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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

UM NORDESTE SANGRENTO E ARCAICO

  Quanto mais me aprofundo nas questões do Nordeste, principalmente entre os séculos XVII até meados do XX, fico mais chocado com as barbaridades praticadas contra os sertanejos, uma brutalidade originária desde os tempos coloniais, fruto do completo abandono da região agreste catingueira.

  Sob o domínio das sesmarias, do latifúndio dos poderosos, dos coronéis, dos chefes políticos, do cangaço a partir do final do século XIX, das tropas policiais, das brigas entre famílias e da ausência de uma justiça social, além das grandes secas, tivemos o massacre de milhares de índios e pobres num Nordeste sangrento onde tudo era resolvido no punhal e na bala.

  Foram mais de 300 anos de isolamento e de crueldades, tempo mais que suficiente para que a alma do nordestino se tornasse bruta, de crosta dura, empedernida e seca como bem descreve o escritor Graciliano Ramos em seus romances. Com seus textos diretos e objetivos, sem rodeios, o alagoano penetrou no profundo psicológico-social desse povo sofrido.

     Nessa história toda, incluindo os retirantes que foram ser escravos de patrões em terras diferentes do Sul, as mulheres, principalmente as meninas, a partir de 11 e 12 anos, foram as maiores vítimas das barbáries dos soldados e dos bandoleiros cangaceiros.

Muitas foram obrigadas desde cedo a entrarem no cangaço, estupradas, mortas a pauladas e de parto, a tiros e, mesmo grávidas, eram arrastadas pelos cabelos dentro das caatingas espinhentas. Dadá, mulher de Corisco, Lídia de Zé Baiano, Sila (11 anos) de Zé Sereno, Neném de Luis Pedro, Inacinha de Gato, Durvinha de Virginio, Rosinha, entre tantas outras, viveram tragédias brutais.

Sobre essas mulheres submissas que eram surradas pelos pais e depois violentadas pelos cangaceiros, a escritora Adriana Negreiros, em sua obra “Maria Bonita- sexo, violência e mulheres no cangaço” faz relatos chocantes de crimes hediondos e bárbaros.

  “Uma história macabra correria o sertão após a morte da mulher de Luis Pedro, a Neném. Vendo-se sozinhos com Neném morta, os soldados teriam se revezado na profanação do seu corpo. Depois de saciados, com galhofas, libertariam o cadáver para o deleite de seus cachorros no cio”.

  Essas práticas ocorriam de ambos os lados, tanto por parte dos cangaceiros como das volantes, conhecidas como “macacos”. Cabeças eram cortadas ou degoladas quando nordestinos eram tombados em combates. Os fatos se tornaram comuns passando a ser, ao longo dos anos, uma cultura do Nordeste.

 Mulheres, inclusive idosas, eram selvagemente estupradas mesmo depois de mortas. Corpos eram esquartejados por vingança. Lampião dizia que matar era uma arte e tinha que proceder com toda violência para ser respeitado pelo povo.

 

 

 

 

 

UM PROGRAMA ENGRAÇADO E CHATO

 De dois em dois anos as redes de televisão e rádio do Brasil são obrigadas a exibir por mais de um mês um programa engraçado e chato de se ver. Este, todo mundo está careca de saber qual é. A grande maioria assisti e até vibra com seus atores e atrizes preferidos.

 – Oh, como um programa humorístico pode ser engraçado e, ao mesmo tempo, chato?

 – Pois é, meu amigo, este é inédito! Engraçado porque é carregado de mentiras, promessas impossíveis de serem realizadas; não existe um projeto delineado e planejado no papel; não tem roteiro escrito; “quem tem boca diz o que quer”; e é feito na base do improviso, o que serve para testar a “capacidade” cognitiva do artista.

  É chato porque é sempre repetido e praticamente se ouve as mesmas coisas dos programas anteriores. A outra parte chata é que irrita o ouvinte ou telespectador quando entra o bate-boca onde os atores tentam ganhar na base do grito. Todos querem falar ao mesmo tempo.

  Dizem por aí que tem regras, normas e leis estabelecidas por uma Mesa Julgadora, mas é apenas um faz de conta. Vez ou outra corta-se alguém que solta um palavrão ou comete algo indecente, isto para dar uma desacelerada na turma.

  Quando o cara é repreendido, paga uma multinha; recorre e até alega que está sendo utilizado bode expiatório, mas o programa prossegue. Coisa é no final quando os participantes botam para quebrar!

  É muita gente engraçada que sai dos quatros cantos do Brasil porque os prêmios são valiosos e o artista vencedor não necessita trabalhar muito, sem contar os privilégios e as mordomias, como de só atuar três ou no máximo quatro dias da semana.

  A corrida é acirrada e o candidato ao teste se “vira nos trinta”, cada um com seu potencial artístico e criatividade. Uns contam piadas, causos do passado, anedotas e estórias da carochinha. Outros fazem malabarismos, caretas e expressões esquisitas.

   O comum é que todos comem qualquer coisa que se oferecer, até alimento estragado, insetos, carne de animais exóticos e entram em qualquer lugar, seja cavernoso ou não. Essa é a parte mais engraçada do programa.

  Ah, ia me esquecendo de dizer que tem o dia da votação para ver quem serão os aprovados no teste! Existe uma urna e cada um, entre os milhões de brasileiros, vota naquele que o votante achou mais “capacitado” durante a empreitada do engraçado chato.

O MAU EXEMPLO DO PODER PÚBLICO

O ACESSO MAIS HORRÍVEL DE CONQUISTA

Pouca gente tem percebido que a entrada e a saída, ou seja, o acesso de Vitória da Conquista, cortando o Anel Viário, em direção a Anagé e a Brumado, na boca do agreste do sertão do sudoeste, é o mais feio e passa uma péssima imagem ao visitante. Não dá para instalar ali uma placa de “Seja Bem-Vindo”. Seria até ridículo e motivo para piadas.

Quem vem de Brumado e faz a rotatória do Anel e pega a avenida do mesmo nome se depara com sucatas, carros velhos enferrujados, lixo e entulhos de ambos os lados próximos ao Atacadão, principalmente de um grande terreno na faixa esquerda pertencente ao Governo do Estado da Bahia.

Comentamos aqui sobre o problema dos lotes privados abandonados que se transformaram em matagais, lixeiras e são verdadeiros atentados à saúde pública. Cobramos uma fiscalização mais rígida por parte da Prefeitura Municipal no sentido de penalizar os proprietários que não cercam ou muram suas áreas.

O mau exemplo, no caso específico desse terreno abandonado na saída de Conquista para Anagé há muitos anos, vem justamente do poder público estadual. Trata-se de uma extensa área infestada de ferros velhos, entulhos, mato, lixos orgânicos e sólidos, utilizada até para queima de fios para extração de cobre. O local mete medo por quem transita por ali.

Em determinados locais, o mau cheiro invade as residências ao lado do loteamento Sobradinho, cujos moradores sofrem com o barulho e a poluição de fuligens da “Sucata Esperança”. Em frente ao terreno ainda existem duas empresas de reciclagem e muitos estão denominando o local de “Rota do Lixo”. Aqui ali está mais para matança do que esperança.

Os moradores clamam por providências e reivindicam que o terreno seja beneficiado em prol da comunidade através da construção de casas populares, uma praça de lazer e entretenimento, escola, posto de saúde ou outros equipamentos, oferecendo outro visual à entrada da cidade.

Quando aqui cheguei, há 35 anos, este terreno já existia e continua lá sem nenhuma serventia, a não ser como depósito de lixos de toda espécie e estacionamento para caminhões da Sucata que se tornou num inferno para os habitantes das redondezas.

Nossas lentes flagraram um absurdo que viola a legislação brasileira no que diz respeito à preservação do meio ambiente e o desrespeito às pessoas que são obrigadas a viver dentro da sujeira em meio a ratos, cobras, escorpiões, mosquitos da dengue e todo tipo de insetos.

Sem dúvida, é o acesso mais horrível de Conquista, por muitos chamada de a “Suíça ´Baiana”.  Pelo visto, diante do  aspecto do terreno abandonado, está mais para “Haiti”. A terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 400 mil habitantes, não merece isso.

SONS DA CAATINGA

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O vento aqui bate,

E o tempo parece parar,

Como sumiço de poeira no ar,

Rodopiando meu sertão;

Bem longe o cachorro late,

Atrás da caça do caçador,

Na lamentosa cantiga,

Como aboio do vaqueiro peão,

Tocando os sons da caatinga,

Desta nordestina nação.

 

Sons da caatinga,

Sem igual no mundo,

Com seu mistério profundo.

 

Tem o som da cascavel,

Da folha seca caindo no chão,

Da rezadeira com seu véu,

Do messiânico pregando a fé,

O ritmo do xaxado e do baião,

O reisado e o forró arrasta-pé.

 

Tem o berro do boi no bagaço,

O chiado do carcará-gavião,

O estalo das alpercatas no cangaço,

A bala zunindo do cangaceiro,

O calango fugindo da seca,

E a poesia do cancioneiro.

 

Tem o rastejar da lagartixa,

Na rede, o ronco da preguiça,

O balanço do umbuzeiro,

O cantar do Assum-Preto,

O agouro rasgado da cauã,

Na chuva, o floral aguaceiro,

A cigarra no verão da quixabeira,

O colibri beijando a aroeira,

A tosse da fome tísica,

Do facão saindo faísca,

São sons da caatinga,

Com sua magia e mandinga.

O CANGAÇO, A AÇÃO DA POLÍCIA E OS CRIMES ORGANIZADOS NO BRASIL

  O modus operandi é praticamente o mesmo. Até parece que os comandos dos crimes organizados, as milícias e os narcotraficantes dos centros urbanos do Brasil de hoje aprenderam na mesma cartilha do cangaço nordestino de há cem anos, profissionalizado por Lampião.

  Dentro desse contexto, a polícia dos tempos atuais (não atingindo todos) não difere muito das tropas que combatiam o cangaço em termos de brutalidades, matanças e violências. Os sertanejos tinham mais medo daqueles soldados do que dos cangaceiros.

  O conceito hoje do cidadão brasileiro entre bandido e polícia, mudou pouca coisa. Os pobres, os negros e excluídos em geral continuam sendo massacrados em seus direitos, e a Justiça normalmente está do lado do rico e do poderoso. Essas categorias desassistidas ficam entre a cruz e a espada.

   As origens dessa violência e barbárie também se repetem. Nos séculos passados, até meados dos anos 1900, o território do Nordeste viveu completamente isolado do Estado, sob o comando dos coronéis, dos grandes proprietários de terras, dos chefes políticos corruptos. Reinavam as injustiças sociais.

  Nos últimos cem anos ou mais, os morros foram sendo invadidos pela pobreza miserável, inclusive de retirantes nordestinos, sem nenhum amparo e presença do Estado. O cangaço nordestino se tornou num cangaço urbano. Os bandoleiros cangaceiros de ontem são os bandidos criminosos de hoje que deixam a população entre a cruz e a espada, como vivia o sofrido nordestino.

   Os personagens só trocaram de pastos; os governantes por anos cruzaram os braços; o banditismo mudou de lugar; parte da polícia faz papel de coiteiros; políticos se envolvem com as máfias; a injustiça social pouco mudou; os lampiões comandam os crimes organizados; o cidadão é obrigado a pagar suas taxas de proteção; delator é morto barbaramente; e os subgrupos seguem as ordens dos chefões.

   O nordestino daqueles tempos, por mais de 50 anos, sofria muito mais nas mãos dos bandoleiros e policiais do que atualmente nas favelas. Viviam acossados por todos os lados e ainda tinham que enfrentar as secas inclementes que mataram milhares de pessoas de fome e doenças.

As mulheres eram as mais violentadas, discriminadas, presas pelo pai carrasco, estupradas ainda meninas de onze e doze anos e centenas obrigadas a seguir o cangaço. Estudar as questões políticas e sociais do Nordeste é se aprofundar no martírio daquelas mulheres, muitas ferradas com ferro em brasa, arrastadas pelos cabelos caatinga a dentro e mortas a pauladas, pior que animais selvagens.

    Nos anos 30, Lampião dividiu seu bando em subgrupos (Corisco, Virginio, Zé Baiano, Labareda, Zé Sereno e cada um dominava uma região, como acontece hoje nas grandes cidades. As arrecadações das extorsões contra os sertanejos, os saques, os sequestros, os pedágios de proteção eram divididos, sendo que a maior parte ficava com Lampião. Os métodos urbanos pouco diferenciavam dos de hoje.

Tudo era bem administrado e organizado. Para os denunciantes e delatores, a morte era certa e bárbara. Cabeças eram decapitadas e degoladas. Os comandos de hoje também têm seus códigos e “éticas de conduta”. Aqueles que cometem desatinos ou delatam, são queimados em pneus, esquartejados e até enterrados vivos.

 Coincidência, ou não, no meado dos anos 30 para e final da década, Lampião e seus bandos se tornaram personagens internacionais, inclusive cobiçados pelo comunismo da União Soviética para fazerem parte da Intentona Comunista de 1935, chefiada por Carlos Prestes.

   Eram até vistos como guerrilheiros revolucionários do povo camponês. Na era Vargas, considerados como “extremistas” e terroristas, como Trump classificou os comandos brasileiros. O cangaço passou a ser uma questão de ameaça à soberania nacional.

   As empresas alemãs Bayer e Zeiss (Alba Filme-Fortaleza) financiaram as filmagens de um documentário sobre suas ações criminosas, feitas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão (1936). Contava até com a simpatia dos nazistas de Adolf Hitler. O Governo Getúlio Vargas estava mais preocupado em combater os comunistas do que as atrocidades dos cangaceiros.

  Quanto ao fornecimento de armas e munições para os cangaceiros, a prática era quase semelhante. Além dos coronéis, fazendeiros, políticos e comerciantes que eram protegidos, o próprio exército e oficiais da polícia abasteciam Lampião com modernos equipamentos de última geração.

   Para disfarçar, os armamentos, muitos contrabandeados, eram transportados em cargas de farinha e outras mercadorias que iam para as feiras. Até meados dos anos 30, os cangaceiros tinham armas sofisticadas fabricadas na Alemanha, na Bélgica e Estados Unidos, enquanto as volantes, chamadas de “macacos” usavam velhos trabucos do início do século XX.

  Com sua estratégia militar, sua inteligência, astúcia, esperteza e como bom político nos relacionamentos com autoridades municipais e estatais, exemplo do compadrio com o governador de Sergipe, Eronides de Carvalho, eleito em 1935, Lampião seria hoje o chefe mais famoso de qualquer cartel ou organização criminosa. Naquela época, ele já era reconhecido internacionalmente como tal, como o bandoleiro mais famoso da América Latina.

 

SESSÃO VAI HOMENAGEAR A ACL

 Nesta quarta-feira (dia 02/09/2026), a partir das nove horas, a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista vai realizar uma sessão ordinária mista para homenagear os 46 anos da Academia Conquistense de Letras-ACL, fundada em 03 de setembro de 1980.

   Durante o evento, o legislativo ainda vai discutir diversas pautas de interesse da população nas áreas da educação, do meio ambiente, da saúde, infraestrutura, dentre outros projetos enviados pelo poder executivo.

   Naquela época em que a Academia foi criada, Conquista vivia uma efervescência cultural, embora o país ainda estivesse vivendo num regime militar já em decadência, com pedidos de eleições diretas e retorno à democracia após a decretação da anistia geral e irrestrita, em 1979.

   A entidade cultural foi instituída por um grupo de intelectuais, com o objetivo de preservar a memória, incentivar a leitura e fortalecer a produção literária e cultural da região, passando a funcionar numa sala cedida pelo Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

    Naquele mesmo ano de 1980, a antiga Faculdade de Formação de Professores passou a ser a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, que ajudou a consolidar o ensino superior e a vida intelectual da região, um marco na história da educação conquistense.

   Nesses 46 anos de existência, a instituição congregou nomes expressivos da cultura regional, como Heleusa Câmara (primeira presidente mulher), Nilton Gonçalves, Carlos Jheovah, Ricardo Benedictis, Evandro Gomes de Brito, Erathósthenes Menezes, Mozart Tanajura, dentre outros.

  Nas comemorações dos seus 45 anos, em 2025, a ACL renovou seus quadros recebendo novos artistas como membros, com o propósito de incentivar a arte, com destaque para o poeta, cantor, músico e compositor Eugênio Avelino (Xangai), ex-secretário de Cultura do Município.

  Na ocasião, a ex-presidente Elvarlinda Jardim ressaltou o valor especial da posse dos novos acadêmicos. Xangai chegou a receber o reconhecimento por sua atuação, por exemplo, com o Prêmio Sharp de 1997 de melhor disco com “Qué Qui Tu Tem Canário” e o Prêmio Música Brasileira de melhor cantor regional, em 2016. O artista passou a ocupar a 37ª Cadeira da ACL, que representa simbolicamente seu patrono, o poeta Carlos Drummond de Andrade.

    Os presidentes sempre buscaram um espaço físico definitivo para sediar a ACL, e agora, mediante articulações políticas, ela passará em breve a funcionar no prédio do histórico Solar dos Ferraz, tendo como atual presidente o acadêmico Valmir Henrique de Araújo.

“GOSTO NÃO SE DISCUTE”

   Dizem por aí que gosto, religião e futebol não se discute, mas não tem jeito. Essas questões sempre aparecem numa roda de bate-papo, só que é como propaganda de bebida, com moderação e sem exagero.

  A gente costuma falar muito isso numa discussão quando se está tratando de gostos diferentes e sempre concordamos que devemos respeitar o outro. É o modo de se vestir, de se alimentar, de apreciar as coisas, do jeito de vida e, principalmente, quando se refere à música e à arte em geral.

   Existe pessoa insossa, sem gosto, que cai na rotina e até parece que já morreu e não descobriu. Tem aqueles que estão sempre experimentando novas experiências; realizando aventuras; fazendo esportes radicais; e andando por aí sem rumo. Outros nasceram para ser caseiros e, mesmo com dinheiro, nunca fizeram uma viagem. Existe coisa melhor que viajar? Deve existir, sim.

  Quando era mais jovem, sonhava ganhar o mundo como mochileiro andarilho sem nunca mais voltar para casa, como se não tivesse família. Tive até oportunidades, mas outros acontecimentos e fatos cruzaram meu caminho e o destino mudou. Fiz outros atalhos.

  É isso aí, “cada um tem seu gosto”, mas tenho observado que o de hoje não é mais como o de antigamente. A sensação é que os gostos do passado, da nossa velha geração, eram mais refinados, selecionados, saudáveis, prazerosos, qualificados, humanizados e tinham mais conteúdos. Existe coisa melhor que desfrutar os prazeres da vida? Mas tem vivente que não gosta.

  Com essa nova era da tecnologia, da internet, desse progresso de correria, da competição desvairada pelo dinheiro em busca do material, do baixo nível educacional e cultural, com a consequente ausência da conscientização política e social, os gostos foram perdendo aquele sabor.

  Um exemplo claro disso é com relação à musica, onde a grande maioria, especialmente jovens, opta por consumir o lixo de shows barulhentos com letras vazias, muitas de uma estrofe só, sem sentido, sem enredo, história e só banalização do amor.

Tem quem goste de som de carro, do tipo “bate estaca”, na maior altura, de furar os tímpanos. Vá falar com o sujeito que ele é um imbecil. Melhor não, porque pode ser um morto. Muitos andam por aí perturbando o sossego dos outros e acham que estão abafando.

 Na minha leitura, esses caras só têm titica de galinha na cabeça e não entendem que o ouvido dos outros não é pinico. Para eles, o outro é obrigado a gostar do estilo deles. “O incomodado que se retire”. É assim que os bichos pensam.

   – É, meu amigo camarada, muitos gostos foram se perdendo com o tempo. Não se gosta mais hoje de se ler um livro, assistir um bom filme, uma peça teatral, prosear causos interessantes e ouvir uma música de um compositor com letra de conteúdo, conhecimento e saber.

– Bem, já que falou nisso, gostaria de saber qual a definição atual de mau e bom gosto, se vivemos numa época de decadência da humanidade? O que era ruim, de péssimo gosto, virou bom. Podem me xingar, mas conheço gente que não come merda porque fede.

  – Você agora, de uns tempos para cá, tem andado com um gosto azedo e desgostoso, com a língua ferina! Deve ser a idade que faz a gente perder os gostos de outrora e ficar assim ranzinza, carrancudo e saudosista!

– Melhor mesmo é mudarmos de assunto e deixar o gosto dos outros para lá, pois não vamos mudar o gosto de ninguém, como os que passam a vida nas redes sociais curtindo e seguindo esses idiotas “influenciadores”! Vamos conversar sobre amenidades.

– Por falar nisso, agora me veio à cuca de que uma coisa que quase todo mundo gosta é de fofocar a vida alheia, embora alguém negue de pé junto. O fofoqueiro sempre está com o ouvido colado num canto, perto ou atrás de uma porta, escutando o que o outro diz.

  – Engraçado, o fofoqueiro sempre diz que não gosta de fofocar e que é de guardar segredo. “Minha boca é um túmulo”. Acredite se quiser, mas é melhor parar por aqui, porque “cada um com seu gosto”, e não se pode desgostar.

A SECA DE 1932 E O CANGAÇO

   Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. Na história do Brasil, não existiu povo que mais sofreu e foi mais relegado ao isolamento e à própria sorte, desde os tempos coloniais.

 Muitos autores escritores, estudiosos do assunto, economistas renomados e acadêmicos em geral se aprofundaram nesta questão. A literatura é vasta e nela está contida cenas de horrores, massacres, barbaridades, matanças indiscriminadas, injustiças sociais, sem contar as secas e o cangaço que deixaram um rastro de destruição.

   A seca de 1877/79 foi a mais cruel e exterminou milhares de nordestinos, que maltrapilhos, quase nus, tombaram nas estradas e morreram de fome e sede. Outras vieram, como a de 1932, que também deixou um rastro de destruição, ao lado do banditismo do cangaço que não dava trégua aos sertanejos.

   Em seu livro “Maria Bonita-sexo, violência e mulheres no cangaço”, a autora Adriana Negreiros mostra esta face cadavérica da seca que até os cangaceiros precisavam lidar com este fenômeno, embora contassem com a conjuntura política a seu favor.

As mulheres (estupros), os idosos e as crianças foram os que mais sofreram com as violências das secas e do cangaço. Sobre a de 32, Adriana cita que os bois estavam morrendo tão esquálidos que os urubus só se serviam de seus intestinos.

  Nas estações ferroviárias, retirantes saqueavam trens que transportavam fardos de charques, na tentativa desesperada de conseguir algum alimento. Tropas tinham que intervir, cometendo todo tipo de espancamentos e torturas.

  “Pelas estradas, famílias que abandonavam suas pequenas propriedades de solo rachado, largavam corpos de parentes próximos, sucumbidos à fome e à sede durante as travessias. Pequenas cidades eram tomadas pelos sertanejos com crianças de pernas tão finas e barrigas tão inchadas que mal conseguiam caminhar”.

  Os bandoleiros passavam dias sem beber água. Lampião, apesar da sua resistência física fora do comum, por vezes se deitava no Raso da Catarina, clamando aos céus por uma gota d´água. Quando existia alguma fonte disponível, ela estava contaminada por besouros, larvas de insetos e fezes de cabras.

  Na Bahia, a seca de 32 se tornou ainda mais mortífera por causa de um plano mirabolante e maluco de combate ao bando de Lampião, criado pelo capitão João Miguel. Sua ideia desastrada foi a de evacuar a caatinga, visando afastar cangaceiros de seus coitos.

  O interventor Juracy Magalhães, nomeado por Getúlio Vargas, decidiu aderir à iniciativa do militar. O resultado foi que as cidades baianas, além der castigadas pela seca, passaram a receber levas e mais levas de sertanejos famintos.

  Contam que cerca de 12 mil sertanejos da zona rural foram obrigados a deixar suas casas e a viver como mendigos nas pontas das ruas, formando batalhões de famintos. Centenas começaram a morar debaixo de árvores e nos adros das igrejas, vivendo de pequenas esmolas.

  Os cangaceiros foram os que menos sentiram o rigor da seca. Eles resolveram passar boas temporadas em Sergipe onde desfrutavam de uma grande rede de coiteiros que incluía duas grandes famílias ricas, os Brito e os Carvalho.

  Enquanto sertanejos morriam de fome, mulheres eram violentadas e crianças vendidas como mercadorias, os bandos de Lampião recebiam boa comidas, inclusive queijo do reino e bebidas importadas.

Eles não paravam de cometer suas atrocidades, principalmente contra aqueles que os denunciavam à polícia, como ocorreu em Uauá e Jeremoabo, onde o senhor Manuel Salinas e seus três filhos foram barbaramente mortos. Salinas teve o sacrifício maior. Lampião cortou suas orelhas e furou seus olhos; arrancou seus testículos; e extirpou seus lábios. Não contente, ordenou aos seus cabras que quebrassem sua dentadura a coronhadas.

O velho foi colocado no lombo de um cavalo e levado até uma propriedade vizinha onde morava Ulisses, seu filho mais velho, executado com dois tiros diante da esposa e das crianças.

   Conforme se espalhou pelo sertão, além de morto a golpes de punhal, o cangaceiro Quixabeira teria aberto o peito de Salinas, arrancado seu coração e arremessado o órgão no meio do mato.

Existem relatos de sertanejos enterrados vivos e criancinhas lançadas ao fogo para punir pais delatores. As volantes também deixavam suas manchas de sangue e brutalidades por onde passavam. O sertanejo ficava entre a cruz e a espada.

CADA ELEIÇÃO SAI PIOR

  É cada um tentando empurrar sua “merda” fedorenta para o outro e ninguém consegue limpar sua sujeira jogada debaixo do tapete. Todos são genéricos; o discurso e o verbo são os mesmos; e não se vê um candidato ao poder executivo com um programa de governo na mão.

   O horário do programa eleitoral na televisão e no rádio é um lixo, bem como as entrevistas e os debates onde eles procuram tergiversar e não respondem as perguntas. Cada eleição sai pior porque o próprio sistema eleitoral é arcaico e se falar em reforma é um palavrão.

  Só do fundo eleitoral são cinco bilhões de reais pagos pelos contribuintes e que são desperdiçados para eles falarem mentiras e um monte de besteirol para os eleitores que não aguentam mais ouvir esses cabras da peste, incluindo os que pleiteiam o legislativo.

   Por menos instrução que tenha, o eleitor já está de saco cheio desse discurso mofo e bolorento, seja da esquerda, do centro ou da direita, mas os caras de paus não se tocam e continuam a nos fazer de otários. O pior é que somos mesmo.

   Sabemos que as eleições fazem parte do regime democrático porque uma ditadura seria bem mais dolorosa, mas temos que reconhecer que elas (as eleições) não trazem mudanças políticas, sociais e administrativas, e isto vem sendo comprovado há séculos no Brasil.

  As eleições não resultam em mudanças, justamente porque todo sistema, parecido com o dos tempos dos coronéis, está podre e viciado. O indivíduo pode ser um cafajeste, corrupto, ultrapassado e até extremista, mas termina sendo eleito se tiver “bala na agulha” e a máquina do poder na mão.

Não passamos de um bando de masoquistas alimentando os sádicos. Até o pobre, o negro, o excluído e a mulher votam naqueles que os detestam e os discriminam. É um faz de conta que tudo vai melhorar.

  Até a propaganda do Tribunal Superior Eleitoral é enganosa quando fala da importância de se exercer a cidadania num país de cultura rasa e de nível educacional baixo, sem consciência política formada. Aliás, candidato nenhum trata da questão da cultura que é vista como um jarro de decoração em suas mesas.

A única coisa que o brasileiro tem é a cultura do voto. O idoso de mais de noventa anos ainda se arruma todo no dia da eleição e vai se arrastando até a urna. Fica feliz da vida.

  Como papagaios, os jovens de 16 anos, a maioria manipulados pelos pais, colegas ou pela religião, repetem os mesmos bordões de sempre nas entrevistas.

 Milhares votam por favores recebidos, o que representa o mesmo que se vender por dinheiro, ou são influenciados pelas famílias. No final, tudo fica como dantes na Casa de Abrantes, com insignificantes renovações nos quadros. Cada eleição sai pior.

DIPLOMA DE POETA! COMO CONSIGO?

   Nos últimos anos só tenho pensado e desejado em me internar num sítio, seja em qualquer lugar, numa mata ou agreste da caatinga nordestina e viver numa loca como mocó, sem ouvir baboseiras e ter que aturar desatinos dessa humanidade desumanizada e decadente.

  Sabe daquela expressão “quero que o mundo pegue fogo”, que se completa com a frase “para eu acender meu cigarro”, ou “sentar em cima das cinzas para comer marshmallow”?

Infelizmente, estou chegando a esta fase da indiferença em relação aos problemas alheios ou a esta situação de caos em que está metida esta fútil sociedade de merda. “Estou de saco cheio” diante de tantas futilidades e barbaridades que mais parecem “fake news”, ou piadas de mau-humor.

Nem sei mais em que acredito, se no certo ou no errado, no legal ou no ilegal, no normal ou no anormal, no moral ou imoral, muito menos nesses candidatos genéricos francos atiradores de pombos ou pardais.

   Como se não bastassem os cientistas desocupados que ficam inventando coisas sem lá essas utilidades práticas, fiquei sabendo e não acreditei que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Flávio Dino querem criar jurisprudência de forma a exigir diploma de poeta para quem faz poesia. Queria saber como obter.

  O Moraes está preocupado com quem posta um soneto nas redes sociais, vindo a ser, segundo ele, um perigo para a mofada Academia Brasileira de Letras.

Neste caso, os pernas de paus do futebol brasileiro também constituem perigo para os raros craques, que nem existem mais. E o diploma para craque? Qualquer bosta hoje se diz jornalista porque foi o próprio STF que lá atrás baniu o diploma para exercer a profissão.

  Não entendi nada, ou sou burro mesmo quanto ao argumento deles de que “a gente quer é a criação de um ambiente poético mais seguro, com regras de conduta, de forma que uma pessoa possa ser criminalmente responsabilizada se rimar “tempão com coração”.

  Com todo respeito, será que esses ministros não fumaram um baseado ou deram uma cheirada num pó batizado e ficaram lelés da cuca? Onde fica o livre pensar de cada um fazer sua rima que quiser?

O poeta é livre para mudar até as regras do português para transmitir sua mensagem; dar asas à sua arte para que ela voe; tirar leite de pedra; e tornar visível o invisível aos olhos dos mortais. Ora, existe poeta, e o poeta, e isto não é diploma que vai definir a categoria, mas sim quem ler e ouve para criticar e julgar a obra.

  Vamos deixar de blábláblá com esse papo furado, senhores ministros, quando temos tantos problemas graves nesse Brasilzão para se resolver e vocês ficam aí tergiversando no mundo da lua. Deixem os poetas poetarem e os prosadores prosearem!

 Vamos criar também diploma para cordelista, repentista, trovador e humorista, na base de quem receber mais aplausos e tiver mais visualizações ou seguidores. No caso de humorista, por exemplo, se numa plateia ninguém rir da sua piada, está desclassificado e não receberá diploma. Nos tempos atuais, somente poucos serão agraciados.

  Palhaçada! Quero mesmo é voltar para o mato, que seja num local bem ermo e inóspito, de difícil acesso, tipo daqueles de Lampião e seu bando, como Raso da Catarina e Serra Vermelha onde volantes tremem de medo em colocar suas tropas para atacar o inimigo.

  Gosto mesmo é da minha simples cabana rústica e natural para ouvir o som da caatinga, a vaca mugir, o cavalo relinchar, o cachorro latir, o galo cantar na madrugada, a onça rugir, a coruja piar e o bicho sorrateiro balançar a folhagem no matagal à procura de víveres para sobreviver.

  Me encanta ver o pássaro voar em liberdade; o vento zunir nas serras e montanhas; cavalgar no campo e sentir o ar bater no rosto; prosear com o matuto e contar uns causos ancestrais; apreciar o luar pratear o terreiro e a campina; e sentir o orvalho da relva molhar meus pés nas veredas das manhãs serenas.





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