:: maio/2024
EU SEI…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Eu sei…
Que não adianta
Procurar um sentido
Para a vida,
Se somos apenas aprendizes,
Grãos de areia,
Presos na teia,
Desse universo infinito,
Onde devemos cuidar
Bem das nossas raízes,
Para enfrentar tanta lida,
Nesse embate controverso;
Ser silêncio na hora certa,
Com a mente alerta.
Eu sei…
Que o tempo não espera;
Estamos em outra era
Da deusa tecnologia,
Que supera a filosofia,
O conhecer e o saber.
Eu sei que o mundo mudou:
Uns dizem para melhor,
Outros para pior,
Dominado pela alienação,
Na pista da contramão.
Eu sei…
Que o amor não é o mesmo,
Que não conta só sonhar,
Tem que realizar,
Nessa terra desembestada,
De ódio e guerra infestada,
Onde cada um tem sua vez,
Nessa loucura da insensatez.
OS POBRES SÃO OS QUE MAIS DOAM E O AQUECIMENTO GLOBAL CHEGA AOS RICOS
OS CIENTISTAS SEMPRE AVISARAM QUE OS PAÍSES POBRES SERIAM OS PRIMEIROS ALVOS DO AQUECIMENTO GLOBAL, COMO VEM OCORRENDO, MAS O FENÔMENO TEM SIDO TÃO INTENSO QUE ESTÁ CHEGANDO A VEZ DOS RICOS, COMO AGORA NO RIO GRANDE DO SUL.
Se for colocar na ponta do lápis, os pobres e os trabalhadores são os que mais doam materiais e dinheiro para as vítimas das tragédias, como no caso mais recente das enchentes do Rio Grande do Sul. Até o momento, o Estado só entrou com o apoio logístico (forças armadas, corpo de bombeiros, polícia e outros órgãos) no socorro aos desabrigados e desalojados. Prometem injetar recursos.
Cadê os membros do Congresso Nacional, das assembleias legislativas, das câmaras municipais, dos ministros, inclusive do STF (Superior Tribunal Federal), do STJ (Superior Tribunal de Justiça), do STE (Superior Tribunal Eleitoral) e outros tribunais regionais que não dão exemplo à nação cedendo pelo menos um mês dos seus polpudos proventos (salários, verbas de indenização, de gabinete e demais penduricalhos), para ajudar os atingidos por esta anunciada catástrofe?
Como sempre, o negócio desses engomadinhos de papos politiqueiros e aparecer nas mídias, principalmente nas redes televisivas. Até o momento só aprovaram o decreto do governo federal de calamidade pública e liberaram algumas verbas das emendas parlamentares que não são deles, mas do contribuinte que paga seus impostos.
A partir de agora entra o processo burocrático para chegar o dinheiro do tesouro até as prefeituras. Alardeiam que vão realizar obras de contenção, de modo que tais inundações que, por certo virão por aí, não causem tantos estragos e mortes. Pelo que já vimos, não dá para acreditar nessa gente. O tormento não termina quando as águas baixarem. Muito pelo contrário! Logo vamos ter serviços inacabados, basta nosso jornalismo ser mais esperto e acompanhar os fatos no dia a dia, mas ele também comete seus pecados originais.
Com caras de bonzinhos de que estão muito abalados com o drama dos gaúchos, vejo políticos e até governante tirando sua lasquinha política da situação na entrega de doações com o chapéu dos outros. Daqui a alguns meses começam a estourar os atos de corrupção de alguns grupos inescrupulosos que tiraram proveito da desgraça alheia.
Será que após essa catástrofe humana, a maior da sua história no Rio Grande do Sul, a União e o próprio estado vão elaborar projetos consistentes de prevenção, como fizeram os holandeses e outros países na Europa? O mais provável é o desvio de verbas, não passando de limpeza das ruas, prédios e avenidas. Os pobres continuarão a sofrer as consequências.
Vão reconstruir estradas, pontes e cidades visando a prevenção contra as mudanças climáticas do aquecimento global? Vão deixar de perfurar poços de petróleo, respeitar os códigos florestais, não desmatar, abandonar os combustíveis fósseis, reduzir as emissões de metano e parar de entupir o planeta de lixo?
O SÃO JOÃO GORDO DAS ELEIÇÕES
Para conquistar votos da massa, vem aí o São João gordo das eleições, com contratações milionárias pelas prefeituras de cantores e cantoras de músicas lixo do axé music, dos arrochas, das sofrências, das timbaladas, dos pagodes, dos sertanejos e outros ritmos que nada têm a ver com o nosso forró arrasta-pé, patrimônio imaterial nacional.
Muitos prefeitos, como Santo Antônio de Jesus, Jequié e de outros municípios já estão anunciando suas “altas” atrações. Vai ser uma competição acirrada de quem tem mais “bala na agulha”, isto é, grana nos cofres, para destruir com nossas tradições culturais. O interessante é que nessas épocas os milhões aparecem como num passo de mágica.
Lá vêm Wesley Safadão, Luan Santana, Ivete Sangalo. Bel Marques, Leo Santana, “boiadeiros” e “boiadeiras”, DJs que vão levar os gordos cachês e deixar os autênticos forrozeiros, especialmente os artistas da terra a ”ver navios”, com as merrecas sobras pagas meses depois, com muita luta e cobranças.
Se em anos que não existem eleições as prefeituras já fazem uma farra e uma lambança com o dinheiro público, cujos executivos e executivas sempre alegam não terem recursos para atender as prioridades (saúde, educação, saneamento básico), imaginem agora na boca das eleições! É o período da caça aos votos da ignorância.
Do nada saem os milhões para remunerar esses cantores com polpudas verbas de 200, 300 e até 500 mil por noite de lambadas e muitas mulheres rebolando nos palcos. Parece uma mágica, mas não é! É mesmo o dinheiro do nosso povo que, incauto e sem instrução, deixa ser engabelado pelo papo desses prefeitos, de que estão trazendo mais rendas e visibilidade para seus municípios.
Um outro argumento é de que: É disso que o povo gosta, o que no fundo significa um menosprezo para com a nossa população, de que ela aprecia porcarias, e não de música boa que fala das raízes da terra, dos costumes e dos hábitos nordestinos. O nosso forrobodó está sendo assassinado a cada ano que passa, não somente na música, como também na gastronomia, nas vestimentas e nos trejeitos.
Existe uma lei, se não me engano, inclusive da Bahia, que determina que os ritmos e os artistas do nosso rico forró sejam priorizados nas festas juninas, mas eles (os prefeitos) não só desobedecem como dão um jeitinho brasileiro de misturar algumas bandas forrozeiras nos intervalos desses megas-shows milionários.
Outros têm o cinismo e a safadeza de colocarem apresentações de quadrilhas, atrações de culturas locais e alguma coisa do nosso folclore em horários esvaziados do dia, como na parte da manhã ou da tarde. Os “pesos pesados” das lixeiras musicais, de letras pobres, de sentidos duplos e até machistas jogam nos horários nobres das noites, geralmente nas vésperas do São João.
Como se não bastassem esses arrastões assassinos contra o nosso forró, tão prestigiado e divulgado por todo esse Brasil a fora pela sanfona do nosso rei do baião, Luiz Gonzaga, ainda existem os cachês superfaturados, colocando empresas laranjas intermediárias nas negociações escusas e corruptas.
Com raras intervenções no cumprimento da lei, o nosso Ministério Público, a Justiça e outros órgãos fiscalizadores, lamentavelmente, têm sido omissos. A nossa sociedade, os artistas em geral e as entidades que defendem as nossas tradições também têm suas parcelas de culpa por essa devassa que fazem contra nossa cultura genuinamente nordestina.
Muita gente pergunta o que é cultura? Eu diria que cultura nesse país é acabar com a nossa tradição, nosso patrimônio histórico, nossos monumentos, nossas expressões orais, nossa memória e nossa história. O que estão fazendo com o nosso São João, por exemplo, é uma anticultura.
O USO PERVERSO DA TRAGÉDIA
Carlos Albán González – jornalista
“El jarrón malo no se rompe” (vaso ruim não quebra), dizia meu avô Ricardo, imigrante espanhol da província de Pontevedra.. Pois bem, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez procura tratamento médico-hospitalar, apresentando um edema na perna esquerda. Enquanto isso, seus seguidores se articulavam, utilizando a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, para divulgar notícias falsas, em prejuízo das ações de resgate da população.
Transferido para um centro médico mais adiantado em São Paulo, o ex-presidente, diagnosticado com um quadro de erisipela, luta contra uma bactéria do gênero estreptococo. Pelo menos, por alguns dias, na companhia dos antibióticos para combater a doença, ele deixa a cena política e não atrapalha o governo federal, que tem procurado minorar o sofrimento do povo gaúcho.
Sempre é bom lembrar que nos anos de governo do ex-capitão o Brasil sentiu os efeitos impiedosos de outro tipo de tragédia. O país perdeu cerca de 700 mil vidas para a Covid-19, e continua perdendo (são mais de 3 mil este ano). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 30% dessas mortes seriam evitadas se não houvesse um atraso por parte do governo federal na aquisição de vacinas.
Em Porto Alegre, Fernanda de Escóssia, diretora-executiva de Aos Fatos, plataforma de investigação contra a desinformação, revelou que as “fake news” estavam prejudicando o trabalho de alguns grupos de socorristas, como os barqueiros, que estão salvando as vidas das pessoas que moram nas ilhas do Rio Guaíba e da Lagoa dos Patos.
Os diplomados pelo Gabinete do Ódio, que funcionou no Palácio do Planalto no governo Bolsonaro, divulgaram que a Capitania dos Portos e o governo do Estado estavam multando os donos de barcos, muitos deles voluntários, que não possuíam habilitação.
O desmentido veio de imediato, assim como a informação de que o Planalto patrocinou o show de Madonna, no Rio de Janeiro. O ministro Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, teve que procurar os jornais para informar que o megaevento na Praia de Copacabana foi bancado por uma cervejaria e por um banco.
“Isso é muito cansativo. A todo instante temos que parar nossa assistência às milhares de vítimas desse desastre ambiental para desfazer as declarações de pessoas que zombam da vida humana, tripudiando sobre os mortos”, demonstrou Escóssia sua revolta em entrevista ao jornal “A Folha de S. Paulo”. O efeito dessas “fakes” é muito perverso, gerando ondas de pânico entre as pessoas que estão perdendo tudo que construíram.
Escóssia aconselha as pessoas a não se tornarem “inocentes úteis”, repassando conteúdos suspeitos. Na oportunidade, denunciou o que chamou de “monetização da tragédia”, ou seja, influenciadores sociais estão ganhando dinheiro com a divulgação das mentiras criadas pelos bolsonaristas. Nesse movimento de profissionalização das “fake news” estão engajadas as redes sociais e os financiadores, aqueles mesmos que apostaram e perderam no golpe do 8 de janeiro.
O Nordeste venceu
Na tarde de domingo, Bolsonaro, torcedor do Flamengo e do Palmeiras, confortavelmente instalado num leito do hospital, ligou a TV para assistir Botafogo x Bahia pela série “A” do Brasileirão. Nem precisou dizer para quem iria torcer. Vestiu a camisa alvinegra do clube carioca, na certeza, muito provável, de que o time nordestino seria esmagado no gramado do Estádio Nílton Santos. No começo da noite o humor de Bozó já não era o mesmo. Motivo: o Nordeste venceu.
Daqui da terra fico a imaginar a revolta do jornalista e escritor João Saldanha, vendo a camisa do Glorioso no corpo de um declarado simpatizante da ditadura militar de 64 e dos atos desumanos da tortura. Na condição de técnico da Seleção Brasileira, João Sem Medo desafiou um dos generais da ditadura, Emílio Garrastazu Médici, que forçava a convocação do atacante Dadá Maravilha. O desfecho da história todos conhecem.
Como agiriam hoje figuras históricas que vestiram o sagrado manto da Estrela Solitária. Cito alguns deles: Manga, Nílton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo e Amarildo. O melhor Botafogo de todos os tempos – de 1957 a 1964 – era o único time no Brasil que enfrentava o Santos de Pelé, de igual para igual, e base, juntamente com a equipe paulista, das seleções nacionais de 1958, 1962 e 1970, tricampeã do mundo.
AS FORTES ENCHENTES NO RIO GRANDE DO SUL E UM BRASIL DESPEDAÇADO
Asfaltos e pontes sonrrisais, barragens de barro, cidades construídas em terrenos inapropriados, falta de uma proteção consistente em locais de risco e destruição ao longo dos anos do meio ambiente contribuíram em muito para essa tragédia das enchentes de grandes proporções, nunca vista no Rio Grande do Sul.
Chamam todo esse drama de mudanças climáticas bruscas, ou interferência do El Nino, mas, na verdade, é a ação do aquecimento global que a humanidade não quer ver. A situação já está chegando ao ponto crítico que está atingindo os mais ricos dos centros de maior poder aquisitivo, os quais imaginavam que ficariam incólumes.
É hilária, triste, deprimente e primitiva a imagem de homens da defesa civil, se não me engano, colocando sacos de areia e tentando conter a força da água do Rio Guaíba na capital que teve uma boa parte inundada, inclusive todo centro histórico.
As comportas também não resistiram e, nessas horas, não há muita coisa a se fazer, só esperar e contabilizar os prejuízos e as centenas de mortos e desaparecidos. Todo país acompanha as cenas estarrecedoras, cuja responsabilidade maior é do próprio ser humano.
Entre as entrevistas, vi uma mulher culpar a natureza. A humanidade ainda não caiu a ficha de que a terra está em ebulição em decorrência de séculos de depredação do meio ambiente e de que já estamos vivendo em pleno aquecimento global, sem mais retorno porque o consumismo só faz aumentar.
O culpado por tudo isso, minha senhora, é o homem. A natureza apenas está dando a sua resposta pelas agressões sofridas há séculos. Sempre repito e comento que o Brasil era visto antigamente como um paraíso do mundo, sem terremotos, vulcões, tempestades, tufões, tornados e ciclones. Muitos desses fenômenos já estão aqui entre nós, especialmente no sul.
Em minha modesta opinião, digo que temos um Brasil, despedaçado, despreparado, sem estrutura e sem planejamento. Tudo é feito no improviso. Some a tudo isso a corrupção em todos setores, instituições e órgãos governamentais. Alguém aí acredita que depois de tudo haverá mudanças no comportamento preventivo?
Na maioria, as obras são superfaturadas e construídas com materiais de segunda ou quinta categoria. Bastam os rios subirem seus volumes de água para arrastarem pontes e abrirem crateras nos asfaltos, alagando tudo pela frente, principalmente casas feitas em locais inapropriados. Criam-se os gabinetes de crises, as estratégias de socorro e depois tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido.
Na capital gaúcha, por exemplo, nunca se preocuparam em levantar barreiras concretáveis mais altas para evitar uma invasão das águas das chuvas mais torrenciais como acabam de ocorrer. Depois é só limpar os estragos e tudo continua na mesma como se essa tragédia seja a única da história.
Quando acontecem essas catástrofes, como esta agora do Rio Grande do Sul, os governos estadual e federal, sem contar as doações das populações, gastam milhões e bilhões de reais que deveriam ter sido evitados se lá na frente tivessem feito as devidas prevenções, mas o Brasil não é de planejar, prefere a corrupção.
O povo mais pobre é o mais castigado, que fica desalojado e na dependência das campanhas de caridade, mas a intensidade dessas mudanças climáticas (secas, ciclones, tornados e outros fenômenos), provocadas pela ação perversa do ser humano, já está também chegando aos ricos, que devastam o meio ambiente, florestas e margens de rios para edificarem suas mansões.
“A MÁSCARA DA ÁFRICA” X
Em sua última viagem pela África, entre 2008/09, V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, nascido em Trinidad, descreve a África do Sul como um outro continente não tropical, de uma outra civilização. Em seu livro-reportagem “A Máscara da África”, partindo de Uganda, ele passou pela Nigéria, Gabão, Congo, Gana e Costa do Marfim.
No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, Naipaul descreve que, “dois dias depois, no centro de Joanesburgo, vi o que tinha acontecido com uma área pós-apartheid da cidade. Os brancos apreensivos com o que o fim do apartheid (durou 36 anos) poderia causar, tinham ido embora, simples assim, e os africanos se mudaram para o lugar, mas não pessoas da região, e sim gente desimpedida dos países ao redor, Moçambique, Somália, Congo e Zimbábue”.
Naipaul cita o escritor Rian Malan, nascido em 1954, de que os brancos construíram uma base lunar para sua civilização; quando ela desmoronou, não havia nada ali para negros ou brancos. “Quarenta anos antes, em Ruanda, às margens do lago Kivu, eu tinha visto uma colônia de férias belga bem mais simples arrebatada pela floresta e pela gente da floresta”.
Os notáveis edifícios e rodovias foram reduzidos a favelas, difíceis de serem reconstruídas. “Havia descobertas adicionais a se fazer dentro daquela nova favela. Um velho e robusto armazém tinha sido ocupado por novas mercadorias, o que parecia uma paródia do que teria existido aqui. Era um mercado de artigos de curandeirice.
“Havia artigos que os curandeiros exigiam que seus clientes comprassem, para serem usados pelo curandeiro como ele bem entendesse, normalmente para fazer remédios que o infeliz enfeitiçado tinha de beber. Os mais inofensivos eram os maços de ervas utilizados para fumigar um cômodo ou uma casa tornar desagradável à vida de um espírito do mal”.
“E logo chegávamos ao reino dos horrores: Partes de corpos de animais expostas numa espécie de plataforma. O ambulante estava sentado num tamborete baixo ao lado de seus artigos, que eram armazenados no próprio mercado. Entre os produtos existiam cabeças de cavalos e cervos rachados ao meio por golpes afiados de facão”.
De acordo com Naipaul, o cheiro era abominável. Além das partes dos corpos dispostos horizontalmente na banca do ambulante, havia pedaços de estômago pendurados em cordões, como peças de pano, de modo que o especialista pudesse escolher ou examinar o que quisesse.
Os ambulantes vendiam porquinhos-da-índia, sacrificados de maneira ritual, com uma faca no coração, um modo muito doloroso. Seu sangue fresco era tomado sob indicação do curandeiro como parte do sacrifício.
“O povo da África do Sul havia travado uma grande batalha. Eu esperava que uma grande batalha tivesse dado origem a um povo maior, um povo cujas práticas mágicas pudessem apontar um caminho para a frente ou para algo mais profundo – observou Naipaul.
Segundo o escritor, “não havia aqui nada de beleza que eu encontrara na Nigéria entre os iorubas, com seu culto, como me pareceu do mundo natural; nada aqui parecia com a ideia gabonesa de energia, vinculada à ideia e ao assombro das florestas portentosas”. Ele fala ainda sobre a rua dos adivinhos, com espaços exíguos e balcões brancos para os clientes ocuparem.
Naipaul escreve também sobre o Museu do Apartheid e apresenta sua guia Fátima, muito discriminada por ser coloured, ou seja, uma pessoa mestiça. Pelo lado materno tinha um bisavô inglês e seu avô paterno era negro, mas a família falava africâner e odiava a pele negra. Sua bisavó era xhosa. As meninas xhosas na escola tinham uma identidade, mas ela não.
O GALO CANTOU ERRADO
O feirante-tropeiro saia da sua roça todas as madrugadas de sexta para sábado em seus jumentos para vender sua farinha, mantimentos (feijão e milho) e beijus na feira da cidade. Tinha que chegar cedo para pegar os primeiros fregueses e não perder para seus concorrentes.
Como não tinha relógio e rádio em seu rancho, sempre se guiava pelo canto do velho galo para percorrer uma distância de cerca de 20 a 25 quilômetros e chegar no horário. Sempre dava certo no apressar dos passos e chegava à cidade ao clarear do dia, na barra dos primeiros raios solares.
Era um bravo trabalhador, de sol a sol, de chuva a chuva que ficou calejado com a seca e com a fome, mas era um zangão que não tolerava pilherias com sua pessoa e logo partia para uma briga. Tipo do sujeito cismado. Era parecido com seu Lunga casca grossa, mas, no fundo, tinha um bom coração e ajudava muita gente necessitada.
Sempre confiou no despertar do galo da sua mulher, mas teve um dia em que o danado cantou errado. Foi sua sentença de morte. Deve ter tido algum pesadelo ou alguma raposa se aproximou do galinheiro. Quem sabe uma galinha não tenha lhe acordado com algum desejo.
Nessa noite de total breu, sem o luar, o guerreiro acordou apressado com o primeiro canto do galo e, todo avexado, mandou seu menino moleque pegar os animais no pasto. O tempo urge! Não queria perder suas vendas e deixar de fazer uma boa feira.
Estava mesmo apressado e não parava de reclamar da vida dura que levava, como todo sertanejo nordestino, para ganhar o sustento da casa. A mulher com seu temperamento calmo e paciente, resmungou lá de dentro: “Êta homem doido! Esse galo cantou errado”! Havia algo esquisito mesmo porque não se ouviu nenhum galo cantar naquelas bandas!
Colocou os arreios nos jumentos e as cargas de farinha, um saco em cada lado da cangalha, cada um pesando cerca de 50 quilos. Era uma viagem cansativa de uma estrada esburacada, com pedregulhos e ladeiras. Todo cuidado era pouco nas subidas e descidas. Quando chovia, às vezes tinha jegue que atolava nas poças de águas. Não é nada fácil a vida de um roceiro para manter sua sobrevivência.
Era um sofrimento e, por isso, tinha que sair cedo, mas nesse dia o galo cantou errado. O trabalhador rural percebeu isso logo que passou na porta do vizinho e ainda estava dormindo. Estranhou porque ele tinha relógio e também saia na hora certa.
– Esse miserável do galo cantou errado – desconfiou o roceiro que começou a cafangar e a xingar o dono do terreiro que lhe orientava em suas jornadas para a feira. Não parava de esbravejar e ameaçar que na volta ia botar aquele galo na panela para ele nunca mais cantar errado.
Ele e seu menino, o tropeiro mirim obediente ao pai e sempre calado para não levar uns tabefes, entraram na cidade ainda no escuro da noite, sem nenhum sinal do amanhecer do dia. Todo mundo ainda dormia em suas casas, nem um latido de cachorro.
Aquilo lhe deixou mais irado ainda e continuava a jogar praga no galo que cantou errado. Fomos os primeiros a entrar na feira. Arriamos as cargas nos couros e o velho sentou nos sacos com uma raiva danada.
Como sempre levávamos uma esteira e outros apetrechos na tropa, o menino aproveitou para tirar um cochilo. Demorou para o alvorecer do dia e aparecer os primeiros fregueses da sua farinha, de qualidade que era de primeira e tinha um diferencial da dos outros feirantes.
Era um produto feito no capricho, com aquele esmero, sequinho e com aquela tapioca por dentro. O comprador passava os dois dedos, como de costume, e saia aquele pó branco. Era a melhor farinha das redondezas.
Tudo foi vendido nas primeiras horas, mas o feirante ranzinza não esquecia do galo e disse que ia jogá-lo na panela quando voltasse para casa. Não tinha perdão.
O galo percebeu do sucedido e a dona lhe avisou que o patrão ia lhe tirar o couro. Todo cabreiro, o galo sabendo que poderia ir para a panela por ter cantado errado se meteu dentro do mato. Foi uma fuga estratégia e só retornou dois dias depois.
Quando o homem chegou soltando fogo perlas ventas, o galo, para não cair na faca, já tinha pulado fora e se picado para outros cantos. Se meteu nas capoeiras. Deixou a poeira passar e foi chegando de mansinho quando o seu senhor já estava mais calmo e esqueceu do ocorrido.
É aquela história: A pessoa pode fazer cem por cento certo, mas se errar no um por cento, ou até chegar aos noventa e nove vírgula nove por cento, não presta e é condenado. A vida no seu tempo real é sempre assim. O pobre do galo que o diga, pois por pouco não caiu na panela porque somente numa madrugada cantou errado.
“ENTENDEU”?
Continuo a insistir que os maiores focos dos mosquitos da dengue, em Vitória da Conquista, a cidade com maior índice da doença na Bahia, estão nas ruas de chão, nos esgotos a céu aberto, nos terrenos “abandonados” cheios de lixo e matagal, nas oficinas abandonadas que se transformaram em sucatas e outros pontos das periferias que ficam alagados quando chove. Parem de colocar a culpa somente nos moradores. Mande, senhora prefeita, fiscalizar e punir, conforme determina a lei, os donos de terrenos que não cercam e nem limpam suas propriedades; intime a Embasa a consertar e desentupir os esgotos; e os donos de oficinas a limpar suas áreas. Entendeu, senhora prefeita? A situação é grave com muita gente doente e hospitalizada, sem contar as mortes. Existe um motivo maior para Conquista ter esse alto índice epidêmico de dengue. Entendo que o poder executivo é o maior culpado. Entendeu, senhora prefeita? Fora do centro, é difícil não encontrar uma rua ou avenida que não tenha um matagal que serve de lixeira de sacos plásticos, garrafas, pneus e outros objetos que acumulam água e servem de criadouros das larvas dos mosquitos. Entendeu?
MOMENTOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Às vezes, tem momentos,
Que fico no meu eu solitário,
No voo do triste pensar,
Como canário preso numa gaiola,
Rochedo nesse escuro mar,
Como canção sem viola.
São momentos
de mistura,
Entre banzo e feliz,
Passageiro de fim de estrada,
Nessa cilada,
Do tudo que já fiz,
De bom e ruim,
Na vida que é assim:
Da lei feita pros fortes,
Para os fracos, garrotes,
Com início, meio e fim.
Às vezes, tem momentos,
Do refletir,
Dos amigos que se foram,
E eu ainda aqui,
Em meu espaço,
Sem régua e compasso,
Nesse labirinto de canais.
Onde essa selvagem caravana,
Não me empolga mais.
Tem momentos,
Que nem quero mais ficar,
Para respirar,
Esse poluído ar.
Momentos são momentos,
Que não ligo mais pro tempo,
Nem a força do vento;
Sou amor e dor,
Nessa sociedade falsidade,
Que ainda discute
Os tons da cor.
O 1o DE MAIO E OS SINDICATOS
Marcha dos evangélicos, corridas de atletismo, churrascos, curtição nas praias, shows musicais, homenagens ao piloto Ayrton Senna e outras atividades festivas no Dia do Trabalho.
Para quem não conhece o Brasil, até parece que aqui é um paraíso de plena harmonia entre o capital e o trabalho onde não existe exploração dos patrões e nem escravismo. Nunca vi em toda minha história um país tão alienado, enquanto em várias partes do mundo ocorreram manifestações de protesto!
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) soltou uma nota tímida falando de justiça social pela dignificação do trabalhador dentro da linha conservadora do cristianismo, bem diferente daqueles tempos da Teologia da Libertação onde condenava abertamente o capitalismo selvagem que só pensa no lucro.
Vejo aqui em grupos das redes sociais gente passando para dar um feliz 1º de Maio, Dia do Trabalho, mas nos tempos atuais do capitalismo cada vez mais predador, não temos muito a comemorar. Tudo isso me faz lembrar dos velhos tempos em que o 1º de Maio era uma demonstração de força dos sindicatos e dos movimentos sociais no Brasil, sem falar pelo mundo a fora, com marchas e até embates com as forças policiais.
Ainda vemos alguma coisa pálida da parte dos grandes sindicatos, como dos metalúrgicos, petroleiros, bancários e petroquímicos. Até as centrais, como a CUT e CGT, as mais fortes, se renderam ao peleguismo, sem contar às mordomias de seus dirigentes quando ainda vigorava o imposto sindical e milhões de filiados que acreditavam nas lutas pelas melhorias dos trabalhadores.
Hoje, vemos os sindicatos, principalmente os pequenos, engolidos pelo capital, que impõe suas negociações frente ao enfraquecimento das entidades e ao desemprego que chegou a mais de doze milhões de desesperados. Dizem que hoje são oito milhões (não acredito muito nessas estatísticas) oficiais.
Até o Ministério do Trabalho baixou sua guarda no âmbito das fiscalizações frente a uma reforma trabalhista – feita pelos patrões e Michel Temer, o drácula – que escravizou a mão-de-obra, limitando os acordos, com o trabalho dos intermitentes, os free-lancer e deixando o empregado desprotegido frente ao empregador que faz sua oferta do “pegar ou largar”.
Hoje é cada um por si (os pequenos sindicatos não têm representação) quando nos anos 50 e 60 até os estudantes, aposentados e outras classes liberais se juntavam aos trabalhadores nas praças para apoiar suas reinvindicações e ampliar seus direitos. O trabalho análogo à escravidão está por toda parte, não somente nas carvoarias, nas colheitas dos campos, em certas áreas da construção civil e nos garimpos de mineração.
Veio a ditadura civil-militar-burguesa e amordaçou os movimentos. Com a redemocratização, o peleguismo voltou (Governos do PT) como nos tempos de Getúlio Vargas (segundo mandado) com festas, sorteios de presentes e shows de cantores sertanejos, de arrocha e sofrência nas praças e avenidas.
Hoje, o que vemos e temos são algumas greves pontuais de professores e outras pequenas categorias que logo se sucumbem por falta de adesão da própria sociedade individualista que só pensa no direito do ir e do vir. As manifestações não arrastam mais multidões como ainda ocorre na França, na Coréia do Sul, Estados Unidos, Inglaterra e até aqui entre nossos hermanos da Argentina, do Chile e outros vizinhos.
Portanto, num país onde o predomínio é a informalidade do empreendedor autônomo por necessidade, e não por vocação própria, não vejo muito a comemorar e desejar um feliz Dia do Trabalho, se quem domina é o capitalismo que dita as regras e trata o operário como escravo.
Sem essa de colaboradores. Isso é um papo furado, conversa para boi dormir. Não passa de uma questão de linguística para dizer que todos estão irmanados numa mesma causa e são iguais. Para comprovar isso estão aí as profundas desigualdades sociais e regionais, mais ainda acentuadas no Norte e Nordeste, a região que sempre foi escrava do sul e do sudeste.












