“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.
AS VISÕES DOS DOIS LADOS OPOSTOS
Tivemos um tempo em que o artista músico-compositor, o teatrólogo, o roteirista de cinema, o escritor, o poeta, o cronista e as artes plásticas em geral se preocupavam mais com o político-social, com manifestações de protestos, mostrando a realidade do povo brasileiro de forma direta, realista, nua e crua.
Mesmo com a democratização do pós-ditadura, raramente vemos letras e textos de protestos, a não ser expressões de ódio e intolerância numa polarização canina entre a direita e a esquerda, cujos discursos não conscientizam o povo, hoje inculto, analfabeto, do tipo inocente úteis facilmente manipulado.
Quando não existe autocrítica, a divisão é certa e a separação é doída, inclusive entre familiares. Vivemos numa sociedade individualista, egoísta onde cada um só pensa em seus interesses particulares, a começar por aqueles que estão no topo da pirâmide.
Na verdade, não é propriamente a este ponto que eu quero chegar e atingir. As letras poéticas e os textos atuais, por exemplo, só apresentam o lado romântico da vida, as coisas boas e positivas, de que a vida é bela, um amor angelical e esquece do outro lado negativo, coisas ruins que acontecem a todos nós, como se elas não existissem.
A impressão que tenho é que a grande maioria procura, especialmente compositores e letristas, escrever aquilo que agrada o público, numa espécie de produto mercadológico comercial para ganhar dinheiro.
“Agora só faço arte com mensagens positivas e otimistas” – disse para mim um amigo, como se não existisse o outro lado do sofrimento e do aperreio da vida que lhe deixa para baixo, muitas vezes em depressão acachapante. Não é fugindo que se escapa do problema.
Entendo que a arte em geral deve também ter o seu lado de contrariar, de fazer o contraponto, de revolta e protestos contra as mazelas, mesmo se tratando dos sentimentos humanos de perdas e da transição de dores e alegrias entre a vida e a morte, este percurso passageiro, esta estrada pedregulhosa cheia de curvas e encruzilhadas.
A vida nunca foi “um mar de rosas”, mesmo porque debaixo delas estão os espinhos que nos arranham. Prefiro ser mais realista (às vezes até pessimista em certos temas), cruel, instigador, polêmico, contestador; falar do político-social; ser duro, objetivo, direto e seco no estilo Graciliano Ramos, que ser lírico e romântico sonhador.
Não consigo, por exemplo, fazer um poema de amor, daqueles melosos, apaixonantes e sentimentalistas repletos de floreios com finais felizes e eternos. Sou mais o lado bruto que desagrada muita gente, se bem que os brutos também amam do seu jeito, torto ou não.
Quando estou escrevendo qualquer gênero, seja um artigo, comentário, crônica ou um verso qualquer, imagino fazendo um pacto com deus e o diabo. Afasta-te de mim, oh satanás! Mesmo assim, ele deixa o seu rastro de cão em meus rabiscos!
Este último costuma buzinar e azucrinar em meu ouvido para não deixar o outro lado considerado ruim. Afinal de contas, o ser humano é profano e religioso. Tem também o seu lado santo, demoníaco e bárbaro.
Como jornalista, quando estava na ativa, ele estava sempre me atanazando ao meu lado para que na matéria tomasse partido nos fatos, mostrasse minha ideologia e terminasse sendo parcial. Talvez por isso não exista imparcialidade total. Esses bichos chifrudos adoram frequentar as redações e perseguem os artistas, sobretudo nos momentos de inspiração.
Aprecio os autores sofridos, do humano rastejante como barata, do lado perverso e cruel, do insignificante inseto, como Dostoievski, Kafka e tantos outros que estampam esse lado demoníaco.
Não me agrada esse final feliz das novelas onde os vilões e bandidos se tornam mocinhos, com casamentos, bênçãos e crianças nascendo como se fossem dádivas para viver nessa humanidade decadente, tão estúpida medieval, violenta e autodestrutiva.
LIMPEZA DE TERRENOS PRIVADOS
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista desta quarta-feira (dia 26/08) vai apreciar, a partir das nove horas, diversos projetos nas áreas da saúde, da educação, meio ambiente como a manutenção e limpeza de terrenos privados, dentre outros de importância para a sociedade.
Entre os projetos, destacamos a implementação da “Sala Lilás” no Sistema Único de Saúde-SUS visando o atendimento exclusivo, especializado, humanizado e integrado às mulheres vítimas de violência.
Também está em pauta a proposta que autoriza a distribuição, pelo Sistema Único de Saúde- SUS, de medicamentos prescritos à base de canabis, que contenham em sua fórmula canabidiol, ou tetraidrocanabinol.
Outro projeto obriga a manutenção da limpeza de terrenos privados e proíbe o descarte irregular de resíduos sólidos em áreas públicas e privadas, visando a prevenção de doenças, a proteção da saúde pública e à preservação do meio ambiente.
Os vereadores ainda vão regulamentar a criação, reprodução, comercialização e exposição de animais domésticos por criadouros e criadores.
Na pauta consta também o projeto quer vai tratar da instituição do Programa de Incentivo à Denúncia de Infrações Ambientais – PIDIA, no sentido de criar mecanismos de recompensa aos denunciantes.
A Câmara ainda quer aprovar o reconhecimento e garantir os direitos dos animais comunitários no município de Conquista, bem como, proibir agressões e remoções forçadas. Dentro desse bojo, o projeto estabelece penalidades administrativas e dispõe sobre destinação dos recursos provenientes das multas.
A plenária do legislativo deve ainda avaliar a instituição e implementar o Programa “Lápis e Borracha na Mão”, destinado a promover o acesso a materiais escolares pelos alunos da rede pública municipal, incentivando a economia local por meio do credenciamento de livrarias e papelarias do município.
Além de moções de aplausos, título de cidadão conquistense, denominação de ruas, requerimento da Tribuna Livre, solicitada pelo Sarau A Estrada, que completou 16 anos de existência, os parlamentares pretendem regulamentar a instalação e manutenção da infraestrutura de cabos suspensos.
O SARAU E O CANGAÇO NA BAHIA
Numa noite de muitas cantorias, sob a direção do compositor e músico Paulinho Monteiro, declamação de poemas, contação de causos e outras apresentações, tivemos mais uma edição do Sarau A Estrada, na noite do último sábado (dia 22/07/2026), realizado no Espaço Cultural do mesmo nome.
Além dos informes gerais, sugestões de pautas, avaliação do “Sarau na Rua”, no dia 24 de julho, na Praça Nove de Novembro, o evento discutiu a questão do Cangaço na Bahia, tendo como expoente o bando de Lampião.
A conversa informal, no estilo bate-papo, teve como expositor o jornalista e escritor Jeremias Macário que fez uma viagem no tempo durante os mais de 50 anos de cangaço no Nordeste, entre o final do século XIX até 1940.
O isolamento da região durante muitos séculos pelos governantes, as secas inclementes, o poderio dos coronéis e dos grandes fazendeiros, o domínio dos chefes políticos e as injustiças sociais, principalmente, foram fatores essenciais para a criação da violência no sertão e o consequente surgimento do banditismo e do cangaço, um dos flagelos nordestinos.
Em agosto de 1928, acossado pelas tropas pernambucanas que fechou o cerco contra os bandidos e depois da derrota de Lampião, em Mossoró (Rio Grande do Norte, Lampião resolveu atravessar o Rio São Francisco e se internar na Bahia através do município de Santo Antônio de Glória (região de Paulo Afonso).
Como praticamente as volantes não agiam na Bahia contra o banditismo no interior, Lampião encontrou no estado um pouso de tranquilidade e, como estava enfraquecido, aproveitou o tempo para se fortalecer, acoitado na fazendo dos coronéis Petronilio Reis (Santo Antônio de Glória) e João Sá, em Jeremoabo.
Por uns seis meses ou mais, Lampião se juntou a Corisco, Labareda, Zé Bahiano, Volta Seca e outros cabras para conhecer o terreno e como agir, enquanto fazia suas festas nas cidades, como Pombal (Bahia) e Capela (Sergipe), muito bem recebido por prefeitos e autoridades.
Quando o coronel Petronilio denunciou na imprensa e ao governo sua presença na Bahia, escondido em suas propriedades, Lampião ficou irado e invadiu fazendeiros das redondezas, matando animais e praticando atrocidades contra os sertanejos. Petronilio caiu em desgraça.
Em meados de 1929, sua maior crueldade na Bahia foi contra a cidade de Queimadas onde fuzilou e sangrou de forma brutal e sem motivos aparentes, sete soldados; amedrontou os moradores que entraram em pânico; e à noite deu uma festa de gala no clube social.
A partir daí seu bando não parou de invadir vilarejos, povoados e cidades, usando da força bruta para matar e estuprar mulheres, inclusive jovens de menor, como ocorreu em Mirandela, Abóbora onde realizou o “baile dos nus”, Itiúba, próximo a Senhor do Bonfim e região. Como Jaguarari. Além da Bahia, ele transitou por cidades de Sergipe e Alagoas.
Seu maior esconderijo era o Raso da Catarina, uma zona inóspita onde soldados temiam e não estavam preparados para entrar e perseguir os bandidos. Somente uma tropa de Liberato de Carvalho (Bahia) e Manuel Neto (Pernambuco) conseguiu atacar o bando, mas fracassou.
As Revoluções de 1930, a Constitucionalista de 32 e a Intentona Comunista de 35 lhe deram mais sossego, pois Getúlio Vargas estava mais preocupado em censurar a imprensa, dissolver o Congresso, assembleias estaduais, perseguir os comunistas e nomear interventores, do que acabar com o cangaço.
Como as forças baianas não eram suficientes para dar cabo aos cangaceiros, o governo, na pessoa de Juracy Magalhães e, através do plano maluco do capitão João Miguel, resolveu desarmar os sertanejos e ainda retirar os camponeses de suas terras e escorraçá-los para as cidades.
Mais de dez mil pessoas sofreram esse tipo obrigatório de êxodo rural e tiveram fim triste nas pontas das ruas, sem nenhuma assistência social e monetária. Sem muita opção de sobrevivência, o nordestino só tinha duas opções, ser coiteiro de Lampião ou soldado, sem contar que ainda era duramente castigado pelas secas.
Nessa temporada, Lampião subdividiu seu grupo em vários, para driblar a ação das tropas, e ficou na Bahia por cerca de quatro anos, partindo depois para Pernambuco e Paraíba.
Sempre retornava ao nosso estado, com suas investidas cruéis em Sergipe e Alagoas, sendo abatido na gruta de Angico (Sergipe), em julho de 1938 pela força do tenente João Bezerra.
Quis o destino que as cabeças decapitadas de Lampião e Maria Bonita fossem parar no Instituto Nina Rodrigues, na Faculdade de Medicina da Bahia, para estudos frenológicos e antropométricos do antropologista e criminalista Estácio de Lima. Por coincidência, essas cabeças que somente foram enterradas em 1969, eram vigiadas por ex-cangaceiros presos e depois libertados.
O tema foi bastante dissecado e debatido, seguido também das cantorias com Alex Baducha, Dorinho Chaves e Manno di Souza, sem falar das participações de poetas e poetisas, bem como das homenagens de parabéns aos aniversariantes do mês Vandilza Gonçalves, Odete e Manno.
Tudo planejado pela Comissão Organizadora, foi mais uma noite cultural memorável entre artistas, intelectuais, professores e pessoas interessadas pela arte, não faltando as comidas, petiscos e bebidas colaborativas.
Além dos saraus no Espaço Cultural A Estrada até o final do ano (outubro e dezembro), os organizadores estão programando uma atividade do sarau na rua e aguardando a solicitação de um Tribuna Livre na Câmara Municipal de Vereadores. O pedido foi protocolado e dirigido ao presidente da Casa, Ivan Cordeiro, para seu devido deferimento.
O ESTUPRO DE MULHERES E MENINAS NOS TEMPOS DO CANGAÇO NORDESTINO
O flagelo do cangaço não atingiu apenas os homens, muitos deles mortos de forma cruel e bárbaro, tendo seus corpos esquartejados e cabeças decapitadas, A violência era de lado a lado entre cangaceiros e as volantes, chamadas de “macacos”.
Em cenas chocantes e repugnantes, centenas de mulheres nordestinas sertanejas do campo, dos vilarejos e pequenas cidades, principalmente meninas a partir dos 12 anos, foram estupradas, surradas e viviam diariamente amedrontadas ao ponto de se refugiarem nas caatingas agrestes e espinhosas.
Final do século XIX e início dos anos 1900 foram os mais violentos, e o Estado nada fez para proteger essas mulheres. Parece que a história apagou de suas páginas esse fenômeno social macabro que ainda teve como causa as secas, quando mulheres comercializavam seus corpos e crianças eram vendidas para não morrerem de fome.
Um dos casos mais traumáticos, superado pela força bruta e carrasca do sertão daquela época, coisa que intriga até a psiquiatria, foi o de Dadá, mulher do cangaceiro Corisco (Cristino Gomes da Silva), o Diabo Louro.
Menina de doze anos, da região de Santo Antônio da Glória (Bahia), que ainda brincava de boneca, foi estuprada animalescamente por ele repetidas vezes, ao ponto de deixar sua vagina em carne viva jorrando sangue. O pai teve de entregar a menina, senão seria morto por Corisco.
O relato nojento foi feito pela escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço”. A Maria Gomes de Oliveira, ou Maria de Déa, assim conhecida por causa da sua mãe, não chegou a ser estuprada porque já tinha um marido e acompanhou Lampião por vontade própria.
Na verdade, o feminismo começou a brotar de dentro das mulheres a partir dos anos 20, embora contestado e amordaçado, especialmente no Nordeste arcaico cangaceiro. Nas páginas dos jornais, o assunto suscitava análise de articulistas como a de que o feminismo estaria se tornando uma praga terrível, entrando em searas onde jamais deveria penetrar.
Mesmo diante das barbaridades dos cangaceiros e das volantes, onde mulheres e meninas eram violentadas porque usavam cabelos curtos e vestidos até o joelho, em 1927, a professora Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher brasileira a se alistar para uma votação. O fato ocorreu em Mossoró (Rio Grande do Norte).
O pioneirismo nasceu no Rio Grande do Norte quando elegeu, em 1928, a primeira prefeita da América Latina. Luiza Alzira Soriano, de 32 anos, ganhou a disputa para prefeita de Lajes, fato noticiado pelo The New York Times. Em 1920 as americanas haviam conquistado o pleno direito de ir às urnas. No Brasil, somente em 1932.
Quanto a questão do cangaço, Maria Bonita, companheira de Lampião, foi a primeira mulher a entrar no grupo, em 1930. Outras logo vieram, como Maria Miguel dos Santos, a Mariquinha, sua ex-cunhada, que ganhou a vida em Juazeiro do Norte como rameira e passou a ser companheira de Ângelo Roque, o temido Labareda.
Mesmo com Maria Bonita, Lampião não deixava de satisfazer seu desejo intenso de cobrir uma fêmea, como se referia ao ato de estuprar uma mulher, enquanto ela chorava. Foi um tempo de terror para as mulheres que se escondiam no mato quando se noticiava a chegada de volantes ou cangaceiros nas vilas e povoados.
Em Mirandela (Bahia), o “rei do cangaço” ficou indignado porque um homem de oitenta anos estava casado com uma mocinha. Deu uma surra no velho e convocou seus homens a aplicar “um gera” – estupro coletivo no sertão – na jovem. Por ser chefe, não entrou na fila.
No sertão agreste, mulher que dava muitas risadas e era alegre faceira, era malvista e chamada de “sendeiras”. No entendimento dos cangaceiros, conforme ressalta Adriana em seu livro, o estupro ocorria porque as mulheres queriam. A terceira esposa do tio de Labareda, por não oferecer resistência ao “gera”, foi tida por sem-vergonha.
Interessante que entre eles, havia até uma ética do estupro. Mulheres e filhas de coiteiros não podiam sofrer “um gera”. Em 1930, numa festa de São João, em Santo Antônio da Glória, uma menina de 15 anos, filha do protetor do “capitão”, foi deflorada pelo cabra Sabiá. Pela regra, foi imediatamente liquidado.
As mulheres e meninas viviam entre a cruz e a espada. As volantes também praticavam o estupro. Foi o que fizeram com a filha de dona Elvira que dava asilo aos cangaceiros no interior de Pernambuco.
Numa busca em sua casa, os “macacos” encontraram a menina sozinha. O cabo Rosano decidiu estuprar a garota e depois oferecê-la aos colegas. A menina tinha 13 anos e ficou desfalecida. Em estado lastimável, o soldado achou por bem matá-la.
A jovem sertaneja deflorada não conseguia mais se casar. Um livro popular sobre as nubentes da época, intitulado “O que uma jovem esposa deve saber”, da escritora norte-americana Emma F.A. Drake, publicado no Brasil, em 1932, definia a mulher recém-casada como assustada, tímida, cheia de um vago temor no que se referia aos mistérios do matrimônio.
Bem, depois de Maria Bonita, tida como debochada, risada de rapariga (mulher da vida) e Mariquinha, outras entraram para o cangaço, como Antônia Pereira da Silva que se juntou ao Gato que gostou de outra mulher de nome Inacinha. Quando o cangaceiro se engraçava com uma mulher, ela não tinha outra opção, a não ser acompanhá-lo ou morrer.
Lídia, a morena cabrocha mais bela e que chegava a usar vestidos folgados mostrando os peitos, foi companheira do depravado Zé Bahiano, o ferrador de mulheres, conhecido como o Pantera Negro do Sertão. Por ela ter se agarrado com o cabra Bem-te-Vi, foi esmagada e morta barbaramente a pauladas.
Na cidade de Itiúba, próxima de Senhor do Bonfim, o bando de Lampião usou chicotes e palmatórias para violentar mulheres jovens que seguiam as tendências da moda e cortavam o cabelo a “la garçonne” (curtinho), como a da atriz Louise Broocks, musa do cinema mudo. Foram submetidas a uma sessão de chicotadas, conforme noticiou o jornal “A Noite” (Rio de Janeiro).
Naquele tempo, as mulheres se reuniam para costurar, cerzir, alinhavar e tricotar enquanto batiam papos e falavam das fofocas. No entanto, era prudente certa moderação no ato do ofício.
Segundo tese de doutorado do médico Antônio dos Santos Coragem, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, (1919), pedalar as máquinas produzia excitação vaginal. Para evitar uma epidemia de luxúria, recomendava-se o uso das possantes apenas uma vez por semana.
A DIVINA CHAMADA
(Chico Ribeiro Neto)
Tinha um funcionário público aposentado chamado Raimundinho, numa cidade do interior baiano, que não perdia um enterro, porque em todos fazia um discurso, conhecesse ou não o falecido.
Era só ouvir aquelas batidas lentas do sino, sinal de enterro, que Raimundinho vestia logo seu surrado terno branco.
Na hora do sepultamento subia na lápide mais próxima e mais alta e soltava o verbo. Diziam na cidade que ele tinha “o dom da oratória”, mas muitos já não aguentavam as preleções de Raimundinho naquele sol quente.
Um dia, Raimundinho rasgou o verbo de novo durante um sepultamento:
“A morte é o caminho infalível de todos nós. Na semana passada foi Horácio, hoje é o nosso amigo Juvenal…e amanhã quem será?”
“Raimundinho”, gritou um dos presentes.
“É a puta que lhe pariu, seu filho da puta”, esbravejou Raimundinho, que já saltou da lápide desferindo socos.
Todo mundo tem uma história engraçada de cemitério. Uma vez, uma amiga viu uma cena inusitada no cemitério do Campo Santo, em Salvador. Ela estava num velório realizado numa daquelas salas. Havia outro velório na sala vizinha. Entrou uma mulher que ninguém conhecia e ficou rezando fervorosamente junto ao caixão. De repente, colocou os óculos e deu um grito de susto: “Oh, desculpem, eu errei de velório”, saiu ligeiro e deixou muitos segurando o sorriso.
Na Internet há mensagens para todas as ocasiões. Procurei por “Mensagens para Falecidos” e, antes dos exemplos de mensagens, vem o seguinte: “Para homenagear alguém que faleceu, escreva sobre o amor, a saudade e as boas lembranças que a pessoa deixou. Foque em qualidades marcantes, ensinamentos ou em um momento feliz que vocês viveram juntos. O texto deve vir do coração, com palavras sinceras e respeitosas”. Um conselho lapidar.
O jornalista e boêmio Walmir Palma, o “Seu Porreta”, foi uma vez a um sepultamento. Na sala do velório um funcionário do cemitério o abordou:
“O senhor já assinou no Livro de Presença?
“Não, nem vou assinar”.
“Por que, senhor?”
“Porque Ele (apontou para o céu) faz a chamada é por aí”.
O BUEIRO TRAVESSIA
É mais antigo que o “Bigode de Pedral”, ou o maior quebra-molas do mundo, localizado na Avenida Régis Pacheco. Foi construído na década de 50 – cerca de 70 anos de existência – originalmente para o escoamento das águas que descem da Serra do Periperi, mas se tornou num famoso ponto de travessia sob a BR-116, ligando os bairros de Nossa Senhora Aparecida ao Guarani. É hoje uma passagem improvisada para carros, bicicletas, pedestres, carroças e motos em uma área de grande movimentação que chega a congestionar o trânsito. Com o crescimento de Vitória da Conquista, transformou-se num atalho viário que gera insegurança. Não existe organização no trecho com regras de direção em vias próximas, como nas ruas Nilton Gonçalves, Paulinho Santos e Democrata. Motoristas reclamam problemas de infraestrutura, como buracos e dificuldade de visibilidade, gerando pontos de retenção. No local existe um senhor (não se sabe se é da Prefeitura Municipal) com um apito que tenta controlar o tráfego e pede um real aos usuários, numa forma de pedágio. Esse bueiro de Conquista me fez lembrar de um igual em Senhor do Bonfim, próximo à antiga Estação Ferroviária, que faz conexão com o centro e outros bairros da periferia da zona norte. Devido a ocorrência de acidentes, lá o poder executivo instalou duas sinaleiras em cada direção, resolvendo o problema do trânsito e oferecendo maior segurança para quem utiliza a passagem. Passou da hora da prefeitura, através da Secretaria de Mobilidade Urbana, tomar providências e fazer o mesmo aqui nesse bueiro da travessia da BR-116, ou Rio-Bahia.
DOIS SERTÕES
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um é o do litoral,
Mata firme, terra fértil,
Vento além-mar colonial,
Com cheiro do melaço da cana,
Misturado ao suor da escravidão,
Saído do ventre da mãe africana
Pra viver na senzala-porão.
São dois sertões,
Do soldado ou coiteiro,
Das mais divinas canções,
Do encantado canto violeiro,
O outro foi latifúndio profundo,
Caatinga espinhenta de aço,
Sem igual no mundo,
Carcaças das secas e do cangaço,
Do ciclo pastoril do couro,
Vaqueiro filho do deus sol,
Onde o coronel juntou tesouro,
Do nordestino se fez cavaco,
Por séculos isolado,
Sertão chamado de arcaico.
Este era nosso Nordeste,
Do açúcar do engenho,
Chefes políticos mandatários,
Do sangue vertido do lenho
Volantes-cangaceiros sanguinários,
Do branco-negro, mestiços,
Índios, caboclos e mulatos,
Com suas crendices e feitiços,
Messiânico, demônio-religioso
Com suas rezas de corpo fechado,
Chão de talento precioso.
Do Araripe, Lourenço,
Severino Pau de Colher,
De Canudos Conselheiro,
Povo que nunca perdeu a fé.




























