O SÃO JOÃO GORDO DAS ELEIÇÕES
Para conquistar votos da massa, vem aí o São João gordo das eleições, com contratações milionárias pelas prefeituras de cantores e cantoras de músicas lixo do axé music, dos arrochas, das sofrências, das timbaladas, dos pagodes, dos sertanejos e outros ritmos que nada têm a ver com o nosso forró arrasta-pé, patrimônio imaterial nacional.
Muitos prefeitos, como Santo Antônio de Jesus, Jequié e de outros municípios já estão anunciando suas “altas” atrações. Vai ser uma competição acirrada de quem tem mais “bala na agulha”, isto é, grana nos cofres, para destruir com nossas tradições culturais. O interessante é que nessas épocas os milhões aparecem como num passo de mágica.
Lá vêm Wesley Safadão, Luan Santana, Ivete Sangalo. Bel Marques, Leo Santana, “boiadeiros” e “boiadeiras”, DJs que vão levar os gordos cachês e deixar os autênticos forrozeiros, especialmente os artistas da terra a ”ver navios”, com as merrecas sobras pagas meses depois, com muita luta e cobranças.
Se em anos que não existem eleições as prefeituras já fazem uma farra e uma lambança com o dinheiro público, cujos executivos e executivas sempre alegam não terem recursos para atender as prioridades (saúde, educação, saneamento básico), imaginem agora na boca das eleições! É o período da caça aos votos da ignorância.
Do nada saem os milhões para remunerar esses cantores com polpudas verbas de 200, 300 e até 500 mil por noite de lambadas e muitas mulheres rebolando nos palcos. Parece uma mágica, mas não é! É mesmo o dinheiro do nosso povo que, incauto e sem instrução, deixa ser engabelado pelo papo desses prefeitos, de que estão trazendo mais rendas e visibilidade para seus municípios.
Um outro argumento é de que: É disso que o povo gosta, o que no fundo significa um menosprezo para com a nossa população, de que ela aprecia porcarias, e não de música boa que fala das raízes da terra, dos costumes e dos hábitos nordestinos. O nosso forrobodó está sendo assassinado a cada ano que passa, não somente na música, como também na gastronomia, nas vestimentas e nos trejeitos.
Existe uma lei, se não me engano, inclusive da Bahia, que determina que os ritmos e os artistas do nosso rico forró sejam priorizados nas festas juninas, mas eles (os prefeitos) não só desobedecem como dão um jeitinho brasileiro de misturar algumas bandas forrozeiras nos intervalos desses megas-shows milionários.
Outros têm o cinismo e a safadeza de colocarem apresentações de quadrilhas, atrações de culturas locais e alguma coisa do nosso folclore em horários esvaziados do dia, como na parte da manhã ou da tarde. Os “pesos pesados” das lixeiras musicais, de letras pobres, de sentidos duplos e até machistas jogam nos horários nobres das noites, geralmente nas vésperas do São João.
Como se não bastassem esses arrastões assassinos contra o nosso forró, tão prestigiado e divulgado por todo esse Brasil a fora pela sanfona do nosso rei do baião, Luiz Gonzaga, ainda existem os cachês superfaturados, colocando empresas laranjas intermediárias nas negociações escusas e corruptas.
Com raras intervenções no cumprimento da lei, o nosso Ministério Público, a Justiça e outros órgãos fiscalizadores, lamentavelmente, têm sido omissos. A nossa sociedade, os artistas em geral e as entidades que defendem as nossas tradições também têm suas parcelas de culpa por essa devassa que fazem contra nossa cultura genuinamente nordestina.
Muita gente pergunta o que é cultura? Eu diria que cultura nesse país é acabar com a nossa tradição, nosso patrimônio histórico, nossos monumentos, nossas expressões orais, nossa memória e nossa história. O que estão fazendo com o nosso São João, por exemplo, é uma anticultura.











