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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

SAUDADEPONTODOC

  • Chico Ribeiro Neto)

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/12/1996)

A Redação de A Tarde está informatizada. As últimas editorias estão deixando as máquinas de escrever e assumindo os computadores. Está todo mundo deletando e “pontodocando”.

A informatização exigiu uma semana de treinamento para repórteres e editores. A técnica é facilmente assimilada – o teclado é, no fundo, uma máquina de escrever adaptada -, mas a cara dos colegas no primeiro dia era muito engraçada. Todos queriam fazer uma gracinha, mas a cara estava tremendo. Somente coisa de primeiro dia, pois no segundo todos já estavam metidos a bamba.

Difícil acreditar que o papel está acabando. Gostoso mesmo era arrancar a lauda da máquina quando a gente escrevia a última linha da matéria. Quando comecei em jornal fui fazer isso a primeira vez e a lauda rasgou ao meio. Demorei um pouco pra entrar em forma e fazer aquele zap pra lauda sair inteira.

Dizem que tinha um redator, em Porto Alegre, que, quando informatizaram o jornal, só sentava no computador com um pacote de laudas ao lado. Quando errava na tela, amassava uma lauda e jogava na cesta.

O que será das máquinas de escrever da Redação? Alfredo Castro me fez a pergunta que eu não soube responder, mas que elas levam muitas histórias, levam. Algumas já estavam até cansadas de tanta notícia. De manhã, cuidavam de escrever sobre cultura, de tarde notícias da cidade e de noite reportagens policiais.

Outras máquinas pareciam cochilar  junto com a gente, nos intermináveis plantões da Guerra do Golfo, da agonia de Tancredo Neves e do sequestro feito por Leonardo Pareja.

As velhas máquinas podem ir parar, talvez, num escritório de contabilidade da Avenida Sete e, quem sabe, uma delas não sirva para que o contínuo bata sua primeira carta de amor datilografada?

Cada um marcava sua máquina de escrever preferida. Antônio José, por exemplo, tinha uma Olivetti azul que ai de quem estivesse com ela às 18 horas, quando ele chegava.

Outros arranhavam o nome na máquina, colavam durex, escondiam, faziam o diabo para ter a preferida ao lado.

Hoje, na Redação informatizada, o computador é de todo mundo. Bateu a senha, entrou e ele ainda lhe dá bom-dia. Democrático, esse rapaz.

E o barulho? O tic-tac das máquinas acabou e na Redação informatizada não  precisa mais falar alto, mania de todo jornalista. O silêncio é tão grande que não se pode mais nem contar segredo – afinal,  já existe o correio eletrônico.

A notícia continua nos acompanhando, mas a gente tem o direito de sentir saudade.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

VISITA AO ESPAÇO CULTURAL

 Nesta sexta-feira (dia 02/10/26), a partir das 9 horas, o Espaço Cultural A Estrada estará recebendo alunos do “Projeto Sextou”, do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia-UFBA, campus de Vitória da Conquista, para conhecer o seu acervo e bater um papo cultural. Com mais de 20 anos de existência, o acervo conta com cerca de sete mil itens entre livros (mais de dois mil), revistas, arquivos de jornais, vinis (mais de dois mil), peças artesanais, quadros fotográficos referentes ao sertão nordestino, chapéus (mais de 200), CDS, DVDS, equipamentos analógicos em geral, entre outros itens de valor simbólico inestimável. Os jovens estudantes da área da saúde serão recebidos pelo coordenador do Espaço Cultural, jornalista e escritor Jeremias Macário que, na ocasião, falará um pouco sobre a construção e a vida deste ponto cultural conquistense onde também é realizado há 16 anos o “Sarau A Estrada, com a participação de intelectuais, artistas, professores, estudantes e pessoas interessadas perla cultura e pela arte. Não é a primeira vez que o Espaço Cultural A Estrada recebe a visita de estudantes e de outros grupos desejos em conhecer sua estrutura. Atualmente o Espaço fica situado na Avenida Sérgio Vieira de Melo, no loteamento Sobradinho.

NAS CILADAS DA LUA CHEIA

Letra de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, gravada pelo músico e compositor Papalo Monteiro. O poema é adaptado aos tempos atuais e é uma crítica política.

Os lobos ficam moucos na lua cheia,

Do Planalto prateado do céu tropical,

Onde os bandos fazem sua farta ceia,

Vinda do arado suado braço serviçal.

 

As hienas viram renas na lua cheia,

Para a engorda gulosa do grande dia,

Enchendo seus trenós em cada aldeia,

Para mais quatro anos de mordomia.

 

Os ratos armam ciladas na lua cheia;

Os malignos vendem gato por lebre;

A mente pobre segue o canto da sereia,

E quem sempre paga o pato é a plebe.

 

Depois desta festa da lua cheia,

A chama da fé começa a minguar;

Até o fio da esperança vai-se embora;

Chora o velho, a senhora e a criança,

Na falta da justiça, do remédio e do pão,

E do direito do viver e sonhar,

De nunca mais ser boiada de patrão.

 

No aboio, ou no rasgo da guitarra:

“Vamo s´imbora”, gente forte e valente;

Não mais na espera do Deus dará!

Vamos acabar de vez com essa farra

Dessa corja bicharada do nosso lar,

Sem mais raposas uivando em nosso luar.

 

NO OLHAR DO PASSADO

  Fico aqui em meu canto olhando cabreiro essas campanhas eleitorais, como um matuto sertanejo desconfiado e calejado de tanto apanhar na vida, e tudo me faz voltar ao passado histórico de um Brasil arcaico e que ainda continua atrasado, num rumo incerto.

Para alguns, não adianta muito olhar para trás senão o sujeito vira uma pedra de sal, se temos que nos agarrar à sobrevivência do dia a dia, à luta renhida para garantir o pão da vida nesse bruto sistema! “Cada um por si e Deus por todos nós”.

Revisito também minha vida desde aqueles tempos de menino na árdua labuta da roça, as primeiras letras do bê-á-bá, com cenas marcantes que se fixaram para sempre em meu subconsciente, como o desespero de encontrar aqueles trocados tostões perdidos no areal calorento dos tropeiros mercantes.

  Eram uns simples trocados de umas pequenas compras na venda do vizinho (farinha, sal, feijão e açúcar), mas que faziam grande falta, como ainda até hoje. Traquinagens de crianças que meu pai punia no cinto do couro cru. Hoje os pais não ralham mais com os filhos porque não têm mais tempo para isso e se entretêm com o celular ou com seu cachorro de estimação como se fosse do seu mesmo sangue.

 Épocas duras, carrancudas e difíceis e que não mudaram muito, meu camarada! De tantas amarrotadas pelo sol escaldante deste sertão profundo, apenas foram repintadas com outras cores das ilusões. Acreditamos que elas vão nos dar sustança e recarregar nossas esperanças e energias combalidas.

  Nascemos com o medo e ele está sempre nos acompanhando. Temos medo do que será, do que virá nesse futuro próximo duvidoso de tanta ebulição na humanidade desumanizada, das catástrofes do aquecimento global e das eleições, que até esquecemos do carrasco da morte batendo de supetão em nossas portas.

  Ainda ouço gritos estridentes de seus mandatários colonizadores do poder, tanto de um lado como do outro, dando ordens aos seus escravos e súditos, como donos das extensas sesmarias, ainda apinhadas de índios que foram barbaramente massacrados.

Veio o Senhor Império do monarca absoluto com sua nobreza de elites, seguindo o mesmo rojão no tocar da tropa estropiada de tanta carga pesada sobre o lombo. As masmorras e os troncos para aqueles que contestavam suas arbitrariedades.

  Depois nasceu um novo raiar do dia avermelhado cheio de tons no dorso de um cavalo malhado para anunciar a chegada deslumbrante de uma Senhora sorridente chamada de República, prometendo aliviar os gemidos dos doentes das injustiças e até curar as feridas abertas na fraca carne dos esquecidos e abandonados pelos tiranos.

  Após um olhar mais capcioso e atento, vimos que na garupa do belo animal de raça desta Senhora da esperança lá estava uma outra dama presunçosa de nome oligarquia trazendo consigo o ferro de ferrar o gado que apenas havia mudado de pasto, mas os patrões eram os mesmos.

   Os proprietários dessa burguesia só mudaram seus métodos, de acordo com o tempo. Eram ainda mais astutos, brutais, sagazes, luxuriosos, gulosos, avarentos e com mais ganância, apetite e ambição, do tipo do querer mais e mais para empanturrar suas panças gordas cheias de tripas grossas.

Mais mentes malignas e mais ingredientes em seus intestinos de  merdas para cagar em nossos pedaços mirrados de chão ou nossos quintais maltratados onde até o orvalho do amanhecer foi ficando cada vez mais seco e escasso. Cadê as flores do nosso jardim? O que fizeram delas? Arrancaram até os nossos sonhos e jogaram no monturo.

   Como consequência, o ambiente ficou fedorento, de odor insuportável, mas fomos nos acostumando ao ponto de não sentirmos mais nada, nem raiva, nem indignação e dor de cabeça. O próprio organismo foi se adaptando ao ambiente dos esgotos a céu aberto. Nos criamos sendo produtos do próprio meio.

Nos intervalos desses Senhores e dessa Senhora, com suas botas de chumbo nos esmagaram com suas opressões, ditaduras, torturas e mortes. Rasparam praticamente nossos pratos da liberdade; nos deixaram famélicos; e roubaram nossos maiores bens que foram a educação, a cultura, o conhecimento e o saber.

  Oh quanta melancolia! Ainda vivemos e nos alimentamos do sabugo do milho, raspando os últimos farelos do tacho. Dos seus banquetes, sentada na cabeceira da mesa, ainda está lá aquela Senhora, outrora elegante que há muitos anos apareceu em seu cavalo galopante.

   Hoje, esta dita Senhora se encontra obesa, troncha, manca, feiosa, toda enrugada, ranzinza e malvada, prostrada em sua surrada poltrona, confabulando e tramando entre seus pares Senhores como usurpar nossas riquezas e surrupiar o pouco que temos. Ela nos afiançou que era coisa pública, mas sempre foi privada de um grupo que detém a maioria.

Como ato de sarcasmo e sadismo, cada um comendo como bárbaros, eles jogam as migalhas para a plebe como forma de diversão e apreciam em gargalhadas a disputa acirrada pelos restos ou sobras, na maioria ossos e cartilagens.

   Oh eleição, filhota bastarda daquela Senhora, de olhar vesgo e traiçoeiro, que nos faz voltar ao passado, refletir o presente e buscar o futuro perdido no horizonte! Todas as vezes que aparece em sua janela, nos faz acreditar nas mudanças e em dias melhores para os desamparados e desvalidos.

SOBRE AS ELEIÇÕES DESTE ANO – O PAPEL DA ESQUERDA

Ferdinand Martins da Silva[1]

Resolvi escrever este pequeno texto, ao invés de fazer um vídeo, pois acho importante a reflexão que aqui trago. De plano, já vou adiantando que concordo com a maioria daqueles que afirma que esta eleição é a mais importante dos últimos anos no país. Os ataques da extrema direita, em todos os níveis e espaços, têm sido brutais e rasteiros. A influência estrangeira, notadamente dos Estados Unidos, é perceptível e nefasta, pois sabemos como o império age, mais ainda, quando a crise bate à sua porta.

Neste momento crucial da nossa história, não podemos ficar imobilizados. É preciso que atuemos já! Imediatamente! É quase unanimidade, entre boa parte dos mais versados em tecnologia digital, de que a extrema direita se utiliza das redes sociais de uma maneira mais hábil e efetiva do que a esquerda, seja a moderada ou a radical.  Creio que essa forma de atuar da extrema direita está ligada ao fato de que ela sempre se escondeu atrás dos seus feitos; as ruas nunca foram o palco das suas manifestações e, o surgimento das redes sociais veio a calhar na forma de atuação destes seres ignóbeis.

Obviamente, que o campo da esquerda não pode desprezar a existência e o efeito das redes sociais no mundo contemporâneo, inundado cada vez mais, das chamadas ferramentas digitais. Nesse sentido, cabe a nós, militantes da esquerda, nos apoderarmos o máximo possível desses instrumentos, usá-los de forma proativa, visando educar as massas e desmascarando, de forma veemente a ultradireita.

As estatísticas mostram que no Brasil existem mais aparelhos celulares (linhas) do que a população! Esses aparelhos estão nas mãos de pessoas acima de 10 anos e espalhados pelas zonas urbanas e rurais das cidades brasileiras. O celular se tornou o principal veículo de obtenção de informações, deixando para trás a grande vedete da mídia mundial (a televisão).

Como a maior parte da população, então, está de posse desse artefato, vamos utilizá-lo para o nosso proveito: pegar os “santinhos” digitais dos nossos candidatos e enviá-los para um cada um dos nossos contatos e grupos. Isso é algo que podemos fazer de forma tranquila e responsável! Deixemos para a extrema direita a divulgação de fake news, que só é isso que eles sabem fazer!!! Até a Vitória!

[1] Professor do Departamento de Ciências Exatas da UESB. Campus Vitória da Conquista. Presidente do Diretório Municipal do PSOL.

VAI SER TUDO BELEZA

   A partir de primeiro de janeiro de 2027 vai ser tudo beleza no Brasil que vai se tornar num paraíso social, como na Finlândia, na Noruega, Dinamarca, Suécia e outros países nórdicos. Em Vitória da Conquista, por exemplo, na Bahia, já somos uma “Suíça Baiana”.

   Vou começar desde já a “controlar minha maluques com a minha lucidez”, como dizia o maluco beleza Raul Seixas. Com tantas promessas nas campanhas eleitorais, tudo vai ficar, com certeza, uma beleza e só vai reinar a paz, o amor e a prosperidade.

   Se você não acredita nisso, deveria porque não mais existirá lugar para pessimistas e lamentos. Eu mesmo estou sentindo esse prenúncio de forte energia no ar quando vejo as imagens das pessoas nas campanhas, dando sinal de positivo, sem falar nos rostos alegres e felizes.

 Não vou ficar de fora dessa onda para não ser espírito de porco e não melar essa oportunidade única da vida, logo eu que já estou com a idade avançada e nem sei quanto tempo vou durar.

  Pelo menos não vou mais morrer como endividado, o que já é uma grande graça e conquista. Até esses dias achava que nunca mais iria conseguir esse feito inédito. Vamos ter saúde, educação e cultura para dar e vender! Vai ser o maior barato!

Aleluia, aleluia, meus irmãos em Cristo! Agora é só rezar para alcançar janeiro. Só faltam, três meses e seria muito azar não estar vivo para celebrar essa ascensão. Pelo menos não vou falecer na fila da regulação da saúde! Isso já me serve de consolo.

   Vamos ter muitos benefícios para curtir e gozar, com justiça social. Não vamos ter mais ladrão de celular e todo mundo vai andar nas ruas clicando e navegando nas redes sociais em qualquer lugar. É só ter cuidado com os postes, os carros e os passeios para não se esbagaçar ou trombar.

  O analfabetismo vai se acabar. Vamos ter escolas por todo canto do território brasileiro, creches para os pobres, hospitais em cada povoado, distrito e bairro das cidades. Aliás, vamos ter médicos particulares para nos atender em casa.

O melhor de tudo é que o dinheiro vai sobrar no final do mês porque tudo vai baratear. Vai ser melhor que viver em Passárgada, de Manuel Bandeira. Quem quiser também pode escolher a “Sociedade Alternativa”, mais uma vez do nosso cancioneiro Raul.

   Não mais existirão dor, solidão, angústia, depressão e doenças. Vamos ser amigos do rei e teremos total liberdade de escolha, inclusive a mulher que quisermos, na cama que escolhermos. Votem, votem, minha gente, que tudo vai mudar!

  Vamos deixar de brigas, ódio, tapas e xingamentos! Afinal de contas, eles nos dão essas eleições para a gente sonhar. Isso já é uma dádiva. Vamos aproveitar o embalo da festa “democrática” antes que seja tarde demais!

   Não se avexem, não, que Nossa Senhora Aparecida vai continuar sendo nossa padroeira e cada um vai confessar sua fé, sem racismos, preconceitos, homofobia e misoginia!  Vai caber todo mundo e até vamos ser todos iguais!

UMA PROMISCUIDADE!

   Ainda bem que está findando essa promiscuidade eleitoral da qual o Brasil está refém e prossegue sem perspectivas de mudanças. Cada pleito, de dois em dois anos, é pior que o outro. O sistema de disputa é altamente desigual e desleal na partilha dos nossos torrados cinco bilhões de reais a 30 partidos (mais 23 em formação) e no horário tão baixo da propaganda na televisão e no rádio.

   É muito paradoxal quando de um lado o nosso povo se mostra ficar alheio à política, achando nojenta e repugnante, e a cegueira radical quando nas eleições os inocentes úteis se agarram ferozmente ao seu candidato, mesmo que ele seja um sujo, corrupto, mentiroso e incapaz. Nessa hora, não importa o bem do país.

  Da forma como está, a eleição é uma mistura indigesta de um caldeirão de bruxarias podres misturadas a insetos como ratos e baratas vindos de esgotos gosmentos insuportáveis. O resultado final é uma crosta lodacenta que cobre o Brasil e vai corroendo todo organismo brasileiro.

  Usar o termo promiscuidade é pouca coisa quando ouvimos sair dessas bocas o que há de pior no ser humano porque eles (a grande maioria dos candidatos) descem ao fundo do poço e rastejam como vermes da terra para se nutrir das nossas vísceras. Chegam ao mais raso nível do cinismo, do ser mau caráter prometendo fazer o impossível.

  Não existem palavras adequadas para qualificar a degradação em que chegamos, não se sabendo ao certo quem são os piores e os melhores. Os próprios eleitores, a grande maioria de ignorantes, analfabetos, rudes, incultos, fanáticos, fundamentalistas e totalmente desprovidos de sensatez, transitam na lua-cheia como bandos de vivos-mortos que são devorados pelos zumbis que saem de suas sepulturas de época em época.

   Há séculos, com suas artimanhas, com seu cangaceirismo esquartejador, decapitadores de cabeças humanas, com seus métodos mais cruéis de torturas mentais e físicas, os “coronéis”, os grandes poderosos, os chefes políticos e os salteadores das nossas dignidades foram aos poucos minando nossas forças e nos acorrentando ao tronco, ao ponto de não sentirmos mais o verdugo das chibatas no lombo.

Ao longo desse tempo e desse processo de liquidação, a começar pelo assassinato da educação, da cultura, do conhecimento e do saber, eles foram jogando salmoura e vinagre na carne fresca para curar as feridas dos escravizados, se bem que as cicatrizes permanecem para sempre.

   É o chamado lento e planejado processo de dominação das elites e das castas onde o agente ativo passa a ser totalmente passivo e subalterno como na Síndrome de Estocolmo. Não se pensa mais, desaparecendo por completo a atitude de indignação, e isso vai se passando de geração em geração.

  Eles, os donos do poder, deixam de ter inimigos porque nos tornamos inimigos de nós mesmos, principalmente nesse cenário tenebroso da polarização. Os pobres e os excluídos, as classes menosprezadas, não são mais inimigos do rei e brigam entre si como cães raivosos. É a autodestruição das próprias massas.

  As “ideologias” se tornam vampirescas, caninas e inquisitivas como nos tempos medievais. As heresias, o irracional e o ódio se encarnaram e grudam em ambas as partes. Todo corpo foi contaminado pelo vírus da cegueira.

   Nessa arena tirana, mentem os políticos porque suas mentiras se tornam “verdades”, mentem os eleitores que votam em seus carrascos, mentem as mídias quando dizem que os debates e programas servem para deixar o povo mais informado e mentem os tribunais eleitorais que fazem de conta que fiscalizam a promiscuidade do cabaré ou do puteiro.

VOCABULÁRIOS MATUTOS DO SERTÃO

  Em seu livro “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, estudioso de temas regionais, sacerdote com estudos eclesiásticos em São Paulo, Rio de Janeiro e Olinda, usa alguns vocabulários matutos, muitos dos quais do arcaísmo nordestino.

  Vejamos alguns deles:

Contecos – contos de reis

Truve (arcaísmo) – trouxe

Às Tuias, por às tulhas – aos montes

Extratado – perfumado

Falso do corpo – pederasta, passivo

Grelha, de escancho – cavalo magro, ordinário de monta

Madruceu – amadureceu

O-não-sei-que-diga – diabo

Percisão – por precisão, de precisar, necessitar, satisfazer o sexo

Bisaco – mochila de pano

Bogó – saco de couro com gargalho, amarrado numa corda

Liformizado – uniformizado, bem vestido

Cangalha abade – abarda é o pequeno colchão de capim sobre o qual se coloca a cangalha a fim de não ferir o lombo do animal.

Grugunzado – rumor confuso de vozes humanas.

Arripunar – repugnar

Disgramado – por desgramado, desgraçado

Mucumbo – designa o cóccix, ou matutagem

Mucumbu – pode ser também nádega, bunda

Furico ou furnico – ânus

Muléstia dos cachorros – expressão ofensiva, significando grande raiva ou ódio

Tripa gaiteira – ânus

Maliconia, Maniconia – melancolia

Canhim – Caim e também o diabo

Destiorado – enfraquecido, estragado

Pés-de-barro ou Pé-branco –  assim chamados os soldados (macacos) que, vindos da capital, não suportavam as andadas ásperas do sertão.

Ganhando o oco do mundo – correr em disparada com medo, assustado, perdido, deixando tudo para trás.

 Existem também os rituais de rezas próprias da região em ocasiões específicas, como no sepultamento de um defunto, chamadas de “Incelenças (excelências) e Benditos”.

 “Uma Incelença,/Ó Mãe amorosa,/ Seu filho vai morto/Da vida saudosa. E na reza do bendito:/Eu ofereço esta reza/ Ao Sinhô que tá na Cruz,/Que nos livre do malino/ Pra sempre. Amém, Jesus.

Ainda fazendo parte do ritual, ao descer o corpo na cova, e pondo as despedidas nos lábios do falecido:

  Adeus, meu irmão,/Amigos também,/ Eu vou pra eternidade,/Pra sempre, Amém.

AS SECAS SECULARES NORDESTINAS

Historiadores, antropólogos, sociológicos, pesquisadores, geólogos, jornalistas e escritores em geral se debruçaram sobre os efeitos das secas seculares nordestinas, muitas das quais ficaram na memória como “massacres de guerras” diante dos milhares de mortes em consequência da cruel fome.

  O solo entorroado da caatinga jugulado pela estiagem deixa na imensidão uma paisagem cinzenta de garranchos estorricados onde a fauna e a flora passam uma imagem de deserto, pontuado por algumas plantas e árvores resistentes, como cactos, mandacarus, umbuzeiros e juazeiros.

  Em muitas partes predominam os pedregulhos e em outras a terra desertificada e salinizada pelo tempo. Aqui mesmo na Bahia temos o Raso da Catarina, em Paulo Afonso, uma grande área inóspita de moitas espinhentas e areões infestados de cascavéis que somente os cangaceiros se atreveram a penetrar como local de esconderijos.

   Os mais fortes ainda conseguiam prolongar suas vidas se servindo de raízes de umbuzeiros, da água dos cactos, do cipó seco de mucunã e outros meios que somente os nordestinos do sertão profundo tinham o conhecimento dessa natureza. Aprenderam com os índios dizimados pelos colonizadores a partir dos séculos XVI e XVII.

   A história dá conta das secas mais mortíferas desde a invasão dos portugueses em solo brasileiro, como as de 1559, 1592, 1690/92, 1774/76, 1790/93, 1802/04, 1825/26, 1877/79/80 (a mais inclemente ao ponto do imperador propor oferecer suas joias), 1902/04, 1915, relatada por Raquel de Queiroz em “O Quinze|” onde fala do período dos “currais humanos” ou campos de concentração, no Ceará (iguais a de 1877/80), bem como por Rodolfo Teófilo no livro documental “A Seca de 1915”, as de 1930/32 e dez anos depois, em 1942.

   O alagoano e escritor, considerado regionalista, Graciliano Ramos foi o que mais penetrou nesta questão com profundidade e linguagem realística socialista através das suas obras, com destaque para “Vidas Secas” e “São Bernardo”. Ele mostrou por dentro e de forma objetiva toda dureza das secas.

Séculos e séculos se passaram e elas permanecem como flagelos dos nordestinos, embora menos sofridas em relação àqueles tempos porque depois de muito clamor e mortandades de retirantes maltrapilhos tombados nas estradas, os governantes resolveram construir alguns açudes, aguadas e tanques, até utilizando trabalhos forçados. As cisternas também entraram em ação, mas a “indústria da seca” ainda serve como instrumento de voto.

   Mais recentemente resolveram transportar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, cansado de “guerras” para alguns estados através da abertura de canais que não chegam a atender às populações de todos os rincões nordestinos porque ainda ficam restritos aos poderosos plantadores de frutas exportáveis.

   Depois de 500 anos de sofrimento, em pleno século XXI, ainda se cruza com carros-pipas pelas estradas poeirentas, com cargas de carotes de jumentos (quase extintos pelas matanças dos frigoríficos), mulheres com latas d´água na cabeça e as lágrimas nos olhos pela perda das plantações e dos animais de criação.

  Como repórter profissional em coberturas jornalísticas entre os anos 70 e início dos anos 2000, fui testemunho de muitas cenas chocantes de sertanejos castigados pelas secas que deixaram rastros de miséria, fome, separação de famílias, gente se alimentando de raízes tóxicas e as tais “viúvas das secas”, de crianças desnutridas em seus colos porque seus maridos partiram para o Sul (São Paulo, Rio, Paraná) e não mais voltaram e nem deram notícias.

 Quando ainda menino em meu torrão sertanejo, fui vítima delas e nos valíamos do coco do Ouricuri e até do maracujá brabo caipira.  Com o aquecimento global, ou mudanças climáticas, como queiram, numa temperatura que só aumenta onde o sol faísca suas escamas prateadas, as secas nordestinas estão aí mostrando suas garras e caras cavernosas de foice na mão.

  No momento atual, todo sertão já está sofrendo, como o município de Vitória da Conquista (sua maior parte está no semiárido) e região (Anagé, Aracatu, Caetanos, Tanhaçu, Belo Campo, Tremedal, Piripá e outros), com pedidos de emergência pelos prefeitos. O cenário pouco muda, mesmo com mais recursos públicos.

Em trânsito semana passada, entre o distrito de Inhobim até Encruzilhada, pude observar a sequidão que sempre serviu de manchetes de jornais e matéria-prima para jornalistas, escritores, cronistas, estudiosos, poetas e cordelistas.

As secas vão sempre fazer parte da vida dos nordestinos, um povo com muitas histórias para contar, de religiosidades, esperanças, fé, messianismo, lutas, cangaço e rico em suas culturas populares. Possui ainda seu bioma chamado caatinga, sem igual no mundo.

O PULÔVER CHEIRAVA A NAFTALINA

(Chico Ribeiro Neto)
As tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina não impedia a reunião da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. “Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas são um caso sério”.
Chove na rua da minha infância e toda essa água descendo a Ladeira dos Aflitos vai parar na velha “Praia de Doutor Barros”, vizinha à Praia da Preguiça.
De manhã, saía o sol e o brilho dos paralelepípedos lavados doía um pouco nos olhos. Empurrados para a beira da boca-de-lobo, montinhos que tinham de um tudo: folha, barbante, caixinha de chiclete e pedaços de bola de gude.
A pequena enxurrada junto ao meio-fio me traz barquinhos e lembranças.
Pulôver. Só de pronunciar essa palavra já me sentia um pouco mais aquecido. Tinha que usá-lo por cima de alguma blusa  senão espinhava muito.
Era hora de pegar alguma revista, pois lá fora está chovendo muito. Mas era só passar um pouquinho que lá ia todo mundo correndo pro murinho do Edifício Tuiuti  justamente na esquina com a Ladeira dos Aflitos, pois dava pra se ver tudo: as meninas que saíam de lambreta e as que não saíam, apenas rodavam as saias e jogavam sorrisos pra cá.
Encontro “Gel Beleza” no Shopping Iguatemi, e os chopes vão puxando mais lembranças. Temos conversa pra noite toda, pois da infância quanto mais lembrança se tira, mais se tem. Desfiá-las é um prazer insubstituível.
Se a chuva passa mais, a gente pode jogar gude. Caso contrário, só resta o Banco Imobiliário. Não dá pra picula, pois tá escorregando muito.
Quem sabe um baba daqui a pouco? Jogar botão também era bom em dia de chuva. Cada um com sua caixinha de jogadores embaixo do braço e pesados goleiros em caixas de fósforos cheias de chumbo. Goleiro leve caía logo. Bonito era goleiro bem forrado, com o escudo do time bem no meio do peito e o nome logo abaixo.
A chuva interrompia nossa rotina de sol, de toda tarde na Praia do Unhão, cabelo quase vermelho e as costas quase sempre despelando.
A chuva nos devolvia um pouco a nós mesmos, mas como criança não gosta de ficar sozinha, ao primeiro estio estava cheio o muro do Edifício Tuiuti.
A roupa de frio sempre tinha um cheirinho de guardado que invariavelmente me fazia espirrar. Adorava um pulôver em que uma mão entrava pela outra. Achava um grande charme amarrá-lo em volta do pescoço, se bem que ele só resolvia cair no chão quando passava uma menina perto.
O baba na chuva era bom, até pela molequeira de chutar a poça em vez da bola, e molhar o adversário todo. Tinha hora que esquecíamos completamente da bola e lá estavam os dois times a se molharem. O paralelepípedo ficava um verdadeiro quiabo, e perto de fazer o gol era uma queda só, ralando metade da bunda.
Como até hoje, a Ladeira dos Aflitos era cheia de casas em cujas bicas o banho era renovador. Um toró constante na cara, sem precisar fechar a torneira. Depois, era caminhar e tirar os pedacinhos de ferrugem da bica que ficavam na cabeça.
Perto de dormir, levantar o colchão e pegar aquela revista que mamãe Cleonice não podia ver. A chuva ajudava.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 8/8/1990).





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