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O TOMATEIRO E A PRAÇA

Em plena praça, no centro da cidade de Vitória da Conquista, que no último dia 9 completou 181 anos, na Barão do Rio Branco, o tomateiro dá seus frutos em meio à poluição dos carros e à agitação do vai-vem das pessoas que passam sem perceber a presença da natureza nos brindando com essa cultura, tão apreciada na mesa dos brasileiros. É um sinal de que o meio ambiente ainda resiste, apesar da depredação do homem com as derrubadas e queimadas das florestas, provocando o aquecimento global. Soube que uma senhora até já colheu alguns tomates que, por sinal, são vítimas dos altos preços inflacionários devido, sobretudo, a escassez do produto no campo. Ele está ali meio que solitário, mas produzindo e já alimentou alguém que percebeu sua presença num pequeno espaço de terra na vastidão do concreto. Agora com as últimas chuvas que caíram em Conquista, ele está mais viçoso e pronto para gerar mais frutos. É uma dádiva da natureza que o ser humano não sabe reconhecer.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (V)

Versos em formato de cordel de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário sobre a cultura nordestina e seus personagens escritores, cordelistas, trovadores e gente importante que fizeram história em nossa nação.

Pra variar fui às feiras duelar com trovadores-repentistas,

Que vinham de longe e não ia ficar como besta de fora;

Tentei embolar no varejo e pedi pra não me fazer de bosta:

Não ser humilhado por esses medievais voadores artistas;

Decidi arrastar a minha poeirenta sandália e ir embora,

Quando me deram aquelas respostas virando suas costas,

E temi enfrentar aquela batalha de improvisos nortistas;

Sai de soslaio pra trocar um lero-lero com Celso Furtado,

Um dos maiores pensadores desse nosso Estado Brasileiro,

Que planejou golpear a ignorância com seu plano futuro;

Transformar essa nação num país progressista além do muro,

E não numa gerigonça, espeto de pau e casa de embusteiro.

 

Ainda tinha muito o que fazer naquela Paraíba mulher-macho,

Acender meu facho na voz de Zé Ramalho e do Geraldo Vandré,

E a eles pedi licença para pisar terra guerreira dos menestréis;

Viajar no dorso dos alados e no galope ligeiro de “Disparada”,

Sem ser boiada ferrada como me ensinou o Celso Furtado;

Ir com fé, sem jamais me curvar e manter alerta minha espada,

Pra escutar atento o Leandro Gomes de Barros, lá de Pombal,

A cadenciar o maior cordel de todo nosso Nordeste afamado,

Cabra de versos apurados, imbatível como estrela universal,

De fartas rimas, métricas e estrofes de encher todo um jornal,

Da história de Getúlio a João Pessoa, em Recife assassinado,

E assim fui a Tambaú mirar mar pôr-do-sol do “Tone” saxofone.

 

Não podia deixar de trocar dedo de prosa com o senhor armorial,

Matuto simples de jeito pausado-cadenciado de Ariano Suassuna,

E roguei para me botar dentro do seu eterno “Auto da Compadecida”,

Só pra sacanear com a malandragem picaresca desse pícaro “Chicó”,

E quando ele falou não sei, só sei que foi assim, por trás meti o fifó;

Seu moço, o moleque pulou e correu gritando ter visto alma penada,

Numa cena pitoresca, foi parar na jagunçada do coronel “Ferroada”.

 

Era mês de fogueiras e em Campina Grande das festas juninas,

Caí na dança forrozeira com as coroas fogosas e belas meninas,

Até me empanturrar e embriagar nos arrastos poetas repentistas,

Populares repórteres e feitores de letras de raízes dos cordelistas,

De soladas violas e quadrilhas marcando encontros de amores,

E encantado fiquei com a Paraíba de tanta gente cheia de cores,

Que me injetou energia pra aprender a lição e fazer a canção,

Nessas carrocerias de andanças estradeiras, de barcos e canoas,

Entre coqueirais, dividindo varais até entrar na vizinha Alagoas.

 

DE VILA IMPERIAL DA VICTÓRIA AO MAIOR POLO DE DESENVOLVIMENTO (Final)

CONQUISTADOR E DIZIMADOR

Português da cidade de Chaves, João Gonçalves da Costa iniciou sua lida como bandeirante muito cedo, tendo logo conquistado matas baianas. Em 1744 integra-se ao grupo de João Guimarães, como capitão-mor que partiu do norte de Minas Gerais (Minas Novas). Logo o capitão se destacou pelos seus feitos de conquistador e dizimador de tribos indígenas. Na busca pelo ouro esgotado em Minas e Rio das Contas, se embrenhou pelo sertão e terminou se fixando na região de Conquista em fins do século XVIII, se tornando grande proprietário de terras e gado.

Por ter expulsado os índios às margens dos rios Pardo, das Contas, dos Ilhéus, principalmente os valentes Imborés, ou Botocudos, se tornou num dos principais desbravadores. Mas, não foi só isso, João Gonçalves abriu estradas, ligando Conquista ao litoral e tirando o sertão do isolamento.

POVOADO INDÍGENA

No final do século XVIII (1782), o desembargador de Ilhéus, Francisco Nunes da Costa determinou que João Gonçalves fundasse um povoado indígena no lugar chamado Funil, visando afastar os índios Pataxós ao sul da Capitania de Camamu, Maraú e Cairú, para facilitar a abertura das estradas que se tornaram passagem do gado que saía do “Sertão da Ressaca”.

Numa outra carta às autoridades da capitania, o desembargador mostrava a importância da expedição, discriminando o armamento entregue ao capitão-mor para explorar as cabeceiras do Rio das Contas. Durante dois meses de viagem, como conta em seus registros, o capitão percorreu matas e encontrou as aldeias dos mangoiós que assustavam moradores de Ilhéus e Porto Seguro. João Gonçalves sofreu uma doença grave e narrou a fuga dos índios e dos soldados da expedição. Dos 74, restaram apenas 34 soldados.

Nessa viagem, ele se deparou com cinco aldeias (cerca de duas mil almas) com as quais, depois de parlamentar com o chefe Capivara, conseguiu que aceitasse um tratado de paz, e ainda se comprometeu a ajudar as tribos contra os Imborés.

O nome de João Gonçalves é citado em outras correspondências enviadas pelo Intendente Geral do Ouro, João Ferreira Bittencourt ao Governo da Bahia, não poupando elogios pela sua bravura. Para o Intendente, o capitão era homem indicado para o processo de colonização da metrópole; para abrir a estrada Rio das Contas-Camamu; e povoar o “Sertão da Ressaca”, tudo feito com a devastação das aldeias indígenas em final do século XVIII.

Seu nome varou fronteiras e era sinônimo de valentia, audácia e fidelidade à Monarquia. “Não produz um século um homem do gênio deste capitão-mor” – assim escreveu o conde da Ponte em 1807. Apesar do seu ingresso no sertão com a missão de encontrar ouro, o capitão não é lembrado nos documentos como descobridor de minas auríferas.

Seu mérito foi ter desbravado o sertão com a abertura de estradas; descoberto rios; dizimado índios; e ter feito a ligação litoral-interior. Os índios tinham tanto medo da sua violência que pediram, em 1790, ao governador Fernando José de Portugal, que eles não ficassem subordinados ao capitão-mor.

O príncipe Maximiliano de Wied-Newied esteve no Brasil, em 1815, e no arraial da Conquista, em 1817. Na ocasião, conheceu o capitão com 86 anos e ficou impressionado com sua resistência. Provavelmente deve ter morrido com 88 anos, mas não se tem certeza.

INTEGRAVA O TERÇO DE HENRIQUE DIAS

Na época, conforme historiadores, a segurança da Colônia era feita pela Tropa de Linha (portugueses, comerciantes, proprietários, etc), Tropas Auxiliares chamadas de Terços (depois regimentos), Milícias e Corpos de Ordenanças (força local) onde os moradores faziam parte. Todas as vilas tinham um capitão-mor ou sargento-mor. As milícias estavam organizadas sob a forma de regimentos e funcionavam como força auxiliar da tropa de primeira linha. Os regimentos eram formados conforme a cor e a ocupação dos recrutados.

De acordo com Caio Prado Júnior, na Bahia, existiam quatro regimentos. O primeiro e o segundo eram constituídos por homens brancos. O terceiro e o quarto por homens de cor. Os pretos forros (libertos) pertenciam ao terceiro, conhecido por “Henrique Dias”. Os pardos e mulatos integravam o quarto.

Pouco se fala sobre os “Terços de Henrique Dias” só que eram formados por negros libertos, e a denominação era em sua homenagem por ter se destacado como comandante de umas das corporações que lutaram contra os holandeses em Pernambuco (chegou a perder uma das mãos na luta). Foi condecorado em 1639 com o título de Governador das Companhias dos Homens Negros e Mulatos. “Os Terços” foram extintos, em 1831, com a criação da Guarda Nacional.

O capitão João Gonçalves da Costa integrava o “Terço de Henrique Dias”, patente dada pela sua Majestade, com a incumbência de servir na conquista e descobrimento do mestre-de-campo João da Silva Guimarães. Ocupou um dos cargos mais cobiçados dentro da hierarquia militar e gozava de toda confiança do governo português.

Não se sabe se por puro preconceito, nos livros em geral de história e em apresentações de palestras no meio intelectual, mesmo em conversas em geral, João Gonçalves raramente é citado como negro pertencente ao “Terço de Henrique Dias”, conforme está registrado em sua carta de patente.

A DESCENDÊNCIA E O PODER DOS GONÇALVES

A criação e o comércio de gado foram fatores fundamentais para o povoamento e desenvolvimento do “Sertão da Ressaca”. A pecuária, então, foi primordial para a ocupação da terra. Depois das frustradas buscas pelo ouro, o capitão decidiu se fixar no Sertão, dedicando-se à criação de bovinos. No seu inventário dos bens do casal, quando da morte da mulher, o capitão declarou, entre outros bens, 700 cabeças de gado e 39 escravos, sem contar o plantio de algodão.

Entre final do século XVIII e início do século XIX, a Imperial Vila da Victoria era tão importante como qualquer vila do litoral. Além do algodão, era passagem das boiadas vindas do São Francisco para Nazaré-Cachoeira.

Na condição de proprietário do “Sertão da Ressaca”, o capitão deixou muitos herdeiros dos seus bens materiais e políticos na condução dos destinos da Vila da Vitória. Seu filho Antônio Dias de Miranda e o marido de sua neta, Luiz Fernandes de Oliveira ocuparam o cargo de Juiz de Paz do Arraial. Antônio Miranda e seu irmão Raymundo Gonçalves da Costa (filho natural) lutaram ao lado do pai no combate aos índios e na exploração do rio Pardo. Raymundo, inclusive, era tido como o terror dos índios pela sua bravura.

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DE VILA IMPERIAL DA VICTÓRIA NO MAIOR POLO DE DESENVOLVIMENTO (1)

Este texto, de Jeremias Macário, pode ser encontrado nos livros de sua autoria, “A Imprensa e o Coronelismo” e em “Uma Conquista Cassada”, o qual fala da ditadura civil-militar de 1964, que cercou a cidade e cassou, na base das armas, o mandato democrático do prefeito da época José Pedral, na trigésima sessão da Câmara de Vereadores, em maio do mesmo ano.

Os Mongoiós ou Monochós, também conhecidos como Camacans, e os Pataxós e Amborés ou Imborés, eram os verdadeiros donos destas terras do sudoeste baiano, compreendidas entre os rios Pardo e das Contas, da região do São Francisco até São Jorge dos Ilhéus.

No centro deste vasto território chamado de “Sertão da Ressaca”, está  o município de Vitória da Conquista que virou pólo de desenvolvimento regional, e neste ano de 2021 está completando 181 anos de emancipação política (9 de novembro).

A Imperial Vila de Nossa Senhora da Victória, antes Arraial da Conquista, foi criada pelo decreto imperial de número 124, em 19 de maio de 1840, desmembrando-se da Comarca de Caetité.

No entanto, a data política é comemorada em 9 de novembro quando aconteceu a posse da primeira Câmara Municipal. Com a proclamação da República, em 1889, a Vila passou a se chamar Cidade da Conquista, em 1º de junho de 1891, e em 1943 recebeu o nome de Vitória da Conquista.

A CHEGADA DA BR-116

O pequeno povoado, com as primeiras habitações de taipa cresceu, e em 1817, conforme registrou o príncipe alemão Maximiliano Wied-Newied, em visita ao lugarejo, já contava com 40 casas. A Vila expandiu-se aos poucos na encosta verdejante da Serra do Periperi; foi parada de tropeiros; mudou de nome; e começou a prosperar a partir da década de 1960 com a chegada da BR-116 (Rio-Bahia).

A cidade ampliou sua economia com a introdução da cafeicultura, em meados dos anos 70, e se firmou no início do século XXI com a implantação de novos projetos nas áreas da educação e da saúde até se transformar num dos maiores pólos de desenvolvimento do Estado e do Nordeste. Com cerca de 340 mil habitantes, é hoje a terceira maior cidade da Bahia.

CONQUISTA E SUA EVOLUÇÃO

Até antes da instalação da Vila, (1840), na residência do coronel Teotônio Gomes Roseira, situada na Rua Grande (Praça Tancredo Neves), o território pertencia ao município de Caetité. Depois a casa do coronel veio a se tornar Paço Municipal.

Naquela data de 9 de novembro foram escolhidos os conselheiros, membros do Conselho Municipal, hoje denominados de vereadores, para cuidar da sua administração. O presidente desse colegiado exercia o cargo de prefeito.

O primeiro Conselho foi composto pelos cidadãos Manoel José Vianna, Joaquim Moreira dos Santos, Theotônio Gomes Roseira, Manoel Francisco Soares, Justino Ferreira Campos, Luiz Fernandes de Oliveira (primeiro presidente da Câmara) e Francisco Xavier da Costa.

Com governo próprio, a Vila começou a se organizar e, além do seu Conselho, foi instalada a Casa do Conselho a quem coube aprovar o Código de Posturas, com 80 artigos, para disciplinar os moradores, punir os transgressores e orientar o crescimento urbano, inclusive com regras para preservar os rios e as nascentes. Entre as normas, reprimia o batuque e o hábito de vagar pelas ruas durante altas horas da noite, especialmente os escravos sem o passe do seu senhor. A partir daí, foram contratados os primeiros funcionários públicos.

DE VILA A CIDADE, EM 1891

Anos depois, em 1891, Conquista passou de vila a cidade, e as funções do presidente do Conselho Municipal passaram a ser exercidas por um intendente a que deram o nome de prefeito, com autonomia para governar. As ruas eram lamacentas e esburacadas, mas o primeiro intendente, Joaquim Correia de Mello, adotou algumas providências para melhorar o visual da cidade.

Por cerca de 100 anos, Conquista passou esquecida dos poderes públicos, contrastando com a evolução de outros centros urbanos. Segundo observadores, viajantes e cronistas da época, o esquecimento se deveu mais ao fato da sua distância em relação à capital. Até os anos de 1890, as ruas eram iluminadas por lampiões a gás, depois substituídos por carbureto. Só a partir de 1920 veio a energia elétrica.

A partir deste período a cidade veio a sair do isolamento quando um grupo de fazendeiros e comerciantes se reuniu e fundou um consórcio para construir uma estrada carroçável ligando até Jequié. Nessa época, o trem já existia até Jaguaquara, e os trilhos avançavam às terras jequieenses. A linha até esta localidade chegou em 1927.

Com o passar dos anos, o aspecto urbano foi melhorando, mas o conquistense não se preocupou muito com a preservação da sua história, tanto que muitos sobrados e casarões foram sendo derrubados para dar lugar a edificações novas, como o velho barracão acolhedor de tropeiros que foi demolido em 1913.

Para se abastecer, os conquistenses dependiam das mercadorias, transportadas no lombo dos burros, vindas das cidades de São Felipe e Cachoeira, passando depois por Jequié (150 quilômetros). Mas, Conquista também tocava o gado trazido de Minas Gerais para fornecer carne para o Recôncavo.

Por volta de 1940 chegou a Rio-Bahia, asfaltada no início dos anos 60, no Governo de João Goulart. A partir desses anos, Vitória da Conquista não parou mais de crescer, e é hoje a capital do sudoeste e terceira maior  da Bahia, cujo município tem cerca de 340 mil habitantes, distante 510 quilômetros de Salvador.

Apesar da sua grandeza e beleza, Conquista dos tempos atuais ainda é carente de muitos projetos na área de infraestrutura, como a prometida obra da barragem de abastecimento de água; serviços modernos no setor de mobilidade urbana; um centro administrativo para desafogar o centro; e, acima de tudo, uma política cultural, mais escolas e expansão na saúde.

OURO, MORTE E EXPULSÃO

Na busca por riquezas, especialmente o ouro, a primeira investida no Sertão da Bahia foi feita pelo castelhano Francisco Bruzza de Spinosa, em 1553, acompanhado de 12 portugueses, partindo de Porto Seguro e indo até o rio São Francisco. A passagem dos bandeirantes pelas terras dos índios significava expulsão, morte e escravidão.

A descoberta de ouro nas imediações de Rio das Contas e em Jacobina, no início do século XVIII, aumentou o povoamento em Minas Gerais.  Já em 1724, Rio das Contas passava à categoria de vila, com a implantação de vários órgãos de administração pela Coroa Portuguesa.

Como descreve a historiadora Maria Aparecida Silva de Sousa, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, em seu livro “A Conquista do Sertão da Ressaca: povoamento e posse da terra no interior da Bahia”, por volta de 1728, o coronel Pedro Leolino Mariz recebe do governo português a missão de desbravar diversas áreas do interior da Bahia e do norte de Minas Gerais.

Essa personagem aparece como importante figura da história que realizou investigações nos rios das Contas, Paramirim e Rãs, chegando a ocupar o posto de superintendente Geral de todas as minas da Bahia e das Minas Novas do Araçuaí. Sabedor de que essa porção de terra era uma das melhores do Brasil para criação de gado e a cultura de lavouras, o Governo de Portugal mandou que Pedro Leolino averiguasse as notícias. Em recompensa pelo seu trabalho, o superintendente recebeu uma sesmaria em 1743.

Com intuito de obter o mesmo êxito conseguido na região vizinha de Rio das Contas e Jacobina, com a descoberta de ouro, o coronel organizou uma Bandeira, sob a direção de André da Rocha Pinto, para conquistar o sertão entre os rios das Contas, Pardo e São Mateus. A intenção era também a de encontrar ouro, estabelecer fazendas de gado e matar os índios que se opusessem à conquista.

SANGRENTAS BATALHAS

Ao lado de André Pinto, aparece a pessoa de João da Silva Guimarães, designado para percorrer o rio São Mateus. Ele ocupou o posto de Mestre-de-Campo, concedido em 1735, pelo conde de Sabugosa. Pouco antes disso, João Guimarães fez um relatório ao rei D. João V, contando os perigos que enfrentou na luta contra os bravos gentios. O desejo dos sertanistas era o de encontrar as cobiçadas minas de prata de Belchior Dias Moreira, que foi um dos principais conquistadores do sertão baiano.

Tudo indica que o Mestre-de-Campo tenha percorrido o território onde hoje está situado o município de Vitória da Conquista. Cita a historiadora Maria Aparecida, que sua Bandeira, pelo meado do século XVIII, tenha passado pelos rios das Contas, Gavião e riacho do Gado Bravo onde hoje é Bom Jesus da Serra. Sua expedição foi marcada por sangrentas batalhas com os índios mongoiós, Imborés e Pataxós.

A chegada dos primeiros colonizadores portugueses, por volta de 1730 e 1734, comandados pelo Mestre-de-Campo João da Silva Guimarães e pelo Capitão-Mór, João Gonçalves da Costa, deu início a uma série de batalhas com os índios da terra, que durou cerca de um século, culminando com o extermínio dos nativos, num dos mais terríveis genocídios da história. As explorações feitas pelas bandeiras baianas, como relata a pesquisadora Aparecida, não tiveram o mesmo sucesso dos paulistas que encontraram ouro em Minas Gerais.

UMA LENDA ODIADA

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UMA EXPOSIÇÃO DE ARTES PLÁSTICAS QUE VALE A PENA SER VISITADA

No maior museu a céu aberto do Norte e Nordeste, em pleno sertão de Vitória da Conquista, na BA-262, saída para Brumado, está sendo realizada até o próximo dia 15, a Expo Arte Conquista, na Galeria Mix do Museu Kard, com seis grandes artistas de reconhecimento nacional e internacional.

É um presente-homenagem aos 181 anos de emancipação dos artistas Alex Emmanuel, Domício, Lilian Morais, Romeu Ferreira, Valéria Vidigal e Allan de Kard. Pelo seu potencial cultural e de forte expressão humana, vale a pena dar uma passada no local, no horário comercial, sem custo, e ainda conhecer as esculturas do Museu Kard, com peças grandiosas, como a pirâmide, o xadrez que retrata os poderosos e os oprimidos sertanejos, o labirinto e tantas outras que simbolizam a vida e a morte.

Os quadros da Expo Arte Conquista abordam diversos temos, inclusive sobre questões atuais da pandemia que ceifou a vida de quase 610 mil brasileiros; deixou sequelas nas pessoas; e nos separou do convício social. Esse tema está registrado nas artes de Domício, Alan de Kard e Lilian Morais.

Alex Emmanuel, com suas pinturas fortes e impactantes, apresenta as dores e as vulnerabilidades dos seres humanos através de suas faces recolhidas em seu eu interior. Romeu Ferreira, com suas peças gigantes em preto e branco   retrata o sofrimento do sertanejo que enfrenta as agruras da vida na luta para sobreviver sem água e comida. São expressões fortes da realidade de um povo que sempre foi abandonado pelos políticos e governantes.

Valéria Vidigal estampa na Galeria Mix o seu mundo do café, sua temática central, numa pintura alegre cheia de cores com as flores e os frutos dos cafezais. Em seu trabalho, conhecido além das fronteiras nacionais estão inseridos o homem e mulher que trabalham na colheita dos cafés. Xícaras, bules e o café quentinho levam o visitante a entrar em seus traços realistas dessa cultura agrícola, riqueza do nosso país desde o século XIX.

O Museu Kard é um mundo encantado a céu aberto em pleno sertão da Bahia que já é um grande patrimônio para a posteridade da humanidade. Quem visita sai com o espírito renovado e iluminado. É uma mistura do antigo, do renascimento e do moderno visto através de esculturas gigantes, como a pirâmide que logo na entrada o visitante se depara com a última ceia de Cristo (Leonardo da Vinci) vista pelo olhar do artista Allan de Kard.

 

 

A TRAJETÓRIA DE UM INTELECTUAL AFRICANO QUE CRITICA E DESAFIA

“Estamos deixando de ler (legere-escolher) no sentido da raiz da palavra. Cada vez mais somos escolhidos, cada vez mais somos objetos de apelos que nos convertem em números, em estatísticas de mercado”. São palavras do moçambicano Antônio Emílio Leite Couto (Mia Couto), no 16º Congresso de Leitura do Brasil, em 2007 – Campinas.

Quem fala dele no livro “Intelectuais das Áfricas” é Tânia Macedo, professora de Literaturas Africanas. Ela afirma que Mia Couto foi um intelectual que viveu sob o colonialismo, acompanhou e atuou na transição e na independência de seu país e mantém uma atitude crítica em toda sua trajetória artística.

Estudou medicina, foi jornalista, político e escritor. Com o tempo, deixou a política para abraçar a literatura, sem nunca deixar de criticar os donos do poder e, através do seu trabalho, procurou avivar a consciência de seus compatriotas para seu papel de renovação.

Nascido no período colonial (1955), de ascendência portuguesa, como lembra Tânia Macedo, o intelectual moçambicano viveu a Europa dentro de casa e a África na rua com seus colegas negros na cidade de Beira, onde passou a infância.

Couto abandonou o curso de medicina para dedicar-se à ação política. Em 1974 era um jornalista estagiário num vespertino, em Maputo. Militou em grupos clandestinos de apoio à Frente de Libertação. Lutou para a extinção da situação colonial ao integrar-se à fileiras da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique).

Após essa tarefa, a partir de 1979 e até 1981 foi diretor da revista semanal Tempo e, posteriormente, do jornal Notícias de Maputo (1981/85. A revista, da qual era diretor, não deixou de expressar fissuras nos discursos hegemônicos do partido Frelimo. Na seção de cartas, são mostradas as questões do cotidiano do povo se chocando contra o discurso do partido.

Em uma entrevista, quando abandonou a militância, Mia Couto apontou que aconteceram coisas que lhe traumatizaram, como amigos que foram presos, como Carlos Cardoso. “Nos tornamos vítimas do poder que defendemos. O que era traumático era a falta de lógica disso tudo”. Ao abrir uma nova etapa em sua vida, Couto escreve “Raiz de Orvalho”, seu primeiro livro publicado em 1983.

De acordo com Tània Macedo, é na prosa que Mia Couto torna-se conhecido internacionalmente. “Em seus romances e contos temos o intelectual africano engajado em questões como a nacionalidade, a devastação da guerra e a denúncia das condições do subalterno, sobretudo as mulheres, os velhos e as crianças que se transformaram em temas centrais em sua ficção”.

Em “A Varanda do Frangipani” (1996), Couto trata da tensão entre a tradição e os novos tempos. No “O Último Voo do Flamingo” (2000) escreve sobre o absurdo da presença dos capacetes azuis da ONU em territórios africanos, especialmente Moçambique. Em “A Confissão da Leoa” (2012) fala sobre a opressão feminina.

“Pode-se afirmar que a maneira poética de abordar a dolorosa realidade moçambicana é um dos traços da escrita de Mia Couto e estava presente na primeira narrativa do autor “Terra Sonâmbula” (1992)”. A obra faz um relato da guerra entre a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) e o governo da Frelimo, com críticas às autoridades do governo e a difícil relação entre as crenças ancestrais e a modernização dos costumes.

A trajetória de Mia Couto, segundo Tânia, não afasta o papel do intelectual africano participante, ou seja, daquele que reflete, discute e atua sobre as questões que percorrem a vida de seu país, como as formas de inscrição do poder. Em 2003 surpreende seu público com o volume “O País do Queixa Andar” ao reunir em livro 53 das crônicas publicadas na imprensa durante os anos de 1980 e 1990.

Nesses textos, “A Porta”, com a fórmula “era uma vez”, ele faz um relato sobre o porteiro que só deixa passar pela porta o estrangeiro com a carteira recheada de dinheiro. “Enquanto a questão das etnias, das cores e origens dos moçambicanos foram fatores de divisão sobre a nacionalidade, o país estará exposto à voracidade estrangeira”.

Em “E se Obama Fosse Africano”? Mia Couto coloca em discussão os problemas moçambicanos e africanos, como em “Os Sete Sapatos Sujos”. Ele propõe falar do futuro de Moçambique fazendo uma espécie de balanço de atitudes negativas e como a sua erradicação propiciaria a entrada para a modernidade. Esses sapatos sujos devem ser deixados na soleira da porta dos tempos novos.

Mia Couta destaca em “E se Obama Fosse Africano”? Mia Couta levanta a hipótese sobre o que ocorreria se Obama fosse candidato a presidente em um país africano. Ele diz que seria deflagrada a denúncia do autoritarismo e da truculência das elites do continente. Deixa claro que todos os entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

Se ganhasse as eleições, Obama teria que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontade do povo expressa nos votos.

Mia Couto defende que o texto literário deve estar a serviço dos direitos humanos e da democracia. Nesse aspecto ele se aproxima do nigeriano Wole Soyinka quando em Cuba, no ano de 2001, disse que só existem duas categorias de cultura: a que lisonjeia e sustenta o poder e a cultura herege, que critica e desafia. No entanto, muitos intelectuais africanos se submergiram ao afropessimismo, ou escolheram o caminho da diáspora.

 

A DOR DA FINITUDE

Fotos de Jeremias Macário

Os filósofos e cientistas sempre se debateram e se debruçaram sobre a questão da morte desde quando a vida surgiu na terra há bilhões de anos. Uns apostam que ela, como matéria a partir do átomo, é apenas o final de um ciclo passageiro da vida. Outros, como os pensadores gregos espiritualistas, que ela é a continuação da vida. No espiritismo e no universo iorubá existe a crença da reencarnação. Não importa, ela é dor da finitude, como nesses versos do jornalista e escritor Jeremias Macário. Há quem recomenda não se ter tristeza, mas saudade no peito quando se perde um ente querido. Os mexicanos e outras culturas fazem festas. De qualquer forma, é tudo mistério e confusão, como já expressou Fernando Pessoa.

Dizem que a morte é matreira;

É o líquido eterno da vida finita;

Outro que é o amargo sem sentido,

E que a vida é sombra passageira,

Que traz na lida a dor da finitude,

Com seu baú de coragem e medo,

Nos laços do intrincado segredo.

 

A finitude pode até curar sua dor;

O sábio manda conhecer a ti mesmo;

Um que nada muda em sua forma;

O outro que tudo vai e se transforma;

Você se depara com o ser ou não ser,

E o poeta na sua escala fora dessa bitola

Não se conforma e se embriaga no amor.

 

Tudo passa, é mutável e se transforma,

Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão,

Nada começa, nada se acaba, nada torna;

A flecha que voa está parada lá no ar;

É tudo finito, infinito, mistério e confusão,

E uns preferem o delírio etílico da festa;

Mergulhar nas ondas que se quebram no mar.

 

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (IV)

Continuação do poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário no formato de cordel que fala da cultura nordestina e   seus personagens escritores. É uma viagem do Maranhão até a Bahia num trânsito com hábitos, costumes e quem fez história nessa nossa nação da qual orgulho de pertencer.

Casquei pra Exú pra ver o monumento-rei Gonzaga;

Apertei as precatas para conhecer a feira de Caruaru,

Com a fome do saber popular, sem perder a ternura,

De um estado que parecia ter visitado quando menino,

Numa vaga do destino da reencarnação Pernambuco,

Dos holandeses-judeus que implantaram uma cultura,

E deixaram seus vestígios de uma comunidade futura.

 

Com meu trabuco fui logo ver o Manuel Bandeira,

Para beber na fonte original das sagradas escrituras,

Mas estava arrumando as malas para Passárgada,

No desejo de ser livre e ter a mulher que sempre quis;

Viver numa rede como rei com astutas prostitutas,

Longe desse chão de intrigas e disputas pra ser feliz,

E logo me convidou a embarcar em suas aventuras,

Quando de pronto avisei que não ia viajar nessa saga;

Que seu voo à Pérsia de Ciro seria nas asas da utopia,

E com afeto sai para ver o João Cabral de Melo Neto,

Para me juntar a ele na triste labuta de “Vida Severina”,

Do homem que só tem direito a sete palmos de altura,

Esse herói anônimo valente resistente a esta secura,

Dessa sina que nunca finda nessa paisagem nordestina.

 

Enfiei as mágicas palavras em meu alforje surrado,

E fui vagar pela Veneza-Recife até o monte Olinda,

Com a cena do gado berrando na seca cacimba catinga,

E pra esquecer passei nos botecos e enchi a cara de pinga;

Sonhei que estava na Grécia com os deuses do Olimpo,

E acordei entre os negros descritos por Gilberto Freyre,

Com quem visitei “Casa Grande e Senzala” dos bantos Níger,

Dormi em “Sobrados e Mocambos” de Angola e da Guiné,

Onde também o doutor deitou, como me disse e provou,

Mas vinha a cena do Bandeira em orgia como um rei.

 

Tomei tino e fui direto pra terra de “Menino de Engenho”,

Do tempo dos coronéis estuprando negras de taca e reio,

No mourão escravo, ou no lamento África dos canaviais,

Onde fui moleque com José Lins do Rego paraibano creio,

E com ele me lambuzei na safadeza erótica dos bacanais,

Sem receio de fazer estripulias de verso menino travesso,

Com aquela gente que lembra o filme “Vinhas da Ira”,

Expulsa do seu torrão e varrida como um lixo caipira.

 

FUTEBOL BRASILEIRO!…

Como dizia Chico Anísio em tom jocoso e irônico em seus programas humorísticos, “Fantasma Brasileiro”! Assim é o nosso futebol de hoje, um verdadeiro pastelão de pernas de paus, uma bagunça com jogos truncados, juiz perdido no campo que dá um cartão vermelho e depois volta atrás e a bola pouco rola em partidas com inúmeras paralisações para ver o VAR.  Como torcedor do Fluminense, (só fracasso) confesso que estou perdendo o “saco” para assistir uma partida, mesmo do meu time.

Lembro meus tempos de juventude na década de 60 quando jogava no Seminário de Amargosa e região com Zouzinha, Nelson, Epifànio, Zé Humberto e tantos outros que o tempo me fez esquecer os nomes. Nelson jogava com óculos de fundo de garrafa e ninguém conseguia segurar ele em campo. Foi na época de Pelé, Garrincha, Vava, Didi, Zagalo, Coutinho, Pepe, Amarildo e tantos que davam três seleções imbatíveis.

Hoje temos um Tite com um time medíocre ganhando todas para as fracas equipes da América do Sul e recebendo montes de elogios dos comentaristas da Globo. Aliás, foi essa rede de televisão que manteve ele lá na desmoralizada Confederação quando o Brasil perdeu para a Bélgica na Copa passada de 2018. O nível é baixo e só tem Neymar “cai-cai” indisciplinado. O resto nem seria convocado nas décadas de 60 e 70.

Futebol Brasileiro!… coisa feia para se ver! No Campeonato Brasileiro, no Rio de Janeiro só tem hoje dois times na primeira divisão, com um Flamengo em decadência de jogadores pendurando as chuteiras. Em Belo Horizonte, um Cruzeiro com risco de ir para a terceira divisão. No Rio Grande do Sul, um Grêmio na mesma situação. São Paulo, que sempre foi a força, uns times capengas, e o Bragantino é a bola da vez.

No Nordeste, só os times do Ceará (Fortaleza e Ceará) são revelações do campeonato. Na Bahia, o futebol é uma vergonha!  Nos certames, os dois times representantes (um na série A e o outro na B) são formados por Seu Secador, Juiz Ladrão, Campo Ruim, Seu Cansaço, Senhor do Bomfim, Sal Grosso, Macumba, Reza Braba, Com Fé em Deus, Seu Empate e o Matemático da Tabela. No ponta pé inicial do campeonato, começa a corrida da contagem para não ser rebaixado.

Na Bahia, ao invés de uma evolução, houve um atraso nos últimos 50 anos quando ainda existiam times fortes, como Ipiranga, Botafogo, Leônico, Galícia e Fluminense de Feira de Santana. Os cartolas (ainda existem essas espécies) acabaram com o nosso futebol. Hoje existe um campeonato merreca e pobre que eles chamam de “Baianão”, mas é um Baianinho de duas equipes.

No geral, a redonda é a mais maltratada a voar desnorteada como pássaro de uma só asa de um canto para o outro do gramado. São sarrafos e rasteiras que mais parecem luta de capoeira. Vez ou outra um jogador acerta um drible e um chute que vira golaço, tão escasso de se ver. No espetáculo de pancadarias, não faltam os empurrões, cotoveladas e até cuspe na cara. Os técnicos soltam palavrões do outro lado.

Por falar nesses “professores”, o troca-troca de técnicos mais parece rotatividade de Motel. Num país gigante como o Brasil, o campeonato é uma maratona de viagens e jogos que não seguem a tabela por causa de outras competições. A CBF comanda a trapalhada. Foi só flexibilizar o acesso aos campos que surgiram as invasões e brigas entre torcedores, a grande maioria de fanáticos.

A maior parte dos times está totalmente endividada e não paga as obrigações trabalhistas e previdenciárias. Muitos estádios se transformaram em elefantes brancos, principalmente os situados no Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Em relação às competições europeias, sobretudo em termos de organização, as brasileiras estão nos níveis amadorísticas.

PARA QUE SERVE O VEREADOR?

Carlos González – jornalista

Entre os 181 países que compõem a Assembleia Geral da ONU, o Brasil é o único que mantém um grupo de privilegiados, regiamente remunerados, que atendem pelo nome de vereador, eleitos para um mandato de quatro anos, mas com direito a vitaliciedade. Os legislativos dos 5.570 municípios brasileiros abrigam 58.208 vereadores, cuja maioria, simplesmente, registra sua presença em plenário três dias por semana, contrariando as promessas e juramentos que fizeram de ouvir e atender os anseios do povo que os elegeu.

Num cálculo rápido, as prefeituras – na verdade, o contribuinte – repassam anualmente para as câmaras de vereadores mais de R$ 6 bilhões, para custear salários de assessores (cabos eleitorais, parentes, “laranjas” e “fantasmas”) e servidores efetivos, acrescidos de uma lista de mordomias e “penduricalhos” que beneficiam os chamados “representantes do povo”.

Países que não convivem com os altos índices de desemprego e da fome e com a perda de 608 mil vidas humanas, por omissão do governo federal, se valem dos conselhos municipais, formados por cidadãos, desvinculados dessa sórdida política de “toma lá, dá cá”, e que se sentem gratificados em assessorar e fiscalizar os seus alcaides, e, principalmente, desenvolver projetos em benefício da população.

A Constituição de 1988 estabelece que, de acordo com a população, a área e a remuneração do deputado estadual, os municípios podem eleger de nove a 55 vereadores (São Paulo), com salários brutos entre R$ 5.600 e R$ 21 mil, levando para o seu gabinete de nove a 18 assessores.

Além desses valores, o vereador pode receber gratificações de até 80% do salário, em média R$ 35 mil, verbas indenizatórias (reembolso por gastos no exercício da função) e verbas de gabinete, para cobrir as despesas com os assessores (nesse quesito entra a famigerada “rachadinha”);  aposentadoria especial; carro oficial, combustível e assistência médica-odontológica.

Municípios no Nordeste gastam mais com as câmaras municipais do que conseguem arrecadar. Novo Triunfo, no nordeste baiano, a 560 kms. de Salvador, apontado pelo IBGE como o município mais pobre do país, tem unicamente no modesto comércio sua maior fonte de renda, além dos repasses do estado e da União. Mais de 70% dos seus munícipes vivem das aposentadorias e do Bolsa Família.

A fuga para o Brasil

Na transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 29 de novembro de 1807, fugindo das tropas do imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), o rei D. João VI (1787-1826) permitiu que um grupo de nobres, que tinha a obrigação de normatizar a vida das comunidades lusitanas, se instalasse numa das 16 embarcações, para uma viagem de 62 dias até o Rio de Janeiro, onde expulsaram os moradores de suas casas logo após o desembarque.

A função do vereador no Brasil começou a normalizar a partir da Independência (1822) e da Constituição de 1824. A promulgação da Carta Magna de 1988 concedeu maior autonomia aos municípios, beneficiando os seus legisladores, que passaram a exercer certa pressão sobre o Executivo.  Em resumo: o prefeito está passível de perder o mandato, caso venha a desagradar a maioria dos vereadores.

A remuneração do vereador das capitais passou a vigorar a partir do meado da década de 60 do século passado. Em 1977, o presidente Ernesto Geisel (1907-1996) estendeu esse benefício aos edis do interior do país. Com o apoio de uma ampla maioria da população, o presidente Getúlio Vargas (1884-1954) fechou as câmaras municipais (de 1930 a 1934 e de 1937 a 1946). Na verdade, as casas legislativas municipais funcionam como as extintas escolas primárias, onde o aluno inicia a preparação para exercer no futuro uma profissão que o engrandecesse e ao seu país.

A ideia fixa de quem se candidata a vereador é a de seguir a carreira política, cuja desaprovação entre os brasileiros chega a 60%. Na ambição de obter uma vaga usam dos nomes e apelidos mais bizarros – em São Leopoldo (RS), Tarzan e Cigana sentam ao lado de Hitler (nome de batismo, eleito pelo DEM com 1.865 votos, que admite desconhecer a doutrina nazista).

Câmara de Conquista

Quem acompanha o noticiário da imprensa local pode avaliar a atuação dos vereadores de Vitória da Conquista no primeiro ano de mandato; se estão cumprindo o que estabelece os artigos 29 a 31 da Constituição de 88, que estabelece as diretrizes dos legislativos municipais. Observamos que, logo após a posse, a prefeita Sheila Lemos procurou ampliar sua base de apoio, cooptando fingidos oposicionistas que se elegeram com um discurso de protesto à administração de Herzem Gusmão (1948-2021), mas, no primeiro aceno da prefeita, “pularam o muro”, em troca, provavelmente, de vantagens, o que significa uma traição ao seu eleitorado.

Sheila pode trabalhar com tranquilidade os próximos três anos, pois conta com uma folgada maioria na Câmara. São 14 dos 21 vereadores, dispostos a lhe dizer “amém”, aprovando todos os projetos – a criação da Taxa do Lixo está na pauta -, sob os olhares complacentes de uma oposição esmagada por bolsonaristas, religiosos fanáticos e os que revelam aversão aos grupos LGBT.

Nas barulhentas sessões, entremeadas com citações bíblicas, “suas excelências” vão continuar a usar o pouco tempo em plenário para indicar avenidas e ruas onde devem ser construídos os odiosos quebra-molas (a cidade é recordista no país), prometer carros-pipa para a zona rural abandonada e propor títulos de cidadania e moções de aplausos e de repúdio.  Há momentos em que o visitante tem a impressão de que se acha num templo evangélico.

A Câmara de Vereadores conquistense, segundo o Portal da Transparência, tem pouco mais de mil servidores, incluindo os 21 edis, seus assessores, funcionários de carreira, estagiários e advogados. Em 12 parcelas de pouco mais de R$ 1,5 milhão a prefeitura repassa este ano quase R$ 19 milhões para o Legislativo.

Por este Brasil afora muitos são os que preferem estagnar na carreira política, passando a fazer parte da “mobília” das casas legislativas, praticando com seus eleitores o lesivo assistencialismo. O recordista é o gaúcho Wilmuth Bergmann, 93 anos e 11 mandatos; Carlos Bolsonaro frequenta há 20 anos a Câmara do Rio. A sra. Lúcia Rocha – sua ficha no TRE consta como profissão “ vereadora” – recebe desde 1992 os votos de um eleitorado fiel.

A vereadora decana de Conquista acha que, aos 69 anos, chegou o momento de passar para o segundo estágio da carreira parlamentar. Pretende ocupar em 2022 uma cadeira na Assembleia Legislativa, e, em 2024, a prefeitura da cidade.  Outros políticos situacionistas têm a mesma aspiração – a prefeita Sheila Lemos sonha com um segundo mandato. A sopa de letrinhas (MDB, DEM e PTB) está fervendo nos porões da política conquistense.

Diante do exposto está implícita uma pergunta que todo brasileiro gostaria de fazer:’ “Para que serve o vereador”?

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