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“O RESTO É MAR/É TUDO QUE NÃO SEI CONTAR” (Música “Wave”, de Tom Jobim)
(Chico Ribeiro Neto-jornalista)
Restou um homem ainda cheio de carinho e muita vontade de acreditar, no ser humano, na força do coletivo e na grande arma da paz.
Um cara com qualidades e defeitos, mas a poesia junta tudo e nos joga num grande lago cercado de verde e crianças brincando nas margens. A gente costuma mentir um pouco quando fala de si mesmo.
Aos 74 anos, acho a pior coisa do mundo um velho que não acredita mais em nada. Creio na vida, na natureza e em nossa imensa capacidade de criar. Só se muda e fica vivo através da criação. Aposentado, se não escrevesse pelo menos uma crônica por semana eu já tinha morrido (ou ficado maluco). Um dos momentos mais felizes da minha vida é quando, aos domingos, toco no comando PUBLICAR no Facebook e posto minha nova crônica.
Disse Fernando Pessoa: “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”.
Quero um dia ter fôlego e inspiração para escrever um romance. “Haja assunto”, dizia um amigo meu. O pior deve ser escrever o final. O início também é uma luta, e o resto vai saindo. Tem gente que decide se compra ou não um livro depois que lê as primeiras linhas. Nunca esqueço o que me disse um antigo vendedor da Livraria Civilização Brasileira: “Se tivesse mais tempo eu ia ler muito mais”.
Resta um homem que renasce com as manhãs, que adora caminhar, ouvir música e passarinhos, estar com a família e amigos e tomar cerveja. Não sou muito paciente, mas ainda consigo ouvir até o final a música “Eduardo e Mônica”, de Renato Russo. Não tenho paciência é pra torneira pingando nem pra fila de espera em restaurante.
Fiz jornal durante mais de 40 anos. Nada se parece mais com a vida. Como na vida, ninguém quer ler a edição de ontem. A cada manhã tem uma nova edição. Jornal é isso: mal acabou de imprimir a última edição e você já começa a preparar a próxima. Uma vez um taxista me perguntou: “Onde é que vocês acham tanta notícia pra encher tanta página?” Outra coisa aprendi na minha vida profissional: todo chefe que xinga e dá murro na mesa esconde uma incompetência.
Hoje é triste ver o jornal encalhado nas bancas servir para o cocô do cachorro ou para embrulhar peixe. Outro dia vi um cartaz numa banca: “Vendo jornais velhos”.
Resta um homem do signo de Gêmeos com ascendente em Peixes, cheio de lembranças da infância, dos amores e dissabores, das conquistas e perdas, dos beijos e das agressões, dos pecados e dos perdões, dos adeuses e dos senões, das friezas e dos tesões, dos sins e dos nãos. Resta um homem ainda com uma grande capacidade de amar e de se indignar.
Resta um senhor sentado numa pedra da Praia do Unhão olhando o mar, coração tranquilo. “Esse é o meu melhor advogado”, me disse uma vez uma senhora apontando para o mar no Farol da Barra, e explicou: “É só olhar pra ele que resolvo tudo”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
ENTRE A DESTRUIÇÃO DO MEIO AMBIENTE E A PRESERVAÇÃO, A CONTA NÃO BATE
No momento em que se planta uma árvore, milhões estão sendo derrubadas e queimadas no planeta. O mesmo acontece entre um saco de lixo recolhido numa praia com o que se joga no mar e outras partes da terra. Depois de realizar essas ações generosas, muitos pegam seus carros e vão consumir porcarias nos shoppings.
Pelos séculos de estragos que já cometeram contra o planeta e que ainda cometem, com mais violência ainda, essa conta entre a destruição e as ações de preservação nunca fecha e nem empata. Por isso que, na minha visão racional e lógica, para muitos, pessimista e negativa, não existe mais retorno para o fim.
Na semana passada estava assistindo uma reportagem feita em países da Europa, cujas imagens são chocantes, onde a equipe jornalística mostrava pessoas se banhando para se refrescar do calor de mais de 40 graus, labaredas lambendo as florestas e povoados, o gelo se derretendo nos alpes, o mar revolto e vendavais nos Estados Unidos.
Como nos filmes apocalípticos, bateu logo em minha cabeça que a ficção se tornou realidade. Pela evolução da tecnologia, somada ao aumento do consumismo, as guerras e ainda o uso de combustíveis fósseis, o meio ambiente tende a se exaurir, decretando a destruição do nosso planeta.
Ao invés de investir no combate à fome e na preservação da natureza, os bilionários estão mais interessados em cagar e mijar no espaço em seus foguetes planetários. Para estar sempre lucrando e incentivando o consumo, a indústria não fabrica mais produtos duradouros e resistentes como antigamente.
A duração de vida de um fogão, uma geladeira ou qualquer aparelho eletrônico tem que ser curta, e logo começam a dar defeitos que não compensam mais serem consertados nas oficinas. A única saída é devolver aquilo para o meio ambiente e comprar outro bem.
Ah, muitos falam no processo de reciclagem de papelões, latas, garrafas e aproveitamento de sucatas e peças no uso de artes, mas isso é ainda insignificante se compararmos a ação agressiva e predatória do homem. Nos tornamos vândalos da nossa própria casa. É uma equação que nunca fecha, e a destruição sempre leva vantagem numérica
Nas campanhas de conscientização se ouve muito falar em preservação para que as novas gerações vivam num planeta menos poluído, com uma melhor qualidade de vida. Nas entrevistas em público cada um fala isso, mas lá na frente, tudo é esquecido e lá se vai uma ação contrária com o que se pregou.
Pelo andar da carruagem, esse ideal de reverter o quadro está longe de ser alcançado quando vemos nossos rios secarem e a temperatura só elevar. Dentro de mais 30 ou 50 anos, só enxergo o pior, com mais sofrimentos, tragédias, catástrofes e mortes. Oxalá que essa visão sombria esteja errada.
VAMOS REPETIR OS MESMOS ERROS?
Para o bem do Brasil e o fim dessa polarização extremista odiosa, imbecil e irracional, o ex-presidente Lula não deveria ter saído candidato. O PT poderia ter feito um mea culpa dos seus erros; ser mais humilde; e apoiar outro nome de esquerda no comando de outras lideranças com menor rejeição, sem essa personificação decrépita que só divide.
Aliás, se houvesse espírito de desprendimento, o que não existe na política, os dois poderiam fazer um pacto para unir o que foi rachado, e não entrarem nessa corrida, dando lugar a outros. Essa decisão se tornaria um marco histórico, e ambos seriam até glorificados pela população, mas tudo isso não passa de uma ilusão.
A raiva continua estampada nas redes sociais com suas fake news de ambos os lados, num país tão carente e de milhões de famintos sobrevivendo de esmolas, as quais não lhes devolvem a esperança. Estamos caminhando para a mesma burrice de 2018 e, quem vai levar a pancada, é o país, que continua sendo um desastre lá fora, alvo de piadas e comentários negativos.
De um lado um psicopata aloprado de ideias nazifascistas que não tem nenhum sentimento pela vida, falando de pátria e família, uma que ele destrói dia a dia e a outra coligada com milicianos violentos e corruptos. O que será do nosso Brasil? Vamos virar uma nação nazista latino-americana?
Do outro, um condenado pela Operação Lava-Jato que a própria Justiça (Tribunal Superior Federal) se encarregou de anular, mas as coligações com gente suja, os malfeitos e as trambicagens para se manter no poder nunca vão deixar de fazer parte da história. O “nós contra eles” criou um ambiente de raiva e cegueira.
Ninguém que parar para refletir. Os petistas partem para o linchamento e vão dizer que você é um direita retrógrado que está do outro lado. Acontece também o contrário. Na verdade, cada um só está pensando em tirar proveito da situação.
Com essa mistura indigesta de fanatismo e radicalismo cego, quem mais padece é o Brasil doente, cuja democracia, que não é a ideal, mas ruim com ela, pior sem ela, vive sob ameaças constantes do próprio mentor de uma ditadura, de militares cavernosos e seguidores terraplanistas medievais.
Assim caminha o nosso país que há anos não consegue encontrar o fundo do poço para começar a emergir das profundezas dos males, e começar a viver outra vida de união para reconstruir tudo aquilo que virou ruínas. Será uma maldição dos anjos?
O povo quer dignidade, reconciliação, direitos perdidos, alimento no prato, emprego e crença num futuro melhor, mas, infelizmente, está cego pela ignorância e sendo manipulado para destilar mais ódio, na base de uns contra os outros, do ferro a fogo, sem perceber que está sendo levado para o próprio suicídio.
Depois do mal praticado, engana a si próprio e sai por aí dizendo que não tinha opção para votar, como aconteceu em 2018.Se o passado e o presente estão condenados, a saída não seria seguir em frente para lutar por mudanças?
Mais uma vez vai prevalecer a burrice? Nem um, nem o outro, seria a resposta para defenestrar de vez esse ódio canino. Fale isso para os petistas e você será imediatamente linchado, xingado como de direita retrógrada e que está apoiando o outro maluco. Acontece também o contrário. Durma com um barulho desse!
UMA INDEPENDÊNCIA QUE NÃO NOS LIVROU DA ESCRAVIDÃO E DA POBREZA
AS SEMELHANÇAS SOCIAIS DOS 200 ANOS ATRÁS PERSISTEM NA ATUAL SOCIEDADE EM QUE VIVEMOS. AS DESIGUALDADES CONTINUAM PROFUNDAS COMO FERIDAS ABERTAS QUE AINDA NÃO CICRATIZARAM. O QUE TEMOS A CELEBRAR NESSE BICENTENÁRIO?
“O novo país independente nascia empanturrado de escravidão. E assim permanecia até quase o final do século XIX. Homens e mulheres escravizados perfaziam mais de um terço de toda população, estimada em quase 4,7 milhões de habitantes. Outro terço era composto por negros forro e mestiços de origem africana, uma população pobre, carente de tudo, dominada pela minoria branca e que sequer seria contada entre os cidadãos, ou seja, brasileiros aptos a votar, serem votados e decidir o futuro do novo país. Os indígenas, a esta altura já dizimados por guerras, doenças e invasão de seus territórios, sequer apareciam nas estatísticas”.
Este texto narrado pelo jornalista e escritor Laurentino Gomes, no terceiro volume de “Escravidão” registra o cenário da época da independência, em setembro de 1822. As descrições se encaixam na atual realidade de 200 anos atrás. Ele ainda fala do Calabouço, uma empresa do Estado, onde os escravos eram para lá levados e açoitados. Naquela época, os negros eram presos pelos motivos mais banais como andar na rua “fora de horas”, comportar-se como suspeito, demonstrar “atitude estranha” ou simplesmente estar parado numa esquina.
Para os pobres e desvalidos da sociedade que têm seus direitos violados todos os dias, nada mudou depois de 200 anos. A nossa polícia é violenta, a escravidão, inclusive a trabalhista, continua de outra forma mais sofisticada, e o Calabouço, um lugar sujo, fedorento e macabro como nos tempos medievais, foi substituído pelas cadeias e penitenciárias superlotadas onde são amontoadas as camadas mais miseráveis, vítimas de uma sociedade que lhe virou às costas, negando educação, saúde e saneamento básico.
Do contingente dos indígenas que há 200 anos eram dizimados por doenças e guerras, sobraram algumas aldeias ameaçadas de serem expulsas de suas terras pelos garimpos clandestinos, sem contar que crianças e idosos estão morrendo por falta de assistência médica, que o Estado, por obrigação, deveria proporcionar a essa gente. O quadro não mudou. Talvez, se formos comparar alguns dados, até piorou porque lá fora o nosso país é visto com de selvagens, com pena e vergonha.
Portanto, o que temos a comemorar nesse bicentenário, quando as florestas estão ardendo em fogo e o nosso meio ambiente sendo destruído? Vamos celebrar a evolução industrial e as novas tecnologias eletrônicas, ainda atrasadas e provincianas em relação a outras nações desenvolvidas? Uma festa verde-amarela de muitas pompas, desfiles militares, tanques, soldados, e civis nas ruas, tremulando suas bandeirinhas, não vão apagar nossas mazelas que são muitas e negativas. Ainda não vivemos uma democracia ideal que é manchada pela fome de mais de 30 milhões de brasileiros, sem falar nos 12 milhões de desempregados.
No sete de setembro de 1822, a escravidão era, na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência, um cancro que contaminava e ruía as entranhas da sociedade brasileira. O racismo persiste como um cancro, e 200 anos depois ainda estão discutindo a questão da cor da pele e odiando uns aos outros, numa nação dividida pelo preconceito e a discriminação. As leis foram feitas para proteger os poderosos que ficam sempre impunes pelos seus crimes de corrupção e ladroagens.
O mais contraditório nisso tudo é que os índios e os negros foram os que mais lutaram para consolidar essa independência, caso da Bahia em 1823, e depois foram excluídos do processo de inclusão. O Brasil foi o último país do ocidente a abolir o regime escravista, depois de Cuba (1866) e Estados Unidos, em 1865, depois de uma guerra civil que resultou na morte de 750 mil pessoas. Em nosso país, a marcha foi bem lenta, começando em 1850 com a Lei Eusébio de Queiroz pondo fim ao tráfico negreiro, que não era cumprida. Em 1871 foi proclamada a Lei do Ventre Livre, e em 1885, a do sexagenários. Por fim, a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888.
“Os ex-escravos e seus descendentes foram abandonados. A segunda “abolição” defendida por muitos abolicionistas, jamais aconteceu. O Brasil nunca se tornou uma “democracia rural”, mediante uma reforma agrária, como preconizava André Rebouças. Jamais educou, deu moradias, renda e empregos decentes, como propunha Joaquim Nabuco. Nunca promoveu os negros e mestiços brasileiros à condição de cidadãos plenos, com os mesmos direitos e deveres assegurados aos demais brasileiros, como desejavam Luiz Gama e José do Patrocínio” – destaca Laurentino em suas obras.
O autor diz mais ainda, que tanto os negros quanto os indígenas foram e continuam vítimas de um processo sistemático de genocídio, na forma definida por Abedias Nascimento. Como também assinalou Florestan Fernandes, o escritor de “Escravidão” concorda que esse processo de genocídio começou no passado e permanece em andamento no presente. “Da escravidão, no início do período colonial, até os dias que correm, as populações negras e mulatas têm sofrido um genocídio institucionalizado, sistemático, embora silencioso” – escreveu Florestan.
POR QUE AS IGREJAS FICARAM FORA?
Nas manifestações desta quinta-feira (dia 11/08) em defesa da democracia e do estado de direito, culminando com a leitura de uma carta aos brasileiros no salão nobre da Universidade de São Paulo, no Largo do São Francisco, por que as igrejas, principalmente a Católica, ficaram de fora?
A mídia passou batida neste questionamento. Gostaria de saber se os criadores do movimento tiveram algum propósito em deixar de fora representantes das igrejas, que não são poucas por esse Brasil, onde a Constituição protege a liberdade de religião? Elas são também as maiores interessadas.
Lá estiveram juntos, inclusive nas ruas e praças, o capital e o trabalho, empresários e operários, estudantes e professores, negros e brancos, todos os gêneros, jovens e idosos, estes testemunhas e vítimas da ditadura civil-militar de 1964, mas as religiões não foram, pelo menos, citadas.
Por que o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), pastores de diferentes igrejas e correntes evangélicas, mães e pais de santo do candomblé, babalorixás, islâmicos, judeus e outras religiões não se fizeram representadas nos discursos e pronunciamentos?
Será que são contra a democracia e o estado de direito? Todas estão ao lado dos negacionistas e concordam com as fake news de fraudes nas eleições? Creio que não é o caso. Alguns até são extremistas, mas não expressam a vontade do “rebanho”.
É verdade que existem muitos líderes de igrejas que compactuam com essa trama diabólica golpista, mas a maioria não comunga mais com essa ideia maluca, e nem está mais ao lado dessa psicopatia comandada pelo capitão-presidente.
Sabemos e está registrado na história que em 1964, a Igreja Católica, que mais tarde se arrependeu e até combateu, foi um dos segmentos da sociedade que se posicionou a favor do golpe militar de 1964, imposto na base da força dos tanques, do fuzil e da metralhadora em plena Guerra Fria onde o comunismo era tido como demônio e inimigo maior.
No entanto, a realidade hoje é totalmente diferente, e a grande maioria das instituições religiosas está ao lado da democracia e a favor das eleições livres, mesmo que o sistema eleitoral vigente seja cheio de falhas e buracos onde os poderosos se infiltram para se perpetuar no poder.
A verdade é que ficou um vazio na representatividade das igrejas, de modo a consolidar o processo de repúdio a qualquer intervenção militar e fechar o círculo de que toda comunidade civil brasileira está unida num só pensamento, o de ir à luta, se preciso for, para impedir um possível golpe na democracia e no estado de direito.
CONSELHO IMPULSIONA A CULTURA EM CONQUISTA
Carlos González – jornalista
Um ano de trabalho foi o suficiente para que o conquistense observasse que o esforço de um pequeno grupo de voluntários, eleitos em agosto passado para compor o Conselho Municipal de Cultura, deu um impulso num dos ramos mais importantes da política social de qualquer administração pública. A pandemia e o empenho de um governo inteiramente voltado para a reeleição – Cultura, deve ter pensado o gestor, não dá voto – contribuíram para o estado de abandono dos artistas da região.
Na gestão passada, de influência bolsonarista, as atividades culturais em Vitória da Conquista ficaram praticamente limitadas às apresentações da Neojiba, um núcleo de formação de orquestras infantis e juvenis vinculado à Secretaria de Justiça do Estado.
O tratamento dado pelo ex-prefeito Herzem Gusmão (1948-2021) à cultura, dentro da mesma linha do governo federal, com nítido viés evangélico, não traz boas lembranças à classe artística de Vitória da Conquista. Bolsonaristas fanáticos defendiam a queima dos livros do educador Paulo Freire (1921-1997) e do escritor Monteiro Lobato (1882-1948) e modificavam fatos históricos inseridos nos livros didáticos, como por exemplo a ditadura militar (1964-1985).
Manifesto assinado por artistas, intelectuais, políticos e cientistas denunciou na época a “escalada autoritária” do governo Bolsonaro, considerando-o como ultraconservador, colocando-se como censor de livros e de filmes, e dificultando o acesso da ciência às pesquisas nas universidades
Com uma visão menos conservadora, a prefeita Sheila Lemos tem reservado para a cultura parte da sua agenda de trabalho. Depois de nomear para a Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sectel) pessoas que não estavam preparadas para o cargo, a gestora foi buscar um nome ligado à música sertaneja de raiz, o cantador Eugênio Avelino Lopes Souza, popularmente conhecido pelo nome artístico de Xangai. Há mais de 50 anos ele divulga a música nordestina nos palcos e festas populares por todo o Brasil.
Frasista, o romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) manifestou certa vez ser “a favor da internacionalização da cultura, mas não acabando com as peculiaridades locais”. Na abertura de seu discurso de posse, proferido em julho de 2021, Xangai prometeu, como principal meta de sua administração. “harmonizar o setor, evitar a política e levar a cultura de Vitória da Conquista a todo o planeta”.
Xangai comprometeu-se a batalhar para conseguir recursos com a finalidade de proporcionar, pelos menos sobrevivência, aos artistas conquistenses, “abandonados durante a pandemia”, com muitos deles vivendo no anonimato na zona rural do município.
“Eu estou puto”, protestou Xangai, e completou: “É uma covardia; abuso de confiança”, ao ver o seu nome associado ao do deputado Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Aquela apropriação indébita de seu nome e de sua imagem levou o cantador, ao ser convidado para o cargo, advertir a prefeita de que não se envolve com a política partidária.
Xangai se cercou de pessoas dispostas a colocar em prática seu programa de trabalho, eleitas sem qualquer tipo de ingerência e imunizadas contra a burocracia, um vírus que emperra o serviço nas repartições públicas do país. Assessores diretos do secretário, o Conselho Municipal de Cultura teve recentemente um encontro com a prefeita para fazer a entrega de várias propostas, entre elas a de criar uma secretaria especial para a Cultura e organizar feiras de livros.
Feira Literária em Belo Campo
Argumentou o CMC que é inviável para qualquer administrador se dedicar, como o município pede, a quatro atividades essenciais à população. Os conselheiros reforçaram a ideia de que o conquistense não lê (livrarias fechando as portas, quatro ou cinco bancas de revistas em toda a cidade e os jornais de Salvador chegando no dia seguinte), conseguindo arrancar de Sheila a promessa de organizar ainda este ano um festival literário.
“Não dá pra entender que municípios de menor potencial promovam eventos literários, enquanto nós conquistenses, que temos uma população de mais de 400 mil habitantes e contamos com cinco universidades, estamos em débito com a nossa Cultura”, lamentou um dos conselheiros.
Nessa reunião foi lembrada a Feira Literária e Gastronômica de Belo Campo, divulgada em rede nacional pelo G1, onde os visitantes conviveram com variadas mostras culturais do sudoeste baiano, e percorreram estandes de vendas e exposições de livros de autores da região. Ainda este ano cinco cidades vão aquecer a cultura baiana. Uma delas é Cachoeira, no Recôncavo, que realiza, entre os dias 24 e 27 de outubro, sua festa literária internacional, a Flica, considerada como a mais charmosa do Brasil.
ANISTIA TOTAL PARA OS ENDIVIDADOS VÍTIMAS DOS BANQUEIROS AVARENTOS
Pelos anos de agiotagem dos banqueiros, financeiras e operadoras de cartão de crédito, cobrando juros exorbitantes dos brasileiros, o governo, se fosse sério e tivesse pulso forte, deveria decretar anistia total para as dívidas dos empréstimos consignados descontados todos os meses dos aposentados do INSS.
O mesmo poderia ser feito para daqueles que também foram obrigados a se endividar, vítimas da inflação e dos baixos salários que não são suficientes para cobrir as necessidades básicas de sobrevivência. Essa anistia não abalaria o sistema financeiro e ainda reduziria substancialmente o endividamento e a pobreza no Brasil. Numa pancada só, resolveria boa parte de um grave problema social.
Nesses tempos “modernos” de tanto consumismo desvairado que se mistura com as necessidades básicas de viver nas cidades, nos deparamos com intrincados problemas sociais que às vezes nos deixa até em estado de depressão e estresse.
O desemprego, o custo de vida, o endividamento e a pobreza são faces da mesma moeda maldita que está deixando milhões de seres brasileiros aflitos, atormentados e doentes do corpo e da mente. O pior é que de imediato não existe uma vacina para curar esse paciente desses vírus.
Em parte, esse endividamento vem da ânsia consumista (uma droga perigosa) de se comprar tudo que se vê, para manter uma aparência imposta pela sociedade capitalista. Da outra, é acarretado pela inflação nos produtos e serviços que a pessoa tem que pagar para sobreviver, incluindo luz, água, aluguel e alimentos.
Existem vários tipos de endividados. Tem aqueles que usam o cartão de crédito, com juros na estratosfera, como se fosse dinheiro de graça em caixa. Quando se acorda do sonho e é intimado a quitar o débito, escolhe como única saída pagar o mínimo que vira uma bola de neve.
Tem o endividado do empréstimo, feito justamente para amortecer a dívida contraída, e ainda o do consignado idoso aposentado do INSS que foi obrigado a apelar para essa modalidade porque seu benefício é simplesmente uma merreca que não dá para atender suas despesas com comida, habitação e remédios.
Nisso tudo aí, entram os vilões roedores de porões que são os banqueiros, financeiras e as operadoras de cartão de crédito. O desemprego, outra marca da nossa miséria, levou uma legião de gente às ruas para oferecer possibilidades de crédito, principalmente de jovens que ficaram no olho da rua interceptando os transeuntes a entrar numa loja para pegar uma grana.
Esses setores são os exploradores frios e avarentos que mais estão se enricando com a miséria provocada pelo sistema econômico perverso e a fraqueza de espírito dos viciados consumidores compulsivos. Esses segmentos agiotas improdutivos são os verdadeiros sugadores de almas, os chamados chupa-cabras alienígenas extraterrestres.
Para essas lacrais venenosas, que há anos já embolsaram bilhões de reais com juros nas alturas (existem até a taxas de riscos por perdas), caso houvesse um governo de credibilidade e sério, deveria ser decretada uma lei de anistia total para os endividados nas classes dos consignados e para as vítimas da inflação que tentam sobreviver com o salário mínimo para pagar as contas básicas em dia.
Pelos anos de parcelas e mais parcelas que já foram quitadas, com juros exorbitantes, essa turma da agiotagem (bancos, financeiras, operadoras de cartão de crédito) já recebeu de volta tudo que já foi emprestado com o triplo dos valores. Portanto, uma anistia total não abalaria os alicerces desse sistema selvagem que arranca até as entranhas dos pobres brasileiros.
A VISÃO ROMÂNTICA DE ESCRITOR
De supetão chega um moço falante com seu filho ao lado em minha mesa numa Feira Literária e vai logo me perguntado em que horas eu escrevo, se pela manhã, à tarde ou pela madrugada. Fico atônito por ter me pego de surpresa e respondo que a qualquer momento do dia e, às vezes, parte da noite, mesmo porque tenho o hábito de dormir por volta das duas da madruga.
O senhor bem afeiçoado não parou por aí, e foi me enchendo de outros interrogatórios, semelhante a uma criança curiosa, mas também com aquela visão romântica que se tem de um escritor ou de um outro qualquer artista, como se não fosse um humano, e sim, um deus qualquer vindo do Olimpo. Por último, quis saber se eu era mesmo formado numa universidade.
Aquele papo ligeiro e inquisidor, confesso, me deixou encabulado porque ninguém nunca me fez esses questionamentos, mas sobre o conteúdo da obra, editora, gênero ou outra coisa parecida. O visitante não parava de me interrogar, como se eu estivesse ali num tribunal para ser condenado, ou numa prova para testar se eu era falso ou verdadeiro.
Fiquei até animado porque achei que, finalmente, iria vender um livro para, pelo menos, comprar o leite do “véio”, ou pagar minha gasolina e estadia na cidade, logo eu que estava ali parado pensativo só olhando as pessoas passarem em frente ao meu estante, sem ao menos entrar para conhecer o trabalho daquele jornalista caipira do interior.
Que nada! Conversou, sapateou; fez aquele monte de perguntas; e depois foi-se embora, sem levar pelo menos um exemplar debaixo do braço. Pensei comigo naquele ditado de que “alegria de pobre dura pouco”. Acho até que ele estava mais pretendendo deixar o filho impressionado com sua “desenvoltura de bom letrado”. Ora, poderia ao menos ter presenteado o filhote que ficou calado só observando suas investidas sobre o mundo da escrita.
Além da sua mentalidade romântica, o que mais me deixou encafifado foi sobre se eu era mesmo formado, como se existisse alguma faculdade para escritor, ou quem não fez um nível universitário não tivesse capacidade para escrever um livro. Quem sabe, na ideia dele, fosse até proibido parir um livro, sem antes não pegar um “canudo” de doutor depois de passar anos alisando banco de escola, decorando gramática, datas históricas e teoremas de Pitágoras.
De certa forma aquele lance foi inusitado e até engraçado, mas depois fiquei a imaginar que ainda existe gente que possui uma visão romântica medieval da “belle époque”, ou do “mal de siècle”, onde o artista escritor, músico, poeta, pintor, escultor, ator/atriz ou de outra linguagem era um ser de outro universo que não dorme, não come, não bebe, não faz sexo, não precisa de dinheiro e vive só de boemia, lambendo as sobras dos outros.
Talvez seja por essa ótica distorcida que pessoas ainda hoje desvalorizam tanto o trabalho do artista, sem falar que é visto como um marginal qualquer. Muitos acham que a arte de redigir um texto ou pintar um quadro é fácil de ser feita, daí não ter o mesmo valor ou superior a um bem material de consumo, como um belo vestido, um relógio, um celular ou um terno.
Na conversa daquele homem, para ser escritor ou fazer uma peça artística qualquer tem que ter muita insônia, ou andar por aí vagando em noite de lua cheia com lobisomem. Grandes escritores, como Tolstói, Dostoievsky, Hemingway e até brasileiros sofriam de insônias terríveis; atravessavam noites nas boemias etílicas, mas isso não é uma regra geral.
Cada um tem seu hábito de vida e opta mesmo pelos seus horários prediletos e momentos de inspiração. A noite pode até ser uma criança para uns, mas outros preferem dormir bem para levantar com a cabeça fresca para elaborar sua obra.
A minha lida jornalística de 50 anos me ensinou e me treinou a escrever a qualquer hora, mesmo porque esse tipo de profissional é escravo do fato, o qual não tem hora para acontecer. Quanto a escrever um livro, você tem mais liberdade, e não existe o leitor em sua cola, mesmo assim tem aquele editor lhe cobrando, sugando quanto pode o seu suor ou seus neurônios.
NOVA CEASA AO NÍVEL DE CONQUISTA
Estive neste sábado pela manhã (dia 06/08) visitando o novo Centro de Abastecimento de Vitória da Conquista com meu amigo jornalista Carlos Gonzalez e gostei do que vi em termos de estrutura e organização, se bem que ainda não esteja em pleno funcionamento (ainda falta muita coisa).
Agora sim, Conquista vai contar com uma Ceasa ao nível da cidade, porque a antiga na Avenida Juracy Magalhães, com aquela sujeira e desorganização, era uma vergonha, não somente para moradores e visitantes. A nova empresa, na saída para Anagé e Brumado e outras cidades do nosso sertão, na boca da caatinga, é fruto de um consórcio de empresários de Jaguaquara.
Por falar nisso, o crescimento de Conquista deve-se muito à iniciativa privada em vários setores, como na educação e na saúde. Há 32 anos venho acompanhando esse processo, principalmente com minha narrativa jornalística. Até o final dos anos 90, Conquista só tinha a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb sofrendo uma carência enorme no ensino de nível superior.
Para contornar o problema, foi um grupo de empresários que tomou a frente para criar faculdades, com a oferta de vários cursos, “forçando” o poder público a também entrar nessa luta para trazer a Universidade Federal e o Ifba. Da mesma forma ocorreu na área da saúde, com a vinda de muitas clínicas e hospitais, de baixa, média e alta complexidade.
Quanto a nova Ceasa, não deixa nada a dever com relação a outras existentes em cidades do seu mesmo porte na Bahia, inclusive Salvador, de certa forma até melhor e maior. O empreendimento, com praça de alimentação, lojas comerciais, prédio de administração, galpões de varejo e atacado e um vasto espaço para estacionamento, vai beneficiar milhares de comerciantes da região, abrangendo cerca de 70 a 80 municípios.
Como ainda não está em plena atividade, entendo que seja construída uma rotatória em sua entrada, para evitar acidentes, visto que o movimento de carros é intenso na proximidade da cidade. É uma obra que vai gerar milhares de empregos diretos e indiretos, sem contar os benefícios para os consumidores em geral, que terão outras opções de compra.
O ATRASO E O MORALISMO NUM PAÍS CRISTÃO DE HERANÇAS CONSERVADORAS
Na verdade, alimentamos diariamente nossos espíritos de mentiras, até nas juras de amor no altar, como bem disse o nosso cancioneiro do rock Raul Seixas, e nas histórias dos vencedores contra os vencidos, dos brancos com relação aos índios, enganados com presentes fajutos. Mentimos nas trapaças e ainda queremos impor nossa moral. Tentamos enrolar o meio ambiente, mas este nos dá o troco. Pouco evoluímos, se mentimos para nós mesmos.
Todo atraso e moralismo de uma sociedade cristã-judaica foi exportado de Portugal para o Brasil quando aqui aportou Cabral com suas naus. A primeira chaga se deu com a escravidão a partir do século XVI, um sistema que durou cerca de 350 anos, o último a ser “abolido” no hemisfério ocidental, mas que ainda persiste de forma estrutural e institucional por uma elite egoísta que se acha raça superior e recusa mudar seus conceitos medievais de propriedade.
O atraso e o moralismo andam de mãos dadas e criaram um quadro desumano e cruel. Na escravidão, a Igreja Católica foi conivente e ainda exerceu fortemente o papel de escravista, até fazendo parte do tráfico negreiro. Hoje pede perdão pelos males, mas continua em seu pedestal confortável conservadorista, fora algumas ações pontuais. Na cisão luterana do século XVI, as ideias de renovação transformaram os evangélicos de hoje num bando de fanáticos extremistas, com algumas exceções de pastores com outra visão mais moderna.
Outra marca registrada foi o patriarcalismo coronelista corrupto e trambiqueiro, que até nos tempos atuais perdura, por mais que se tenha combatido e contestado. Ainda não inventaram uma substância química para limpar essas nódoas. Essas pragas sempre receberam a cobertura do moralismo e da impunidade, protegidos por um paradoxo de montanhas de leis criadas para serem burladas pelos poderosos.
Nesses 522 anos continuam vivos o atraso e o moralismo, este mais que safado e promíscuo de duas faces. Uma com aparência de bom cristão que disfarça seu racismo e homofobia quando o indivíduo diz numa entrevista que não carrega consigo o preconceito. A outra face está oculta quando se fala uma coisa para ficar bem na imagem da entrevista e se faz outra totalmente diferente entre quatro paredes. É o cruzamento entre dois animais de espécies diferentes que só gera aberrações.
Nos últimos anos temos visto estes atrasos e moralismos se expandirem cada vez mais. São inúmeros os casos que podemos aqui citar sem pejo de dizer que vivemos num país que nos envergonha. Um deles é a pobreza extrema de famílias com numerosos filhos, justamente dentro de um cenário de fome, como do menino de cinco irmãos com um celular que pede socorro à polícia por comida. Fica a interrogação sobre qual a prioridade, o aparelho ou o alimento, sem contar que existem milhões na mesma situação? Na mentalidade cristã, não deve haver controle de natalidade através dos métodos científicos.
Outro moralismo irracional é a criminalização das drogas ditas “ilícitas” cunhadas pelo sistema, mas a liberação de outras até piores com direito a propagandas e incentivos do capitalismo. É um atraso e absurdo como tratam a maconha até hoje, vista como coisa do demônio. Para se obter o óleo da canabis com fins de tratamento de crianças autistas e pessoas que sofrem de epilepsia, convulsões e outros transtornos parecidos, é preciso ter a liberação da Anvisa e autorização da justiça superior. Não é um atraso moralista?
Há cinquenta anos ou mais já se gastaram bilhões de reais com tanques, fuzis, metralhadoras e soldados nas ruas e favelas para combater o tráfico de drogas, com resultados cada vez mais nefastos, como os massacres e as matanças, sem considerar o crescente aumento desse comércio entre os bandidos. A ponta dos negociantes é relegada a segundo ou terceiro plano. Esse esquema estúpido não solucionou o problema, muito pelo contrário.
Para o Estado e o “cristão” moralistas fariseus, a descriminalização das drogas é um palavrão e coisa de comunista marginal. É para quem está com o satanás no corpo, ou é ateu. Do outro lado, consentem, permitem e fazem vistas grossas para as bebidas alcoólicas e outros vícios consumidos largamente, inclusive entre jovens menores nas baladas das noites etílicas de “músicas” levianas com sentidos de até violência.
A publicidade é proibida para o cigarro, mas não para a cachaça, o uísque e a cerveja. Prostituta é quem vive no prostíbulo, tratada com desprezo e discriminação. Mulher de programas é uma profissão sofisticada e até respeitada pelos moralistas de plantão. Servem de companhias para altas negociatas irregulares, para depois serem usadas nas comemorações.
No fim, somos todos escravos do moralismo que há séculos se enraizou em nossos conceitos de falsos espíritos cristãos, os quais vão para as igrejas, rezam, mas quando saem dali, se for preciso, passam a rasteiro no irmão do lado, por dinheiro ou interesse individual.
Fazemos de conta que vivemos numa plena democracia, mas todos os dias estamos violando os direitos humanos, negando a educação, explorando os trabalhadores, convivendo com a fome e os bárbaros crimes como coisas naturais. Trocamos o certo pelo errado e o normal pelo anormal. Um dos piores moralismos é o silêncio dos bons que proporciona o crescimento do mal.














