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INSTITUTO PEDE FEDERALIZAÇÃO PARA APURAR MATANÇA DOS CIGANOS
Como as apurações das oito mortes de ciganos e os atos de violência da polícia militar não tiveram andamento em Vitória da Conquista e na Bahia, inclusive alguns processos foram arquivados, como já era de se esperar, o Instituto dos Ciganos do Brasil-ICB está solicitando da Procuradoria Geral da República (PGR) a federalização das investigações dos crimes.
A informação é do presidente do ICB, Rogério Ribeiro, que se mostra indignado como os fatos foram tratados pela polícia civil e pelo Ministério Público Estadual. Nesse sentido, o Instituto encaminhou o oficio n° 097A/ICB para a Procuradoria Geral da República PGR, datado de 12 de agosto, dirigido à subprocuradora Eliana Peres Torelly. O caso também está sendo levado ao conhecimento de organismos internacionais ligados aos direitos humanos.
Elogio às mortes
Rogério Ribeiro e o vice-presidente do ICB, José de Paulo enumeram vários pontos em que acham absurdos, como o elogio individual feito a policiais militares por três mortes de ciganos, em Anagé. Afirmam que não está existindo uma investigação desarticulada entre a polícia civil e a militar, sem contar a fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa Provita/São Paulo.
Os representantes do ICB destacam ainda que o Ministério Público Estadual está sendo leniente com os abusos policiais (rapidamente arquivou investigação). “Policiais justiceiros querem matar, não querem prender”. Eles indagam por que ainda o governador da Bahia continua calado sobre o ocorrido. Na ótica do Instituto, está havendo corporativismo local, existindo ainda riscos de novas execuções.
No documento, o presidente do ICB argumenta que existem fortes evidências de que os órgãos do sistema estadual não mostraram condições de seguir no desempenho das funções de investigações, como na morte do menor de 16 anos onde se constatou que da sua arma nenhuma bala foi deflagrada. A versão na polícia, no entanto, foi que houve confronto, como nas outras sete mortes.
Ainda na solicitação, o presidente Rogério faz um apelo para que haja o direito à reparação pelas mortes e pelos danos causados aos ciganos que foram escorraçados do município e hoje vivem escondidos, passando necessidades, sendo assistidos com cestas básicas porque perderam todos seus bens.
Segundo o presidente, eles também precisam de assistência psíquica e médica. “Isso se traduz numa política pública de reparação pelos transtornos causados à família, sem falar na perda de suas vidas. Não está havendo nenhuma segurança para proteger as testemunhas que foram vítimas de espancamentos”.
De forma enfática, o ICB pede uma postura imparcial por parte da polícia civil e do Ministério Público na apuração dos crimes que começaram no dia 13 de julho quando um tenente e um soldado foram mortos por ciganos, no distrito de José Gonçalves, em Conquista. De lá para cá, foi desencadeada uma série de operações que resultaram em oito mortes, inclusive de menores.
O Instituto considera que houve violação flagrante dos direitos humanos. Somente o pai dos ciganos, de 58 anos, foi ferido e se encontra preso. Disse Rogério que houve ações truculentas e desnecessárias por parte dos policiais.
O pedido é que todas as ameaças, perseguições e formas de violência contra os ciganos sejam consideradas violações dos direitos humanos e, consequentemente, investigadas pela polícia federal. “O respeito à integridade física e à dignidade humana não podem ser afrontados sob pena de colocar em desvalia à prevalência universal dos princípios dos direitos humanos, em sua plenitude”.
“Assim, quando a norma constitucional diz que o Estado brasileiro tem como um dos seus fundamentos a dignidade da pessoa humana (Art.1º, III), ou que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (Art.5º, III), não está cuidando de algo teoricamente inaplicável, mas sim de uma efetiva exigência da preservação dos direitos do homem, sem a qual a arbitrariedade, a insegurança e o medo se generalizariam, e a vida em sociedade voltaria a um estágio de barbárie”.
O ofício de pedido de federalização também foi levado ao conhecimento de instituições internacionais de direitos humanos, à Rede dos Gitanos da Espanha; Procedimentos Especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Representante Especial do Secretário Geral da ONU para a prevenção de Genocídio, Relatora Especial dos Direitos das Pessoas de Origem Africana e Contra a Discriminação Racial, Representante do Alto-Comissariado da ONU para os Direitos Humanos no Brasil; CIDH no Brasil, para OAB, MPF, MPE e Comissão dos Direitos Humanos da Câmara de Vereadores de Vitória da conquista.
A OLIMPÍADA DA PANDEMIA
Carlos González – jornalista
Criados em 1894 pelo francês René de Fredy, o Barão de Coubertin (1863-1937), os Jogos Olímpicos nesses 127 anos foram desestabilizados e manchados por acontecimentos com perfis bélico, terrorista, ideológico e por corrupção. Pela primeira vez o maior evento esportivo do planeta foi ameaçado por um vírus letal, que já havia provocado o adiamento por um ano da XXXII Olimpíada da Era Moderna, realizada entre os dias 23 de julho e 8 de agosto, na populosa cidade de Tóquio, no Japão.
Contrariando a opinião da maioria dos moradores da capital japonesa, as autoridades locais e o Comitê Organizador, pressionados pelas empresas patrocinadoras, realizaram os Jogos, mesmo sem a presença de público, numa decisão similar recente adotada por alguns brasileiros indiferentes à vida humana, capitaneados pelo presidente Bolsonaro, quando da promoção da Copa América. Sob estado de emergência – somente no dia 31 ocorreram 4.058 novos contaminados pela Covid-19 – o Japão recebeu 12.500 atletas de 206 países.
A partir do próximo dia 24 a população de Tóquio vai ser submetida a um novo período de tensão, com a abertura dos Jogos Paralímpicos, que se estenderão até 5 de setembro, com possibilidade de aumento de infectados – na última Olimpíada foram 246 casos, incluindo 26 atletas, nenhum brasileiro. O motivo para preocupação é muito simples: o competidor (deficiente físico ou mental) não tem a mesma estrutura músculo-esquelética e metabólica do atleta profissional.
Esta semana encerrou a quarentena de 14 dias, submetida as 52 membros, sendo 27 atletas, da representação brasileira à Paralimpíada, cuja viagem foi antecipada ao Japão para adaptação ao fuso horário e aos locais das provas. As autoridades sanitárias japonesas determinaram o isolamento depois de detectar dois casos de Covid-19.
Potência olímpica
O 12º lugar (sete medalhas de ouro, seis de prata e oito de bronze) atingido pelo Brasil nos Jogos de Tóquio foi a nossa melhor campanha desde 1920 quando fomos representados por 22 atletas nos Jogos de Antuérpia, na Bélgica, mas ainda estamos distantes do que qualificamos de potência olímpica. Com 10.950 km de litoral e a maior reserva de água doce (rios e lagoas) do planeta, o Brasil contou apenas com um representante no remo; o basquete (masculino e feminino) não foi a Tóquio. Como justificar o fracasso das duplas de vôlei de um país com mais de 7 mil quilômetros de praias?
A Rede Globo, dona dos direitos exclusivos de transmissão da Olimpíada, tentou mostrar o contrário. Seus narradores e comentaristas, como torcedores arrebatados (o G1 publicou várias fotos de Galvão Bueno fazendo “caras e bocas”) bem que se esforçaram durante as madrugadas, instalados numa cabine em São Paulo.
O fuso horário foi um dos fatores determinantes do pouco interesse dos brasileiros pelos Jogos. Também não se pode ignorar que o povo vive apreensivo com as atitudes absurdas que chegam de Brasília, idealizadas por um psicopata.
Até o torneio de futebol, nosso esporte mais popular, passou despercebido. O título ganho com ajuda da arbitragem ficou em segundo plano diante da atitude dos jogadores, violando um acordo feito com o COI, relacionado à empresa patrocinadora da delegação brasileira. No pódio, Daniel Alves e seus companheiros exibiram a marca usada pela CBF. A transgressão disciplinar vai parar na Justiça.
Mesmo sendo considerado como emergente no concerto das nações com maior potencial olímpico, o Brasil ainda está muito distante dos Estados Unidos, China, Japão, Rússia, Canadá. Fora das escolas (Fernando Scheffer admitiu que a medalha de bronze ganha em Tóquio foi resultado de preparação numa universidade norte-americana), e dos clubes sócio-esportivos, o esporte nacional carece da implementação de políticas públicas, tanto do governo federal quanto de estados e municípios; do investimento de empresas privadas, sem priorizar, por exemplo o futebol e o basquete, que têm maior visibilidade na televisão, ou optar por um atleta de ponta.
Dois programas bancados pela União ajudam no treinamento de centenas de atletas que estão nas melhores posições nos rankings de modalidades esportivas, de acordo com as respectivas confederações. O Bolso Atleta, administrado pela Secretaria Especial de Esportes, destina uma verba mensal de 370 a 3.100 reais a jovens candidatos a vagas em Olimpíadas e Mundiais.
O programa do Ministério da Defesa, o PAAR, com recursos de 38 milhões de reais anuais, incorpora nas Forças Armadas, nos postos de recruta a 3º sargento, com soldo máximo de 4.000 reais, atletas de alto rendimento, com uma única obrigação: o aprimoramento nos locais de treinamento militar. O Time Brasil em Tóquio contou com 91 militares, entre os quais os medalhista Kahena Kunze (vela), Ana Marcela e Fernando Scheffer (natação), Hebert Conceição e Beatriz Ferrreira (boxe), Alison dos Santos e Abner Teixeira (atletismo) e Daniel Cargnin.
O COB premiou os medalhistas individuais com 250, 150 e 100 mil reais. Nos esportes coletivos, o futebol recebeu 750 mil e o vôlei feminino 300 mil reais.
A conclusão a que chegamos é que o Brasil esportivo trabalha a médio prazo, sem lançar a vista para o futuro, na esperança de quer suja um atleta-exceção, como a skatista paraense Raissa Leal
O Nordeste, particularmente a Bahia, comemora, com todos os méritos, as medalhas conquistadas por seus filhos em Tóquio. São chamados de “atletas exceção”, como os alunos do mestre Luís Dórea, que há mais de 40 anos forma campeões em sua academia no bairro periférico da Cidade Nova, em Salvador. De lá saíram Popó e Robson Conceição, e agora Hebert Conceição, medalha de ouro em Tóquio. No mesmo bairro, Raimundo Ferreira ensinava a arte do boxe a um grupo de garotos, sendo observado por sua filha Bia, que, com o passar do tempo tornou-se aluna do seu pai, e hoje, no seu currículo são mais de 100 lutas, muitas delas fora do país. A medalha de prata na Olimpíada a tornou conhecida dos seus conterrâneos.
ATLETAS NÃO PRECISAM DE COMENDAS E SIM DE UMA POLÍTICA DE INCENTIVOS
MAIS UMA VEZ ESSAS OLIMPÍADAS SERVIRAM PARA MOSTRAR A FORÇA DE VONTADE E A CARA DE POBREZA DO NOSSO POVO. O BRASIL CONTINUA UM GIGANTE ADORMECIDO EM BERÇO ESPLÊNDIDO.
Com todas as dificuldades financeiras de sempre, choros, suor e lágrimas, os atletas brasileiros nas Olímpiadas de Tóquio, no Japão, conseguiram arrancar na tora e na garra 21 medalhas, superior que a última, no Rio de Janeiro. O número reflete a falta de políticas públicas para os esportes. A mídia faz estardalhaços com berros e sensacionalismos, mas esconde a realidade do corte de verbas para a formação e treinamento, que neste ano foi de 47% (dois bilhões de reais).
Os representantes da Bahia, de origens pobres, saídos das miseráveis periferias, se destacaram no evento, e o governo, mais uma vez, promete implantar um programa de incentivo com centros de treinamentos, que depois são esquecidos (acabaram com as piscinas olímpicas). Na apresentação da medalha, político quer posar ao lado do campeão, especialmente se for de ouro.
Para fazer sua média política, a Assembleia Legislativa da Bahia aprova a criação de comendas aos atletas que conquistaram medalhas. Isso é um engodo! Faltam investimentos na base para desenvolvimento de novos esportistas, inclusive nas escolas públicas.
Em 2020 liberaram emendas parlamentares de 30 milhões de reais para quadras e estádios, mas no final falta verba para alambrado e outros equipamentos. A obra fica inacabada e termina sendo depredada. As estatais nacionais não mais dão ajuda para os esportes.
Conforme saiu na coluna de José Medrado (edição do A Tarde, dia 11/08), a senadora Leila Barros, ex-jogadora de vôlei da seleção, fez um pronunciamento no Senado Federal onde apontou que dos 309 atletas, 131 não têm patrocínio (empresas pouco investem em cultura, esporte e lazer), 36 realizaram permutas, 41 promoveram “vaquinhas” para arrecadar recursos (uma vergonha!), 33 conciliam esportes com o emprego e 78 nem sequer estão inclusos no programa Bolsa Atleta.
É triste ver um atleta como o Darlan Romani, que conquistou o quarto lugar no arremesso de peso, treinar no quintal da sua casa, com um técnico lhe orientando por telefone. Existe uma lei, a chamada “Pelé”, mas até hoje o governo não apresentou o Plano Nacional de Desportos. No lugar, aparecem os oportunistas para darem comendas.
Falta também da parte dos nossos atletas uma consciência política (negaram também a educação a eles) para nesse momento botarem a boca no trombone e denunciar essas mazelas. Deviam se recusar a sair nas redes sociais ao lado desses políticos e governantes que só querem capitalizar o voto nesses momentos de pódio. São verdadeiros caras-de-pau!
Pelo tamanho e riqueza do nosso país, pelos talentos adormecidos que existem, pelas modalidades praticadas com afinco, persistência e força de vontade, e se nossos atletas tivessem total apoio, o Brasil já teria superado o dobro de medalhas nas olimpíadas. Vinte e uma medalhas são poucas frente a outros países até menores. Não vou aqui fazer comparações com os Estados Unidos, China, Japão e Rússia.
“CARRO-PIPA PRECISA DEIXAR DE SER TROCA DE MOEDA NA POLÍTICA”
A questão do abastecimento de água em Vitória da Conquista foi um ponto de destaque nas falas dos parlamentares na sessão de ontem (dia 11/08), na Câmara de Vereadores, cuja plenária continua com o péssimo hábito das conversas em paralelo quando alguém está discursando. O assunto foi abordado quando muitos locais urbanos e na zona rural convivem com a escassez do precioso líquido tão vital para as pessoas.
Em seu pronunciamento, o vereador Augusto Coutinho foi enfático quando disse que o “carro-pipa precisa deixar de ser troca de moeda na política”, ao citar que uma mulher esteve em seu gabinete para que ele intercedesse junto às autoridades do município por um desse serviço de oferta de água. Há anos que o carro-pipa faz parte do cenário de seca no semiárido baiano, inclusive na região sudoeste.
Isto me fez lembrar dos tempos em que fazia coberturas jornalísticas sobre estiagens no sertão. O carro-pipa sempre foi objeto de troca de voto e, por incrível que pareça, ainda continua sendo. O parlamentar bradou que isso tem que acabar através da prometida construção de uma barragem, para ele sobre o Rio Pardo, próximo a Inhobim, que atenda toda demanda da população, com água encanada na cidade e no campo. Essa barragem seria o dobro da capacidade das atuais Água Fria I e II.
Outro que mirou o problema da falta de água foi o parlamentar Admilson Pereira, apontando também a urgência de implantação de outra barragem, antes que se corra em outro risco de racionamento, levando em consideração que ainda vamos ter um período extenso sem chuvas, além do inverno seco que ainda estamos atravessando.
O tenente Muniz criticou a situação das estradas vicinais da zona rural, as quais se encontram intransitáveis, como no povoado de Muritiba. O colega Dinho dos Campinhos tratou dos problemas da saúde no município, cuja população mais carente não tem tido o devido acesso.
Alexandre Xandó mostrou a precariedade dos transportes coletivos em Conquista, e disse que testemunhou o quadro numa van que ele mesmo usou para se deslocar até a Câmara. Não é de hoje que este tema da mobilidade urbana tem sido o carro-chefe nas discussões entre os parlamentares e os usuários que dependem do transporte para o trabalho e a realização de outras atividades cotidianas.
A Tribuna Livre ficou por conta de representantes jovens da Ordem Demolê, que explicaram sobre papel da instituição na comunidade, principalmente de assistência educacional, de esportes e lazer para a juventude mais pobre. Falaram do Dia da Juventude e reivindicaram mais políticas públicas voltadas para as crianças e os jovens.
UM PAÍS FAMÉLICO E UM DOS MAIORES PRODUTORES DE ALIMENTOS DO MUNDO
Nossos contrastes e paradoxos estão visíveis em todas as partes no campo político, social, econômico e educacional. A começar, somos uma país rico de um povo historicamente pobre e desigual. As riquezas naturais são imensas e belas, mas estão sendo destruídas, casos específicos dos nossos biomas pantanal e amazônico, sem falar do cerrado, da caatinga, da mata atlântica e dos pampas.
O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o vice-campeão, mas é também um país de gente famélica de cerca de 50 milhões de habitantes que têm profundas deficiências nutricionais. Uma grande parte populacional vive à base do feijão com arroz, isto quando consegue comprar esses produtos, agora os vilões dos altos preços.
O Nordeste é a região que mais passa fome (só na Bahia quase um milhão), tanto que seu povo apresenta deficiências em sua estrutura física em termos de tamanho e massa corpórea. Morre-se mais cedo. É onde está o maior índice de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, que mal fazem uma refeição por dia. Nossas crianças já nascem sem futuro.
Tudo isso é muito irônico e vergonhoso quando o Brasil é o maior produtor de café, de soja e carne bovina do mundo. É também um dos maiores na produção de frutas, hortaliças, milho, cana-de-açúcar, carne suína e avícola. Temos comida para abastecer parte do mundo.
Mesmo com essa grandeza, falta alimento na mesa de milhões de brasileiros, principalmente agora com a alta inflacionária que incide sobre esses produtos, a maioria com preços cotados no mercado internacional. O economista pode até explicar esse processo cambial do sistema capitalista da oferta e da procura que faz os preços oscilarem, mas não convence o pobre quando se trata de barriga vazia. Nas sinaleiras crescem o número de cartazes avisando “Tô com fome, ajude!
Além dessas matérias-primas agrícolas de exportação, onde o Brasil é autossuficiente, existem produtos, a exemplo do arroz, que o país é deficitário, isto é, o consumo é maior que a demanda, mas, mesmo assim, a preferência é exportar para o exterior. O contraste é que toda produção é vendida lá fora, e o governo é obrigado a importar o arroz de outros países asiáticos a um custo maior. Lá se vão nossas reservas cambiais.
A agropecuária no Brasil é altamente subsidiada, a começar pelo crédito a juros mais baixos, e quase tudo que produz é comercializado para fora, na cotação internacional. Então, o brasileiro de menor poder aquisitivo paga o mesmo valor de outro país, cujo povo possui melhores condições financeiras.
Outra ironia que pagamos por essa política de priorizar o mercado externo é que os produtores sempre se fazem de “bonzinhos”, dizendo que são responsáveis por colocar comida em nossas mesas, o que é uma mentira. Acima de tudo, o negócio deles são os dólares, e quem puder que siga o câmbio. Os outros que passem fome. Isso, no mínimo é desumano.
Existe também outra ironia e paradoxo. Para o exterior, os alimentos de melhor qualidade, como a manga, o mamão, o melão, a carne e outros itens, que são selecionados para esse fim. O consumidor brasileiro fica com a parte inferior, com o refugo e as sobras, pagando o mesmo valor. As frutas, principalmente, estão carregadas de agrotóxicos venenosos.
Quem ainda ameniza essa situação de penúria e não é reconhecido pelo governo, especialmente o atual, é o agricultor familiar que dá um duro danado, sem recursos para aumentar a produtividade e enfrentar as adversidades climáticas. Este ainda é roubado pelo atravessador; termina ficando praticamente sem nada; e passa necessidades também, inclusive fome.
O familiar ainda tem a virtude de preservar o meio ambiente. O contrário do agroindustrial que derruba e queima nossas florestas para plantar soja para a China. Para quem está distante dessa cruel realidade fica até com pena quando vê um empresário desse setor se queixando e derramando “lágrimas de crocodilo”. Eles não estão nem aí para quem está passando fome. É a lei do mais forte. Como educar um país famélico? Sem educação não existe desenvolvimento, e as desigualdades sociais só aumentam.
O PÂNICO DA ENTREVISTA DE EMPREGO
Dentre de muitas coisas nesse Brasil tupiniquim, uma que sempre me deixa encabulado e intrigado é quanto a etiqueta padronizada para a tão temida entrevista de emprego. Os consultores da área de recursos humanos, especialmente, criaram um pânico no entrevistado frente ao entrevistador.
A entrevista de emprego passou a ser mais difícil que um concurso, ou uma prova de conhecimento. A tal entrevista está acima até do que qualquer teste psicológico. É o bicho papão dos candidatos que já entram tremendo na sala do ilustre avaliador. Na véspera, o pretendente a uma vaga não consegue dormir à noite. O cara tem que ter um treinador especial no assunto, como o advogado faz com sua testemunha antes de se apresentar numa audiência judicial.
Para a entrevista, existe uma vestimenta apropriada, corte de cabelo adequado dentro das normas, unhas bem aparadas, perfume certo para a ocasião, maneira correta de se sentar, como pegar na mão (agora não pode por causa da pandemia), como piscar o olho, sapato impecável (nada de tênis), cores da camisa ou da calça (vestido ou saia se for mulher), gestos refinados, entre tantos outros infindáveis protocolos de conduta.
Jamais invente de ir de chapéu ou boné meu caro amigo interessado por um trabalho em qualquer empresa pública ou privada. Gostaria de saber desses orientadores de entrevistas se isso tudo identifica a verdadeira personalidade do indivíduo? Muitas vezes, o homem ou a mulher, seguem essas regras de certinhos, mas quando estão lá começam a mostrar realmente quem são.
Acho tudo isso uma babaquice inútil dessa fútil sociedade que só dá valor para a aparência do vestir e do se comportar falsamente. Afinal de contas, vivemos num sistema repleto de regras e, infelizmente, temos que seguir as normas para a própria sobrevivência do ganha pão. O mercado de trabalho está aí, e é ele quem dita como você deve se apresentar, senão terá a cabeça cortada.
Por falar em entrevista, queria aproveitar para deixar um recado para nossos coleguinhas jornalistas. A maioria deveria voltar a frequentar uma sala de aula na faculdade, para aprender como fazer uma entrevista que renda uma boa matéria. Essa entrevista de que estou falando, não tem nada a ver com a outra de emprego.
SUAS “EXCELÊNCIAS” SÃO DIPLOMADAS E FAMÍLIA DE CIGANOS FOGE DE ABRIGO
Esse enredo ainda não teve um final conclusivo, e não terá, que seria a apuração rigorosa dos fatos que já resultaram na morte de oitos ciganos de uma mesma família (um menor não está na conta).
Pelas informações da Polícia Civil, eles e o pai, de 58 anos, que se encontra preso, participaram, no último dia 13 de julho, no distrito de José Gonçalves, em Vitória da Conquista, do duplo assassinato do tenente Luciano Libarino Neves e do soldado Robson Brito de Matos.
Enquanto a tragédia, com requintes de violência, escorraçou os ciganos de Conquista, suas “excelências” foram diplomadas com elogios pela atuação, como o 1º cl Cleonildo Silva Lima, lotado no 3º Pel/Anagé pela diligência que culminou na apreensão de três armas de fogo e auto de resistência de três ciganos que, de acordo com a própria corporação, fizeram parte dos assassinatos, no dia 13 de julho.
A diplomação não fala explicitamente em mortes, cujos cadáveres foram vilipendiados (profanados) no Hospital de Anagé). A condecoração lembra coisa de período de guerra contra um inimigo externo. Será o caso dos ciganos? Devemos comemorar operações que resultam em mortes de seres humanos? Ou eles não são?
Nessa “guerra” de violências, doze pessoas da etnia cigana fugiram de um abrigo do Programa de Proteção a Vítimas de Testemunhas (Provita/SP) porque descobriram que o dono da casa alugada para protegê-las seria de um policial militar, segundo informações do presidente do Instituto dos Ciganos do Brasil (ICB), Rogério Ribeiro. É o mesmo que colocar a raposa no galinheiro. Se é verdade, que proteção é essa?
Entre essas pessoas está a matriarca de 52 anos que teve oito filhos mortos em confronto com as guarnições da polícia militar, conforme notas divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia. Outros dois filhos estão foragidos. Com a mulher estão ainda quatro noras viúvas e sete crianças (seis netos e uma filha). Sabe-se que uma outra filha também se encontra em local ignorado, com três filhos.
Segundo Rogério, o grupo que fugiu apavorado do abrigo foi resgatado em uma rodoviária, com ajuda de outras famílias ciganas, e encaminhado a outro local mais seguro. Disse que essas pessoas precisam de ajuda, pois saíram de Conquista sem nada levar, como nos velhos tempos das correrias ciganas.
Ainda muito abalada, a matriarca da família divulgou um áudio onde implora que os filhos foragidos se entreguem à Polícia Civil. Ela se dirige, principalmente, ao mais jovem, afirmando que está sofrendo muito com a morte de seus oito filhos e teme pela vida dos demais.
Em matéria no jornal “A Tarde”, edição de ontem (dia 5/08), a assessoria da Polícia Civil confirmou que o procedimento com relação ao duplo homicídio dos policiais militares foi concluído na semana passada pela DH-Conquista, e está sendo encaminhado para a Justiça. Diz a nota que os detalhes do caso não estão sendo divulgados nesta fase das investigações.
ALÉM DO IPTU, PREFEITURA QUE COBRAR TAXA DE LIXO DO POVO
A Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista voltou ontem (dia 4/08) do recesso parlamentar (haja recesso no ano!), com uma extensa pauta de requerimentos, indicações, moções de aplausos e alguns projetos-de-lei do executivo municipal, dentre os quais, a malvada taxação do recolhimento do lixo dos moradores que já pagam um caro IPTU.
A princípio, esse projeto representa um duplo imposto, tendo em vista que o povo já arca com o pesado IPTU todos os anos, e poucos benefícios recebem. Muitas ruas e bairros periféricos de Conquista continuam, há muitos anos, sem calçamento e serviços de esgoto. O brasileiro em geral já não suporta mais tantos impostos, num Estado que recebe o máximo e retribui o mínimo para a população.
O pior de tudo isso é que a maioria dos 21 vereadores (uma bancada que poderia ser reduzida pela metade se vivêssemos num país sério) aprova o projeto da prefeita. Então gente, prepare o bolso para mais um escorcha contra o contribuinte que já sofre com os preços dos combustíveis (Conquista tem os mais altos da Bahia), do gás e da ascendência inflacionária dos produtos alimentícios.
Para não dizer outra palavra, ou palavrão, é um absurdo, e uma falta de respeito contra o eleitor que deu seu voto, acreditando que os vereadores fossem lhe representar e lhe defender no legislativo. Nessa primeira sessão, depois do recesso, o conquistense recebe uma porrada traiçoeira.
Por causa da segunda onda da pandemia no início do ano, quando as sessões estavam sendo praticamente virtuais, ontem os trabalhos foram abertos à população, mas dentro dos protocolos recomendados de distanciamento entre as cadeiras, com álcool gel e máscaras, entre outros cuidados.
NÃO TRAUMATIZE MEU CHAPÉU!
Antes uma peça que fazia parte da indumentária do homem e da mulher, com toda sua elegância nas ruas, restaurantes e eventos festivos, o chapéu é por muitos visto hoje de forma discriminatória e com preconceito. Em tempos passados, ele desfilava soberano, inclusive pela nobreza, reis e rainhas.
Para o homem, por exemplo, ele não é aceito em determinados lugares solenes, reuniões, seminários, e nunca numa audiência judicial em frente ao um juiz. Numa entrevista de emprego, nem pensar! O cara que se atrever a ir de chapéu, será logo eliminado.
Lembro ainda menino que meu pai me obrigava a usar o chapéu na roça e quando ia à cidade, sob o argumento de proteção contra o sol. Com seu jeito matuto catingueiro de ser, ele dizia que o sol “cozinhava o juízo”, o que não deixa de ter certa razão. Livrei-me dessa exigência quando fui estudar, mas voltei ao hábito nos finais de semana nos anos 70, porque como repórter de redação, o jornal não admitia no trabalho.
No entanto, passei a adotar o chapéu, com maior frequência, quando vim assumir a Sucursal do “A Tarde”, em Vitória da Conquista, em 1991. Nos últimos anos, ele passou a ser minha marca registrada e não saio sem ele, embora impedido, ou autocensurado quando raramente entro num templo religioso, como na Igreja Católica.
Podem me criticar e até me chamarem de ignorante, mas não consigo entender o porquê consideram ofensa entrar numa Igreja de chapéu! Ele é tão imoral que constitui uma profanação à Santíssima Trindade? Na Igreja ele é um excomungado! Não posso falar com o Senhor Cristo com o meu chapéu? Será que Ele deixa de me atender por isso?
Por que o tabaréu, principalmente, quando fala em Deus tem que tirar o chapéu? Por que não se pode orar ou rezar com o chapéu? Ele é tão pecaminoso e símbolo de heresia? Esses conceitos não entram em minha cabeça que sempre está coberta pelo meu querido companheiro chapéus.
Outra discriminação é quando se entra num restaurante. Na hora de comer, o sujeito tem que tirar o chapéu para não ser julgado como mal-educado e desrespeitoso com o ambiente. Existe alguma explicação plausível para isso? Se o argumento for bem lógico, quem sabe, poderei acatar, mas meu chapéu não vai gostar nada disso, e nunca vou abandoná-lo. Vai ficar magoado e com traumas para o resto da vida, mas ainda do que ele já sofre.
Bem, tenho uma pequena coleção de cerca de 160 a 170 chapéus, e sempre digo a eles que tudo isso não passa de mais um preconceito. Quando vou sair, é uma gritaria danada para me acompanhar. Para agradar a todos, costumo sempre sair com um diferente, muitas vezes de acordo com as estações do ano.
Tenho procurado, com meu jeito de conversar, contentar a todos e dar uma de psicólogo para que não se sintam rejeitados ou frustrados por essa gente preconceituosa. Só pediria que deixem meu chapéu viver em paz. Não incomoda, e nem fala mal de ninguém.
A MATANÇA DOS CIGANOS
Desde o dia 13 de julho foram mais de 15 dias de perseguições, espancamentos, torturas e mortes de oito ou nove ciganos, inclusive de menores, todos, segundo informações da polícia. em confronto. De preso mesmo só o pai Rodrigo, de 58 anos, que foi ferido e hoje se encontra preso. Essa pessoa até agora, que eu saiba, não foi ouvida e entrevistada pela mídia, para contar a verdadeira história. Teve gente que nem era cigano.
Trata-se de mais um caso nos moldes de uma chacina que logo cairá no esquecimento, ou como se diz, vai para o rol dos arquivos mortos de Vitória da Conquista, como tantos outros, como dos assassinatos do marinheiro numa cadeia de uma delegacia, do prefeito de Manuel Vitorino, do massacre num bairro periférico da cidade, do dono do jornal, João Alberto, do menino Maicon alvejada com uma bala numa operação policial e de tantos outros.
Tudo começou no dia 13 de julho quando dois soldados foram mortos por um grupo de ciganos, no distrito de José Gonçalves. O comando da PM e o próprio secretário de Segurança Pública sempre insistem em dizer que eles sofreram uma emboscada quando faziam uma investigação, o que não bate. O fato está envolto em mistério e em vários pontos cegos do esclarecimento. Não houve transparência, conforme apuração do próprio Instituto dos Ciganos do Brasil. É subestimar a nossa inteligência”
Além das mortes, sempre em confronto, como já se costumou propalar nesses crimes que têm a marca da vingança, houve uma generalização com fortes sinais de preconceito, que o próprio povo cigano sempre sofreu desde as eras antes de Cristo. A violência de soldados da corporação foi tão brutal que muitos ciganos foram obrigados a deixar a cidade em debandada, em correrias, como nos tempos passados desde Brasil Colônia.
Foi, por assim, dizer, um arrastão nesse rastro de matança e sangue. Ameaçados e aterrorizados, um grupo de mulheres e crianças teve que ser acolhido pelo Programa de Proteção a Vítimas de Testemunhas (Provita/SP). O relatório do Instituto, encaminhado para vários órgãos ligados aos Direitos Humanos, estampa cenas chocantes de pessoas torturadas. A maior parte de mulheres que sofreram espancamentos para dizerem o paradeiro dos supostos assassinos.
Diante de todo esse quadro de violência e barbárie, como sempre, nenhum segmento da sociedade conquistense (Ministério Público, Justiça, Câmara de Vereadores, Sindicatos, Associações e outras entidades) se pronunciou, pelo menos para pedir uma apuração rigorosa para punir os verdadeiros responsáveis. Não se ouviu uma voz para se colocar ao lado da lei, e em defesa dos direitos humanos. Para mim, que aqui moro há 30 anos, não é nenhuma novidade.
Conquista sempre foi uma cidade famosa nesses casos de matanças, desde os tempos dos coronéis. Aqui ainda impera a prática antiga de se fazer justiça com as próprias mãos. É quando os justiceiros entram em ação, sabendo de antemão que não serão punidos.
Existe uma falsa ideia de que o brasileiro é uma gente com o DNA de solidariedade ao outro. Confundem solidariedade com caridade quando a pessoa se prontifica a dar um quilo de feijão, arroz, óleo, açúcar, uma camisa, uma calça, uma jaqueta ou um coberto para aquecer o frio.
Quando se fala em agir em defesa dos direitos humanos, do respeito ao ser, sem preconceito e discriminação, todo mundo se esconde em sua pele de lobo. Nem estão aí! Os outros que se lasquem. Vá chamar alguém para se juntar a uma manifestação quando um semelhante é morto injustamente! Todos somem, mas aparecem para dar uma cesta básica. Vivemos sim numa comunidade individualista e egoísta.



















