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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

O NÍVEL DAS ELEIÇÕES SÓ BAIXA

  Por 35 dias transitaram os candidatos na televisão e no rádio no horário da propaganda eleitoral, sem propostas, sem pautas de trabalho, sem projetos e planos, num baixo nível do tipo conversas de botequim.

  Como eleitor e cidadão, me senti um lixo e envergonhado desse Brasil onde impera a decadência em todos setores, e a tendência é piorar enquanto não houver uma reforma política que ajuste igualdade a todos em termos de tempo e recursos, além de outras aberrações que precisam ser liquidadas.

  Não vou aqui alimentar ilusões de que se faça uma reforma política séria porque eles não querem, não importando qual ideologia sejam ou tenham. Então, vamos continuar juntando os cacos dos paradoxos, das incoerências e das contradições.

  Fiquei atento para ver se alguém falasse sobre cultura e, somente um tocou no assunto, mesmo assim de forma superficial como aquele tipo de propaganda subliminar. Nenhuma voz dos intelectuais, dos artistas e dos fazedores de cultura sobre esta questão.

   Não dá aqui para ficar relatando as barbaridades, a desmoralização das instituições brasileiras e o baixo nível político a que chegamos porque seria uma perda do meu precioso tempo. É como se alguém perguntasse o que achou sobre um determinado evento e, simplesmente respondesse, sem comentários.

  Durante toda essa jornada pecaminosa, cheia de promiscuidade, fanatismos, mentiras e falações genéricas, quem mais saiu enlameada foi a nossa já frágil democracia, esta que vem sendo vilipendiada e apedrejada como se fosse uma “Geni”.

A MORTE DO “PADIM CIÇO”

    Por paralisia intestinal, aos 90 anos de idade, morre em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte, o padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, o todo poderoso do sertão nordestino que chegou a derrubar um governador do Ceará e era inimigo ferrenho da Coluna Prestes, cujo comandante Luís Carlos Prestes era considerado por ele um satanás saído dos infernos da Rússia.

  A notícia correu como rastilho de pólvora e logo chegou aos ouvidos de Lampião e seu bando através da sua rede de olheiros, coiteiros e espiões. Embora não se encontrassem por cerca de oito anos, o “rei do cangaço” sempre tinha o sacerdote como seu grande protetor espiritual e ficou muito consternado com seu falecimento.

  Um poeta anônimo chegou a fazer esses versos: “O vento silenciou,/O sol apagou a luz,/A imagem do Senhor/Chorou pregado na cruz./A terra quase tremia/Sua morte parecia/Com a morte de Jesus”

  Narra o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, seu Tempo e seu Reinado” que o pesar do “capitão” foi profundo, de um silêncio absoluto e todas mulheres choraram. O chefe mandou logo comprar faixas de crepe para o luto de oito dias. Todos cangaceiros usaram fumo no braço. As mulheres ló tingido de preto cobrindo a cabeça.

  Lampião ordenou que cortassem duas toras finas de pereiro, em tamanho desigual e com elas formou uma cruz. Na haste superior, enlaçou um pedaço de tarja, “que o vento drapejava anunciando de longe o luto do sertão”.

  De acordo com Bezerra, “à noite, por uma dessas circunstâncias que desconcertam o pensamento e despertam presságios, uma nocticanora mãe-da-lua pousou no braço horizontal do cruzeiro. Até a madrugada, enquanto durou o escuro, soltava seu canto estranho e plangente”

   Conta a história que a mãe-da-lua começou com seu canto alto, depois descia em escalas de notas uivantes e muito longas, como gemidos sofridos de moribundo desesperado de dor. Na descrição do autor do livro, os sons rasgantes davam a impressão de gargalhadas sarcásticas e apavorantes. Era a morte zombeteira mangando da dor sertaneja.

  Aquele canto da mãe-da-lua, segundo Frederico, deixou Lampião sobressaltado a noite inteira, com sonhos e pesadelos. Pela manhã, confidenciou a Maria Bonita seu pressentimento de que o “Padim Ciço” viria buscá-lo em um fim do mês de julho.

  Oito dias depois, no fim do luto, a mãe-da-lua voltou a cantar e a repetir os mesmos lamentos no cruzeiro erguido no alto da caatinga. Lampião teve os mesmos sonhos, inclusive nos anos subsequentes. Crendice, ou não, Lampião seria morto, na gruta do Angico, em 28 de julho de 1938.

SAUDADEPONTODOC

  • Chico Ribeiro Neto)

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/12/1996)

A Redação de A Tarde está informatizada. As últimas editorias estão deixando as máquinas de escrever e assumindo os computadores. Está todo mundo deletando e “pontodocando”.

A informatização exigiu uma semana de treinamento para repórteres e editores. A técnica é facilmente assimilada – o teclado é, no fundo, uma máquina de escrever adaptada -, mas a cara dos colegas no primeiro dia era muito engraçada. Todos queriam fazer uma gracinha, mas a cara estava tremendo. Somente coisa de primeiro dia, pois no segundo todos já estavam metidos a bamba.

Difícil acreditar que o papel está acabando. Gostoso mesmo era arrancar a lauda da máquina quando a gente escrevia a última linha da matéria. Quando comecei em jornal fui fazer isso a primeira vez e a lauda rasgou ao meio. Demorei um pouco pra entrar em forma e fazer aquele zap pra lauda sair inteira.

Dizem que tinha um redator, em Porto Alegre, que, quando informatizaram o jornal, só sentava no computador com um pacote de laudas ao lado. Quando errava na tela, amassava uma lauda e jogava na cesta.

O que será das máquinas de escrever da Redação? Alfredo Castro me fez a pergunta que eu não soube responder, mas que elas levam muitas histórias, levam. Algumas já estavam até cansadas de tanta notícia. De manhã, cuidavam de escrever sobre cultura, de tarde notícias da cidade e de noite reportagens policiais.

Outras máquinas pareciam cochilar  junto com a gente, nos intermináveis plantões da Guerra do Golfo, da agonia de Tancredo Neves e do sequestro feito por Leonardo Pareja.

As velhas máquinas podem ir parar, talvez, num escritório de contabilidade da Avenida Sete e, quem sabe, uma delas não sirva para que o contínuo bata sua primeira carta de amor datilografada?

Cada um marcava sua máquina de escrever preferida. Antônio José, por exemplo, tinha uma Olivetti azul que ai de quem estivesse com ela às 18 horas, quando ele chegava.

Outros arranhavam o nome na máquina, colavam durex, escondiam, faziam o diabo para ter a preferida ao lado.

Hoje, na Redação informatizada, o computador é de todo mundo. Bateu a senha, entrou e ele ainda lhe dá bom-dia. Democrático, esse rapaz.

E o barulho? O tic-tac das máquinas acabou e na Redação informatizada não  precisa mais falar alto, mania de todo jornalista. O silêncio é tão grande que não se pode mais nem contar segredo – afinal,  já existe o correio eletrônico.

A notícia continua nos acompanhando, mas a gente tem o direito de sentir saudade.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

VISITA AO ESPAÇO CULTURAL

 Nesta sexta-feira (dia 02/10/26), a partir das 9 horas, o Espaço Cultural A Estrada estará recebendo alunos do “Projeto Sextou”, do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia-UFBA, campus de Vitória da Conquista, para conhecer o seu acervo e bater um papo cultural. Com mais de 20 anos de existência, o acervo conta com cerca de sete mil itens entre livros (mais de dois mil), revistas, arquivos de jornais, vinis (mais de dois mil), peças artesanais, quadros fotográficos referentes ao sertão nordestino, chapéus (mais de 200), CDS, DVDS, equipamentos analógicos em geral, entre outros itens de valor simbólico inestimável. Os jovens estudantes da área da saúde serão recebidos pelo coordenador do Espaço Cultural, jornalista e escritor Jeremias Macário que, na ocasião, falará um pouco sobre a construção e a vida deste ponto cultural conquistense onde também é realizado há 16 anos o “Sarau A Estrada, com a participação de intelectuais, artistas, professores, estudantes e pessoas interessadas perla cultura e pela arte. Não é a primeira vez que o Espaço Cultural A Estrada recebe a visita de estudantes e de outros grupos desejos em conhecer sua estrutura. Atualmente o Espaço fica situado na Avenida Sérgio Vieira de Melo, no loteamento Sobradinho.

NAS CILADAS DA LUA CHEIA

Letra de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, gravada pelo músico e compositor Papalo Monteiro. O poema é adaptado aos tempos atuais e é uma crítica política.

Os lobos ficam moucos na lua cheia,

Do Planalto prateado do céu tropical,

Onde os bandos fazem sua farta ceia,

Vinda do arado suado braço serviçal.

 

As hienas viram renas na lua cheia,

Para a engorda gulosa do grande dia,

Enchendo seus trenós em cada aldeia,

Para mais quatro anos de mordomia.

 

Os ratos armam ciladas na lua cheia;

Os malignos vendem gato por lebre;

A mente pobre segue o canto da sereia,

E quem sempre paga o pato é a plebe.

 

Depois desta festa da lua cheia,

A chama da fé começa a minguar;

Até o fio da esperança vai-se embora;

Chora o velho, a senhora e a criança,

Na falta da justiça, do remédio e do pão,

E do direito do viver e sonhar,

De nunca mais ser boiada de patrão.

 

No aboio, ou no rasgo da guitarra:

“Vamo s´imbora”, gente forte e valente;

Não mais na espera do Deus dará!

Vamos acabar de vez com essa farra

Dessa corja bicharada do nosso lar,

Sem mais raposas uivando em nosso luar.

 

NO OLHAR DO PASSADO

  Fico aqui em meu canto olhando cabreiro essas campanhas eleitorais, como um matuto sertanejo desconfiado e calejado de tanto apanhar na vida, e tudo me faz voltar ao passado histórico de um Brasil arcaico e que ainda continua atrasado, num rumo incerto.

Para alguns, não adianta muito olhar para trás senão o sujeito vira uma pedra de sal, se temos que nos agarrar à sobrevivência do dia a dia, à luta renhida para garantir o pão da vida nesse bruto sistema! “Cada um por si e Deus por todos nós”.

Revisito também minha vida desde aqueles tempos de menino na árdua labuta da roça, as primeiras letras do bê-á-bá, com cenas marcantes que se fixaram para sempre em meu subconsciente, como o desespero de encontrar aqueles trocados tostões perdidos no areal calorento dos tropeiros mercantes.

  Eram uns simples trocados de umas pequenas compras na venda do vizinho (farinha, sal, feijão e açúcar), mas que faziam grande falta, como ainda até hoje. Traquinagens de crianças que meu pai punia no cinto do couro cru. Hoje os pais não ralham mais com os filhos porque não têm mais tempo para isso e se entretêm com o celular ou com seu cachorro de estimação como se fosse do seu mesmo sangue.

 Épocas duras, carrancudas e difíceis e que não mudaram muito, meu camarada! De tantas amarrotadas pelo sol escaldante deste sertão profundo, apenas foram repintadas com outras cores das ilusões. Acreditamos que elas vão nos dar sustança e recarregar nossas esperanças e energias combalidas.

  Nascemos com o medo e ele está sempre nos acompanhando. Temos medo do que será, do que virá nesse futuro próximo duvidoso de tanta ebulição na humanidade desumanizada, das catástrofes do aquecimento global e das eleições, que até esquecemos do carrasco da morte batendo de supetão em nossas portas.

  Ainda ouço gritos estridentes de seus mandatários colonizadores do poder, tanto de um lado como do outro, dando ordens aos seus escravos e súditos, como donos das extensas sesmarias, ainda apinhadas de índios que foram barbaramente massacrados.

Veio o Senhor Império do monarca absoluto com sua nobreza de elites, seguindo o mesmo rojão no tocar da tropa estropiada de tanta carga pesada sobre o lombo. As masmorras e os troncos para aqueles que contestavam suas arbitrariedades.

  Depois nasceu um novo raiar do dia avermelhado cheio de tons no dorso de um cavalo malhado para anunciar a chegada deslumbrante de uma Senhora sorridente chamada de República, prometendo aliviar os gemidos dos doentes das injustiças e até curar as feridas abertas na fraca carne dos esquecidos e abandonados pelos tiranos.

  Após um olhar mais capcioso e atento, vimos que na garupa do belo animal de raça desta Senhora da esperança lá estava uma outra dama presunçosa de nome oligarquia trazendo consigo o ferro de ferrar o gado que apenas havia mudado de pasto, mas os patrões eram os mesmos.

   Os proprietários dessa burguesia só mudaram seus métodos, de acordo com o tempo. Eram ainda mais astutos, brutais, sagazes, luxuriosos, gulosos, avarentos e com mais ganância, apetite e ambição, do tipo do querer mais e mais para empanturrar suas panças gordas cheias de tripas grossas.

Mais mentes malignas e mais ingredientes em seus intestinos de  merdas para cagar em nossos pedaços mirrados de chão ou nossos quintais maltratados onde até o orvalho do amanhecer foi ficando cada vez mais seco e escasso. Cadê as flores do nosso jardim? O que fizeram delas? Arrancaram até os nossos sonhos e jogaram no monturo.

   Como consequência, o ambiente ficou fedorento, de odor insuportável, mas fomos nos acostumando ao ponto de não sentirmos mais nada, nem raiva, nem indignação e dor de cabeça. O próprio organismo foi se adaptando ao ambiente dos esgotos a céu aberto. Nos criamos sendo produtos do próprio meio.

Nos intervalos desses Senhores e dessa Senhora, com suas botas de chumbo nos esmagaram com suas opressões, ditaduras, torturas e mortes. Rasparam praticamente nossos pratos da liberdade; nos deixaram famélicos; e roubaram nossos maiores bens que foram a educação, a cultura, o conhecimento e o saber.

  Oh quanta melancolia! Ainda vivemos e nos alimentamos do sabugo do milho, raspando os últimos farelos do tacho. Dos seus banquetes, sentada na cabeceira da mesa, ainda está lá aquela Senhora, outrora elegante que há muitos anos apareceu em seu cavalo galopante.

   Hoje, esta dita Senhora se encontra obesa, troncha, manca, feiosa, toda enrugada, ranzinza e malvada, prostrada em sua surrada poltrona, confabulando e tramando entre seus pares Senhores como usurpar nossas riquezas e surrupiar o pouco que temos. Ela nos afiançou que era coisa pública, mas sempre foi privada de um grupo que detém a maioria.

Como ato de sarcasmo e sadismo, cada um comendo como bárbaros, eles jogam as migalhas para a plebe como forma de diversão e apreciam em gargalhadas a disputa acirrada pelos restos ou sobras, na maioria ossos e cartilagens.

   Oh eleição, filhota bastarda daquela Senhora, de olhar vesgo e traiçoeiro, que nos faz voltar ao passado, refletir o presente e buscar o futuro perdido no horizonte! Todas as vezes que aparece em sua janela, nos faz acreditar nas mudanças e em dias melhores para os desamparados e desvalidos.

SOBRE AS ELEIÇÕES DESTE ANO – O PAPEL DA ESQUERDA

Ferdinand Martins da Silva[1]

Resolvi escrever este pequeno texto, ao invés de fazer um vídeo, pois acho importante a reflexão que aqui trago. De plano, já vou adiantando que concordo com a maioria daqueles que afirma que esta eleição é a mais importante dos últimos anos no país. Os ataques da extrema direita, em todos os níveis e espaços, têm sido brutais e rasteiros. A influência estrangeira, notadamente dos Estados Unidos, é perceptível e nefasta, pois sabemos como o império age, mais ainda, quando a crise bate à sua porta.

Neste momento crucial da nossa história, não podemos ficar imobilizados. É preciso que atuemos já! Imediatamente! É quase unanimidade, entre boa parte dos mais versados em tecnologia digital, de que a extrema direita se utiliza das redes sociais de uma maneira mais hábil e efetiva do que a esquerda, seja a moderada ou a radical.  Creio que essa forma de atuar da extrema direita está ligada ao fato de que ela sempre se escondeu atrás dos seus feitos; as ruas nunca foram o palco das suas manifestações e, o surgimento das redes sociais veio a calhar na forma de atuação destes seres ignóbeis.

Obviamente, que o campo da esquerda não pode desprezar a existência e o efeito das redes sociais no mundo contemporâneo, inundado cada vez mais, das chamadas ferramentas digitais. Nesse sentido, cabe a nós, militantes da esquerda, nos apoderarmos o máximo possível desses instrumentos, usá-los de forma proativa, visando educar as massas e desmascarando, de forma veemente a ultradireita.

As estatísticas mostram que no Brasil existem mais aparelhos celulares (linhas) do que a população! Esses aparelhos estão nas mãos de pessoas acima de 10 anos e espalhados pelas zonas urbanas e rurais das cidades brasileiras. O celular se tornou o principal veículo de obtenção de informações, deixando para trás a grande vedete da mídia mundial (a televisão).

Como a maior parte da população, então, está de posse desse artefato, vamos utilizá-lo para o nosso proveito: pegar os “santinhos” digitais dos nossos candidatos e enviá-los para um cada um dos nossos contatos e grupos. Isso é algo que podemos fazer de forma tranquila e responsável! Deixemos para a extrema direita a divulgação de fake news, que só é isso que eles sabem fazer!!! Até a Vitória!

[1] Professor do Departamento de Ciências Exatas da UESB. Campus Vitória da Conquista. Presidente do Diretório Municipal do PSOL.

VAI SER TUDO BELEZA

   A partir de primeiro de janeiro de 2027 vai ser tudo beleza no Brasil que vai se tornar num paraíso social, como na Finlândia, na Noruega, Dinamarca, Suécia e outros países nórdicos. Em Vitória da Conquista, por exemplo, na Bahia, já somos uma “Suíça Baiana”.

   Vou começar desde já a “controlar minha maluques com a minha lucidez”, como dizia o maluco beleza Raul Seixas. Com tantas promessas nas campanhas eleitorais, tudo vai ficar, com certeza, uma beleza e só vai reinar a paz, o amor e a prosperidade.

   Se você não acredita nisso, deveria porque não mais existirá lugar para pessimistas e lamentos. Eu mesmo estou sentindo esse prenúncio de forte energia no ar quando vejo as imagens das pessoas nas campanhas, dando sinal de positivo, sem falar nos rostos alegres e felizes.

 Não vou ficar de fora dessa onda para não ser espírito de porco e não melar essa oportunidade única da vida, logo eu que já estou com a idade avançada e nem sei quanto tempo vou durar.

  Pelo menos não vou mais morrer como endividado, o que já é uma grande graça e conquista. Até esses dias achava que nunca mais iria conseguir esse feito inédito. Vamos ter saúde, educação e cultura para dar e vender! Vai ser o maior barato!

Aleluia, aleluia, meus irmãos em Cristo! Agora é só rezar para alcançar janeiro. Só faltam, três meses e seria muito azar não estar vivo para celebrar essa ascensão. Pelo menos não vou falecer na fila da regulação da saúde! Isso já me serve de consolo.

   Vamos ter muitos benefícios para curtir e gozar, com justiça social. Não vamos ter mais ladrão de celular e todo mundo vai andar nas ruas clicando e navegando nas redes sociais em qualquer lugar. É só ter cuidado com os postes, os carros e os passeios para não se esbagaçar ou trombar.

  O analfabetismo vai se acabar. Vamos ter escolas por todo canto do território brasileiro, creches para os pobres, hospitais em cada povoado, distrito e bairro das cidades. Aliás, vamos ter médicos particulares para nos atender em casa.

O melhor de tudo é que o dinheiro vai sobrar no final do mês porque tudo vai baratear. Vai ser melhor que viver em Passárgada, de Manuel Bandeira. Quem quiser também pode escolher a “Sociedade Alternativa”, mais uma vez do nosso cancioneiro Raul.

   Não mais existirão dor, solidão, angústia, depressão e doenças. Vamos ser amigos do rei e teremos total liberdade de escolha, inclusive a mulher que quisermos, na cama que escolhermos. Votem, votem, minha gente, que tudo vai mudar!

  Vamos deixar de brigas, ódio, tapas e xingamentos! Afinal de contas, eles nos dão essas eleições para a gente sonhar. Isso já é uma dádiva. Vamos aproveitar o embalo da festa “democrática” antes que seja tarde demais!

   Não se avexem, não, que Nossa Senhora Aparecida vai continuar sendo nossa padroeira e cada um vai confessar sua fé, sem racismos, preconceitos, homofobia e misoginia!  Vai caber todo mundo e até vamos ser todos iguais!

UMA PROMISCUIDADE!

   Ainda bem que está findando essa promiscuidade eleitoral da qual o Brasil está refém e prossegue sem perspectivas de mudanças. Cada pleito, de dois em dois anos, é pior que o outro. O sistema de disputa é altamente desigual e desleal na partilha dos nossos torrados cinco bilhões de reais a 30 partidos (mais 23 em formação) e no horário tão baixo da propaganda na televisão e no rádio.

   É muito paradoxal quando de um lado o nosso povo se mostra ficar alheio à política, achando nojenta e repugnante, e a cegueira radical quando nas eleições os inocentes úteis se agarram ferozmente ao seu candidato, mesmo que ele seja um sujo, corrupto, mentiroso e incapaz. Nessa hora, não importa o bem do país.

  Da forma como está, a eleição é uma mistura indigesta de um caldeirão de bruxarias podres misturadas a insetos como ratos e baratas vindos de esgotos gosmentos insuportáveis. O resultado final é uma crosta lodacenta que cobre o Brasil e vai corroendo todo organismo brasileiro.

  Usar o termo promiscuidade é pouca coisa quando ouvimos sair dessas bocas o que há de pior no ser humano porque eles (a grande maioria dos candidatos) descem ao fundo do poço e rastejam como vermes da terra para se nutrir das nossas vísceras. Chegam ao mais raso nível do cinismo, do ser mau caráter prometendo fazer o impossível.

  Não existem palavras adequadas para qualificar a degradação em que chegamos, não se sabendo ao certo quem são os piores e os melhores. Os próprios eleitores, a grande maioria de ignorantes, analfabetos, rudes, incultos, fanáticos, fundamentalistas e totalmente desprovidos de sensatez, transitam na lua-cheia como bandos de vivos-mortos que são devorados pelos zumbis que saem de suas sepulturas de época em época.

   Há séculos, com suas artimanhas, com seu cangaceirismo esquartejador, decapitadores de cabeças humanas, com seus métodos mais cruéis de torturas mentais e físicas, os “coronéis”, os grandes poderosos, os chefes políticos e os salteadores das nossas dignidades foram aos poucos minando nossas forças e nos acorrentando ao tronco, ao ponto de não sentirmos mais o verdugo das chibatas no lombo.

Ao longo desse tempo e desse processo de liquidação, a começar pelo assassinato da educação, da cultura, do conhecimento e do saber, eles foram jogando salmoura e vinagre na carne fresca para curar as feridas dos escravizados, se bem que as cicatrizes permanecem para sempre.

   É o chamado lento e planejado processo de dominação das elites e das castas onde o agente ativo passa a ser totalmente passivo e subalterno como na Síndrome de Estocolmo. Não se pensa mais, desaparecendo por completo a atitude de indignação, e isso vai se passando de geração em geração.

  Eles, os donos do poder, deixam de ter inimigos porque nos tornamos inimigos de nós mesmos, principalmente nesse cenário tenebroso da polarização. Os pobres e os excluídos, as classes menosprezadas, não são mais inimigos do rei e brigam entre si como cães raivosos. É a autodestruição das próprias massas.

  As “ideologias” se tornam vampirescas, caninas e inquisitivas como nos tempos medievais. As heresias, o irracional e o ódio se encarnaram e grudam em ambas as partes. Todo corpo foi contaminado pelo vírus da cegueira.

   Nessa arena tirana, mentem os políticos porque suas mentiras se tornam “verdades”, mentem os eleitores que votam em seus carrascos, mentem as mídias quando dizem que os debates e programas servem para deixar o povo mais informado e mentem os tribunais eleitorais que fazem de conta que fiscalizam a promiscuidade do cabaré ou do puteiro.

VOCABULÁRIOS MATUTOS DO SERTÃO

  Em seu livro “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, estudioso de temas regionais, sacerdote com estudos eclesiásticos em São Paulo, Rio de Janeiro e Olinda, usa alguns vocabulários matutos, muitos dos quais do arcaísmo nordestino.

  Vejamos alguns deles:

Contecos – contos de reis

Truve (arcaísmo) – trouxe

Às Tuias, por às tulhas – aos montes

Extratado – perfumado

Falso do corpo – pederasta, passivo

Grelha, de escancho – cavalo magro, ordinário de monta

Madruceu – amadureceu

O-não-sei-que-diga – diabo

Percisão – por precisão, de precisar, necessitar, satisfazer o sexo

Bisaco – mochila de pano

Bogó – saco de couro com gargalho, amarrado numa corda

Liformizado – uniformizado, bem vestido

Cangalha abade – abarda é o pequeno colchão de capim sobre o qual se coloca a cangalha a fim de não ferir o lombo do animal.

Grugunzado – rumor confuso de vozes humanas.

Arripunar – repugnar

Disgramado – por desgramado, desgraçado

Mucumbo – designa o cóccix, ou matutagem

Mucumbu – pode ser também nádega, bunda

Furico ou furnico – ânus

Muléstia dos cachorros – expressão ofensiva, significando grande raiva ou ódio

Tripa gaiteira – ânus

Maliconia, Maniconia – melancolia

Canhim – Caim e também o diabo

Destiorado – enfraquecido, estragado

Pés-de-barro ou Pé-branco –  assim chamados os soldados (macacos) que, vindos da capital, não suportavam as andadas ásperas do sertão.

Ganhando o oco do mundo – correr em disparada com medo, assustado, perdido, deixando tudo para trás.

 Existem também os rituais de rezas próprias da região em ocasiões específicas, como no sepultamento de um defunto, chamadas de “Incelenças (excelências) e Benditos”.

 “Uma Incelença,/Ó Mãe amorosa,/ Seu filho vai morto/Da vida saudosa. E na reza do bendito:/Eu ofereço esta reza/ Ao Sinhô que tá na Cruz,/Que nos livre do malino/ Pra sempre. Amém, Jesus.

Ainda fazendo parte do ritual, ao descer o corpo na cova, e pondo as despedidas nos lábios do falecido:

  Adeus, meu irmão,/Amigos também,/ Eu vou pra eternidade,/Pra sempre, Amém.





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