(Chico Ribeiro Neto)

“Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã”.

(Versos iniciais do poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade).

Pior do que o patrão era o chefe do Departamento Pessoal. Se ele achasse uma brecha, descontava 11 centavos do seu contracheque. “Foi o dia em que você bateu o ponto com um minuto de atraso”.

Jornalista nunca gostou de bater ponto. Um absurdo cobrar que um repórter bata entrada e saída. Você não pode largar uma entrevista às 13 horas dizendo que precisa ir ao jornal para “bater a saída”. Não é porque o jornalista não goste do ponto, é porque não pode. A empresa tem que pagar hora extra ou um salário que a contemple.

Os repórteres são parecidos com os atores de teatro, que sabem que o ensaio tem hora de começar, mas não tem hora de acabar. Jornalistas e atores trabalham com as palavras, e não há “luta mais vã”.

O Departamento Pessoal, com a modernagem, passou a se chamar de Errehagá, um pomposo nome. Num jornal em que trabalhei, quando fui demitido, o chefe do RH (um “fode mansinho”, como todos) me disse com sua voz aveludada: “O diretor mandou lhe dizer que quando precisar de alguma coisa é só ligar para ele. O jornal continua à sua disposição”. Sim, jacaré!

Num jornal aconteceu comigo um caso curioso, já narrado numa crônica antiga, mas que vale a pena repetir:

– É do jornal?

– É, sim.

– Quanto vocês pagam por uma boa ideia?

– Depende. Você manda sua ideia pra gente, o jornal analisa e, se aprovar, compra sua ideia.

– Aonde?! Depois vocês ficam com a minha ideia e não me pagam – e bateu o telefone.

Voltando ao Departamento Pessoal. O jornal convidou um excelente redator e o cara foi ao DP para fazer a ficha funcional. O chefe do DP folheou sua carteira profissional e viu anotações de emprego de “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Última Hora”, “Revista Manchete” e perguntou:

– O senhor trabalhou nesses lugares todos?

– Não, isso aí é mentira, eu falsifiquei tudo.

Para complementar a renda (jornalista em geral ganha pouco), trabalhei como redator num semanário onde ia duas vezes por semana. Entre outras atribuições, eu tinha que escrever sobre uma mulher de biquini (as fotos sempre eram sempre nas pedras do Farol da Barra) que ocupava a última página. O diagramador colocava as fotos da bunduda na página e me intimava: “Preciso de 15 linhas”. A mulher apareceu para ser entrevistada. Não leu nem “O Pequeno Príncipe”, e eu tinha que produzir suadas 15 linhas para fechar a página. Uma bunda nas pedras da praia e uma mulher sem assunto. “Luta mais vã”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)