“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
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SALVEM O JAMELÃO!
Só porque minhas folhas e meus frutos caem na calçada da pracinha da Tapera, distrito charmoso e pacato de Encruzilhada, estão querendo tirar a minha vida, me deixar só no toco, logo eu que produzo oxigênio para purificar o ar que respira essa gente!
Isso é uma grande maldade que querem fazer comigo, sem contar que é um crime ambiental! Vivo aqui nessa pracinha há muitos anos, sem mal nenhum a fazer para ninguém. Por que decapitar o frondoso Jamelão? Isso é insano.
Dou sombra ao fatigante do sol e ainda acolho com prazer a todos aqueles que gostam de prosear debaixo da minha árvore. Ouço casos, causos e histórias do “arco da velha”. Guardo segredos. Acredito que todos aqui gostam de mim e me apreciam. Peço veemência e me deixem viver porque também sou vida.
É um apelo do Jamelão, e toda comunidade deve se juntar e se unir em defesa dessa boa causa porque correm boatos de que a Prefeitura Municipal pretende cortar essa árvore bondosa, com o argumento simplista de que “suja” a praça, ao invés de estar sempre fazendo a devida limpeza. Para isso, paga o contribuinte, e o poder executivo deve sim ser guardião da natureza e não o vilão. Senhor prefeito, salve nosso Jamelão.
O morador “Tonio”, do mercadinho, está indignado com esse possível atentado e apela a todos que salvem o nosso Jamelão, fazendo uma corrente de proteção, inclusive com um abaixo-assinado para evitar que ocorra mais uma destruição à natureza pelo homem predador.
Como se não bastassem os desmatamentos das florestas Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal e do Cerrado, agora querem tirar um Jamelão da pracinha da Tapera que tanto encanta os moradores, principalmente os mais antigos.
Não passam de criminosos insensíveis ao aquecimento global, às mudanças climáticas, que estão causando tragédias e catástrofes na humanidade. Em público, para ficarem bem na imagem, “defendem” o meio ambiente, mas às escondidas se atrevem a cortar uma árvore, sem motivos que convençam.
Como o ser humano, mesmo se uma planta está doente ou com pragas, existe o recurso de tratamento medicinal com remédios. A solução não é tirar sua vida. Portanto, vamos salvar o Jamelão da Tapera que já é um patrimônio do distrito.
Sou jornalista, escritor, poeta e compositor. Sempre frequento a Tapera como cunhado e amigo de “Tonio”, casado com Vandilza Gonçalves. Conheço o imponente Jamelão, lá na pracinha, dando boas-vindas a quem chega, inclusive a mim visitante. Portanto, vamos todos juntos salvar nosso amigo Jamelão, e que tenha vida longa.
PROJETO DE LEI QUE DISCIPLINA SOBRE TERRENOS ABANDONADOS
A construção de moradias populares em Vitória da Conquista, o problema da Zona Azul, a macro e a micro drenagem na cidade para conter os estragos das chuvas e o projeto de lei sobre os terrenos abandonados foram as discussões predominantes pelos vereadores na sessão ordinária da última sexta-feira – dia 20/02/2025.
Antes das falas, por uma questão de ordem, o vereador Dudé fez um alerta para evitar que a vassoura de bruxa que está atacando as lavouras de mandioca no Pará e em Macapá não cheguei a Conquista e sugeriu que a Casa entre em contato com os órgãos técnicos para tomar as devidas providências. O subtenente Muniz pediu uma audiência pública para tratar do problema. Hermínio Oliveira lembrou que essa praga já ocorreu no sul da Bahia.
Sobre as pautas do dia, o presidente do legislativo, Ivan Cordeiro, falou da política habitacional, ao anunciar que a Câmara já fez a indicação de alocar 30 milhões de reais dos 400 milhões do empréstimo para a construção de casas populares.
Alexandre Xandó citou que em Conquista existe um déficit habitacional em torno de 10 mil habitações e reforçou ser necessário também que se implante um programa de reforma de casas, principalmente direcionado às pessoas que não têm condições de bancar esses serviços.
Da tribuna, mais uma vez, Dudé focou seu discurso na questão da macro e da micro drenagem em Conquista, propondo que a Câmara e a Prefeitura Municipal se entendam com os governos estadual e federal, juntamente com os deputados Waldenor, Jean Fabrício e Zé Raimundo, porque o problema é grave quando batem as fortes chuvas. “A responsabilidade é dos três governos”. Na ocasião, tratou também da construção de viadutos no Anel Viário.
A vereadora Gabriela Garrido anunciou a elaboração de um projeto de lei para disciplinar o problema dos terrenos abandonados pelos seus proprietários na cidade onde viraram depósitos de lixo e entulhos. Assinalou que as multas para quem não cuida dessas áreas são irrisórias e precisam ser mais pesadas. Segundo ela, esses terrenos se tornaram verdadeiros atentados à saúde pública.
O subtenente Muniz questionou as multas da zona azul, mas, mesmo diante de tantos problemas em Conquista, achou de ocupar sua maior parte do tempo em criticar a Escola de Samba de Niterói que prestou uma homenagem ao presidente Lula, contando sua trajetória de vida. Considerou ser um atentado e um desrespeito às famílias brasileiras.
Paulinho Oliveira destacou a questão da Zona Azul e fez um apelo ao poder executivo para que devolva aos usuários o dinheiro cobrado das taxas do TPU. Ele quer também que a Zona Azul se responsabilize pela segurança dos veículos estacionados em caso de danos ou roubo, ressarcindo os donos. Quem também tratou dos problemas da Zona Azul foram os vereadores Cris Rocha e Adinilson Pereira.
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“O MUNDO ESTRANHO DOS CANGACEIROS”
Numa descrição poética do árido do sertão nordestino, o professor e escritor Estácio Luiz Valente de Lima, em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, coloca estes personagens como produto das agressões mesológicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas não descarta outros fatores que contribuíram para o surgimento do cangaço, como a injustiça social.
No capítulo de abertura sobre “O Meio”, ele diz que “o clima, no império dos bandoleiros, é um clima áspero, esse mesmo que prossegue desafiando a técnica e a inércia dos nossos governos e diante do qual falazes têm sido todas as ajudas internacionais”.
Sua linguagem é dura como o chão rachado pelo sol inclemente que deixa o sertanejo endurecido e o transforma, muitas vezes, numa alma cruel, ao ponto de perder as esperanças em determinados momentos da vida.
Com sua visão da poligenia nordestina, com sua multiplicidade de raças, o médico, odontólogo e presidente do Conselho Penitenciário da Bahia, no final dos anos 30, Estácio de Lima penetra fundo no psicológico do cangaceiro ao ponto de se colocar como advogado em defesa da sua regeneração.
Na prática, como presidente do Conselho, Estácio controlou a vida de muitos cangaceiros presos que pertenceram ao bando de Lampião, depois da sua morte, em 1938. A prefaciadora da sua obra, professora Maria Thereza Pacheco, relata que o mestre acompanhava seus afazeres e mantinha permanente contato com eles.
Muitos foram trabalhar em hospitais de Salvador, na condição de vigias. O lugar-tenente de Lampião, o Ângelo Roque, conhecido como Labareda, tornou-se porteiro do Conselho Penitenciário, no Fórum Ruy Barbosa. Outros também exerceram a mesma função no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como o Benício, chamado de Saracura.
A professora conta que Estácio encontrou dificuldades para indultar o cangaceiro Antônio dos Santos, vulgo “Volta Seca”, que entrou no grupo ainda criança, e entre os 14 e 15 anos, obedecendo ordens do capitão, executou três soldados que estavam montando guarda na cadeia de Queimadas (Bahia). Foi capturado depois pela polícia e condenado a cem anos de prisão.
Após 20 anos de pena, mesmo tendo tentado evadir-se da cadeia, Estácio de Lima defendeu a sua liberdade, se colocando como responsável. Além de “Volta Seca”, o presidente do Conselho, após estudos minuciosos sobre os condenados, escreveu ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, solicitando o livramento condicional.
Mesmo temeroso, o presidente aceitou o pedido, mas colocou sobre os ombros do mestre toda capacidade de responder pelos atos dos cangaceiros então em liberdade. De acordo com a professora Thereza, na época, o fato foi noticiado com muita admiração ao mestre em todo Brasil.
Ela escreveu no prefácio que Estácio foi um pioneiro no estudo multifário do cangaceirismo no Brasil. Cita que o autor do livro faz uma interessante síntese associativa entre os italianos que se rebelaram em grupos a jeito dos rebeldes como os homens do cangaço nordestino, estudando a personalidade e o meio em que viveram.
Em sua obra, Estácio faz também uma comparação com os gângsteres, os homens do faroeste, concluindo que eles não dariam jamais o cangaceiro. “O meio tem sua influência maior”. Sobre a lei para o sertanejo e o nordestino, o médico afirma que “o mais forte prosseguia, com as garantias do seu poder, e os fracos, pobres e desamparados, defender-se-iam como pudessem”!
“A primeira atitude humana contra as ações nocivas do agressor trazia um aspecto negativo, tão indisciplinado nas cavernas, quanto nas catingas. O revide, a pouco e pouco, é que foi perdendo o caráter das ações arbitrárias, individuais, para tornar-se coletivo, num esboço de legalidade”- destaca o autor.
Em sua opinião, o elemento telúrico explica, em parte, o cangaceiro brutal e cruel como a seca. O cangaceiro, segundo Estácio, “possui assim, aquelas características do homem das cavernas…”
ZÉ KÉTI BOTOU O ARLEQUIM PRA CHORAR
(Chico Ribeiro Neto)
Gosto muito dessa crônica, postada em dezembro de 2023, e por isso a reproduzo hoje:
Na década de 60, em Salvador, os brigões e arruaceiros do Carnaval eram levados para a Secretaria de Segurança Pública, na Praça da Piedade, onde ficavam trancafiados até Quarta-Feira de Cinzas. Nesse dia, umas 11 horas, a Polícia soltava todo mundo de uma vez. Constrangidos, os brigões tinham que passar por uma multidão de curiosos na entrada da SSP que iam ver a soltura geral. Era o bloco do “O que é que eu vou dizer em casa?”. Alguns dos presos assim que respiravam a liberdade já paravam no primeiro bar da Piedade para tentar retomar o tempo perdido do Carnaval.
Fazer xixi no Carnaval, na década de 60, era uma luta. Não havia sanitário público. Os homens faziam em qualquer lugar, mas para as mulheres era mais difícil. Os barraqueiros da Praça Castro Alves, ponto de maior concentração, faziam um cercadinho com as caixas de cerveja e as mulheres faziam ali, no chão mesmo, junto às garrafas de cerveja cheias. Uma vez uma amiga foi num desses quadradinhos e enquanto se aliviava viu um bando de olhinhos entre os engradados de cerveja. Quando ela saiu cinco meninos fugiram correndo.
Foi na Castro Alves que uma amiga estava dançando com um cara, os dois bem animados, quando ele a convidou para ir até a Ladeira da Barroquinha: “Vamos ali que tenho um negócio pra lhe mostrar” “Vixe, esse cara tá querendo ousadia”, pensou ela, que só queria dançar. E o cara volta e meia insistia: “Vamos ali que tenho uma coisa boa pra nós dois”. Ela acabou indo. Ele a chamou para um canto, levantou a mortalha e tirou algo da cintura: um saco plástico com duas coxas de frango assado e farofa: “Olha aqui o que tenho pra nós”. “Coma à vontade, eu comi um acarajé nesse instante”, disse ela.
Todo Carnaval tem uma hora que dá um paradeiro geral, principalmente à tarde. Foi assim uma vez na Avenida Sete de Setembro: não passava nada, nem trio, bloco, nem afoxé, e o povo já agoniado. E eu também. Aí encontrei meu irmão Zé Carlos, tomamos uma num isopor e começamos a cantar marchinhas de Carnaval, cadenciados pelo bater das latinhas. O numero cresceu para oito, depois 30 pessoas, e o pequeno bloco desceu a Ladeira de São Bento cantando “Ô jardineira, por que estás tão triste?”. O bloco das latinhas foi se encorpando e quando chegamos na Praça Castro Alves fizemos uma roda imensa, aí as pessoas já dançavam pelo meio, e aconteceu a brilhante orquestra de lata. Aí chegou um trio.
“Tanto riso
Ó, quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão (…)”
(“Máscara Negra”, de Zé Kéti).
A viúva de Deusdedith Pereira Matos (morto em 1966), dona Benedita Matos, reivindicava para o marido a autoria da letra da música “Máscara Negra”, lançada por Zé Kéti em 1967 e grande sucesso nos carnavais até hoje.
Pois bem, Zé Kéti, além de enfrentar toda a polêmica sobre a autoria da letra, ainda se deparou com uns críticos que viam defeitos na letra. Diziam que Arlequim e Pierrô são personagens da commedia dell’arte italiana e que quem chora é o Pierrô, com uma paixão não correspondida pela Colombina. O Arlequim, segundo eles, não é de chorar, mas de provocar choro nos outros. E aí veio a resposta irada de Zé Kéti: “A música é minha, eu faço o Arlequim chorar e ficar apaixonado quando bem entender, desde que chore na minha música”. (Fonte: telestoques.wordpress.com, site oficial de José Teles).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
SEM EXAGEROS NAS INFORMAÇÕES!
O que leva uma pessoa a produzir um vídeo dizendo que Vitória da Conquista é a cidade mais fria do Nordeste e a denominá-la de “Suíça Baiana”? Como se fala no ditado popular, “vamos devagar que o santo é de barro”! Sem exageros, meu camarada, senão o que seria um gesto de enaltecimento e divulgação, termina caindo no ridículo e no deboche. Isso é um desserviço, sem contar que é uma mentira que tem sua origem num bairrismo barato. A cidade mais fria e mais alta do Nordeste, com 1.268 metros de altitude, é Piatã, localizada na Bahia, chegando até 1 grau no inverno rigoroso. Temos ainda na Bahia, a cidade de Morro do Chapéu, mais alta e mais fria que Conquista. Existem outras. Toda propaganda, principalmente a pública, leva pitadas de informações exageradas e fantasiosas, características próprias do propagandista ou do publicitário que a constrói e elabora, com vistas a atrair quem ler, assiste ou ouve. No entanto, não se deve enganar quando se trata de dados históricos e estatísticos que passaram pelo crivo da pesquisa. Pode-se até florear um texto usando uma linguagem poética, com metáforas, parábolas ou outras figuras artísticas literárias, mas não mentir e passar uma informação errada. Muitos incorrem nesse erro por falta de conhecimento ou faz de propósito, achando que sua afirmação incorreta não será desmascarada e terminará virando verdade. Quando alguém faz esse tipo de crítica construtiva, sempre é mal interpretado como persona não grata que menospreza a cidade, e ainda é alvo de ofensas e pedradas. Digo isso porque já fui vítima e ainda sou quando coloco o dedo nas feridas. Vou sempre afirmar que é uma imbecilidade chamar Conquista de “Suíça Baiana. Meu recado é que estudem mais sobre a história do seu município, coisa rara de se encontrar quem faça isso, porque, a cada dia que passa, a nossa cultura só se esvazia, especialmente pelo poder público. Qual orgulho em dizer que temos o maior Cristo crucificado do mundo, se aquela área, mesmo com as novas obras de um mirante, está abandonada (quiosques fechados) e é pouco visitada por falta de segurança e outros serviços de infraestrutura? Pela lógica, se é o maior, deveria ter uma tremenda estrutura de urbanização e ser ponto turístico de atração como cartão postal da cidade. Acho tudo isso uma vergonha! Não é assim que Conquista se transformará numa cidade turística.
O CANGACEIRO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu punhal é a lei,
O bacamarte, a autoridade
No fuzil sou o rei,
Minha caatinga, a liberdade.
Vivo em louca correria,
Nas alpercatas, sou ligeiro,
Com minha companheira Maria,
Deste agreste sou cangaceiro.
No corpo fechado, as crendices,
Sigo sinais e as superstições,
Mato minha sede nas raízes,
Como guerreiro destes sertões.
Fui cruel e sanguinário,
Combati volantes valentes,
Versos do poeta imaginário,
Fruto social destas gentes.
No peito levo a cartucheira,
Chapéu símbolo de Salomão,
Na macambira e na quixabeira,
Sou Silvino e Lampião.
E ASSIM VAMOS LEVANDO A VIDA…
De acordo com pesquisas científicas, a humanidade está ficando mais burra, isto é, com menos QI nos neurônios, tanto que acabam de criar a inteligência artificial, ou superficial. Perceberam que a tecnologia está nos deixando mais imbecis e inúteis!
Dessa “inteligência” não entendo bulhufas em termos de manuseio tecnológico, mas avalio que veio para atanazar a vida dos outros, inventar mentiras, caluniar, difamar e nos impressionar com seus ilusionismos onde um gato ataca um leão e crianças têm suas imagens de nudez na internet pelos pedófilos. Claro que existem bons proveitos, mas a balança pende mais para que lado?
Estamos vivendo no mundo encantado do surreal e poucos sabem discernir o certo do errado porque se afastaram do conhecimento e do saber cognitivo. As religiões primeiras que mataram e praticaram sacrifícios humanos em nome de um deus carrasco (fizeram até guerras “santas”), se proliferaram, deixando as pessoas mais doentes, reprimidas e recalcadas, com medo de serem punidas e castigadas no fogo do inferno.
No Brasil, o carnaval de quase duas semanas, “o maior espetáculo da terra”, está agora entrando em sua terrível ressaca para os foliões pipoqueiros que torraram suas economias como súditos dos reis e rainhas. Você quase não vê o outro lado porque a mídia, em conluio com o capital, joga toda sujeira debaixo do tapete.
Sem falar na violência policial, brigas, furtos e roubos, logo mais começam a aparecer os estragos financeiros e as doenças de todo tipo de vírus, mas tudo faz parte da festa. Como se diz, não dá para se fazer uma omelete sem quebrar os ovos.
E assim vamos levando a vida e ela nos levando, como canta o pagodeiro, se bem que não concordo muito com isso porque expressa um sentido de falta de domínio sobre as coisas. Se somos donos dela (a vida), não podemos deixar que ela nos leve para qualquer lugar, ou que devemos aceitar e engolir tudo, sem contestar entre o que é bom e ruim, o normal do anormal.
Depois de quase tudo parado e fechado, aos poucos vamos retomando a vida de correria da labuta pela sobrevivência da vida. O rico faz o cálculo dos seus lucros dos festejos e comemora com estilo. Seu plano é como ganhar mais no próximo evento.
O pobre corre atrás para pagar as contas como freguês do sistema selvagem capitalista. Um enredo de escola de samba nos engana ao dizer que o pobre não se curva ao poder, e assim vamos levando a vida. Oh, quanta ilusão!
Nos dias de hoje aceitamos e repetimos afirmações que não condizem com a realidade. Nem paramos um pouco para pensar e refletir que o “buraco é mais embaixo”. Preferimos seguir em frente porque é mais cômodo. Para que esquentar a cabeça?
O Congresso Nacional bandido, as assembleias estaduais e as câmaras de vereadores, que por ano custam mais de 130 bilhões de reais aos nossos cofres públicos, com suas mordomias, penduricalhos e assessores aos montes, abrem suas sessões de costas para o povo. Os gastos superam a receita. A contas nunca fecham, e assim vamos levando a vida aos “troncos e barrancos”.
As religiões, criadas pelos próprios homens, com suas fórmulas imutáveis, nos ensinam que devemos ser resignados, cordatos e cumprir os mandamentos, para alcançarmos a salvação eterna.
Uns riem e outros choram, cada qual com seus problemas, suas angústias e alegrias na busca pela felicidade, que é passageira, e assim vamos levando a vida, de estação em estação, nos embarques e desembarques.
O PAVOR DE SE FALAR O QUE PENSA
Nos tempos atuais, mais do que nunca, de um modo geral as pessoas estão receosas de falar o que pensam. Temem ser excluídas, canceladas e execradas pela sociedade. Ultimamente tenho visto e acompanhado muitos comentários presenciais e virtuais sobre esta questão.
Com a expansão da Inteligência Artificial, isto tem ficado mais pavoroso. A impressão é que estamos sendo vigiados vinte e quatro horas por dia, como se estivéssemos numa ditadura do pensamento. Temos que seguir normas e regras padronizadas por conceitos sociais, como se fossem verdades.
Não se pode discordar de determinadas posições feministas; ideias preconcebidas de movimentos negros, muitas das quais historicamente distorcidas por falta de conhecimento; sobre políticas públicas; e outros assuntos de ordem religiosa ou cultural que logo a pessoa é interpretada como machista, racista ou retrógrada.
Não estou aqui, de forma alguma, me referindo a discursos de ódio e intolerância contra gêneros, raça, religião (não sigo nenhuma) ou de aspecto comportamental de cada indivíduo porque estes são abomináveis e nem merecem crédito.
Parece existir uma ordem de proibição onde não se pode ultrapassar aquela linha e usar a sua massa crítica para apontar conceitos entre os quais você não concorda. Se você é de esquerda ou progressista tem que estar totalmente alinhado a tudo quanto o governo de esquerda vem praticando na política, e assim por diante.
Quando se emite uma opinião contrária, a pessoa já é vista de forma atravessada e até excluída do grupo uniforme de pensar. Essa é uma cultura do represamento que cheira a censura. A própria religião nos prende nessa redoma.
Este é apenas um exemplo que cito sobre o pavor de se falar o que se pensa, mas são inúmeros os patrulhamentos ideológicos que têm suas origens no sistema a que fomos moldados desde a nossa formação. Na maioria das vezes, temos medo de expressar o nosso ponto de vista e ficamos calados, consentindo e aprovando coisas erradas.
As pessoas mais idosas, como eu, se libertaram dessa opressão porque já se acostumaram tanto com as críticas que uma porrada a mais não faz diferença. Além do mais, ficaram imunizadas pela vacina da liberdade de falar o que pensa. Acho até que deveria ter uma lei onde ao idoso é facultado falar o que bem quiser porque ele já recebeu em vida todas as cargas de críticas.
Nesta semana estava falando com uma amiga sobre o problema do assédio sexual (mais um exemplo) do homem contra a mulher, mas acha-se engraçado quando ocorre o inverso. Sem nenhum consentimento, ela me contava que uma mulher num bar se levantou repentinamente e tascou um beijo no cara.
Isso não configura crime de assédio sexual? Quer dizer que a mulher pode, mas o homem, não. Se o cara for à delegacia dar uma queixa, o delegado vai debochar dele. Numa novela, uma atriz chamou o ator de frouxo porque ela a beijou e ele a rejeitou.
Existem muitos outros temas controversos, contraditórios e paradoxais onde as pessoas evitam colocar suas críticas e discordar. Uns preferem ficar calados e outros terminam concordando para não serem constrangidos. Nem tudo que se pensa deve ser dito, mas deveria, só que a sociedade é opressora.
Não vale, no entanto, inventar mentiras e falar asneiras e besteiras para confundir a opinião pública, como um vídeo (não sei quem produziu) sobre Vitória da Conquista onde o “influenciador” (virou sinônimo de picaretagem) diz que aqui é a cidade mais fria do Nordeste, daí ser conhecida como “Suíça Baiana”. Aí é demais, meu camarada! Não consigo engolir esse termo influenciador. De quê e de quem?
O CARNAVAL QUE PASSOU
Na suadeira do carnaval entro com minha fantasia de excluído de pano encardido, no peito escrito “Fora a Corrupção” e nas costas os dizeres “Por Justiça e Igualdade Social”. Na mão carrego um cartaz que fala do carnaval que passou.
Sou um velho solitário no meio da multidão. A grande maioria nem viu a minha passagem. Muitos acharam meu traje engraçado e só poucos entenderam minha mensagem. Fui até alvo de algumas fotos feitas por uns gringos que acham tudo exótico e pulam com aquele jeito desengonçado, com o sotaque de que o Brasil e a Bahia são maravilhosos. Aliás, tudo é maravilhoso!
No Pelourinho, no Terreiro de Jesus e na Praça da Sé ainda vejo algumas bandas tradicionais de samba e pagode. O Olodum faz aquele barulho ensurdecedor com seus tambores. No palco, algumas músicas que lembram o carnaval que passou. A partir da Rua Chile, o cenário vai mudando e a Praça do Poeta Castro Alves não é mais do povo como o céu é do condor.
Não mais Dodô e Osmar na fóbica com Armandinho, Morais Moreira, Luiz Caldas, Caetano, Gil, o autêntico Trio Tapajós, os blocos sem corda (Os Internacionais, Jacu) e os amigos no Clube de Engenharia tocando violão, confabulando ideias e enchendo a cara e a cuca com lança perfume.
Procurei em vão a Colombina e o Pierrô. Não mais aquelas marchinhas de carnaval, “Ô Abre Alas, que Eu Quero Passar”… (a mais antiga de Chiquinha Gonzaga); “Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero, Mamãe eu Quero Mamar…”; “Aurora, Oôôô, Aurora”; “Você Pensa que Cachaça é Água”…; “Chegou a Turma do Funil”…; “Me dá um Dinheiro Aí, Ei, você aí, me dá um dinheiro aí…”
Cadê as famílias com seus idosos, mulheres e crianças sentadas em suas cadeiras nas calçadas da Avenida Sete de Setembro para ver os cordões e as marchinhas passarem? Das janelas não mais confetes de papel (eram os camarotes). Todos brincavam em clima fraternal, sem violência e empurrões. As bandas eram um sucesso juntamente com os blocos de índios e os afros.
Por falar nisso, o carnaval tem suas raízes históricas no período colonial, tornando-se uma festa altamente lucrativa a partir da segunda metade do século XX, nos anos 80 e 90. O entrudo era praticado pelos escravos que saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de água de cheiro nas pessoas.
Foram-se as guerras de cascas de ovos, de milho e feijão. Haviam até vassouradas e colheradas de pau, mas tudo são coisas de outrora, no carnaval que passou, que era bem mais inclusivo. Tudo se tornou lucrativo, e a festa num comércio concentrador de renda onde o rico fica mais rico e o pobre mais pobre.
Do Campo Grande desci até a Barra, Barra Avenida e Ondina. Nesse circuito maluco, barulhento e infernal de trios elétricos, que não são mais trios, e sim bandas de cantores com músicas de letras lixo de uma só estrofe repetitiva, foi onde senti a saudade bater mais forte no coração daquele carnaval que passou.
Uma tremenda loucura, meu camarada! Coisa de doido! Fui trucidado pelo empurra-empurra dos “pipocas” e lá se foram minha pobre fantasia e meu cartaz. A camisa em formato de abadá foi rasgada. As frases perderam o sentido. Ninguém está ali para ouvir ou ler protestos! Basta o circo!
Para não ser esmagado, encostei num canto de um barraqueiro e o senhor e a mulher com seus filhos pequenos nem me viram. O suor caia de seus rostos de tanto andar de lá para cá para atender a turba. Sempre atentos para não serem passados para trás pela malandragem que leva a cerveja na “mão grande”.
Aquelas pessoas dormem praticamente sujos durante mais de uma semana no cimento daquelas barracas de bebidas e comidas para no final ganhar uns míseros trocados. De lá debaixo do asfalto espiei aqueles camarotes de luxo frequentados por ricos, celebridades e famosos. Muito conforto, curtições e bacanais. Os “trios” berram na frente deles na disputa para ver quem mais ganha. Todo conjunto compõe o palco das desigualdades sociais. É tudo misturado e separado.
Sem forças para prosseguir, aos poucos fui me desviando das brigas, dos furtos de celulares e dos soldados embrutecidos metendo o cassete nos “arrastas chinelos”. O “pau comeu”, enquanto os “puxadores” das muvucas gritavam em tom de ordem para todos tirarem o pé do chão. Os súditos obedeciam no rebolado dos passinhos com as mãos para o alto.
Fui cortando em meio à aquela parafernália para sair lá pelo Rio Vermelho. No roteiro vi a banda “Baiana Systen”, que prega o antirracismo, tocando no camarote Premium, o mais luxuoso que invadiu terrenos na praia com enormes tapumes.
A mídia joga toda sujeira e a violência debaixo do tapete. Os políticos, lá do alto de seus camarotes, são ovacionados pelos músicos que dizem que tudo é de graça. Todos acreditam. Tudo se inverteu. Foi-se o carnaval que passou. Agora é só deles, dos poderosos.
OS SACRIFÍCIOS DA PEDRA BONITA
AS LENDAS, ATRAVÉS DA TRADIÇÃO ORAL, GERAM O MISTICISMO QUE SE ENTRELAÇA E GRUDA NO CONSCIENTE POPULAR EM FORMA DE CRENÇA, TRANSFORMANDO O IRREAL EM REAL. O MÍSTICO FAZ A LAVAGEM CEREBRAL QUE INDUZ O INDVÍDUO AO SACRIFÍCIO DO ALTAR.
O naturalista escocês George Cardner, em suas viagens pelo interior do nosso país, nos anos de 1840, constatou que o sebastianismo no Brasil, especialmente no Nordeste, era mais forte que em Portugal. Os seguidores dessa seita acreditavam que com a volta do Rei D. Sebastião, o Brasil gozaria da mais perfeita felicidade.
Conta a história que no dia 4 de agosto de 1578, o soberano português D. Sebastião pereceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, contra os mouros comandados pelo sultão Abdal-Malik.
Mesmo a contragosto de seus oficiais, o soberano foi lutar na África por meio de uma Cruzada de guerra santa contra os infiéis, visando expandir o território português. Desde sua infância, diziam que ele foi predestinado à glória. Como católico fervoroso e ávido de conquistas, o povo aspirava por uma Idade do Ouro para Portugal.
O desaparecimento do rei-guerreiro foi misterioso, mas fez surgir as lendas e os movimentos místicos que passaram a invocar o seu ressurgimento. Essas lendas e o mito alcançaram terras desbravadas pelos portugueses.
De acordo com a professora e escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, falam que o primeiro movimento sebastiânico no Brasil surgiu em Pernambuco, no ano de 1819, no município de Bonito.
No ano de 1836, em Vila Bela (Serra Talhada), no sertão de Pernambuco, apareceu um caboclo de nome João Antônio dos Santos com duas brilhantes pedrinhas na mão e com um folhetim. Em suas andanças, contava a lenda do rei desaparecido, visando conquistar adeptos para sua nova seita.
Com suas palavras de persuasão, arrastou seguidores, como nas redes sociais de hoje, e atingiu o ápice emocional, resultando numa carnificina que ficou na história e abalou o sertão, em maio de 1838.
Mais de 50 pessoas foram sacrificadas de forma bárbara no altar da Pedra Bonita, localizada na Serra Formosa. O João Antônio se tornou “rei” e fez um rebanho acreditar que os sacrifícios humanos purificariam a pedra e abririam espaço para o retorno de D. Sebastião. Aliás, dizia que era um pedido do próprio rei desaparecido.
As narrativas de João Antônio tornaram-se motivo de grande poder persuasivo por estarem integradas à cultura da região nordestina, isolada por séculos do resto do Brasil. O povo cultuava o hábito de contar histórias reais e imaginarias, encantando e impressionando as pessoas mais simples.
Pela sua habilidade do saber dosar as narrativas, com seus gestos e expressões corporais, extraindo emoções, João tinha a magia da arte de contador de histórias, ao ponto de fazer com que o sertanejo acreditasse nelas.
Ele lidava com as pedrinhas brilhantes e o folhetim, tornando o irreal em real. Com seus instrumentos de indução, passou a convidar a todos a acompanhá-lo ao local onde aconteceria o desencantamento de D. Sebastião, com todo o esplendor do seu reino.
Na Serra Formosa existiam (ainda existem) duas grandes pedras quadrangulares que eram as “torres de uma igreja”, conforme relatava João Antônio. Na verdade, era só uma pedra bonita em virtude da incrustação de malacachetas que faziam pratear e serem vistas pelos moradores como coisa inusitada e misteriosa. Próxima à pedra, existia uma lagoa, também encantada. De lá, João retirou as pedrinhas que eram exibidas por onde passava.
O místico dizia ter sido guiado pela mão de El-Rei que lhe oferecera a visão do que seria o reino encantado. O vidente passou a dizer que tudo que era encantado só desencantaria com muito sangue para regar todo “campo santo” e romper o encanto que aprisionava D. Sebastião.
As promessas aos seguidores eram irresistíveis, como pretos que se tornariam brancos e seriam todos imortais, ricos e poderosos. Os velhos voltariam a ser jovens. O lugar passou a ser um “santuário”, a pedra dos sacrifícios e o torno de João Antônio, donde ele fazia suas pregações e dava ordens aos fiéis.
Na tarefa de doutrinação, Antônio era auxiliado por uma equipe de pessoas da sua família e parentes de confiança, como seu pai Gonçalo José dos Santos.
Contava ainda com a colaboração de muitos outros para efetuar a peregrinação e propagação da seita que atraiu muita gente de outros lugares, como das ribeiras do São Francisco, Cariri, Riacho do Navio e do Piancó (Paraíba). Todos queriam ver as coisas “bonitas” que iriam acontecer.
As pessoas concentradas na “Pedra Bonita” perdiam o direito de se retirar do local. Nas tarefas, criadas por João, os grupos de trabalho eram vigiados por guardas da seita. Fazendeiros entregaram todo seu gado e economias, acreditando que depois tudo seria devolvido em dobro.
Existia uma rígida disciplina, como a proibição de banhos e lavagem de roupas até que ocorresse o grande evento que seria o retorno de D. Sebastião. Durante todo tempo, todos entoavam cânticos religioso, benditos e rezas. A alimentação era à base de legumes colhidos nas fazendas das redondezas.
Tudo isso funcionou muito bem para o êxito de uma lavagem cerebral onde todos estavam dispostos aos sacrifícios humanos. As consciências ficaram ainda mais entorpecidas através da ingestão do “vinho encantado” preparado com a infusão da jurema e manacá, acompanhado pelo hábito de fumar cachimbos que continham ervas entorpecentes misturadas ao fumo.
Os fatos tenebrosos passaram do limite e forçaram o padre missionário Francisco Correia, que perdeu seus fiéis para a seita, investigar a situação. Organizou missões e chamou João Antônio para uma conversa, que entregou as duas pedrinhas e partiu para o Cariri. O padre, então, retornou para a comarca de Flores, crente de que a seita teria sido extinta.
Ledo engano, os sebastianistas retornaram, agora guiados por um novo “rei”, João Ferreira, que sentou no trono e ditou as novas regras, como a de que o homem poderia se casar até com três mulheres, contanto que todas elas passassem a primeira noite com ele que já era casado com Josefa, a irmã do primeiro “rei”.
A grande tragédia da Pedra Bonita, que depois passou a ser chamada de Pedra do Reino, aconteceu na manhã do dia 14 de maio de 1838 e se estendeu entre os dias 15 e 16. Os próprios integrantes da seita foram dizimados. Depois avisou que El-Rei estava desgostoso com o povo que não tinha fé e não podia desencantar. Os sebastianistas indagaram, então, o que poderia ser feito.
João Ferreira respondeu que era preciso regar todo “campo santo” e as pedras das “torres da catedral” para que o “reino” surgisse em sua glória. Todos ouviram uma “voz” no fundo da pedra e interpretaram como a se fosse a de D. Sebastião.
Nesse momento, a turba ficou ensandecida com cânticos e rezas. O pai de João Ferreira foi o primeiro a colocar seu pescoço na pedra para ser sacrificado. Outros fiéis imitaram o gesto. Um idoso de nome João Pilé, agarrou seus netos e com eles mergulhou para a morte do alto de um rochedo, mas na queda deu conta da loucura e conseguiu se salvar. Os netos não tiveram a mesma sorte. Uma mulher matou dois filhos menores, mas os maiores fugiram e um deles conseguiu abrigo na casa do fazendeiro Manoel Ledo de Lima. Josefa, que estava grávida, foi tão violentamente golpeada que provocou o nascimento do filho, mas este rolou pelas pedras para a morte. Outros pais deceparam as cabeças de seus filhos.
No final do terceiro dia, estavam lavadas de sangue as bases das pedras e o solo do “reino encantado”. Foram trucidados 12 homens, 30 crianças e 11 mulheres. Além dos humanos, 14 cães foram executados, destinados a serem os “dragões do reino”.
Quando o ar ficou empestado pelo mau cheiro da carnificina, os sobreviventes foram para outro campo. Construíram cabanas e ficaram esperando a chegada de D. Sebastião.
No dia 17, o Pedro Antônio, irmão de Josefa, sentou-se no trono e ordenou a execução do cunhado João Ferreira, com o argumento de que para completar o sacrifício, D. Sebastião havia lhe dito que só faltava o “rei”. Os fanáticos torturam João Ferreira, quebraram sua cabeça e arrancaram suas entranhas.
No mesmo dia, o vaqueiro José Gomes, que estava na Pedra Bonita, conseguiu escapar da chacina e correu até a fazenda Belém onde se encontrava o major Manoel Pereira da Silva, da Guarda Nacional, e denunciou os fatos. Outros também foram até a fazenda de Manoel Ledo narrando a mesma história.
O major reuniu uma força de 26 homens e pelo caminho a tropa foi aumentando. Quando os combatentes chegaram à Pedra Bonita, os homens, nus da cintura para cima, estavam armados de facões e cassetes. Enquanto isso, o Pedro Antônio agitava seus adeptos com gritos de guerra a defenderem o reino. Com cânticos, rezas e ladainhas todos avançaram contra os soldados, no corpo a corpo.
No combate ficaram 22 cadáveres, sendo o do “rei” com 16 de seus sectários e dois irmãos do comissário-major, além de muitos feridos entre outros soldados. Dois meses depois dos acontecimentos, o missionário Francisco Correia foi sepultar os mortos e contou 53 corpos. Todas as ossadas foram enterradas numa grande vala. Até hoje contam que o local em torno da Pedra Bonita (Pedra do Reino) ficou mal-assombrado.
















