“CUMA CUNTECEU” NAS REVELAÇÕES DO VALENTE CANGACEIRO LABAREDA
O médico e antropólogo Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” transcreve uma entrevista que fez com Ângelo Roque da Costa (Anjo), vulgo Labareda, do grupo de Lampião, na linguagem matuta, com pitadas poéticas, ipsis liter, difícil de se falar e escrever.
Na época em que Lampião foi morto, em 1938, na gruta do Angico (Sergipe), Estácio era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e acolheu e defendeu muitos cangaceiros presos e outros que se entregaram. Ele chegou a empregar alguns depois de indultados.
Na entrevista, Labareda descreve o chefe que muitas vezes vacilava nas decisões e era afrontado. Quando “carmo” “agia como uma moça, mas aperreado era uma fera”. Era cruel e até justo em algumas ocasiões. Ás vezes se apiedava da pobreza e distribuía algum dinheiro. Não perdoava quem o denunciava aos “macacos”.
Labareda, nascido pelas bandas de Santo Antônio da Glória (Curral dos Bois), na Bahia, conta que ajudava os véio na roça. “Minha mãe era mulé da cusinha, dus fio i da inxada. Eram arremediados. “Só nus tempo di seca qui parecia u mundo i si acaba!”
Como Anjo Roque se bardiô prô cangaço? Tudo foi por causo da sua irmã Sabina, de quinze anos. O soldado Horácio Caboclo (Couro Seco) mandou uma carta para sua irmã chamando-a para fugir. Anjo foi ao juiz de Direito. “Ele entonces mi arrespondeu qui u sordado tamém tinha irimã e cumo ele namorava cum a minha irimã, eu fizesse u mesmo, cum a do sordado”. Naquele tempo, soldado mandava no interior mais que o prefeito.
– Entonces, Doutô, visto isso, só si tomano pruvidença, pru conta da gente.
– Vá si cria, mínimo – foi a resposta do juiz. – Já tô criado, Doutô.
O soldado disse que ia buscar a Sabina. “Cabra zarro, ele disse i compareceu. Mas num vortou! Ficou ispichado nu chão”. O Pai de Couro Seco (André Cabôco) deu uma facada nas costas de Anjo Roque, que o enganou dizendo que ia para São Paulo. No dia seguinte ele recebeu um “certêro”. “Ele miricia; era ordinário i ruim Cuma a peste. Foi duas onça qui eu tirei du pasto, us povo dizia”.
Dias depois, Anjo Roque foi cercado em sua casa. Houve brigada e seu irmão e sua mulher foram mortos. Tocaram fogo em sua casa com seu pai dentro, bem como no curral, na casa de farinha e no chiqueiro – conforme relata.
Labareda conta que a única saída foi pedir proteção ao um coronel de Jeremoabo. Depois se entranhou no Raso da Catarina onde lutou contra a força e matou um sargento. Houve violência contra seus parentes.
No aperto, Anjo Roque, o Labareda, procurou Lampião e entrou para o grupo composto por oito homens (Curisco, Arvoredo, Virginio, Luis Pedro, Ezequiel, Fortaleza, Volta Seca, entre outros), isto em 1928.
Depois disso ele narra as viagens das brigadas e persigas pelas caatingas que fez com Lampião pela Bahia, inclusive em Queimadas, onde muitos soldados foram mortos. Em seu português caipira, ele conta os aperreios dos cangaceiros, o dia em que Lampião quase morre de sede no sertão.
“Bebemo cum muita ganaça e u rezurtado foi qui provequemo, i a gente gumitô tudo”. Segundo ele, quando se está com muita sede, água só segura na barriga, quando misturada com rapadura ou farinha.
“Tivemo nutiça qui, in Juazêro, havia u´a viúva véia muito rica: Viajemo na procura da viúva. Cheguemo in casa dela, cum u quilariá du dia”. Levaram tudo dela e mais 10 contos de réis.
Em Pernambuco, num lugar chamado de Tacutiara, o bando se encontrou com um soldado da força que mentiu dizendo ser tangedor de burro. Após ser descoberto, “Lampião cortô a cabeça dele vivo deitano ele no chão Cuma si faz cum galinha.
Anjo Roque conta outras histórias macabras e que havia desentendimentos entre os cangaceiros, mas sempre se acertavam, inclusive que algumas vezes o chefe Lampião chegava a ser contrariado, mas tinha suas saídas estratégicas e até se compadecia dos mais pobres em alguns casos.
Certa vez, Lampião resolveu matar um fazendeiro com quem tinha se desentendido e Labareda tentou impedi-lo, dizendo que o filho havia dado cinco contos para livrar o pai. Era seu conhecido. Mesmo assim, Virgulino Ferreira não aceitou e os dois tiveram um entrevero. No final, o chefe concordou desde que o coronel desse um conto a cada cangaceiro do seu grupo.
GUARDA COMPARTILHADA DE ANIMAIS
– Gostaria de falar com o sr. Doutor Wilson da Cunha Amaral. Assim se apresenta o senhor aflito para conversar com seu advogado sobre sua situação calamitosa de pedido de aposentadoria no INSS, que nunca sai, ou indenização de perdas morais e financeiras por negligência do Estado.
– Sinto muito, mas ele está numa audiência com o juiz no Fórum, na Vara dos Animais Domésticos, tratando de uma demanda sobre a guarda compartilhada entre um casal, pais do cachorro Tadeu, e vai demorar– responde a secretária.
Por sua vez, o advogado Wilson da Cunha procura o juiz Custódio da Silveira para resolver um processo de soltura de um inocente que há anos foi preso injustamente por erro da Justiça. A atendente responde contando a mesma história.
– Quando eu posso visitar meus “filhos”? Eles são alívio da minha alma, conforto dos meus problemas e até curam minhas doenças, enxaquecas de cabeça e gastrite de estômago – defendem os ex-casados, com unhas, garras e dentes. Haja xingamentos!
A briga é acirrada e os ânimos estão exaltados. Os advogados precisam conter seus clientes para não irem aos tapas. O juiz é severo e grita não admitir desordem ou bagunça em sua sala. “Roupa suja se lava em casa”. Acontece que não vivem mais juntos. O juiz suspende a audiência por alguns minutos e ameaça até prendê-los.
Lá em seu gabinete, o magistrado sério e justo reflete que tem um monte de milhares de processos humanos em sua mesa para despachar, e só aumentam em cada dia que passa.
– Estudei tanto, fiz concurso e agora aqui estou eu a julgar guarda compartilhada de animais, numa briga de dois idiotas alienados e desequilibrados que nem ligam para os filhos biológicos!
O juiz retorna irado, de cabeça quente e determina que a guarda vai ficar com a “mãe”, por ser mulher. O “pai” fica revoltado, nervoso, bate na mesa e afirma que isso não vai ficar assim. “Vou recorrer até ao Supremo Tribunal Federal”. É coisa de milhões!
E quando o juiz decide que ambos têm o direito de visitar seus “filhos” em finais de semana, de forma alternada? Sempre vai ter um que vai se sentir injustiçado (a) com a sentença.
– Vim buscar o meu “filho (a)” para ficar esta semana comigo em casa e passear por aí – bate o “pai” na porta da ex que o recebe com a cara enfezada e psicologicamente mal-humorada.
A “mãe” faz uma série de recomendações, com embalagens de alimentos e vestuários nas mãos, tudo de acordo com a temperatura do tempo. Tem aquela que por pirraça diz que o “filhote” ou a “filhota” está na casa da avó, gripado (a), ou está na rua.
Todo esse cenário “modernista contemporâneo-tecnológico”, meu camarada, só ocorre entre ricos e poderosos. O pobre não tem dinheiro para pagar honorários com advogado e cada um leva o animal na hora que bem entender.
Se o pobre quiser a guarda tem que apelar para a defensoria pública. Na maioria das vezes, o cão, ou o gato, vive mesmo é nas ruas. O marido nem está aí e prefere ir para um boteco encher a cara de cachaça.
Nada contra cães, gatos, papagaios, micos, bodes, cobras, lagartos, coelhos, hamsters, chinchilas, calopsitas, porquinhos-da índia, peixes, patos, pequenos mamíferos e outros animais domésticos e silvestres, mas que a humanidade está invertida, isto sim, está!
Naquele tempo, meu pai já dizia que é fim de mundo. Imagina agora com a inversão de valores onde o ser humano é o que menos importa e interessa, principalmente quando se trata da saúde e da educação. Cachorros e felinos passaram a ser filhos de papai e mamãe. São mais estimados e recebem mais atenção que as crianças, muitas geradas e jogadas nas ruas.
O Senado, com suas bancadas corporativas, acaba de aprovar um projeto-de-lei que institui a guarda compartilhada para animais quando casais decidem se separar. Vai ser um fuzuê danado. Processos vão parar no Superior Tribunal Federal que já tem milhares de casos amontoados dos humanos.
Com tantos problemas neste país no âmbito da corrupção, do narcotráfico, da segurança, da bandidagem de políticos, da saúde, da pobreza extrema, da violência, das injustiças sociais e o Congresso Nacional está mais preocupado com a guarda compartilhada de animais!
Enquanto isso, tem gente que briga para não ficar com os filhos. Pai cai no mundo e larga tudo com a mãe, que se vira nos trinta. Outros jogam nos orfanatos. Confesso que fico irado quando vejo essas dondocas chamarem o cão de meu “filhinho”. “Vem para a mamãe, vem”!
Aqui em Vitória da Conquista, um vereador apresentou uma proposta, e foi aprovada, que os animais domésticos sejam enterrados nos cemitérios ao lado de seus donos, com túmulos e tudo. Não seria mais sensato construir um cemitério próprio?
Dia de finados, com flores na mão, está lá o dono ou a dona chorando pelo “filho” ou a “filha”. “É muito duro e sofrido perder um “filho” logo cedo. O natural é que os pais partam primeiro”. E como ficam o avô e a vó? Vão se sentir de corações partidos e estraçalhados. “Perdi meu netinho e minha netinha. É uma dor muito grande”.
BARZINHO NOVO SÓ LHE TRATA BEM
(Chico Ribeiro Neto)
Atendimento em barzinho novo é igual à presteza de um funcionário novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e fazê-lo voltar. Afinal, o negócio está começando e o dono está todo endividado.
Mal você entra e já tem um garçom junto, colado. A mesa está limpíssima, mas ele passa a flanela de novo, gesto que repete nas cadeiras. O dono está de lá, no balcão, e fica logo com uma postura mais ereta. Vê-se logo que ele está pronto para se desdobrar em cuidados.
Sai a primeira cerveja e noto que o dono fala baixinho com o garçom, entregando-lhe o cardápio. Na certa, deve ter dito: “Vá ver se o pessoal ali vai comer alguma coisa, mas sugira também, diga que o caldo de sururu está ótimo e que as lambretas estão enormes, que tem caldo de feijão e que, mais tarde, vai sair muqueca de arraia, comida caseira mesmo, e que o prato é só 40 reais. Se ele esperar, não vai se arrepender, e vá tirando logo aquele vendedor de amendoim de lá, senão o pessoal não come nada”.
A primeira cerveja ainda está pelo meio e o garçom já vem perguntar se a gente quer trocar os copos. O dono está de lá. Vejo logo que ele está fazendo contas. Deve ser a primeira prestação do freezer, a primeira conta de luz que já dá um susto, a cartinha do ECAD que fala em pagamento de direitos autorais, a nota do fornecedor da carne-de-sol, separar 500 reais para o cigarro, que vai chegar amanhã, e mandar consertar o liquidificador, que é novinho e já pifou.
O doido está doido pra se aproximar. Está um pouco mais tranquilo agora, porque há seis mesas ocupadas, e ainda é cedo pra dia de sexta-feira. Arruma algumas cadeiras, dá ordens a outro garçom, afugenta o menino vendedor de ovos de codorna e vai pra porta fumar um cigarro.
Sai a carne-de-sol que pedimos de tira-gosto. A bandeja está tinindo de nova, o paninho de prato vem alvíssimo e o molho, ao lado, está coberto de tempero verde, um festival de coentro e cebolinha.
“Qualquer coisa é só pedir”, diz o sorridente garçom, cujos sapatos pretos foram engraxados hoje mesmo.
A carne-de-sol está gostosa, a farofa foi feita com manteiga mesmo. Daqui a uns dias vão mudar pra margarina, pois a freguesia já estará conquistada.
“O senhor me chamou?”, pergunta o garçom.
“Não, estava só coçando a cabeça”.
Acabamos de pagar a conta. O dono vem anunciar que dispensou os quebrados, e saímos do barzinho recém-inaugurado com os bolsos cheios de folhetos, que têm até um mapinha dizendo como chegar lá.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 26/5/1993)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
HOMENAGEM AO TRABALHADOR
A Chapada diamantina não é somente famosa pelas suas belezas naturais e paisagens encantadoras que atraem turistas do mundo inteiro, não somente do Brasil. Além da mineração de pedras preciosas, como o ouro e o diamante, cujo ciclo terminou lá pelo meado do século XX, dando lugar ao turismo, a região é também rica pelo seu potencial agrícola, destacando os hortifrutigranjeiros (Ibicoara e Mucugê), o café e agora a vinicultura. Estas duas últimas culturas estão espalhadas em vários municípios, como Barra da Estiva, Piatã (1.280 metros de altitude), Morro do Chapéu e Bonito onde a Prefeitura Municipal ergueu um merecido monumento em homenagem ao trabalhador, peneirando à moda antiga, os grãos do café para separar dos bagaços. Nossas lentes flagraram as estátuas do homem e da mulher nessa labuta que, infelizmente, foram substituídos pela máquina, mas não deixa de ser um resgate da memória desse nobre produto que não falta na mesa dos brasileiros e dos estrangeiros. Barra do Choça, aqui em nosso Planalto da Conquista, também é um dos maiores produtores de café do Nordeste que, em épocas passadas, empregou milhares de trabalhadores vindos de várias partes da Bahia e até de outros estados. Bonito fica próximo de Morro do Chapéu que, além do café, introduziu a cultura da uva (passamos por várias fazendas) e já está produzindo vinhos de qualidade.
TIRANA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quem é essa tirana,
Que tanto nos engana,
Reina entre os deuses,
Toda eterna soberana?
A gente sabe que ela existe,
Dona do seu próprio tempo,
Sopra, geme como o vento;
Evitamos dela lembrar;
Nasce no elo da vida,
Cheia de encantos para amar,
E vem a danada tirana,
Como cruel espartana,
Com sua espada nos levar.
Oh tirana, tirana, tirana!
Quantos disfarces tu terás?
Às vezes és tão repentina,
Noutras nos fazes sofrer devagar;
Tens o poder de nos consolar,
Até acalmas nossas almas,
Quando vês o ente querido penar,
Mas nosso coração acelera,
Na dor doída de rasgar,
Quando fechas tua esfera.
Oh tirana, tirana, tirana!
Tu és fogo, terra, água e ar,
Catingueira e mateira,
Flecha que nos faz sangrar;
Teu nome é tirana,
Fera sorrateira da savana.
DITADURA, NUNCA MAIS, E NOSSA VIGILÂNCIA DEVE SER CONSTANTE
Sessenta e dois anos depois e os brasileiros acordaram neste Brasil, em 1º de abril de 1964, com tanques nas ruas, militares armados de fuzis e metralhadoras, muita gente sendo presa, grêmios estudantis e a União Nacional dos Estudantes sendo fechados e a nossa liberdade de expressão vilipendiada.
Nesta data, o presidente João Goulart ainda estava em território brasileiro, no Rio Grande do Sul, tentando impedir o golpe civil-militar que durou mais de 25 anos, com quase 500 mortos e desaparecidos. Mesmo assim, o Congresso Nacional traidor, através do Aldo Moro, usurpou das prerrogativas constitucionais e depôs o mandatário do poder, contando com a força da cúpula dos generais carrascos.
Lamentável que o 1º de abril (dia da mentira) passe praticamente esquecido dessa mídia alienada, desmemoriada e entreguista do capitalismo. Nas escolas nada se fala nas aulas sobre este episódio de terror e torturas. Os jovens até desconhecem de que tenha existido ditadura que matou centenas de presos políticos nos porões das cadeias imundas. A sociedade se cala e até os trabalhadores ignoram esse fato histórico.
O pior ainda, e o que nos deixa mais temerosos e sobressaltos é que milhões de brasileiros, 62 anos depois, ainda vão às ruas pedir uma intervenção militar, ou seja, outra ditadura. Eles não sabem o que falam, mas não merecem ser perdoados, quanto menos anistiados os que tentaram dar outro golpe no dia oito de janeiro de 2023 quando invadiram os três poderes da República.
Não se trata aqui de ser de direita, de centro ou de esquerda. Não importa qual ideologia seja, se marxista, leninista, liberal, conservadora, progressista ou comunista, mas de se colocar na mente de que a liberdade e a democracia são intocáveis e templos sagrados das nossas vidas.
Cada um deve ter sua maneira de pensar, direito ao seu contraditório quanto as formas de se expressar, mas atentar contra a liberdade e levantar a bandeira de uma ditadura é inadmissível e devem ser as únicas coisas proibidas neste país. Em Sociedade Alternativa, o nosso cancioneiro Raul Seixas defendeu o “fazes o que tu queres”, um hino à liberdade.
Por ela (a liberdade), podes até lutar e matar que não constituem crime algum perante a lei. Portanto, devemos todos os dias dizer, ditadura, nunca mais no Brasil. Devemos estar sempre vigilantes para que a maldita nunca mais bata em nossas portas e separe famílias, amigos e espalhe o terror.
Essa vigilância deveria estar presente cotidianamente nas salas de aulas, em reuniões, nos encontros, seminários, nas manifestações populares, nas propagandas institucionais e comerciais, nas igrejas, em associações porque ela está sempre rondando nosso terreiro para roubar nossas flores e depois invadir nossos lares.
Ode à liberdade e à democracia deve ser uma lei pétrea para que as ideologias diversas, inclusive as mais arcaicas e atrasadas sobrevivam, contanto que respeitem o livre pensar dos outros, sem racismos, homofobias e misoginias porque estas já cheiram a ditadura e estão próximas de regimes autoritários e tirânicos.
Os que pedem ditadura militar são tão ingênuos, brutos e ignorantes que nem sabem que se ela se instalar com seu cutelo sanguinário, serão os primeiros a serem atingidos. Essas pessoas devem achar que serão privilegiadas para criticar o monstro que elas mesmas criaram. Quando a liberdade cessar de vez, vão perceber tarde demais que é até proibido pensar.
PROJETOS IMPORTANTES FICAM DE FORA POR FALTA DE QUORUM
Mesmo com 23 vereadores eleitos para a Câmara Municipal de Vitória da Conquista, com cerca de 400 mil habitantes, muitos projetos importantes de interesse da população têm sido adiados por falta de quórum na votação.
Isso é lamentável quando os próprios parlamentares dizem que o legislativo é a Casa do Povo e só existem duas sessões por semana. As justificativas não se justificam quando os faltosos argumentam que eles estavam em outras obrigações políticas na ausência. Entendo que as sessões devem estar acima de quaisquer outras atividades. É só programar suas agendas.
No entanto, na sessão de ontem (quarta-feira, dia 1º de abril), entre as pautas, foram discutidos diversos projetos, destacando a proposta que dispõe sobre a instalação de grades de proteção metálicas ou estruturas de concreto nos canais de drenagem pluvial no âmbito do município.
Outro projeto em debate foi o Programa de Coleta de Exames e Vacinação em Domicílio para Pessoas com Tratamento do Espectro Autista e outras deficiências. Também em discussão, a entrada e permanência de animais de estimação em estabelecimentos de saúde pública e privada; o que declara as abelhas nativas sem ferrão como patrimônio natural do município, dentre outros.
Durante a sessão ordinária, falaram os vereadores presentes, como Andreson que lembrou os 25 anos de fundação da Igreja Batista da Paz. O parlamentar elogiou a realização do I Fórum da Indústria e do Comércio, uma promoção da Câmara. Disse que durante o evento, os empresários reclamaram sobre os custos dos impostos municipais sobre imóveis e pediram uma forma de redução.
Andreson ainda informou do seu encontro com o deputado federal Waldenor Pereira que juntos visitaram o Projeto Mãos que Acolhem, de dona Maria, e combinaram apoiar na restauração da unidade para que tenha uma melhor qualificação.
Ricardo Babão falou do Renato Magalhães e de outros bairros adjacentes que foram afetados pelas chuvas. Afirmou ter conversado com a prefeita para que aquelas localizações recebam pavimentação asfáltica com os recursos do empréstimo dos 400 milhões da Caixa Econômica Federal.
A vereadora Cris Rocha cobrou da prefeitura a realização urgente da Operação Tapa Buracos na cidade, bem como no distrito de São Sebastião. Ela destacou ainda a questão das obras da Avenida Brumado que precisam ser aceleradas e que os serviços sejam feitos em horários planejados que não compliquem o trânsito naquela artéria.
Luiz Carlos Dudé enfatizou a importância das liturgias católicas da Semana Santa e convidou a todos para a caminhada de fé e oração, na próxima sexta-feira, saindo da Praça Sá Nunes até o monumento do Cristo de Mário Cravo, no topo da Serra do Piripiri. Disse esperar a presença de mais de 15 mil pessoas.
Usou também da tribuna a vereadora Gabriela Garrido, comunicando sua ida a Salvador onde solicitou apoio de deputados para implementação de políticas públicas nas escolas visando a promoção de eventos no combate à violência contra as mulheres. Lembrou que abril é o mês do autismo e disse ser necessário um trabalho de assistência que ampare as famílias com filhos autistas, especialmente direcionado às mães.
A GENTE FALA MUITAS BESTEIRAS
Sem sentir, de forma impensada, no dia a dia os brasileiros falam muitas besteiras, termos carimbados, clichês, expressões e frases contraditórias, engraçadas e ilógicas, isto tudo sem perceber. Mesmo assim, na nossa cultura, elas têm seu devido sentido. A nossa língua tem dessas coisas e nos trai.
Não consigo entender, por exemplo, esse “obrigado” natural quando alguém lhe faz um favor. Dá a impressão que a pessoa realizou aquela ação por obrigação. Não deveria ser agradecido? Fica dúbio. Dizem que somos descentes diretos dos macacos, nosso ancestral, mas temos muito do papagaio imitador.
Quando alguém está em estado terminal, com uma doença grave, todos comentam que o paciente “está correndo risco de vida”. Na lógica seria até bom porque existe esperança de continuar a viver. O certo não seria estar correndo risco de morte?
Outra expressão que me deixa intrigado é “estou correndo atrás do prejuízo” quando se leva um tombo financeiro ou se está passando dificuldades de outras espécies. O correto não seria estou correndo atrás do lucro? Correr atrás do prejuízo é piorar ainda mais a situação.
Em conversas entre amigos, em encontros ou até mesmo numa mesa de bar sobre assuntos amorosos, ouve-se a frase de que “meu casamento não é um mar de rosas”. Não é mesmo, porque as rosas têm espinhos no caule. Não quero mesmo esse mar de rosas. Sabemos se tratar de uma metáfora ou sentido figurado.
“Tem, mas acabou”. Como é que uma pessoa possui uma coisa, objeto ou produto, mas acabou. Todo mundo fala isso sem observar a contradição, o paradoxo. Como “tem, mas acabou”? No comércio em geral se ouve muito isso de vendedor ou lojista.
“Vê aí o áudio que eu te mandei”. Como alguém pode ver um áudio. O certo não seria escrever escuta o áudio? Outra frase que soa até hilária é responder “não conheço, mas sei quem é”. Como você sabe quem é, se nem conhece a pessoa em referência? “Tá louco, meu”!
O pai, a mãe ou o responsável pelas despesas da casa, acorda cedo e reclama para o desleixado (a) que “a luz dormiu acessa”. Ora, meu amigo, luz não dorme, quanto mais quando ela está acesa. “Tô com fome de comida, agora é só amanhã”. Fica bem complicado e confuso entender o sentido. Amanhã vai continuar com fome de comida?
“Não vi nem o cheiro”. Ninguém ver cheiro, sente. “Tá ruim, mas tá bom”. Essa não dá para se engolir. Se a coisa está ruim, não pode estar boa. Você chupa uma fruta bem azeda e diz que está boa? Assim por diante, vamos soltando esses dizeres contraditórios e sem lógica.
Esse negócio de fazer seguro de vida me deixa encafifado. Não deveria ser seguro de morte? Por acaso, a vida tem seguro para não morrer? Outra expressão que não bate em minha cachola e com a nossa realidade social e política deste sistema perverso é dizer que “todos somos iguais perante a lei”. Não é assim que funciona quando ela se trata de julgar um pobre e um poderoso.
Além desses termos esdrúxulos, soltamos muitas coisas que saem do nosso subconsciente ou inconsciente que aprendemos desde os tempos da infância com os nossos país. A maioria tem raízes culturais religiosas que estão entranhadas no nosso povo brasileiro.
Não dá para encarar com seriedade que a “voz do povo é a voz de Deus”. Os eleitores, por exemplo, votam nesses políticos ladrões, bandidos e corruptos e foi Deus quem os elegeu, quem mandou? Nos últimos 30 ou 40 anos, o Rio de Janeiro só deu governador envolvido com maracutais. Quer dizer que aí está a voz de Deus?
Tudo que conseguimos ou alcançamos, dizemos “graças a Deus”. Até ateu fala isso de forma maquinal. Fulano ganhou na loteria, “graças a Deus”. Percebeu que Deus está em tudo, até quando o time de futebol sai vencedor ou o jogador faz um gol. “Fiz um gol, graças a Deus”. Ele está até no dominó, na dama, no baralho e jogos de azar. O bandido diz graças a Deus quando executa sua ação com sucesso e ainda mata um bocado de gente.
O cara compra uma calça nova, um celular, um carro e supérfluos e sai por aí dizendo que foi Deus quem deu. Tem aquela antiga do pobre que tem dez filhos e fala que foi “assim que Deus quis”, ou “foi Deus quem quis”. “Seja o que Deus quiser” é bem corriqueiro.
A SAÚDE PEDE SOCORRO EM JACOBINA
Milhares de pessoas estão morrendo lentamente antes do tempo na Bahia e no Brasil nesses hospitais públicos que são verdadeiros atentados contra a saúde. Há anos que essa situação só faz se agravar e os governantes não tomam as devidas providências.
O nosso povo pobre conformado e desamparado não tem reagido à altura para mudar esse quadro de terror que se estabeleceu dentro das unidades hospitalares, mas muita gente, com toda razão, tem partido com agressividade contra profissionais do setor que estão sobrecarregados. Ninguém suporta mais tanto descaso!
O Hospital Regional Vicentina Goulart, em Jacobina, é um exemplo clássico dessa aberração desumana em se tratando da saúde. Na semana passada perdi minha irmã Margarida Macário de Oliveira Fernandes naquela unidade por negligência médica, falta dos cuidados básicos da medicina e por causa da precária higienização.
Poderia estar aqui desabafando por se tratar da minha irmã, mas todos que passam por ali são empurrados a um sofrimento além da conta, terminando em óbitos que poderiam ter sido evitados. Aquilo ali é um foco de infecções, sem falar que não existem profissionais suficientes para melhor cuidar dos pacientes.
Minhas duas sobrinhas, Leda e Vanda Macário, que por dias acompanharam sua mãe no leito de morte, são testemunhas vivas do que presenciaram lá dentro, especialmente numa enfermaria lotada onde era raridade aparecer uma enfermeira quanto mais um médico.
Em uma noite, embora já tenha citado este episódio em comentário anterior, Vanda disse ter vivido uma madrugada de terror quando a glicemia da sua genitora subiu para 500, isto por volta das 23 horas, e não tinha uma enfermeira para aplicar uma insulina para controlar sua agonia de quase morte. Somente por volta das três horas da manhã apareceu uma profissional para estabilizar a paciente. Dias depois desse acontecido ela veio a falecer.
Outro caso grave foi minha irmã ter passado praticamente um dia sem a alimentação líquida porque o canal por onde caia o alimento ficou bloqueado e ninguém viu. Por acaso, minha sobrinha percebeu que sua mãe não estava sendo alimentada pelo “tubo” e correu desesperada à procura de alguém para resolver o problema.
Como é que dentro de um hospital, pacientes, acompanhantes e até funcionários convivem dia a dia com sanitários entupidos? Foi o que minhas sobrinhas presenciaram dentro do Hospital de Jacobina, sem contar num bebedouro sem nenhuma higienização, de onde a água era servida aos pacientes em estado grave.
Fui visitar minha irmã quando estava na UTI coletiva e fiquei horrorizado ao ver a lotação de parentes no local. Todos entram de uma vez, após uma fila num banheiro apertado para lavar as mãos e colocar uma máscara. Não é preciso ser médico ou infectologista para compreender que só deveria entrar uma pessoa de cada vez, como precaução básica contra contágios de outras doenças hospitalares e de fora.
Na verdade, não existem os mínimos cuidados da direção para prevenir infecções, tanto entre os visitantes como entre os doentes na UTI e nas enfermarias. Pela perda do seu filho numa operação, uma senhora colocou toda sua raiva para fora e saiu quebrando equipamentos e deu vassourada num médico.
É um hospital onde até os profissionais correm risco de morte. Senhor governador e secretário da saúde, tomem providências urgentes antes que ocorra o pior. Afinal de contas, um hospital é para cuidar bem e salvar vidas humanas, e não o contrário.
LEMBRANÇAS DA QUERIDA PIRITIBA
Todas as vezes que vou a Piritiba, na Bahia, Piemonte da Chapada Diamantina, para visitar parentes (alô Leucia, primo-irmão Roque que já se foi, Roquinho, Ronieri, Rocia e Dadai) e alguns velhos amigos, são momentos de recordações do passado de menino moloque e também de tristeza quando vejo que antigos prédios históricos foram derrubados por administrações desmemoriadas, para dar lugar a novos equipamentos.
Dessa última vez, por exemplo, na semana passada, fiquei chocado e doeu muito quando passei pelo colégio Almirante Barroso, onde aprendi a escrever e a ler as primeiras letras e fiz meu primário. A escola, praticamente centenária, por onde passou milhares de alunos, está abandonada, caiando aos pedações e servindo de entulhos e coisas velhas da Prefeitura Municipal.
Como um dos mais antigos filhos, faço um apelo à prefeita Leandra Belitardo Barreto de Andrade Lima, do Solidariedade para que preserve nosso patrimônio. Seu foco de campanha foi educação e desenvolvimento, mas está provando o contrário, senhora prefeita, e, por ironia, não está sendo solidária em termos de conservação e reforma de um colégio que fez em tem história. Dalí saíram grandes nomes. Pelo menos, faça jus ao seu extenso nome.
Como em outras cidades da Bahia e do Brasil, que fazem questão de acabar com o patrimônio cultural e arquitetônico, o prefeito passado cometeu o crime de colocar abaixo o prédio da antiga prefeitura, que teve como primeiro mandatário, o Dr. Carlos Ayres de Almeida (PSD), eleito em 3 de outubro de 1954.
Oestado
O estado da primeira escola primária de Piritiba
No lugar, tão representativo para o município, foi construído um parquinho feio, sem muita utilidade, no final da popular “Rua dos Ricos” (naquela época nem era calçada). Confesso que evito olhar para o local. Assim eles vão destruindo nossa história com alegações de que o edifício estava condenado.
Vi outros pontos que foram descaracterizados, como um velho armazém de 100 anos onde na frente construíram uma lanchonete (sempre fechada). Não me lembro bem o nome da rua, só que em sua antiga calçada sentavam os moleques, como eu, para prosear, contar causos e brincar de esconde-esconde, de Cauboy, pau de bosta, jogo de gude, jogar pião, chicotinho queimado e até brigar com a turma da Rua de São Domingos. Era a rixa entre a rua de cima contra a rua de baixo.
Recordo bem que, naquela época, a gente comentava muito sobre a seleção brasileira campeã da Copa de 1958, na Suécia, com Pelé, Garrinha, Didi e outros craques que não existem mais. O armazém, de João Vermelho, era mágico como ponto de encontro de todas as noites da cambada que se sujava na terra.
A usina a diesel sustentava a luz até 10 horas (antes dava três sinais de aviso), mas a gurizada ficava até mais tarde na escuridão, para furtar frutas nos quintais e fazer outras tripolias. Para mim foram tempos sagrados.
Lembro de uma vez, quando estava trepado numa árvore frutífera (manga ou mamão), a mulher acordou assustada e me chamou de ladrão tarado. Foi uma carreira só e pulei o muro como um gato. Fazíamos questão de realizar essas aventuras puramente por prazer e para contar vantagens para os amigos. Cada um armava da sua.
Bons tempos de furtar melancias, umbus e queimar mandaçais e arapuás. Certa vez queimei um pasto ao tocar fogo na colmeia num galho de árvore e ainda tive o atrevimento de avisar ao dono que sua “manga” estava em chamas.
Meu pai, Mateus Macário, que tinha um terreno no Caldeirãozinho e era lavrador, nem sonhava saber dessas “loucuras” de moleque porque era pisa certa de reio, palmatória e cinturão. A repreensão era severa e fui pego com um batoque de matar passarinhos. Foi surra na certa. Bem que minha mãe me avisou!
Em Piritiba, morava na casa do casal Maricas e Nemézio para estudar, mas passava mais o tempo lendo gibis de Ritim-Tim, Zorro, Búfallo Byll, Tarzan, Roy Roggeres, Super-Homem e outros cauboys e “heróis” norte-americanos. Trocávamos essas revistinhas entre os colegas.
Queimava as aulas para tomar banho no Rio Maxixe onde aprendi a nadar. O que menos gostava era das férias porque retornava à roça para plantar mandioca, fazer farinha e vender na feira. Ficava com aquela vergonha quando aparecia um coleguinha de escola e me via vendendo na feira ao lado do meu pai. Sentia-me inferiorizado.
No período das aulas, me virava para ganhar uns trocados (tostões ou reis) para comprar gudes, gibis e ir ao circo quando aparecia na cidade. Pegava malas dos passageiros na estação ferroviária do trem de passageiros que ia até Senhor do Bonfim. Vendia lenha (quase não existiam fogões elétricos), água no “carote” transportada por jumentos e passava recados dos outros.
Na Praça Getúlio Vargas, ainda no chão poeirento, jogava baba quase todas as tardes, aquele de várzea com muitas pernas de paus, gritos, zoeiras, palavrões e brigas. Os moradores nos xingavam de moleques vagabundos e quando a bola caia dentro de um bar em frente, o dono ameaçava cortar a velha bola.
Primeira igreja presbiteriana de Piritiba
São muitas histórias e lembranças, como dos “doidos” Zabelê e Jegão. Eles viravam o “cão” quando os chamavam pelos apelidos. Quando eles iam passando, a meninada armava um esquema. Cada grupo ficava numa esquina diferente. De uma ponta um gritava Zabelê e da outra Jegão. O casal se separava e aí era só correria e pedradas.
Existiam ainda umas famosas fofoqueiras em Piritiba que faziam sucesso, sabiam da vida de todos moradores e eram temidas por causa de suas línguas ferinas. Fosse nos tempos atuais da tecnologia das redes sociais, com certeza teriam milhões de visualizações e seguidores.
Casos e causos a parte, tristeza pela derrubada de antigos equipamentos, mas amo minha querida Piritiba que em tupi-guarani quer dizer sítio do junco, atualmente com cerca de 18 mil habitantes. Naquela década de 50, possuía uns três mil habitantes.
Em consideração por ter ali me criado e depois como sacristão da vizinha Mundo Novo, do vigário Nicanor, e de lá ter partido para Rui Barbosa, depois para o Seminário de Amargosa, para ser padre, jornalista em Salvador, resolvi doar todo meu acervo cultural de mais sete mil itens a este município, mas a impressão é que os administradores não gostam de cultura e não deram uma resposta definitiva.
Piritiba, com sua origem ligado ao povoado de Cinco Várzeas, foi fundado por João Damasceno. Foi emancipada em 27 de setembro de 1952 pela lei estadual 503. Depois o ato foi extinto e reanexada a Mundo Novo, em 1956. Somente em três de agosto de 1958, pela lei 1.014, foi definitivamente emancipada. No entanto, seu aniversário é comemorado em 27 de setembro.





















Antigo armazém de João Vermelho 


