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QUE DEMOCRACIA É ESSA?
Dizem que temos uma “República Democrática de Direito”, termo introduzido na Constituição de 1988, mas que democracia é essa onde praticamente a população tem pouca participação nas decisões do governo? O que temos, na verdade, é um República Oligárquica de Direito, somente voltada para alguns.
Nesses mais de 500 anos, desde os tempos coloniais, tivemos mais tempo de governos autoritários, comandados pelos interesses de uma elite burguesa capitalista discriminatória que sempre fez de tudo para negar qualquer ascensão aos mais pobres e manter as injustiças sociais, que “democráticos”.
Sempre vivemos sob a tutela da submissão e do chicote. Acho engraçado e irônico, até mesmo uma piada, quando tem gente que repete, maquinalmente, que todos somos iguais. Isso não existe num país de 20 milhões de famélicos e 14 milhões de desempregado. Vivemos no momento, com um capitão-presidente, uma subdemocracia, num regime político incompleto.
Há pouco mais de 30 anos saímos de uma ditadura civil-militar de generais a serviço do capital, que oprimiu, torturou e matou centenas de opositores. Depois entramos num neoliberalismo e num populismo onde um presidente, para se manter no poder, se coligou com a pior espécie de empresários e políticos corruptos. O resto, todos sabem no que deu.
Não vou falar nesse atual governo, porque não merece comentários, nem que se gaste muito tempo de discussão. Simplesmente voltamos à Idade da Barbárie, da estupidez e do atraso. Não estamos aqui discutindo ideologias de direita, esquerda ou extrema-direita.
Nunca na história chegamos a esse ponto. É um caso de psiquiatria, para ser analisado por uma equipe especializada em distúrbio mental, ou talvez os espíritas e a cultura ioruba expliquem através das reencarnações vindas de nossos antepassados para o presente.
Não é apenas uma eleição de presidente, governadores e parlamentares que dita que vivemos num regime democrático. O voto como é exposto e formulado no Brasil, num formato arcaico de complô para que tudo continue no mesmo, nas mãos das castas dos três poderes, não passa de uma farsa de cabresto para fisgar os ignorantes e incultos.
Democracia é muito mais que isso. Democracia não é ter um dos piores índices do mundo em desigualdade social. Democracia não é tirar nota baixa em educação; ter mais de 60% da população sem saneamento básico; e nem ter milhões morrendo nos corredores dos hospitais por falta de atendimento médico.
Democracia não é só você abrir a boca e falar o que pensa dos governantes (isso hoje está até sendo vigiado), nem tampouco xingar quem quer que seja e, muito menos, atentar contra a liberdade.
Vivemos há séculos num engodo histórico de que estamos em plena democracia. Isso não passa de uma grande mentira. Temos e sempre tivemos um regime tupiniquim sui generis, não existente em parte nenhuma do mundo.
A IDEOLOGIA CONTRA A FOME
Bilionários passeiam no espaço com seus foguetes e lá de cima dizem que a terra é toda azul, quando, na verdade, ela já está cinzenta e esburacada de tanta destruição. Nela os furacões, os ciclones, as nuvens de poeiras, as tempestades de ventos, os vulcões, as enchentes, os terremotos, a fumaça das queimadas, as secas e a fome estão fazendo dela o planeta em extinção.
Cada um discute e defende sua ideologia do ódio e da intolerância quando todos deveriam se unir em torno de uma só ideologia para combater essa outra pandemia que mata milhões lentamente por ano. Para esta, a ciência nunca vai criar uma vacina que a cure. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas tem 20 milhões passando fome.
De acordo com pesquisas, mais da metade da população, ou seja, mais de 100 milhões estão em insegurança alimentar. O Brasil está no mesmo patamar nutricional de 2004. Diversas organizações e grupos isolados têm procurado atuar em campanhas de doações para auxiliar essas pessoas em vulnerabilidade.
Sabemos que essas ações são paliativas porque, conforme demonstrativo do quadro, o problema só faz aumentar. Essa pandemia não exige intubação, mas tem um kit comprovado de cura que é chamado de comida na mesa de todos, três vezes por dia. Seu protocolo de proteção é bem conhecido e não tem contraindicação. Não precisa de máscara e de álcool, e as pessoas podem se aglomerar quando estão de barriga cheia.
Na terra, que do alto se mostra azul, mas não é bem assim, quase um bilhão passa fome diariamente, principalmente nos continentes africano e sul-americano. Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontam 17 anos de retrocesso na política de combate à fome. Lamentavelmente ela virou moeda de voto, e esse processo nunca se acaba.
No Nordeste, o índice de insegurança alimentar chega a 72%, muito acima do número nacional que é de 55%. Com tanta miséria, ainda existe o Dia Mundial da Alimentação, ocorrido no último sábado, mas quase ninguém se lembrou disse porque não existe a ideologia da fome.
Enquanto isso, nas redes sociais proliferam os xingamentos, as fake news, os textos cheios de erros de português com “conteúdos” homofóbicos, racistas e de intolerância religiosa. Cada um cria em si o seu Deus moralista, vingativo, de medo, hipócrita, mentiroso, mas nem está aí para os famintos jogados nas sarjetas das ruas. Com suas bíblias surradas pensam apenas em converter os outros. Acham que tudo é desígnio de Deus, outros de Zeus, Javé ou Jheová.
RIGIDEZ NAS REGRAS EMPERRA PROCESSO VACINAL EM CONQUISTA
Funcionário público qualificado não é sempre o que cumpre à risca as regras emitidas pelo chefe do poder ou por seu superior da área, mas aquele que sabe flexibilizar na hora correta para dar andamento e acelerar o trabalho. No caso particular, estou me referindo ao processo de vacinação em Vitória da Conquista que termina sendo emperrado por causa de determinada rigidez nas regras impostas.
No dia de ontem (22 de outubro) pela manhã, com meu cartão da Covid-19 completando exatamente seis meses da segunda dose (22 de abril) me dirigi ao Posto de Saúde da Vila América para receber a dose de reforço, mas fui barrado porque ainda não tinha completado 75 anos (faltam três meses). A fila estava pequena (cerca de 10 pessoas) e percebi que havia imunizantes sobrando.
Tentei convencer o funcionário que estava encarregado de averiguar a documentação de que a data de seis meses entre a segunda e a terceira estava correta, mas ele não cedeu ao meu argumento, mesmo tendo pouca gente na fila de vacinação. Apenas me disse que tinha que cumprir as duas regras básicas. Quero deixar bem claro que não estava ali querendo privilégios ou furar a fila de ninguém.
Ora, se já estava no local, na condição de idoso, e a demanda era pequena, por que não flexibilizar e adiantar mais uma vacinação? Caso houvesse 100 ou mais pessoas, iria entender que deveria cumprir a norma estabelecida da idade, para não tomar o lugar de outrem, mas não era a situação.
Como não fui acolhido na minha modesta argumentação, fui obrigado a retornar à minha casa sem receber a vacina. Muitas pessoas já passaram por esse mesmo problema e resolveram não mais retornar, o que significa um retardo na imunização contra o vírus, como vem acontecendo em Vitória da Conquista.
Em minha opinião, o que está faltando é mais entendimento e comunicação entre as equipes de vacinação. Nem estava me atentando para a idade, mas observando o prazo de seis meses estabelecido nas recomendações da ciência. Como a procura estava pequena e havia doses suficientes, seria até mais sensato adiantar a aplicação para avançar o processo e lá atrás não perder o medicamento por invalidez.
Conquista ainda está efetuando a dose de reforço para idosos a partir dos 75 anos, enquanto outras cidades, como Salvador, já planejam atingir o público jovem de 30 anos. Nesse ritmo, Conquista só vai alcançar esse grupo no próximo ano, principalmente com essa rigidez nas regras, deixando de vacinar uma pessoa por causa de uma pequena diferença na idade, com pouca gente na fila.
SALVE, SALVE TODOS OS POETAS!
Enxergar o invisível aos olhos dos outros; ver o que muita gente não vê; protestar; denunciar; descrever o belo e o feio; cantar o amor; pegar o horizonte e o pôr-do-sol com a mão; entrar na alma de alguém; saber como extrair espinhos de uma árvore; fazer chorar e rir; e ainda dizer que a vida é assim mesmo, com ou sem sentido.
Quem sou eu para entrar na alma do poeta, este esquecido de hoje, pouco lido e nem lembrado no seu dia 20 de outubro! Mesmo com um pouco de atraso, salve, salve todos poetas! Alô cumpadi Walter, Papalo Monteiro, Dorinho, Mano Di Souza, Edilsom Barros lá do Ceará, Dean lá da Paraíba, Carlos Moreno, Baduxa, Alisson Menezes, Evandro Correia e tantos outros!
Alguém pode até dizer que Castro Alves é o nosso poeta maior, nosso craque das Espumas Flutuantes e do Navio Negreiro, mas isso não importa tanto quando ainda temos um time imbatível, como Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Cassimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvaro de Azevêdo, Raul Seixas, Raquel de Queiroz, Cora Coralina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e uma penca de imortais.
Pena que nos tempos atuais com um governo negacionista inimigo da cultura, nossos jovens estejam cada vez mais alienados e recebendo uma instrução que criminaliza o conhecimento e o saber. Lamentável, mas para muitos esses nomes não passam de jogadores de futebol, ou outra coisa qualquer, menos poeta.
Infelizmente, não é somente a poesia que está esquecida e depreciada. O dia do escritor também passa batido. A nossa mídia anda tão sem conteúdo, e mais preocupada com seu interesse comercial que nem comemora e celebra o Dia do Jornalista, 7 de abril, quanto mais cobrir uma pauta do Dia do Poeta ou do Escritor!
O SAL E A DESERTIFICAÇÃO DO NORDESTE
Fotos do jornalista Jeremias Macário
O sertanejo ainda esperançoso e crente em não desistir da luta, porque, antes de tudo, é um forte, como dizia Euclides da Cunha, mete a mão na terra e removendo-a entre os dedos, com a voz embargada, diz, meu filho, essa aqui já está morta pelo sal. Não serve mais para plantar. Ao seu redor ainda tem algum pedaço que com a chuva ainda produz alguma coisa acanhada de milho, feijão, abóbora e o andu.
A seca secular, ou mesmo milenar, de muitas histórias de fome, de meninos mirrados de pés no chão, dos natimortos e dos retirantes para o sul, narrada e decantada pela imprensa, trovadores, repentistas e cancioneiros ainda persiste nas promessas dos governantes políticos desde o Brasil Colonial e Imperial. Sempre se pregou que é possível conviver com ela, mas tudo se esbarra nos projetos e políticas públicas de melhoria da vida desse homem, os quais nunca se concretizaram.
Autores em seus romances, poetas e cantadores, como Raquel de Queiroz, em “O 13”, Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, Ariano Suassuna com seu “Auto da Compadecida”, João Cabral de Mello Neto, em “Vida Severina”, Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elomar, Xangai, Glauber Rocha com seu cinema de cangaço e tantos outros retrataram essa árida sisuda do inclemente rei Sol que impede as sementes de germinarem ou queima o pasto e a lavoura.
O nordestino acredita em mudar seu destino, mas só recebe esmolas e alguns carros-pipas para matar a sua sede e a dos seus animais. Continua trabalhando na terra cansada que está virando deserto e sal. Para piorar, as carvoarias dos gananciosos escravizam seu povo e deixam um rastro de destruição na caatinga. Ao invés de água e ajuda para o plantio de sua subsistência, recebe sal e amargura. Uns ficam, mas muitos já foram embora para outras paragens.
Ao longo dos tempos, de mais de 500 anos, as secas cruentas, cada uma pior que outra, estão registradas em livros, manchetes de jornais e reportagens de TV. Além das estiagens de rachar a terra, os nordestinos ainda foram vítimas dos coronéis que tomaram e invadiram suas propriedades com seus jagunços de fuzis nas mãos. As volantes e o cangaço praticaram suas violências, roubando e estuprando suas famílias.
Na maior parte do tempo, a paisagem é cinzenta entre os engaços e bagaços de espinhos das juremas. Quando batem as águas, o colorido faz renovar as almas, mas é por pouco tempo. Logo entra outra temporada de aridez anunciando a desertificação do Nordeste. A caça que ainda enganava o estômago por uns tempos, não existe mais. Nem se ouve mais o canto da juriti, da nambu no final da tarde e nem o piar da perdiz. Só o sereno fino faz o orvalho da manhã. É um aviso de que mais cedo ou mais tarde o sertanejo, com lágrimas nos olhos, tem que bater em retirada do seu torrão.
As narrações são as mesmas quase todos os anos, como agora na Bahia onde mais de 100 municípios (mais de um milhão de pessoas) vivem em estado de emergência, mesmo os que se situam próximos do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, outro castigado pela destruição humana, que pode desaparecer ou virar sal (sua foz já é salgada). Nas estradas poeirentas ainda corta algum carro-pipa – a indústria da seca e do voto – que coloca um pouco d´água em uma ou outra cisterna vazia, mas só poucos são contemplados.
A transposição do São Francisco foi mais uma ilusão perdida no horizonte da política enganosa. A corrupção corroeu boa parte das obras em rachaduras e ferrugens. Os canais correm solitários na sequidão, e a poucos quilômetros dali, como em Remanso, só se vê lata d´água na cabeça, ou crianças e mulheres tocando jumentos com carotes e em carroças para tentar pegar o precioso líquido em algum lugar distante.
Como uma piada cínica de mau gosto, o Governo da Bahia anuncia mais um projeto de transposição do “Velho Chico” até a Bacia do Rio Paraguaçu, outro em estado terminal, passando por São José do Jacuípe e outros municípios. É mais um daqueles programas para inglês ver. Há muitos anos já ouvi falar nessa água do Salitre (Juazeiro) até São José do Jacuípe. Agora resolveram dar mais uma riscada no mapa de papel amarrotado e sujo de mentiras.
Os homens da tecnologia e da política prometem que a obra estará concluída em dez anos. Talvez meu neto de um ano nem chegue a ver esse canal chegar até a Barragem Pedra do Cavalo. Aqui em Vitória da Conquista, há mais de 15 anos estão para construir uma barragem para abastecer em definitivo a cidade. Ainda tem gente que acredita nessa lorota eleitoral.
Por falar no Paraguaçu, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) vai reduzir em 50% os volumes outorgados em toda sua bacia, mantendo apenas as licenças para o consumo humano. A Barragem Pedra do Cavalo está com 28% da sua capacidade de armazenamento contra mais de 50% em outubro do ano passado.
O Rio Utinga, um dos afluentes do Paraguaçu (nasce em Barra da Estiva e corta 86 municípios), está mais seco outra vez e num cenário bem pior que nos outros anos. “A situação está difícil para nós. Na roça perdemos tudo e os bichos estão berrando de sede” – lamenta um morador do povoado São José, na zona rural de Lençóis. O vaqueiro é outro personagem nordestino em plena extinção. Não existe mais gado para tocar. Nem as cabras estão resistindo, e as pessoas estão brigando pela distribuição da água da Barragem Zabumbão, como em Paramirim e outros municípios vizinhos.
Enquanto isso, misturada a pedregulhos, a terra nua está cada vez mais salinizada. Ainda existem alguns oásis que florescem, mas não mais com aquela cor viçosa e fértil de outrora. É o prenúncio da desertificação do nosso Nordeste que pode se tornar num Saara brasileiro para o trânsito de camelos transportando turistas de outras terras.
A FOME E OS OSSOS
Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num depósito insalubre e num caminhão estacionado correram o mundo. Esse é o nosso país do slogan de Pátria Amada, ou Pátria Esfomeada?
O bispo do santuário de Nossa Senhora Aparecida a chamou de Pátria Armada. Ele me fez lembrar as falas de D. Helder Câmara quando sempre clamou por justiça social, dizendo que isso não é comunismo. Como sentir orgulho de ser brasileiro quando milhões passam fome e catam restos de comida no lixo? Tudo nos faz voltar aos tempos do romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
Não se trata de ser de esquerda ou de direita. No século XVI a falta de trabalho penalizou toda Europa Ocidental. Houve uma invasão dos indigentes, e os reis decretavam leis proibindo a mendicância e a vagabundagem. Os mendigos eram marcados com ferro em brasa. Qual dos dois era o pior? A fome roendo no estômago, ou o ferro? Nem precisa responder.
Em nosso Brasil de hoje, conforme pesquisas do IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros passam 24 horas sem ter o que comer por alguns dias. Dependem de uma cesta básica das campanhas de doações. Nem todos conseguem mais ajudar porque as famílias estão endividas com a alta da inflação.
Ainda de acordo com as pesquisas, 24 milhões de pessoas não têm certeza de como vão se alimentar no dia a dia, e já reduziram a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse cenário macabro, não se dá mais para se falar em qualidade por causa da substituição de um produto por outro mais barato.
Pelas contas do IBGE, 74 milhões também estão mergulhados na incerteza se vão ingressar na penúria. Ronda aquele clima de ansiedade e até depressão quando se houve os noticiários na mídia quanto a escalda nos preços dos alimentos, e a possibilidade de amanhã fazer parte do contingente dos mais de 14 milhões de desempregados.
Com a vacinação acelerando e o número de mortes e casos reduzindo, talvez agora o maior medo seja a fome, principalmente dos milhões que recebem um ou dois salários mínimos e têm família para sustentar. Estamos no país do medo, vivendo num presente de pobreza sem futuro.
Pode até ser desanimador e exagero demasiado, mas quem hoje ainda come um pedaço de carne misturada com feijão e arroz pode amanhã estar catando osso e pelancas num carro fedorento, ou num túnel de lixo, servindo de imagem para registrar a degradação humana.
O desespero pode levar o povo faminto a invasões em estabelecimentos, a chamada convulsão social, se bem que o brasileiro não chega a se rebelar a esse ponto. As leis dos reis vão proibir a mendicância e ferrar com brasa os mendigos?
MARIA BETÂNIA É A NOVA IMORTAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA!
É uma exclamação, mas poderia também ser uma interrogação no título, pois gostaria que alguém me explicasse melhor com argumentos sólidos e consistentes do porquê ela ter sido eleita para a Academia de Letras da Bahia. Maria Betânia é escritora, ensaísta, poeta, letrista ou coisa assim? Pelo que sei ela é uma grande interprete de autores e compositores da música popular brasileira.
O seu talento na área lhe abre as portas para uma academia de letras? Sendo assim, Ivete Sangalo, Bel Marques, Lu Lelis, Margarette Menezes, Cláudia Leite e tantos também pode ser indicados. Com esse time vamos formar a academia de letra axé music. Cada um tem o seu devido valor, mas dentro da sua área, no seu terreiro.
Não quero aqui ser espírito de porco ou simplesmente do contrário, mas acho que é um desprestigio com escritores e pesquisadores que passam a vida queimando os neurônios para lançar suas obras. Não estão dizendo que ela também não queima neurônios para apresentar sua arte. No momento, não existe nenhum escritor baiano merecedor de uma cadeira na academia?
Li alguns comentários nos jornais e na mídia sobre a nova imortal, se não me engano cadeira de número 18. Uns a favor e outros contra. Não por inveja, despeito ou coisa assim, confesso que os a favor não me convenceram com a tal cultura da oralidade e porque ela interpreta grandes nomes da literatura, como Fernando Pessoa e Clarice Lespector.
Talvez seja meio burro, de Q.I. muito baixo, para entender a dimensão do fato da baiana santamarense dos Velosos ter sido escolhida para a Academia de Letras da Bahia. Seus dotes de cantora e de intérprete, que são praticamente unanimidade entre os apreciadores de uma boa música, são suficientes para lhe colocar nesse olimpo das letras?
Na minha modesta opinião, entendo ser um desrespeito para com o escritor, poeta ou acadêmico das letras, já tão esquecido devido ao baixo nível de conhecimento e leitura em nossa cultura nos tempos de hoje, principalmente nesse governo federal que elegeu a cultura como seu maior inimigo.
Assim sendo, as academias de letras devem sim prestigiar a classe e não banalizar. Tem um ditado que diz que cada macaco em seu galho, como já cantava o velho e saudoso Riachão. Betânia tem sua importância no cenário da música brasileira, com os versos de autores que saem dentro de sua alma. Reconheço seu grau de inteligência e talento e não tenho nada contra sua pessoa, mesmo porque nem a conheço pessoalmente.
Em 2017 o norte-americano Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e foi uma gritaria. Ele zombou do título e nem foi lá nas homenagens. Bob ainda se justificava por seus poemas e fortes letras de protesto. É um grande compositor reconhecido internacionalmente. Vamos devagar que o andor é de barro!
Um escritor ou músico pode também ser eleito para a Academia de ciências? Li um comentário no jornal baiano onde a pessoa indagava se ele poderia receber o Prêmio Gremmy sem conhecer uma nota musical? Existem na Bahia bons escritores, inclusive no interior, que lutam desbravadamente para lançar um livro, sem apoio nenhum de uma editora porque a empresa nem se presta a ler o trabalho de um desconhecido.
As editoras só atendem aos apadrinhados e só veem o lado comercial. Infelizmente, nesse capitalismo selvagem que só enxerga o lucro, as coisas funcionam assim. Essas indicações, ao invés de estimular aqueles que se dedicam à arte da palavra, como o bom artista pinta um quadro, só desestimulam. Dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.
INSTITUTO DOS CIGANOS PEDE CPI NA ASSEMBLEIA PARA APURAR CHACINA
O Instituto de Cultura, Desenvolvimento Social e Territorial do Povo Cigano do Brasil encaminhou ofício de número 0105ª para os presidentes da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Emanuel Monteiro de Menezes, e da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, deputado Jacó, solicitando abertura de uma CPI ampla (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as mortes dos ciganos em Vitória da Conquista por policiais militares há três meses, bem como os recentes sequestros e extorsões contra esse povo em Camaçari e região.
No documento, o Instituto, por meio do seu presidente Rogério Ribeiro e do vice, José Paulo, declara que os ciganos foram vítimas de sequestros e extorsões em Camaçari e região. “Precisamos de um auxílio rápido e uma resposta urgente referente a esses casos, pois os ciganos estão muito assustados com o aumento da criminalidade. Vale ressaltar que as vítimas vêm se recusando a prestar queixa na delegacia, temendo represálias dos bandidos, pois há indícios fortes de participação de policiais”.
SEQUESTROS E ROUBOS
De acordo com os dirigentes da entidade, “necessitamos urgentemente de policiamento preventivo, ostensivo e constante, para coibir e enfrentar a onda de violência. São muitos casos de sequestros, assaltos, roubos e furtos, dia após dia, com violências crescentes em plena luz do dia, que alarmam os ciganos”. Como exemplo, eles citam o sequestro na tarde de sábado, dia 3 de julho último, por volta das 14h, em Camaçari, no Parque das Mangabas.
Relatam que a vítima estava com seu cunhado, quando de repente quatro homens uniformizados de policiais abordaram os ciganos que correram da perseguição. Os policiais deram tiros para cima freando a correria. Na abordagem foi apreendido a chave do veículo da vítima e o celular. Somente depois o seu cunhado foi liberado.
Os criminosos de fardas levaram a vítima com destino a Cajazeiras de Abrantes, a cerca de 25 km do local do sequestro. A vítima ficou em posse dos sequestradores por onze horas. Durante este período, os criminosos usaram o celular da vítima para negociar o pagamento do resgate no valor de R$ 200 (duzentos mil). Em alguns trechos da negociação o sequestrador ameaçou cortar a orelha do cigano.
O irmão da vítima tentou acalmar o elemento, oferecendo 20 mil reais, argumentando que não dispunha do valor requerido. O criminoso continuou com suas ameaças de que iria fazer um vídeo cortando a orelha do cigano, exigindo o não envolvimento da polícia no caso. Depois de muita conversa, os sequestradores aceitaram o pagamento de 40 mil reais.
Depois de sofrer espancamentos, o cigano foi liberado, isto é, trancado e algemado dentro do veículo, em Cajazeiras de Abrantes, em um mato. Sobre o ocorrido, os dirigentes do Instituto ressaltaram que o delegado de repressão a extorsão mediante sequestros do Estado da Bahia, Adailton de Souza Adam, vem realizando um excelente trabalho e pedem apoio das vítimas para elucidar os sequestros contra os ciganos de Camaçari/BA.
“A preocupação com o aumento de sequestros e violência contra os Ciganos da Bahia precisam de trabalho repressivo por parte da Segurança Pública, no sentido de facilitar a identificação dessas pessoas, que promovem esses delitos. A CPI vem no momento oportuno. Não queremos generalizar. Sabemos que a Polícia Militar e a Polícia Civil têm membros que prezam pela transparência, imparcialidade, ética, zelo e comprometimento com a segurança pública”.
EM CONQUISTA
Na ocasião, Rogério e Paulo apresentaram algumas ocorrências evolvendo policiais da Bahia, como a chacina em Vitória da Conquista há três meses (13 de julho) quando oito pessoas foram mortas depois de dois policiais terem sido assassinados por uma família de ciganos, no distrito de José Gonçalves.
No Ofício, o Instituto pede que as mortes dos Ciganos em Vitória da Conquista e região também sejam apuradas, destacando que entre as oito vítimas, um adolescente e um empresário não eram da etnia.
No revide dos policiais, muitos ciganos foram torturados, perseguidos e ameaçados de morte O Instituto, na ocasião, encaminhou um relatório minucioso, com base em investigações, para diversos órgãos de segurança e ligados diretamente na causa dos direitos humanos na Bahia e no país.
Rogério Ribeira aponta atitudes, por ele condenáveis, por parte da corporação policial da região, como o fato de militares receberem elogios pelas mortes de três ciganos em Anagé; investigação desarticulada entre a polícia civil e a polícia militar; fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa PROVITA; policiais justiceiros querem matar, não querem prender; Governo da Bahia permaneceu em silêncio; falta de eficiência nas investigações; corporativismo local; e risco de novas execuções.
Ele argumenta que o Brasil tem um compromisso internacional ao ter assinado, em 2007, o protocolo facultativo da Convenção da ONU contra a tortura. No entender de Rogério, a CPI é um mecanismo para a busca de informações e para contribuir com a discussão de uma nova política de segurança pública, principalmente nas abordagens policiais.
“O parlamento não pode se omitir frente a fatos que estão comprovados. O Instituto Cigano do Brasil-ICB não compactua com nenhum tipo de violência e repudiamos todo ato dessa natureza, qualquer ordem ou origem. Sempre vamos defender o amplo diálogo e não iremos aceitar que os ciganos inocentes sejam vítimas de ação truculência absurda e desnecessária. Os “criminosos” devem responder na justiça pelos seus atos” – assinalou.
UMA CLASSE ESQUECIDA
Não é mais nenhuma novidade dizer que a cultura em nosso país, tachada de comunista pelo capitão-presidente e seus seguidores da morte, está sendo estraçalhada, mas ela resiste às forças do mal. Dentre as tantas linguagens artísticas, a literatura, representada pelo escritor, é a mais devastada de todas. O Dia Mundial do Escritor (13/10) passou em branco pela mídia e outros organismos.
Como na Idade Média, livros estão sendo destruídos e queimados nas fogueiras dos inquisidores vindos dos infernos. Para completar essa destruição por parte do atual governo, por incrível que pareça, a classe de escritor está sendo ultrajada e esquecida pela própria categoria que tudo deveria fazer para prestigiar o artista da escrita, o artesão da palavra e aquele que faz texto e literatura.
Não desmerecendo seu grande talento de intérprete da música popular brasileira, leio que a cantora Maria Betânia acaba de ser erguida ao Olimpo da Academia de Letras da Bahia. Não existe aqui em nosso Estado, ou no Brasil, um merecedor de tal honraria, que tenha uma obra aceitável? Será que o escritor também pode ganhar o prêmio Grammy de música algum dia, mesmo sem conhecer uma nota, como bem indagou Achel Tinôco, no Espaço Opinião do Leitor do “A Tarde”?
Há uns dois anos deram o Prêmio Nobel de Literatura ao cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, que se recusou receber pessoalmente a grana de um milhão de dólares. Mais recente, a atriz Fernanda Montenegro tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Na época, teve gente que disse que ela foi agraciada pelo mérito de ter escrito aquela quantidade de cartas no filme Central do Brasil. Alguém pode ganhar um Oscar pelo filme em que não atuou?
Concordo com Achel quando afirma que os autores precisam de mais reconhecimento para desenvolver seus trabalhos, caso contrário haverá uma grande debandada de grandes artistas das letras para outras áreas. O escritor é aquele primo mais pobre dos pobres.
Quando se fala de arte, a classe de escritor é a menos lembrada, principalmente em situação difícil como nesse período da pandemia. Muitos entendem que somente a música, o teatro e a dança, por exemplo, precisam de ajuda dos poderes públicos. Praticamente deixam de fora de um auxílio o escritor que também ficou na penúria porque não pode lançar sua obra durante a pandemia.
MOÇÕES DE APLAUSOS E CRÍTICAS À PREFEITA
A sessão de ontem (dia 13/10) da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, depois da leitura da ata e da pauta do dia, foi aberta com a entrega de diplomas a diversos homenageados com moções de aplausos, mas também com duras críticas à prefeita Sheila Lemos pelo presidente da Associação de Moradores do distrito de José Gonçalves, Eunápio Novais.
O primeiro homenageado do dia foi o major Edmário, diretor do Presídio de Conquista pelos serviços prestados à frente da casa de detenção. Ele agradeceu a moção de aplauso e dedicou o reconhecimento da Câmara aos 145 policiais que trabalharam com ele quando comandava esse pelotão de segurança na zona oeste.
Receberam também moções de aplausos o jornalismo da TV Uesb pela cobertura na área da ciência, o jornalista Tico Oliveira, dono do Jornal Impacto pelos seus 34 anos de atuação no município e região, o Sindicato de Limpeza/Regional da Bahia, um representante dos estudantes e uma mulher que recebeu o diploma Loreta Valadares.
As críticas veladas à prefeita vieram da Tribuna Livre ocupada por Eunápio Navais, representante dos moradores de José Gonçalves. Primeiro ele rebateu as fake News divulgadas na internet dando conta de que as torres de celulares instaladas no distrito foram obras da Prefeitura, quando, na verdade, foi uma intervenção do Governo do Estado.
Afirmou ser vergonhoso a prefeitura se apropriar de um serviço que não contou com a ação do poder público local. Acrescentou mais ainda que a prefeita vive passeando por vários lugares enquanto a zona rural está abandonada.
“Cadê a Comissão de Agricultura da Secretaria? Prometeram que iriam canalizar água nos povoados de Roseira e São Sebastião, e até gora nada. Não temos patrol e trator que foram deixados pelos governos passados” – declarou, ao fazer um apelo para que os vereadores tomem uma atitude e se posicionem em relação aos fatos por ele narrados.

















