“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.
A INDUMENTÁRIA E AS MULHERES
A partir de 1930, os cangaceiros passaram a ter uma indumentária própria, exibindo ostentação em seus ornamentos, com ouro e pedras preciosas nos chapéus, nos bornais, nas cartucheiras e nos dedos das mãos. A de Lampião se destacava entre todas como o “rei do cangaço”.
A autora da obra “Lampião-Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmin faz um detalhe minucioso sobre suas vestimentas que passaram também a ser adotadas pelas forças volantes no caso das camisas, alpercatas, das calças e dos chapéus, para enfrentar os garranchos, os espinhos e o solo das caatingas, mas sem a riqueza dos bandoleiros.
O peculiar estilo das roupas se tornou seu signo característico, sua marca, sua assinatura como descreve Élise sobre o cangaço. Na maioria das vezes, os homens confeccionavam suas roupas, como Lampião, que antes de entrar para o cangaço, costurava e bordava. Fotos mostram ele e Luis Pedro bordando os paramentos numa máquina Singer.
Quando foi para o cangaço, Dadá, a mercê de seus dotes e criatividades, fazia as roupas de Lampião e Corisco, seu marido. Ela mudou os motivos dos bordados. Em 1932 lançou a moda do couro branco costurado nos chapéus, flores em tecido colorido, bordadas nos bornais, perneiras e cinturões, isto quando os bandos estavam escondidos no Raso da Catarina e outros esconderijos.
Os motivos e as estrelas dos chapéus variavam de um cangaceiro para o outro, de acordo com seu status no grupo. Em Lampião, os motivos representavam flores brancas cercadas de um círculo sobre fundo branco. Em alguns chapéus, apareciam árvores estilizadas feitas de couro branco, bem como, estrelas com oito ramificações sobre fundo negro, como o de Corisco.
Todos os chapéus tinham medalhas e moedas. O de Lampião era tão carregado que, depois da sua morte, um jornalista descreveu sua indumentária como “verdadeira exposição de numismática”. Suas roupas foram depois inventariadas e expostas pela Policia Militar de Alagoas, mas depois passaram para o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
Seu chapéu era ornado em alto relevo, (sete moedas e 25 medalhas de ouro) com seis signos de Salamão, ornado em ambos os lados com 55 peças de ouro. Os botões para colarinhos e punhos tinham as inscrições ”AMOR”, com as iniciais C.L.; os anéis de pedras preciosas tinham as gravações com o nome “Santinha” em referência a Maria Bonita; testeira com moedas e medalhas com a gravação “Deus te Guie”.
Os lenços dos cangaceiros eram geralmente de seda inglesa ou tafetá francês. O de Lampião era de seda vermelha, bordado nos quatros cantos. Os bornais dos cangaceiros tinham alças bem largas, feitos de tecidos resistentes, com vários bolsos e bordados na parte exterior, com motivos florais e botões de ouro e prata.
Nos bornais, continham comida, mudas de roupas e medicamentos. Outros eram destinados a guardar balas que não cabiam nas cartucheiras. Tudo era feito para não ferir as pelas nas travessias das caatingas.
As calças eram geralmente curtas, obrigando os cangaceiros a usar perneiras de couro para se proteger dos espinhos. Levavam duas cobertas que cruzavam sobre o tórax. Usavam luvas, algumas bordadas, como a de Lampião.
As bainhas dos punhais, as cartucheiras e as correias dos fuzis completavam a riqueza dos trajes. Lampião e seus companheiros usavam armas do exército nacional. A faca do chefe era ornada com três anéis de ouro e sua cartucheira tinha capacidade para 121 cartuchos para o fuzil Mauser.
De acordo com jornais da época, os cães não escapavam da ostentação. “Dourado”, o cão de Lampião foi morto por uma força volante e possuía uma custosa coleira com incrustações a ouro e prata. Paradoxalmente, como diz a escritora Élise, a vestimenta foi copiada pelos seus inimigos.
As mulheres eram muito bem tratadas pelos seus respectivos companheiros, mas castigadas com a morte, de forma cruel, em causa de traição (Cristina e Lídia). Elas logo se adaptaram ao novo estilo de indumentária. Dadá dizia que havia dois tipos de roupas femininas, a típica das mulheres de cangaceiros usadas nas longas marchas e vestidos à moda dos habitantes das cidades.
A roupa típica era confeccionada de pano cinzento grosso que protegia das intempéries do sol e dos espinhos. O vestido só podia chegar até abaixo do joelho e nada de cabelo curto e decotes. As mangas, bordadas com galões coloridos, eram longas para cobrir os pulsos. Os vestidos tinham cinco bolsos, um na altura do seio, dois na cintura e mais dois de cada lado dos quadris.
Também usavam luvas bordadas e anéis nos dedos, na maioria de ouro e pedras preciosas. O valor do seu anel dependia da importância do cangaceiro a quem pertenciam. Suas sandálias eram de couro resistente.
Calçavam meias feitas do próprio tecido e perneiras macias de couro até os joelhos. Como os homens, lenços com cores vivas. Também levavam consigo seus bornais e neles continham roupas, munições, perfume, sabonetes de boa qualidade e pó de arroz, bem como, duas cabaças, uma com água e outra com açúcar e conhaque. Traziam na cintura um punhal e armas, embora não participassem dos combates, com exceção de Dadá.
Por incrível que pareça, as mulheres praticamente não cozinhavam, lavavam e nem pegavam no pesado. Eram bem paparicadas pelos seus companheiros, inclusive pelo bruto, casca dura, Zé Baiano. Ele chegava a dar comida à sua mulher Lídia pela boca e lhe limpava, mas não hesitou em matá-la a pauladas, de forma bárbara, quando o traiu.
FERIMENTOS DO MENINO
(Chico Ribeiro Neto)
Aquele menino tinha a maior vontade de quebrar o braço, mas só conseguiu quebrar a cabeça.
Achava lindo braço na tipóia, todo mundo perguntando como foi e as meninas assinando no gesso .
Quebrar o braço tinha muito mais charme, um deles era ter que escrever e comer com a mão esquerda. “Dói?” , perguntava uma garota, enquanto outra queria saber como é que é pra tomar banho. Mas eu não tive essa sorte.
Jogando “baba” nos paralelepípedos da rua Gabriel Soare,s, em Salvador, o menino arrancava a cabeça do dedão, ralava o joelho ou o cotovelo nas acirradas disputas da bola.
Uma vez, o menino deu um “banho de cuia” (o atual “chapéu”) em “Mondrongo'”, gritou “viu, puta?” e foi imprensado no muro pela raiva do adversário. Ganhou a disputa da bola e também um grande galo na testa com a porrada na quina do muro.
Aí veio um corte no pé. “Géo Beleza”, de saudosa memória, tinha uma catraia, um pequeno barco a remo, e fomos da praia do Unhão até o Forte São Marcelo. Dentro do forte, naquele tempo abandonado e com muito lixo, pisei num fundo de copo bem afiado que atravessou a sandália japonesa (atual havaiana) e me fez um bom corte na sola do pé.
Com a minha camisa, amarrei o pé que sangrava muito e voltamos a remo até o Unhão.
Minha mãe Cleonice tinha pensão, um dos hóspedes era estudante de Medicina e disse que eu não precisava tomar pontos. Fez com muito esparadrapo o que chamou de “ponto falso” e estancou o sangue. Fiquei puto, pois queria mesmo era tomar pontos pra ter mais o que contar.
Tudo se curava com Merthiolate e alguns gritos do ardor do medicamento. Aí a gente cresce e aparece o ferimento da alma, mais difícil de curar e pior do que um encontrão de “Mondrongo”.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
LIXO E EDUCAÇÃO
Quando estava fazendo essas imagens degradantes de amontoados de lixo nos bairros Santa Terezinha e no Kadija, ambos às margens do Anel Viário, duas senhoras que passavam no momento desabafaram contra a falta de educação do povo que joga até animais mortos no local. “Situação ainda pior está próximo à horta comunitária do Kadija” – disse uma delas em tom de revolta. Para completar, muitos tocam fogo nas sujeiras e aí a fumaceira toma conta da pista, podendo provocar acidentes. Poucas vezes vi tanto lixo espalhado num mesmo lugar em Vitória da Conquista. São sacos plásticos cheios de restos de comida, entulhos, móveis e outros bagulhos que estão quase nas portas das casas mais próximas. Os moradores reclamam da invasão de ratos, escorpiões e todo tipo de insetos peçonhentos nas residências. A Prefeitura tem a sua parcela de culpa por deficiência na fiscalização (muitas vezes os carros de lixo deixam de passar nos dias marcados), mas a falta de educação das pessoas que despejam o lixo em terrenos vazios está em primeiro lugar. “Não adianta limpar porque no outro dia está tudo sujo novamente” – ressaltou uma moradora do Bairro Santa Terezinha que fica nas imediações dos Campinhos. Quer ver lixo, urubus comendo carniças em terrenos abandonados é só visitar as periferias da cidade onde estão os maiores focos de doenças, a começar pela dengue. No final da Avenida Sérgio Vieira de Melo, por exemplo, no Loteamento Sobradinho, o lixo e o mato alto já estão invadindo parte do asfalto.
PASSARINHO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando ainda menino,
Campestre nordestino feliz,
Queria ser um passarinho,
Voar livre por aí
Entre o colorido das araras,
Construir meu ninho,
Nas densas matas raras;
Bailar nas ondas do ar,
E cantar como o sabiá.
Depois de pássaro passarinho,
Um cawboy do faroeste,
Mais rápido gatilho do Oeste.
Hoje, no tic-tac do tempo,
Que não sou mais passarinho,
Lembranças de jovem farrista,
Vou no gemido do vento,
Nos sonhos de um idealista.
De alma dura e rústica,
Como o árido do sertão,
Levando reboadas da vida,
Não sou romântico na canção;
Tenho meu jeito de chorar,
Nas artérias do meu coração,
Em meu recanto sozinho,
Vejo só injustiças de matar,
Não mais como passarinho.
UMA COPA SEM ESPETÁCULO COM UM FUTEBOL MECÂNICO-MONÓTONO
Com a escassez de craques dribladores e inteligentes da cabeça, com a bola no pé – somente dois ou três nesta Copa – tendo em vista que os outros não passam de grandalhões centroavantes de quase dois metros de altura fazedores de gols, o nosso futebol perdeu seu espetáculo arte daquele gingado malicioso, “pra lá e pra cá”, confundindo os adversários. Cadê aquele futebol cadenciado e bonito de se ver, com lances e dribles estonteantes?
Como apreciador dessa modalidade (já fui jogador quando jovem), o nosso futebol perdeu seu espetáculo, especificamente nesta competição de 2026, e se tornou uma prática esportiva mecânica-tecnológico de força física, de passes longos e errados, falta de domínio da redonda, sem falar de bolas que voam no ar e atravessam estádios.
Nem vou aqui comentar sobre a seleção brasileira onde todos são do mesmo nível, com um pouco mais alto do Vinícius Júnior – o Neymar já se foi como último dos moicanos – porque não temos craques como naquelas épocas passadas. Na partida de ontem (quarta-feira, dia 24/06), duas falhas clamorosas do goleiro da Escócia ditaram o resultado. Pelo que já assisti, não me arrisco apontar as equipes finalistas.
As seis últimas copas, esses elencos da “terra das chuteiras”, não mais me empolgam e não alimento ilusões, principalmente este que aí está. Não entro nessa onda da televisão exclusivista que tenta empurrar goela abaixo um futebol casca dura.
Desde 1962 que acompanho as copas com grandes craques que foram desaparecendo e atualmente são raros, a contar nos dedos. No início era tudo pelo radinho de pilha, mas, mesmo assim era emocionante. Foi em 1958 que o Brasil perdeu o complexo de vira-lata, de inferioridade, carimbado por Nelson Rodrigues.
No Brasil, os autores dessa reviravolta foram Pelé, Garrincha, Didi, Zagalo e tantos outros que vieram em seguida, como em 1970, com Tostão, Jairzinho, Dirceu, Rivelino, Carlos Alberto, Clodoaldo e o próprio Pelé. Tivemos ainda Sócrates, Zico, Falcão, Romário, Bebeto, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldão e outros que nos encantaram.
O tempo foi passando e o futebol foi deixando de ser espetáculo e arte, para ser um jogo mecânico e monótono, como nessa Copa de 2026. A impressão é que, de uns anos para cá, houve uma seca danada e acabou com a safra de craques.
A FIFA (a Federação Internacional de Futebol) introduziu muitas mudanças, principalmente nas regras e ampliou o número de países participantes para dinamizar o esporte mais popular do mundo. Algumas transformações foram benéficas e outras polêmicas, como esse tal de VAR. O milimétrico impedimento deveria deixar de existir.
No caso dessa atual, com mais nações, para ganhar mais dinheiro, nessa embolada de normas, houve uma grande contradição na ideia de tornar a partida mais dinâmica com mais bola rolando, que foi a criação do tempo técnico para “hidratação” (dois) de três minutos e mais o intervalo de 15. Isso mais parece imitação do voleibol.
Essas paradas representam o contraditório com as regras da cobrança de lateral onde o atleta só tem cinco segundos para arremessar a bola, o mesmo com o goleiro, e o jogador caído no campo, atendido pelo médico, tem que sair do gramado e esperar um minuto para retornar à peleja.
Ora, as paradas desnecessárias – antigamente num calor de mais de 30 graus, o jogador só tinha o clássico intervalo e ninguém desmaiava em campo – só servem para esfriar o ritmo do futebol, dos torcedores nos estádios e os que estão na tela, sem falar na vantagem para quem está perdendo e sendo sufocado no ataque. Isso não é bom até para os atletas que estão com o sangue aquecido e de repente esfria.
Nos últimos 30 ou 40 anos, o que mais me chama a atenção é a evolução do futebol africano e de alguns asiáticos que deixaram de ser ingênuos e competem de igual para igual com as tradicionais seleções, inclusive as europeias, fontes de treinamentos para eles que atuam em muitos clubes daquele continente.
No entanto, o mal é que aprenderam em escolas mecânicas e ainda cometem erros de amadores. Como armas, para neutralizar o adversário, ainda usam a força física e a velocidade. Ainda deixam a desejar. Mais para a frente, tem tudo para ser um futebol só seu e até ser campeão.
ESSAS ARTES ATUAIS DEIXAM AS PESSOAS MAIS IMBECIS E BURRAS
Não se trata de uma questão de saudosismo, de ter ficado ultrapassado, velho e arcaico com as mudanças, mas as artes atuais, principalmente a música, com seus “conteúdos” de baixo nível, estão deixando as pessoas mais imbecilizadas e burras, fáceis de serem manipuladas pelas enxurradas de porcarias. Tudo é feito para agradar a burra multidão. Um exemplo mais claro é o que estão fazendo com o nosso São João. Ainda tem a mídia idiotizada para dizer que a festa é de graça.
Como os artistas em geral deixaram de exercer sua função crítica sobre os problemas sociais e políticos do momento, temos hoje uma massa ignara que perdeu a capacidade de refletir e contestar. Um exemplo claro dessa mediocridade popular atual advém da música, a arte mais sensível e atrativa que arrasta as massas.
Se o povo só ouve besteirol, letras vazias, de amor brega, do tipo puramente comercial, sem sentido, esse povo absorve o lixo e nele se transforma. No entanto, a arte tem o papel de tornar esse povo oprimido em pessoas mais esclarecidas se o artista oferecer o melhor.
Nos anos 60 e 70, em pleno regime ditatorial, mesmo sob o jugo da opressão, a arte não deixou de mandar o seu recado, com trabalhos de alto nível cultural e educacional transformador. Muitos foram presos e censurados, mas permaneceram firmes em seus princípios.
Com a redemocratização, por incrível que pareça, quando deveria ser o contrário, entramos no poço da bestialidade, com a inversão de valores, premiando a mediocridade e o fútil. A arte, então, foi perdendo sua finalidade de ser, para se tornar escrava de um mercado consumidor de um produto descartável poluidor.
Nos festejos juninos e outros eventos, o poder público municipal, estadual e federal tem muita culpa em só entregar shows porcarias por achar que é isso que o povo quer, sem se preocupar em mudar a mentalidade dessa gente, por temer que ela deixe de lhe ser submissa e subserviente.
Arrancaram de nós a tradição popular, as riquezas do conhecimento e do saber, a autenticidade da cultura como alimento da alma, a sabedoria dos nossos antepassados e ancestrais, para nos dar só sujeiras bolorentas e fedorentas.
Pena que a grande maioria dos artistas entrou nessa onda, somente por vaidade, fama e para ganhar dinheiro do idiota contribuinte. Depois tudo se dilui com o passar do tempo. Suas obras morrem antes das suas mortes naturais.
Temos que fazer a arte rasgar as vísceras e o cérebro dessa gente entorpecida pelos besteiróis. Temos que ser viscerais na cultura, sem precisar se rebaixar ao nível irracional da polarização que simplesmente nos dividem em dois campos do ódio e da intolerância.
O artista tem que ser trincheira da resistência para combater esses imbecis estrangeirados do hot-dog, rottweiler e pitbulls negativistas, entreguistas, doentes da cuca e levianos. Podemos ser filhos desse sistema, mas nunca leais ao opressor que trata o povo como lixo com sua cultura verborrágica.
A palavra e a expressão artística bem-postas, seja a linguagem que for, na forma de protesto contra este sistema devorador, com sua essência e inteligência, são as maiores armas letais para abater essa imbecilidade que se disseminou no ser humano, como praga daninha.
A arte só tem sentido se deixar sua mensagem de valorização e dignificação do humano, de conscientização política; se instigar o sujeito a refletir e a se descobrir como peça importante dessa engrenagem que pode mudar o curso da história. Se assim não for, ela perde sua validade de ser para se tornar esquizofrênica.
AS PEQUENAS E AS GRANDES
AS COISAS GRANDES FICARAM PEQUENAS E VICE-VERSA
– Parceiro, tive que cortar uma estrofe e algumas frases porque ninguém escuta mais músicas longas nos dias de atuais. Tem que ser tudo pequeno e curto. É assim que a banda toca.
No sentido contrário, isto me faz lembrar dos tempos dos grandes festivais dos anos 60 e 70 das músicas de Edu Lobo (Ponteio), Caetano Veloso (Alegria, Alegria), Geraldo Vandré (Disparada), Chico Buarque (A Banda), Gilberto Gil (Domingo no Parque) e tantos outros com suas longas letras de conteúdo social e político.
A grande maioria do povo não quer mais saber e nem ouvir letras musicais cumpridas. A turma dos axés, dos arrochas, pagodes e sofrência tasca uma pequena estrofe e o resto é só barulho. A galera cai dentro e não sabe nem o que o cantor está falando. A mensagem não importa mais. A cabeça ficou pequena e nela só cabe pouca coisa.
Observou que no mundo moderno e na era da tecnologia quase tudo é pequeno, a começar pelos chips onde suporta um montão de informações. Os microfones, os gravadores e outros aparelhos eletrônicos são manejados na ponta dos dedos.
A cultura ficou pequena e curta, bem como os poemas de poucas linhas. O número de leitores de livros é pequeno e até a inteligência e o QI estão apequenando. Na literatura, prevalecem os livrinhos de no máximo 150 páginas. O conhecimento e o saber moram entre poucos. A cuca está estressada e não comporta mais textos grandes.
– Seu áudio está muito longo e não tive tempo para ouvir todo. Fatia a fala – repreende o amigo. Raramente se usa o telefone e, quando acontece, tem que ser rápido no gatilho. O mesmo ocorre com as mensagens no celular. A palestra tem que ser pequena.
As pessoas andam apressadas e os papos têm que ser curtos. Hoje é só um alô e raramente um bom dia. A grandeza de prosear, jogar conversa fora e contar causos ficou para os matutos sertanejos do campo, ou para os mais idosos.
Diante de tantos problemas e na luta pela sobrevivência, seu bom humor ficou limitado e restrito. A pessoa se irrita com qualquer coisa e a paciência não é mais a mesma. “Não tenho mais paciência para aturar uma reunião”.
– Porra, aquele cara é muito chato e conversa demais. Ninguém tem saco para ouvir sua prosa e suas histórias. Parece até que não faz nada na vida.
Quando amigos se encontram nas ruas dos grandes centros urbanos, mal dá para um dedo de conversa. Ambos estão na correria. Dizem por aí que até o tempo encurtou, porém, isso é pura ilusão. Ele continua na dimensão de sempre.
Para os pobres e arremediados das classes médias baixas, o dinheiro está cada vez mais pequeno, a não ser que se faça falcatruas e malfeitos para crescer a grana. Por falar nisso, a honestidade, a ética e a seriedade reduziram de tamanho.
Da calçola, passou-se parra a calcinha curtinha. A cueca samba canção ficou cuequinha. O biquíni de antigamente virou tanga e fio dental, e até o amor ficou pequeno e passageiro. Casamentos que duravam anos, agora se acabam em poucos meses. A paz não é mais duradoura.
– É meu camarada, vivemos no mundo das coisas pequenas e reduzidas, mas outras permanecem grandes e só aumentam, como o ódio e a intolerância, as guerras para vender armas, a concentração de renda nas mãos de poucos, as imbecilidades e os besteiróis, as violências, as ambições, as ladroagens, as bandidagens, os corruptos e as corrupções.
Cresceram também o número de igrejas e fanáticos fundamentalistas, a extrema direita e esquerda caninas, o radicalismo e as metrópoles de milhões de habitantes amontoados nos arranha-céus, casebres e favelas.
Enquanto isso, as florestas, as matas, os cerrados e as caatingas estão ficando pequenos e desérticos com o aumento da depredação ao meio ambiente. Ah, isso só faz aumentar, inclusive o consumismo.
Temos hoje grandes temporais, enxurradas, ciclones, rajadas de ventos, deslizamentos de terras, incêndios, catástrofes e elevação das temperaturas com o aquecimento global, sem falar nos acidentes de trânsito e homicídios.
VINGANÇA, GLÓRIA E ÓDIO
Produto do próprio meio, de um Nordeste sem lei, sem justiça e dominado pelos poderosos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, durante seus quase 20 anos de cangaço, teve seus momentos de glória, decepções, ódio e vingança contra seus maiores inimigos.
De certa forma, não no sentido político ideológico, poderia se dizer que Lampião foi um rebelde revolucionário diante da situação de miséria, isolamento na região e abandono dos sertanejos nordestinos. Alguns analistas fazem essa referência à sua pessoa bandida.
Sua maior expressão de vingança e ódio se deu logo no início da sua trajetória no cangaço, por volta dos 20, quando da morte de seus pais, principalmente do seu genitor José Ferreira, morto a tiros pela tropa do tenente José Lucena, em Alagoas.
Se ele já era um moço violento, a partir dali destilou toda sua raiva para vingar as injustiças praticadas contra sua família, sobrando, inclusive, para pessoas que nada tinham a ver com seu caso particular, a começar pelas desavenças com seu vizinho José Saturnino.
Foi discípulo do nobre cangaceiro “Sinhô Pereira”; criou seu próprio grupo; e saiu pelo sertão distribuindo crueldade como um temido bandoleiro das Américas. No fundo era um rebelde, não como um revolucionário com ideologia política definida.
Para sobreviver e manter seu “reinado” de “governador do sertão”, construído pela imprensa, fez alianças e prestou seus serviços aos coronéis, grandes fazendeiros e chefes políticos. Deles exigiu dinheiro e intermediação no tráfico de armamentos para sustentar seus grupos e espalhar o terror.
Sua maior glória em toda sua vida foi quando, em 4 de março de 1926, entrou triunfalmente em Juazeiro do Norte, no Ceará, com seus 49 cangaceiros e foi recebido a contragosto pelo padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, para integrar aos Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes.
Tudo foi programado pelo deputado Floro Bartolomeu, mas ele não pode receber Lampião porque logo adoeceu e veio a falecer no Rio de Janeiro. Coube ao padre Cícero a responsabilidade de recepcioná-lo. Antes se hospedou com seus homens no Hotel Centenário, em Barbalha, perto de Juazeiro, enquanto forças do exército acampavam na rua.
Em Juazeiro, o “rei do cangaço” foi recebido por uma multidão de mais de quatro mil pessoas; andou livremente pelas ruas; deu entrevistas à imprensa; e deixou ser fotografado com seus familiares por Lauro Cabral.
No encontro com o padre, foi agraciado com a patente de capitão do exército, dado por Pedro Albuquerque Uchoa, um inspetor agrícola que não tinha nenhum poder para isso. Diante da pressão, Uchoa afirmou que assinaria até a demissão do presidente da República.
Tudo não passou de um embuste, conforme relata a autora do livro “Lampião – Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim, só que Virgulino acreditou; vestiu o fardamento do Batalhão Patriótico; e se sentiu como se fosse um interventor do Nordeste.
Naquele ato, ele achava que seria integrado à sociedade e poderia fazer o que bem entendesse, tanto que partiu para lutar contra Carlos Prestes, cuja coluna já estava na Bahia. Sua ficha só caiu, que tudo não passava de uma armação, quando as forças das Volantes continuaram lhe perseguindo.
Quando percebeu a trama, Lampião sofreu sua maior decepção em toda sua vida. Sentiu-se enganado e ludibriado e, então, brotou ainda mais com força sua sede vingança. O ódio aumentou, principalmente contra os governos e os “macacos”. Passou a cometer mais barbaridades, saques contra vilas e propriedades.
Sua violência tirana se voltou contra a construção de estradas de rodagens e vias férreas no final dos anos 20 e início dos 30. Esse progresso prejudicaria suas atividades cangaceiras por causa da maior mobilidade dos soldados.
Ao se sentir encurralado, Lampião criou seus subgrupos e passou de nômade a sedentário, a partir de 1935, conforme assinala Élise. Entocou-se por dias e meses em esconderijos seguros, para depois sair praticando seus crimes e extorquir os poderosos com pedidos de dinheiro através de suas cartas intimidatórias.
ORIGEM DO SEU APELIDO
Existe uma curiosidade com relação ao apelido de Lampião. Os escritores, pesquisadores e historiadores dão várias versões. Élise descreve que “o apelido Lampião teria uma relação com a luz que emana da sua arma quando ele atirava. Para outros, porém, tratava-se muito maios do brilho irradiado por sua pessoa. Lampião, lanterna, candeeiro – é portador de luz para seus companheiros”.
Na realidade, todos que entravam para o cangaço recebiam um nome de batismo, quer seja de animais, tipo físico, árvore ou fenômenos da natureza. Muitos atribuem ao cangaceiro “Sinhô Pereira”, seu primeiro chefe, o mentor do apelido Lampião.
O apelido foi dado pelo seu chefe porque o “fogo” da sua arma, durante um combate no povoado de Nazaré, em Pernambuco, não se apagava nunca. “O rifle desse menino é que nem um lampião”.
Outra versão é que, quando ele trabalhava para Delmiro Gouveia, conduzindo comboios transportando peles de animais no sertão, um dia uma mula abalroou e derrubou um dos lampiões (candeeiros). Esse episódio teria levado um de seus companheiros a chamá-lo de Lampião.
Por último, tem a versão de Optato Gueiros, oficial combatente e depois escritor sobre o cangaço. Numa entrevista que fez a Sinhô Pereira”, Optato perguntou ao próprio Virgulino sobre a origem do seu apelido.
O próprio Lampião contou sua história de que certa vez estava no Ceará num tiroteio numa noite escura de inverso em plena escuridão. Um companheiro deixou cair um cigarro e como não o achasse, “eu lhe disse: Quando eu disparar, no clarão do tiro, procure o cigarro. E assim foi, quando eu detonava o rifle, dizia, acende lampião e, desse dia em diante, fiquei Lampião”.



















