:: ‘Notícias’
MAIS TRÊS CIGANOS SÃO MORTOS E SEUS CADÁVERES SÃO VILIPENDIADOS
Numa troca de tiros, de acordo com versão das polícias militar e civil, mais três ciganos da família Matos, suspeitos do assassinato de dois PMs, no dia 13 de julho último, no distrito de José Gonçalves, foram mortos ontem (dia 28/07) nas imediações do Rio Gavião, em Anagé.
Com essas baixas na ação policial, sobe para nove o número de mortos desde a caçada aos ciganos no dia 13 do mês, incluindo dois menores de 13 e 15 anos e um empresário, dono de restaurante, de nome Diego Santos Souza, de 39 anos, membro da Pastoral da Igreja Católica, sem contar a prisão, com ferimentos, do pai Rodrigo Silva Matos, de 58 anos, interrogado no Distrito Integrado de Segurança Pública.
VILIPÊNDIO
Sobre os mortos, o Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB) recebeu um vídeo e fotos dos corpos mostrando a voz de um homem e mais duas pessoas vilipendiando, ou seja, profanando, aviltando, desrespeitando e ultrajando os cadáveres.
Provavelmente, segundo a entidade, o local seria o Hospital de Anagé. O ICB enviou a gravação às autoridades competentes, para que o caso seja rigorosamente apurado, como crime previsto no Código Penal, artigo 212. Pede ainda que o servidor da Prefeitura de Anagé e todos que participaram do vídeo sejam identificados e punidos dentro da lei. O Instituto também requer que as circunstâncias das mortes sejam investigadas. “O vilipêndio causa dor e angústia às pessoas, cujas intimidades são expostas”.
O que se percebe nessas diligências dos policiais é que praticamente ninguém dos envolvidos chegou a ser preso para responder judicialmente pelos seus supostos crimes. O presidente do Instituto, Rogério Ribeiro, esteve em Vitória da Conquista, entre os dias 19 a 22 de julho e declarou que houve excessos por parte de membros da corporação militar, com torturas e espancamentos, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.
Diante da violência, ainda segundo Rogério, vários ciganos tiveram que ser removidos de Conquista para outras cidades da região, no sentido de proteger essas famílias de mais represálias. Por intermédio de órgãos ligados aos direitos humanos, e com o consentimento das vítimas, cinco mulheres e sete crianças podem ser, em breve, incluídas no Provita (Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas de São Paulo), dependendo tão somente dos tramites burocráticos.
Na ocasião, no último dia 19, estiveram também em Conquista o secretário de Segurança Pública da Bahia, o comandante Geral da Policia Militar da Bahia e a delegada geral da Polícia Civil, quando negaram excessos dos policiais nos atos, e que tudo foi feito dentro da lei, o que foi negado pelo presidente do ICB, Rogério Ribeiro.
Disse que o secretário não foi transparente em nenhum momento. Em seu relatório, enviado para a Promotoria Pública Estadual, Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Conquista e do Congresso Nacional, defensoria pública e outros organismos, as fotos de espancamentos e torturas são chocantes. O documento faz um apelo para que providências sejam tomadas contra os responsáveis, e os crimes sejam punidos.
Esse fato em Conquista lembra os tempos do Brasil Colônia e Império quando os ciganos viviam em correrias, sendo empurrados de um estado para o outro, como corja de sujos, malandros, ladrões e marginais. Os bandidos aproveitavam a presença dos ciganos próximos a seus acampamentos para praticarem seus crimes, sabendo que eles levariam a culpa.
O BRASIL PRECISA CICATRIZAR SUAS FERIDAS QUE CONTINUAM ABERTAS
A história do Brasil é como a de um Velho Senhor que há séculos continua acamado porque não conseguiu cicatrizar suas feridas. Em seu divã de análise psicanalítica, Ele carrega marcas traumáticas do colonialismo escravocrata, do império oligárquico aristocrático burguês, da Velha República dos senhores coronéis, de uma Nova que se cansou no meio do caminho, de uma ditadura civil-militar que não fechou suas feridas, de uma redemocratização abalada pelas corrupções e o populismo de duas faces e agora por uma extrema de ódio às minorias excluídas, que está nos levando a uma caverna de trevas dos tempos primitivos.
Podemos nos ater às feridas mais recentes dos últimos 70 ou 80 anos, a começar pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, quando uma turba ignara tentou dar um golpe militar, mas foi interrompido por um general chamado Lott. Quando o ministro do Trabalho João Goulart propôs um reajuste de 100% sobre o salário mínimo, a elite gananciosa e egoísta, como sempre, mais a ala conservadora das forças armadas, mostraram suas garras afiadas. Nesse elenco, não podemos esquecer do caudilho Carlos Lacerda, como um Catilina venenoso na cata pelo poder a qualquer custo.
Na ausência de Getúlio, assumiu o vice-presidente João Café Filho que foi instigado a puxar o golpe. No ano seguinte, teve a candidatura de Juscelino Kubistchek e Jango. Mais uma vez, as forças armadas tiveram que engolir o osso, mas o rancor ficou ainda mais guardado nas entranhas malditas. Como fake news do passado, ligaram a eleição de Juscelino ao contrabando de armas para os comunistas, os inimigos satânicos da nação. JK foi eleito e aí veio a conspiração para que ele não tomasse posse.
F
Foto do fotógrafo Evandro Teixeira e instalação do escultor Edmilson Santana
Mais uma vez, a tentativa de uma ditadura não colou, crescendo o ódio para uma revanche lá na frente. O golpe estava marcado para 10 de novembro de 1955. Queriam a cabeça do presidente interino Carlos Luz, substituto de Café Filho. O general Lott mobilizou seus oficiais, e a ave de rapina Carlos Lacerda fugiu a bordo do Cruzador Tamandaré. Nessa lacuna, Café Filho assumiu a presidência, mas ele também fazia parte da trama golpista e foi afastado.
Nesse interim, o Congresso Nacional aprova o estado de sítio até a posse de Juscelino, em 31 de janeiro de 1956, adiando um novo golpe. Vieram as eleições de 1960, e o destrambelhado Jânio Quadros é eleito contra o general Lott. Na vice tem o João Goulart, aquele demonizado perlo militares. O maluco renuncia no mesmo fatídico mês de agosto. Pela Constituição, o vice tem o direito de ocupar a cadeira, mas, novamente, as forças armadas, que diziam ser de ocultas, peitam sua posse. Os grupos de resistências, comandados por Leonel Brizola, furam o cerco. O homem senta no trono, mesmo enfraquecido por um parlamentarismo arranjado de última hora. As cicatrizes permanecem abertas.
Os generais recuam, guardando o revanchismo ditatorial no baú dos quartéis, com apoio de segmentos conservadores de alas civis, para 1º de abril de 1964. A promessa era ter eleições em 1965, mas em seu lugar nos mandaram um carrasco chamado Ai-5 (Ato Institucional), em 1968. No pacote de serpentes peçonhentas, vieram os anos de chumbo que assassinaram as liberdades individuais, censuraram, cassaram parlamentares, políticos, torturaram, esquartejaram, mataram e deram sumiço aos corpos dos adversários ao regime.
Foram quase 30 anos de repressão com cinco generais no governo, cometendo atrocidades, atos arbitrários e de terror até que veio uma tal de anistia tupiniquim que não puniu os torturadores, os que cometeram crimes hediondos de lesa-humanidade. As feridas do Velho Senhor, cansado de levar pancadas, não foram cicatrizadas. O Brasil continuou no divã psiquiátrico tomando doses cavalares de antidepressivos, remédios pesados para curar suas dores mentais traumáticas.
Pulamos mais 30 anos de turbulências, populismos, tramas e truques ilusionistas, e os poderosos de uma casta nababesca mandando no poder. Veio a polarização da intolerância entre o “nós e eles”, e ai se elege outro maluco, tipo psicopata, incarnado numa personagem histórica que espalhou desgraça e matança pelo mundo, com fins de selecionar uma raça pura.
Em seu governo de militares oficiais da reserva e da ativa (generais e coronéis), ávidos por vaidades, status e dinheiro, eles apoiam a linha arbitrária de um desequilibrado que também arma para implantar no Velho Brasil outra ditadura.
As investidas já foram várias, como fechar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (em maio do ano passado). As raposas e as hienas rondam o nosso terreiro, com carabinas e metralhadoras. Elas não desistem e querem repetir a história através da mão de ferro. Afinal de contas, são carniceiras da democracia.
Agora, o obcecado da extrema, que nos deixou sem vacina em plena pandemia da Covid-19, diz que o sistema eleitoral é fraudulento e quer, a todo custo, o retorno do voto impresso. Dá um ultimato que, caso contrário, não haverá eleições, o que significa um golpe. Como outrora, é um general que também lhe dá voz e manda um recado para o Congresso. A intenção é preparar terreno para uma intervenção militar. De legítimo, só se as urnas do próximo ano lhe derem a vitória.
Nesse jogo estão as polícias militares estaduais que são estimuladas a fazerem um motim. Elas são responsáveis pela segurança do pleito. Será que vamos ter um general Lott, como em 1955/56? Perceberam que em todas as tentativas e as consolidações de golpes nesse nosso Velho Senhor Brasil têm o rastro das forças armadas conspirando nos bastidores? Tudo isso tem uma razão de ser: As cicatrizes das feridas desse Senhor continuam abertas.
CIGANAS TENTAM ENTRAR NO PROGRAMA DE PROTEÇÃO A TESTEMUNHAS
Cinco mulheres ciganas e sete crianças, vítimas das perseguições policias de Vitória da Conquista após a morte de dois soldados, no distrito de José Gonçalves, no último dia 13, estão tentando entrar no Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita), conforme informou o presidente do Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro.
No desenrolar dos acontecimentos e, durante a busca dos criminosos dos PMs, houve várias mortes, e outros ciganos foram espancados e torturados, sinalizando atos de vingança. Como forma de proteção, o Conselho Tutelar e outros órgãos ligados aos direitos humanos conseguiram, entre os dias 15 e 16 de julho, encaminhar essas ciganas e crianças para outra cidade da região, no sentido de preservar a vida dessas testemunhas.
Na ocasião estiveram em Conquista o presidente do ICB e o secretário Nacional do Ministério dos Direitos Humanos, Paulo Roberto, que acompanharam a saída desse pessoal da cidade. Agora, o objetivo está sendo incluir essas vítimas no Provita, mas o programa, como explicou Rogério, tem seus tramites e burocracias. O que se sabe é que a matriarca dos ciganos aceitou ser incluída nesse esquema de proteção.
O Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas (Provita /SP), de acordo com pesquisa, é um instrumento atuante de acesso à justiça e combate à impunidade no estado de São Paulo. Esse programa funciona desde 1999 e é vinculado às Secretarias da Justiça e da Defesa da Cidadania e da Segurança Pública. O Provita/SP faz parte do Sistema Nacional de Proteção a Vítimas e Testemunhas, gerenciado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos do Governo Federal.
O programa tem a missão de proteger vítimas e/ou testemunhas que estejam sofrendo ameaças sérias, graves e iminentes, em virtude de colaboração em inquérito policial, ou processo criminal.
O caso pode ser encaminhado por autoridades policiais, Ministério Público, Poder Judiciário, órgãos públicos ou entidades que trabalham na defesa dos direitos humanos, e até mesmo por meio de contato do próprio interessado com o Provita/SP.
Após o pedido, o(s) interessado(s) poderá(ão) ser acolhido(s), provisoriamente, até que o caso seja analisado pelo Conselho Deliberativo da entidade, instância máxima e órgão competente para a decisão final sobre o ingresso, ou não de uma pessoa no programa (e, se o caso, também a sua família) no Programa de Proteção.
O período de proteção é de dois anos e pode ser prorrogado por até dois anos ou, caso seja necessário, pelo tempo de duração do processo. O Programa de Proteção Paulista está fundamentado na Lei Federal nº 9.807/1999 e nos Decretos Estaduais nº 44.214/1999 e nº 56.562/2010.
CIGANOS FOGEM EM CORRERIAS DEPOIS DE AMEAÇAS E PERSEGUIÇÕES
Com uma introdução de que a cidade de Vitória da Conquista abriu guerra contra os ciganos, o presidente do Instituto Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro, encaminhou um relatório à Procuradoria Geral da República, Defensoria Pública da União, ao Ministério Público Estadual, Câmara Municipal de Vereadores de Conquista (Comissão de Direitos Humanos), à OAB nacional e a outros órgãos ligados aos direitos humanos onde detalha os fatos ocorridos na semana passada que resultaram na morte de dois policiais militares, e repudia as consequentes violações contra o seu povo, com a prática de atos cruéis de tortura, perseguições e mortes (seis).
Rogério, que também é membro consultivo de Promoção da Igualdade Racial da OAB/Ceará, esteve em Conquista entre os dias 19, 20, 21 e 22 /07, mantendo contatos com órgãos, entidades e setores da polícia civil da cidade e em Itambé, no sentido de acompanhar os desdobramentos dos crimes e, ao mesmo tempo, prestar apoio logístico às famílias ciganas vítimas de atos de violência por parte de policiais locais. O comando da Polícia Militar nega que tenha havidos excessos por parte de seus subordinados, e que ainda deu proteção às famílias em fuga.
Repúdio contra as perseguições
Na ocasião, o presidente do ICB concedeu uma entrevista ao nosso blog www.aestrada.com.br onde demonstrou seu repúdio contra as perseguições e se disse decepcionado com a falta de respostas concretas por parte das autoridades militares. Rogério fez um forte apelo para que o Estado da Bahia apure todas as mortes e torturas, com o propósito de que os culpados sejam punidos. No Distrito Integrado de Segurança Pública/Vitória da Conquista foi recebido pelo coordenador delegado Roberto Júnior que se dispôs averiguar os fatos com imparcialidade.
Em sua fala, ele se referiu, principalmente, à coletiva prestada pelo secretário de Segurança Pública e o comandante Geral da Polícia Militar da Bahia, no dia 19/07 que, de acordo com ele, não foi nada transparente e deixou um rastro de dúvidas e negações quanto as ações truculentas de agentes da corporação local, inclusive contra uma idosa de 82 anos e três netos adolescentes.
No relatório, Ribeiro cita os locais em Vitória da Conquista, como no distrito de José Gonçalves, onde se deram as reações dos policiais contra os ciganos, como a invasão na casa de uma moradora, matando o filho Adenilson Almeida, de 15 anos, por volta das 22 horas do dia 13/07 (não era cigano).
Conforme os relatos do presidente do ICB, foi no mesmo dia 13 de julho que o soldado Robson Brito de Matos, 30 anos, e o 1º tenente Luciano Libarino Neves, 34, morreram na troca de tiros na zona rural de José Gonçalves. Depois do acontecido, o cigano Rodrigo da Silva Matos, 58, pai dos suspeitos dos assassinatos foi ferido e encaminhado para o presídio. No Distrito Integrado de Segurança Pública, no dia 15/07, foi interrogado de forma humilhante.
Ainda na tarde do dia 13/07, a polícia matou Ramon da Silva, o Ramonzinho, de 23 anos. No Bairro de Lagoa das Flores houve um confronto dos militares com dois ciganos. Na fuga para a cidade de Itiruçu, onde foram mortos por policiais, no dia 14 de julho, eles bateram na porta de uma cigana de 82 anos e seus três netos adolescentes, pedindo para guardar uma arma 380.
Narra o documento que policiais da Rondesp torturaram e ameaçaram de morte a idosa e seus netos de 15, 16 e 17 anos, no período de 16 horas à meia noite e 40 minutos. “Não quero nenhum pé de cigano em Conquista, senão a gente desce o laço” – disse um deles.
Nas torturas para que essas pessoas abrissem a boca, foram usados vários instrumentos de intimidação, como marreta, palmatória, canivete, cassetetes de borracha, sufoco com sacolas plásticas e água de QBOA, incluindo puxões pelos cabelos de uma cigana adolescente. Depois dessas agressões, os policiais deram duas horas para que as vítimas sumissem.
O ICB, segundo o seu presidente, prestou apoio logístico na transferência de três famílias para outros estados, sendo seis adultos e três crianças, no dia 17 de julho. No dia seguinte, outro caso de violência ocorreu no povoado de Boa Sorte, em José Gonçalves, onde uma picape foi incendiada com o corpo do empresário Diego Santos Souza, de 39 anos. Cidadão de bem, ele era dono de um restaurante, em Algodão, e membro do Apostolado da Misericórdia. A Igreja Católica não deu nenhuma nota de pesar e solidariedade sobre o acontecido.
O presidente Rogério, em seu relatório, ainda postou uma nota de repúdio a uma mensagem de ofensas no perfil de um policial fardado. Em contestação ao conteúdo da postagem, afirmou que o Instituto sempre tem lutado pela dignidade humana, a favor da igualdade racial e contra o discurso de violência, preconceito, discriminação, ciganofobia e sexismo.
Destacou também que repudia as operações policiais motivadas por vingança, com seis mortes, deixando um rastro de impunidade. Em seu desabafo, ressaltou que o medo tomou conta de Vitória da Conquista, com torturas, incêndios em veículos e casas.
Lamentou que não teve acesso aos inquéritos e nem aos laudos das perícias das mortes. Sobre a presença de policiais em acampamento cigano, Rogério indaga o que mesmo eles estavam investigando? No entanto, reconheceu que as investigações no Distrito Integrado estão sendo conduzidas de forma imparcial, e que o Instituto pede rígidas apurações sobre as abordagens nas casas dos ciganos e na rua.
Por fim, o relatório cita a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, o Comitê para Eliminação da Discriminação Racial da Organização das Nações Unidas e a Convenção Americana sobre Direitos Humanos onde estabelecem deveres do Estado de não empregar forças que violem os direitos humanos e a liberdade dos grupos desiguais.
Esses organismos recomendam o combate a qualquer tipo de discriminação, inclusive praticada contra ciganos por organizações do Estado. Rezam em seus artigos, prevenir abusos policiais e garantir medidas judiciais em caso de violações.
AUXÍLIOS, BOLSAS E DOAÇÕES SÃO ESMOLAS QUE ESCRAVIZAM O CIDADÃO
“Uma esmola envergonha o cidadão”. Quem não se lembra desse verso na canção do rei do baião Luiz Gonzaga? Pois é, por mais que seja duro, é uma verdade em nosso país, principalmente nesses tempos de pandemia quando houve um grande aumento da pobreza e, consequentemente, da fome. Segundo pesquisas, uns 30 milhões vivem nessa linha da miséria.
Claro que também existe o ditado de que a fome não espera e tem pressa. Não estou aqui para condenar os auxílios emergências, as bolsas famílias e as doações incentivadas e praticadas por grupos isolados, pessoas e organizações do terceiro setor. O que argui é que há 30 anos, ou mais, existe o chamado bolsa família e, de lá para cá, a situação só tem piorado.
Todos os dias acompanhamos nos noticiários os atos de solidariedade ou caridade (muitos evitam falar nesse termo por achar pejorativo) na forma de doações de alimentos, roupas, agasalhos de frio, sapatos e brinquedos para as crianças nas épocas de Natal, mas pouco se ouve em mutirões de emprego e oportunidades no mercado de trabalho para que o nosso cidadão se sinta digno como gente partícipe da construção social.
O Brasil precisa criar pessoas amadurecidas para que vislumbrem novos horizontes, e não que fiquem a vida toda dependentes de doações, bolsas e esmolas. Achar que elas só necessitam de pão e água, é o mesmo que escravizar suas dignidades. Só a educação, a saúde, a segurança e o emprego podem tirar a população desse abismo da pobreza.
Nem é necessário dizer que o papel dos governantes é fundamental para que o ser humano resgate sua dignidade e se livre de uma vez por todas das esmolas escravizantes. No entanto, o que temos é uma política do assim é melhor em nome do poder.
Enquanto grande parte da sociedade se mobiliza para socorrer a fome dos mais necessitados, eles lá de cima cada vez mais se acomodam e cruzam os braços. Na urgência de matar a fome, o cidadão acaba duplicando o seu papel social porque ele já paga escorchantes impostos que deveriam ser revertidos em benefício das camadas mais carentes.
Como não há reação, cobrança, conscientização política e mobilização daqueles mais esclarecidos que poderiam atuar nesse sentido com relação aos poderes públicos, esse ciclo vicioso das doações e auxílios em forma de esmolas nunca termina. No fundo, estamos também contribuindo para que essa camada tão baixa e tão pobre continue escrava do próprio poder por ela constituída. Por incrível e irônico que pareça, é desse fel que se banqueteiam os governantes e políticos para se manterem no poder. E assim caminha o nosso Brasil.
UM FUNDÃO FEDORENTO
As aves de rapina do Congresso Nacional não param de mostrar suas garras mortíferas contra o Brasil e o seu povo, como se não bastasse um poder executivo desastroso e destruidor do nosso patrimônio. Dessa vez, deputados e senadores criaram um Fundo Eleitoral de quase seis bilhões de reais (era dois bilhões) para gastar na cata de votos para suas reeleições.
É mais uma excrescência nacional quando negaram uma verba de dois bilhões para que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) realizasse o censo demográfico neste ano, que já deveria ter sido em 2020. Nada para a pesquisa e a ciência e tudo para suas farras nababescas a fim de continuarem fazendo seus malfeitos, corrupção, propinas e rachadinhas.
Até quando vão continuar destruindo o Brasil, tão rico e tão pobre, com 30 milhões vivendo na miséria passando fome? É um dos Congresso mais caros e que mais desperdiça dinheiro público no mundo. Não representa seu povo e, nessa hora, elementos da esquerda, centro e da direita se juntam para permanecerem mamando nas tetas do povo inculto e tratado pior que lixo.
São ratos, hienas e raposas na disputa pela carniça que, em toda véspera de eleições aparecem com suas emendas vergonhosas, mas, como o cão foge da cruz ou o vampiro da luz do dia, não querem nem falar de fazer uma Reforma Eleitoral para valer que termine com suas mordomias de verbas indenizatórias, reeleição, redução de parlamentares em geral e foro privilegiado. Cinicamente ainda chamam isso de reforma política, embutida nela um distritão, que para nossa gente soa mais como palavrão.
É um Brasil de terra arrasada que agora está preso na encruzilhada do retrocesso, do negacionismo da ciência e vivendo uma barbárie pior que na Idade Média. É um país que foi vendido por essa corja ao diabo chifrudo. Os ricos e poderosos transformaram o Brasil num curral de matança de gado ferrado, e ainda tem milhões que entregam suas almas em defesa desses genocidas.
O brasileiro de bom senso e mais inteligente não compactua com essa bandalheira insana e assassina, mas, infelizmente, ainda é uma minoria falante que é tratada de comunista que come criancinhas. A grande maioria é alienada, masoquista e não existe como ser humano consciente político.
Esse nosso povo acha que é civilizado porque tem um celular na mão para acreditar em falsas notícias e apoiar os demolidores do futuro. Essa gente oca que se satisfaz com um carrinho, uma graninha para uma farra no bar e visitar shoppings em final de semana, nem pensa na nova geração que ela mesmo gera como se fosse apenas uma realização pessoal para encher seu ego de uma falsa felicidade.
Já nos acostumamos e nos acomodamos com uma casta de poderes donos de um rebanho que se contenta com o pouco e com as sobras. É tudo como se fosse uma ordem natural das coisas que não pode ser mais mudada. Como um castigo divino do Deus que sempre assim quis.
Para que reagir contra esse sistema? É assim mesmo, e nada se pode fazer – dizem os submissos que já aceitaram suas condições de apenas coadjuvantes ou figurantes dessa nossa história macabra, desde os tempos coloniais. Os contestadores são simplesmente execrados como marginais da sociedade que devem ser recolhidos aos muros das lamentações para se purgar de seus pecados, como queixosos e ranzinzas.
Enquanto isso, eles lá de cima vão tratando o resto como bagaço, como se nem existisse, com direito a voto, mas sem voz. A camada debaixo apenas serve como adubo para eles plantarem suas lavouras que rendem farturas para suas mesas das orgias e bacanais. O pior é que os de baixo se odeiam, não se toleram, não se unem, se matam e banalizam a violência e a desgraça.
“Nesse conflito, na geração da violência, o mais forte acaba eliminando o mais fraco, mantendo, por este motivo, o ponto de vista de que a sua proposta, tanto quanto os seus atos, são moralmente justificados”.
A frase é uma citação de Senna; Souza, no livro “Remanso – uma comunidade mágico religiosa”, dos autores acadêmicos Ronaldo Senna e Itamar Aguiar, num comentário sobre a teologia da dominação do cristianismo em relação às religiões de matriz africana, que bem serve de ilustração para o tema em questão.
MAIS UM CASO PARA O ARQUIVO MORTO
Todas as vezes que policiais militares são assassinados, de imediato vem por trás disso um rastro de revanches e vinganças que terminam sobrando para pessoas inocentes e parentes. O caso dos dois agentes mortos na semana passada no distrito de José Gonçalves, em Vitória da Conquista, não é uma exceção.
É só relembrar a chacina ocorrida numa periferia da cidade, se não me engano, há onze anos. Praticamente uma família foi eliminada por justiceiros, e as investigações não deram em nada. Na época, um promotor e um juiz que estavam dando andamento ao processo chegaram a ser ameaçados.
Os métodos são sempre os mesmos, e as apurações nunca chegam a uma conclusão, como o fato do menino Maicon que foi vítima de uma ação atabalhoada da polícia. Os familiares pediram clemência e justiça, mas o corpo da criança não foi encontrado. Tudo ficou sem resposta até hoje.
Na ocorrência mais recente, o que se fala é que um grupo de ciganos matou dois policiais que, segundo informações do próprio comando e de um delegado civil, estavam numa diligência investigativa, só que não esclarece que tipo de investigação.
Será que se tratava de uma espionagem atentatória contra a segurança nacional? É um segredo de Estado que não pode ser revelado? Mais uma vez, é tudo nebuloso, e ainda o secretário de Segurança Pública e o comandante Geral da Policia Militar dão uma coletiva à imprensa falando que tudo está sendo transparente. Como assim?
Outra questão é quanto o assassinato praticado por dois motoqueiros encapuzados a um menor de 13 anos numa farmácia. O secretário afirmou que foi uma queima de arquivo perpetrado pelos próprios ciganos, mas nada prova, sempre com aquele argumento de não atrapalhar as investigações. É tudo muito estranho! Ficam as dúvidas e as interrogações.
Essa de jogar a culpa para os ciganos me ativou a memória de atos de terrorismo acontecidos no final da ditadura onde se fala de abertura democrática. A turma da linha dura atirou bombas em bancas de jornais e até na sede da OAB do Rio de Janeiro e espalhou notícias falsas de que foram os comunistas.
Logo depois do fato, em José Gonçalves, ocorreram três mortes na mesma semana, e aí, novamente, o secretário, o comandante e a delegada da Polícia Civil, que vieram a Conquista, disseram que os crimes não têm nenhuma relação com os policiais alvejados. É muita coincidência! Soltaram o verbo na coletiva, e nada ficou explicado como se esperava.
Infelizmente não temos mais jornalistas investigativos como antigamente. A verdade é dura, mas deve ser dita. Por medo de ameaças ou outra coisa, a nossa mídia só dá o factual daquilo que consta no Boletim de Ocorrência, o chamado BO, e a sociedade fica sem resposta.
Aliás, é essa mesma sociedade falida moralmente que manda matar, mesmo que seja de forma indiscriminada. Foi isso que ouvi de um empresário certa feita quando no Sindicato dos Jornalistas da Bahia e na Associação Bahiana de Imprensa dei uma nota de apoio à Justiça que estava investigando a chacina.
Não estou aqui para defender o crime, nem o criminoso, mas tudo tem que ser transparente, e os culpados severamente punidos. Será que tudo está sendo feito dentro da ordem e da lei, sem o conhecido corporativismo? A coletiva dos comandantes deixou mais dúvidas que esclarecimentos.
As associações e entidades representativas dos ciganos no Brasil se mobilizaram, publicando nota de repúdio contra as perseguições ao seu povo, por sinal sempre estigmatizados como bandidos, sujos e ladrões ao longo da história, desde muito tempo antes de Cristo.
O cigano Rogério Ribeiro, presidente do Instituto Cigano-Brasil e membro consultivo da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB do Ceará, em um vídeo numa rede social, pediu ao comandante da Polícia Militar de Conquista que segurasse sua tropa, embora tenha dito que foi bem recebido em sua conversa por telefone.
Como nos tempos em que viviam em correrias, diante dessas mortes e amedrontados com o que ainda possa ocorrer, muitos tiveram que fugir para outras bandas. É uma nação cujos filhos já nascem sob os olhos do preconceito e do ódio. Foram escravos na Romênia e massacrados por toda Europa e no Brasil, desde a Colônia e no Império. Quase todos foram exterminados durante o nazismo de Hitler, e nunca foram indenizados.
UM SONHO, OU PESADELO?
Numa noite de muito calor eu acordei lá pela madrugada todo suado e apavorado com um terrível sonho, que depois fui perceber se tratar de um pesadelo. Acho que comi alguma coisa indigesta. Voltei a me deitar, mas nada de sono recuperador da minha cansada mente.
Lá fora só as luzes neon e as folhas das árvores a farfalhar. Uma sombra de medo tomava conta das ruas abandonadas. Uns falam de fantasmas que aproveitam o silêncio para passear e outros de alguns viventes humanos na espreita prontos para dar o bote de assalto, como uma cobra traiçoeira.
No outro dia, ainda zonzo e mal dormido, tentei recapitular algumas passagens daquele pesadelo. Lembrei do saudoso roqueiro Raul Seixas que fala em sua canção que um sonho que se sonha junto se torna realidade, só que não foi um sonho e estava sozinho. No entanto, só para contrariar, meu pesadelo se tornou concreto.
Em meu pesadelo labiríntico grego via o Pantanal do meu Brasil em chamas, e a floresta Amazônica sendo derrubada por ambiciosos lenhadores, e depois sendo queimada. A flora ardia em choros, e a bicharada gemia em dores de morte. Os índios que sobreviveram àquela tormenta foram expulsos de seus lares. Tudo depois eram cinzas, e um deserto sem ar para respirar.
Em meio a toda aquela destruição, um homem com cara de monstro aterrorizador, com outros tantos ao seu lado que mais pareciam zumbis saídos da terra, gargalhava e mandava seus seguidores cobrir o chão de lavouras e gado. Outros avançavam com máquinas para minerar a terra. Os rios ficaram envenenados, e outros simplesmente sumiram. Não existiam mais barqueiros para transportar as almas para as outras margens.
No pesadelo, o homem, com feições psicopáticas de armas na mão, esbraveja contra jornalistas, com palavrões, xingamentos e ameaças. Condenava os cientistas, ambientalistas e pesquisadores que previam um futuro avassalador. Falava coisas malucas e dizia que era o novo dono de tudo aquilo.
Pelas ruas ele jogava seu séquito de apoiadores contra qualquer um que lhe opunha. Propunha investigar e prender os contrários. Às vezes se disfarçava em pele de cordeiro e falava até em democracia e liberdade, mas era mesmo um lobo que queria impor nova ditadura e, para isso, se cercou de generais e coronéis. Espalhava terror em cada pronunciamento, ameaçando fechar os poderes constituídos para ficar só com o dele.
Desde o início do seu surgimento inesperado, ora em forma de animal mitológico e gente, avisou que tinha vindo para destruir, e não para construir. Para tanto, condenou todas as ideias avançadas e evolutivas. Seria o anticristo? Mandou logo cortar a cultura, para ele coisa de comunista comedor de criancinhas. Arregimentou seus ajudantes para sucatear as universidades, para ele lugar de maconheiros e intelectuais pervertidos pecaminosos.
O pesadelo ficou ainda pior e aterrorizante quando apareceram na escuridão tenebrosa da noite uns monstros invisíveis em forma de coroa atacando e matando nosso povo, principalmente os mais pobres e famintos. Levaram os diabinhos para o laboratório e lá deram o nome de Covid-19. Vieram voando da China. Foi logo a primeira versão. Invadiram todo planeta e matavam por sufocamento, com morte dolorosa e sofrida.
Muitos irmãos do meu país começaram a perder a vida. Só choro, ranger de dentes e lágrimas dos parentes e amigos pela perda de seus entes queridos. Mesmo diante daquele horror, daquela desgraça que se abateu entre nós humanos, o homem genocida debochou; chamou o visitante assassino contaminador de uma gripezinha de fresco; e ainda humilhou as pessoas classificando-as de maricas.
O estrago foi aumentando. Os hospitais ficaram superlotados, numa agonia desesperadora diante de tantos seres humanos sendo dizimados pelo redondo coroado de espinhos venosos. Mesmo assim, aquele homem pestilento do meu pesadelo condenou todas recomendações científicas para controlar o danado invasor. Saia por aí a cavalo, de moto, de barco e a pé transmitindo a letal doença e ainda receitando uma tal cloroquina para derrubar o invisível.
Vi em meu pesadelo, naqueles escombros e ruínas, muitos lamentos de dor, como se fosse um inferno de Dantes. Tentava acordar para me livrar daquelas imagens macabras, mas não conseguia me desvencilhar dos tentáculos pegajosos em torno de mim. Nas cenas, via feições de caveiras e risos sarcásticos, dizendo sou eu que mando, tudo é meu, meus soldados, meus ministros, meu Brasil.
Em meio àquela aflição perturbadora, enxerguei na penumbra das trevas uma nave extraterrestre que pousava e abduzia o cara do mal e, rapidamente, levantou voo, riscando o universo numa velocidade alucinante. Os seguidores do ceifador de vidas tentaram impedir seu rapto planetário, mas nada puderam fazer. Ficaram até berrando palavras de ordem, mas sumiram depois do sumiço repentino do seu chefe maior, como nas guerras indígenas.
A cabeça doía quando, finalmente, acordei atormentado por nunca ter visto em toda vida aquelas figuras asquerosas. De lá para cá, outros pesadelos parecidos sempre voltam, como num trauma que gruda em nossa alma para sempre. Não foi um sonho para se levantar animado e otimista com a roda da vida. Foi mesmo um pesadelo que deixa o seu dia pesado e nunca dá para se esquecer dele.
A RETOMADA DAS AULAS PRESENCIAIS
É indiscutível a necessidade da volta às aulas presenciais nas escolas públicas e particulares depois de quase uma ano e meio de fechadas por causa da pandemia. A polêmica, no entanto, gira em torno dos protocolos a serem seguidos e fiscalizados, especialmente quanto as públicas que, como sabemos, não oferecem condições físicas adequadas aos alunos, mesmo antes da Covid-19 se alastrar pelo país. O ensino no Brasil já poderia estar normalizado se não tivéssemos um governo retrógrado e negacionista da ciência.
Sabemos que em nosso Brasil as leis nem sempre são cumpridas, e a fiscalização é por demais falha. Na teoria, as recomendações dos decretos municipais nos convencem diante dos cuidados a serem tomados. Na prática, a coisa funciona bastante diferente por falta de estrutura dos prédios e carência dos principais itens de higiene, principalmente quando se trata da zona rural onde existe até falta de água.
Nos primeiros dias das atividades tudo pode correr dentro dos conformes, mas semanas depois começam as escassezes de álcool gel, papéis de limpeza e outros materiais de prevenção, com banheiros quebrados e até ausência de aparelhos de aferição dos alunos. São justamente nessas deficiências que entra a burocracia para a diretora adquirir os produtos que constam dos protocolos prometidos na teoria.
As escolas particulares contam com mais estrutura física, e não existe a tal burocracia para dificultar a manutenção dos itens de prevenção essenciais para que não haja contaminação entre os alunos. Outro problema sério diz respeito à fiscalização permanente da vigilância sanitária, que já é deficitária por natureza, porque não existe um contingente ideal de fiscais para cobrir todo o universo de estabelecimentos escolares.
Outra questão a ser avaliada é quanto a vacinação dos professores, muitos dos quais ainda não receberam a segunda dose que oferece a imunização mais completa e segura. As escolas públicas vão ter gente suficiente para monitorar os protocolos que a própria Secretaria de Educação anunciou para fundamentar a abertura das aulas?
O perigo está no relaxamento das medidas, coisa que sempre ocorre com o passar do tempo em nosso país de um modo geral, não apenas em Vitória da Conquista que está reabrindo o ensino presencial, de fundamental importância para as crianças e os jovens estudantes que estão por demais atrasados em suas séries.
No setor educacional, pelo menos essa maldita pandemia nos deu uma lição de resposta sobre o tal projeto fascista do ensino domiciliar. Esse tempo fora das escolas, sem a presença pessoal dos professores e o contato com os colegas, representou perdas incalculáveis para os estudantes, não somente no âmbito da aprendizagem, como em termos psicossociais na forma do relacionamento humano.
Isso é uma doideira num Brasil tão desigual e analfabeto onde a maioria dos pais é obrigada a trabalhar para sobreviver. Além do mais, milhares não têm instrução suficiente, nem pedagogia para ensinar seus filhos. Vão catequizar seus filhos numa doutrina que lhe convenham?
Por sua vez, o Ministério da Educação, conduzido pelo pastor evangélico conservador, só faz gastar nosso dinheiro com propaganda de programas que nem estão funcionando. São milhões de reais desperdiçados, quando as universidades estão sucateadas e o ensino básico numa situação vexatória.
Usa uma tremenda verba para anunciar o Enem e ainda dizer que é uma das maiores plataformas de concursos do mundo, como se isso fosse uma glorificação para o Brasil que apresenta as piores notas em provas de língua e matemática.
UM EDITAL MERRECA E EXCLUDENTE
Numa cidade do porte de Vitória da Conquista, a terceira maior da Bahia, com cerca de 230 mil habitantes, o novo edital de premiação artística da Secretaria de Cultura, no valor de 300 mil reais, é uma merreca, principalmente se levarmos em consideração o universo de preponentes que atuam na área, podendo abranger até cinco mil ou mais que isso.
Eu diria que é mais um desprestígio e falta de consideração com a nossa já combalida cultura onde os poderes públicos pouco dão importância, e os prefeitos fazem dela uma pasta apenas decorativa, quando deveria estar equiparada com a sua irmã siamesa educação. As duas caminham juntas e se complementam.
Outra vergonha, no caso de Conquista, que tem uma falsa impressão de ser uma cidade cultural, é que não existe uma política traçada para atender todas as linguagens artísticas, durante todo o ano. Nunca tivemos uma Feira do Livro, ou Festa Literária, e há muito tempo que não vemos os salões de artes plásticas e os festivais de músicas, dança, teatro, exposições de fotografias, mostras de audiovisual, seminários, encontros e outras expressões culturais acadêmicas e populares.
Até antes da pandemia só tivemos dois calendários, um no meio do ano – o São João – e outro no final – o Natal, que mais beneficiam a área de música, com uns cachês pequenos e pagos com atraso para os artistas. Arte não é somente a música, e somos carentes de atividades programadas para movimentar a cidade, inclusive com a geração de renda e emprego.
Quanto ao novo edital lançado recentemente, com premiações de apenas 750 reis, excluindo aposentados e pensionistas, diria que isso não passa de uma esmola e um cala boca às manifestações dos artistas que foram para a porta da Prefeitura Municipal contestar a declaração do secretário que mandou os músicos passarem o chapéu para ganhar uns trocados.
Esse edital de 300 mil, uma vergonha para uma Prefeitura, que gasta milhões em outras coisas (propaganda, comunicação, slogans), deveria ser para cidades como Anagé, Belo Campo, Tremedal, Piripá, Caetanos, Caatiba, Bom Jesus da Serra, Aracatu e outras da nossa região. Conquista não merece isso e nem os artistas.
A iniciativa da Secretaria de Cultura teve o propósito de se equiparar a um auxílio emergencial (insignificante) em tempos de pandemia, e o pior é que muitos vão ficar de fora desse “benefício” pela desclassificação e exclusão dos aposentados. Não digo todos, mas a maioria de artistas aposentados ganha um salário mínimo, ou pouco mais que isso. Vivem catando um trocado aqui e acolá. Outros possuem outras atividades para sobreviver.
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista também tem sua parcela de culpa nessa falta de tratamento adequado e desrespeito com a nossa cultura porque deveria cobrar mais do executivo e formular um projeto-de-lei criando uma política para o setor, numa parceria com o segmento privado se bem que, lamentavelmente, os empresários de Conquista não investem em cultura porque acham que não dá dinheiro de imediato.
Eles têm uma mentalidade atrasada quanto a ajudar um projeto dessa natureza. O futebol amador e profissional é um dos exemplos de que não recebe apoio dos empresários. O time do Vitória da Conquista vive penando por patrocinadores, e sempre está na linha do rebaixamento no fraco campeonato baiano por falta de atletas da contratação de melhor qualidade.
Quando se vai pedir algo a um deles, para um determinado projeto, mete a mão no bolso e sai com uma esmola, dizendo que está lhe ajudando porque é seu amigo. Não tem nenhum senso de custo/benefício. Eu mesmo já senti isso na pele quando me atrevi a realizar algo cultural e precisei de colaboração, porque não disponho de posses para bancar um trabalho sozinho.
O escultor e multifacetado artista, Alan Kardec, está bancando a implantação de um museu com recursos próprios e ainda é criticado por esse tal Conselho Municipal de Cultura e por empresários. O museu já é o maior a céu aberto do Norte e Nordeste, e vai ficar para a posteridade como grande patrimônio cultural de Vitória da Conquista.
Quem faz cultura em Conquista não é reconhecido. Pouco é lembrado. Não valorizam a arte, o intelectual, o estudioso ou o pesquisador. Eles só são lembrados quando morre. Para que homenagens depois de morto? Isso soa a falsidade, hipocrisia e mesquinharia. Quando muito se dá é um título de cidadão, e olhe lá.
Infelizmente, nossa cultura continua desprestigiada e vivendo de esmola, como esse vergonhoso edital. Que digam os artistas, principalmente os músicos a quem se mandou passar o chapéu. Conquista conta com grandes talentos, mas adormecidos e desconhecidos por falta de apoio dos setores público e privado.
















