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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

“CONTEUDO”, SEM CONTEÚDO

  – É, meu amigo, a sua matéria até que está boa, mas está faltando conteúdo – disse o editor ou redator (copidesque) do jornal após ter corrigido o texto do repórter. Ele quis explicar com isso que a reportagem necessitava de mais dados, informações e profundidade. Poderia ser melhor trabalhada e elaborada.

  Há alguns anos, a gente costumava ouvir uma música, ir a uma exposição de artes plásticas, ler um livro e tecer uma crítica construtiva de que sentiu a falta de conteúdo naquelas obras. Quando um filme não tinha conteúdo, era porque havia deixado um vazio, e o cineasta, ou autor, teria pecado no enredo.

   Naquela época, em tudo se procurava um conteúdo, uma mensagem de aprendizagem para a vida. Poderia ser num romance, num conto, numa prosa, num poema ou qualquer outro gênero literário, inclusive como numa pesquisa sobre história. “Aquela pessoa não tem conteúdo”.

  As pessoas tinham mais conteúdo no falar e no expressar. Quem não já ouviu uma observação de alguém de que o discurso de fulano foi cheio de floreios, metáforas, linguagens rebuscadas, mas não teve conteúdo. Quando ouço que a nossa humanidade entrou em decadência, entendo que ela perdeu o conteúdo de ser humano.

  Fui ao “pai dos burros”, o velho dicionário que quase ninguém mais usa (tudo é pelo Google), especificamente o “Michaelis 2000, Moderno Dicionário da Língua Portuguesa”, e dei uma espiada na palavra conteúdo.

   Diz que é um adjetivo do latim vulgar contenutu, contido. Aquilo que está contido ou encerrado em algum recipiente. Assunto, tema, matéria de carta, livro, etc; teor, texto. No aspecto social, o mesmo que cultura. Conteúdo térmico: O mesmo que conteúdo de calor. Existem outras definições, a depender do aspecto da abordagem que é feita.

  A esta altura, muitos devem está comentando que esteja sendo antiquado, mas, na minha modesta visão, existe o “conteúdo” e o conteúdo. Aquela embalagem, ou aquela mala tem um “conteúdo” falso. Ouve-se muito essa expressão por aí. O conteúdo daquela medicação não é verdadeiro.

 Com os tempos modernos, em plena era da tecnologia da internet e agora com a IA (Inteligência Artificial), muitas coisas mudaram de sentido. Nas redes sociais, por exemplo, qualquer porcaria que se poste é chamada de conteúdo. Se você fizer uma careta é “conteúdo” com milhões de visualizações e seguidores.

  Dias desses estava vendo uma reportagem na televisão sobre uma cabra ou carneiro, chamada de Chanel, que uma senhora cria em sua casa, que é um tremendo sucesso nas postagens que faz. O tempo todo o repórter repetiu a palavra “conteúdo” de internet, referindo-se a outros vídeos, sem conteúdo.

   No fundo não deixa de ser um “conteúdo”, mas vejo o significado da palavra com um outro sentido. Em minha vida, aquela cabra domesticada deixou algum conteúdo de aprendizagem para mim? Assim são outros besteiróis que acesso por aí.

  Alguém pode até rebater que depende do ponto de vista. Isto me faz recordar de uma canção do nosso grande compositor Raul Seixas, onde em algum verso diz que “o ponto de vista é o ponto da questão”.

  Sabe de uma coisa! Acho que estou sendo um tremendo chato ficar esmiuçando esse negócio de “conteúdo”, sem conteúdo. No no mundo de hoje das artes, perdemos muito do conteúdo. A grande maioria das letras musicais são desprovidas de conteúdos.

   No entanto, se formos analisar por outro lado, todo lixo tem “conteúdo”, seja lá o que for, e são até aproveitáveis, inclusive para os famintos de ruas que não têm o que comer e encontram um resto de alimento numa lixeira.

NEM TUDO QUE SOBE, CAI

  Quem não já ouviu essa prosa de algum amigo, de que tudo que sobe, cai? Até aquilo… não é? No entanto, acho que nem tudo. Tem amor verdadeiro e duradouro que nunca cai, mas nos tempos modernos da tecnologia, está sempre mudando e tem duração curta.

   Muitos chegam a dizer que depois do casamento, passados alguns anos, ele começa a se esfriar e a murchar. A fruta tem o seu período de crescer, amadurecer e o de apodrecer. Entretanto, aquilo que tem valor sentimental, nunca se vende e nem se joga fora.

Na história da humanidade, por exemplo, todos grandes impérios tiveram seu ponto alto e depois entraram em decadência. Os norte-americanos, no caso do Trump, se acham deuses, são presunçosos e se sentem eternos superiores. A grande maioria recusa acreditar que os Estados Unidos estão em declínio.

   A vida em si e todas as coisas que a cercam têm seus picos e depois começam a cair. No sentido biológico, a vida tem suas fases de efervescência e depois vem a velhice, terminando na morte, ou no fim, se bem que os espíritas falam do renascer na reencarnação.

  Bem, este papo é um tanto complicado e filosófico. O foguete sobe e cai, como o avião que decola, se estabiliza na altura máxima e depois aterrissa. Se formos analisar pelo aspecto da gravidade, tudo que sobe, cai.

   As microempresas, geralmente, têm vida curta por falta de uma boa administração e planejamento, mas também existem as grandes que vão ao topo e, de uma hora para outra, entram em falência.

   Pelo lado do sucesso e da fama, existem aqueles que são efêmeros porque não têm essência em suas mensagens e conteúdos, mas muitos são considerados como imortais quando deixam conhecimento e saber para as gerações posteriores.

  Na música, na literatura, no cinema, no teatro e nas artes em geral existem aquele que sobem e caem no esquecimento, como os que ficam registrados nos livros da história para sempre. São os que passaram pela vida e deixaram suas marcas e seus legados inesquecíveis.

    Portanto, meu camarada, esse negócio de que tudo que sobe, cai, é muito relativo, depende muito do que está se tratando. Os objetos materiais têm seu tempo de vida e passam, mas os bens espirituais, de um modo geral, se eternizam, isto é, quando prosperam e engradecem o ser humano.

 Nem sei o porquê de estar aqui escrevendo desse assunto tão controverso. Bateu repentinamente em minha cabeça, ou pode ser que tenha um DNA polêmico, como muitos amigos que conheço por aí.

 Melhor mesmo é deixar a imaginação voar. Tem vez que ela trava e não consegue sair nada. É como o poeta que tem seus momentos de inspiração e tem ocasiões que não adianta forçar a barra. Por isso que é confuso dizer que tudo que sobe, cai. Nem sempre é assim.

  Entendo que a esta altura estou no momento que devo parar aqui e não ir mais adiante com essa conversa. A ideia começou a subir e depois caiu. Pode ser o cansaço mental do dia. Tem vez que o artista chega no palco e arrasa, arrebenta, como se fala no popular, mas nem sempre acontece alcançar essa façanha.

AS LENDAS SÃO CONTROVERSAS

  Sobre personagens que marcaram histórias em suas vidas no poder, na política, no campo social e até no âmbito da violência, sempre existiram controvérsias e versões diferentes da parte dos historiadores, pesquisadores, testemunhos, antropólogos e estudiosos do assunto. Quem ler, estuda e pesquisa precisa apurar bem os fatos e ter critério para discernir o falso do verdadeiro, o que não é fácil.

  Venho me debruçando sobre a questão do cangaço nordestino há cerca de seis meses, tendo como figuras principais Antônio Silvino, Lampião, Sinhô Pereira e outros. Os autores, escritores e jornalistas apresentam versões variadas, com base em jornais, pesquisas e de sertanejos testemunhos.

   Vamos aqui focar no caso específico de Lampião. Seu nascimento, sua vida ainda jovem, suas andanças, sua entrada para o cangaço, façanhas, herói ou facínora, sua morte em Angicos e outras passagens são por demais controversos. O tema é fascinante e vasto, bem como difícil de ser desvendado.

 O sertanejo Luis Gonzaga Cordeiro de Magalhães acha que “a morte de Lampião é uma mentira que serve para guardar o segredo de sua vida e talvez, dessa forma protege-lo” – Na minha opinião, Lampião não morreu, mas nós somos obrigados a dizer que ele morreu”.

   No livro “Lampião – Senhor do Sertão”, por exemplo, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve a narração do cordelista José Cavalcanti e Ferreira, apelidado de “Dila”, que conta ter sido irmão de Lampião e que ele era branco de olhos azuis de quase dois metros de altura, descendente de holandês. São doideiras sua entrevista e seus escritos de cordel!

   De acordo com ele, existiram diversões Lampiões, tipos valentões que colocavam um chapéu de couro dobrado e faziam se passar pelo verdadeiro. Chega a dizer que o morto em Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, foi um preto com defeito no olho, não era o Lampião de verdade, mas um impostor.

   Para este tal de “Dila”, Lampião teria morrido somente em 1970, no Rio Grande do Norte, esquecido de todos, sem que se saiba até hoje o segredo da sua verdadeira identidade.

   O cara sempre foi fascinado pelas narrações e histórias relativas ao cangaço. Chegou a afirmar ser o irmão legítimo de Lampião que, por causa da sua fama, vivia na clandestinidade, fazendo dele um, herói invencível.

  Segundo ele, existiram falsos Lampiões. Um deles era o chamado Lira, natural da região de Moxotó e tinha um outro da região do Pajeú, a quem todas as obras fazem referência.

 “O verdadeiro Lampião só fez três vinganças, era meu irmão e se chamava Cassiano Ferreira Gomes”. De acordo com o “Dila” (não dá para acreditar nele), o seu Lampião nasceu em 12 de agosto de 1877, na terrível seca. Seu pai, de origem holandesa, teria vindo para o Brasil em 1830.

  O “Dila” ainda diz que, quando seu pai morreu, sua mãe instalou-se em companhia dos nove filhos na localidade do Rio Tinto e encontrou refúgio na casa de José Ferreira, (o pai do “impostor” Virgulino Ferreira). Mais parece caso de Maria e José.

  Em 1917, esses irmãos Ferreira de “Dila” resolveram visitar Juazeiro do Norte, do “Padim Ciço”. Entretanto, quando passavam na cidade de Batalhão, ou Barbalha, o coronel Eudócio os convidou para trabalhar em sua fazenda.

  Os “Ferreira” viveram por muito tempo com o coronel que, num, certo dia, pelo bom serviço que prestaram, resolveu dar um nome para cada um. As estórias dele são malucas! Ele sustenta que na família Ferreira existiam quatro Virgulino. O Ferreira da Silva, de nome Cassiano, o irmão dele, filho de Isabel Ferreira, foi o único cangaceiro.

  Em seus escritos de cordel, o “Dila” ressalta que o decapitado em Angico não era o Cassiano, rebatizado Virgulino Ferreira da Silva, mas o negro Anísio Luis Ferreira. O verdadeiro teria ido a Angico oito dias antes do massacre e prevenido a Anísio da chegada iminente de uma Força Volante.

  “O Lampião verdadeiro nunca foi vaqueiro nem tocador de sanfona de oito baixos. Lampião era ferreiro em fundição. Foi ele quem fez essa máquina em que eu faço os meus impressos. A máquina rolou de mão em mão e eu sempre ouvia falar dela, mas não atinava o roteiro, até que por acaso veio parar na minha mão”.

  Para a autora da obra, Élise Grunspan-Jasmim, “Dila” aparece aqui como o arauto de uma cultura popular que se transmite por meio de folhetos de cordel que teriam sido impressos na máquina fabricada pelo “verdadeiro” Lampião”. “Dila” percebeu a lógica da fabricação do mito.

  O confronto de testemunhos revela a impossibilidade de estabelecer uma biografia unívoca, tão ambígua, contraditória e inacessível sobre o personagem. A maioria dos elementos dessa biografia de “Dila” está marcada por incertezas e dá a impressão de uma história de ficção escondida de temas recorrentes, cuja relativa coerência permite, entretanto, entrever uma estrutura simbólica.

O SARAU NÃO É UM MOVIMENTO POLÍTICO E MUITO MENOS UM PARTIDO

 De uns tempos para cá, certas pessoas entendem que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica partidária, contanto que seja de esquerda. Não admitem, de hipótese alguma, que seja de centro ou de direita. Até aí, tudo bem.

  No entanto, queremos deixar claro que o “Sarau A Estrada” sempre vai estar ao lado dos movimentos culturais em defesa do fortalecimento do setor, como na luta pela criação do Plano Municipal de Cultura, preservação do patrimônio arquitetônico, realização de festivais de músicas, literatura e outras artes, bem como, pela abertura dos equipamentos que se encontram fechados.

  Ora, quando fundamos esse grupo há 16 anos, em 2010, chamado a princípio de “Vinho Vinil”, nossa primeira intenção foi a de fazer cultura através da música, da declamação de poemas, contação de causos e, principalmente, na troca de ideias e conhecimento entre artistas, intelectuais, estudantes, professores e pessoas interessadas pela arte. Crescemos ao lado da defesa e da preservação da nossa cultura.

  Não criamos um partido ou movimento político, quer seja de direita, de centro ou de esquerda, embora fazemos política cultural durante todos esses anos, defendendo a sua revitalização, levantando propostas e reivindicando melhorias para o setor, não importando a posição ideológica do governo que esteja no poder.

   Dentro do “Sarau A Estrada”, seus membros participantes possuem um nível cultural acima da média, uns mais e outros menos, onde cada um tem sua ideologia própria e a respeitamos porque não temos o direito e nem a função de doutrinar a cabeça de ninguém.

  Durante todo este período discutimos e debatemos vários assuntos envolvendo as diversas linguagens artísticas, como também colocamos na mesa questões altamente políticas no âmbito regional, estadual, nacional e internacional, sem precisar definir o Sarau como um movimento de esquerda, como tem gente que assim pensa e acha que deve ser.

   Por não termos transformado o “Sarau A Estrada” num movimento político-partidário de esquerda, direita ou centro, onde os atritos de ideias iriam se aflorar em inimizades, brigas e separações, com a consequente polarização, acredito que nisso esteja o segredo da sua longevidade. Fosse um movimento político de esquerda, simplesmente deixaria de ser Sarau para ser um partido.

   Por ser um grupo que reúne uma massa crítica de conhecimento diferenciada, e pelo seu fortalecimento representativo perante a sociedade, muitos interpretam que o “Sarau A Estrada” deve tomar posição política ideológica de esquerda.

   Em meu modesto entendimento, se assim procedermos, o Sarau perderá sua essência cultural para se transformar num movimento puramente político. Ademais, aqui dentro, a maioria de seus membros já é filiada a algum partido onde faz a sua militância política.

 Ouvi gente dizer que o “Sarau A Estrada” é só festas para ouvir música, beber e comer, só que essas pessoas nunca frequentaram nossos encontros. Aqui distribuímos cultura e trocamos conhecimentos e ideias. Quanto a política partidária, que cada um faça em seu comitê.

O JEITO DO SONHO CHEGAR

(Chico Ribeiro Neto)

O primeiro sonho veio numa garrafa estrangeira que chegou boíando na praia do Unhão, em Salvador. A garrafa estava muito bem tampada com uma rolha, mas dentro não tinha nenhuma mensagem. Foi fácil sonhar com o lugar de onde ela veio, os peixes que viu no longo trajeto e a cara de quem soprou um sonho ali dentro.

O segundo sonho chegou dentro do ônibus viajando pra Ipiaú, naquele estágio entre dormir e estar acordado. Tinha água no meio – nos meus sonhos o mar sempre aparece -, mas a conversa constante de três passageiros beliscava a película que separa o sonho da realidade.

Já  o terceiro sonho chegou cantando e parecia com uma moça magrinha que morava na Rua Tuiuti e tocava violino. Compenetrada, passava ligeirinho pelo meio do “baba” carregando o instrumento. Era um sonho vê-la andar.

Outros tantos sonhos chegaram nos volumes do Tesouro da Juventude, enciclopédia de 18 volumes que trazia o mundo. Era bom abrir um volume e saber como é que o tatu vive ou onde fica Tegucigalpa.

Dormir dentro de um teatro, durante um ensaio, foi também uma boa forma de sonhar. Estava ensaiando uma peça no Teatro Vila Velha  mas a cena em que eu entrava demorava tanto pra chegar que dava tempo de tirar um cochilo e sonhar com perdidos personagens, teimosos em não deixar o palco nem os bastidores quando o espetáculo terminava.

A atriz Olga Maimone, que morava num dos camarins do Vila Velha, sabia muito bem disso.

Mais sonhos chegaram com o cinema. Terminava de ver dois filmes e dois seriados – hoje conhecidos como minisséries – no Cine Santo Antônio e a cabeça explodia em imagens. Tinha sido um filme de guerra, com alemão e japonês sempre perdendo, e um caubói  com indio sempre morrendo.

A música, a carruagem passando lá longe e, quando a noite chega, aquele namorinho gostoso com a moça que chegou perto da fogueira, “só pra me aquecer um pouco, John”, doida pra ganhar um beijo. O banjo toca lá longe e o uísque corre solto. Tem um bocado de indio espreitando a barraca, mas amanhã cedo a cavalaria vai chegar tocando corneta e matar todo mundo sem morrer um soldado.

(Crônica publicada no jornal A Tarde em 15/6/1991)

 

FOGO NA SERRA!

  No último sábado passado (dia 04/07) ou, se não me engano, no domingo (dia 05/7), nossas lentes flagraram um grande incêndio no alto da Serra do Periperi que, pela cor da fumaça preta, poderia ser queima proposital de pneus. Por si só, isto já representa um absurdo em termos de agressão ao meio ambiente, principalmente na Serra que há quase 100 anos vem sendo depredada pela ação humana. Por ter ocorrido em final de semana, pouca gente percebeu e não vi e nem li nenhum noticiário na mídia. Esse incêndio durou por muito tempo e nem sei se lá estiveram o Corpo de Bombeiros e a fiscalização da Prefeitura Municipal para averiguar a situação e conter o fogo. Tudo indica que foi um ato criminoso premeditado. Além da poluição tóxica no ar, os moradores dos bairros mais próximos, na altura do Anel Viário, certamente foram impactados. Apesar de ter sido tombada no último governo do ex-prefeito José Pedral, por volta de 1996, a Serra do Periperi continua sendo alvo de invasões e degradações por negligência das administrações públicas que não montam uma estrutura adequada para protegê-la  dessas ações nefastas, como incêndios dessa natureza.

DINHEIRO E PODER

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Diabólicos e divinos:

O dinheiro e o poder

Traçam nossos destinos,

Flechas a nos sangrar,

No viver e matar.

 

Do escambo das mercadorias,

Do gado, semente e sal,

A troca negociável é farta,

Na Lídia da Turquia,

Do ouro e da prata,

Nasce o vil metal,

Lembro do meu velho corcel,

E a China inventou o papel.

 

O dinheiro e o poder,

Tudo é desigual,

O capital enforca o ser,

No contrato social.

 

O dinheiro compra até amor,

Ilude a tal felicidade,

O diabo entra como tentador,

O poder com sua maldade.

 

Oh, senhor deus dinheiro!

Que não chega aos miseráveis,

No poder quem manda é Zeus,

No sistema dos descartáveis.

 

 

O HÁBITO DA LEITURA

Muitos falam de a necessidade do ser humano manter o hábito da leitura, mas pouco sobre o de escrever. Confesso que sou um inveterado e viciado em ambos, como se fosse uma “cachaça”, pois ainda representam o alimento da minha alma enquanto vivo for.

Apesar da mente cansada e desgastada como hoje, depois de um dia estressante, como em outros, mesmo com minha idade avançada, sou teimoso e insistente. Quase não abriria o computador para digitar algumas linhas, mas esta atitude para mim seria um pecado.

Em meus cinquenta e três anos de jornalismo profissional, acho que nunca passei um dia sem escrever ou rascunhar algo, mesmo em finais de semana. Às vezes, a cabeça pesa e as ideias não fluem como deveriam, mas faço esse exercício, até de maneira forçada.

Enveredo pelo artigo, pelo comentário, pela crítica, pela crônica e até pela poesia. Nem sempre alcanço o sucesso desejado, nem com a ajuda dos deuses, que algumas vezes ameaçam me abandonar no leito dos pensamentos.

Posso até deixar de ler quando é muita a correria, mas seja pela manhã ou à noite, lá estou eu como este gesto como se fosse um cacoete. Será uma doença ou vício psíquico incurável onde tenho que me debruçar num divã de um analista para me curar?

Quando sentei na mesa tela, pensei em falar do Trump que saiu dos infernos (agora ameaça invadir o Brasil) para tocar fogo no planeta; apontar as bizarrices da Copa Mundial de Futebol; a máfia da Fifa que tudo faz no final do campeonato para empurrar os campeões para a reta decisiva, para ganhar mais dinheiro com as audiências e satisfazer os patrocinadores; ou escolher um tema nacional.

Sempre antecipo um assunto, mas como não deu, surgiu, por acaso, o título referente ao hábito de escrever, que não estava em minha pauta. Atrevido como sou e insistente até fim quando traço um objetivo, vou seguindo o caminho por entre veredas deste sertão profundo, espinhoso e carrasco, sem destino onde chegar.

Claro que a gente escreve para o leitor e quer ver o seu produto bem embalado e atrativo, com um bom conteúdo para ser aceito pelo consumidor. A literatura sempre me fascinou como uma arte que mais complementa as outras, seja na música, no cinema, no teatro e até na dança.

Bem, é o que tinha para oferecer hoje e cumpri com meu dever de manter o hábito de escrever todos os dias, mesmo sem aquele pique mental que exige do escritor.

Só para finalizar, para escrever, temos que antes começar pelo hábito sagrado da leitura, pouco utilizado nos tempos modernos, principalmente no Brasil de maioria inculta.

O DINHEIRO E O PODER

  O dinheiro e o poder. Quem veio primeiro? Acredito que seja mais um enigma a ser decifrado pelos pesquisadores, historiadores, antropólogos, filósofos, teólogos e cientistas, se bem que no sentido divino de um deus, o poder veio primeiro.

   Na concepção de antigamente, o todo poderoso era escolhido pelo divino. Há quem ainda fale isso nos dias atuais. Só não vou citar aqui os nomes bem conhecidos de todos que governam como se fossem deuses opressores do povo.

  Alguém pode dizer que são apenas elucubrações e que cada um tem o seu ponto de vista. Eis a questão, “ser ou não ser”! No plano terreno, o poder foi adquirido por aqueles que tinham mais posses e forças para guerrear e dominar outras tribos.

  Pela carruagem do tempo, no início só havia o escambo, ou troca de mercadorias entre os povos sedentários que eram agricultores e domesticadores dos animais. Os colhedores e caçadores eram nômades livres e não ligavam muito para essa coisa de poder.

  Do escambo nasceu o dinheiro através do metal vil do ouro e da prata lá na Lídia (hoje Turquia), bem antes de Cristo. Somente depois apareceu o bicho diabo dinheiro em espécie, confeccionado pela China. A partir daí o poder humano tornou-se mais forte com a injeção do dinheiro.

  Bem, essa história saiu da minha cabeça, mas pode ser contestada. Como diz o Chicó, “só sei que foi assim”, mas ainda ficou embolado sobre quem nasceu primeiro. Em meu juízo já com meus neurônios desgastados, considero que o poder veio primeiro, bem antes da invenção do dinheiro, depois do escambo.

   Nem sei o que me deu na cachola hoje de escrever algumas linhas sobre este tema complicado. Pode ter sido os entreveros que passei, os quais me levaram a essa doideira desse negócio de dinheiro e poder. É que estamos sempre ligados aos dois neste sistema capitalista em que vivemos e deles somos escravos.

   Como já me meti nessa enrascada ou nessa barca furada, lembrei da antiga Grécia com o surgimento da democracia que diz que “todo poder emana do povo”. Acho que isso é uma grande furada que os filósofos criaram, o mesmo que “a voz do povo, é a voz de Deus”.

   Fui olhar no dicionário o significado de “emanar”, do latim emanare. Michaelis 2000 (Moderno Dicionário da Língua Portuguesa), explica que a palavra significa originar-se, proceder, provir, sair de, desprender-se, disseminar-se em partículas sutis.

  Ora, nem lá na Grécia isso tudo saia do povo e sim do poder para dominar o povo. Então acho que é o contrário, ou seja, todo povo emana do poder, principalmente nessa era evolutiva da tecnologia e desde antes da revolução industrial lá pelo final do século XVIII.

  Na minha modesta análise, hoje para se alcançar o poder é preciso ter muito dinheiro, caso das nossas eleições, não somente no Brasil, mas, principalmente, no mundo capitalista ocidental. Quanto mais dinheiro, mais probabilidade de se chegar ao poder e com ele, mais dinheiro para se perpetuar nele.

  Portanto, mesmo numa democracia como a nossa, ainda tão falha que não preenche todos requisitos emanados (olhe aí o emanar) da Constituição retalhada e enxovalhada, com tanta desigualdade social, não engulo essa de que “todo poder emana do povo”.

   Terminei misturando dinheiro e poder com democracia e povo. Acho que fiz uma miscelânea e não vou mais me esticar pela frente senão acabo falando mais besteiras e asneiras.

  E para você, quem veio primeiro, o dinheiro ou o poder? Para quem gosta de polêmica, como meu amigo Manno, este assunto é um bom prato para ser saboreado a dois ou mais gente numa mesa de bar. Pode ser também numa roda de discussão de sarau. Não é meu companheiro Dal Farias. Isso é coisa para Itamar esmiuçar.

 

 

UMA DERROTA ANUNCIADA

   Depois de sepultar o defunto, os comentaristas da Rede Globo e demais analistas do futebol apontam os criminosos, no caso a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que há anos se tornou uma entidade de disputas entre o poder, foco de denúncias de corrupção e malfeitos, sem contar as trapalhadas.

   As críticas só apareceram quando o juiz norte-americano, que ainda deu uma ajuda ao Brasil ao marcar aquele último pênalti (não existiu) e esticou o tempo, apitou a peleja, dominada totalmente pela Noruega, que não é lá esse bicho papão. Passou pelo Japão no sufoco, como aconteceu no empate contra o Marrocos.

  Todos esses escândalos da CBF tendem a refletir no campo, como as influências políticas e econômicas das contratações que não deveriam acontecer.

   Algumas indicações tiveram o dedo oculto do dinheiro sobre aquele jogador que dá maior faturamento através do marketing, caso específico do Neymar, que no final da partida teve que exibir seu papel de moleque ao bater boca com o goleiro, como se estivesse num baba de várzea, fato este antiprofissional.

  Poderia repetir tudo aqui o que já foi dito por milhões de brasileiros que acreditavam, sem acreditar, quando entraram na onda, ou na pilha, dos chamados “influenciadores” em ficar “secando” os prováveis adversários mais fortes para perder, inclusive torcendo contra Argentina e outros países. Quem assim age, demonstra que não confia em seu time.

  Para mim, que venho acompanhando a Copa e a participação do Brasil desde 1962, esta foi a maior derrota anunciada de toda sua história. O futebol do Brasil começou sua fase de decadência a partir da leva de jogadores que por grana foram para Europa e outros países, deixando para trás a nossa escola do gingado, da “malandragem” no bom sentido e a cultura do nosso futebol arte.

  Ouvi muito papo de que os nossos atletas não tiveram garra, não suaram a camisa, não lutaram em campo como deveriam, ou coisa parecida, mas tudo isso não conta e nem adianta quando temos uma seleção mediana, isto é, sem altos craques como antigamente. O jogador um pouco acima da média é o Vinícius Júnior.

  Outros ainda comentaram sobre as contusões de Paquetá, Rafinha e até do Militão, mas nenhum desses comprometeu com o “desempenho” da seleção porque não são craques e peças que decidem uma partida. Todos são praticamente do mesmo nível. Qualquer substituição equivalia a trocar seis por meia dúzia.

   O desfalque seria preocupante se ali estivesse um Pelé, um Garricha, um Rivelino, Tostão, Romário, o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo Fenômeno ou outro semelhante, do mesmo patamar.

  Mesmo assim, naquele tempo das nossas saudosas seleções, quando um craque era lesionado, entrava outro, como ocorreu em 1962 com Pelé, na Copa do Chile.

   Continua a mania de trazer muitos jogadores de fora que atuam em outros países (não são lá esses craques), quando poderia incluir no elenco mais atletas dos nossos campeonatos. Muitos que mereciam ser indicados, terminaram ficando de fora.

  Após a derrota anunciada, a fala dos jogadores, no sentido de “erguer a cabeça”, corrigir os erros e trabalhar mais forte deu a impressão que a gente estava num Campeonato Brasileiro e tinham mais jogos pela frente para recuperar o fracasso.

   Acho que eles não entenderam que o jogo foi de “mata a mata” e quem perdia tinha que arrumar as malas e vir para casa. Será que  o técnico Ancelotti, que chegou num momento conturbado, não alertou sobre isso no vestiário?

Com essa seleção, o melhor treinador do mundo não chegaria à final da Copa. No futebol, não se fabrica craques. O máximo que se pode fazer é melhorar o nível técnico, seu posicionamento em campo, o acerto de passes e o domínio da bola. Por falar nisso, essa seleção machucou e maltratou a deusa bola. Coitada dela, sofreu bastante!





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