“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA
Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.
Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.
O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.
Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.
Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.
Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.
Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”
Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.
Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.
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A VACA BUZINA NA PORTA
(Chico Ribeiro Neto)
Tem uma vaca que passa na porta do meu prédio todo dia de manhã cedo. Seu mugido é uma buzina e em vez dos chifres o que há é um grosso para-choque de ferro.
Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na mão, ela não chegava. E olhe que ela é quase tão pontual quanto a vaca natural, aquela do curral. Tinha furado um pneu e a camionete Fiat demorou para entregar o leite de porta em porta.
Em vez do galo tem uma neurotizante sirene de uma construção que me acorda às 6:45. Se não acordar, às 7 ela toca de novo, soltando aquele barulho misto de ambulância e de fábrica. Essa segunda sirene é como quem diz: “Você ainda está aí, na cama?”
Os primeiros ruídos do dia nem sempre são bem-vindos. O barulhinho das panelas e das xícaras sendo ajeitadas é auspicioso, sinal do café à vista. Já as primeiras horas da manhã lembram o ofício, pegar o carro, engarrafar, entrar em sinaleira, sair de sinaleira já com outra buzina atrás.
Quando se tem um neném, o primeiro choro do dia é bom de ser ouvido, faz a gente recuperar uma certa paz, uma ainda confiança no mundo.
Saindo do silêncio do sono, retomamos a cidade e todos os seus barulhos, e tem hora que chega a ser assustador.
Quando trabalhava no centro da cidade, gostava, às vezes, de entrar na Igreja de São Bento para respirar aquele silêncio, conversar comigo e reingressar na massa que descia a Ladeira tropeçando em camelôs e fugindo dos automóveis para desembocar na Barroquinha, um verdadeiro fervilhar de vendedores, desocupados, ocupados, passantes, apressados e aposentados.
Se fosse fim de tarde, procurava a murada da Praça Castro Alves e, depois de esgueirar-me entre os carros, conquistava finalmente uma ampla olhada sobre o mar, aliviando-me um pouco da cidade que estava às costas.
Barulho igual a um ferry-boat voltando da ilha, domingo de tarde, é difícil de achar. Parece que as pessoas acumulam barulho na tranquilidade da ilha e já vêm soltando pelo caminho. O silêncio parece incomodá-las, parece ser-lhes insuportável. Quanto mais alto os rádios dos carros, melhor. Quem conseguir escapar dos rádios dos carros cairá junto a um sambão. E assim que o ferry-boat atraca, a monumental buzinação. Depois, em casa, salvo e são.
Nossos pobres ouvidos têm resistido a tanta coisa, são matraqueados diária e insistentemente nessa cidade grande cujo medidor de decibéis já deve ter quebrado os ponteiros.
Você já teve a infeliz ideia de pedir a um motorista de táxi pra baixar o rádio? O sujeito toma aquilo como o maior desaforo do mundo e alguns chegam até a aumentar mais ainda depois do pedido. Ele se nivela ao barulho, sua frequência é lá em cima pra conseguir operar no ensurdecedor nível de todo trânsito, nível onde qualquer tentativa de diálogo soa mal.
Enfim, em casa, a solução é colocar o headphone e ouvir Vivaldi, alimentando um pouco o silêncio que vem de dentro.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 11/1/1989)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
MENOSPREZO COM O FUNDADOR
Alguém aí sabe, por acaso, me informar onde fica a Praça João Gonçalves da Costa, um negro forro vindo lá de Chaves, da província Traz os Montes, em Portugal, o fundador da Vila Imperial da Conquista que aqui chegou no “Sertão da Ressaca” no meado do século XVIII? Tenho certeza que poucos, e os conquistenses, de um modo geral, ao longo da sua história procuraram deixá-lo num canto escondido. Por qual motivo será esse menosprezo proposital? Quanto a praça, é um pequeno espaço ali nos fundos do Posto de Saúde CAAVE, uma coisa assim insignificante. Até a placa foi colocada num lugar errado, na esquina, no final da rua Senhorinha Cairo, numa pequena travessa com a rua João Pessoa. É uma pequena placa borrada apenas com o nome João Gonçalves, um sujeito qualquer. Será que esse tipo de tratamento desprezível foi porque ele veio de Portugal a mando do El Rei com a incumbência de procurar ouro e prata e aqui combateu e massacrou os índios mongoiós e Imborés, descendentes dos Pataxós e Camacãs? Lamentavelmente, poucos conhecem a história de Vitória da Conquista, sobretudo seus filhos que nasceram nesta terra do frio que muitos a apelidaram erroneamente de “Suíça Baiana”. Dia desses vi e ouvi um vídeo sobre a história de Conquista onde mostra um João Gonçalves loiro de olhos azuis, quando ele era um negro do Terço de Henrique Dias que chegou a lutar no Quilombo dos Palmares. Chegou ao Sertão da Ressaca partindo de Minas Novas, no norte de Minas Gerais. A ocupação ocorreu no contexto da expansão das bandeiras portuguesas. Bem, a história é longa e seria bom que os conquistenses estudassem mais suas origens e valorizassem mais seus fundadores. Bem que merecia ser homenageado com uma avenida e não num canto escondido de uma pracinha com uma plaquinha numa esquina qualquer, simplesmente com o nome João Gonçalves. Conquista foi desbravada com o sangue indígena, como aconteceu em muitas outras regiões pelo Brasil a fora, e o seu conquistador era um negro nomeado pelo rei. Foi uma lenda e deixou seus feitos históricos.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A benção, meu “Velho Chico”!
Criatura das águas milenares,
Barrentas e canoras,
Das lavadeiras senhoras,
Da Canastra nascente,
Que deu vida e abrigo
À fauna e à flora,
A toda essa gente,
Da aurora ao poente.
Teu nome mesmo é Opará,
Grande fluente rio-mar,
Dos xokós, tuxás-hariris,
Deus salve teus ancestrais,
Tapuias e tupis-guaranis,
Guerreiros valentes e animais,
Desses vários brasis.
A benção, meu “Velho Chico”!
De alma bondosa e pura,
Que sempre destes fartura,
Ao pobre e ao rico.
Oh, senhor, majestoso do Nordeste!
Que atravessas todo este agreste,
Espalhando o fruto e a flor,
Do teu ventre o peixe a borbotar,
Perdoai todo o mal e dor,
Que te fez por dentro sangrar.
Em tuas margens,
Pelo fuzil e pelo punhal,
Foi derramado o sangue nordestino,
Entre o sertão e o litoral.
Oh, meu “Velho Chico”!
Nestes séculos de atraso,
Das secas e do cangaço,
Fostes nosso eterno pai
Das lendas e histórias,
Imortais mitos e memórias.
O “SARAU A ESTRADA” VAI À RUA
Pela primeira vez em toda sua história de 16 anos de existência, o “Sarau A Estrada” vai à rua levar cultura ao povo através da música, da declamação de poemas, roda de capoeira, teatro e falas de seus componentes, traduzindo a nossa trajetória na troca das ideias, do conhecimento e do saber entre artistas, intelectuais, professores, estudantes e interessados pela arte.
O nosso encontro suprapartidário está marcado para o próximo dia 24/07, às 16 horas, numa sexta-feira, na Praça Nove de Novembro, conforme ficou decido pela Comissão Organizadora que já comunicou o evento à Prefeitura Municipal, na pessoa da prefeita Ana Sheila Lemos e às Secretarias de Cultura e a de Ordem Pública.
O evento estava previsto para o dia 17/07, mas, por motivo de força maior, a data foi transferida para o dia 24/07 no mesmo horário, mantendo o mesmo formato. Trata-se de um projeto piloto e outros deverão acontecer em pontos diferentes da cidade. Todos estão convidados a participarem dessa experiência cultural.
Gostaríamos de contar com o apoio logístico do poder público, da mídia em geral, dos empresários, das diversas entidades, no sentido de que o “Sarau na Rua” seja um sucesso e outros venham a ser realizados além do centro.
O “Sarau na Rua” pretende encantar a população com suas atividades, de forma a mostrar a importância da cultura na vida do ser humano. Uma cidade sem cultura é uma cidade sem alma porque precisamos também cuidar do nosso espiritual.
Na luta constante em defesa da cultura e pela sua revitalização, vamos também levantar as nossas reivindicações que são de toda comunidade conquistense, como a implantação do Plano Municipal de Cultura e abertura dos equipamentos culturais. Cultura gera desenvolvimento econômico e social.
Para quem ainda não conhece, o nosso sarau já realizou diversos trabalhos, como a divulgação de um CD e vídeos, apresentação no Teatro Carlos Jheovah e foi homenageado com o Troféu Glauber Rocha pela sua atuação durante este período.
Esse evento do dia 24 de julho será um marco, o mais significativo de todos porque os artistas estarão indo onde o povo está, como recomenda o nosso grande cancioneiro, cantor, músico e compositor Milton Nascimento.
Neste dia histórico para o “Sarau A Estrada”, que sempre é realizado no Espaço Cultura do mesmo nome, esperamos contar com todos estradeiros da cultura, movimentos ligados ao setor e demais fazedores de cultura, que irão se juntar ao povo de Vitória da Conquista, para ouvir nossa palavra, contribuir e participar das nossas atividades.
“CONTEUDO”, SEM CONTEÚDO
– É, meu amigo, a sua matéria até que está boa, mas está faltando conteúdo – disse o editor ou redator (copidesque) do jornal após ter corrigido o texto do repórter. Ele quis explicar com isso que a reportagem necessitava de mais dados, informações e profundidade. Poderia ser melhor trabalhada e elaborada.
Há alguns anos, a gente costumava ouvir uma música, ir a uma exposição de artes plásticas, ler um livro e tecer uma crítica construtiva de que sentiu a falta de conteúdo naquelas obras. Quando um filme não tinha conteúdo, era porque havia deixado um vazio, e o cineasta, ou autor, teria pecado no enredo.
Naquela época, em tudo se procurava um conteúdo, uma mensagem de aprendizagem para a vida. Poderia ser num romance, num conto, numa prosa, num poema ou qualquer outro gênero literário, inclusive como numa pesquisa sobre história. “Aquela pessoa não tem conteúdo”.
As pessoas tinham mais conteúdo no falar e no expressar. Quem não já ouviu uma observação de alguém de que o discurso de fulano foi cheio de floreios, metáforas, linguagens rebuscadas, mas não teve conteúdo. Quando ouço que a nossa humanidade entrou em decadência, entendo que ela perdeu o conteúdo de ser humano.
Fui ao “pai dos burros”, o velho dicionário que quase ninguém mais usa (tudo é pelo Google), especificamente o “Michaelis 2000, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa”, e dei uma espiada na palavra conteúdo.
Diz que é um adjetivo do latim vulgar contenutu, contido. Aquilo que está contido ou encerrado em algum recipiente. Assunto, tema, matéria de carta, livro, etc; teor, texto. No aspecto social, o mesmo que cultura. Conteúdo térmico: O mesmo que conteúdo de calor. Existem outras definições, a depender do aspecto da abordagem que é feita.
A esta altura, muitos devem está comentando que esteja sendo antiquado, mas, na minha modesta visão, existe o “conteúdo” e o conteúdo. Aquela embalagem, ou aquela mala tem um “conteúdo” falso. Ouve-se muito essa expressão por aí. O conteúdo daquela medicação não é verdadeiro.
Com os tempos modernos, em plena era da tecnologia da internet e agora com a IA (Inteligência Artificial), muitas coisas mudaram de sentido. Nas redes sociais, por exemplo, qualquer porcaria que se poste é chamada de conteúdo. Se você fizer uma careta é “conteúdo” com milhões de visualizações e seguidores.
Dias desses estava vendo uma reportagem na televisão sobre uma cabra ou carneiro, chamada de Chanel, que uma senhora cria em sua casa, que é um tremendo sucesso nas postagens que faz. O tempo todo o repórter repetiu a palavra “conteúdo” de internet, referindo-se a outros vídeos, sem conteúdo.
No fundo não deixa de ser um “conteúdo”, mas vejo o significado da palavra com um outro sentido. Em minha vida, aquela cabra domesticada deixou algum conteúdo de aprendizagem para mim? Assim são outros besteiróis que acesso por aí.
Alguém pode até rebater que depende do ponto de vista. Isto me faz recordar de uma canção do nosso grande compositor Raul Seixas, onde em algum verso diz que “o ponto de vista é o ponto da questão”.
Sabe de uma coisa! Acho que estou sendo um tremendo chato ficar esmiuçando esse negócio de “conteúdo”, sem conteúdo. No no mundo de hoje das artes, perdemos muito do conteúdo. A grande maioria das letras musicais são desprovidas de conteúdos.
No entanto, se formos analisar por outro lado, todo lixo tem “conteúdo”, seja lá o que for, e são até aproveitáveis, inclusive para os famintos de ruas que não têm o que comer e encontram um resto de alimento numa lixeira.
NEM TUDO QUE SOBE, CAI
Quem não já ouviu essa prosa de algum amigo, de que tudo que sobe, cai? Até aquilo… não é? No entanto, acho que nem tudo. Tem amor verdadeiro e duradouro que nunca cai, mas nos tempos modernos da tecnologia, está sempre mudando e tem duração curta.
Muitos chegam a dizer que depois do casamento, passados alguns anos, ele começa a se esfriar e a murchar. A fruta tem o seu período de crescer, amadurecer e o de apodrecer. Entretanto, aquilo que tem valor sentimental, nunca se vende e nem se joga fora.
Na história da humanidade, por exemplo, todos grandes impérios tiveram seu ponto alto e depois entraram em decadência. Os norte-americanos, no caso do Trump, se acham deuses, são presunçosos e se sentem eternos superiores. A grande maioria recusa acreditar que os Estados Unidos estão em declínio.
A vida em si e todas as coisas que a cercam têm seus picos e depois começam a cair. No sentido biológico, a vida tem suas fases de efervescência e depois vem a velhice, terminando na morte, ou no fim, se bem que os espíritas falam do renascer na reencarnação.
Bem, este papo é um tanto complicado e filosófico. O foguete sobe e cai, como o avião que decola, se estabiliza na altura máxima e depois aterrissa. Se formos analisar pelo aspecto da gravidade, tudo que sobe, cai.
As microempresas, geralmente, têm vida curta por falta de uma boa administração e planejamento, mas também existem as grandes que vão ao topo e, de uma hora para outra, entram em falência.
Pelo lado do sucesso e da fama, existem aqueles que são efêmeros porque não têm essência em suas mensagens e conteúdos, mas muitos são considerados como imortais quando deixam conhecimento e saber para as gerações posteriores.
Na música, na literatura, no cinema, no teatro e nas artes em geral existem aquele que sobem e caem no esquecimento, como os que ficam registrados nos livros da história para sempre. São os que passaram pela vida e deixaram suas marcas e seus legados inesquecíveis.
Portanto, meu camarada, esse negócio de que tudo que sobe, cai, é muito relativo, depende muito do que está se tratando. Os objetos materiais têm seu tempo de vida e passam, mas os bens espirituais, de um modo geral, se eternizam, isto é, quando prosperam e engradecem o ser humano.
Nem sei o porquê de estar aqui escrevendo desse assunto tão controverso. Bateu repentinamente em minha cabeça, ou pode ser que tenha um DNA polêmico, como muitos amigos que conheço por aí.
Melhor mesmo é deixar a imaginação voar. Tem vez que ela trava e não consegue sair nada. É como o poeta que tem seus momentos de inspiração e tem ocasiões que não adianta forçar a barra. Por isso que é confuso dizer que tudo que sobe, cai. Nem sempre é assim.
Entendo que a esta altura estou no momento que devo parar aqui e não ir mais adiante com essa conversa. A ideia começou a subir e depois caiu. Pode ser o cansaço mental do dia. Tem vez que o artista chega no palco e arrasa, arrebenta, como se fala no popular, mas nem sempre acontece alcançar essa façanha.
AS LENDAS SÃO CONTROVERSAS
Sobre personagens que marcaram histórias em suas vidas no poder, na política, no campo social e até no âmbito da violência, sempre existiram controvérsias e versões diferentes da parte dos historiadores, pesquisadores, testemunhos, antropólogos e estudiosos do assunto. Quem ler, estuda e pesquisa precisa apurar bem os fatos e ter critério para discernir o falso do verdadeiro, o que não é fácil.
Venho me debruçando sobre a questão do cangaço nordestino há cerca de seis meses, tendo como figuras principais Antônio Silvino, Lampião, Sinhô Pereira e outros. Os autores, escritores e jornalistas apresentam versões variadas, com base em jornais, pesquisas e de sertanejos testemunhos.
Vamos aqui focar no caso específico de Lampião. Seu nascimento, sua vida ainda jovem, suas andanças, sua entrada para o cangaço, façanhas, herói ou facínora, sua morte em Angicos e outras passagens são por demais controversos. O tema é fascinante e vasto, bem como difícil de ser desvendado.
O sertanejo Luis Gonzaga Cordeiro de Magalhães acha que “a morte de Lampião é uma mentira que serve para guardar o segredo de sua vida e talvez, dessa forma protege-lo” – Na minha opinião, Lampião não morreu, mas nós somos obrigados a dizer que ele morreu”.
No livro “Lampião – Senhor do Sertão”, por exemplo, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve a narração do cordelista José Cavalcanti e Ferreira, apelidado de “Dila”, que conta ter sido irmão de Lampião e que ele era branco de olhos azuis de quase dois metros de altura, descendente de holandês. São doideiras sua entrevista e seus escritos de cordel!
De acordo com ele, existiram diversões Lampiões, tipos valentões que colocavam um chapéu de couro dobrado e faziam se passar pelo verdadeiro. Chega a dizer que o morto em Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, foi um preto com defeito no olho, não era o Lampião de verdade, mas um impostor.
Para este tal de “Dila”, Lampião teria morrido somente em 1970, no Rio Grande do Norte, esquecido de todos, sem que se saiba até hoje o segredo da sua verdadeira identidade.
O cara sempre foi fascinado pelas narrações e histórias relativas ao cangaço. Chegou a afirmar ser o irmão legítimo de Lampião que, por causa da sua fama, vivia na clandestinidade, fazendo dele um, herói invencível.
Segundo ele, existiram falsos Lampiões. Um deles era o chamado Lira, natural da região de Moxotó e tinha um outro da região do Pajeú, a quem todas as obras fazem referência.
“O verdadeiro Lampião só fez três vinganças, era meu irmão e se chamava Cassiano Ferreira Gomes”. De acordo com o “Dila” (não dá para acreditar nele), o seu Lampião nasceu em 12 de agosto de 1877, na terrível seca. Seu pai, de origem holandesa, teria vindo para o Brasil em 1830.
O “Dila” ainda diz que, quando seu pai morreu, sua mãe instalou-se em companhia dos nove filhos na localidade do Rio Tinto e encontrou refúgio na casa de José Ferreira, (o pai do “impostor” Virgulino Ferreira). Mais parece caso de Maria e José.
Em 1917, esses irmãos Ferreira de “Dila” resolveram visitar Juazeiro do Norte, do “Padim Ciço”. Entretanto, quando passavam na cidade de Batalhão, ou Barbalha, o coronel Eudócio os convidou para trabalhar em sua fazenda.
Os “Ferreira” viveram por muito tempo com o coronel que, num, certo dia, pelo bom serviço que prestaram, resolveu dar um nome para cada um. As estórias dele são malucas! Ele sustenta que na família Ferreira existiam quatro Virgulino. O Ferreira da Silva, de nome Cassiano, o irmão dele, filho de Isabel Ferreira, foi o único cangaceiro.
Em seus escritos de cordel, o “Dila” ressalta que o decapitado em Angico não era o Cassiano, rebatizado Virgulino Ferreira da Silva, mas o negro Anísio Luis Ferreira. O verdadeiro teria ido a Angico oito dias antes do massacre e prevenido a Anísio da chegada iminente de uma Força Volante.
“O Lampião verdadeiro nunca foi vaqueiro nem tocador de sanfona de oito baixos. Lampião era ferreiro em fundição. Foi ele quem fez essa máquina em que eu faço os meus impressos. A máquina rolou de mão em mão e eu sempre ouvia falar dela, mas não atinava o roteiro, até que por acaso veio parar na minha mão”.
Para a autora da obra, Élise Grunspan-Jasmim, “Dila” aparece aqui como o arauto de uma cultura popular que se transmite por meio de folhetos de cordel que teriam sido impressos na máquina fabricada pelo “verdadeiro” Lampião”. “Dila” percebeu a lógica da fabricação do mito.
O confronto de testemunhos revela a impossibilidade de estabelecer uma biografia unívoca, tão ambígua, contraditória e inacessível sobre o personagem. A maioria dos elementos dessa biografia de “Dila” está marcada por incertezas e dá a impressão de uma história de ficção escondida de temas recorrentes, cuja relativa coerência permite, entretanto, entrever uma estrutura simbólica.
O SARAU NÃO É UM MOVIMENTO POLÍTICO E MUITO MENOS UM PARTIDO
De uns tempos para cá, certas pessoas entendem que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica partidária, contanto que seja de esquerda. Não admitem, de hipótese alguma, que seja de centro ou de direita. Até aí, tudo bem.
No entanto, queremos deixar claro que o “Sarau A Estrada” sempre vai estar ao lado dos movimentos culturais em defesa do fortalecimento do setor, como na luta pela criação do Plano Municipal de Cultura, preservação do patrimônio arquitetônico, realização de festivais de músicas, literatura e outras artes, bem como, pela abertura dos equipamentos que se encontram fechados.
Ora, quando fundamos esse grupo há 16 anos, em 2010, chamado a princípio de “Vinho Vinil”, nossa primeira intenção foi a de fazer cultura através da música, da declamação de poemas, contação de causos e, principalmente, na troca de ideias e conhecimento entre artistas, intelectuais, estudantes, professores e pessoas interessadas pela arte. Crescemos ao lado da defesa e da preservação da nossa cultura.
Não criamos um partido ou movimento político, quer seja de direita, de centro ou de esquerda, embora fazemos política cultural durante todos esses anos, defendendo a sua revitalização, levantando propostas e reivindicando melhorias para o setor, não importando a posição ideológica do governo que esteja no poder.
Dentro do “Sarau A Estrada”, seus membros participantes possuem um nível cultural acima da média, uns mais e outros menos, onde cada um tem sua ideologia própria e a respeitamos porque não temos o direito e nem a função de doutrinar a cabeça de ninguém.
Durante todo este período discutimos e debatemos vários assuntos envolvendo as diversas linguagens artísticas, como também colocamos na mesa questões altamente políticas no âmbito regional, estadual, nacional e internacional, sem precisar definir o Sarau como um movimento de esquerda, como tem gente que assim pensa e acha que deve ser.
Por não termos transformado o “Sarau A Estrada” num movimento político-partidário de esquerda, direita ou centro, onde os atritos de ideias iriam se aflorar em inimizades, brigas e separações, com a consequente polarização, acredito que nisso esteja o segredo da sua longevidade. Fosse um movimento político de esquerda, simplesmente deixaria de ser Sarau para ser um partido.
Por ser um grupo que reúne uma massa crítica de conhecimento diferenciada, e pelo seu fortalecimento representativo perante a sociedade, muitos interpretam que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica de esquerda.
Em meu modesto entendimento, se assim procedermos, o Sarau perderá sua essência cultural para se transformar num movimento puramente político. Ademais, aqui dentro, a maioria de seus membros já é filiada a algum partido onde faz a sua militância política.
Ouvi gente dizer que o “Sarau A Estrada” é só festas para ouvir música, beber e comer, só que essas pessoas nunca frequentaram nossos encontros. Aqui distribuímos cultura e trocamos conhecimentos e ideias. Quanto a política partidária, que cada um faça em seu comitê.
O JEITO DO SONHO CHEGAR
(Chico Ribeiro Neto)
O primeiro sonho veio numa garrafa estrangeira que chegou boíando na praia do Unhão, em Salvador. A garrafa estava muito bem tampada com uma rolha, mas dentro não tinha nenhuma mensagem. Foi fácil sonhar com o lugar de onde ela veio, os peixes que viu no longo trajeto e a cara de quem soprou um sonho ali dentro.
O segundo sonho chegou dentro do ônibus viajando pra Ipiaú, naquele estágio entre dormir e estar acordado. Tinha água no meio – nos meus sonhos o mar sempre aparece -, mas a conversa constante de três passageiros beliscava a película que separa o sonho da realidade.
Já o terceiro sonho chegou cantando e parecia com uma moça magrinha que morava na Rua Tuiuti e tocava violino. Compenetrada, passava ligeirinho pelo meio do “baba” carregando o instrumento. Era um sonho vê-la andar.
Outros tantos sonhos chegaram nos volumes do Tesouro da Juventude, enciclopédia de 18 volumes que trazia o mundo. Era bom abrir um volume e saber como é que o tatu vive ou onde fica Tegucigalpa.
Dormir dentro de um teatro, durante um ensaio, foi também uma boa forma de sonhar. Estava ensaiando uma peça no Teatro Vila Velha mas a cena em que eu entrava demorava tanto pra chegar que dava tempo de tirar um cochilo e sonhar com perdidos personagens, teimosos em não deixar o palco nem os bastidores quando o espetáculo terminava.
A atriz Olga Maimone, que morava num dos camarins do Vila Velha, sabia muito bem disso.
Mais sonhos chegaram com o cinema. Terminava de ver dois filmes e dois seriados – hoje conhecidos como minisséries – no Cine Santo Antônio e a cabeça explodia em imagens. Tinha sido um filme de guerra, com alemão e japonês sempre perdendo, e um caubói com indio sempre morrendo.
A música, a carruagem passando lá longe e, quando a noite chega, aquele namorinho gostoso com a moça que chegou perto da fogueira, “só pra me aquecer um pouco, John”, doida pra ganhar um beijo. O banjo toca lá longe e o uísque corre solto. Tem um bocado de indio espreitando a barraca, mas amanhã cedo a cavalaria vai chegar tocando corneta e matar todo mundo sem morrer um soldado.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 15/6/1991)



















