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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

“QUANDO A ESMOLA É DEMAIS…”

   Gosto muito dos provérbios antigos ou ditados populares, se bem que tem alguns que não concordo, como o de que “a voz do povo é a voz de Deus”. Essa não dá mesmo para engolir, principalmente se for levado em conta o lado político das eleições onde a população escolhe errado seus candidatos, na maioria atraída pelas esmolas. Onde está aí a voz de Deus?

  Os nossos ancestrais tinham a sabedoria dessas expressões que serviam de aconselhamento, orientações e precauções, como a de que “boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Esta serve para os dias de hoje diante de tantas violências nas grandes cidades.

  Muitos ditados têm suas origens na cultura popular religiosa e se eternizaram, como a de que “quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Entendo que esta tem o sentido duplo e pode ser aplicada em diversas circunstâncias da vida.

  O provérbio é uma metáfora para alertar que vantagens exageradas, ou ofertas generosas, geralmente escondem segundas intenções. No âmbito religioso, a expressão baseia-se na ideia de que ninguém é extremamente bondoso de forma totalmente desinteressada.

   O termo esmola evoca caridade. Santo remete ao receio de que nem mesmo as entidades sagradas cedem a graças tão fáceis sem que houvesse algum motivo por detrás. Algo oferecido sem custos aparentes costuma ter um custo oculto real.

  O dizer popular é utilizado como mecanismo de defesa contra fraudes, golpes financeiros, propostas de lucros irreais ou bajulações excessivas. Fique longe do bajulador quando você está “por cima da carne seca” porque o indivíduo é falso.

  O santo desconfia quando a esmola é demais porque o doador pode vir a pedir muitos favores, o possível e o impossível, ou então, a caridade fora do normal pode ser falsa e enganosa. Dizem também que “não existe almoço de graça”, e nesta eu acredito.

  Nos tempos atuais, esta da esmola demais é muito utilizada pelos golpistas de plantão, e muita gente cai nela de patinho, na ambição de também tirar proveito, levar vantagem em tudo. Termina quebrando a cara. Depois de se tornar vítima do malandro, “não adianta chorar pelo leite derramado”.

   Antigamente, os golpes eram analógicos, do tipo da esmola do bilhete premiado, da corrente de “ouro” falsificada bem barata e outros objetos maquiados. Os ciganos, por exemplo, pintavam os dentes dos cavalos, passavam uma escova especial, de forma que o animal ficava com uma aparência de novo e conservado.

  E os vendedores de carros velhos? Ah, nestes eu me esborracheia diversas vezes! O safado – o ser humano tem a natureza de esfolar o outro para ganhar vantagens – colocava massa para tapar as ferrugens das latarias e realizava um armengue no motor.

   Com aquela lábia de empurrar o automóvel por um preço mais em conta, abaixo do mercado, e dizendo que estava vendendo por aperto financeiro, eu caia na esmola. Dava uma volta com o dono e tudo indicava ser bom negócio.

  Somente depois de alguns dias, o veículo começava a se desmanchar. Era aí que me dava conta de que fui um trouxa, vítima do golpista. Não tinha mais jeito. Era prejuízo na certa e arrependimento tardio.

  – Quando for comprar um carro usado de muitos anos, a primeira coisa a fazer é levar ao um mecânico e a um chapista da sua confiança (coisa mais difícil de se encontrar), para fazer avaliação – dizia o dono da oficina.

   Todas estas esmolas demais, visando ludibriar o outro, são aplicadas atualmente via internet, ou seja, no esquema virtual das redes sociais onde nem se ver ou se conhece o golpista que está do outro lado do balcão lhe oferecendo, aparentemente, uma graciosa vantagem.

   – Você foi premiado com um carro, mas precisa passar um pix de mil reais para resolver umas pendências aqui, de ordem burocrática, coisas de umas taxas.

 Tem ainda aquela onde o golpista se passa por advogado e avisa ao cliente que o processo dele foi deferido pelo juiz. Depois de anos de espera e todo encalacrado de dívidas, o falsário pega a pessoa de espírito desprevenido, sem desconfiar da esmola.

  Muitos estelionatários virtuais vendem imóveis, lotes de terrenos e outros tantos bens que nem existem, e isto por preços atrativos. Por estas e outras, meu amigo, carregue sempre em seu alforje, ou em sua mente, de que quando a esmola é demais, o santo desconfia.         

  

 

 

VIOLÊNCIA CONTRA VIOLÊNCIA

   Longe de mim defender aqui o indivíduo que matou a tiros a ex-mulher (Yasmim) porque ela se recusava a viver com ele. No entanto, fica aqui uma indagação: Por que a polícia não conseguiu mobilizar o suposto criminoso que apenas estava com uma faca, quando sabemos que teria recursos e meios para tanto?

   É a violência contra a violência? Para esta sociedade hipócrita e o sistema que cria a própria barbaridade, tinha que matar mesmo. Vivemos a Lei de Talião (lex telionis), famosa pela máxima do “olho por olho, dente por dente” onde estabelece que o castigo deve ser proporcional ao dano causado pelo infrator.

   A origem vem do Código de Humurabi (1772 a.C.), a mais antiga codificação de leis escritas da Mesopotâmia. O preceito foi incorporado na Bíblia hebraica (Êxodo e Levítico). Vamos aprovar a Lei de Talião?  

 No caso específico do Brasil, a violência nos transporta aos tempos do cangaceirismo e do coronelismo nordestino, onde a região, isolada socialmente por séculos, era terra de ninguém até meados do século XX, quando se fazia a justiça com as próprias mãos, porque não havia Justiça.

  No episódio recente de Vitória da Conquista, matou-se a própria prova do crime, porque em termos jurídicos não há processo material para o julgamento do réu, assim entendo, mesmo não sendo advogado especialista no assunto.

  Não posso aqui avaliar as circunstâncias, mas um grupo de soldados, que recebeu treinamento e instruções de procedimentos, não poderia ter detido o agressor, sem matá-lo, como, por exemplo, dado um tiro na perna do elemento?

A polícia não pode agir emocionalmente, tomada pela raiva do momento. Nessa hora ninguém quer saber como o cara foi morto e se havia possibilidade de ter sido preso para ser julgado e sentenciado, para pagar seu ato cruel na cadeia.

  Como já nos acostumamos a viver num quadro bárbaro de violência contra a violência, a maioria por motivos torpes, como matar a mulher porque não mais aceitava o relacionamento, ninguém aqui quer saber se a polícia agiu corretamente, ou se deveria ter atuado de outra maneira.

  Para esta sociedade, tinha que matar mesmo, na base da violência contra a violência. Com nunca se confiou na justiça brasileira, nesse caso, a justiça foi feita e o resto não importa, se a polícia poderia ter ou não mobilizado o sujeito.

  Infelizmente, vivemos numa época tão violenta e desumana que as pessoas não param mais para refletir sobre suas ações e a dos outros. Perdemos a voz da razão e até não mais concordamos que violência só gera violência.  

  Entendemos que o certo mesmo é a violência contra a violência porque já estamos dominados pela emoção e a ira contra os crimes bárbaros, como se esta atitude fosse resolver os problemas sociais. No fundo, quase todos concordam com a pena de morte. Aliás, pesquisas já revelaram isso.

 Como estamos falando de agressões contra as mulheres, cada vez mais em alta escala, não paramos para raciocinar que essa tal de medida preventiva é uma balela, um embuste e uma demagogia política, mesmo porque, na prática, ela não funciona.

    Por acaso, o policial vai ficar 24 horas vigiando os passos do agressor cuja mulher conseguiu a medida protetiva judicial? Ele continua com o direito de transitar em qualquer lugar e chegar até a ex-companheira que não tem nenhuma segurança pessoal. Nem “presa” dentro da sua casa ela está salva.      

VISÕES DE UMA CASA DE FARINHA

   Quando escolheram o tema “Casa de Farinha” para o próximo debate do “Sarau A Estrada”, marcado para o dia 13/06, brotou dentro de mim as visões dos tempos de menino. Posso dizer que nasci e me criei dentro de uma casa de farinha, aquela bem tradicional e artesanal do “Caldeirãozinho” do sertão de Piritiba.

 – Cumpade, o aviamento mais difícil e complicado para se fazer dentro de uma casa de farinha é o parafuso. A madeira tem que ser de baraúna tipo rosa legítima e não é toda árvore que serve – dizia meu pai, que era lavrador, carpinteiro, marceneiro e construtor de curral e casa de farinha.

  Com seu facão, machado, espingarda e no bornal carne seca, rapadura, farinha e água, ele se embrenhava numa mata para encontrar uma baraúna de lei. Às vezes, retornava da sua “caçada” ao entardecer e voltava no outro dia. Dizia que o pau tinha que ser bem roliço.

   Era um ritual demorado e quando encontrava pedia licença ao curupira, o protetor das florestas, para derrubá-lo. Com o machado, deixava no tamanho certo para esculpir o parafuso com o formão, de maneira a encaixar bem na peça de rosca, para apertar a prensa que poderia ser de pau ferro ou pau d´arco. Na parte inferior, um furo, para realizar o aperto com um porrete resistente. O parafuso tinha que ser bem sebado.

 Os outros equipamentos também formavam um conjunto importante para fazer funcionar a casa de farinha. A casa, a mais simples possível, (nada de motor) era no estilo de um galpão com telhas de cerâmica. Os vãos ficavam abertos.

  Em dia de casa de farinha, logo cedo chegavam as raspadeiras com suas facas afiadas nas mãos para a labuta da raspa. Era a atividade mais divertida, embora cansativa, porque durante a limpeza das mandiocas rolavam cantorias e as fofocas entre as comadres.

– E aí, comade, Josefa apanhou barriga com um rapaz de São Paulo. Ficou mal falada. O velho era exigente e não gostava muito de raspadeira tagarela e dava pressa ao trabalho.

  Logo na entrada, numa parte mais elevada, como se fosse um palanque de adobe, era colocada a roda que poderia ser de cedro com uma abertura em torno dela para encaixar o reio ligado ao ralador de pequenas serras para ralar a mandioca. Com duas pequenas alavancas, a roda era puxada em parceria de dois homens, no compasso da cantoria. O arrasto tinha que ser afinado.

   O ralador, assentado numa mesa e embaixo um coxo para receber a massa da mandioca, era o mais perigoso. Qualquer descuido da mulher poderia ser fatal e ter sua mão tragada pelas serras dentadas.

  A raladeira precisava ser experiente, ligeira e atenta. Uma raiz ia empurrando a outra. Depois de toda ralada, a massa ia para o cocho da prensa com uma tampa apertada pelo parafuso até extrair toda água, a chamada manipueira.

  Sem o forno a lenha, com pedras sabão ou mó, geralmente construído de barro, com duas ou três bocas, em direção ao poente, não havia farinha. Depois de classificada a massa através das peneiras, entrava o puxador de rodo, pra lá e pra cá, até a farinha ficar torrada no ponto ideal.

  A farinha do seu Mateus era considerada a melhor de toda região, bem fina e com bastante tapioca. Ah, não podia tirar muita tapioca para fazer beijus, senão ele esbravejava! Era ranzinza nesse ponto, e ele mesmo fazia questão de cuidar desses detalhes do processo.

  Como era ainda pequeno, cinco ou seis anos de idade, minha tarefa era puxar os jumentos com os caçuás, da casa de farinha até a roça e vice-versa. As próprias mulheres descarregavam e eu não podia demorar no caminho, senão levava um tabefe.    

    O bom mesmo era quando caia o entardecer, na boca da noite, quando toda aquela trabalheira chegava ao fim com a farinha ensacada nos sacos de 50 quilos. Minha mãe que tudo fazia, aproveitava as pedras quentes do forno só em brasas para espalhar a beijuzada.

  Ai, era só alegria e todos entravam na prosa até altas horas da noite. Era só jogar conversa fora sobre causos e histórias de valentões e coronéis. Ficava assuntando e, mesmo cansado da labuta, não cochilava. Gostava de ouvir aquela gente simples da roça proseando.

  Rolavam os próprios causos das casas de farinhas. Muitos diziam que eram mal-assombradas. Como a residência era sempre próxima da casa de farinha, uns contavam que no silêncio da madrugada ouvia-se falatórios, mulher raspando mandioca e até a roda rolar sozinha.

 – Vocês não têm nada para fazer e ficam aí contando lorotas. Não existem fantasmas! São coisas dessas cabeças ocas que ficam inventando essas trabuzanas – afirmava o meu pai, dizendo que nunca tinha visto nada, mas minha mãe confirmava que ouvia.

 Adorava ouvir aquelas prosas dos adultos tabaréus ou matutos, muitas eram lendas e outras verdadeiras. Assim era a vida de um dia de uma casa de farinha. No sábado era só levar os produtos para a feira de Piritiba. No domingo era a vez do distrito de Andaraí.     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LAMPIÃO TENTOU SE REGENERAR

  Durante seus 20 anos de cangaço por vários estados nordestinos (Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Alagoas e Sergipe), por diversas vezes, Lampião, o “rei do cangaço”, tentou se regenerar e deixar a vida de bandoleiro que levava. No jeito sertanejo nordestino de ser, foi até considerado um religioso beato, com suas rezas e devoções, especialmente a da “Pedra Cristalina”, para fechar seu corpo.

  É vasta a literatura sobre o cangaço a partir dos cordelistas, mas muitos escritos não são confiáveis. O primeiro livro publicado sobre Lampião pela imprensa oficial da Paraíba, em 1926, intitulado “Lampião, sua História”, possivelmente foi escrito por Érico de Almeida. Outros atribuem a João Suassuna, na época governador da Paraíba.

 Sobre abandonar o cangaço, de acordo com a maioria dos escritores e historiadores, inclusive Billy Chandler, em “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, seu primeiro lampejo em se regenerar foi quando esteve em Juazeiro do Norte, em 1926, com o padre Cícero Romão, o seu “Padim Ciço”, que lhe deu bons conselhos nesse sentido.

  Os sertanejos o admiravam como homem de palavra, embora mudasse muito de opiniões em suas entrevistas. Enquanto dizia ao padre Cícero que queria se regenerar, confidenciava a um jornalista que o cangaço era um bom negócio e que nunca pensara em abandoná-lo. Retornou para falar com seu admirado padre, em 1926, mas este recusou em recebê-lo.

  Em outras ocasiões, quando interrogado se planejava continuar pelo resto da vida, afirmou que talvez tentasse outra coisa, como ser grande comerciante ou fazendeiro. Expressou até seu desejo de ser governador e presidente da República, estimulado pela fama de suas façanhas e pela própria imprensa.

  Em 1929, porém, em Capela (Sergipe), tornou a repetir que a vida no cangaço era agradável. Antes de fazer esta declaração, entretanto, revelou a um entrevistador, em Tucano, na Bahia, que a vida não era boa. Tenho sofrido, mas, em compensação, gozado bastante.

  No início de sua carreira como bandido profissional, em 1921, aconselhou a um grupo de jovens rapazes a não seguir seu exemplo. Em 1925, a algumas pessoas, destacou que sua entrada para o cangaço fora uma desgraça e que nascera para ser fazendeiro e não cangaceiro.     

    Quando estava se recuperando de seus ferimentos na fazenda de Marcolino, em Princesa (Paraíba), por volta de 1924, entrou em contato com o padre José Kehrle e pediu que levasse um recado ao comandante da tropa de Pernambuco, Teófanes Torres, o tenente que prendeu Antônio Silvino, em 1914.

  Segundo o padre, Lampião ofereceu se entregar à polícia em troca da garantia da sua vida e a de seus homens. Teófanes prometeu garantir sua vida, mas não fez a mesma promessa a respeito de seus companheiros, Então, Lampião não aceitou. O próprio padre Kehrle tentou persuadi-lo em deixar o cangaço.

    O velho cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, que foi chefe e ensinou muita coisa a Lampião, contou que no meado da década de 1930 lhe escrevera, convidando-o a abandonar o cangaço e ir para Minas Gerais, onde seu mestre estava morando, para viver sob a proteção do irmão do governador. Lampião nunca respondeu a carta.

  Conforme descreve Billy, teria sido mais fácil Lampião ter saído do cangaço em seus primeiros anos de banditismo quando a campanha de Pernambuco chegou a ser tolerante com ele. Com a morte do pai pela polícia alagoana, chefiada por José Lucena, em meado dos anos 20, Lampião desabafou que iria morrer no cangaço.

Com o reforço das tropas de Pernambuco e outros estados, visando capturá-lo, principalmente depois de 1930, no Governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de regeneração tornou-se ainda mais remota.

  Em 1928, por exemplo, falou em Tucano (Bahia) que gostaria de deixar o cangaço se encontrasse alguém que o protegesse, mas acrescentou, que não conhecia ninguém nestas condições. 

   Em Capela (Sergipe) chegou a ser enfático de que era tarde demais para deixar de ser cangaceiro. Como prova desta atitude, segundo Billy Chandler, levava consigo sempre um vidrinho de veneno em seu embornal, para ser usado caso fosse capturado. Este vidro estava com ele em Angicos, quando foi morto em 1938.

Um ano antes, ao seu irmão João, disse que lutaria até morrer. Nesta época, Lampião, com 40 anos, não era mais o mesmo. Além dos problemas nas vistas, sofria dos rins e reumatismo.

  João revelou que ele parecia velho e cansado e até o aconselhou a deixar o cangaço e se recolher num lugar distante onde não seria reconhecido. Lampião respondeu que era conhecido demais para se esconder e que não tinha confiança bastante em seus amigos.  

  Apesar de tudo, acalentava a ideia de voltar a uma vida normal. Dadá, mulher de Corisco, contou, certa vez, que Lampião dissera que deixaria o cangaço se Eronides, governador de Sergipe, seu amigo, fosse eleito presidente da República.

   Contam muitas histórias sobre ele, inclusive de que se julgava capaz de ser outra coisa que um simples bandido errante. Falou uma vez em alistar uma tropa de mil homens para lutar com as polícias de Pernambuco e Paraíba, com a finalidade de conseguir anistia para si e para seus homens.

Imaginava ser governador de um novo estado sertanejo, formado de partes da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Expressou até o desejo de ser presidente da República.

  Com suas estratégias, liderança e táticas de guerrilha, se Lampião fosse instruído e tivesse consciência político-social teria feito uma verdadeira revolução e até tomado o poder executivo, sempre uma calamidade por muitos que exerceram a função nacional.       

“LÁ ELE!”

Chico Ribeiro Neto)

O “lá (ele” é uma expressão tipicamente baiana para reagir a frases de duplo sentido, insinuações sexuais ou brincadeiras. Significa “tô fora”, “não é comigo, é com outra pessoa”.

Fui comprar cinco espigas de milho para cozinhar. Cheguei na loja de hortifrútis e pedi ao empregado para descascar uns milhos para mim. Como sempre gosto de um pouco da palha do milho dentro da panela, pois dá mais gosto, falei pro  cara: “Irmão, por favor, deixe um com palha e tire a palha de quatro pra mim”. “Lá ele. Isso eu aí eu não faço, não”. Somente aí caiu a ficha.

Algumas situações que cabem responder com “lá ele”:

“O senhor vai tomar sentado ou em pé?”, pergunta o garçom a quem você pediu uma cerveja.

“Quer receber agora ou pra semana?”, pergunta alguém sobre um pagamento a ser feito.

“Vai levar agora?”

Dois caras montando um sofá: “Você segura que eu empurro”.

O passageiro grita no ônibus: “Motorista, abra o fundo aí”. E o motorista: “Lá ele cinco mil vezes”.

Como diziam os antigos, “esse povo leva tudo pro buraco da maldade”.

“Rapaz, esse negócio entrou com força”.

“Vou ali comer”.

“É pra botar embaixo ou em cima?”, pergunta o empregado com uma caixa na mão.

“Coloco essas compras aí ou posso colocar no fundo?”

“Vai comer aqui ou vai levar?”, pergunta o garçom do bar que serve PF.

O caixa do supermercado vai registrando minhas compras. A bandeja de ovos é o último item e ele me pergunta: “Posso passar até os ovos?”. Um “lá ele” bem dado.

Um amigo foi a uma loja de material de construção comprar um produto similar ao WD, que é mais barato. Uma moça estava no balcão e ele perguntou, sem um pingo de maldade: “Você tem aí um líquido viscoso e penetrante?” “Lá ele”, respondeu ela.

O outro comprou uma caixa de copos e o empacotador perguntou: “O senhor vai levar em pé ou deitado?”

E teve aquele que comprou um pernil e o açougueiro perguntou: “Vai levar inteiro?”

“Quando deita, você dorme logo ou leva um pedaço acordado?”

Segundo a linguística, o “lá ele” é “um marcador pragmático de distanciamento”. Expressão antiga usada na Bahia, pode hoje ser considerada de cunho machista, mas já se entranhou na boca do baiano. Lá ele!

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESVIOS DE FUNÇÕES DO GLAUBER

    O Espaço Glauber Rocha, na Avenida Brumado, antigo Denit, foi construído no governo de Guilherme Menezes, se não me engano, nos anos 2000, com intuito de ali se tornar numa área voltada basicamente para a cultura, exposições de artes, realização de eventos e shows musicais, como o nosso tradicional São João. Além desses objetivos, o Espaço valorizou a zona oeste. Com o passar dos anos e mudanças de governos, que sempre desfazem as obras de seus antecessores, infelizmente, aquele Espaço sofreu desvios de suas funções, sem falar na festa junina que colocaram lá no Parque de Exposições, sob alegação fajuta de que tem mais capacidade de absorver mais gente. Hoje funcionam outros serviços e boxes de artesanato, pouco visitados. A área aos shows e eventos musicais se tornou num grande vazio e estacionamento de carros de particulares. Praticamente quase nada que lembre a nossa cultura e que faça jus ao nome do cineasta conquistense. A área de alimentação deixou de cumprir sua função. Até nisso a nossa cultura foi entregue às moscas. As pessoas só vão ali quando têm algum problema burocrático para resolver. É assim que querem transformar Conquista numa cidade turística? Pelo menos poderia existir uma sala de cinema, uma cinemateca e oficinas de audiovisuais em homenagem ao Glauber Rocha. Um projeto daquele porte não deveria ser apenas utilizado para prestação de alguns serviços de utilidade pública A impressão que se tem é de abandono de mais um equipamento destinado à cultura.

MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA

   Nesta sexta-feira (dia 22/05/2026), a partir das nove horas, a sessão ordinária da Câmara Municipal de Vereadores vai focar seu trabalho nas pautas da modernização administrativa, na educação, na juventude, mobilidade estudantil e no incentivo ao esporte.

 Entre os projetos em discussão, está a proposta que dispõe sobre a reforma e atualização do Regimento Interno da Câmara, adequando as normas internas da Casa às diretrizes da Constituição Federal, Estadual e da Lei Orgânica Municipal, buscando modernizar os procedimentos legislativos.

  Consta ainda da pauta o projeto de resolução que regulamenta a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados no âmbito da Câmara, estabelecendo diretrizes, competências e mecanismos internos para o tratamento adequado de dados pessoais. A proposta tem o objetivo de ampliar a proteção da privacidade, garantir transparência e reduzir riscos institucionais.

  Na área da educação e da cultura, será apreciado o projeto que institui e inclui no calendário oficial do município o Dia Nacional da Juventude. A iniciativa reconhece a data como momento de mobilização social e debate sobre temas ligados à juventude, como cidadania, inclusão, educação e mercado de trabalho.

  Outro projeto em análise cria diretrizes para a promoção da educação cidadã na rede pública municipal de ensino, com foco na valorização da história de Vitória da Conquista, da cultura local, do Hino Municipal e dos símbolos oficiais. Visa incentivar o conhecimento dos espaços históricos e culturais da cidade.

   Na pauta, outro tema a ser debatido é a proposta que amplia o direito à meia passagem estudantil no transporte público, permitindo que estudantes utilizem benefícios em atividades além do deslocamento escolar, como cursos, capacitações, atividades culturais e esportivas.

    Também será analisado o projeto de lei que institui o selo “Empresa Amiga do Esporte do Município”, com objetivo de reconhecer e incentivar empresas que apoiam ações, projetos e iniciativas esportivas na cidade.      

 

 

NA ESTRADA DO SARAU

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Essa Estrada é você,

Aprender e doar,

Nosso Sarau é só saber,

Para poder chegar.

 

O grupo “Vinho Vinil,

A Estrada, pavimentou,

E desse cantil,

O Sarau se saciou.

 

Avante, avante, oh Sarau!

Estradeiros da cultura!

Com sua mensagem universal,

Como água da nascente,

Caudaloso rio corrente.

 

Vamos todos pra frente,

Que na Estrada vem gente!

Vamos com nossa cantoria,

Na canção da viola,

Na pegada da poesia,

Fazendo a nossa história!

 

Nessa Estrada do Sarau,

Nosso tema na abertura,

Nas asas do conhecer,

Somos embates e ternura,

Coisas mais lindas de ser ver.

 

São mais de quinze estações,

Passageiros do mesmo trem,

Cada um com sua bagagem,

Colaborando com o que tem,

Juntos unidos nessa viagem.

 

Avante, avante, oh Sarau,

Com sua arte no embornal!

O FANATISMO “CEGA” A PESSOA

    Num excesso de raiva, o cara levantou do sofá e deu um murro na televisão porque o Brasil foi eliminado da Copa Mundial de Futebol nas quartas de finais. Além do prejuízo, cortou a mão e teve que ir para o hospital estancar o sangramento.

  Isto não é um causo ou uma história de ficção. É tão real como o do torcedor colombiano, ou peruano, se não me engano, que matou um jogador por ter cometido um erro e, por isso, foi julgado como culpado pela desclassificação da sua seleção.

   Estes exemplos comprovam que o fanatismo é burro e deixa o indivíduo cego. O fanático, seja na religião, no futebol, na política ou outra atividade qualquer da vida, só vê o seu ponto de vista. Ele se torna um irracional e é capaz de cometer barbaridades. Melhor não tentar travar um diálogo com um fanático. É perigoso e arriscado.

  No caso específico do futebol, nem tanto como há 20 ou 30 anos que se acreditava no time, a Copa do Mundo está batendo em nossas portas e com ela uma onda de fanáticos que se esguelham, se “rasgam”, se endividam e são capazes de cometer atos bárbaros contra si e contra outros.

  Quantos não compram uma televisão nova de última geração, sem necessidade, induzidos pelas propagandas comerciais, para assistir a seleção brasileira na Copa! Muitos, com o poder aquisitivo de baixo a médio, se sujeitam a pagar 24 prestações mensais, ou dois anos de “módicas parcelas”.

  O José, o João ou o “Mané” que deu o murro na televisão ou quebrou a cadeira no aparelho, nem imaginou na hora que ainda tinha dois anos para quitá-lo! Para completar a burrice, ainda se embriagou e teve uma overdose alcoólica de quase morte.

  O fanático se anula, se deixa ser iludido e não mede as consequências, mas o mercado ainda vai lhe dar uma chance lá na frente para renegociar a dívida, comum para os que ficam encalacrados pelo excessivo consumismo, instigado pelo capitalismo e a própria mídia servidora do sistema.

  Foi só anunciar os 26 convocados para a Copa que os veículos de comunicação começaram a entupir os canais de televisão de propagandas. As chamadas são “tentadoras”.  O pessoal compra tudo quanto é bagulho e depois joga tudo no lixo quando a seleção “perna-de-pau” tropeça.

  – Olha aqui, meu amigo irmão, essa marca é top de linha, você vai poder ver os lances mais incríveis da Copa, que não têm em sua “antiga” televisão. É uma oferta com desconto de 20% e você pode pagar com prestações a perder de vista – dize o atendente com aquela lábia de vendedor. O consumidor cai como um patinho.

  No primeiro jogo do Brasil é aquela festa de inauguração e o cidadão endividado chama os amigos, parentes e até desconhecidos para ver a nova telona. É só alegria e muita gastança! Somente depois ele percebe que as imagens são as mesmas.

OS LADRÕES DE CAVALOS

  Esse negócio de beber muita água, bem que a ciência – naquela época não era tão evoluída assim – poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887/89, 1913/14, 1919/20, 1932/33 e tantas outras onde não caia um pingo do céu, sem contar que não havia comida, a não ser raízes dos umbuzeiros e polpas dos mandacarus.  

  O sertanejo do agreste catingueiro deveria ter uma barriga de pedra, adaptada para resistir a falta de água e alimento. Não tinha nem lama nas cacimbas e tanques para ingerir, mas estou aqui para falar mesmo sobre os ladrões de cavalos na região.

É que de tanto ler sobre o Nordeste, me veio esse assunto na “telha”, aquela de cerâmica feita do barro verdadeiro da terra que dá boa liga, não a de zinco e plástico. As “telhas” de hoje são mais de materiais sintéticos, substâncias que transmitem uma série de doenças, inclusive cancerígenas.

  No velho Nordeste, ladrão de cavalo (jumento, burro, mula), vaca ou bode, era considerado o indivíduo mais abominável do que o assassino ou homicida, principalmente quando atuava em legítima defesa e por vingança.

  Como praticamente não tinha justiça numa terra de ninguém, o ladrão de cavalo era sentenciado à morte, sem dó e compaixão e poderia ser até de forma cruel como nos tempos primitivos. Não havia perdão e era um crime intolerável no sertão.

   Os cangaceiros, por exemplo, atiravam em quem os chamassem de ladrões de cavalos. Eles diziam que tomavam emprestado para depois devolver os animais. Roubar uma rês no pasto do outro era uma guerra para o fim do mundo, e muitas brigas entre famílias começaram assim.

  Como no Nordeste, no Velho Oeste norte-americano, durante o século XIX, conforme relatam os filmes de faroeste, também bandido ladrão de cavalo tinha que ser imediatamente executado na forca. Era visto como elemento de baixo nível, um ser desprezível e nojento. Ladrão de cavalo era reconhecido de longe até pela sela do animal.

O cauboy entrava na cidade ou vila, amarrava o cavalo no mourão e entrava no salon para tomar um uisque ou jogar um carteado. Alguém saia de fininho e ia logo avisar ao cherife que tinha um ladrão de cavalo no bar.  

   Com o desenvolvimento e a evolução do Nordeste, que os tirou do isolamento profundo, essa categoria tornou-se rara, a não ser os intermediários dos frigoríficos que matam esses equinos para vender suas carnes e couros para a China.

  Esses meliantes furtam na calada da noite e ficam impunes. O jumento, por exemplo, símbolo da força, da resistência e da cultura popular nordestina, é uma espécie em extinção. Os governantes fazem de conta que nada está acontecendo. Fazem vistas grossas.

  – Fica você aí falando de ladrões de cavalos, coisa do passado, de gente caduca, enquanto a nação está sendo depenada pelos ladrões dos cofres públicos, não por gente “pé rapada”, mas por poderosas quadrilhas sofisticadas, protegidas por uma rede de advogados e até chefes políticos mancomunados.

– É, meu camarada, até que você tem razão e digo mais que esses sujeitos safados nem são tão execráveis como os antigos ladrões de cavalos. Ninguém importa mais com seus crimes, de tão comum que se tornaram, e milhões até votam neles nas eleições.

   Só para não perder o fio da meada, imaginou se os corruptos de hoje, que deixam milhares famintos, sem educação, saúde, assistência social e um rastro profundo de desigualdade social fossem tratados como os ladrões de cavalos no antigo Nordeste? Não ficava um, meu irmão. Seriam mortos a pauladas e pedradas.

  – Aí, meu amigo, se Cristo fosse vivo, poderia intervir e dizer, levanta a primeira pedra quem nunca pecou! A grande maioria dos brasileiros teria que jogar suas pedras fora e dar meia volta de cabeça baixa, envergonhados.        





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