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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

“LÁ ELE!”

Chico Ribeiro Neto)

O “lá (ele” é uma expressão tipicamente baiana para reagir a frases de duplo sentido, insinuações sexuais ou brincadeiras. Significa “tô fora”, “não é comigo, é com outra pessoa”.

Fui comprar cinco espigas de milho para cozinhar. Cheguei na loja de hortifrútis e pedi ao empregado para descascar uns milhos para mim. Como sempre gosto de um pouco da palha do milho dentro da panela, pois dá mais gosto, falei pro  cara: “Irmão, por favor, deixe um com palha e tire a palha de quatro pra mim”. “Lá ele. Isso eu aí eu não faço, não”. Somente aí caiu a ficha.

Algumas situações que cabem responder com “lá ele”:

“O senhor vai tomar sentado ou em pé?”, pergunta o garçom a quem você pediu uma cerveja.

“Quer receber agora ou pra semana?”, pergunta alguém sobre um pagamento a ser feito.

“Vai levar agora?”

Dois caras montando um sofá: “Você segura que eu empurro”.

O passageiro grita no ônibus: “Motorista, abra o fundo aí”. E o motorista: “Lá ele cinco mil vezes”.

Como diziam os antigos, “esse povo leva tudo pro buraco da maldade”.

“Rapaz, esse negócio entrou com força”.

“Vou ali comer”.

“É pra botar embaixo ou em cima?”, pergunta o empregado com uma caixa na mão.

“Coloco essas compras aí ou posso colocar no fundo?”

“Vai comer aqui ou vai levar?”, pergunta o garçom do bar que serve PF.

O caixa do supermercado vai registrando minhas compras. A bandeja de ovos é o último item e ele me pergunta: “Posso passar até os ovos?”. Um “lá ele” bem dado.

Um amigo foi a uma loja de material de construção comprar um produto similar ao WD, que é mais barato. Uma moça estava no balcão e ele perguntou, sem um pingo de maldade: “Você tem aí um líquido viscoso e penetrante?” “Lá ele”, respondeu ela.

O outro comprou uma caixa de copos e o empacotador perguntou: “O senhor vai levar em pé ou deitado?”

E teve aquele que comprou um pernil e o açougueiro perguntou: “Vai levar inteiro?”

“Quando deita, você dorme logo ou leva um pedaço acordado?”

Segundo a linguística, o “lá ele” é “um marcador pragmático de distanciamento”. Expressão antiga usada na Bahia, pode hoje ser considerada de cunho machista, mas já se entranhou na boca do baiano. Lá ele!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESVIOS DE FUNÇÕES DO GLAUBER

    O Espaço Glauber Rocha, na Avenida Brumado, antigo Denit, foi construído no governo de Guilherme Menezes, se não me engano, nos anos 2000, com intuito de ali se tornar numa área voltada basicamente para a cultura, exposições de artes, realização de eventos e shows musicais, como o nosso tradicional São João. Além desses objetivos, o Espaço valorizou a zona oeste. Com o passar dos anos e mudanças de governos, que sempre desfazem as obras de seus antecessores, infelizmente, aquele Espaço sofreu desvios de suas funções, sem falar na festa junina que colocaram lá no Parque de Exposições, sob alegação fajuta de que tem mais capacidade de absorver mais gente. Hoje funcionam outros serviços e boxes de artesanato, pouco visitados. A área aos shows e eventos musicais se tornou num grande vazio e estacionamento de carros de particulares. Praticamente quase nada que lembre a nossa cultura e que faça jus ao nome do cineasta conquistense. A área de alimentação deixou de cumprir sua função. Até nisso a nossa cultura foi entregue às moscas. As pessoas só vão ali quando têm algum problema burocrático para resolver. É assim que querem transformar Conquista numa cidade turística? Pelo menos poderia existir uma sala de cinema, uma cinemateca e oficinas de audiovisuais em homenagem ao Glauber Rocha. Um projeto daquele porte não deveria ser apenas utilizado para prestação de alguns serviços de utilidade pública A impressão que se tem é de abandono de mais um equipamento destinado à cultura.

MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA

   Nesta sexta-feira (dia 22/05/2026), a partir das nove horas, a sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores vai focar seu trabalho nas pautas da modernização administrativa, na educação, na juventude, mobilidade estudantil e no incentivo ao esporte.

 Entre os projetos em discussão, está a proposta que dispõe sobre a reforma e atualização do Regimento Interno da Câmara, adequando as normas internas da Casa às diretrizes da Constituição Federal, Estadual e da Lei Orgânica Municipal, buscando modernizar os procedimentos legislativos.

  Consta ainda da pauta o projeto de resolução que regulamenta a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados no âmbito da Câmara, estabelecendo diretrizes, competências e mecanismos internos para o tratamento adequado de dados pessoais. A proposta tem o objetivo de ampliar a proteção da privacidade, garantir transparência e reduzir riscos institucionais.

  Na área da educação e da cultura, será apreciado o projeto que institui e inclui no calendário oficial do município o Dia Nacional da Juventude. A iniciativa reconhece a data como momento de mobilização social e debate sobre temas ligados à juventude, como cidadania, inclusão, educação e mercado de trabalho.

  Outro projeto em análise cria diretrizes para a promoção da educação cidadã na rede pública municipal de ensino, com foco na valorização da história de Vitória da Conquista, da cultura local, do Hino Municipal e dos símbolos oficiais. Visa incentivar o conhecimento dos espaços históricos e culturais da cidade.

   Na pauta, outro tema a ser debatido é a proposta que amplia o direito à meia passagem estudantil no transporte público, permitindo que estudantes utilizem benefícios em atividades além do deslocamento escolar, como cursos, capacitações, atividades culturais e esportivas.

    Também será analisado o projeto de lei que institui o selo “Empresa Amiga do Esporte do Município”, com objetivo de reconhecer e incentivar empresas que apoiam ações, projetos e iniciativas esportivas na cidade.      

 

 

NA ESTRADA DO SARAU

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Essa Estrada é você,

Aprender e doar,

Nosso Sarau é só saber,

Para poder chegar.

 

O grupo “Vinho Vinil,

A Estrada, pavimentou,

E desse cantil,

O Sarau se saciou.

 

Avante, avante, oh Sarau!

Estradeiros da cultura!

Com sua mensagem universal,

Como água da nascente,

Caudaloso rio corrente.

 

Vamos todos pra frente,

Que na Estrada vem gente!

Vamos com nossa cantoria,

Na canção da viola,

Na pegada da poesia,

Fazendo a nossa história!

 

Nessa Estrada do Sarau,

Nosso tema na abertura,

Nas asas do conhecer,

Somos embates e ternura,

Coisas mais lindas de ser ver.

 

São mais de quinze estações,

Passageiros do mesmo trem,

Cada um com sua bagagem,

Colaborando com o que tem,

Juntos unidos nessa viagem.

 

Avante, avante, oh Sarau,

Com sua arte no embornal!

O FANATISMO “CEGA” A PESSOA

    Num excesso de raiva, o cara levantou do sofá e deu um murro na televisão porque o Brasil foi eliminado da Copa Mundial de Futebol nas quartas de finais. Além do prejuízo, cortou a mão e teve que ir para o hospital estancar o sangramento.

  Isto não é um causo ou uma história de ficção. É tão real como o do torcedor colombiano, ou peruano, se não me engano, que matou um jogador por ter cometido um erro e, por isso, foi julgado como culpado pela desclassificação da sua seleção.

   Estes exemplos comprovam que o fanatismo é burro e deixa o indivíduo cego. O fanático, seja na religião, no futebol, na política ou outra atividade qualquer da vida, só vê o seu ponto de vista. Ele se torna um irracional e é capaz de cometer barbaridades. Melhor não tentar travar um diálogo com um fanático. É perigoso e arriscado.

  No caso específico do futebol, nem tanto como há 20 ou 30 anos que se acreditava no time, a Copa do Mundo está batendo em nossas portas e com ela uma onda de fanáticos que se esguelham, se “rasgam”, se endividam e são capazes de cometer atos bárbaros contra si e contra outros.

  Quantos não compram uma televisão nova de última geração, sem necessidade, induzidos pelas propagandas comerciais, para assistir a seleção brasileira na Copa! Muitos, com o poder aquisitivo de baixo a médio, se sujeitam a pagar 24 prestações mensais, ou dois anos de “módicas parcelas”.

  O José, o João ou o “Mané” que deu o murro na televisão ou quebrou a cadeira no aparelho, nem imaginou na hora que ainda tinha dois anos para quitá-lo! Para completar a burrice, ainda se embriagou e teve uma overdose alcoólica de quase morte.

  O fanático se anula, se deixa ser iludido e não mede as consequências, mas o mercado ainda vai lhe dar uma chance lá na frente para renegociar a dívida, comum para os que ficam encalacrados pelo excessivo consumismo, instigado pelo capitalismo e a própria mídia servidora do sistema.

  Foi só anunciar os 26 convocados para a Copa que os veículos de comunicação começaram a entupir os canais de televisão de propagandas. As chamadas são “tentadoras”.  O pessoal compra tudo quanto é bagulho e depois joga tudo no lixo quando a seleção “perna-de-pau” tropeça.

  – Olha aqui, meu amigo irmão, essa marca é top de linha, você vai poder ver os lances mais incríveis da Copa, que não têm em sua “antiga” televisão. É uma oferta com desconto de 20% e você pode pagar com prestações a perder de vista – dize o atendente com aquela lábia de vendedor. O consumidor cai como um patinho.

  No primeiro jogo do Brasil é aquela festa de inauguração e o cidadão endividado chama os amigos, parentes e até desconhecidos para ver a nova telona. É só alegria e muita gastança! Somente depois ele percebe que as imagens são as mesmas.

OS LADRÕES DE CAVALOS

  Esse negócio de beber muita água, bem que a ciência – naquela época não era tão evoluída assim – poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887/89, 1913/14, 1919/20, 1932/33 e tantas outras onde não caia um pingo do céu, sem contar que não havia comida, a não ser raízes dos umbuzeiros e polpas dos mandacarus.  

  O sertanejo do agreste catingueiro deveria ter uma barriga de pedra, adaptada para resistir a falta de água e alimento. Não tinha nem lama nas cacimbas e tanques para ingerir, mas estou aqui para falar mesmo sobre os ladrões de cavalos na região.

É que de tanto ler sobre o Nordeste, me veio esse assunto na “telha”, aquela de cerâmica feita do barro verdadeiro da terra que dá boa liga, não a de zinco e plástico. As “telhas” de hoje são mais de materiais sintéticos, substâncias que transmitem uma série de doenças, inclusive cancerígenas.

  No velho Nordeste, ladrão de cavalo (jumento, burro, mula), vaca ou bode, era considerado o indivíduo mais abominável do que o assassino ou homicida, principalmente quando atuava em legítima defesa e por vingança.

  Como praticamente não tinha justiça numa terra de ninguém, o ladrão de cavalo era sentenciado à morte, sem dó e compaixão e poderia ser até de forma cruel como nos tempos primitivos. Não havia perdão e era um crime intolerável no sertão.

   Os cangaceiros, por exemplo, atiravam em quem os chamassem de ladrões de cavalos. Eles diziam que tomavam emprestado para depois devolver os animais. Roubar uma rês no pasto do outro era uma guerra para o fim do mundo, e muitas brigas entre famílias começaram assim.

  Como no Nordeste, no Velho Oeste norte-americano, durante o século XIX, conforme relatam os filmes de faroeste, também bandido ladrão de cavalo tinha que ser imediatamente executado na forca. Era visto como elemento de baixo nível, um ser desprezível e nojento. Ladrão de cavalo era reconhecido de longe até pela sela do animal.

O cauboy entrava na cidade ou vila, amarrava o cavalo no mourão e entrava no salon para tomar um uisque ou jogar um carteado. Alguém saia de fininho e ia logo avisar ao cherife que tinha um ladrão de cavalo no bar.  

   Com o desenvolvimento e a evolução do Nordeste, que os tirou do isolamento profundo, essa categoria tornou-se rara, a não ser os intermediários dos frigoríficos que matam esses equinos para vender suas carnes e couros para a China.

  Esses meliantes furtam na calada da noite e ficam impunes. O jumento, por exemplo, símbolo da força, da resistência e da cultura popular nordestina, é uma espécie em extinção. Os governantes fazem de conta que nada está acontecendo. Fazem vistas grossas.

  – Fica você aí falando de ladrões de cavalos, coisa do passado, de gente caduca, enquanto a nação está sendo depenada pelos ladrões dos cofres públicos, não por gente “pé rapada”, mas por poderosas quadrilhas sofisticadas, protegidas por uma rede de advogados e até chefes políticos mancomunados.

– É, meu camarada, até que você tem razão e digo mais que esses sujeitos safados nem são tão execráveis como os antigos ladrões de cavalos. Ninguém importa mais com seus crimes, de tão comum que se tornaram, e milhões até votam neles nas eleições.

   Só para não perder o fio da meada, imaginou se os corruptos de hoje, que deixam milhares famintos, sem educação, saúde, assistência social e um rastro profundo de desigualdade social fossem tratados como os ladrões de cavalos no antigo Nordeste? Não ficava um, meu irmão. Seriam mortos a pauladas e pedradas.

  – Aí, meu amigo, se Cristo fosse vivo, poderia intervir e dizer, levanta a primeira pedra quem nunca pecou! A grande maioria dos brasileiros teria que jogar suas pedras fora e dar meia volta de cabeça baixa, envergonhados.        

O ESCREVER À MÃO

A DIFERENÇA ENTRE ESCREVER À MÃO E O DIGITALIZAR NO COMPUTADOR. A MÁQUINA DESUMANIZA. A MÃO, A TINTA, A CANETA E O PAPEL FAZEM O ELO DA INTERATIVIDADE COM O CÉREBRO.

  A cabeça reage bem melhor e com mais emoção quando se escreve à mão, deslizando a caneta no papel, do que na máquina datilográfica – há muito tempo em desuso – ou no atual computador. No modo tradicional do papel, as ideias brotam mais rápidas, com mais força e inspiração.

  A maior parte dos famosos escritores fazia seus livros à mão, não importando o gênero, e depois as secretárias ou as editoras digitalizavam o material, observando as devidas correções pontuais. Mesmo com os atuais avanços da tecnologia, ainda existem aqueles que mantém o hábito convencional da era das cartas. E como era satisfatório assinar embaixo!

  Escrever à mão é bem mais prazeroso e sentimos que a mente se conecta com maior intensidade com a pena. Ainda hoje faço meus versos e alguns pedaços de textos à mão para depois digitar. O texto flui e as palavras parecem cair em borbotões, sem muito esforço.

Sinto a diferença quando escrevo direto no computador, como estou a fazer agora. Não é a mesma coisa. O pensamento se torna mais lento, às vezes bate a fadiga e se exige mais esforços racionais dos neurônios.

A escrita à mão galopa como no picado de um cavalo de raça, e a cabeça corresponde bem melhor, de uma forma mais sequencial e livre. Tem-se a sensação de liberdade! O enredo, ou a história, voa como um pássaro, num ritmo cadenciado e silencioso, bem diferente do teclado.   

  Na pressa do dia a dia, no corre-corre, perdeu-se o hábito da escrita à mão para economizar tempo, indo direto ao computador. A tecnologia também nos levou a isso. Confesso que levei tempo para me acostumar e percebo que as palavras não caem do mesmo jeito como quando coloco a caneta para funcionar no papel.

   As colocações, os termos e as expressões se unem com maior precisão ao tema. O texto tem mais alma e sentimento, procurando o leitor que por ele se atrai. Nem tudo, mas muitas coisas dos meus livros foram parições escritas às mãos, inclusive em papéis de guardanapos em mesas de bares.

   Quando entrei para o jornalismo, nas redações corridas das matérias, para fechar as páginas nos horários marcados, perdi o hábito tradicional, ainda como estudante, mas foi muito difícil adaptar o cérebro à máquina de escrever.

  Muitas vezes, pelo menos fazia a abertura (o lide e o sublide) da reportagem à mão, para depois dar sequência ao resto do texto na máquina.  Muitos colegas também assim procediam enquanto se esperava por uma máquina.

   Nos museus e arquivos ainda se encontram manuscritos à mão de obras e cartas de grandes escritores, como Machado de Assis, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Hermann Hesse, Ernest Hemingway, Dostoievski e tantos outros.                                    

A OPERAÇÃO MASTER MATA

  Moço, nunca vi um esquema tão intrincado de produzir dinheiro, cooptar políticos e montar um bando até para matar adversários! Negócio de cangaço nos tempos modernos sofisticado. O Vocaro tinha influência até na Nasa. Fosse nos Estados Unidos já tinha gerado um filme de gangster.

  Master vem do latim magister que significa mestre, especialista e até se refere à graduação de mestrado. Tudo começou em 1974 com o nome de Máxima Corretora de Valores. Tornou-se banco múltiplo em 1990 como Banco Máxima. Em 2018 passou por reformulação societária e, em 2021, adotou oficialmente o nome Master. Em 2025 o Banco Central decretou sua liquidação.

  Se for desenrolar o novelo desde sua ponta, tem muito mais escândalo que supera a Operação Lava-Jato que, para frustração dos brasileiros, não deu em nada. Quando começou, todos diziam que o Brasil ia ser passado a limpo. Continua a epidemia de corrupção. No Rio de Janeiro, o tráfico e o crime dos morros e favelas incarnaram na nobreza do poder.

   Quanto ao Master, a teia financeira é tão complicada que poucos entendem como funcionava. No topo os investimentos em fundos de pensão e outros papéis podres, a turma dos sicários da pistola para matar adversários e os meninos do hacker para torpedear ações do Banco Central.

   A grana jorrava como água de torneira, não como da nossa Embasa que passa dias sem soltar o líquido. Mesadas polpudas para políticos, “contratos” milionários com escritórios de advocacia (a mulher do ministro), produção de filme e entranhou até no Supremo Tribunal Federal.

   Os noticiários, as conversas entre os beneficiários, as tramas financistas e todo o emaranhado de corrupções me deixam zonzo, coisa de deixar estrangeiro e especialista no assunto de boca aberta. Vocaro e seu bando atuavam como reis dos golpistas.  Porque estes da internet são pés de chinelos.

      Nesse país da corrupção, a palavra que mais se ouve é eu nego ou sou inocente. Até parece que a Polícia Federal, Ministério Público e outros órgãos estão brincando de denunciar ou fazem isso só para mostrar serviço na base do faz de conta.

  Os envolvidos se enrolam no palavreado, entram em contradições, mentem descaradamente e ainda têm a cara de pau de negar assinaturas, falas e até contestar suas imagens. São discípulos que superaram o mestre Paulo Maluf. Agora só se fala em bilhões.

  Agora com as novas tecnologias de simulações, as fake news e a IA, eles aproveitam para dizer que é tudo montagem e desmascarar a verdade. Provas nesse Brasil só funcionam para os pobres porque estes não têm advogados para desmontar os malfeitos.

  Por falar em advogados, sei que estão ali para fazer seu trabalho constitucional de que todos têm direito ao contraditório. No entanto, advogado de corrupto é indiretamente um deles porque está ganhando aquela grana milionária da própria corrupção praticada pelo seu cliente. É como se fosse cúmplice do crime.    

OS COITEIROS, O CANGAÇO E O SOFRIMENTO DOS SERTANEJOS

  As décadas de 20 e 30 do século XX foram os anos mais difíceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opressão dos coronéis fazendeiros, dos chefes políticos, a perseguição dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas à procura de melhorias para matar a fome.

  Com esses flagelos da violência humana e da natureza, os sertanejos ficavam acossados e, sem muitas opções de sobrevivência, muitos partiam para ser soldados ou coiteiros dos bandos de Lampião, que se tornou conhecido até nos Estados Unidos através do jornal The New York Times, que o considerou como o mais famoso bandido da América Latina. 

  Entre o final dos anos 20 e até meados dos 30, a Bahia foi um dos estados nordestinos mais atingidos por esses fatores, principalmente por parte da seca e do cangaço quando Lampião aqui chegou de mansinho e falando de paz em 1928. Sem recursos do Estado para combater a truculência dos cangaceiros, os sertanejos passaram a viver numa terra de ninguém.

  Esse cenário de sofrimentos é mostrado pelo autor do livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler, principalmente no capitulo “A Campanha e os Coiteiros”.

   A situação tornou-se ainda mais crítica com a Revolução de 30 e prosseguiu nos anos 32/33 com a Revolução Constitucionalista de São Paulo e quando o Nordeste sofreu uma de suas piores secas da sua história. Com estas revoluções, grande parte do policiamento foi requisitada pelos comandos, deixando vilas, povoados e cidades desprotegidos. 

   A campanha contra o cangaço na Bahia começou em outubro de 1931, isto depois de Lampião ter praticado muitas invasões nas regiões de Jeremoabo, Queimadas, Senhor do Bonfim, Jacobina, Morro do Chapéu, arredores de Juazeiro, Curaçá e vizinhanças de Uauá.

   Início de 1932 começou com um desastre, no Raso da Catarina, em Maranduba, sob o comando do tenente Liberato de Carvalho. Nesse combate, cinco soldados morreram e mais de dez ficaram feridos, muitos dos quais vieram a falecer depois.

   Durante toda campanha, a questão sempre se esbarrava na falta de recursos, bem como na rede de coiteiros mantidos por Lampião, no tráfico de armas e munições que envolvia “coronéis” e oficiais da própria polícia.

 DOIS TIPOS DE COITEIROS

  Na classificação do escritor Billy, havia dois tipos de coiteiros. O primeiro constituído por fazendeiros, negociantes e chefes políticos ricos, caso do coronel João Sá (Jeremoabo), que ajudavam Lampião por necessidade, visando proteger suas propriedades e bens. Esse grupo gozava de imunidade na polícia e na justiça, mesmo depois da Revolução de 30.

  O segundo tipo de coiteiros consistia de vaqueiros, moradores, lojistas e comerciantes dos povoados que tinham pouca influência e ficavam entre a cruz e a espada. Esse pessoal sofria extorsões, torturas e roubos nas mãos da polícia. Nessa encruzilhada, o sertanejo não tinha muita opção, ou decidia ser coiteiro ou soldado.

   Esta segunda classe, composta dos mais pobres, era chamada de “coiteiros de pé no chão” e sofria mais nas mãos da polícia do que nas dos cangaceiros. Estes coiteiros tinham medo dos cangaceiros e eram obrigados a fazer seus serviços porque não contavam com a proteção policial. “Uma consequência inevitável dessa situação, era a onda de violência que muitas volantes deixavam em sua passagem” – relata o escritor.  

   Os abusos da polícia eram constantemente noticiados na época pelos jornais nordestinos e até do Rio de Janeiro. O sertão se transformou num quadro de horror com espancamentos e roubos de animais pela polícia. Enquanto isso, os bandos de Lampião sempre levavam a melhor e depois se recolhiam aos seus esconderijos.

  “Pode acreditar que hoje, no sertão, já se tem mais alegria quando Lampião chega à porta do que a simples notícia de que as forças se aproximam” – disse um fazendeiro de Sergipe, referindo-se à polícia da Bahia. “A brutalidade das tropas era atribuída, sem dúvida, à frustração e raiva, mas é evidente que a violência, em muitos casos, era empregada deliberadamente” – enfatizou o escritor Billy Chandler.

   Outro fator que contribuiu para esse quadro de terror da campanha era a própria natureza dos soldados, quase todos analfabetos e ignorantes, sem contar que seus soldos eram baixos e recebiam com atrasos de meses.

  Era necessário escolher um lado ou outro. Muitos se alistavam para ter um emprego, e outros, inclusive criminosos, eram forçados para escapar da pena, caso de Zé Calu, de Água Branca, em Alagoas.

  A força mais temida pelos sertanejos era os chamados “nazarenos” do povoado pernambucano do mesmo nome, uma mistura de soldados, milicianos e voluntários que sempre perseguiram Lampião enquanto vida.

  Por sua vez, Lampião tinha seu lado cruel, bondoso e até justiceiro, a depender de quem era seu amigo e atendia seus pedidos, ou seu inimigo que não tinha perdão. Se é para matar, mata logo, dizia aos seus companheiros e acrescentava que cometia suas atrocidades para ser respeitado.

  Grande parte da fama de Lampião foi construída pela imprensa, inclusive se tornou célebre no exterior. Como ele tinha vários bandos e amigos fazendeiros, chegou-se ao ponto que muitos sertanejos aliados seus, quando precisavam se locomover de uma região para outra, carregavam um “passe”, tipo passaporte, assinado pelo “rei do cangaço”.  Quem tinha esse “passe” não era importunado.        

                                      

OBRIGADO, DONA CLEONICE

(Chico Ribeiro Neto)

Cleonice ainda brincava de boneca quando casou com Waldemar aos 16 anos. Teve quatro filhos: Luiz, José Carlos, Cleomar e eu.

Nasci em Ipiaú (BA) em 1948. A família veio de lá para Salvador uns 6 a 7 anos depois.

Waldemar e Cleonice arrendaram uma pensão, um velho casarão na Avenida Sete de Setembro, 239, defronte ao Colégio das Mercês. Hoje só resta a fachada do velho casarão.

Depois, Waldemar labutou com armazém na Rua da Imperatriz, na Cidade Baixa, onde também moramos. Cleonice voltou a arrendar um pensionato num casarão da Rua Gabriel Soares, 33 (Ladeira dos Aflitos) por volta de 1958, enquanto Waldemar levava coco seco de caminhão para vender em São Paulo, retornando com uma carga de confecções.

Dona Cleonice tomava conta da pensão, que tinha uns 25 hóspedes, com muita energia. Tinha um empregado que cuidava da limpeza e fazia as compras diárias (não havia freezer e as geladeiras eram pequenas) na feira do Largo 2 de Julho. Eram 5 quilos de carne por dia. Trabalhavam ainda uma cozinheira e uma copeira.

Numa luta de 10 anos à frente do 33 Cleonice enfrentou de tudo. Desapartou uma briga de espadins entre dois universitários concluintes do curso do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), do Exército. Eles iam se formar no dia seguinte e levaram os espadins para a pensão, onde começou uma briga.

Teve um hóspede que fugiu de madrugada pela janela do primeiro andar do casarão, usando uma “teresa”, corda feita com lençóis, e deixando três meses sem pagar e uma mala cheia de roupa velha.

Depois de velha, Cleonice costumava dizer na minha presença: “Chico ficou assim perdido porque não tive tempo de tomar conta dele”. Ela sempre achou tempo para cuidar da minha asma e das coceiras.

Praia do Unhão, só depois de terminar o dever. Uma vez fui pescar nas pedras do Unhão e perdi o horário. Quando deu uma da tarde, Cleonice desceu a encosta do Unhão e começou a me gritar. Ela dobrou meu dedo mindinho e fomos assim até em casa.

Costumava dizer: “Chiquinho foi o que menos apanhou lá em casa”.

Já viúva e mais velha, dona Cleonice foi morar em Aracaju junto aos filhos Luiz. Zé Carlos e Cleomar. Morreu em Aracaju com 86 anos.

Em Salvador, onde trabalhava em dois lugares, sem tempo pra nada, fiquei  uma vez uns 15 dias sem ligar pra ela.  Aí ela me liga:

“Como vai você? Tá Tudo bem?”

“Tudo bem, velha”.

“Você não está nem gripado?”

Ela sentia saudades de Salvador, mas costumava dizer: “Não sei por que em Salvador tem tanta lavagem e a cidade só anda fedendo!”

Gostava de citar alguns ditados populares: “Água e conselho só se dá a quem pede”. Quando via alguém que era pobre e ficou rico e metido a besta, dizia: “Quando não chovia onde é que nambu bebia?”

Andava meio ressabiada com a Igreja Católica, decepcionada com os casos de corrupção e abuso sexual. Tinha simpatia pelo espiritismo e achava-se vidente. Uma vez, de madrugada, ela estava no interior e acordou com uma dor terrível no polegar direito. Não havia ferimento algum no dedo. De manhã, chegou Luiz de viagem, com um panarício enorme no polegar direito.

Ela dava a receita de como se livrar de uma visita chata: “Você concorda com tudo que a pessoa fala. Ela se cansa e vai logo embora!”

Dona Cleonice lia muito depois que deixou a vida de dona de pensão. Gostava de ouvir música e ficou encantada com “Roda Viva”, de Chico Buarque, em 1967. Cleomar comprou o disco compacto com “Roda Viva”. Cleonice ouviu três vezes e depois disse a Cleomar: “Agora eu já sei o que é curtir”.

“Tem dias que a gente se sente

Como quem partiu ou morreu…”

Obrigado, velha, agora eu sei o que é chorar.

(Na foto, eu e mamãe Cleonice).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 





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