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NA LINHA DE FRENTE DA EDUCAÇÃO
Logo no início da pandemia, um vírus desconhecido, a mídia deu o maior destaque para os trabalhadores da saúde que estiveram na linha de frente para salvar vidas. Foram chamados de heróis, e imagens apareciam na televisão de médicos e enfermeiros apressados nos corredores dos hospitais tratando dos doentes.
Na área da educação, poucas matérias foram elaboradas sobre o grande esforço que tiveram, e ainda têm, os professores para lidar com a tecnologia da internet, para oferecer aulas remotas a estudantes isolados em suas casas sem aprender as lições de matemática, português, geografia, história, ciências, biologia e outras disciplinas.
Conheço casos de professores que tiveram que se desdobrar para cumprir suas tarefas de mestres e até colocaram dinheiro do bolso para comprar equipamentos e aprender como chegar ao outro lado da linha do aluno (muitos ficaram para trás por não dispor de internet em casa).
As prefeituras não deram o devido suporte para esses profissionais que estiveram na linha de frente da educação e foram heróis anônimos incansáveis que tudo fizeram parta passar conhecimento e saber. Sabemos que as perdas foram grandes, mas o trabalho deles foi hercúleo para minimizar os prejuízos, levando ainda em consideração que o nível da educação no país é baixo.
Agora, com o retorno presencial (não totalmente), os professores vão ter que se virar mais ainda para reforçar o aprendizado dos alunos que estão atrasados nas matérias, sem contar os milhares que abandonaram as escolas e precisam de estímulo do corpo docente para retornar aos estudos.
Além de não ser bem remunerada pelo poder público como deveria, a categoria não dispõe dos recursos materiais necessários para passar um ensino de qualidade, e é pouco reconhecida pela sociedade como profissão essencial para o desenvolvimento de um país.
A educação também salva vidas (não somente a saúde), mas num país de incultos como o Brasil, as pessoas dificilmente param para refletir nesse aspecto fundamental que é o ensino. Nenhum governo colocou em sua política a educação como prioridade porque aprenderam a aproveitar da ignorância, do analfabetismo e da falta do saber para se perpetuarem no poder através do voto.
Com todas as dificuldades pela frente, como nessa pandemia que obrigou o isolamento e fechou as escolas, os professores de um modo geral foram os heróis da linha de frente, se bem que não gosto de citar essa palavra herói porque foi muito banalizada nos últimos tempos. Eles fizeram aquilo que não estava ao seu alcance, e tiveram que se atualizar e a se adequar, sem o apoio ideal dos governantes.
OS POBRES E A EXTORSÃO DOS PASTORES
Reza a Constituição Federal que é dada ao cidadão o direito de professar a sua fé através de uma religião da sua escolha, o que significa que existe a liberdade de criação de qualquer igreja em território brasileiro. No entanto, constitui crime o abuso dessa liberdade para praticar extorsões contra os pobres e pessoas vulneráveis que são facilmente vitimadas pela lavagem cerebral de pastores evangélicos inescrupulosos.
No Brasil de hoje temos várias pandemias de doenças, não apenas da Covid-19, da dengue, da gripe influenza e outras. Uma delas que está assolando nossa gente mais inculta e sem instrução, é o fanatismo religioso, mais parecido com o talibã do Afeganistão ou aquele islamismo radical que degola cabeças em nome de Deus.
Talvez aqui ainda seja pior, porque muitos pastores de determinadas igrejas se tornaram verdadeiros bandidos. Se houvesse justiça, eles estariam na cadeia. Em troca de um pedaço no reino do céu, o povo mais sofrido com as mazelas do nosso país está sendo iludido a deixar o pouco que tem na mão de um pregador de araque que só visa o dinheiro.
Mesmo com as tragédias e catástrofes, como as mais recentes na Bahia, a inflação que corrói a merreca de um salário mínimo ou o auxílio do Bolsa Família, o desemprego e a informalidade galopante, esses criminosos não dão trégua e estão sempre de plantão. Eles arrancam tudo do ingênuo fiel em nome da “fé religiosa”.
Contra esses pastores safados que têm bens móveis e imóveis, carros, mansões e comem do bom e do melhor, a justiça brasileira (Ministério Público, OAB, os tribunais e a própria polícia) nada faz para fechar essas igrejas e prender seus pastores que vivem da extorsão dos pobres. São os mercadores do templo e, se Cristo voltasse, chicoteava todos eles.
Além da exploração desenfreada, eles enganam com curas e milagres que não existem. Armam truques que levantam paralíticos de cadeiras de roda, cegos passam a enxergar, mudos a falar e surdos a ouvir. Eles tratam de pessoas com AIDS e do vírus da Covid com chás, grãos de feião ou ervas do mato. É um absurdo o que vem acontecendo há anos, e nada é feito para parar com esses vigaristas, falsários e estelionatários.
As pessoas que vêm do campo para as cidades e passam a morar nas periferias são alvos prediletos dessas igrejas que existem em qualquer praça ou esquina de rua. Os mais necessitados são atraídos com promessas de ajuda e melhoria de vida. Como não contam com assistência social do poder público, essa gente torna-se refém desses pastores que têm como maior “missão” o lucro. Ganham por comissão pelo que arrecadam desses pobres. Repassam a maior parte para seus chefes.
No Brasil essas igrejas fanáticas atuam livremente, mas em outros países, como no continente africano, estão sendo expulsas pelos governos. Como na época dos descobrimentos, o argumento desses chamados “missionários da fé” é sempre o de catequizar os chamados “pagãos” que não seguem sua religião. O papo é ainda salvar almas perdidas, mas praticam mesmo é a extorsão.
UM PAÍS DE “CIENTISTAS” COM BAFO DE CACHAÇA
O Brasil de hoje mais parece um país de botequim onde todos ali naquele ambiente de cachaça, ou cerveja mesmo, entende de tudo, e cada um dá o seu palpite, mesmo sem o devido conhecimento de causa. Cada um quer se aparecer mais que o outro e passa informações deformadas que ouviu de algum imbecil. Vale aquele ditado de quem ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
Por que você ler tanto nas redes sociais, principalmente agora nesses tempos pandêmicos, neófitos sem nenhum saber científico opinando o que é certo e errado, como se fosse um cientista? Na minha profissão, por exemplo, todo mundo entende de jornalismo, e não adianta tentar argumentar o contrário. Será mesmo mania de brasileiro achar que entende de tudo? É um país de “cientistas” com bafo de cachaça.
Por que milhares de pessoas não seguem o que diz a ciência, conduzida por cientistas que dedicam toda sua vida a estudar para oferecer soluções viáveis de curas de doenças graves, como essa maldita Covid-19 e suas variantes? As fake news aparecem como avalanches, ou como tsunamis devastadores.
Como um ignorante sem nada entender da área pode se colocar contra, por exemplo, à vacinação de crianças de cinco a onze anos? Para completar, ainda solta um monte de “cargas d´água”. O pior é que ainda tem gente que concorda! Outros falam de medicina, sem ao menos nada saber sobre a anatomia do seu próprio corpo!
Por onde tenho andado, muitas vezes ouço barbaridades, coisas sem nexo, sem nenhuma lógica e sem fundamento. Faço tudo para me controlar e sigo em frente porque em nada adianta contra- argumentar com um bruto que pode partir para a violência e até lhe matar.
O nosso país se tornou num grande botequim de bêbados, enquanto as doenças se espalham deixando um rastro de destruição de vítimas. Temos quase 620 mil mortos pela Covid, número que poderia ter sido bem menor, não fossem esses “cientistas de botequim”. Com um governo negacionista, só poderia dar nisso.
Agora, a vacinação das crianças está sendo obstruída e retardada pelo Ministério da Saúde, comandado por um médico que jogou seu diploma no lixo e por um capitão-presidente expulso do exército. Está vindo aí uma nova onda da ômicrom, misturada com a gripe da influenza, porque os infectologistas e epidemiologistas foram substituídos pelos “cientistas de botequins”.
Essa de qualquer brasileiro se meter a saber de tudo, não acontece somente na ciência. Temos uma massa ignara e inculta que se arvora entender de direito, de engenharia, arquitetura, de história e outras áreas do saber. Ele é até visto como um grande intelectual e culto.
Tem aquele bêbado nojento e petulante que dá uma de dono da verdade e assegura para o outro ao lado que aquilo que ele está falando é o certo. Ah de quem contrariá-lo! É uma briga na certa! Quando ele sai trocando as pernas, cambaleando, ainda tem gente que o elogia como o cara que tem muito conhecimento. Basta ter um palavreado bonito e arrotar um monte de besteiras! Afinal de contas, estamos num país de “cientistas” falantes, com bafo de cachaça!
TODOS QUEREM UM ANO MELHOR
Tenho lido nos jornais e ouvido nos meios eletrônicos ”receitas” de psicólogos, economistas, religiosos, consultores e até de escritores de livros de autoajuda de como ter um ano melhor do que o que passou. Na verdade, todos querem ter um ano melhor, mas não basta querer.
Não é o ano que muda a gente, mas, ao contrário, é a gente que muda o ano. A passagem festiva, comemorada há séculos, é só um calendário. Se refletirmos bem, ele nos torna mais velhos, e não adianta fazer metas e promessas, se não houver a mudança interior, a força de vontade.
Nesse Brasil atual, tão difícil de viver e de se conviver uns com os outros, da falta de respeito mútuo, tudo se torna mais complicado, principalmente depois de dois anos de pandemia e com outro surto batendo em nossa porta. Não entra aqui a questão de ser, ou não pessimista. Temos que encarar a realidade de que o esforço para as coisas melhorarem tem que ser maior.
Quando juntamos todos problemas que o país atravessa num só cesto (são muitos se formos citá-los), confesso que bate no peito aquela angústia, mas logo penso no espírito guerreiro de não cair na tentação do desistir enquanto existe vida. É mais uma prova que tenho que enfrentar, e só posso fazer isso seguindo em frente.
Portanto, não existem receitas, porque cada pessoa é um ser diferente, com suas questões existenciais e sentimentos próprios. Seu ano não pode ser bom, se você não aceitar o outro como ele é, se você não dedicar uma parte do seu tempo ao conhecimento e ao saber e se não for mais humildade e menos presunçoso, mesmo que ganhe na loteria.
Falei aqui que não existem receitas mágicas de como viver um bom ano, mas se continuar falando e escrevendo mais, vou cair nos mesmo erros de quem acha que tem o caminho para a felicidade. Como diz o poeta cancioneiro, se cair, levante outra vez na busca do seu ideal. Todos querem um ano melhor, mas nem todos chegam lá.
CHUVAS, BUROCRACIA E FESTAS
Depois das chuvas e os estragos físicos e humanos, o sofrimento das vítimas tende a se agravar. É como uma grande ressaca depois de uma bebedeira. O socorro de alimentos, vestuário e objetos de uso pessoal feito através de doações serve de alívio nos primeiros dias, mas aí entra a burocracia que impede a recuperação de prejuízos e danos materiais para quem tinha pequenos negócios como meio de sobrevivência.
A mídia faz a cobertura jornalística dos fatos que acontecem no dia-a-dia, muitas vezes até com certa dose de sensacionalismo, mas esquece de pautar matérias para averiguar se as famílias foram mesmo atendidas como prometeram os governantes. Dentro de mais um mês, ninguém fala mais nisso e nem retorna aos mesmos lugares das catástrofes e das tragédias.
Infelizmente, essa prática é um dos maiores defeitos da nossa imprensa, inclusive a nível internacional. Em nosso Brasil, ainda com maior gravidade por causa do fantasma da burocracia que deixa muita gente para trás quando tenta recorrer ao recurso do governo para erguer sua casa, seu comércio ou adquirir utensílios valiosos que foram destruídos.
Quando se vai bater à porta da verba anunciada, o processo é sempre emperrado nas exigências de papéis e provas de que a família perdeu seus pertences. Essa medida de liberação do FGTS para o trabalhador é sempre praxe nessas ocasiões, só que milhares não dispõem desse dinheiro porque são desempregados e informais. Se for o caso de auxílio, tem que ter o Cadastro Único, e aí muita gente fica de fora do programa.
A Bahia, o estado mais afetado, como cerca de 100 mil desabrigados e quase 700 mil afetados pelos temporais, vai ficar com uma merreca dos 80 milhões de reais do governo federal destinados para o Nordeste. Essa conversa de que é só no início, não convence. Os prejuízos são incalculáveis, e o Governo do Estado não tem condições de arcar com tudo, como conserto das estradas.
Outro fato que a nossa mídia deixa de questionar são as festas de final de ano que muitos prefeitos vão realizar. Além de ser um tremendo desrespeito diante da situação calamitosa, tem o lado da contradição com a tão decantada solidariedade do povo brasileiro, que confunde doação de cestas básicas com sentimento humano.
A prefeitura de Salvador está anunciando shows pirotécnicos em 20 pontos da capital, sem contar os gastos com músicos e cantores. O município de Porto Seguro, no sul, região mais castigada pelas chuvas, vai realizar a maior queima de fogos de artifícios de todos os tempos. Vivemos no país das contradições e dos absurdos, principalmente na Bahia, cujo cenário atual é de terra arrasada pelas enchentes.
Todo esse dinheiro que está sendo investido nas festas de final de ano não poderia ser revertido para as milhares de famílias que hoje estão sem nada e vivendo em abrigos improvisados, expostos a todo tipo de doenças, inclusive da Covid-19 e da gripe influenza? Cadê o sentido de solidariedade? Tudo isso não passa de um grande paradoxo, pouco comentado pelos veículos de comunicação, porque eles também lucram com as festividades.
AS CHUVAS E O DESEQUILÍBRIO CLIMÁTICO
A Bahia e Minas Gerais sendo arrasados pelas chuvas e ele de férias em Santa Catarina se aglomerando com seus malucos seguidores e declarando que não vai vacinar sua filha de 11 anos. Mais parece coisa do anticristo na figura de um Herodes que mandou matar as crianças na Judéia. O pior é que ainda fala em pátria amada.
Sem mais comentários sobre essa personagem amaldiçoada num Brasil que sofre hoje todos os tipos de mazelas. Sobre as chuvas torrenciais em pleno mês de dezembro, prefiro classificá-las como desastre ecológico ou desequilíbrio climático de tanto o ser humano castigar e poluir o meio ambiente. Sobe o nível do mar e as catástrofes varrem a terra, impiedosamente.
O pior em tudo isso é que são sempre os pobres os mais atingidos pelas tragédias, como dessa natureza que leva tudo pela frente e deixa um rastro de destruição e mortes. Nesses casos, a mídia foca na força das águas e nos alagamentos que expulsam os moradores de suas casas, mas existe um conjunto de fatores lá atrás que, somados um ao outro, agravaram mais ainda a situação. As consequências só poderiam ser desastrosas.
O homem pratica o mal contra a natureza e esquece do que faz. Na hora de pagar a conta sempre lembra de pedir socorro a Deus, e ainda diz que tudo está sob o seu controle, como se fosse Ele o causador da desgraça. Quando o temporal passa e as águas baixam, foi Deus que assim quis. É a cultura do homem religioso que não se previne.
Primeiro polui o ar de gazes tóxicos; despeja todo tipo de lixo no planeta para satisfazer seu consumismo desvairado; desmata as margens dos rios; levanta habitações em locais inadequados; constrói barragens de barro e acha que nunca virá o castigo.
Os governantes do passado e do presente continuam cometendo os mesmos erros, e o quadro só tende a piorar, com custos cada vez mais altos porque não se fez o devido controle lá na frente. Nessas horas, uns aparecem para capitalizar mais votos e outros somem, mas sempre quem leva a bordoada é o povo pobre que perde tudo, até a vida, mesmo com as ajudas que logo são relegadas.
Estava demorando a imprensa fazer seu sensacionalismo barato através de um “herói” dos resgastes, como do idoso em Itabuna que, sozinho e teimoso, insistiu em ficar dentro de casa, mesmo com a água subindo. Visivelmente uma pessoa desorientada e sem parentes para lhe cuidar. Não vi a repórter entrevistando algum filho ou neto do senhor que foi socorrido por alguns moradores.
Há quase 30 anos, ainda na atividade jornalística, acompanhei volume de chuvas desse porte, em 1992, quando testemunhei, como repórter, cidades como Guanambi, Ibiassucê, Caculé, Caetité, Malhada e outras invadidas pelas águas, mas não no final de ano.
Lembro o quanto foi difícil fazer as coberturas enfrentando correntezas de rios em cima de tambores e passando de barco quase no nível das copas das árvores, com cobras caindo dos galhos. Registrei, com o fotógrafo José Silva, pontes caiando e bairros dentro d´água onde o povo chorava com as perdas.
NÃO GOSTO DE FINAL DE ANO
A televisão anuncia a ceia de Natal com peru, chester, nozes, ameixas, castanhas, lentilhas para dar sorte, produtos importados e vinhos na farta mesa. Os preços subiram, mas isso não faz diferença para a elite. Do outro lado, o pobre deve imaginar que a sua “ceia” é feita de feijão com arroz quando ele é um dos felizardos das doações da cesta básica. O barraco, na maioria, fica lá na encosta da periferia ou no alto do morro, sem nenhum sistema de saneamento. As crianças correm de pés no chão em pleno esgoto a céu aberto.
Nas lojas e shoppings, os movimentos de compras de presentes superam todos os anos, evidenciando um consumismo exagerado. Milhões nem passam por lá porque são malvistos. Alguns meninos e meninas ganham uns brinquedos doados, e assim a cena se repte todos os anos. Alguém diz que a cesta significa também uma esperança, mas que esperança, se não lhe é oferecido a instrução e o emprego? Se não lhe é dado uma alternativa, uma saída?
Por isso que não gosto desse final de ano de Natal tão desigual, e da queima de fogos de artifícios que brilham nos céus, desse estampido dos champanhes, dos comes e bebes luxuosos e dos uísques festejantes. Lá fora, nas marquises e viadutos, os moradores de rua dormem ao relento, e o número deles só faz crescer.
Não gosto desse Natal, nem desse final de ano porque não aguento mais ouvir bordões de amor e paz, de Feliz Natal e Ano Novo, de que as coisas vão melhorar, como se ao amanhecer, em questões de horas, a vida tomasse outra forma. Nisso tudo, existe mais falsidade que sinceridade. Dizem por aí que nesse período a pessoa fica mais sensível, mas no amanhã se volta a ser uma multidão invisível.
O solstício de inverno do hemisfério Norte, quando o sol faz os dias mais longos, virou Natal dos anos 300 da era cristã imperial dos romanos, instituído por Julius I. Era uma antiga festa pagã dos celtas e dos druidas. Era também festa de Mitra, o deus persa da luz e do Hanukkah entre os judeus.
O cristianismo escolheu uma data mais próxima às crenças de todas religiões para atrair mais seguidores, mas queria que esse Natal fosse de todos os irmãos da fome. Assim nasceu o Natal, “natale domini”, e São Francisco criou o presépio de um Deus Menino de olhos azuis, numa manjedoura cercada de animais e dos reis magos.
O Papai Noel veio lá dos gelados países nórdicos com seu trenó que só passava na casa dos ricos, como até hoje. Os pobres miseráveis nem têm acesso a um shopping ou a uma loja de consumo. De um lado, as reuniões do clima onde os reis assinam papéis para reduzir o aquecimento global. Do outro, o incentivo consumista do capital guloso para crescer o tal do PIB (Produto Interno Bruto), cujo bolo nunca é dividido entre os mais pobres. Ainda continua sendo o Natal do esbanjamento para alguns, e frustração para muitos, mesmo com as campanhas de doações.
Esse Natal só me faz lembrar daquele menino retraído ao pé do fogão a lenha, ao lado da mãe cozinhando um feijão sem carne. O pai que vive de bicos foi à rua logo cedo para tentar ganhar uns trocados, para fazer umas comprinhas. Desiludido e sem nada, passou no boteco e encheu a cara de pinga. Chegou tarde à noite revoltado por sua condição social e quebrou tudo.
Na confusão, a polícia passou e levou aquele homem para a cadeia, e lá deram-lhe umas bordoadas. Sem dinheiro e sem emprego, a família foi despejada do casebre porque não pode pagar o aluguel e passou a engrossar a lista dos moradores de rua. O menino daquela triste noite nunca mais gostou desse Natal, nem eu.
Enquanto isso, os bilionários em foguetes potentes festejam passeio no espaço para, das alturas, ver uma parte do universo cheio de estrelas, e lá embaixo a terra azul a navegar com seus oito bilhões de habitantes, dos quais, quase um bilhão vivendo em extrema pobreza. Nela está o Brasil isolado viajando na contramão, detentor de títulos negativos na educação e um dos maiores índices de desigualdade humana e social.
HOMENAGENS E “TODO PODER EMANA DO POVO”…
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista de ontem (dia 22/12), uma das últimas do final de ano antes do recesso parlamentar, concedeu mais homenagens e moções de aplausos a diversas personagens e entidades da cidade, como à prestada à enfermeira Ana Caroline que trabalha na Atenção Básica de Saúde, cuidando de pessoas em situação de risco.
A prática de esportes também foi reconhecida na área do ciclismo para Erivelton Ramos pela realização do VI Trilhão. O Instituto Conquistense de Oncologia foi agraciado pelos seus 22 anos de atuação, bem como a gerência do CRAS. De Itapetinga, o homenageado foi o vereador Romildo Teixeira Santos que falou da sua luta para aumentar o número de parlamentares nas câmaras municipais quando o Supremo Tribunal Federal reduziu as cadeiras, isto há uns cinco ou seis anos.
Enquanto ele falava dessa necessidade de ter mais vereadores nas Câmaras (em Conquista são 21 e Itapetinga 14) mirei na frase escrita na entrada da plenária com os dizeres “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”, artigo extraído da Constituição Federal.
O aumento no número de vereadores foi aprovado pelo Senado Federal, contrariando a vontade popular que fez críticas à votação dos congressistas. O vereador de Itapetinga estava, então, advogando em causa própria, e não em nome do povo. Todos sabem que muitos projetos aprovados no Congresso Nacional, nas assembleias e nas câmaras municipais são mais de interesses deles e não da população.
A frase da Constituição só tem sentido teórico, porque na prática acontece o inverso: Eles usurpam esse poder e votam contrário aos eleitores. Por acaso, nessa situação crítica atual do país em pandemia e com mais de 20 milhões passando fome, o povo aprovaria aumentar o Fundão Eleitoral de R$1,7 bilhão para R$ 5 bilhões?
Há muito tempo que rasgaram toda nossa Constituição. É mais um artigo que foi jogado no lixo. No quadro atual, poder nenhum emana do povo e, praticamente, nada exerce porque os representantes eleitos nem estão aí para a opinião pública, nem dão bola para o que o povo pensa. Será que a sociedade aprova essa verba de quase 17 bilhões de reais para as emendas parlamentares, chamadas de orçamento secreto?
A deputada estadual Talita Oliveira (PSL) entregou ao Ministério Público da Bahia um pedido para suspender o decreto número 20.907 do Governo do Estado, que condiciona o acesso a órgãos do executivo baiano à vacinação contra a Covid-19. Será que ela, como eleita, está representando a vontade popular? O artigo da Constituição é mais uma balela, como aquela expressão de que todos somos iguais, num país tão desigual!
A DOR DA INGRATIDÃO
Nesse sistema perverso onde você vale o quanto “pesa” em termos de projeção, algum cargo importante na sociedade e dinheiro, você é sempre procurado, elogiado e “respeitado”, visto como aquele cara legal. Quando se perde tudo, as pessoas, aos poucos, vão se afastando. Por mais que se tenha feito, bate em sua alma a dor da ingratidão e da falta de consideração.
Diz que a vida nos ensina isso e, quanto mais se vive, se descobre as falsidades. A gente vai com isso perdendo a fé no ser humano. Esse negócio de amigo é coisa rara, e o meu velho uma vez me chamou a atenção para esse fato quando um dia lhe apresentei um “companheiro” como sendo meu “amigo”. Amigo certo só aquele das horas incertas, e isso é coisa difícil de se encontrar nos tempos atuais.
Podem até dizer que é ressentimento da minha parte, mas não se pode fugir dessa dura realidade. A grande maioria é egoísta e só pensa em si. Existem aqueles que só querem ser servidos, e ainda abre a boca para afirmar e dar palminhas em suas costas com mentirosa expressão de que você é seu amigo irmão.
São coisas que vão endurecendo o nosso coração e nos fazem ser mais fechados e retraídos. É muito doido quando se trata bem, com educação, com carinho e lá na frente se é esquecido. O tempo nos faz ver que não existe essa de solidariedade, com alguma exceção. O interesse fala mais alto. Não existe almoço grátis – como já declarou alguém por aí.
Não vou aqui citar os casos de ingratidões e falta de consideração de pessoas que durante anos mantivemos um convívio saudável, de declarações comoventes de amizades e depois desaparecem. O mais horrível e repugnante são aquelas desculpas fajutas de ausência, como se o outro fosse um burro, desprovido de qualquer nível de inteligência. Não subestime os outros. A sinceridade eterna não existe.
Não estou aqui falando de questão ideológica, de polarização política ou posições antagônicas em termos de pensamento de ideias. O cerne do problema está na ingratidão que o ser humano em geral carrega dentro de si e nos causa decepção. Quando isso acontece, o melhor que se pode fazer é se afastar e se recolher em sua loca como ocorre com aquele animalzinho chamado de mocó.
SONHO DE PESADELO
Às vezes temos a impressão que ingerimos um pesado alucinógeno que faz a cabeça ferver como num pesadelo em meio a escombros e monstros alucinados de chifres a nos perseguir. Corremos desesperadamente entre labirintos para fugir dos horrores, e as saídas que imaginamos se fecham.
Em algum ponto da agonia de morte, acordamos suados de tanto esforço para nos salvar. Somos uma massa de desumanizados, embora se fale muito em solidariedade e se arrecade cestas básicas para os famintos. Temos um Natal de mesas cheias para poucos, e vazias para uma grande maioria. As festas de fogos coloridos nos finais de ano não me encantam mais. Sou mais os foguetórios de São João, quando alguém se casa ou nasce uma criança.
Quando ainda menino, meu pai dizia para não ficar na roça no cabo da enxada porque aquilo era o maior atraso para o homem. Passados muitos anos, cá estou na grande cidade agitada, de multidões apressadas que se cruzam indiferentes na luta pela sobrevivência. Olho para o alto e só vejo edifícios. A minha selva de árvores é de pedras num céu sombrio de nuvens raras e sem cores. Com as luzes incandescentes dos postes que deslizam no asfalto e fios embaralhados, não vejo mais a lua dos enamorados. Meu sonho virou um pesadelo.
Cada um tem algum problema para resolver porque as faturas e os boletos das contas chegam todo final de mês para pagar. O telefone sempre toca do outro lado de algum call center oferecendo um produto. Aquela musiquinha chata nos irrita. Fico estressado e desligo. A grande maioria virou freguês cativo do sistema que não perdoa quem sair das regras emanadas lá do alto do grande escalão das castas.
O cérebro arde quando a inflação aparece nos letreiros das prateleiras dos supermercados e das feiras. Os números sobem nas bombas de combustíveis, milhões vagam desempregados, um homem de terno com um livro na mão prega o fanatismo na praça e condena aqueles que ele considera de infiéis, pagãos e depravados. Acelero meus passos entre camelôs que gritam para vender suas mercadorias, e nas sinaleiras a fome pede comida.
Meu pai também comentava que no final dos tempos (acho que se referia ao juízo final), o mundo ia virar um formigueiro de um movimento acelerado de pessoas indo e voltando. Uma mulher caiu na calçada, mas ninguém viu. Os letreiros me convidam para entrar. Às vezes fixo o olhar na labuta do vaivém das formigas em meu quintal, e logo lembro dos dizeres do meu pai.
Basta um toque no buraco para elas se espalharem perdidas e nervosas. Até se atacam como no chamado feromônio, mas depois com o tempo se acalmam e voltam ao ritmo de antes para a entrada e saída da toca. Refazem os estragos, e o formigueiro volta a funcionar. São incansáveis trabalhadoras que cortam nossas lavouras, mas a natureza sabe o que faz.
O planeta já deve ter cerca de oito bilhões dessas formigas humanas gigantes e, mesmo com bombardeios, pestes, venenos de agrotóxicos e escassez de alimentos para os mais fracos, o número só faz crescer. O que será quando tiver 15 ou 20 bilhões em terras quase desérticas? A profecia do meu pai estará se concretizando. A paisagem poderá se tornar árida na terra dos homens predadores.
Do pesadelo alucinógeno e dos formigueiros das cidades grandes, a vida é real quando se acorda com as ruas e avenidas cheias de neurônios enlouquecidos que cada vez mais se odeiam nas redes sociais. Cada um cuida de si, e o outro é um concorrente que precisa ser expelido. Vale o levar vantagem em tudo, não importam os métodos. Os fins justificam os meios.
Não seria melhor ter ficado na roça no cabo da enxada, ouvindo o cantarolar livre dos pássaros, ou tomando café no bule torrado no pilão numa conversa animada de compadres noite a dentro até o galo cantar, sem pensar no existencialismo e outras filosofias do tipo, ser ou não ser? Quem quer saber do Eu Profundo, ou do saber humanista? Mergulhar em si só se for numa piscina, no rio ou no mar.
Moro hoje isolado num pedaço gigante de uma terra chamada de Brasil onde se vive um pesadelo coletivo de intolerâncias, instigadas por um tamanduá faminto sugador de sonhos e esperanças. Parece que todos foram contaminados pela droga da destruição onde optaram pela separação e a divisão entre nós e eles. Nos chamam de terráqueos bárbaros como cães raivosos. Nos olham de longe como se fossem ferozes e contagiosos.












