“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
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AS VERSÕES DA IMPRENSA SOBRE O CANGAÇO SÃO DESENCONTRADAS
A literatura sobre o cangaço no Nordeste, principalmente na época de Lampião, é vasta e a grande maioria dos escritores usou com uma das principais fontes para suas pesquisas a imprensa da região, do Rio de Janeiro e São Paulo, só que muitas das informações são desencontradas e outras infundadas.
Lampião, inclusive, ficava injuriado e tinha acessos de raiva quando falavam coisas sobre ele que não condiziam com a realidade. Existia muito sensacionalismo nas notícias para vender mais jornais.
Poucos jornalistas chegaram a entrevistar Lampião, a não ser em 1926 quando o “rei do cangaço” esteve em Juazeiro do Norte (Ceará) para se integrar aos “Batalhões Patrióticos” contra a Coluna Prestes, iniciativa do deputado Floro Bartolomeu e o do padre Cícero Batista Romão, o “Padim Ciço”.
Em agosto ou setembro daquele ano lá estiveram repórteres do jornal “O Povo”, de Fortaleza e “Jornal do Comércio, de Pernambuco. Fora isso, quem depois esteve com Lampião foi o sírio-libanês Benjamin Abraão que fez um documentário sobre seu bando, em 1936, trabalho este proibido de ser divulgado por Getúlio Vargas e que se perdeu com o tempo.
Em geral, as notícias sobre a ação dos bandoleiros eram desencontradas e muitas infundadas porque se tratavam de versões dadas pelo povo, que se baseavam em boatos, sem levar em consideração que muitas reportagens eram feitas por telefone, através de depoimentos de oficiais das volantes, de prefeitos e governadores que contavam só um lado dos acontecimentos.
Como até meados do século XX o Nordeste era uma região de difícil acesso e violento por causa do banditismo, as empresas jornalísticas (a imprensa escrita) procuravam evitar o envio de seus jornalistas ao local dos embates, acompanhando as tropas de combate. Não era uma prática usual.
Os jornais de Fortaleza, de Recife, Os Diários Associados, A Noite, do Rio de Janeiro, o Estado da Bahia, o jornal A Tarde (Salvador) e pequenos periódicos do interior foram os que mais divulgaram fatos sobre o cangaço. Mesmo assim, as notícias chegavam atrasadas e não eram bem apuradas e checadas.
Quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram mortos pela tropa do tenente João Bezerra, em Angicos (Sergipe), as notícias procederam das agências Nacional e Meridional e da sucursal do Diário de São Paulo.
Entre as versões que não batem, alguns jornais, por exemplo, chegaram a colocar o cangaceiro Ângelo Roque, o Labareda, como morto em Angicos quando, na verdade, ele não se encontrava no local. Uns chegaram a dizer que mataram Maria Bonita ainda viva, o que não foi comprovado.
O Diário de São Paulo chegou a escrever que o pai de Lampião, o José Ferreira da Silva era um facínora e que foi morto em combate contra a força da polícia alagoana comandada por José Lucena Maranhão. O pai em vida demonstrou ser pacato, sempre fugindo das perseguições e foi fuzilado quando debulhava milho em sua casa.
Portanto, os jornais e testemunhas sempre foram e devem ser fontes importantes de pesquisas na elaboração de obras sobre o cangaço, mas não são totalmente confiáveis. Os dados precisam ser checados e complementados através de documentação da época.
A SECA NA ESPERA DAS CHUVAS
Até onde alcança as vistas no infinito do horizonte, só o cinzento da caatinga no semiárido baiano e pernambucano. É o cenário da seca e da terra estorricada na espera das chuvas de trovoadas que devem bater nesta época de final de ano.
Quando o vento bate forte, as águas caem do céu e molham o chão. O sertanejo tira o seu chapéu de couro e faz sua prece de agradecimento ao Criador Todo Poderoso. Sempre diz que é uma maravilha e já pensa logo em jogar a semente nas valas do solo para a reprodução.
Em algumas partes, mesmo entre as pedras em formatos humanos e de pássaros, resistem os mandacarus e o florido de algumas plantas para embelezar a paisagem como símbolos de esperança e fé que nunca se acabam entre os nordestinos.
Em oito dias cruzei terras baianas e pernambucanas atravessando o grande rio mar, Opará para os índios e São Francisco para os colonizadores, também carinhosamente chamado de “Velho Chico”. Nas margens das pistas, o bodada se alimenta das plantas nativas e, às vezes, dão susto aos motoristas quando atravessam em filas as estradas.
O mormaço do calor de 40 graus com as pesadas nuvens escurecidas, que deixa escorrer o suor pelo seu corpo, é prenúncio de chuvas em breve. Num só dedo de prosa agradável, o sertanejo diz sentir que seu organismo garante que a chuva está chegando.
Fico a matutar sobre a sabedoria popular que vem dos ancestrais, mais sábia que a acadêmica pesquisadora que erra em suas previsões, principalmente nos imprevistos atuais das mudanças climáticas, ou melhor do aquecimento global.
Pelo papo com o nordestino do agreste, sei que em pouco tempo essas imagens cinzentas logo estarão renovadas com o colorido exuberante do verde e o brotar das flores. A terá exala outro cheiro perfumado e as aves em revoada voltam a voar entre as árvores fazendo a festa da alegria. O calango e a lagartixa correm entre o úmido dos gavetos e cascas, colhendo os insetos. É época de fartura e barriga cheia para todos. A tristeza dá lugar à esperança, que nunca morre.
As secas são cruéis e têm a cara da morte, aquela encapuzada com a foice na mão para ceifar o sertanejo, as plantações e os rebanhos. Com os tanques, cacimbas e as aguadas vazias, o boi berra sedento de sede. É um berro de dor.
Pelas estradas de cascalhos empoeiradas corre o carro-pipa para acudir os necessitados e, por maldade e insensibilidade humana, alguns chefes políticos ainda dão ordens aos seus contratados para atender somente àqueles que nele votaram.
Quando as estiagens são prolongadas, sem outra saída, milhares de sertanejos maltrapilhos, como nas secas de 1877/79, 1915, 1932/35 e tantas outras fatídicas, partem em retirada para outras terras estranhas para nelas serem escravos de patrão.
Em “Triste Partida”, o poeta Patativa do Assaré e o músico cantor Luiz Gonzaga narram e cantam toda triste saga do sofrido nordestino fugindo do flagelo das sequidões. A imprensa e a mídia em geral sempre estampam suas manchetes de horror e miséria onde milhares tombam de fome.
O nordestino isolado, sem amparo dos governantes, diz misericórdia Senhor Deus com tanto sofrimento! Perdoai os nossos pecados pelo mal que tanto fizemos porque toda fauna e a flora chora! Chama os compadres e as comadres para rezar e fazer suas procissões, para que São Pedro mande água, ao invés do sal.
Tudo é beleza e contentamento quando as preces são atendidas. É a seca que se vai com as chuvas, mas, infelizmente, sempre vem outra para o homem do campo enfrentar com resignação. Das sementes brotam os frutos e as cidades também se beneficiam das colheitas. Esse ciclo está sempre se repetindo.
“QUER ARCO OU TARCO?”
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(Chico Ribeiro Neto)
“Quer arco, tarco ou quer qui mói?”
“Quer álcool, talco ou quer que molhe?”, pergunta o barbeiro depois de fazer a barba do cliente.
Vida de barbeiro é difícil, tem que ralar muito e ainda tem que ouvir piadas.
Antigamente – e ainda hoje em algumas cidades – se você quisesse saber da vida de alguém era só ir na barbearia, geralmente a única da cidade. Lá se sabia da vida de todo mundo.
O barbeiro só sorria e dava corda para ouvir mais fofocas e revelações.
Tem até barbearia onde se fala mal da vida dos outros por ordem alfabética, pra não deixar ninguém de fora.
E as mulheres nos salões de beleza também contam e ouvem muita fofoca.
Conta-se que havia uma barbearia num bairro de Salvador onde um sujeito ia todo dia, durante 20 anos, contar e ouvir casos. Quando a barbearia fechou, ele queria uma indenização “por tempo de serviço”.
Calendário de mulher nua era o que não faltava nas antigas barbearias. Pra contrabalançar, um crucifixo em alguma parede. Também não faltava.muita piada.
Tem aquele ditado machista: “Quem gosta de homem é barbeiro, que alisa, bota pó e bota cheiro”.
Lembro daquela piada: todo sábado de manhã, o sujeito ia à barbearia e perguntava ao barbeiro:
“Tem quantos clientes na minha frente?”
“Tem quatro”, respondia o barbeiro.
“Dá tempo”, dizia ele, que saía e não voltava mais.
O sujeito fez isso durante três sábados. No quarto sábado, o barbeiro deu 10 reais a um menino para seguir o sujeito. O menino foi atrás e ele foi parar na casa do barbeiro, cuja mulher o esperava.
Difícil é contar essa piada enquanto o barbeiro faz sua barba com a navalha.
Algumas piadas recolhidas na rede:
“Cortar o cabelo é simples: você mostra a foto, o barbeiro corta diferente e diz que ficou igual”.
“O barbeiro corta, o espelho engana e a gente finge que gostou”.
“Todo corte de cabelo tem três fases: susto, arrependimento e aceitação”.
Há também piadas sobre clientes difíceis:
“Quero o corte igual ao de sempre, mas diferente”.
“Não tira nada, só arruma”.
“Quanto tempo você vai demorar?”
E só essa pra terminar:
“Quanto é o corte?”
“Depende de como ficar. Se ficar bom, é 50. Se ficar ruim, é 30 e leva um boné de brinde”.
A CAPELINHA PORTUGUESA
Na entrada da vinícola Rio Sol, em meio às videiras e encravada no agreste seco do sertão nordestino pernambucano, no município de Lagoa Grande, a capelinha portuguesa nos faz lembrar a época da colonização na região quando o El Rei de Portugal dividiu o Nordeste em sesmarias e massacrou as tribos indígenas. Pela sua simplicidade e como símbolo da fé católica, sempre digo que sou mais as capelas que as catedrais. A cultura das capelas nas grandes fazendas, na Casa Grande dos Engenhos, em contraste com as senzalas dos escravos negros vindos da África, foi e ainda é uma tradição mantida pelos senhores, inclusive os coronéis. Nos tempos da colonização, era na capela onde as famílias se reuniam para professar sua fé, realizar os batizados e, vez ou outro, assistir a missão do capelão. Quando lá estive na semana passada, na fazenda Rio Sol, foi a primeira construção a me chamar a atenção e o primeiro flagrante registrado pelas minhas lentes. A capelinha portuguesa representa a nossa história secular que permanece até hoje, inclusive nos distritos e povoados, principalmente no Nordeste.
PARTIDOS
De autoria de Júlio Lucas, do seu novo livro “NOVAMENTE POESIA”
Uma partida parte nossa silhueta
Um fluído pálido escorre do nosso vazio
E banha a estrada que nos separa
Que não se para
Não se volta
Volto meus olhos
Para dentro da minha sólida
E estática solidão onde te tenho
E te mantenho
Onde a língua das horas
Não mais te saboreará
Na mão enrugada
Dos amanheceres
Nas mesmas mãos do adeus
Observo sua fotografia
Que não pode…
Que não vai amarelar…
ASSISTÊNCIA RELIGIOSA
A Câmara Municipal de Vitória da Conquista vai apreciar em sua sessão ordinária desta sexta-feira (dia 23/10), a partir das 9 horas, diversos projetos de lei do legislativo e do executivo, como a proposta que garante a assistência religiosa aos pacientes internados em hospitais públicos e privados.
Consta também da pauta o projeto que institui o Programa Municipal de Prevenção de Acidentes com Motociclistas, bem como a criação, no Calendário Oficial de Eventos do Município, da “Semana Municipal da Educação Financeira”.
Os vereadores vão ainda discutir em plenária a questão da Política Municipal de Proteção e Bem-Estar Animal, de modo a estabelecer princípios, objetivos, diretrizes e instrumentos para prevenção do abandono, controle populacional ético, guarda responsável e proteção dos animais domésticos.
Também irão analisar o projeto que declara patrimônio natural, material e imaterial do município de Conquista a árvore Íròkò/ Tempo (Kitembo) – Gameleira Branca, localizada às margens do Anel Rodoviário Jadiel Matos, no Bairro Jatobá, e dispõe sobre medidas de proteção e conservação natural e garantia de liberdade de culto.
Além de indicações e moções de aplausos, os parlamentares vão debater a proposta que institui a Política Municipal de Valorização da Mulher. Outros assuntos de interesse da comunidade estão na lista de discussão dos vereadores que vão ocupar a tribuna para seus pronunciamentos.
OS IMPREVISTOS DE VIAGENS
Difícil você encontrar uma pessoa que não goste de viajar, visitar lugares e outras culturas, se bem que conheço uns avarentos idiotas e imbecis que passam a vida correndo atrás do dinheiro e por ele brigando com familiares, como se nunca fossem morrer ou levar os bens no caixão! São criaturas vivas-mortas, almas penadas!
Não vale a pena perder tempo falando dessa gente. Sinto pena por não usarem nem 0,1% dos neurônios. Gostoso mesmo, meu camarada, é viajar, que seja a negócio ou outro compromisso. Só não vale se for por morte porque ai, lá se vai o prazer de curtir!
Quando se resolve pegar estrada, sempre se faz planos, mas aparecem os imprevistos e sem eles não se tem histórias, estórias ou causos para se contar. Viagem sem imprevistos não tem muita graça e cada um tem um acontecido ou vários para narrar aos amigos.
Por descuido ou desleixo da minha parte – os preconceituosos logo dizem que é a idade – fui almoçar com a família numa churrascaria por livre e espontânea pressão (não gosto de churrascaria) e na saída ocorreu um imprevisto desagradável.
Coloquei meu celular no bolso da bermuda e quando fui entrar no Uber (ainda prefiro um taxi) o aparelho escapuliu e foi ao chão. Sem ver, o motorista passou por cima e esmagou o falante fofoqueiro e boateiro.
Só fui perceber sua falta quando cheguei em casa (aliás na casa da minha ex) e aí a mente começou a arder. Entrei em contato imediatamente com meu filho que deu uma boa nova de ter encontrado um celular no chão de areia e ter deixado no restaurante.
Imediatamente fui à praça e pequei um moto taxista. Não podia perder tempo. Lá estava o “sujeito” das redes sociais, mas com o visor todo quebrado e sujo de terra. Sorte de um lado e contrariedade do outro. “Este não presta mais” – julguei.
O motoqueiro procurou me acalmar e foi logo indicando um tal de seu Neuton (lembrei do físico) que é “cobrar” para esse tipo de serviço. Não podia perder tempo e para lá me dirigir. Era tudo ou nada.
– É veizinho, esse aqui está difícil de ser recuperado, mas vou ver o que posso fazer – assim me atendeu o técnico, um senhor de meia idade, com uma risadinha insolente de sacarmos. “Passe aqui no final da tarde e vamos ver o que podemos fazer”.
Como estava desesperado e necessitado da sua ajuda, não poderia dizer umas “boas” para o nordestino abusado gozador da miséria dos outros. – Não tenho cara de sulista para ele me receber assim.
Pensei cá comigo: O cara nem me conhece e vem logo me chamando de “Veizinho”. Dei vontade de responder que tinha nome e “Veizinho” era o avô ou o pai dele.
– Fica quieto, Jeremias, você precisa do homem e vá lá que ele se reta e manda eu procurar outro lugar, ou até jogar o celular todo esbagaçado em minha cara. Raciocinei rápido e achei por bem engolir o “Veizinho”, e ainda rogar delicadamente pelo seu serviço, que caprichasse na obra.
Sai agoniado e pouco confiante, mas com raiva do seu Neuton. Deveria ter lhe respondido à altura. No momento só pensava na perda do aparelho e dos meus arquivos. Passei a tarde avexado contando os minutos para voltar à loja e saber do assucedido.
Cheguei triste e acabrunhado. O moço percebeu da minha angústia e me tripudiou com seu olhar. Para me deixar ainda mais apreensivo, apenas falou que estava vendo. Me deixou esperando por quase uma hora. Confesso que não estava mais aguentando aquela “tortura” psicológica.
– Esse cretino está me tirando do sério! Tem o prazer de ser sádico? Em minha cabeça passou um monte de coisas sobre o comportamento humano. Batia uns 40 graus e numa poltrona estava a me refrescar num ventilador.
Dizem que quando se está com problema lhe atormentando, o urubu debaixo caga no de cima. Naquilo chegou um gordo forte, de uns trinta ou quarenta anos (devia ser sócio ou parente dele) e, sem ao menos pedir licença, arrastou com os pés o ventilado e botou em sua frente, em outra cadeira.
Na vida, você encontra todo tipo de gente, do gentil e educado ao ignorante e bruto casca grossa como um cavalo. Aliás, retiro a comparação porque o cavalo é bem mais dócil. “Animal “fela da puta”! Nem me respeitou como idoso! ”
Finalmente, veio de lá o técnico e pelo menos fez um gesto de positivo e bondade: “Você deu sorte e seu celular está pronto para outra porrada. Voltou a funcionar, e o chips não foi atingido”.
O custo foi salgado, dei uma pechinchada e até que concedeu um desconto. Matutei comigo mesmo que o “bicho” não era tão ruim assim. Esqueci da forma como me tratou no início. Fui embora contente pelo feliz resultado.
No entanto, olhei para o gordo do ventilado e fiquei pensando em sua atitude de desrespeito, egoísmo e outras coisas mais, de nem, pelo menos, dividir um pouco do vento comigo, mesmo vendo aquele meu sofrimento. O ser humano é a pior espécie animal! O Criador deve ter se arrependido no que fez!
AS UVAS PROSPERAM ENTRE O AGRESTE CINZENTO DO NORDESTE
Em pleno sertão nordestino, entre os mandacarus, os berros dos bodes, as espinheiras e a paisagem cinzenta do agreste nordestino, eis que surge o contraste do verde das videiras que brotam seus frutos durante todo ano do sol escaldante de 40 graus.
Alguém até poderia dizer que é o milagre que jamais ninguém poderia falar que um dia iria acontecer, mas isso foi possível graças as águas do Rio São Francisco, o nosso cansado “Velho Chico”, ou “Opará”, e a tecnologia de manejo aplicada pelo homem.
Por aquelas bandas da Bahia, no município de Casa Nova, e Pernambuco, em Lagoa Grande, por onde um dia cruzou Lampião em seu bando, lá está o espetáculo das vinícolas produzindo safras e vinhos de qualidade para todo Brasil e alguns países do mundo.
Estive lá e testemunhei este cenário “milagroso”, degustando as uvas dos seus exuberantes cachos, os espumantes e o vinho, com destaque para a vinícola “Rio Sol”, um nome bem sugestivo quando homenageia o rio e o sol quente da caatinga nordestina.
São cerca de 80 quilômetros distante de Petrolina, na BR em direção a Recife, mas a fazenda de um investidor português, em Lagoa Grande, fica encostada a dois quilômetros do “Velho Chico” que irriga aquelas terras estorricadas.
A água coteja diariamente e dali faz nascer o contraste das videiras e das mangueiras com o chão pedregulhento do sertão nordestino, misturado com os bodes que atravessam a pista.
Infelizmente, ainda pela secular injustiça social, ali convivem a riqueza e a pobreza de muitos que pouco têm e poucos vivendo em prosperidade. Os canais das águas do nosso São Francisco, genuinamente nacional, não chegam para todos, mesmo com a propalada transposição.
Tanto as vinícolas da Casa Nova, da Miolo, na Bahia, como a Rio Sol português, produzem a grande maioria das variedades europeias, como o Cabernet Sauvignon, (Adega do Vale), o Syrah, o Merlot, o Malbec, tanto o vinho fino seco como o suave de mesa.
De acordo com informações de uma especialista representante da empresa Rio Sol, 95% de toda produção são comercializados aqui mesmo no Brasil, sendo que a maior parte é consumida no Nordeste. Os vinhos são armazenados por cerca de cinco anos em barris de carvalho.
Praticamente durante todos os dias da semana (mais entre sábados e domingos), as vinícolas recebem visitantes turistas da região nordestina e de outros estados, como São Paulo e Rio de Janeiro, que ficam encantados com as videiras e a estrutura das fazendas.
JUAZEIRO ESTÁ PEGANDO FOGO
A BENÇÃO MEU “VELHO CHICO”!
Para quem sai de Vitória da Conquista com pouco mais de 30 graus e entra em Juazeiro “pegando fogo” de 40 graus e até com sensação de mais que isso, escorre pelo corpo o suor do tipo cuscuzeiro numa caatinga estorricada que só de verde o mandacaru.
Pelas estradas cruzam os bodes catando bagaços e o agreste me faz lembrar dos nordestinos retirantes e dos cangaceiros fugindo das volantes ou combatendo contra os “macacos” como os chamava Lampião. Em Pernambuco passei por Lagoa Grande onde ele cometeu muitos crimes e saqueou o povoado, hoje cidade, cujo município é grande produtor de vinho, graças ao Rio São Francisco.
Como sempre faço quando venho para essas bandas, onde nessas terras cortou o “rei do cangaço” e seus bandoleiros, costumo ir ao leito do nosso majestoso São Francisco, ou o “Velho Chico”, para os índios, Opará, e pedir sua benção, nele mergulhar e tomar muita água, senão o corpo desvanece.
Quando aqui chego, a primeira coisa que me vem à cabeça é escrever algumas linhas sobre ele como forma de lhe prestar homenagens e pedir perdão pela forma como o homem o depreda e deixa suas margens desmatadas e asseroadas.
Dele tudo se retira, como a transposição das suas águas que não chegam aos pobres catingueiros que ainda dependem dos tanques e das cisternas, e pouco se repõe. Até hoje, quem mais se beneficiam do “Velho Chico” são as empresas de fruticulturas e as vinícolas que até recebem financiamentos dos governos estadual e federal.
Tudo isso me faz lembrar da grande estiagem, há cerca de 20 anos, que fez aparecer os bancos de areias e desaparecer as pequenas ilhas, tornando o Opará inavegável. Foi início dos anos 2000 que fez um frei de Barreiras decretar greve de fome contra a transposição das suas águas. Tempos terríveis e muitos chegaram a falar no desaparecimento do rio.
O mais contraditório e aberrante é que ensinam nas escolas que o Opará, batizado por Rio São Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, foi “descoberto” em 4 de outubro de 1501 pelos navegadores Américo Vespúcio e André Gonçalves, só que ele é milenar e já existia e navegava cheio de farturas muitos séculos atrás.
O São Francisco tem suas lendas e histórias, com suas carrancas, o nego d´água, a Iara ou Mãe D´Água que dorme dois ou três minutos na meia noite e depois vai pentear seus cabelos nas canoas dos barqueiros; tem as rezadeiras, os curandeiros e seus ribeirinhos que dele tiravam seu sustento do dia a dia. Hoje está escasso e até o surubim é difícil de ser encontrado.
Em seu leito abriram grandes barragens, como a do Sobradinho, impedindo a navegação em diversas partes. Por ele atravessaram valentes, volantes e retirantes nordestinos fugindo das secas que dizimaram milhares de sertanejos. Foi testemunho de acontecimentos importantes no cenário nacional.
Com a expansão do plantio da cana-de-açúcar no litoral do Nordeste, os gados começaram a ocupar as margens do “Velho Chico” e ele também passou a ser chamado de rio dos Currais.
O São Francisco atravessa cinco estados, Minas Gerais (nasce na Serra da Canastra), Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe onde suas águas se encontram com o mar, percorrendo 2.863 quilômetros. É considerado o rio totalmente brasileiro.
Por isso e muito mais, o “Velho Chico”, como assim é apelidado carinhosamente, merece a minha benção e a ele eu faço sempre as minhas preces num demorado bate-papo só nosso. Conto os meus segredos e, como velho ancestral, rogo pelas suas orientações para meu retorno de outras tantas vezes. A benção meu “Velho Chico”! Até a próxima!































