De supetão chega um moço falante com seu filho ao lado em minha mesa numa Feira Literária e vai logo me perguntado em que horas eu escrevo, se pela manhã, à tarde ou pela madrugada. Fico atônito por ter me pego de surpresa e respondo que a qualquer momento do dia e, às vezes, parte da noite, mesmo porque tenho o hábito de dormir por volta das duas da madruga.

O senhor bem afeiçoado não parou por aí, e foi me enchendo de outros interrogatórios, semelhante a uma criança curiosa, mas também com aquela visão romântica que se tem de um escritor ou de um outro qualquer artista, como se não fosse um humano, e sim, um deus qualquer vindo do Olimpo. Por último, quis saber se eu era mesmo formado numa universidade.

Aquele papo ligeiro e inquisidor, confesso, me deixou encabulado porque ninguém nunca me fez esses questionamentos, mas sobre o conteúdo da obra, editora, gênero ou outra coisa parecida. O visitante não parava de me interrogar, como se eu estivesse ali num tribunal para ser condenado, ou numa prova para testar se eu era falso ou verdadeiro.

Fiquei até animado porque achei que, finalmente, iria vender um livro para, pelo menos, comprar o leite do “véio”, ou pagar minha gasolina e estadia na cidade, logo eu que estava ali parado pensativo só olhando as pessoas passarem em frente ao meu estante, sem ao menos entrar para conhecer o trabalho daquele jornalista caipira do interior.

Que nada! Conversou, sapateou; fez aquele monte de perguntas; e depois foi-se embora, sem levar pelo menos um exemplar debaixo do braço. Pensei comigo naquele ditado de que “alegria de pobre dura pouco”. Acho até que ele estava mais pretendendo deixar o filho impressionado com sua “desenvoltura de bom letrado”. Ora, poderia ao menos ter presenteado o filhote que ficou calado só observando suas investidas sobre o mundo da escrita.

Além da sua mentalidade romântica, o que mais me deixou encafifado foi sobre se eu era mesmo formado, como se existisse alguma faculdade para escritor, ou quem não fez um nível universitário não tivesse capacidade para escrever um livro. Quem sabe, na ideia dele, fosse até proibido parir um livro, sem antes não pegar um “canudo” de doutor depois de passar anos alisando banco de escola, decorando gramática, datas históricas e teoremas de Pitágoras.

De certa forma aquele lance foi inusitado e até engraçado, mas depois fiquei a imaginar que ainda existe gente que possui uma visão romântica medieval da “belle époque”, ou do “mal de siècle”, onde o artista escritor, músico, poeta, pintor, escultor, ator/atriz ou de outra linguagem era um ser de outro universo que não dorme, não come, não bebe, não faz sexo, não precisa de dinheiro e vive só de boemia, lambendo as sobras dos outros.

Talvez seja por essa ótica distorcida que pessoas ainda hoje desvalorizam tanto o trabalho do artista, sem falar que é visto como um marginal qualquer. Muitos acham que a arte de redigir um texto ou pintar um quadro é fácil de ser feita, daí não ter o mesmo valor ou superior a um bem material de consumo, como um belo vestido, um relógio, um celular ou um terno.

Na conversa daquele homem, para ser escritor ou fazer uma peça artística qualquer tem que ter muita insônia, ou andar por aí vagando em noite de lua cheia com lobisomem. Grandes escritores, como Tolstói, Dostoievsky, Hemingway e até brasileiros sofriam de insônias terríveis; atravessavam noites nas boemias etílicas, mas isso não é uma regra geral.

Cada um tem seu hábito de vida e opta mesmo pelos seus horários prediletos e momentos de inspiração. A noite pode até ser uma criança para uns, mas outros preferem dormir bem para levantar com a cabeça fresca para elaborar sua obra.

A minha lida jornalística de 50 anos me ensinou e me treinou a escrever a qualquer hora, mesmo porque esse tipo de profissional é escravo do fato, o qual não tem hora para acontecer. Quanto a escrever um livro, você tem mais liberdade, e não existe o leitor em sua cola, mesmo assim tem aquele editor lhe cobrando, sugando quanto pode o seu suor ou seus neurônios.