:: maio/2024
LÁ SE FOI NOSSA HISTÓRIA
Muitos falam que não devemos olhar para o passado, mas construir o presente pensando no futuro. Na vida humana espiritual até se compreende, de certa forma, mas quando se trata da nossa história material, é como se a pessoas deixasse de ter sua identidade como referência. É o caso de Vitória da Conquista que destruiu, ao longo dos anos, praticamente todo seu patrimônio arquitetônico do centro, chamada de Rua Grande (Praça Tancredo Neves, Barão do Rio Branco e imediações, como a atual Praça Nove de Novembro). A 9 de Novembro (data que se celebra a emancipação de Conquista), por exemplo, no início do século XX era cercada de bares e lojas antigas. Além dos coronéis e jagunços que frequentavam a vida noturna, ali foi palco de muitos carnavais com seus blocos que deixaram saudades. Na Barão do Rio Branco existiam os casarões antigos e um barracão que servia de rancho para tropeiros (hoje é a primeira Igreja Batista). No centro da praça, um prédio com bares, lanchonetes, sorveteria e uma área de parada de ônibus. Tudo isso foi a nossa memória, simplesmente derrubada para dar lugar a edifícios modernos, como Banco do Brasil, do Nordeste, Caixa Econômica Federal, hotéis e empresas. Hoje é um amontoado de carros soltando gases tóxicos e poluição visual com um emaranhado de fios. Conquista é uma cidade de mais de 300 mil habitantes, a terceira maior da Bahia, que não tem entro histórico para mostrar ao visitante que chega.
O NORDESTE E O SUL
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Duas regiões distintas,
Com seus riscados culturais,
Uma roga pela chuva,
A outra que venha sol,
Oh, quanta tormenta e ternura!
Choro e lamúria!
Nos traçados, temporais!
Dizei-me, oh Senhor Deus!
Sobre esta pintura,
Donde vem tanta fúria?
No Nordeste queima o paiol,
O dilúvio bate no Sul,
E o poeta carrasquento,
No lamento do gaúcho,
Fica solitário e nu.
A seca racha o solo,
Mata a plantação e o rebanho,
Empurra o pau-de-arara para o Sul,
A mãe consola a criança no colo,
E o retirante segue escravo do ganho.
Leva anos e mais anos,
O nordestino ancestral,
Hoje é moço-menino,
E agora vê a enchente do Sul,
Tempestade, lama e vendaval,
Os rios do Pampa viram mar,
Matando nossos hermanos de lá.
Dizei-me, Senhor Deus!
Do Olimpo, o Zeus!
Para aonde vai essa caravana?
Contra nossa natureza,
Castigada pela mente insana,
Oh quanta loucura e avareza!
Tragédia, morte e terror!
Do Norte ao Sul,
Oxalá, meu pai xangô!
Não sei o que será dessa terra,
De tanta riqueza e pobreza,
Não faço parte dessa guerra,
Desse capital predador,
Que só criou sofrimento e dor,
Como o capeta belzebu,
Rachando o Nordeste e o Sul.
OBRAS DE CONTENÇÃO E TRANSPARÊNCIA
Será que seria necessária uma comitiva tão grande de ministros, inclusive do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), para visitar o Rio Grande do Sul? Não ofende perguntar. O cenário exige serenidade e não o uso político.
Bem, vamos deixar essa questão de lado e tratar daquilo que é mais importante depois que o sol rei voltar ao seu trono e as águas baixarem em Porto Alegre e em todas as cidades atingidas do interior.
É só retirar as lamas e os entulhos das casas e ruas, pintar os prédios, reconstruir as estradas e erguer as pontes levadas pelas enxurradas? Vamos fazer de conta que outras tragédias não mais se repetirão? A natureza vai perdoar os malfeitos que estão fazendo contra ela?
Pelas imagens e noticiários da mídia em geral, todo Brasil está chegando junto para socorrer as vítimas, não somente com donativos, material humano, mas também com dinheiro. Até agora não se sabe quanto, mas deve chegar a milhões ou bilhões de reais.
O governo federal está dando sua cota de contribuição, mas a sociedade civil bem mais, como sempre acontece. Já imaginou o quadro sem a solidariedade humana?
Isso de antecipar verba da restituição do Imposto de Renda, do seguro desemprego, do FGTS, do décimo terceiro, parcelas do Bolsa Família e coisas assim cheira a demagogia. Quem receber sentirá lá na frente que foi iludido porque ficará sem a grana.
Com esses bilhões de reais que o estado vai contar, inclusive com o cancelamento da sua dívida para com a União por três anos, até o momento, pouco se falou em realizar obras de contenção para enfrentar futuras intempéries e catástrofes, apenas que vão relocar algumas unidades de tratamento de água, mais por exigência da natureza.
Sabemos que no ano passado as enchentes provocaram os mesmos estragos e nada foi feito nesse sentido, falo de obras de proteção. Por causa disso, milhares de gaúchos já reconstruíram seus bens móveis e imóveis por até três vezes. O governo vai deixar novamente tudo como está, e nenhum segmento político e social, inclusive a mídia, não vai cobrar que se faça projetos de contenção?
Outra coisa que queria saber é sobre a questão da transparência no que se refere à prestação de contas de todas doações dos brasileiros, principalmente no tocante aos milhões ou bilhões em dinheiro enviados ao povo do Rio Grande do Sul.
Entendo que todos aqueles que deram alguma quantia, seja pobre ou rico – aliás essa tragédia atingiu todas as classes sociais – têm o direito de saber onde seu dinheiro foi investido em benefício do cidadão, e se foi bem empregado. O mais trágico é que nesse Brasil não existe cobrança. Dane-se a transparência. Vamos torcer para que não haja corrupção.
E QUANDO AS ÁGUAS BAIXAREM?
Quem assistiu ou ouviu cientistas, arquitetos urbanistas e especialistas falando sobre como foram feitas as obras de contenção contra as inundações em torno de Manhattan, de Nova Iorque, na foz do Rio Hudson, e em Amsterdam, na Holanda, deve ter percebido como nosso país está atrasado e primitivo neste quesito.
Infelizmente aqui não temos planejamento. A preferência é maquiar e improvisar, para que tudo continue no mesmo. A porta vai continuar aberta para outra tragédia, cuja responsabilidade é do próprio homem que, com sua avareza e ganância, vem destruindo o meio ambiente ao longo dos últimos séculos.
Aqui ainda estamos na base do concreto armado, comportas, bombas, sacos de areias improvisados, tubulações subterrâneas que terminam estourando com a pressão das águas e até aterramento de rios. São obras, conforme ficou constatado no Rio Grande do Sul, que não resolvem o problema das enchentes. Além do mais, não tiveram a devida manutenção ao longo dos anos, desde 1970.
Lá em Manhattan e Amsterdam foram abertos canais de escoamento no próprio solo em torno das cidades e parques, formando pequenos lagos e ilhotas onde a água é retida e não chega a atingir a área urbana. Ainda existem outros sistemas de drenagem que funcionam muito bem.
Quanto ao Rio Grande do Sul, o que vão fazer depois que as águas baixarem? Acredito que simplesmente vão colocar tratores e escavadeiras para limpar os entulhos das ruas, praças e avenidas. A pergunta que fica é: E quando as águas baixarem? Vamos esperar para ver.
As estradas, o aeroporto, as calçadas e pontes vão ser consertados e erguidos para normalizar o trânsito. Prédios receberão alguma reforma com novas pinturas. As casas e bairros serão reconstruídos nos mesmos lugares. Fazemos questão de não aprender a conviver com as catástrofes, como ocorrem até hoje com as secas no Nordeste.
No mais, tudo continuará no mesmo até que os fatos se repitam. Não é isso que sempre acontece no Brasil? Ah, vamos esperar também os casos de desvios de recursos e até de corrupção com as doações.
Fora as perdas de vidas humanas, entre 200 a 300 pessoas, as mais significativas e irrecuperáveis para seus familiares e amigos, não temos ideia dos prejuízos materiais que certamente serão incalculáveis, como também não sabemos o volume de recursos em dinheiro arrecadado das campanhas feitas pelo Brasil inteiro. Temos ainda verbas da União e do Governo do Estado. Juntando tudo isso, vamos ter bilhões de reais.
Somando as contas, entendo que o Rio Grande do Sul terá recursos suficientes para contratar os melhores arquitetos e engenheiros urbanistas, no sentido de elaborar projetos semelhantes aos que foram implantados em Nova Iorque, Amsterdam, na Holanda, e em outros países desenvolvidos.
O DIÁLOGO INTERROMPIDO
Da forma um tanto agressiva como os movimentos negros, feministas, LGBTs e mais colocam a questão e o tema em debate, como se fosse uma guerra aberta declarada contra todos os outros, ao invés de unir, no sentido de que todos sejam iguais e merecem respeito e consideração, está cada vez mais dividindo, criando ódio, intolerância e separação.
Alguém, a esta altura deve estar a perguntar aonde eu quero chegar? Primeiro, eu peço liberdade para passar e expressar meu ponto de vista. Segundo, que não seja logo sentenciado e linchado pela caravana enfurecida. Terceiro, que o diálogo em nosso país, nos últimos anos, foi interrompido, e muita gente boa evita falar sobre determinados assuntos para não ser logo taxado de racista, machista, misoginista, homofobista ou outros istas. Não é impondo que se conquista uma sociedade igualitária e justa.
Uma coisa é a pessoa, e são muitas, declarar e praticar o racismo, o machismo ou homofobismo, outra é dar sua opinião como esses problemas vêm sendo postos com rancor e revanchismo. Muitas falas dão um tom acintoso, como se dissesse agora é a vez de nos vingar e partir para violência. Com minha idade, já tomei muitas porradas na vida e não é mais uma que vá fazer diferença.
A escravidão de 350 anos nas Américas e no Brasil, principalmente, foi abominável, mas a humanidade atual não é culpada para ser colocada no tronco, nem ser crucificada. Nas novelas atuais, a Rede Globo (sempre teve DNA burguês), para conquistar sua audiência como defensora das minorias, está se aproveitando disso e enveredando pelo ridículo equivocado, injetando mais veneno.
Os grupos LGBTs têm todo direito de sair às ruas, praças e avenidas e realizarem suas marchas, mas não precisam agredir religiões e se expor de maneira escandalosa. Sabemos que o Brasil é um país conservador religioso e não vai se mudar isso de uma hora para outra jogando pedras e flechas para todos os lados. As coisas podem ser muito bem colocadas de forma respeitosa.
E, por falar em respeito, entendo que todos devem ser respeitados, não somente o idoso, a criança, a mulher, o negro, o homossexual, o portador de necessidades especiais. Assim como o homem não deve e não pode ser agressivo conta a mulher, a recíproca é verdadeira.
A mulher também não tem o direto de pôr o dedo em riste contra o homem. Tanto quanto os homens, conheço mulheres autoritárias e manipuladoras que acham que podem ser assim porque sua categoria foi há anos subjugada e submissa. Não é assim que a banda toca. É um pensamento enviesado e torto.
Em minha opinião, o respeito vale para todos. Não estou aqui entrando na abordagem dos homens que batem e matam mulheres por ciúmes ou outros motivos. Isso é altamente condenável e deve ser combatido. Estou me referindo a atitudes e comportamentos desses movimentos que, no lugar de abrir o diálogo, só fazem interromper.
Não se deve destilar ódio do passado para aqueles que vivem no presente. Nessa toada, ao invés de curar e fechar as cicatrizes, a raiva só faz abrir mais as feridas. Tem gente que já traz, ou guarda consigo ao lado, uma bolsa de veneno para jogar na primeira discussão que lhe desagrade e não esteja dentro do seu politicamente correto.
Infelizmente, o diálogo está interrompido e atravancado. Existe um patrulhamento ferrado onde milhares evitam falar para não ser mal interpretado e rotulado como racista, machista e outras coisa horríveis.
Hoje não se pode ter um debate aberto mais acirrado com certas categorias que foram injustiçadas ao longo dos séculos, senão você será processado no rol da questão de gênero. Você está impedido, por exemplo, de dar sua posição sobre as cotas, como se fosse uma coisa absoluta e intocável.
Esse caminho da revanche, do julgamento precipitado e do dividir vão nos levar a algum lugar de reconciliação? Não existe essa de fala, de arte, de literatura e consciência diferenciadas, de acordo com a cor da pele ou de gênero.
Existem expressões culturais diferentes, como nos ritmos musicais. Respeito quem tem o ponto de vista ao contrário, mas sem essa de agressões e rótulos. Não sou gado para ser ferrado. No lugar da esperança, criamos o medo um do outro. No lugar do diálogo, optamos pelo monólogo. No lugar do debate saudável, a agressão e o ódio.
Na minha cabeça e leitura, as pessoas têm o direito de discordar dos programas “assistencialistas” do Bolsa Família e outras políticas públicas, da união do casamento entre gays, mas não podem sair por aí espalhando sua raiva canina. O outro lado, também não. Todos têm o direito de criticar os governantes, com responsabilidade, sem lançar mentiras e ofensas infundadas.
A TRAGÉDIA QUE UNIU POBRES E RICOS
Os abrigos ou acampamentos improvisados para acolher os mais de 70 mil desalojados no Rio Grande do Sul, vítimas das enchentes, mais parecem “campos de concentração” em tempos de guerra. Essa tragédia terminou por unir pobres e ricos porque todas as classes foram atingidas.
São as mudanças climáticas do aquecimento global que já não estão mais fazendo distinção de categorias entre pobres e ricos, diante do tamanho da catástrofe, até agora a maior da história do estado, e porque não, do Brasil.
Se as obras do dique, que foram construídas em Porto Alegre nos anos 70, há mais de 50 anos, tivessem recebido constantes manutenções por parte do poder público ao longo desses anos, talvez as inundações não tivessem tomado tais proporções na capital. Quem avalia isso são os especialistas e engenheiros.
Mais de 100 mortes e mais de 100 desaparecidos são os resultados desse drama até o momento em se tratando de seres humanos, sem falar de animais silvestres e domésticos. Em termos de prejuízos de bens materiais, mais de um milhão foram alvos dessas enchentes, incluindo pobres e ricos.
E quando as águas baixarem (não se sabe quando) e tudo for limpo, o que os governantes (federal, estadual e municipal) vão fazer para que catástrofe como essa não mais se repita? Não espero muita coisa em se tratando do Brasil, um país que não é sério e não tem planejamento.
De acordo com profissionais em questões de mudanças climáticas e levando em consideração de que já estamos em pleno aquecimento global, os diques, comportas e locais de bombeamento das águas devem ser reforçados e ampliados na capital.
Ainda conforme esses técnicos, além de outras medidas que carecem de ser tomadas como forma de prevenção, as cidades dos municípios mais vulneráveis às margens dos rios e bacias devem receber obras de proteção; o canal na Lagoa dos Patos, que faz ligação com o mar, precisa ser alargado; e casas e bairros destruídos pelas enchentes não podem ser mais erguidos nos mesmos locais.
A expectativa é como os órgãos governamentais em geral vão proceder e avaliar os estragos quando as chuvas e tempestades passarem. As pessoas vão reconstruir suas casas nos mesmos lugares? Os governos vão ressarcir os prejuízos de particulares que foram vítimas da irresponsabilidade deles? Empresa e indústrias erguidas em terrenos inapropriados vão ser removidas? Acho que já assisti esse filme.
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” XII
No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, o autor de “A Máscara da África, V. S. Naipaul, após visitar o Museu do Apartheid, destaca o monumento africâner no final da rodovia Joanesburgo-Pretória em homenagem à Grande Marcha dos Bôeres da Colônia do Cabo para o interior na metade do século XIX.
Segundo Naipaul, eles marcharam para se livrar dos britânicos, levando consigo todos seus bens e animais, e foram em carros de boi, numa jornada lenta e árdua. “Os caminhantes nem sempre sabiam o que estavam enfrentando” e muitos deles morreram.
Sobre sua guia turística Fátima, a mestiça coloured, disse que ela na escola teve que estudar sobre A Grande Marcha; todas as escaramuças no caminho se tornaram batalhas. Fátima tinha que saber todos os detalhes de cor. Mesmo assim, num lance de crueldade, a ela não foi permitido visitar o monumento.
A obra é composta de um acampamento circular em seu entorno, com sessenta e quatro carros de bois. Esse número de carros compunha o acampamento quando os participantes foram atacados pelos zulus em 16 de dezembro de 1838. Os zulus foram massacrados e o monumento celebra essa vitória, a de Blood River (rio de sangue).
De acordo com o escritor, as obras do monumento foram iniciadas em 16 de dezembro de 1938, o centenário da batalha. Foi inaugurado na presença de uma multidão de 250 mil pessoas em 16 de dezembro de 1949 por D.F.Malan quando se completou o primeiro ano da política do apartheid, que ele e seu governo do Partido Nacionalista instituíram na África do Sul.
Em seu livro, Naipaul cita o escritor africâner Herman Charles Bosman e sua obra, Mafeking Road, uma das quatro coletâneas de contos. “ O maior conto trata de uma marcha fictícia. A Grande Marcha do Cabo faz parte do folclore daquela gente simples; em sua imaginação, é algo que todos podem tentar. É fácil agora, depois de terminada a guerra dos bôeres, que foi perdida, persuadi-los de que estão prestes a ser oprimidos pelos britânicos lá onde vivem e que devem marchar para a liberdade, para a Namíbia, a África do Sudoeste Alemã”.
“Eu associei os contos de Bosman com o Monumento Voortreker porque ambos compartilham uma ambiguidade, que reside no tema. O Monumento Voortreker não fala apenas da Grande Marcha. Fala também da derrota africana e do sofrimento africano”.
Ao se referir aos contos de Bosman, o escritor de “A Máscara da África” diz que “aquelas pessoas não são apenas gente simples do campo por causa do seu caráter simplório, de sua falta de imaginação, elas trazem um sofrimento indescritível aos africanos que estão entre elas”.
A ENGANAÇÃO DAS VERBAS, A FALTA DE INFRAESTRUTURA E AS IRONIAS DA VIDA
O governo federal está anunciando a liberação de bilhões de reais para socorrer as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul Grande do Sul. Tudo não passa de um marketing político. Acontece que boa parte dos recursos se referem à antecipação do Imposto de Renda, de parcelas do Bolsa Família e do Seguro Desemprego, prorrogação de débitos fiscais, retirada do FGTS e coisas semelhantes.
Considero isso uma tremenda enganação e uma propaganda demagógica porque, se for analisar, o governo não está tirando do Tesouro, mas antecipando um dinheiro que já pertence ao contribuinte por direito ou vai ter que pagar mais tarde no caso de imposto.
Além do mais, trata-se de uma grana que muitos já estavam planejando para realizar um sonho ou comprar alguma coisa lá na frente e não gastar agora. É um recurso que o indivíduo vai receber no momento para cobrir prejuízos imprevistos que teve com as inundações e irá lhe fazer uma grande falta meses depois.
Antecipar, por exemplo, 13º do salário do trabalhador, seja funcionário público ou do setor privado, é um grande engodo e ilusão. Como a maioria dos brasileiros já vive com suas finanças apertadas, no momento ele sente aquele alívio, mas quando chega no final do ano a pessoa vai perceber que fez um mal negócio. Aquele dinheiro é como se fosse uma poupança.
Nas catástrofes e nas tragédias, os governos em geral sempre usam desse método e saem numa boa na fita política porque os brasileiros não param para refletir que é uma enganação. Na verdade, eles só estão adiantando uma verba que já é por direito da vítima.
Por sua vez, segundo pesquisa de uma empresa do ramo, os entrevistados apontaram que a falta de infraestrutura, de responsabilidade dos governos federal, estadual e municipal, foi a maior culpada pelas inundações no estado do Rio Grande do Sul (também em outros estados).
Portanto, pela lógica, a União, o estado e o município é que deveriam arcar com os prejuízos que as pessoas sofreram com as enchentes, no caso específico do Rio Grande do Sul, e não antecipar o dinheiro que já é do seu dono.
Por fim, os mais antigos diziam que a vida dá voltas quando se referia a alguém ingrato que fazia algum mal para seu semelhante e depois terminava recebendo o troco, ou, na maioria dos casos, tendo a mão estendida exatamente daquele que foi ofendido.
Sei que não é momento para fazer tais comentários, mas os nordestinos que sempre são vistos com desprezo e até são xingados pelos sulistas como analfabetos, preguiçosos e ignorantes, agora estão dando suas respostas em forma de bondade e solidariedade, enviando toneladas e toneladas de produtos para os atingidos das enchentes. É a volta que a vida dá. Não desejamos tragédias para ninguém.
VIVENDO DAS PALAVRAS
(Chico Ribeiro Neto)
“Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã”.
(Versos iniciais do poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade).
Pior do que o patrão era o chefe do Departamento Pessoal. Se ele achasse uma brecha, descontava 11 centavos do seu contracheque. “Foi o dia em que você bateu o ponto com um minuto de atraso”.
Jornalista nunca gostou de bater ponto. Um absurdo cobrar que um repórter bata entrada e saída. Você não pode largar uma entrevista às 13 horas dizendo que precisa ir ao jornal para “bater a saída”. Não é porque o jornalista não goste do ponto, é porque não pode. A empresa tem que pagar hora extra ou um salário que a contemple.
Os repórteres são parecidos com os atores de teatro, que sabem que o ensaio tem hora de começar, mas não tem hora de acabar. Jornalistas e atores trabalham com as palavras, e não há “luta mais vã”.
O Departamento Pessoal, com a modernagem, passou a se chamar de Errehagá, um pomposo nome. Num jornal em que trabalhei, quando fui demitido, o chefe do RH (um “fode mansinho”, como todos) me disse com sua voz aveludada: “O diretor mandou lhe dizer que quando precisar de alguma coisa é só ligar para ele. O jornal continua à sua disposição”. Sim, jacaré!
Num jornal aconteceu comigo um caso curioso, já narrado numa crônica antiga, mas que vale a pena repetir:
– É do jornal?
– É, sim.
– Quanto vocês pagam por uma boa ideia?
– Depende. Você manda sua ideia pra gente, o jornal analisa e, se aprovar, compra sua ideia.
– Aonde?! Depois vocês ficam com a minha ideia e não me pagam – e bateu o telefone.
Voltando ao Departamento Pessoal. O jornal convidou um excelente redator e o cara foi ao DP para fazer a ficha funcional. O chefe do DP folheou sua carteira profissional e viu anotações de emprego de “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Última Hora”, “Revista Manchete” e perguntou:
– O senhor trabalhou nesses lugares todos?
– Não, isso aí é mentira, eu falsifiquei tudo.
Para complementar a renda (jornalista em geral ganha pouco), trabalhei como redator num semanário onde ia duas vezes por semana. Entre outras atribuições, eu tinha que escrever sobre uma mulher de biquini (as fotos sempre eram sempre nas pedras do Farol da Barra) que ocupava a última página. O diagramador colocava as fotos da bunduda na página e me intimava: “Preciso de 15 linhas”. A mulher apareceu para ser entrevistada. Não leu nem “O Pequeno Príncipe”, e eu tinha que produzir suadas 15 linhas para fechar a página. Uma bunda nas pedras da praia e uma mulher sem assunto. “Luta mais vã”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O PASSARINHO
Na chegada do estacionamento do Centro Cultural Oscar Niemeyer, na arborizada Goiânia, quando lá estive em março, fui agraciado pela benção do cantarolar de um pássaro (não sei seu nome) e bateu em meu peito o desejo de ser um passarinho, talvez na inspiração do poeta. Como ele não parava de cantar, resolvi abrir o diafragma da minha máquina e clicar o divino solitário num galho de árvore. “Atravancando meu caminho. Eles passarão… Eu passarinho”, de Mário Quintana, poeta gaúcho de Alegrete, no estado do Rio Grande do Sul, que vive hoje sua pior calamidade de inundações da sua história. Aqueles que atrapalham a vida do eu lírico serão passageiros. Me afastei e ele continuou com seu canto mágico, talvez a chamar sua companheira ou companheiro de voo. Nas grandes cidades, as pessoas andam tão atribuladas e preocupadas com seus problemas para resolver no dia a dia, que nem escutam o canto dos pássaros. Aqui em meu quintal ainda tenho o privilégio de suas companhias entre as árvores e plantas, como do beija-flor que está sempre a bater suas assas e com o bico alimentar o néctar das flores. Muitas vezes chegam a entrar em meu alpendre numa visita de cortesia.













