou o menino ou a menina para dormir. Ela só quer estirar as pernas no sofá e clicar no celular.

Dia desses um pai matou acidentalmente seu próprio filho na garagem dando a ré em seu carão de luxo. Se não sabia onde estava a criança é porque nem se despediu dela diante de tantas preocupações, problemas e a pressa pela corrida do ouro, aliás do dinheiro. O tratamento entre o cãozinho de estimação e o humano se inverteram. Será que o cão seria acidentalmente esmagado nas rodas do seu possante?

Nos dias atuais, muitas vezes aparece no noticiário que uma mãe ou o pai esqueceu o bebê trancado dentro do seu próprio carro, mas ninguém deixa um celular para trás. Os imbecis dirigem com o aparelho na mão ou o coloca entre as pernas e nunca deixa sua peça idolatrada no banco.

Muitos têm filhos como obrigação matrimonial ou para cumprir uma norma social. Coisas de aparência e vaidade! Logo que mulher e homem se casam, lá vem a sogra ou o sogro para cobrar uns netinhos.  Nos acomodamos numa sociedade das aparências e da procura pela felicidade passageira através das compras num shopping.

Atualmente se diz depois eu te ligo, depois eu falo com você, depois lhe mando o pedido, depois faço aquilo. A conversa com o filho é sempre adiada porque o pai ou a mãe acha que tem algo mais importante para resolver. Os contatos, que não sejam por interesse monetário, se dissolvem como sonrisal na água.

Amigos só no copo num barzinho para passar o tempo, numa festa ou curtição de final de semana. Quando o cara está montado numa grana é como um imã para atrair gente e dar uns tapinhas nas costas. É um tal de dizer você é meu amigo-irmão. Foi-se o tempo onde o amigo era certo nas horas incertas.

NA ESPERA DA GRAÇA

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS

Não são textos pandêmicos, mas, em sua maioria foram inspirados durante o período da pandemia da Covid-19 quando as pessoas estavam todas na espera de uma graça.

A obra “Na Espera da Graça – Entre Engaços e Bagaços” será lançada no próximo dia 3 de março, na Casa Regis Pacheco (Praça Tancredo Neves), às 19 horas, com apoio da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.

Com apresentação do professor Itamar Aguiar, trata-se de um conjunto de textos poéticos, ou versos, com uma pegada do agreste nordestino que fala desse povo sofrido, mas também aborda questões políticas, filosóficas, sociais, amor, dor, saudades e o cotidiano da vida.

O título foi exatamente inspirado numa letra musicada pelo companheiro músico, cantor, poeta e compositor Walter Lajes, em sua viola mágica e apresentada em diversos festivais.

Outros versos da obra também foram musicados por artista locais e do Nordeste, como Edilsom Barros, de Fortaleza (A Dor da Finitude) e Antônio Dean, de Campina Grande (Lembro Ainda Menino e Minha Filha Cintia). Na obra, outras letras foram musicadas por Papalo Monteiro e Dorinho Chaves.

Outros poemas foram gravados em vídeos com minha esposa Vandilza Gonçalves e meu amigo José Carlos D´Almeida, que resultaram em dois curtas metragens, um dos quais premiado pelo edital da Lei Aldir Blanc, lançado pela Prefeitura Municipal através da Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel.

Para finalizar, o livro contém o capítulo “Entre Engaços e Bagaços”, um épico sobre o nosso resistente Nordeste onde destaca os costumes, cultura e hábitos do nosso povo na fala e na escrita dos principais personagens escritores e poetas, relatos que podem ser transformados numa peça teatral.

Este é o quinto livro do jornalista e escritor Jeremias Macário que já lançou “Terra Rasgada”, “A Imprensa e o Coronelismo”, “Uma Conquista Cassada” (seis em um) e “Andanças” (dois em um). “Na Espera da Graça” são textos poéticos inéditos e impactantes para o leitor refletir, criticar e divulgar entre amigos, parentes e familiares.

 

“FLUXO E REFLUXO” VIII

OS EMBAIXADORES DA COSTA DA MINA OU A SOTAVENTO (GOLFO DO BENIN) NA BAHIA, PARA ESTREITAR RELAÇÕES COMERCIAIS E APAZIGUAR CONFLITOS, INCLUSIVE DE INVASÕES DE FORTES.

Entre 1750 e 1811ocorreram quatro embaixadas na Bahia pelos reis do Daomé, de Onim (Lagos) e um do rei de Ardra, para reatar as divergências nos portos entre os diretores dos fortes, capitães dos navios, os traficantes negreiros e incrementar os negócios. Na época, os baianos Francisco Félix de Souza e João Oliveira eram os maiores e mais famosos traficantes.

O livro “Fluxo e Refluxo”, do etnólogo e fotógrafo Pierre Verger dá ao leitor todos detalhes destas missões, com cerimonial rebuscado, sendo que a primeira, em 1750, foi rica, pomposa e inusitada que movimentou os moradores da capital pelo ritual que foi preparado pelo vice-rei para receber os enviados do Daomé, com trajes e costumes exóticos.

Uma das embaixadas foi provocado por um tenente do forte português de Uidá, com fins de prejudicar o seu diretor. A de Onim, um subterfúgio utilizado por um capitão negreiro para salvar uma carga de tabaco em deterioração. Tudo isso mostra a vontade dos reis africanos em manter ligações comerciais entre seus países e a Bahia.

A primeira foi do rei Tegbessu depois de incidentes que resultaram na destruição de um forte pelas tropas do monarca do Daomé, com a consequente expulsão do diretor João Basílio e de um reverendo, em 1743. Seus embaixadores ficaram hospedados no Colégio da Companhia dos Jesuítas (hoje Terreiro de Jesus). Os mensageiros do outro rei, Aganglô, ficaram no Convento dos Franciscanos.

Os reis do Daomé queriam praticamente exclusividade dos negócios em seu porto de Ajudá com a entrada livre de quatro a cinco navios de uma só vez, só que isso tornava alto os custos dos cativos no regateamento das mercadorias, e as embarcações demoravam mais tempo no porto deteriorando os produtos e escasseando os mantimentos.

Em 1747, Lisboa declarava que seria justo que o régulo africano sofresse algum castigo para ter mais respeito com a nação portuguesa. Os negociantes da Bahia concordavam castigar o “bárbaro”, sem prejudicar as extrações de escravos, que são tão necessários para as obras do Brasil. No entanto, existiam outros portos (Badagri, Novo Porto e Onim) como opções, mas os conflitos e intrigas eram parecidos.

Em 1750, o vice-rei da Bahia, Luiz Peregrino de Ataíde, Conde de Atouguia, dizia que não existia nenhum meio de intimidar os negros do Daomé. Não falta outros portos nesta costa, mas serviria somente para experimentar os mesmos inconvenientes, insultos e incivilidade de semelhantes régulos-declarava. Os interesses eram facilitar a compra dos escravos e dar saída à venda do tabaco de terceira qualidade, que só tinha saída para o Golfo do Benin.

Os relatos de Pierre Verger sobre essas embaixadas foram baseados nos escritos de José Freire de Monterroio Mascarenhas. Afirma o autor da obra que o vice-rei se mostrava mais reservado e reticente em suas relações com o enviado de Tegbessu, de acordo com os documentos existentes nos arquivos da Bahia e de Lisboa.

Todas as despesas foram pagas pela Fazenda Real da Coroa Portuguesa. Foram oferecidos preciosas colchas e pavimento de finíssimas esteiras, cadeiras de espaldas magníficas e cobertores de tela carmesi.

A primeira embaixada trouxe presentes da sua terra, escravos e quatro negrinhas de 10 anos nuas ao modo da sua terra para o vice-rei e o monarca D. João V. Eles eram chamados de gentis-homens. Nas vestimentas, além dos turbantes, rolavam muito ouro nas vestimentas.

“A esta grande novidade, descrevia José Mascarenhas, nunca vista no Brasil, começou a concorrer gente de toda parte, e o embaixador, para evitar embaraço que podia fazer-lhe o concurso de tanto povo, disse pelo seu intérprete aos portadores do Palenquin e cadeirinhas que apressassem o passo e chegaram com maior brevidade à portaria do Colégio. Foram recebidos com salvas de tiros e honras dos oficiais e vassalos do vice-rei”.

Na audiência da primeira embaixada de 1750 achava-se o palácio todo bem armado. O vice-rei estava debaixo de um rico docel  assistido de todo corpo do Senado e toda nobreza da Bahia, sem se ver outra coisa mais que vestidos ricos e de bom gosto, tudo galhardia, tudo pompa. Era grandiosa a comitiva dos embaixadores, tanto que atraiu gente de toda parte da cidade. O escritor José Mascarenhas se esmerou nos mínimos detalhes desses encontros.

Aconteceram ainda na Bahia as visitas dos enviados do rei de Onim (Lagos), em 1770, na época em que o traficante João Oliveira retornava de Benin e foi preso por ter embarcado num navio onde existiam mercadorias contrabandeadas de um particular.

Uma outra missão ocorreu em 1795 mandada pelo rei do Daomé, Agonglô. Esta embaixada foi provocada pelo tenente Francisco Xavier Álvares do Amaral, no reinado da rainha D. Maria de Portugal, para incriminar o diretor do forte Francisco Antônio da Fonseca e Aragão.

As cartas endereçadas ao vice-rei podem ter sido escritas pelo tenente e pediam exclusividade do tráfico do Brasil para Ajudá. “Garanto à V. Exa. que nenhum dos capitães sofrerá perdas em meu porto, e que podem levar seda, ouro trabalhado e prata sob a forma que queiram, em obra ou peso. Para isso, lá tem cativos em excesso e mais daqueles que se vendem contra o tabaco e aguardente, como sabem aliás os capitães”.

O governador da Bahia, Fernando José de Portugal, escrevia à sua majestade de Portugal ser impraticável o comércio privativo do Porto de Ajudá, como pretende o rei do Daomé. Explicava que concorrendo cinco ou seis embarcações nos portos da Costa da Mina, se forem obrigadas a fazerem as negociações somente em Ajudá, hão de sofrer detrimento, não somente pela demora que irá arruinar o tabaco e consumir os mantimentos para o retorno da viagem, como também porque o potentado aumentará o preço dos escravos devido a grande demanda. Não terão os mestres dos navios liberdade para escolher os escravos e serão obrigados a aceitar os que lhe quiser dar o potentado, pelo preço por ele arbitrado – advertia o governador.

O governador ainda lembrava que todos os mais portos daquela Costa se resgatam os escravos por menor número de rolos do que no Porto de Ajudá, não devendo ser privados dessa comodidade nem os que se empregam neste comércio, de tanto risco e despesa, nem igualmente da utilidade de comprar o melhor preço os escravos nos outros portos. Chamava o potentado Dagomé (Daomé) de ambicioso e soberbo e que na Costa ainda reina muita barbaridade e grosseria.

Em março de 1795, o rei do Daomé escrevia à rainha D. Maria I de Portugal apelando para uma boa união e paz e solicitava que seu porto fosse frequentado pelas embarcações portuguesas, para lucro tanto dos vassalos da rainha como dos meus, e que nossos tesouros cresçam e aumentem. Sobre o diretor Francisco da Fonseca e Aragão afirmava que ele não cumpria com suas obrigações e estava preocupado em aumentar somente suas finanças. Eram como funcionavam as intrigas no tráfico negreiro.

Pierre Verger destaca que, além desses embaixadores, numerosos africanos livres iam para a Bahia, seja para entregar-se ao comércio, ou para receber educação, inclusive filhos de reis e rainhas, muitos até sequestrados para este fim.

 

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia