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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

AS LENDAS SÃO CONTROVERSAS

  Sobre personagens que marcaram histórias em suas vidas no poder, na política, no campo social e até no âmbito da violência, sempre existiram controvérsias e versões diferentes da parte dos historiadores, pesquisadores, testemunhos, antropólogos e estudiosos do assunto. Quem ler, estuda e pesquisa precisa apurar bem os fatos e ter critério para discernir o falso do verdadeiro, o que não é fácil.

  Venho me debruçando sobre a questão do cangaço nordestino há cerca de seis meses, tendo como figuras principais Antônio Silvino, Lampião, Sinhô Pereira e outros. Os autores, escritores e jornalistas apresentam versões variadas, com base em jornais, pesquisas e de sertanejos testemunhos.

   Vamos aqui focar no caso específico de Lampião. Seu nascimento, sua vida ainda jovem, suas andanças, sua entrada para o cangaço, façanhas, herói ou facínora, sua morte em Angicos e outras passagens são por demais controversos. O tema é fascinante e vasto, bem como difícil de ser desvendado.

 O sertanejo Luis Gonzaga Cordeiro de Magalhães acha que “a morte de Lampião é uma mentira que serve para guardar o segredo de sua vida e talvez, dessa forma protege-lo” – Na minha opinião, Lampião não morreu, mas nós somos obrigados a dizer que ele morreu”.

   No livro “Lampião – Senhor do Sertão”, por exemplo, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve a narração do cordelista José Cavalcanti e Ferreira, apelidado de “Dila”, que conta ter sido irmão de Lampião e que ele era branco de olhos azuis de quase dois metros de altura, descendente de holandês. São doideiras sua entrevista e seus escritos de cordel!

   De acordo com ele, existiram diversões Lampiões, tipos valentões que colocavam um chapéu de couro dobrado e faziam se passar pelo verdadeiro. Chega a dizer que o morto em Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, foi um preto com defeito no olho, não era o Lampião de verdade, mas um impostor.

   Para este tal de “Dila”, Lampião teria morrido somente em 1970, no Rio Grande do Norte, esquecido de todos, sem que se saiba até hoje o segredo da sua verdadeira identidade.

   O cara sempre foi fascinado pelas narrações e histórias relativas ao cangaço. Chegou a afirmar ser o irmão legítimo de Lampião que, por causa da sua fama, vivia na clandestinidade, fazendo dele um, herói invencível.

  Segundo ele, existiram falsos Lampiões. Um deles era o chamado Lira, natural da região de Moxotó e tinha um outro da região do Pajeú, a quem todas as obras fazem referência.

 “O verdadeiro Lampião só fez três vinganças, era meu irmão e se chamava Cassiano Ferreira Gomes”. De acordo com o “Dila” (não dá para acreditar nele), o seu Lampião nasceu em 12 de agosto de 1877, na terrível seca. Seu pai, de origem holandesa, teria vindo para o Brasil em 1830.

  O “Dila” ainda diz que, quando seu pai morreu, sua mãe instalou-se em companhia dos nove filhos na localidade do Rio Tinto e encontrou refúgio na casa de José Ferreira, (o pai do “impostor” Virgulino Ferreira). Mais parece caso de Maria e José.

  Em 1917, esses irmãos Ferreira de “Dila” resolveram visitar Juazeiro do Norte, do “Padim Ciço”. Entretanto, quando passavam na cidade de Batalhão, ou Barbalha, o coronel Eudócio os convidou para trabalhar em sua fazenda.

  Os “Ferreira” viveram por muito tempo com o coronel que, num, certo dia, pelo bom serviço que prestaram, resolveu dar um nome para cada um. As estórias dele são malucas! Ele sustenta que na família Ferreira existiam quatro Virgulino. O Ferreira da Silva, de nome Cassiano, o irmão dele, filho de Isabel Ferreira, foi o único cangaceiro.

  Em seus escritos de cordel, o “Dila” ressalta que o decapitado em Angico não era o Cassiano, rebatizado Virgulino Ferreira da Silva, mas o negro Anísio Luis Ferreira. O verdadeiro teria ido a Angico oito dias antes do massacre e prevenido a Anísio da chegada iminente de uma Força Volante.

  “O Lampião verdadeiro nunca foi vaqueiro nem tocador de sanfona de oito baixos. Lampião era ferreiro em fundição. Foi ele quem fez essa máquina em que eu faço os meus impressos. A máquina rolou de mão em mão e eu sempre ouvia falar dela, mas não atinava o roteiro, até que por acaso veio parar na minha mão”.

  Para a autora da obra, Élise Grunspan-Jasmim, “Dila” aparece aqui como o arauto de uma cultura popular que se transmite por meio de folhetos de cordel que teriam sido impressos na máquina fabricada pelo “verdadeiro” Lampião”. “Dila” percebeu a lógica da fabricação do mito.

  O confronto de testemunhos revela a impossibilidade de estabelecer uma biografia unívoca, tão ambígua, contraditória e inacessível sobre o personagem. A maioria dos elementos dessa biografia de “Dila” está marcada por incertezas e dá a impressão de uma história de ficção escondida de temas recorrentes, cuja relativa coerência permite, entretanto, entrever uma estrutura simbólica.

O SARAU NÃO É UM MOVIMENTO POLÍTICO E MUITO MENOS UM PARTIDO

 De uns tempos para cá, certas pessoas entendem que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica partidária, contanto que seja de esquerda. Não admitem, de hipótese alguma, que seja de centro ou de direita. Até aí, tudo bem.

  No entanto, queremos deixar claro que o “Sarau A Estrada” sempre vai estar ao lado dos movimentos culturais em defesa do fortalecimento do setor, como na luta pela criação do Plano Municipal de Cultura, preservação do patrimônio arquitetônico, realização de festivais de músicas, literatura e outras artes, bem como, pela abertura dos equipamentos que se encontram fechados.

  Ora, quando fundamos esse grupo há 16 anos, em 2010, chamado a princípio de “Vinho Vinil”, nossa primeira intenção foi a de fazer cultura através da música, da declamação de poemas, contação de causos e, principalmente, na troca de ideias e conhecimento entre artistas, intelectuais, estudantes, professores e pessoas interessadas pela arte. Crescemos ao lado da defesa e da preservação da nossa cultura.

  Não criamos um partido ou movimento político, quer seja de direita, de centro ou de esquerda, embora fazemos política cultural durante todos esses anos, defendendo a sua revitalização, levantando propostas e reivindicando melhorias para o setor, não importando a posição ideológica do governo que esteja no poder.

   Dentro do “Sarau A Estrada”, seus membros participantes possuem um nível cultural acima da média, uns mais e outros menos, onde cada um tem sua ideologia própria e a respeitamos porque não temos o direito e nem a função de doutrinar a cabeça de ninguém.

  Durante todo este período discutimos e debatemos vários assuntos envolvendo as diversas linguagens artísticas, como também colocamos na mesa questões altamente políticas no âmbito regional, estadual, nacional e internacional, sem precisar definir o Sarau como um movimento de esquerda, como tem gente que assim pensa e acha que deve ser.

   Por não termos transformado o “Sarau A Estrada” num movimento político-partidário de esquerda, direita ou centro, onde os atritos de ideias iriam se aflorar em inimizades, brigas e separações, com a consequente polarização, acredito que nisso esteja o segredo da sua longevidade. Fosse um movimento político de esquerda, simplesmente deixaria de ser Sarau para ser um partido.

   Por ser um grupo que reúne uma massa crítica de conhecimento diferenciada, e pelo seu fortalecimento representativo perante a sociedade, muitos interpretam que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica de esquerda.

   Em meu modesto entendimento, se assim procedermos, o Sarau perderá sua essência cultural para se transformar num movimento puramente político. Ademais, aqui dentro, a maioria de seus membros já é filiada a algum partido onde faz a sua militância política.

 Ouvi gente dizer que o “Sarau A Estrada” é só festas para ouvir música, beber e comer, só que essas pessoas nunca frequentaram nossos encontros. Aqui distribuímos cultura e trocamos conhecimentos e ideias. Quanto a política partidária, que cada um faça em seu comitê.

O JEITO DO SONHO CHEGAR

(Chico Ribeiro Neto)

O primeiro sonho veio numa garrafa estrangeira que chegou boíando na praia do Unhão, em Salvador. A garrafa estava muito bem tampada com uma rolha, mas dentro não tinha nenhuma mensagem. Foi fácil sonhar com o lugar de onde ela veio, os peixes que viu no longo trajeto e a cara de quem soprou um sonho ali dentro.

O segundo sonho chegou dentro do ônibus viajando pra Ipiaú, naquele estágio entre dormir e estar acordado. Tinha água no meio – nos meus sonhos o mar sempre aparece -, mas a conversa constante de três passageiros beliscava a película que separa o sonho da realidade.

Já  o terceiro sonho chegou cantando e parecia com uma moça magrinha que morava na Rua Tuiuti e tocava violino. Compenetrada, passava ligeirinho pelo meio do “baba” carregando o instrumento. Era um sonho vê-la andar.

Outros tantos sonhos chegaram nos volumes do Tesouro da Juventude, enciclopédia de 18 volumes que trazia o mundo. Era bom abrir um volume e saber como é que o tatu vive ou onde fica Tegucigalpa.

Dormir dentro de um teatro, durante um ensaio, foi também uma boa forma de sonhar. Estava ensaiando uma peça no Teatro Vila Velha  mas a cena em que eu entrava demorava tanto pra chegar que dava tempo de tirar um cochilo e sonhar com perdidos personagens, teimosos em não deixar o palco nem os bastidores quando o espetáculo terminava.

A atriz Olga Maimone, que morava num dos camarins do Vila Velha, sabia muito bem disso.

Mais sonhos chegaram com o cinema. Terminava de ver dois filmes e dois seriados – hoje conhecidos como minisséries – no Cine Santo Antônio e a cabeça explodia em imagens. Tinha sido um filme de guerra, com alemão e japonês sempre perdendo, e um caubói  com indio sempre morrendo.

A música, a carruagem passando lá longe e, quando a noite chega, aquele namorinho gostoso com a moça que chegou perto da fogueira, “só pra me aquecer um pouco, John”, doida pra ganhar um beijo. O banjo toca lá longe e o uísque corre solto. Tem um bocado de indio espreitando a barraca, mas amanhã cedo a cavalaria vai chegar tocando corneta e matar todo mundo sem morrer um soldado.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 15/6/1991)

 

FOGO NA SERRA!

  No último sábado passado (dia 04/07) ou, se não me engano, no domingo (dia 05/7), nossas lentes flagraram um grande incêndio no alto da Serra do Periperi que, pela cor da fumaça preta, poderia ser queima proposital de pneus. Por si só, isto já representa um absurdo em termos de agressão ao meio ambiente, principalmente na Serra que há quase 100 anos vem sendo depredada pela ação humana. Por ter ocorrido em final de semana, pouca gente percebeu e não vi e nem li nenhum noticiário na mídia. Esse incêndio durou por muito tempo e nem sei se lá estiveram o Corpo de Bombeiros e a fiscalização da Prefeitura Municipal para averiguar a situação e conter o fogo. Tudo indica que foi um ato criminoso premeditado. Além da poluição tóxica no ar, os moradores dos bairros mais próximos, na altura do Anel Viário, certamente foram impactados. Apesar de ter sido tombada no último governo do ex-prefeito José Pedral, por volta de 1996, a Serra do Periperi continua sendo alvo de invasões e degradações por negligência das administrações públicas que não montam uma estrutura adequada para protegê-la  dessas ações nefastas, como incêndios dessa natureza.

DINHEIRO E PODER

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Diabólicos e divinos:

O dinheiro e o poder

Traçam nossos destinos,

Flechas a nos sangrar,

No viver e matar.

 

Do escambo das mercadorias,

Do gado, semente e sal,

A troca negociável é farta,

Na Lídia da Turquia,

Do ouro e da prata,

Nasce o vil metal,

Lembro do meu velho corcel,

E a China inventou o papel.

 

O dinheiro e o poder,

Tudo é desigual,

O capital enforca o ser,

No contrato social.

 

O dinheiro compra até amor,

Ilude a tal felicidade,

O diabo entra como tentador,

O poder com sua maldade.

 

Oh, senhor deus dinheiro!

Que não chega aos miseráveis,

No poder quem manda é Zeus,

No sistema dos descartáveis.

 

 

O HÁBITO DA LEITURA

Muitos falam de a necessidade do ser humano manter o hábito da leitura, mas pouco sobre o de escrever. Confesso que sou um inveterado e viciado em ambos, como se fosse uma “cachaça”, pois ainda representam o alimento da minha alma enquanto vivo for.

Apesar da mente cansada e desgastada como hoje, depois de um dia estressante, como em outros, mesmo com minha idade avançada, sou teimoso e insistente. Quase não abriria o computador para digitar algumas linhas, mas esta atitude para mim seria um pecado.

Em meus cinquenta e três anos de jornalismo profissional, acho que nunca passei um dia sem escrever ou rascunhar algo, mesmo em finais de semana. Às vezes, a cabeça pesa e as ideias não fluem como deveriam, mas faço esse exercício, até de maneira forçada.

Enveredo pelo artigo, pelo comentário, pela crítica, pela crônica e até pela poesia. Nem sempre alcanço o sucesso desejado, nem com a ajuda dos deuses, que algumas vezes ameaçam me abandonar no leito dos pensamentos.

Posso até deixar de ler quando é muita a correria, mas seja pela manhã ou à noite, lá estou eu como este gesto como se fosse um cacoete. Será uma doença ou vício psíquico incurável onde tenho que me debruçar num divã de um analista para me curar?

Quando sentei na mesa tela, pensei em falar do Trump que saiu dos infernos (agora ameaça invadir o Brasil) para tocar fogo no planeta; apontar as bizarrices da Copa Mundial de Futebol; a máfia da Fifa que tudo faz no final do campeonato para empurrar os campeões para a reta decisiva, para ganhar mais dinheiro com as audiências e satisfazer os patrocinadores; ou escolher um tema nacional.

Sempre antecipo um assunto, mas como não deu, surgiu, por acaso, o título referente ao hábito de escrever, que não estava em minha pauta. Atrevido como sou e insistente até fim quando traço um objetivo, vou seguindo o caminho por entre veredas deste sertão profundo, espinhoso e carrasco, sem destino onde chegar.

Claro que a gente escreve para o leitor e quer ver o seu produto bem embalado e atrativo, com um bom conteúdo para ser aceito pelo consumidor. A literatura sempre me fascinou como uma arte que mais complementa as outras, seja na música, no cinema, no teatro e até na dança.

Bem, é o que tinha para oferecer hoje e cumpri com meu dever de manter o hábito de escrever todos os dias, mesmo sem aquele pique mental que exige do escritor.

Só para finalizar, para escrever, temos que antes começar pelo hábito sagrado da leitura, pouco utilizado nos tempos modernos, principalmente no Brasil de maioria inculta.

O DINHEIRO E O PODER

  O dinheiro e o poder. Quem veio primeiro? Acredito que seja mais um enigma a ser decifrado pelos pesquisadores, historiadores, antropólogos, filósofos, teólogos e cientistas, se bem que no sentido divino de um deus, o poder veio primeiro.

   Na concepção de antigamente, o todo poderoso era escolhido pelo divino. Há quem ainda fale isso nos dias atuais. Só não vou citar aqui os nomes bem conhecidos de todos que governam como se fossem deuses opressores do povo.

  Alguém pode dizer que são apenas elucubrações e que cada um tem o seu ponto de vista. Eis a questão, “ser ou não ser”! No plano terreno, o poder foi adquirido por aqueles que tinham mais posses e forças para guerrear e dominar outras tribos.

  Pela carruagem do tempo, no início só havia o escambo, ou troca de mercadorias entre os povos sedentários que eram agricultores e domesticadores dos animais. Os colhedores e caçadores eram nômades livres e não ligavam muito para essa coisa de poder.

  Do escambo nasceu o dinheiro através do metal vil do ouro e da prata lá na Lídia (hoje Turquia), bem antes de Cristo. Somente depois apareceu o bicho diabo dinheiro em espécie, confeccionado pela China. A partir daí o poder humano tornou-se mais forte com a injeção do dinheiro.

  Bem, essa história saiu da minha cabeça, mas pode ser contestada. Como diz o Chicó, “só sei que foi assim”, mas ainda ficou embolado sobre quem nasceu primeiro. Em meu juízo já com meus neurônios desgastados, considero que o poder veio primeiro, bem antes da invenção do dinheiro, depois do escambo.

   Nem sei o que me deu na cachola hoje de escrever algumas linhas sobre este tema complicado. Pode ter sido os entreveros que passei, os quais me levaram a essa doideira desse negócio de dinheiro e poder. É que estamos sempre ligados aos dois neste sistema capitalista em que vivemos e deles somos escravos.

   Como já me meti nessa enrascada ou nessa barca furada, lembrei da antiga Grécia com o surgimento da democracia que diz que “todo poder emana do povo”. Acho que isso é uma grande furada que os filósofos criaram, o mesmo que “a voz do povo, é a voz de Deus”.

   Fui olhar no dicionário o significado de “emanar”, do latim emanare. Michaelis 2000 (Moderno Dicionário da Língua Portuguesa), explica que a palavra significa originar-se, proceder, provir, sair de, desprender-se, disseminar-se em partículas sutis.

  Ora, nem lá na Grécia isso tudo saia do povo e sim do poder para dominar o povo. Então acho que é o contrário, ou seja, todo povo emana do poder, principalmente nessa era evolutiva da tecnologia e desde antes da revolução industrial lá pelo final do século XVIII.

  Na minha modesta análise, hoje para se alcançar o poder é preciso ter muito dinheiro, caso das nossas eleições, não somente no Brasil, mas, principalmente, no mundo capitalista ocidental. Quanto mais dinheiro, mais probabilidade de se chegar ao poder e com ele, mais dinheiro para se perpetuar nele.

  Portanto, mesmo numa democracia como a nossa, ainda tão falha que não preenche todos requisitos emanados (olhe aí o emanar) da Constituição retalhada e enxovalhada, com tanta desigualdade social, não engulo essa de que “todo poder emana do povo”.

   Terminei misturando dinheiro e poder com democracia e povo. Acho que fiz uma miscelânea e não vou mais me esticar pela frente senão acabo falando mais besteiras e asneiras.

  E para você, quem veio primeiro, o dinheiro ou o poder? Para quem gosta de polêmica, como meu amigo Manno, este assunto é um bom prato para ser saboreado a dois ou mais gente numa mesa de bar. Pode ser também numa roda de discussão de sarau. Não é meu companheiro Dal Farias. Isso é coisa para Itamar esmiuçar.

 

 

UMA DERROTA ANUNCIADA

   Depois de sepultar o defunto, os comentaristas da Rede Globo e demais analistas do futebol apontam os criminosos, no caso a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que há anos se tornou uma entidade de disputas entre o poder, foco de denúncias de corrupção e malfeitos, sem contar as trapalhadas.

   As críticas só apareceram quando o juiz norte-americano, que ainda deu uma ajuda ao Brasil ao marcar aquele último pênalti (não existiu) e esticou o tempo, apitou a peleja, dominada totalmente pela Noruega, que não é lá esse bicho papão. Passou pelo Japão no sufoco, como aconteceu no empate contra o Marrocos.

  Todos esses escândalos da CBF tendem a refletir no campo, como as influências políticas e econômicas das contratações que não deveriam acontecer.

   Algumas indicações tiveram o dedo oculto do dinheiro sobre aquele jogador que dá maior faturamento através do marketing, caso específico do Neymar, que no final da partida teve que exibir seu papel de moleque ao bater boca com o goleiro, como se estivesse num baba de várzea, fato este antiprofissional.

  Poderia repetir tudo aqui o que já foi dito por milhões de brasileiros que acreditavam, sem acreditar, quando entraram na onda, ou na pilha, dos chamados “influenciadores” em ficar “secando” os prováveis adversários mais fortes para perder, inclusive torcendo contra Argentina e outros países. Quem assim age, demonstra que não confia em seu time.

  Para mim, que venho acompanhando a Copa e a participação do Brasil desde 1962, esta foi a maior derrota anunciada de toda sua história. O futebol do Brasil começou sua fase de decadência a partir da leva de jogadores que por grana foram para Europa e outros países, deixando para trás a nossa escola do gingado, da “malandragem” no bom sentido e a cultura do nosso futebol arte.

  Ouvi muito papo de que os nossos atletas não tiveram garra, não suaram a camisa, não lutaram em campo como deveriam, ou coisa parecida, mas tudo isso não conta e nem adianta quando temos uma seleção mediana, isto é, sem altos craques como antigamente. O jogador um pouco acima da média é o Vinícius Júnior.

  Outros ainda comentaram sobre as contusões de Paquetá, Rafinha e até do Militão, mas nenhum desses comprometeu com o “desempenho” da seleção porque não são craques e peças que decidem uma partida. Todos são praticamente do mesmo nível. Qualquer substituição equivalia a trocar seis por meia dúzia.

   O desfalque seria preocupante se ali estivesse um Pelé, um Garricha, um Rivelino, Tostão, Romário, o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo Fenômeno ou outro semelhante, do mesmo patamar.

  Mesmo assim, naquele tempo das nossas saudosas seleções, quando um craque era lesionado, entrava outro, como ocorreu em 1962 com Pelé, na Copa do Chile.

   Continua a mania de trazer muitos jogadores de fora que atuam em outros países (não são lá esses craques), quando poderia incluir no elenco mais atletas dos nossos campeonatos. Muitos que mereciam ser indicados, terminaram ficando de fora.

  Após a derrota anunciada, a fala dos jogadores, no sentido de “erguer a cabeça”, corrigir os erros e trabalhar mais forte deu a impressão que a gente estava num Campeonato Brasileiro e tinham mais jogos pela frente para recuperar o fracasso.

   Acho que eles não entenderam que o jogo foi de “mata a mata” e quem perdia tinha que arrumar as malas e vir para casa. Será que  o técnico Ancelotti, que chegou num momento conturbado, não alertou sobre isso no vestiário?

Com essa seleção, o melhor treinador do mundo não chegaria à final da Copa. No futebol, não se fabrica craques. O máximo que se pode fazer é melhorar o nível técnico, seu posicionamento em campo, o acerto de passes e o domínio da bola. Por falar nisso, essa seleção machucou e maltratou a deusa bola. Coitada dela, sofreu bastante!

AS VÁRIAS VERSÕES SOBRE A MORTE DE LAMPIÃO ATÉ HOJE NÃO ESCLARECIDA

  Sempre se soube pela história que Lampião, Maria Bonita e mais nove de seus companheiros foram mortos pela Volante do tenente João Bezerra, na Gruta de Angicos, em Sergipe, em 28 de julho de 1938, mas há controvérsia, caro mestre, como dizia um aluno da Escolinha do professor Raimundo, ou do humorista Chico Anísio.

   No mundo do cangaço, este assunto até hoje não foi totalmente esclarecido pelos historiadores, pesquisadores, jornalistas e escritores. Não existe nenhuma prova científica de que a cabeça que ficou exposta no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, era mesmo de Lampião.

   Existem sim, várias versões e uma das quais é que o “rei do cangaço” teria ele mesmo tramado um envenenamento dos seus cabras, Maria Bonita ficado com um cangaceiro, possivelmente Luis Pedro, e depois fugido para Goiás onde morreu aos 83 anos.

  Esta é a mais esdrúxula de todas, mas outras falam que todos foram envenenados através de garrafas de bebidas pelo seu coiteiro de confiança Pedro de Cândida, o delator, a mando do João Bezerra.

   Na véspera, um cabra teria alertado que haviam furos de agulhas de seringas nas tampas e que Lampião não deu a devida importância para o caso. Outra foi de que a própria Maria Bonita colocou veneno num pote de água.

  Na época, e até nos tempos atuais, no psicológico dos sertanejos não entra a história de que as volantes tenham abatido Lampião e seu bando com tanta facilidade. A partir da sua fama de invencibilidade e de ter o “corpo fechado”, Lampião não se deixaria ser pego de surpresa do jeito como foi contada sua morte.

   Para muitos testemunhos, que inclusive viram sua cabeça um tanto esfacelada, aquele crânio não era de Lampião, mesmo mostrando o olho embranquecido.

Poderia ser de outro que também tinha problemas com as vistas. “Essa não é a cabeça de Lampião” – disse um sertanejo morador de Piranhas, município de Alagoas, do outro lado do Rio São Francisco.

  Outro argumento é o de que Lampião sempre foi um sujeito precavido, não confiava em ninguém e, quando estava num esconderijo, colocava sentinelas para vigiar qualquer movimento em redor. No massacre de Angicos, não havia guardas, e as volantes tiveram campo aberto para metralhar os cangaceiros.

   Esse debate foi aberto pela escritora Élise Grunspan-Jasmin em sua obra “Lampião – Senhor do Sertão”. Ela escreve que “a partir dos anos 50, começou a ganhar corpo um boato ao qual muitos autores, testemunhas e jornalistas emprestaram certo crédito: Lampião não morrera sob balas da polícia, mas envenenado na véspera”.

   Foi descoberto que o tenente João Bezerra era um corrupto, inclusive coiteiro e traficante de armas para Lampião. Ao saber disso, seus chefes oficiais teriam lhe dado um ultimato para que ele desse cabo de Lampião ou seria punido com prisão ou expulso da corporação militar.

 A autora Élise descreve que “em carta que mandou publicar no Diário de Pernambuco, de 19 de setembro de 1952, Manuel Neto, que dirigiu uma das mais importantes Forças Volantes de Pernambuco (um dos nazarenos que sempre perseguiram o “rei do cangaço”), afirma, no entanto, que João Bezerra mandara envenenar Lampião. O coronel José Alencar de Carvalho também admite o mesmo.

  Comentam também que os nazarenos, comandados pela família Flor Ferraz, nunca se conformaram de ter sido João Bezerra o mentor da morte de Lampião e que, por isso, espalharam esses boatos. A vitória de João Bezerra foi vista pelos nazarenos como uma vitória nacional que os privava do privilégio de resolver um contencioso entre dois clãs restritos ao seu território: O Sertão do Pajeú.

  O oficial Optato Gueiros, escritor sobre o cangaço e um dos grandes adversários de Lampião, por outro lado, não acredita na hipótese de envenenamento, mas concorda quanto ao caráter estranho das circunstâncias da morte de Lampião e seus companheiros. Ele procura um lógica naquilo que não foi propriamente um combate

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DUAS CARINHAS NO VIDRO TRASEIRO

(Chico Ribeiro Neto)

Estou no calorento e caótico trânsito de Salvador. São quase duas horas da tarde e enfrento um bruto de um engarrafamento na Avenida Paulo VI, na Pituba.

Alguém bateu em alguém ou então tem caminhão atravessado descarregando, Kombi de sorvete fazendo liquidação, três oficinas-estrela atuando, mais mesas de bar na pista e um guarda inteiramente descontrolado que só faz apitar.

Suspiro, enxugo o suor, olho pra cara do taxista ao lado, o que só faz piorar minha chateação. É quando algo à frente me chama atenção: dois garotos, de seus quatro ou cinco anos, ajoelhados no banco do fundo de um carro, começam a me dar adeusinhos pelo vidro. Fico sem responder, mas aos poucos e timidamente levanto a mão direita para acenar também.

Eles vibram e se agitam mais ainda no banco do carro. Novamente fico acenando e eles dando os adeusinhos cada vez mais rapidamente.

Os meninos usam farda da escolinha e começam a me fazer esquecer do engarrafamento. De repente, o de cara mais safada, com cabelo lourinho caído na testa, começa a fazer careta. Juro que tive vontade de responder a algumas – sei fazer boas caretas – mas fiquei com vergonha dos motoristas ao lado. Podiam até pensar que aquele engarrafamento estava deixando um maluco.

O carro se afasta só alguns metros, eles tomam aquele susto e, pra não caírem, apoiam-se um no outro. Riem de tudo, não dão a menor bola pro engarrafamento e agora começam a mostrar a merendeira, pasta, mochila, garrafa térmica e toda aquela pequena tralha de escolinha.

A cabeça vai longe, chega até a estrada Jequié-Ipiaú. Quando menino, gostava muito de dar adeus do ônibus para as crianças que ficavam naquelas casinhas onde Jequié começava a acabar pra começar a estrada.

Anos depois, causou-me espanto ver uma mãozinha de plástico que ficava presa ao vidro traseiro do carro e que dava adeus quando o veículo se movimentava. Muito sem graça, por sinal.

Volto ao engarrafamento, o suor escorre pelas costas, as caras em volta continuam a passar somente aborrecimento, mas aquelas duas carinhas à frente me confortam e chego até a ensaiar uma caretinha. Afinal  já estou acostumado é a receber histéricas buzinadas e até algumas “bananas” no trânsito.

Parece que agora o engarrafamento está terminando, o adeusinho deles vai ficando mais longe, até que o carro entra numa rua antes da minha. Tive vontade de segui-los até a escolinha, abraçá-los, beijá-los, pagar guaraná pros dois e dizer: “Vocês iluminaram hoje o meu dia”.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 5/12/1991)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 





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