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UMA CLASSE ESQUECIDA

Não é mais nenhuma novidade dizer que a cultura em nosso país, tachada de comunista pelo capitão-presidente e seus seguidores da morte, está sendo estraçalhada, mas ela resiste às forças do mal. Dentre as tantas linguagens artísticas, a literatura, representada pelo escritor, é a mais devastada de todas. O Dia Mundial do Escritor (13/10) passou em branco pela mídia e outros organismos.

Como na Idade Média, livros estão sendo destruídos e queimados nas fogueiras dos inquisidores vindos dos infernos. Para completar essa destruição por parte do atual governo, por incrível que pareça, a classe de escritor está sendo ultrajada e esquecida pela própria categoria que tudo deveria fazer para prestigiar o artista da escrita, o artesão da palavra e aquele que faz texto e literatura.

Não desmerecendo seu grande talento de intérprete da música popular brasileira, leio que a cantora Maria Betânia acaba de ser erguida ao Olimpo da Academia de Letras da Bahia. Não existe aqui em nosso Estado, ou no Brasil, um merecedor de tal honraria, que tenha uma obra aceitável? Será que o escritor também pode ganhar o prêmio Grammy de música algum dia, mesmo sem conhecer uma nota, como bem indagou Achel Tinôco, no Espaço Opinião do Leitor do “A Tarde”?

Há uns dois anos deram o Prêmio Nobel de Literatura ao cantor e compositor norte-americano Bob Dylan, que se recusou receber pessoalmente a grana de um milhão de dólares. Mais recente, a atriz Fernanda Montenegro tornou-se imortal da Academia Brasileira de Letras. Na época, teve gente que disse que ela foi agraciada pelo mérito de ter escrito aquela quantidade de cartas no filme Central do Brasil. Alguém pode ganhar um Oscar pelo filme em que não atuou?

Concordo com Achel quando afirma que os autores precisam de mais reconhecimento para desenvolver seus trabalhos, caso contrário haverá uma grande debandada de grandes artistas das letras para outras áreas. O escritor é aquele primo mais pobre dos pobres.

Quando se fala de arte, a classe de escritor é a menos lembrada, principalmente em situação difícil como nesse período da pandemia. Muitos entendem que somente a música, o teatro e a dança, por exemplo, precisam de ajuda dos poderes públicos. Praticamente deixam de fora de um auxílio o escritor que também ficou na penúria porque não pode lançar sua obra durante a pandemia.

MOÇÕES DE APLAUSOS E CRÍTICAS À PREFEITA

A sessão de ontem (dia 13/10) da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, depois da leitura da ata e da pauta do dia, foi aberta com a entrega de diplomas a diversos homenageados com moções de aplausos, mas também com duras críticas à prefeita Sheila Lemos pelo presidente da Associação de Moradores do distrito de José Gonçalves, Eunápio Novais.

O primeiro homenageado do dia foi o major Edmário, diretor do Presídio de Conquista pelos serviços prestados à frente da casa de detenção. Ele agradeceu a moção de aplauso e dedicou o reconhecimento da Câmara aos 145 policiais que trabalharam com ele quando comandava esse pelotão de segurança na zona oeste.

Receberam também moções de aplausos o jornalismo da TV Uesb pela cobertura na área da ciência, o jornalista Tico Oliveira, dono do Jornal Impacto pelos seus 34 anos de atuação no município e região, o Sindicato de Limpeza/Regional da Bahia, um representante dos estudantes e uma mulher que recebeu o diploma Loreta Valadares.

As críticas veladas à prefeita vieram da Tribuna Livre ocupada por Eunápio Navais, representante dos moradores de José Gonçalves. Primeiro ele rebateu as fake News divulgadas na internet dando conta de que as torres de celulares instaladas no distrito foram obras da Prefeitura, quando, na verdade, foi uma intervenção do Governo do Estado.

Afirmou ser vergonhoso a prefeitura se apropriar de um serviço que não contou com a ação do poder público local. Acrescentou mais ainda que a prefeita vive passeando por vários lugares enquanto a zona rural está abandonada.

“Cadê a Comissão de Agricultura da Secretaria? Prometeram que iriam canalizar água nos povoados de Roseira e São Sebastião, e até gora nada. Não temos patrol e trator que foram deixados pelos governos passados” – declarou, ao fazer um apelo para que os vereadores tomem uma atitude e se posicionem em relação aos fatos por ele narrados.

A INTELIGÊNCIA DO SER HUMANO ESTÁ REGREDINDO COM A PASSAR DO TEMPO

Estudos de pesquisadores cientistas (matéria da revista Veja) constataram que a inteligência do homem, medida pelo Q.I. (quociente de inteligência) está sofrendo um retrocesso por conta de mais tempo nas telas de televisão e nas redes sociais. Ao invés de nós tornar mais brilhantes, essa tecnologia mal-usada está nos deixando mais burros e nos levando aos tempos primitivos.

No século XX tivemos décadas de avanços, como as de 60 e 70 em plena efervescência da cultura, do conhecimento, do saber, da leitura e da prática das artes em geral. Nesse século passado, conforme reportagem de Ernesto Neves e Caio Saad, os países mais desenvolvidos anunciavam que o Q.I. de seus habitantes só fazia subir.

Agora, nos tempos atuais, com o advento da internet e das redes, a inteligência está dando marcha ré. Isso quer dizer que o homem está perdendo a lógica do debate racional e do diálogo em troca do ódio e da intolerância, com ideias retrógradas ultraconservadoras. Tudo começou a partir dos anos 2000.

Pela constatação, os filhos passaram a ter mentes menos afiadas que dos pais. Isso nos faz cair nesse buraco desprovido de massa cinzenta, como os antivacina, anti-instituições democráticas (apelos pela volta da ditadura) e contra a ciência. É o lado escuro da polarização ideológica.

No livro “A Fábrica de Cretinos Digitais”, o renomado neurocientista francês Michel Desmurget, diretor do Instituto Nacional de Saúde da França, aponta suas baterias para o excesso de tempo diante da tela dos mais variados aparelhos digitais, os quais estão contribuindo para o atual estado de estagnação intelectual.

A questão, de acordo com ele, está no maior número de horas frente às telas. Afirma que o uso de computadores e celulares por pré-adolescentes é três vezes maior para se divertir do que para realizar trabalhos escolares. No caso de adolescentes, o número sobe para oito.

Durante a pandemia esse tempo de exposição diante das telas e dispositivos, como todos nós sabemos, se elevou, principalmente no Brasil. Antes do vírus, os participantes de uma pesquisa divulgada por universidades brasileiras relataram média de seis horas e meia de exposição diária. Durante a pandemia, o número subiu para dez horas por dia.

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E A HISTÓRIA SE REPETE

Em 1989, no pós-ditadura, as eleições diretas para presidente contavam com 22 candidatos, vários de direita e esquerda, como Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Collor de Mello e o próprio Luis Inácio Lula da Silva, um sindicalista em ascensão política.

Naquela época a inflação batia recordes de mais de 1000% ao ano e o país estava arrasado com José Sarney no governo em substituição a Tancredo Neves que havia falecido. Apareceu o Fernando Collor, de Alagoas, como um salvador da pátria e que se dizia caçador de marajás. Chamava o Sarney de maior batedor de carteira da história.

No final ficou o Collor e o Lula, que era chamado por Brizola de sapo barbudo. No debate Lula foi estraçalhado com ajuda da mídia, principalmente a Rede Globo que ajudou vir à tona um caso de escândalo familiar.

Em Alagoas, ele já tinha fatos condenáveis quando passou pela prefeitura de Maceió e pelo Governo do Estado. Ficou dois anos na presidência e sofreu o processo de impeachment por irregularidades, por atos de corrupção. Aquela eleição foi marcada mais pela emoção do que pela razão.

O tempo passou e veio 2018 quando, como numa repetição da história, o povo elegeu um deputado destrambelhado, expulso do exército, homofóbico, racista e negador da ciência. A eleição transcorreu num clima de ódio contra o PT de Lula. O negócio era varrer o partido do mapa quando havia outros candidatos a escolher.

Passados três anos, num esquema invertido, as pesquisas indicam a volta de Lula para impedir a reeleição do capitão, se bem que ainda tem muita água para passar por debaixo da ponte. Até lá a história pode se repetir com a polarização no segundo turno, e aí o Brasil vai se afundar de vez num poço sem fundo.

O capitão tem uma legião de fanáticos do tempo da Idade Média entre evangélicos, militares e conservadores que viviam trancados num armário como fantasmas que consideram o PT como satanás. No eleitorado tem uma percentagem de arrependidos (cerca de 30%) que não quer nenhum dos dois, mas não se sabe em que campo vai ficar.

O maior risco é essa persistência da polarização do ódio quando, a bem da nação, o PT de Lula poderia ceder para formar um governo de coalizão entre direita, centro e esquerda para eliminar a ultra extrema-direita, mas a vaidade e o poder falam mais alto. Estamos correndo o risco de mais quatro anos de destruição.

Vamos continuar prisioneiros dessa exaltação negativa e desse maniqueísmo que vão mais ainda nos empurrar para o retrocesso? Onde está o senso crítico na escolha de um candidato que, pelo menos, pense nas prioridades nacionais; que tenha capacidade de liderança; e promova o entendimento no exercício do poder?

Quando a história sempre se repete e se comete os mesmos erros, é porque temos um povo sem memória, sem sabedoria, sem lógica, sem consciência política, iletrado e que se deixa guiar pela emoção. Como se diz no popular, estamos num beco sem saída, ou no mato sem cachorro.

 

 

 

UM REVOLUCIONÁRIO MASSACRADO PELO REGIME DITATORIAL DA NIGÉRIA

Através do seu afrobeat, com letras revolucionárias que questionaram os sistemas colonialistas, bem como o puritanismo das elites africanas cristãs e islâmicas, apegadas ao poder, à violência e à corrupção, o músico Fela Kuti foi preso e torturado pelo regime ditatorial nigeriano no governo de Olusegun Odasango, na década de 70.

De acordo com o professor Amaílton Magno Azevedo, que escreveu um capítulo sobre Fela Kuti na obra “Intelectuais das Áfricas”, ele nasceu na Nigéria no ano de 1938 e, ao longo da sua carreira até 1977, compôs uma significativa produção musical que o alçou à cena mundial ao fundar o estilo afrobeat.

O professor organizou o texto em temas chaves, como a África de Fela; o Afrobeat no contexto do Atlântico Negro; Fela, a dança e o corpo negro; Fela, o revolucionário e as questões de gênero (ele tinha uma visão machista); e Zombie: Uma pedrada no poder.

O africanista cita o escritor Carlos Moore, em seu livro “Fela. Esta Puta Vida” onde destaca toda sua história, que se transformou em referência estética e política no contexto da música popular negra do lado de cá da margem atlântica.

Diz o autor do texto que, se a África viveu décadas perdidas no período pós-colonial, em termos social e econômico, a vibração cultural das artes negras reposicionou o continente numa dimensão de vitalidade e pujança, principalmente quanto as lutas de resistência cultural.

Assinala que a obra de Fela sempre esteve inserida na dinâmica de reinvenção da África sob o prisma da descolonização e imersa na ordem do renascimento. Fela viveu nos períodos colonial e pós-colonial. Ele testemunhou essas duas experiências. Uma, amarga, sombria e devastadora. A outra vislumbrava um tempo de esperança e renascimento.

Pela sua historiografia, segundo Amailton Magno, a África transitou de uma esperança utópica de renascimento com a meta narrativa da independência para uma realidade de frustrações e desencantos. Apesar de tudo isso, o estudioso de Fela afirma que a África continua sendo aquilo que Gilberto Gil falou de “terra fundante, terra matriz, terra onde se encravam as raízes corporais e álmicas da humanidade, reconhecido berço de todos nós”. É a terra dos mais injustiçados do mundo, completa Amaílton.

Depois de fazer uma descrição sobre o pan-africanismo e as influências das diásporas negras na musicalidade da África, o autor do texto ressalta que desde os anos 20 encontram-se vestígios de memórias sônicas ligadas a jazz, às músicas rítmicas do Brasil e Caribe.

“Essas conexões guardam também um rastro de memórias rítmicas entre Brasil e Nigéria desde a década de 30 do século XIX, quando os retornados brasileiros se estabeleceram em Lagos e outros locais. Os iorubas e crioulos nascidos no Brasil formaram uma comunidade e contribuíram na culinária, arquitetura e musicalidade”.

Conta que Fela se inseriu no universo do highlife antes do seu envolvimento no afrobeat. “A visão de Fela se cristalizou num período em que os povos negros da África, Caribe e das Américas estavam estabelecendo uma aliança política, cultural, artística e pessoal sem precedentes. Direitos civis, descolonização e independência tornaram-se os temas centrais da luta negra na segunda metade do século XX”.

Durante sua trajetória, Fela incorporou estilos musicais, instrumentos e ideias do discurso nacionalista negro dos Estados Unidos (antes ele passou por Londres). Seu contato com Malcom X também contribuiu na configuração estética e política do afrobeat.

Após essa experiência, ele modifica sua forma de pensar, nascendo dali uma nova consciência sobre si, os negros e a África. A partir dali ele passou a adotar atitudes mais combativas, descolonizada e ativista. Suas bandas adquiriram um tom político e contestador.

“Inspirada na vida dos injustiçados, do gueto e contra as instituições do status quo, o afrabeat surgiu da necessidade de recomposição da História da África, do seu renascimento, da superação do passado colonialista e do esquecimento no pós-independência. A retórica de Fela pró-negra atraia inclusive setores políticos com inclinações marxistas que desprezavam as convenções estabelecidas”.

Alguns trechos do texto de Amaílton em “Intelectuais das Áfricas” sobre Fela: “Ele fez do afrobeat um instrumento crítico da pilhagem da África. Desejou encarar a “dimensão trágica da África”, dilacerada pela contradição em negar uma herança de submissão e afirmar um novo destino, como assim sugerem o repertório das letras, que se transformavam em “pedras atiradas nas classes dominantes”. Nelas revelam-se a orientação ideológica e política de crítica ao Estado pós-colonial, de repulsa ao imperialismo euro-americano e de apoio aos ideais pan-africanistas”.

“Seu canto é manifestação de resistência. É improviso, é canto anasalado, é um canto negro. Gilberto Gil fala dessa maneira de cantar em que se busca uma “excelência da alma, numa emissão mais natural, mais malemolente, mais negro mesmo”.  O músico revolucionário, segundo ainda Amaílton esbarrava numa visão torpe quando refletia sobre o universo feminino. Dizia ele acreditar na superioridade masculina e na obrigação da mulher em se conformar com sua inferioridade física”. No final da sua carreira ele não adotava mais esse conceito machista.

Seu disco Zombie foi uma pedrada no poder que, conforme Fela, era violento e devastador. As letras expressavam uma encorpada crítica ao governo ditatorial da época (1976). Para protestar contra o II Festival Mundial de Artes Negras, na Nigéria, em 1977, Fela criou o dele em sua República Kalakuta, que foi cruelmente atacada por mil soldados que estupraram várias mulheres (27) de Fela, feriram sua mãe e destruíram seus acervos.

Fela foi preso e torturado pela ira do general presidente Olusegun Obasango. Sua República foi totalmente destruída. Ele foi um músico popular e querido na Nigéria e no continente. “Sempre clamou por democracia, desejou ser candidato a presidente da República; sem, no entanto, ter conseguido o direito de disputar eleições”.

“Desejou justiça e felicidade para a África, mesmo sabendo das dificuldades enfrentadas com prisões e torturas. A repressão sofrida por Fela não foi praticada pela colonização e sim por um poder negro”. Depois de tudo isso, transformou-se num homem solitário, desconfiado e sisudo. No final da sua vida passou a recorrer a práticas de misticismo, como forma de autoproteção.

TÚNEL BAMBUZAL

Fotos de Jeremias Macário

Quem vai ao Aeroporto Internacional Dois de Julho (assim prefiro denominá-lo em repúdio ao nome histórico trocado por de um político), ou dele desce e segue de carro se depara com um belo túnel bambuzal construído pela própria natureza há muitos anos, só que dá pena porque as árvores carecem de maiores cuidados. Muitos dos bambus que formam o túnel estão prestes a cair e pode ser um risco para quem transita por aquela via que passa uma sensação de calma na alma de qualquer pessoa. Sempre me deixa encantado todas as vezes que entro ali, principalmente quando morava em Salvador. É como se você se sentisse uma outra pessoa, onde logo na entrada o bambuzal varre do seu espírito todos problemas da vida, e o corpo fica mais leve. Pode ser chamado de um pequeno grande túnel da poesia, da natureza e do bem-estar.  Sem dúvida, esse túnel é um dos mais bonitos cartões postais da capital, e não há turista viajante desconhecido que não dê aquela suspirada e diga: Que coisa mais linda! Mesmo assim, imagina que já chegaram a cogitar na derrubada daqueles bambus que tanto deixam as pessoas fascinadas! Isso mostra como o ser humano é perverso e insensível. No lugar de cobrar das autoridades mais zelo e preservação, tem gente que prefere a destruição. Confesso que a pressa não me deixou captar melhores imagens da minha máquina, mas a sensação de encantamento é sempre mais forte quando caio naquele túnel verde. Sempre é como se fosse a primeira vez.

MENTE BRASILEIRA

Versos do jornalista e escritor Jeremias Macário

Mente moura, ibérica, negra e índia,

Essa cor do melaço brasileiro mente,

Mente feio o eleitor na urna ao ir votar,

Depois o eleito só quer tirar proveito,

Promete pão e escola e dá circo e esmola;

Enganam o governo e o caro parlamentar.

E a avenida histérica se racha para xingar.

 

Mente sem hora e horário,

Reino virado ao contrário,

De sangue mestiço Pau Brasil!

Nos una de quem nos dividiu.

 

Gente falsa compra sapato em Nova York!

Só quer falar I love !very good, nok, nok;

Rouba meu cofre e sempre se diz inocente;

O demente mente que a ditadura não existiu;

Mente na TV que não pratica preconceito;

Faz de conta que lê e só vê as redes sociais;

Avança os sinais e se diz humano solidário;

Apoia os fascistas e o corrupto salafrário.

 

Mente vil brasileira tão incoerente mente,

Onde o forró lambada virou coisa normal;

A puta finge amor na cama e que gozou;

A Igreja prega que a inquisição já passou;

O malandro se gaba de esperto inteligente;

Todo mundo só quer em tudo levar vantagem;

Cabra da peste está sumindo do Nordeste,

Como Suassuna com sua viagem armorial;

Mente brasileira de cultura e vida desigual.

“DEUS QUER ASSIM, E ASSIM SEJA, MEU FILHO”

Dia desses ouvi de uma senhora idosa citar essa frase título do nosso comentário para um repórter da televisão quando indagada sobre seu sofrimento na fila para marcar uma consulta médica. Logo me veio à cabeça: Que Deus é esse tão malvado, do é assim que sempre quis, que carrega a culpa de escolher uns ricos poderosos e outros miseráveis? Existe esse Deus do conformismo, da submissão, da alienação, da ignorância e da falta de consciência política?

Li em algum lugar de um professor filósofo de que das taras de um mundo velho, condenado, nascera outro novo, tão sonhado. Diria que no caso particular do nosso Brasil, ainda somos almas das taras de um passado medieval, colonial, de uma Igreja Católica que não nos ensinou a indignar-se com as injustiças do homem. Ainda não nos libertamos para a renovação do novo, tão sonhado.

Em muitas mentes, Deus está em tudo, no certo e no errado, quando se ganha e se perde, principalmente nos atuais tempos do fanatismo religioso cego desvairado. Deus é visto, ao mesmo tempo por muita gente como bondoso e cruel, vingativo e misericordioso como no Antigo Testamento da Bíblia que mandava Abraão sacrificar seu filho, e só falava com os seus abençoados.

O homem comete os desatinos; derruba as florestas e entope o meio ambiente de lixo; coloca o poder acima de tudo em detrimento do social; e vem o nosso povo com sua cultura arcaica do passado dizer que foi Deus quem mandou os males e as pestes para nos castigar. Quando muito tarda e vara a sequidão, pede-se a Ele que mande chuvas dos céus. Às vezes, a água só cai no solo quando tudo já está perdido. Foi assim que Ele quis?

Deus tocou em seu cajado de pragas e dele brotou a Covid-19 para matar mais de 600 mil brasileiros. Lá do alto deve, depois de quase dois anos, ter refletido: Bem já basta, já me dou por satisfeito. Agora vou dar uma parada nas mortes. Os que se foram não prestavam. Eram refugos humanos. Faziam parte do maligno chifrudo. Esse Deus escolheu ser terrível e malévolo por algum tempo, e agora resolveu ser caridoso.

Infelizmente, ainda nos alimentamos das taras do passado, e milhões assim pensam de que tudo que acontece no planeta, seja bom ou ruim, é emanado por Ele. O próprio capitão-presidente disse que foi eleito por obra de Deus, esse Supremo que consente acabar com a Amazônia, que é homofóbico e racista, contra a vacinação, que recomenda a população comprar armas ao invés de feijão e que manda a fome, a miséria e o desemprego. É o Deus que faz as pessoas penarem nas filas do SUS, do auxílio emergencial nas portas dos bancos e morrerem sem atendimento médico nos corredores dos hospitais.

Do alto da sua ingenuidade e da cultura da velha tara do passado que o homem do poder inoculou nas pessoas, para que elas continuem sendo seus servos, escravos e súditos, a senhora idosa cheia de marcas e rugas do sofrimento diz que “Deus quer assim, e assim seja, meu filho”. Em toda sua vida foi assim, caiando aqui e acolá, sendo injustiçada, maltratada e aceitando as migalhas. Em toda sua vida lhe negaram a dignidade, o conhecimento e o saber para se rebelar contra esse perverso sistema que esmaga o ser.

Desde os primórdios, a Igreja Católica, em conluio com o Estado, não ensinou o pobre a progredir, mas a se conformar e a obedecer ao dono do latifúndio, dando a ele a esperança de que na outra vida terá o reino dos céus. “Deus quis assim, meu filho” – confortava o padre com seu terço na mão, e dele ainda arranca o dízimo. Com suas mentiras sobre a figura do Deus punidor, de chibata na mão, o pastor evangélico ainda faz o pior.

Esse pensamento de um Deus aterrador, que protege só os fortes de dinheiro, foi desmoronado e desmascarado a partir da Reforma de Lutero no século XVI quando as igrejas anglicanas e presbiterianas, os crentes, como foram chamados, passaram a transmitir a visão de que cada um tinha a capacidade de crescer e viver com dignidade, desde que não fique o tempo todo dizendo amém, e que Ele assim quis.

Acontece que a caixa de pandora foi aberta e os humanos preferiram seguir o pecado da ganância capitalista da exploração escravagista criminosa contra os mais fracos. O nosso povo precisa sim, se libertar dessa tara do velho mundo e ser bem mais político que religioso.

Não é Deus quem faz ganhar jogo, nem perder. Não vem Dele a maldade do aquecimento global. Ele não está em todos lugares, como se imagina, para tocar fogo na vegetação, nem tampouco apagar incêndios. Não existe esse Deus do quer assim e assim seja. Minha concepção de um Deus é completamente diferente desse de palavras vãs.

 

AO INVÉS DE PRESERVAR LEITOS OS GOVERNANTES DESATIVAM A ESTRUTURA

Não consigo entender quando o governo anuncia que está desativando os leitos montados para atender os pacientes da Covid-19, depois de milhões ou até bilhões de reais investidos em todo Brasil. Por sua vez, a mídia apenas informa essas decisões controversas sem, ao menos, questionar. Esses leitos e aparelhos caros vão virar sucatas em algum depósito?

A população tem o direito de saber se essas desativações estão ou não acarretando desperdícios com o dinheiro público. Até parece que em nosso país a saúde está uma maravilha. Esses equipamentos não poderiam ser aproveitados para reforçar o sistema que sempre foi precário bem antes da pandemia chegar?

Como diz o macaco do programa humorístico, se não me engano do Jô Soares há muitos anos na televisão, eu só queria entender! A mídia nos deve essa explicação que precisa ser respondida pelos governantes. Vamos voltar a conviver com os doentes do SUS morrendo nos corredores dos hospitais, principalmente neste governo que cortou drasticamente investimentos nas áreas da saúde e da educação?

Foi só os números de casos e mortes pela Covid baixarem por causa do aumento da vacinação (o que dizem agora os negacionistas da teoria do jacaré?) e já estão no clima do liberou geral, como em Salvador onde o prefeito diz que vai haver réveillon e carnaval. Estive semana passada na capital e confesso que fiquei assustado com o que vi nos restaurantes, nos bares, nas ruas e no Elevador Lacerda.

Essa de seguir protocolos e regras de prevenção contra o vírus é conversa para boi dormir. De um lado os empresários, especialmente os setores do comércio e serviços, fazem de conta que cumprem as determinações. Do outro lado, os governantes fazem de conta que fiscalizam os estabelecimentos. Assim, vivemos no país das mentiras. Tudo fica nas teorias macabras.

É até hilário o prefeito de Salvador declarar que vai realizar o carnaval com todos regramentos, a começar pela exigência de que os foliões tenham tomado, pelo menos, a segunda dose. Como a prefeitura vai controlar uma festa de massa, de multidões onde existem dezenas e até centenas de entradas na festa? Vai colocar barreiras em todas as ruas, travessas, avenidas e esquinas que dão acesso ao carnaval?

Todos sabem que isso é impossível. É subestimar a inteligência dos outros, tratando a todos de burros e idiotas. Na verdade, o poder público está sendo pressionado pelos donos do carnaval, formados pelas elites que sempre mais lucraram com o evento.

Vários países que liberou geral antes do tempo tiveram que retomar às restrições. Agora, imagina o Brasil, uma nação de indisciplinados que começou o processo de imunização com atraso graças à barbárie do capitão-presidente que nem queria vacina.

CADÊ A BANDEIRA BRASILEIRA NAS MANIFESTAÇÕES CONTRA O GOVERNO?

Cada sindicato, associação, organização, partido e entidade leva sua bandeira, ou carrega sua faixa e cartaz de dizeres nas manifestações contra o “fora Bozó”, mas não se vê a presença da bandeira brasileira, o que significa uma grade falha. Afinal de contas, a esquerda ou a oposição têm que colocar a pátria acima de tudo, não esse patriotismo hipócrita e mentiroso que está destruindo nosso país.

Um companheiro que estava comigo no movimento de sábado (antigamente a gente chamava de passeata), em Vitória da Conquista, me chamou a atenção desse detalhe: “Não estou vendo nenhuma bandeira do Brasil”. Pior que também cometemos o mesmo erro que abre brecha para os “bozoristas” negacionistas atacarem que vão varrer das ruas o vermelho.

Bandeira nenhuma está acima da nacional, e é dever da oposição, seja qual for nesse momento, preencher essa lacuna nas manifestações. Acima de qualquer palavra de ordem para afastar de nós essa cruz e essa psicopatia que estão acabando com o meio ambiente, que é contra a vida e pratica atos genocidas, está a defesa do Brasil, e a bandeira é o seu símbolo maior.

Bem, aqui em Conquista, o movimento que partiu do espaço Glauber Rocha em direção ao centro foi que maior que o anterior do Sete de Setembro, em torno de três mil pessoas, mas ainda carece de maior organização, se bem ser isso hoje mais difícil porque é programado através das redes sociais.

A tecnologia facilita o chamamento das pessoas, mas peca na questão do planejamento por meio das lideranças. Antigamente os representantes dos estudantes, dos trabalhadores, dos camponeses, associações e outras entidades se reuniam em um local e montavam uma estratégia antecipada com roteiros, planos possíveis de serem substituídos a depender das ocorrências e uma boa segurança para não ocorrer imprevistos. Existia até a ordem das falas e quem estaria habilitado a se pronunciar.

Hoje é tudo na base das redes e sempre acontecem as improvisações. No entanto, o que conta mesmo é o propósito político e a filosofia do movimento. No momento caótico em que o país atravessa, não deve haver espaços para vaidades políticas e quem vamos apoiar nas próximas eleições. O objetivo principal e o foco agora é livrar o país desse mal horrível que caiu sobre nossas cabeças.

É mais que necessário que haja tolerância entre as partes, seja esquerda, centro, moderado ou direita na rejeição ao presente. O que se percebe nas ruas é que o povo não quer mais o passado, nem esse presente de malefícios. O maior medo é que se cometa os mesmos erros de 2018, e aí vamos ter que viver mais quatro anos de inferno astral, ou de Dantes.

Queremos destruir mais ainda do que já foi destruído? Descer mais ao fundo do poço? Fala-se muito nas manifestações da inflação, do desemprego, dos baixos investimentos em educação, pesquisa e saúde, heranças de governos passados, mas tudo isso junto ao retrocesso, ao negacionismo da ciência, à destruição da natureza, aos atos de barbaridades de um governo que isola o Brasil no cenário internacional nos envergonha e aniquila nossa existência.

Mesmo que a economia venha a mostrar sinais positivos de crescimento, que haja redução do desemprego e a inflação seja controlada, não podemos nos aquietar, nos conformar e esquecer dos outros grandes males que o capitão-presidente vem cometendo, como os atentados contra a democracia, a liberdade de expressão e a família brasileira, os quais cinicamente ele abre a boca para posar de defensor.

Quem é ele para falar em família quando tem uma desajustada especializada em “rachadinhas” nas assembleias e câmaras, coligada com milicianos, homofóbicos e racistas?  Quem são eles para falar em democracia e liberdade quando vão para as ruas pedir a volta da ditadura militar? Seus maiores crimes não estão na inflação, na queda da economia e no desemprego. Não adianta só encher a barriga e viver sem dignidade.





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