“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
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A MOBILIZAÇÃO POPULAR VIROU AS ELEIÇÕES NO SEGUNDO TURNO
Foi necessário um choque de realidade no primeiro turno das eleições presidenciais, quando o adversário bolsonarista ficou em vantagem em relação ao candidato Lula, para que o PT e as esquerdas em geral voltassem a procurar suas bases e mobilizasse o povo nas ruas.
Em meu entendimento, a mobilização popular, aquele método analógico tradicional, foi fundamental para a virada, sem menosprezar, é claro, a comunicação virtual nas redes sociais. O Lula poderia ter vencido no primeiro turno se esta ação tivesse sido colocada em prática desde o início da campanha.
Em comentário que fiz quando começaram as eleições, cheguei a dizer que somente a mobilização popular nas ruas venceria a disputa e critiquei as esquerdas, principalmente o PT, por terem esquecidos suas bases desde quando o partido foi fundado, em 1982.
Quando o povo foi às ruas com suas bandeiras e cartazes em defesa da democracia, tive a sensação da volta daqueles movimentos de outrora, unindo trabalhadores, jovens estudantes, as mulheres, professores, os idosos aposentados e outras classes desfavorecidas na luta pelo bem da nação.
A mobilização agiu como um tratamento de choque, além de ter sensibilizado e despertado a consciência do eleitor indeciso e daquele que não votou no primeiro turno, a ir às urnas e fazer a virada que, na análise de muitos, inclusive dos institutos de pesquisas, era praticamente impossível.
O trabalho nas redes sociais foi importante, mas não foi decisivo tanto quanto a mobilização popular, o corpo e corpo, o olho no olho, como se fazia em tempos passados através dos comícios, folhetos, adesivos e no convencimento das palavras. A mobilização fez mostrar de que o voto no Flávio Bolsonaro era um voto contra o país, não importando a rejeição ao Lula por vários motivos que todos sabem.
Esta paulada no primeiro turno e a mobilização nas ruas devem servir de exemplo de que o PT precisa baixar sua guarda; ser mais humilde; fazer sua autocrítica e preparar nomes fortes dentro das esquerdas, seja qual for o partido, para disputar as próximas eleições e impedir o retorno da extrema direita, não apenas na majoritária.
Esse Congresso Nacional, com maioria de conservadores de direita, precisa também ser mudado, bem como as assembleias estaduais e as câmaras de vereadores. Isso só é possível se a esquerda mudar seu velho discurso e trabalhar junto às suas bases.
Esperamos que o resultado do primeiro turno e a mobilização popular, realizada no segundo, sirvam de exemplo de que muita coisa precisa ser mudada para que o povo sinta a necessidade de que o país não pode mais conviver com a arbitrariedade sob o jugo de uma opressão ditatorial.
Essa mobilização nas ruas precisa continuar viva, vigilante e constante, sobretudo agora em que o Congresso Nacional tem maioria de oposição ao governo, com ideias burguesas, oligarcas, nazifascistas e conservadoras.
As redes sociais têm o seu papel, mas acomoda o cidadão no sofá da sua casa, enquanto a mobilização popular tradicional serve como forte aliada e alimento para que o Governo de Lula possa aprovar projetos, programas e pautas em benefício do povo, especialmente nas áreas trabalhista, previdenciária, da educação e da cultura.
UMA TRINCHEIRA DA RESISTÊNCIA
O Nordeste das grandes secas que fizeram tombar milhares de nordestinos e viveu por séculos isolado do país como arcaico, do cangaço e do banditismo, do coronelismo, dos chefes políticos perdulários e corruptos, messiânico e religioso, da diversidade cultural e das injustiças sociais sempre foi uma trincheira da resistência nas lutas políticas pela liberdade e pela democracia.
Contra a dominação estrangeira, crises econômicas e a opressão imperial, a região travou suas batalhas, como na Insurreição Pernambucana (1645/1654), um movimento que uniu portugueses, brasileiros, indígenas e africanos escravizados para expulsar os holandeses da Companhia das Índias Ocidentais do Nordeste.
Tivemos outras tantas revoltas, como a Guerra dos Mascates (1710/1711), um conflito em Pernambuco que envolveu disputas de poder entre a aristocracia rural decadente dos senhores de engenhos de açúcar e os comerciantes.
Não podemos esquecer da Conjuração Baiana, em 1798, uma rebelião de caráter popular separatista, realizada em Salvado, com ideais iluministas que exigia a independência da Coroa Portuguesa, o fim da escravidão e das injustiças sociais. A revolta foi liderada por negros, alfaiates e soldados.
A Revolução Pernambucana, de 1817, foi mais uma manifestação separatista contra a crise do açúcar e do algodão, bem como o aumento dos impostos pelo Império.
Aconteceu ainda a Confederação do Equador, em 1824, um movimento revolucionário em Pernambuco que contou também com a participação de outros estados contestando o poder centralizador do imperador D. Pedro I.
De grande importância foi a Revolta dos Malês, em 1835, a maior rebelião dos africanos em todo Brasil ocorrida em Salvador quando mais de 600 africanos mulçumanos lutaram bravamente pela liberdade e fim da escravidão. Por traição de alguns, o movimento foi abafado e correu muito sangue e atrocidades pelas forças do poder central.
A nossa história pouco registra sobre o Quebra-Quilos (1872/1877), um protesto popular que se espalhou pelas feiras das cidades da Paraíba se estendendo para outros estados da região contra a posição do sistema métrico decimal e elevação das taxas cobradas pelo Império.
De grande repercussão nacional e internacional foi a Guerra de Canudos, no sertão baiano, de 1896/1897, sob a liderança do messiânico religioso Antônio Conselheiro, que atraiu cerca de 30 mil adeptos trabalhadores sertanejos rurais, ex-escravizados que fugiam da seca e da miséria, distribuídos em mais de cinco mil casas.
Tornou-se uma comunidade socialista autossustentável, com produção agrícola e rebanhos compartilhados, que o governo republicano massacrou impiedosamente depois de várias expedições. Praticamente, toda população foi dizimada ao final do conflito, em outubro de 1897.
Com características semelhantes, tivemos o movimento Pau de Colher, entre os anos de 1934 e 1938, em pleno banditismo do cangaço do bando de Lampião, ocorrido no município de Casa Nova, na Bahia, sob a liderança do beato José Senhorinho, inspirado nas ideias de outros messiânicos nordestinos, como Severino Tavares e José Lourenço (Caldeirão), na Serra do Araripe.
O movimento aconteceu na ditadura do Governo de Getúlio Vargas que classificou o agrupamento de trabalhadores rurais como comunista. Foi outro triste massacre que as forças da Bahia, Pernambuco e Piauí dizimaram milhares de pessoas, em 1938.
Não podemos deixar de registrar as guerras que os estados da Bahia, Piauí, Ceará e Maranhão travaram para expulsar as tropas portuguesas após a proclamação da Independência do Brasil, por volta de 1823. Diferente do Sudeste, a independência nessas províncias não se consolidou no Sete de Setembro de 1822 e exigiu confrontos populares com a participação de indígenas, negros escravos e trabalhadores do campo e das cidades.
A Bahia foi o palco mais sangrento da guerra contra as forças portuguesas comandadas por Madeira de Melo. O exército e voluntários cercaram a capital por terra e mar e expulsaram definitivamente os portugueses, em 2 de julho de 1823.
O mesmo ocorreu no Piauí, na Batalha de Jenipapo, em 13 de março de 1823. No Maranhão, a rendição foi consolidada em 28 de julho do mesmo ano. No Ceará foi organizado o Exército Libertador que ajudou as lutas nos estados vizinhos do Piauí e Maranhão.
Até os tempos atuais de 2026, o Nordeste demonstrou ser uma trincheira de resistência contra os usurpadores do poder que ainda alimentam implantar no Brasil uma ditadura militar e calar a democracia, como no golpe de 1964. De forma democrática, essa resistência foi mais uma vez comprovada pelo mapa da votação nas últimas eleições.
Portanto, os sulistas e as regiões do sudeste e centro-oeste devem respeitar o povo nordestino e não praticar atos xenófobos preconceituosos, inclusive por ter ajudado a construir esses territórios brasileiros com mentes e braços fortes.
Por causa deles, o Nordeste sempre foi vítima de profundas desigualdades regionais. Além do mais, é aqui que está o maior celeiro da cultura brasileira com renomados nomes de projeção nacional e internacional nas suas diversas linguagens artísticas, acadêmicas e populares.
Temos como fontes inspiradoras para todo Brasil a composição, a música, a literatura, a poesia, o teatro, as tradições e expressões populares, a magistratura, dentre tantas outras atividades culturais que nos orgulha de sermos nordestinos, como se diz, “cabras da peste”.
“AS ANTIGAS RUAS DE CONQUISTA” FOI TEMA DO SARAU A ESTRADA
O professor e historiador Ruy Medeiros entrou no túnel do tempo ao proferir palestra durante a noite do último sábado do “Sarau A Estrada”, no dia 24/10/2026, sobre as origens de Vitória da Conquista e as histórias de suas antigas ruas.
Foi mais uma noite memorável de confraternização e troca de ideias. Sua fala foi uma aula de conhecimento e saber para mais de 30 pessoas entre jovens, artistas, professores, intelectuais e interessados pela cultura. O evento, com 16 anos de existência, foi realizado no Espaço Cultural A Estrada.
Antes de entrar propriamente no assunto, Medeiros fez um breve relato de como se deu a construção da vila e da cidade, segundo ele, sem nenhum planejamento e chamou a atenção para os tempos atuais quanto a questão da falta de infraestrutura e de um plano diretor para atender as demandas da população e suportar os fenômenos das mudanças climáticas.
O conferencista da noite, como não poderia deixar de ser, começou a descrever sobre a chamada Rua Grande, espécie de marco zero de Conquista, onde hoje está localizada a Praça Tancredo Neves (antiga Borboletas) e a catedral até a Barão do Rio Branco. As casas da Rua Maximiliano foram construídas com o fundo para a então Coronel Gugé e algumas ainda conservam o mesmo formato com seu quintal.
Lembrou que na “Borboletas” existia um mini zoológico e, como a área era quase plana, ali sofreu uma escavação para que o local ficasse inclinado. Com o passar dos anos, outras construções vieram ao largo da Rua Grande, com a criação de transversais e becos, sendo atualmente principais a Ramiro Santos (Piloto) e a Alameda Lima Guerra (Beco da Tesoura).
Piloto era o dono de uma casa comercial e Tesoura porque ali existia uma barbearia com o desenho de uma grande tesoura, sem contar que também funcionavam unidades de alfaiatarias. Foi um ponto histórico e político e naquela travessa chegou a existir uma loja da Mesbla.
Ainda no centro, Ruy falou das ruas Sete de Setembro e da Ernesto Dantas que davam acesso para as casas de prostituição, local conhecido como Maga Sapo. Pela Ernesto Dantas ainda passa por debaixo dela o córrego do rio Verruga.
Próximo a estas artérias existia a rua dos Cachorros onde funcionava um açougue, hoje Triunfo. Nas imediações do “Bigode de Pedral” tinha um cemitério, cujas sepultaras foram transferidas para o atual Cemitério da Saudade.
Outro nome que chama a atenção era a antiga Rua da Várzea, hoje Rua Dois de Julho onde um pouco na frente existia uma pequena barragem do rio Verruga e alagava as casas sempre que chovia. Foi toda modificada visando evitar as inundações. Também foi mencionado a atual Dez de Novembro, chamada de Rua dos Tôcos ou Tocos.
O palestrante fez uma viagem pela Estrada das Boiadas (João Pessoa) e a histórica rua das Correntes, antiga estrada que dava acesso para Jequié. Seu nome tem origem em João das Correntes que, com uma corrente, controlava a passagem de carros cobrando um pedágio. A Siqueira Campos era a Moranga onde chegou a funcionar famosos cabarés, bem como a Mamoneira (zona de prostituição), hoje Ceasa, e o Beco Gemedor próximo a Lauro de Freitas.
Seu bate-papo com os estradeiros da cultura foi bastante descontraído e instrutivo provocando a interação dos participantes, principalmente quando fez um “passeio” pelos antigos bairros do Alto Maron, Jurema, Sumaré, em homenagem ao Sumaré de São Paulo, com seus casarios mais ricos, o Bairro Brasil (Gerson Salles), dentre outros que proporcionaram o crescimento e o desenvolvimento da cidade, hoje a terceira maior da Bahia com cerca de 400 mil habitantes.
Logo após sua palestra de abertura dos trabalhos, o Sarau deu prosseguimento às suas atividades de informes, sugestões e votação do próximo tema a ser discutido em dezembro, sendo aprovado o debate sobre a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, sua história e interação com a comunidade.
Foi também proposto pelo professor Itamar Aguiar uma excursão do Sarau até à cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, onde os estradeiros pretendem realizar seu sarau na cidade. É o Sarau pegando estrada. Foi lembrado que no dia 14 de novembro haverá o Sarau na Estrada, na Praça Mármore Neto, ou Praça do Boneco, a partir das 16 horas.
Como de costume, a cantoria ficou por conta dos artistas musicais Jomas Sampaio e Fabiane, com a participação também de Baducha, Dorinho Chaves e Manno Di Souza que animaram a festa cultural, tendo ainda a declamação de poemas, causos e outras falas.
Foi mais um sarau e encontro de amigos, que transcorreram em harmonia, numa noite de descontração, mas de conhecimento e informações, sempre acompanhado de bebidas, tira-gostos e o prato da meia-noite com uma bodada para encher o bucho que ninguém é de ferro. É o “Vinho Vinil” cultural desde 2010 que está entrando para completar seus 17 anos em julho de 2027.
AS VERSÕES DA IMPRENSA SOBRE O CANGAÇO SÃO DESENCONTRADAS
A literatura sobre o cangaço no Nordeste, principalmente na época de Lampião, é vasta e a grande maioria dos escritores usou com uma das principais fontes para suas pesquisas a imprensa da região, do Rio de Janeiro e São Paulo, só que muitas das informações são desencontradas e outras infundadas.
Lampião, inclusive, ficava injuriado e tinha acessos de raiva quando falavam coisas sobre ele que não condiziam com a realidade. Existia muito sensacionalismo nas notícias para vender mais jornais.
Poucos jornalistas chegaram a entrevistar Lampião, a não ser em 1926 quando o “rei do cangaço” esteve em Juazeiro do Norte (Ceará) para se integrar aos “Batalhões Patrióticos” contra a Coluna Prestes, iniciativa do deputado Floro Bartolomeu e o do padre Cícero Batista Romão, o “Padim Ciço”.
Em agosto ou setembro daquele ano lá estiveram repórteres do jornal “O Povo”, de Fortaleza e “Jornal do Comércio, de Pernambuco. Fora isso, quem depois esteve com Lampião foi o sírio-libanês Benjamin Abraão que fez um documentário sobre seu bando, em 1936, trabalho este proibido de ser divulgado por Getúlio Vargas e que se perdeu com o tempo.
Em geral, as notícias sobre a ação dos bandoleiros eram desencontradas e muitas infundadas porque se tratavam de versões dadas pelo povo, que se baseavam em boatos, sem levar em consideração que muitas reportagens eram feitas por telefone, através de depoimentos de oficiais das volantes, de prefeitos e governadores que contavam só um lado dos acontecimentos.
Como até meados do século XX o Nordeste era uma região de difícil acesso e violento por causa do banditismo, as empresas jornalísticas (a imprensa escrita) procuravam evitar o envio de seus jornalistas ao local dos embates, acompanhando as tropas de combate. Não era uma prática usual.
Os jornais de Fortaleza, de Recife, Os Diários Associados, A Noite, do Rio de Janeiro, o Estado da Bahia, o jornal A Tarde (Salvador) e pequenos periódicos do interior foram os que mais divulgaram fatos sobre o cangaço. Mesmo assim, as notícias chegavam atrasadas e não eram bem apuradas e checadas.
Quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram mortos pela tropa do tenente João Bezerra, em Angicos (Sergipe), as notícias procederam das agências Nacional e Meridional e da sucursal do Diário de São Paulo.
Entre as versões que não batem, alguns jornais, por exemplo, chegaram a colocar o cangaceiro Ângelo Roque, o Labareda, como morto em Angicos quando, na verdade, ele não se encontrava no local. Uns chegaram a dizer que mataram Maria Bonita ainda viva, o que não foi comprovado.
O Diário de São Paulo chegou a escrever que o pai de Lampião, o José Ferreira da Silva era um facínora e que foi morto em combate contra a força da polícia alagoana comandada por José Lucena Maranhão. O pai em vida demonstrou ser pacato, sempre fugindo das perseguições e foi fuzilado quando debulhava milho em sua casa.
Portanto, os jornais e testemunhas sempre foram e devem ser fontes importantes de pesquisas na elaboração de obras sobre o cangaço, mas não são totalmente confiáveis. Os dados precisam ser checados e complementados através de documentação da época.
A SECA NA ESPERA DAS CHUVAS
Até onde alcança as vistas no infinito do horizonte, só o cinzento da caatinga no semiárido baiano e pernambucano. É o cenário da seca e da terra estorricada na espera das chuvas de trovoadas que devem bater nesta época de final de ano.
Quando o vento bate forte, as águas caem do céu e molham o chão. O sertanejo tira o seu chapéu de couro e faz sua prece de agradecimento ao Criador Todo Poderoso. Sempre diz que é uma maravilha e já pensa logo em jogar a semente nas valas do solo para a reprodução.
Em algumas partes, mesmo entre as pedras em formatos humanos e de pássaros, resistem os mandacarus e o florido de algumas plantas para embelezar a paisagem como símbolos de esperança e fé que nunca se acabam entre os nordestinos.
Em oito dias cruzei terras baianas e pernambucanas atravessando o grande rio mar, Opará para os índios e São Francisco para os colonizadores, também carinhosamente chamado de “Velho Chico”. Nas margens das pistas, o bodada se alimenta das plantas nativas e, às vezes, dão susto aos motoristas quando atravessam em filas as estradas.
O mormaço do calor de 40 graus com as pesadas nuvens escurecidas, que deixa escorrer o suor pelo seu corpo, é prenúncio de chuvas em breve. Num só dedo de prosa agradável, o sertanejo diz sentir que seu organismo garante que a chuva está chegando.
Fico a matutar sobre a sabedoria popular que vem dos ancestrais, mais sábia que a acadêmica pesquisadora que erra em suas previsões, principalmente nos imprevistos atuais das mudanças climáticas, ou melhor do aquecimento global.
Pelo papo com o nordestino do agreste, sei que em pouco tempo essas imagens cinzentas logo estarão renovadas com o colorido exuberante do verde e o brotar das flores. A terá exala outro cheiro perfumado e as aves em revoada voltam a voar entre as árvores fazendo a festa da alegria. O calango e a lagartixa correm entre o úmido dos gavetos e cascas, colhendo os insetos. É época de fartura e barriga cheia para todos. A tristeza dá lugar à esperança, que nunca morre.
As secas são cruéis e têm a cara da morte, aquela encapuzada com a foice na mão para ceifar o sertanejo, as plantações e os rebanhos. Com os tanques, cacimbas e as aguadas vazias, o boi berra sedento de sede. É um berro de dor.
Pelas estradas de cascalhos empoeiradas corre o carro-pipa para acudir os necessitados e, por maldade e insensibilidade humana, alguns chefes políticos ainda dão ordens aos seus contratados para atender somente àqueles que nele votaram.
Quando as estiagens são prolongadas, sem outra saída, milhares de sertanejos maltrapilhos, como nas secas de 1877/79, 1915, 1932/35 e tantas outras fatídicas, partem em retirada para outras terras estranhas para nelas serem escravos de patrão.
Em “Triste Partida”, o poeta Patativa do Assaré e o músico cantor Luiz Gonzaga narram e cantam toda triste saga do sofrido nordestino fugindo do flagelo das sequidões. A imprensa e a mídia em geral sempre estampam suas manchetes de horror e miséria onde milhares tombam de fome.
O nordestino isolado, sem amparo dos governantes, diz misericórdia Senhor Deus com tanto sofrimento! Perdoai os nossos pecados pelo mal que tanto fizemos porque toda fauna e a flora chora! Chama os compadres e as comadres para rezar e fazer suas procissões, para que São Pedro mande água, ao invés do sal.
Tudo é beleza e contentamento quando as preces são atendidas. É a seca que se vai com as chuvas, mas, infelizmente, sempre vem outra para o homem do campo enfrentar com resignação. Das sementes brotam os frutos e as cidades também se beneficiam das colheitas. Esse ciclo está sempre se repetindo.
“QUER ARCO OU TARCO?”
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(Chico Ribeiro Neto)
“Quer arco, tarco ou quer qui mói?”
“Quer álcool, talco ou quer que molhe?”, pergunta o barbeiro depois de fazer a barba do cliente.
Vida de barbeiro é difícil, tem que ralar muito e ainda tem que ouvir piadas.
Antigamente – e ainda hoje em algumas cidades – se você quisesse saber da vida de alguém era só ir na barbearia, geralmente a única da cidade. Lá se sabia da vida de todo mundo.
O barbeiro só sorria e dava corda para ouvir mais fofocas e revelações.
Tem até barbearia onde se fala mal da vida dos outros por ordem alfabética, pra não deixar ninguém de fora.
E as mulheres nos salões de beleza também contam e ouvem muita fofoca.
Conta-se que havia uma barbearia num bairro de Salvador onde um sujeito ia todo dia, durante 20 anos, contar e ouvir casos. Quando a barbearia fechou, ele queria uma indenização “por tempo de serviço”.
Calendário de mulher nua era o que não faltava nas antigas barbearias. Pra contrabalançar, um crucifixo em alguma parede. Também não faltava.muita piada.
Tem aquele ditado machista: “Quem gosta de homem é barbeiro, que alisa, bota pó e bota cheiro”.
Lembro daquela piada: todo sábado de manhã, o sujeito ia à barbearia e perguntava ao barbeiro:
“Tem quantos clientes na minha frente?”
“Tem quatro”, respondia o barbeiro.
“Dá tempo”, dizia ele, que saía e não voltava mais.
O sujeito fez isso durante três sábados. No quarto sábado, o barbeiro deu 10 reais a um menino para seguir o sujeito. O menino foi atrás e ele foi parar na casa do barbeiro, cuja mulher o esperava.
Difícil é contar essa piada enquanto o barbeiro faz sua barba com a navalha.
Algumas piadas recolhidas na rede:
“Cortar o cabelo é simples: você mostra a foto, o barbeiro corta diferente e diz que ficou igual”.
“O barbeiro corta, o espelho engana e a gente finge que gostou”.
“Todo corte de cabelo tem três fases: susto, arrependimento e aceitação”.
Há também piadas sobre clientes difíceis:
“Quero o corte igual ao de sempre, mas diferente”.
“Não tira nada, só arruma”.
“Quanto tempo você vai demorar?”
E só essa pra terminar:
“Quanto é o corte?”
“Depende de como ficar. Se ficar bom, é 50. Se ficar ruim, é 30 e leva um boné de brinde”.
A CAPELINHA PORTUGUESA
Na entrada da vinícola Rio Sol, em meio às videiras e encravada no agreste seco do sertão nordestino pernambucano, no município de Lagoa Grande, a capelinha portuguesa nos faz lembrar a época da colonização na região quando o El Rei de Portugal dividiu o Nordeste em sesmarias e massacrou as tribos indígenas. Pela sua simplicidade e como símbolo da fé católica, sempre digo que sou mais as capelas que as catedrais. A cultura das capelas nas grandes fazendas, na Casa Grande dos Engenhos, em contraste com as senzalas dos escravos negros vindos da África, foi e ainda é uma tradição mantida pelos senhores, inclusive os coronéis. Nos tempos da colonização, era na capela onde as famílias se reuniam para professar sua fé, realizar os batizados e, vez ou outro, assistir a missão do capelão. Quando lá estive na semana passada, na fazenda Rio Sol, foi a primeira construção a me chamar a atenção e o primeiro flagrante registrado pelas minhas lentes. A capelinha portuguesa representa a nossa história secular que permanece até hoje, inclusive nos distritos e povoados, principalmente no Nordeste.
PARTIDOS
De autoria de Júlio Lucas, do seu novo livro “NOVAMENTE POESIA”
Uma partida parte nossa silhueta
Um fluído pálido escorre do nosso vazio
E banha a estrada que nos separa
Que não se para
Não se volta
Volto meus olhos
Para dentro da minha sólida
E estática solidão onde te tenho
E te mantenho
Onde a língua das horas
Não mais te saboreará
Na mão enrugada
Dos amanheceres
Nas mesmas mãos do adeus
Observo sua fotografia
Que não pode…
Que não vai amarelar…






























