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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

AS SECAS SECULARES NORDESTINAS

Historiadores, antropólogos, sociológicos, pesquisadores, geólogos, jornalistas e escritores em geral se debruçaram sobre os efeitos das secas seculares nordestinas, muitas das quais ficaram na memória como “massacres de guerras” diante dos milhares de mortes em consequência da cruel fome.

  O solo entorroado da caatinga jugulado pela estiagem deixa na imensidão uma paisagem cinzenta de garranchos estorricados onde a fauna e a flora passam uma imagem de deserto, pontuado por algumas plantas e árvores resistentes, como cactos, mandacarus, umbuzeiros e juazeiros.

  Em muitas partes predominam os pedregulhos e em outras a terra desertificada e salinizada pelo tempo. Aqui mesmo na Bahia temos o Raso da Catarina, em Paulo Afonso, uma grande área inóspita de moitas espinhentas e areões infestados de cascavéis que somente os cangaceiros se atreveram a penetrar como local de esconderijos.

   Os mais fortes ainda conseguiam prolongar suas vidas se servindo de raízes de umbuzeiros, da água dos cactos, do cipó seco de mucunã e outros meios que somente os nordestinos do sertão profundo tinham o conhecimento dessa natureza. Aprenderam com os índios dizimados pelos colonizadores a partir dos séculos XVI e XVII.

   A história dá conta das secas mais mortíferas desde a invasão dos portugueses em solo brasileiro, como as de 1559, 1592, 1690/92, 1774/76, 1790/93, 1802/04, 1825/26, 1877/79/80 (a mais inclemente ao ponto do imperador propor oferecer suas joias), 1902/04, 1915, relatada por Raquel de Queiroz em “O Quinze|” onde fala do período dos “currais humanos” ou campos de concentração, no Ceará (iguais a de 1877/80), bem como por Rodolfo Teófilo no livro documental “A Seca de 1915”, as de 1930/32 e dez anos depois, em 1942.

   O alagoano e escritor, considerado regionalista, Graciliano Ramos foi o que mais penetrou nesta questão com profundidade e linguagem realística socialista através das suas obras, com destaque para “Vidas Secas” e “São Bernardo”. Ele mostrou por dentro e de forma objetiva toda dureza das secas.

Séculos e séculos se passaram e elas permanecem como flagelos dos nordestinos, embora menos sofridas em relação àqueles tempos porque depois de muito clamor e mortandades de retirantes maltrapilhos tombados nas estradas, os governantes resolveram construir alguns açudes, aguadas e tanques, até utilizando trabalhos forçados. As cisternas também entraram em ação, mas a “indústria da seca” ainda serve como instrumento de voto.

   Mais recentemente resolveram transportar as águas do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, cansado de “guerras” para alguns estados através da abertura de canais que não chegam a atender às populações de todos os rincões nordestinos porque ainda ficam restritos aos poderosos plantadores de frutas exportáveis.

   Depois de 500 anos de sofrimento, em pleno século XXI, ainda se cruza com carros-pipas pelas estradas poeirentas, com cargas de carotes de jumentos (quase extintos pelas matanças dos frigoríficos), mulheres com latas d´água na cabeça e as lágrimas nos olhos pela perda das plantações e dos animais de criação.

  Como repórter profissional em coberturas jornalísticas entre os anos 70 e início dos anos 2000, fui testemunho de muitas cenas chocantes de sertanejos castigados pelas secas que deixaram rastros de miséria, fome, separação de famílias, gente se alimentando de raízes tóxicas e as tais “viúvas das secas”, de crianças desnutridas em seus colos porque seus maridos partiram para o Sul (São Paulo, Rio, Paraná) e não mais voltaram e nem deram notícias.

 Quando ainda menino em meu torrão sertanejo, fui vítima delas e nos valíamos do coco do Ouricuri e até do maracujá brabo caipira.  Com o aquecimento global, ou mudanças climáticas, como queiram, numa temperatura que só aumenta onde o sol faísca suas escamas prateadas, as secas nordestinas estão aí mostrando suas garras e caras cavernosas de foice na mão.

  No momento atual, todo sertão já está sofrendo, como o município de Vitória da Conquista (sua maior parte está no semiárido) e região (Anagé, Aracatu, Caetanos, Tanhaçu, Belo Campo, Tremedal, Piripá e outros), com pedidos de emergência pelos prefeitos. O cenário pouco muda, mesmo com mais recursos públicos.

Em trânsito semana passada, entre o distrito de Inhobim até Encruzilhada, pude observar a sequidão que sempre serviu de manchetes de jornais e matéria-prima para jornalistas, escritores, cronistas, estudiosos, poetas e cordelistas.

As secas vão sempre fazer parte da vida dos nordestinos, um povo com muitas histórias para contar, de religiosidades, esperanças, fé, messianismo, lutas, cangaço e rico em suas culturas populares. Possui ainda seu bioma chamado caatinga, sem igual no mundo.

O PULÔVER CHEIRAVA A NAFTALINA

(Chico Ribeiro Neto)
As tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina não impedia a reunião da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. “Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas são um caso sério”.
Chove na rua da minha infância e toda essa água descendo a Ladeira dos Aflitos vai parar na velha “Praia de Doutor Barros”, vizinha à Praia da Preguiça.
De manhã, saía o sol e o brilho dos paralelepípedos lavados doía um pouco nos olhos. Empurrados para a beira da boca-de-lobo, montinhos que tinham de um tudo: folha, barbante, caixinha de chiclete e pedaços de bola de gude.
A pequena enxurrada junto ao meio-fio me traz barquinhos e lembranças.
Pulôver. Só de pronunciar essa palavra já me sentia um pouco mais aquecido. Tinha que usá-lo por cima de alguma blusa  senão espinhava muito.
Era hora de pegar alguma revista, pois lá fora está chovendo muito. Mas era só passar um pouquinho que lá ia todo mundo correndo pro murinho do Edifício Tuiuti  justamente na esquina com a Ladeira dos Aflitos, pois dava pra se ver tudo: as meninas que saíam de lambreta e as que não saíam, apenas rodavam as saias e jogavam sorrisos pra cá.
Encontro “Gel Beleza” no Shopping Iguatemi, e os chopes vão puxando mais lembranças. Temos conversa pra noite toda, pois da infância quanto mais lembrança se tira, mais se tem. Desfiá-las é um prazer insubstituível.
Se a chuva passa mais, a gente pode jogar gude. Caso contrário, só resta o Banco Imobiliário. Não dá pra picula, pois tá escorregando muito.
Quem sabe um baba daqui a pouco? Jogar botão também era bom em dia de chuva. Cada um com sua caixinha de jogadores embaixo do braço e pesados goleiros em caixas de fósforos cheias de chumbo. Goleiro leve caía logo. Bonito era goleiro bem forrado, com o escudo do time bem no meio do peito e o nome logo abaixo.
A chuva interrompia nossa rotina de sol, de toda tarde na Praia do Unhão, cabelo quase vermelho e as costas quase sempre despelando.
A chuva nos devolvia um pouco a nós mesmos, mas como criança não gosta de ficar sozinha, ao primeiro estio estava cheio o muro do Edifício Tuiuti.
A roupa de frio sempre tinha um cheirinho de guardado que invariavelmente me fazia espirrar. Adorava um pulôver em que uma mão entrava pela outra. Achava um grande charme amarrá-lo em volta do pescoço, se bem que ele só resolvia cair no chão quando passava uma menina perto.
O baba na chuva era bom, até pela molequeira de chutar a poça em vez da bola, e molhar o adversário todo. Tinha hora que esquecíamos completamente da bola e lá estavam os dois times a se molharem. O paralelepípedo ficava um verdadeiro quiabo, e perto de fazer o gol era uma queda só, ralando metade da bunda.
Como até hoje, a Ladeira dos Aflitos era cheia de casas em cujas bicas o banho era renovador. Um toró constante na cara, sem precisar fechar a torneira. Depois, era caminhar e tirar os pedacinhos de ferrugem da bica que ficavam na cabeça.
Perto de dormir, levantar o colchão e pegar aquela revista que mamãe Cleonice não podia ver. A chuva ajudava.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 8/8/1990).

UM CEMITÉRIO PERDIDO

  Por este Nordeste a fora não é difícil encontrar cemitérios abandonados, perdidos dentro da caatinga, muitos à beira de estradas e veredas, em povoados, antigas fazendas de coronéis e arraiais. Pelo aspecto, percebe-se que são de pessoas pobres, muitas enterradas até em redes ou cobertas na falta de um caixão. A grande maioria de crianças e idosos mortos por doenças várias, pela fome das secas implacáveis e até mesmo vítimas do cangaço e das forças policiais brutais dos chefes políticos e detentores do poder. Lembra até do poema “Morte e Vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que fala do sertanejo retirante que morre na miséria no meio do caminho. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo, próximo ao povoado da Tapera, município de Encruzilhada, nossas lentes flagraram um cemitério nestas condições de abandono dentro do matagal seco, se bem que muitas covas ainda conservam carneiras destruídas pelo tempo e por dentro do capinzal muitas cruzes. Os moradores calculam que o cemitério deva ter cerca de 100 anos de existência ou até mais que isso quando ainda não havia um local reservado aos mortos no surgimento do povoado. Como respeito aos que se foram, respeitando as tradições culturais religiosas populares, o local poderia ser limpo e cercado como forma de preservação da memória daqueles que partiram para outro além.

 

OS DOZES MESES

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Janeiro matreiro chegou,

Com uma ressaca de lascar,

Nem reguei minha flor,

Só contas a pagar:

Logo vem aí o IPTU,

Material escolar e o IPVA.

 

Lá vem fevereiro,

No arrastão do carnaval,

O mês mais curto ligeiro,

No calendário do varal,

Místico, profano-religioso,

E o tempo segue tinhoso.

 

Março é como começo de ano,

Dos estudantes às aulas,

Muita gente dando o cano,

No desarrumar das malas,

Só faturas e boletos vencendo,

E cobranças na porta chegando.

 

Geralmente abril abre comportas,

Para penitência e a paixão,

As nuvens parecem tristes e mortas,

No agreste só se ver sequidão,

O índio espanta as tragédias,

E os números superam as médias.

 

Maio surge com sorriso de amor,

Celebra-se o Dia das Mães,

Umas felizes, outras com sua dor,

Sente-se o som dos forrozões,

Anunciando o nosso festão,

E o comércio fatura seu milhão.

 

Junho é dos santos juninos,

Santo Antônio, Pedro e João,

Salve, salve os nordestinos!

Que têm o Rei do Baião,

É o mês das crendices e da fé,

Das quadrilhas e do arrasta-pé.

Julho é o mês do imperador,

De Júlio César, o romano,

Da Gália, o grande conquistador,

Com a força de um espartano,

No meio do frio invernoso

Na divisa do caminho espinhoso.

 

Chamam de agosto, o agourento,

Da sexta-feira treze, o terror,

Sempre grande acontecimento,

Mês do rei Augustus, o vencedor,

Getúlio nele se suicidou

E Jânio do Governo renunciou.

 

Setembro é bagaceira e lamento

Da primavera que pouco flora

Por causa do desmatamento,

Com tanto fogo e a natura chora,

Comemora-se a independência,

Que ainda não saiu da indigência.

 

Outubro é dedicado às crianças,

Também da Senhora Aparecida,

Romeiros cheios de fé e esperanças,

Crenças que refletem nossa vida,

De virtudes, vitórias e lasqueiras,

Uns subindo, outros descendo ladeiras.

 

Vem finados em novembro,

Ainda tinha o dois de todos os santos,

Dos meus pais sempre lembro,

Os anúncios entram com seus encantos,

Que comovem incautos passageiros,

Neste trem de estrangeiros.

 

Dezembro é o Natal sem Fome,

Mais o fim de uma estrada de andança,

A felicidade entra e depois some,

O rico no banquete enchendo a pança,

Boas festas, luzes e foguetórios,

E poucos com Cristo em seus oratórios.

 

Assim caminha o nosso povo,

Todo mês com suas cores,

Achando que tudo é novo,

Na mistura de alegrias e dores,

Embarca na mesma estação,

E repete na viola a velha canção.

 

CÂMARA CRIA A LEI DOS FIOS

   A sessão de ontem (quarta-feira, dia 23/09) da Câmara Municipal de Vitória da Conquista foi repleta de atividades, como a entrada em vigor da Lei dos Fios que prevê multa de 30 mil reais para empresas que não renovarem cabos sem uso.

  Nas ruas da cidade é fácil observar, em pontos diferentes, postes que concentram uma grande quantidade de fios e cabos. Na maioria dos casos, são estruturas antigas e fiações que dificultam a identificação das empresas responsáveis.

  Foi sancionada pelo poder executivo a lei que regulamenta a instalação e a manutenção da infraestrutura de cabos suspensos em Conquista. A legislação foi resultado do projeto-de-lei número 64/2026, de autoria do vereador Ivan Cordeiro.

 A nova lei, que somente funcionará se houver fiscalização rígida por parte da Prefeitura Municipal e corre o risco de não ser cumprida como tantas outras, estabelece obrigações para concessionárias e empresas responsáveis por serviços de energia elétrica, telefonia, televisão a cabo, internet e outras atividades que utilizam a infraestrutura aérea.

  Também nesta quarta-feira foi realizada uma audiência pública sobre “Conquista Resiliente: Soluções Baseadas na Natureza e Adaptação Climática. A iniciativa partiu da vereadora Gabriela Garrido e propõe ampliar o debate sobre políticas públicas capazes de preparar o município para o impacto das mudanças climáticas, com foco em soluções baseadas, prevenção de riscos e participação social.

   Como em todas as partes do planeta e do Brasil em geral, Conquista já registra os efeitos do aquecimento global e começa a se preocupar em implantar políticas específicas de adaptação. Em março deste ano, o município chegou a decretar situação de emergência após período de 18 dias consecutivo de fortes chuvas que acumularam cerca de 286 milímetros.

   A sessão ordinária foi ainda marcada pela posse do vereador Alisson da Educação (Alisson Roberto Sales Sá), do partido União Brasil, e por uma série de debates sobre educação, saúde, infraestrutura, mobilidade urbana, abastecimento de água e demanda das comunidades rurais.

  Alisson assumiu a cadeira que estava ocupada por Diogo Azevedo e a Câmara o empossou após receber a comunicação oficial do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia sobre a decisão que manteve a perda do seu mandato.

   Na noite da última terça-feira (dia 22/09), a Câmara de Vereadores celebrou o Dia Municipal do Contador, instituído pela Lei Municipal número 2148/2017, de autoria do ex-vereador Valdemir Dias e comemorado nacionalmente em 22 de setembro.

  A data fez referência à criação do primeiro curso superior de Ciências Contábeis do Brasil, na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

NA LINGUAGEM DE GIL VICENTE E CAMÕES

  Quando ainda era menino e morava com meus pais na roça, falava e escrevia “errado” como os matutos sertanejos. Quando fui para a escola na cidade, todos colegas arreliavam de mim. Era motivo de piadas e bullying. Demorei muito para aprender o “certo”.

   Foi no sertão profundo, fora da zona da mata e do litoral dos engenhos, que os primeiros colonizadores portugueses, a partir dos séculos XVI, XVII e XVIII, principalmente com as sesmarias, levaram a linguagem escrita e falada para os rincões do Nordeste.

  Quem abre essa questão é o historiador especialista em cangaço, formado na visão da escola gilbertiana, Frederico Pernambucano de Melo, em sua obra “Guerreiros do Sol”, ao citar outros autores, como Luis Aguiar da Costa Pinto, Câmara Cascudo, Euclides da Cunha, dentre outros.

  “No prefácio à segunda edição”, Gilberto de Melo Kujawski, destaca a fala de Pernambucano quando assinala que o nordestino não fala o português errado (como parece ao homem da cidade) e sim, o mais puro vernáculo do século XVI, contemporâneo de Gil Vicente e Camões.

  “O sertanejo nascia, crescia e vivia limitado pelo mais severo isolamento, organizando o poder por sua conta e risco, longe dos centros oficiais de administração, polícia e justiça”.

  No primeiro capítulo sobre o ciclo do gado, ou do couro, Frederico descreve a postura arcaica, religiosa medieval, messiânica, familiar, o conservadorismo político arraigado, bem como o seu precioso classicismo vocabular, confundido por estudiosos apressados com o que seria o falar errado.

  Na verdade, conforme reforça o escritor, se está diante do “português do século XVI”, do falar clássico de Camões e Gil Vicente, segundo demonstraram as pesquisas de Mário Marroquim e Virgílio de Lemos.

  Câmara Cascudo chega a usar o termo “vocabulário teimoso”, para acrescentar que o sertanejo assim condicionado manteve o idioma velho, rijo e sonoro dos antigos colonizadores. Cascudo conta uma história que se passou com ele nos anos 30, e que nem por ter sabor de piada o privou de passar vergonha.

  “Há meses uma velha negra, ralhando com o neto glutão, informou-me que ele, começando a comer, não tinha PARANÇA. Confessou que ficou por muito tempo rindo da idosa. No entanto, ao voltar a Natal e, após ter consultado o seu velho dicionário de Morais, concluiu encabulado: Quem estava digno de risada era eu. PARANÇA é o ato de parar.

  Em “Notas de Referências”, Frederico Pernambucano de Melo volta a citar Câmara Cascudo de que o sertanejo não fala errado. Fala diferente de nós apenas. Sua prosódia, construção gramatical e vocabulário não são atuais nem faltos de lógica.

  Em sua visão, a rodovia, há poucos anos, conseguiu prender o sertanejo em massa ao litoral e sua linguagem está se modificando ao contato do nosso palavrear brasileiros diverso. Mesmo assim, ainda existem, vocábulos clássicos.

  “O que nos faz sorrir é a nossa ignorância dos escritores portugueses de outrora. Em Luis Gomes perguntei ao prefeito Antônio Gonçalves se morava na vila, no que respondeu “tenho casa aqui, mas sempre ASSISTO na fazenda”.

   O poeta de “Marília de Dirceu”, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1807), um dos chefes da Inconfidência Mineira, assim enumerava suas posses românticas: “Tenho próprio casal e nele ASSISTO”.

  Camões não usava ESTOU (penso), VENTURA (sorte), HOME (no sentido pronominal indefinido), CALIDADE, DESAGARDECIDO (desagradecido), ERARO (claro), DIXE (disse), ALEVANTAR (levantar), ARRECEIO, PRÓPIO (próprio), TREIÇÃO (traição).

  Quando um sertanejo diz FILOSOMIA, em vez de fisionomia, nós achamos uma graça. Luis de Camões, o hiperplásico das nossas antologias escolares dá um exemplo: Que era DALTA geração/ Logo na FILOSOMIA…

 Sá de Miranda escrevia ALUMEIA, TROMENTO, DEMUDADO, HOME: “De tal sono as deixam cheias/ Que não pode HOME erguer”. O sertanejo emprega ENTONCES, ASSOSSEGOU, EMPACHO (embaraço), DESPOIS, INTÉ (até), ANRIQUE por Henrique. Assim assinava o cardeal Rei Dom ANRIQUE. Não convém rotular de português-errado o linguajar do nosso sertanejo.

   Interessante que BABULAGEM em nosso Nordeste corresponde ao nosso fake news inglesado, ou o que é notícia falsa, mentirosa.

O INTELECTUAL E O POVO

  Às vezes, os temas se cruzam em meu caminho e aí entra aquele dilema. Pensei em falar um pouco sobre as estações do ano que, com o aquecimento global, ou mudanças climáticas, estão cada vez mais confusas e indefinidas.

  Ontem (dia 21/09) foi comemorado do Dia da Árvore, aniversário do meu netinho Samuel, e pensei que temos menos árvores no planeta devido ao desmatamento, sobretudo no Brasil. Primavera entra neste 22 de setembro, conforme a cronologia do tempo, mas temos menos flores e a estação tem a cara de verão.

  Talvez esse negócio de intelectual e povo não sejam termos mais adequados, mesmo porque o primeiro é um tanto pedante. Quanto ao segundo, todos nós somos povo, uns com nível mais baixo e outros mais alto.

  Na verdade, o que quero mesmo dizer é que nos tempos atuais percebemos um grande distanciamento entre aqueles poucos com conhecimento e saber mais crítico e lógico do que os que estão naquela camada mais baixa do entendimento, dificultando o diálogo em todos os segmentos da vida. A nossa gente hoje aceita de bom grado, por exemplo, a descarecterização do São João e da cultura popular em geral.

 Da mesma forma que em nosso país existe uma profunda desigualdade social, em decorrência da concentração de renda cada vez mais acentuada, essa desigualdade também se acentuou no caso da intelectualidade, ou do conhecer geral.

  Este distanciamento do qual me refiro, não se observa apenas entre os mais pobres, mas também em muitos com maior poder aquisitivo, a classe média, por exemplo, e mesmo os mais ricos que, nos últimos anos, colocaram a riqueza acima da escolaridade, inclusive os que a obtêm de forma ilícita e corrupta.

    Entendo que esta diferença aumentou em razão de diversos fatores. Nos últimos 60 ou 70 anos houve um atrofiamento da educação e da cultura; reduziu-se o número de leitores, principalmente a partir do avanço tecnológico da internet com o celular; e o conteúdo das nossas universidades sofreu um desgaste em consequência dos fatores acima citados. Os nossos jovens perderam a essência da boa música, do se debruçar num livro, numa peça teatral, num filme autoral e preferem o caminho mais fácil.

   A mudança do próprio ensino curricular que mais prioriza a formação técnica, para atender ao mercado de trabalho, que as disciplinas de conhecimento geral em outras áreas das humanas, como história, português, geografia, filosofia e sociologia (estas duas últimas nem mais existem), fez encolher essa massa crítica do pensar.

   É uma questão complexa e polêmica numa discussão entre os próprios chamados intelectuais. Quase esquecia aqui de citar o período da ditadura militar como um dos fatores que contribuiu para distanciar este espaço do saber intelectual e os que entraram num vazio do desconhecimento.

  Pode ser que esteja errado, mas vejo as pessoas hoje mais distantes do racional, o que as levam a serem mais manipuladas e enganadas. Repetem o que ouvem como papagaios e não conseguem diferenciar o falso do mais próximo à verdade.

 

 

 

A OUTRA FACE DE LAMPIÃO

“LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO”

– Cheguei com fome, nudez e dinheiro

Foi assim que Lampião disse ao pisar em terras baianas por volta de agosto/setembro de 1928 ao atravessar o São Francisco, o “Velho Chico”, vindo corrido de Pernambuco pela persiga das tropas e depois de uma derrota em Mossoró, em 1927.

Era um novo mundo para ele e entrou por aquelas bandas de Santo Antônio de Glória. Como descreve o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o “rei do cangaço” tratou logo de enterrar seu tesouro em saco de couro na Serra do Tonã.

Depois seguiu até a fazenda Aroeira, em Jeremoabo, do velho amigo coronel Saturnino Nilo onde se refez e recebeu alguns cabras, dentre eles o Moreno. O fazendeiro tinha salvo conduta para tanger suas boiadas até Rio Branco, hoje Arcoverde, em Pernambuco.

Nilo recomendou que ele procurasse o coronel João Sá, de Jeremoabo, o coronel João Maria de Carvalho, de Serra Preta e o poderoso Petronildo Alcântara Reis, dono de 33 fazendas, que residia em Glória.

Com aparência de que pretendia se regenerar e deixar o cangaço, como ocorreu em 1926, em Juazeiro do Norte, no encontro com seu Padim Ciço, Lampião procurou o vigário Emílio Moura Ferreira.

Em seguida foi apresentado ao coronel Petronildo, o Petro, com quem conversou longamente, falou da sua vida e até fecharam negócios em sociedade. Passou uma ruma de dinheiro e lá na frente o coronel lhe deu o bote.

Lampião ficou satisfeito e até matutou em ser um fazendeiro negociante. O coronel lhe ofereceu a fazenda Três Barras, perto de Patamuté, em Curaçá, para pouso onde ficou por cerca de quatro meses numa vida boa de rei.

Com suas habilidades de convencimento, conquistou quase todos habitantes das caatingas, como fazendeiros, vaqueiros e lavradores. Com fala mansa, bondade política e sagaz, colocou em prática sua estratégia de guerra de guerrilha.

Nesse período, Lampião passou a ser chamado de “O Homem”, por praticar caridade para os desafortunados, resolver litígios de terras, conflitos pessoais, problemas de saúde, partos, mordidas de cobras, aplicando seus conhecimentos de medicina rústica à base de raízes.

Como bom vaqueiro que tinha sido em sua juventude, era sempre procurado para curar bicheiras, mal triste e até extrair bezerro entalado. De tão conselheiro, o padre chegou a dizer que era melhor que muitos missionários. Resolvia todos problemas das redondezas fazendo até o papel de juiz.

Pelas suas ações e impondo moralidade às famílias, prendendo ladrões de bode, agindo com repressões aos trajes femininos, pagando fiados nos botecos e armazéns e solucionando casos de desonra com casamentos, Lampião passou a ser visto como um messiânico do tipo Antônio Conselheiro.

Seu cabra Zé Sereno contou que um rapaz se queixou a Lampião que o dono da fazenda não queria pagar os homens do eito. Ele foi até lá, reuniu os trabalhadores e obrigou o fazendeiro a quitar as dívidas, recomendando que ninguém fosse mandado embora.

Com o tempo, tornou-se religioso fervoroso. Todas as noites, antes das festanças que ele mesmo promovia, com danças, xaxados, baiões, valsas, quadrilhas e polcas, realizava rezas e novenas. Não perdia sentinelas de defunto. Mandava todo mundo confiar em Deus.

Todos passaram a dizer que “O Homem” era justiceiro e o canonizaram como um santo. O santo Lampião era “O Homem” devoto e querido dos sertanejos da região. Não era mais visto como aquele sanguinário.

Enquanto isso, com sua eficiência e perfeita organização, Lampião montou sua rede de coiteiros. Ele sabia que essa situação não ia resistir por muito tempo, pois logo soube que seus inimigos estavam em seu encalço.

Não tardou, a força de Manuel Neto, o nazareno de Pernambuco, conhecido como “Cachorro Azedo”, entrou na Bahia cometendo desatinos. Matou um homem só porque deu água a Lampião. Ao saber do que vinha acontecendo, tratou de se preparar para o pior.

Como estava acabando seu sossego, Lampião montou sua tropa, recrutando cabras fora da lei. A fazenda Três Barras passou a ser local de treinamento, o seu quartel-general. Chegou a reunir cem homens, inclusive Corisco e os irmãos Engracia.

Os fazendeiros começaram a desconfiar das suas atitudes, mas participavam das suas festanças e até davam dinheiro. A gota d´água para Lampião se desembestar pelo sertão baiano e cair no cangaço foi a traição do coronel Petro que tentou lhe envenenar e ficar com parte da sua sociedade.

O coronel instruiu uma viúva de suas fazendas a envenenar Lampião, só que como sempre desconfiado, descobriu a trama quando meteu sua colher de prata na comida. Tocou fogo na casa e jogou a mulher dentro. Soube que tudo foi a mando do coronel.

A partir dali, depois da fuga do coronel para Pernambuco, Lampião destruiu a maioria de suas fazendas, mantando todos animais e incendiando casas, currais e outros equipamentos. Deixou o coronel na desgraça.

Lampião voltou ainda mais cruel, derrotou as forças de Manuel Neto e caiu na caatinga baiana percorrendo todas regiões do sisal, de Senhor do Bonfim, Juazeiro, Curaçá, Campo Formoso e boa parte da Chapada Diamantina, como Morro do Chapéu, Lençóis, Andaraí, Mucugê, Piatã e outros municípios. Horácio de Matos, em Lençóis, e Douca Medrado, em Mucugê, eram seus amigos. Saqueou povoados, fazendas e cidades, matando quem atravessasse em sua frente.

A CEGUEIRA IDEOLÓGICA POLÍTICA É COMO FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

  Um aponta o dedo para o outro e os dois negam seus malfeitos, sujeiras e corrupções. No Brasil de hoje existe uma cegueira ideológica onde pessoas, sejam de esquerda ou de direita, compactuam com o político da sua corrente, do seu partido, mesmo sabendo que ele está envolvido em irregularidades, falcatruas e atos ilícitos.

  Esta cegueira, por questão ideológica, faz o cidadão de bem, de caráter e honestidade perder a razão, trair sua própria formação e apoiar o indivíduo que comete desvio de conduta. Ele coloca sua ideologia acima daquele que age com desonestidade. O radicalismo político é como o fundamentalismo religioso. Os dois são irmãos siameses.

Numa discussão, a pessoa radical procura fazer vistas grossas e argumentar que o corrupto é inocente, que as acusações contra ele são infundadas, que não passam de perseguições políticas e são apenas ilações.

   Ele não consegue aceitar que a nota que recebeu é falsa, mesmo tendo a confirmação de um perito no assunto. O radical não muda de opinião e não tem diálogo porque acha que não deve dar o braço a torcer para seu opositor. Em seu imaginário, tal atitude de reconhecer o erro seria uma fraqueza e humilhação.

  A ideologia cega é um grande mal para os bons, para os sérios e para aqueles que sempre combatem a corrupção. É como consentir que tal governante rouba, mas faz, principalmente se for em prol do desenvolvimento social em nome do povo.

  – Ah, ele está sendo investigado, mas está fazendo um bom trabalho em defesa dos mais pobres, dos excluídos, da democracia e luta pela liberdade de expressão e pelo avanço da igualdade, como se tudo isso justificasse suas ações imorais.

   Confesso que não consigo entender determinados posicionamentos de ideólogos de esquerda que tentam acobertar, negam ou evitam citar crimes praticados por gente da sua mesma ideologia. Isso também acontece no caso inverso quando se trata da direita ou de centro.

  Por muitos anos, membros do Partido Comunista, principalmente o francês, por pressão dos radicais, com medo do expurgo e até de serem mortos, procuraram esconder e desmentir os crimes sanguinários praticados por Stalin na União Soviética contra seus opositores.

  Por ser de esquerda, que por princípio prega a honradez, a seriedade e a justiça social para todos, o ato de corrupção é bem mais grave e merece mais repúdio do que a ladroagem advinda de um elemento de direita não confiável porque deste não se espera muita coisa em termos de lisura.

   Prezo mais pela boa formação, aquela de berço, passada de pai para filho, vinda dos mais antigos que honravam com a palavra dada do que ter ideologia de esquerda e ser salafrário, mentiroso, enganador de promessas, do tipo que fala uma coisa e faz outra por debaixo do pano.

É QUE NEM…

  • (Chico Ribeiro Neto)

    Foi que nem um saco de pipoca domingo de tarde, chupar um caju vermelho e tomar uma cerveja bem gelada.

    É que nem você chegando de viagem, perder o medo de visagem e acender a luz no escuro.

    Foi que nem viajar no por do sol, vestir a velha calça ou tomar um sorvete de cajá.

    Que nem melancia aberta na hora, você chegou em boa hora, e aí rumbora.

    Como a lua chegando, um prato de andu com carne do sol e ver um girassol.

    Foi que nem ver o rio cheio, o coração vazio e o tio que deu um constipio.

    Que nem a curva do rio, a primeira namorada e a estrada esburacada.

    Como a estrela caindo, um cavalo passando e ela mergulhando.

    Foi igual a um beijo roubado, um soco bem dado e um tapa desferido.

    Como a feira de manhã, sonhar com onça e abrir uma manga rosa.

    Que nem acordar achando que a vida é boa, resolver andar à toa e o concerto dos sapos na lagoa.

    É que nem o olho do peixe, o rabo do macaco e o sofrimento da tartaruga.

    Como mordida de marimbondo, o grito furibundo e o olhar do moribundo.

    Foi como a cortina que voa, a água que escoa e aquela canoa.

    Foi que nem o canto do aniversário, o curió na janela e a voz dela.

    Parecia uma cantiga longe, mas estava bem perto.

 





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