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“A MÁSCARA DA ÁFRICA” XII

No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, o autor de “A Máscara da África, V. S. Naipaul, após visitar o Museu do Apartheid, destaca o monumento africâner no final da rodovia Joanesburgo-Pretória em homenagem à Grande Marcha dos Bôeres da Colônia do Cabo para o interior na metade do século XIX.

Segundo Naipaul, eles marcharam para se livrar dos britânicos, levando consigo todos seus bens e animais, e foram em carros de boi, numa jornada lenta e árdua. “Os caminhantes nem sempre sabiam o que estavam enfrentando” e muitos deles morreram.

Sobre sua guia turística Fátima, a mestiça coloured, disse que ela na escola teve que estudar sobre A Grande Marcha; todas as escaramuças no caminho se tornaram batalhas. Fátima tinha que saber todos os detalhes de cor. Mesmo assim, num lance de crueldade, a ela não foi permitido visitar o monumento.

A obra é composta de um acampamento circular em seu entorno, com sessenta e quatro carros de bois. Esse número de carros compunha o acampamento quando os participantes foram atacados pelos zulus em 16 de dezembro de 1838. Os zulus foram massacrados e o monumento celebra essa vitória, a de Blood River (rio de sangue).

De acordo com o escritor, as obras do monumento foram iniciadas em 16 de dezembro de 1938, o centenário da batalha. Foi inaugurado na presença de uma multidão de 250 mil pessoas em 16 de dezembro de 1949 por D.F.Malan quando se completou o primeiro ano da política do apartheid, que ele e seu governo do Partido Nacionalista instituíram na África do Sul.

Em seu livro, Naipaul cita o escritor africâner Herman Charles Bosman e sua obra, Mafeking Road, uma das quatro coletâneas de contos. “ O maior conto trata de uma marcha fictícia. A Grande Marcha do Cabo faz parte do folclore daquela gente simples; em sua imaginação, é algo que todos podem tentar. É fácil agora, depois de terminada a guerra dos bôeres, que foi perdida, persuadi-los de que estão prestes a ser oprimidos pelos britânicos lá onde vivem e que devem marchar para a liberdade, para a Namíbia, a África do Sudoeste Alemã”.

“Eu associei os contos de Bosman com o Monumento Voortreker porque ambos compartilham uma ambiguidade, que reside no tema. O Monumento Voortreker não fala apenas da Grande Marcha. Fala também da derrota africana e do sofrimento africano”.

Ao se referir aos contos de Bosman, o escritor de “A Máscara da África” diz que “aquelas pessoas não são apenas gente simples do campo por causa do seu caráter simplório, de sua falta de imaginação, elas trazem um sofrimento indescritível aos africanos que estão entre elas”.

 

A ENGANAÇÃO DAS VERBAS, A FALTA DE INFRAESTRUTURA E AS IRONIAS DA VIDA

O governo federal está anunciando a liberação de bilhões de reais para socorrer as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul Grande do Sul. Tudo não passa de um marketing político. Acontece que boa parte dos recursos se referem à antecipação do Imposto de Renda, de parcelas do Bolsa Família e do Seguro Desemprego, prorrogação de débitos fiscais, retirada do FGTS e coisas semelhantes.

Considero isso uma tremenda enganação e uma propaganda demagógica porque, se for analisar, o governo não está tirando do Tesouro, mas antecipando um dinheiro que já pertence ao contribuinte por direito ou vai ter que pagar mais tarde no caso de imposto.

Além do mais, trata-se de uma grana que muitos já estavam planejando para realizar um sonho ou comprar alguma coisa lá na frente e não gastar agora. É um recurso que o indivíduo vai receber no momento para cobrir prejuízos imprevistos que teve com as inundações e irá lhe fazer uma grande falta meses depois.

Antecipar, por exemplo, 13º do salário do trabalhador, seja funcionário público ou do setor privado, é um grande engodo e ilusão.  Como a maioria dos brasileiros já vive com suas finanças apertadas, no momento ele sente aquele alívio, mas quando chega no final do ano a pessoa vai perceber que fez um mal negócio. Aquele dinheiro é como se fosse uma poupança.

Nas catástrofes e nas tragédias, os governos em geral sempre usam desse método e saem numa boa na fita política porque os brasileiros não param para refletir que é uma enganação. Na verdade, eles só estão adiantando uma verba que já é por direito da vítima.

Por sua vez, segundo pesquisa de uma empresa do ramo, os entrevistados apontaram que a falta de infraestrutura, de responsabilidade dos governos federal, estadual e municipal, foi a maior culpada pelas inundações no estado do Rio Grande do Sul (também em outros estados).

Portanto, pela lógica, a União, o estado e o município é que deveriam arcar com os prejuízos que as pessoas sofreram com as enchentes, no caso específico do Rio Grande do Sul, e não antecipar o dinheiro que já é do seu dono.

Por fim, os mais antigos diziam que a vida dá voltas quando se referia a alguém ingrato que fazia algum mal para seu semelhante e depois terminava recebendo o troco, ou, na maioria dos casos, tendo a mão estendida exatamente daquele que foi ofendido.

Sei que não é momento para fazer tais comentários, mas os nordestinos que sempre são vistos com desprezo e até são xingados pelos sulistas como analfabetos, preguiçosos e ignorantes, agora estão dando suas respostas em forma de bondade e solidariedade, enviando toneladas e toneladas de produtos para os atingidos das enchentes. É a volta que a vida dá. Não desejamos tragédias para ninguém.

 

 

VIVENDO DAS PALAVRAS

(Chico Ribeiro Neto)

“Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã”.

(Versos iniciais do poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade).

Pior do que o patrão era o chefe do Departamento Pessoal. Se ele achasse uma brecha, descontava 11 centavos do seu contracheque. “Foi o dia em que você bateu o ponto com um minuto de atraso”.

Jornalista nunca gostou de bater ponto. Um absurdo cobrar que um repórter bata entrada e saída. Você não pode largar uma entrevista às 13 horas dizendo que precisa ir ao jornal para “bater a saída”. Não é porque o jornalista não goste do ponto, é porque não pode. A empresa tem que pagar hora extra ou um salário que a contemple.

Os repórteres são parecidos com os atores de teatro, que sabem que o ensaio tem hora de começar, mas não tem hora de acabar. Jornalistas e atores trabalham com as palavras, e não há “luta mais vã”.

O Departamento Pessoal, com a modernagem, passou a se chamar de Errehagá, um pomposo nome. Num jornal em que trabalhei, quando fui demitido, o chefe do RH (um “fode mansinho”, como todos) me disse com sua voz aveludada: “O diretor mandou lhe dizer que quando precisar de alguma coisa é só ligar para ele. O jornal continua à sua disposição”. Sim, jacaré!

Num jornal aconteceu comigo um caso curioso, já narrado numa crônica antiga, mas que vale a pena repetir:

– É do jornal?

– É, sim.

– Quanto vocês pagam por uma boa ideia?

– Depende. Você manda sua ideia pra gente, o jornal analisa e, se aprovar, compra sua ideia.

– Aonde?! Depois vocês ficam com a minha ideia e não me pagam – e bateu o telefone.

Voltando ao Departamento Pessoal. O jornal convidou um excelente redator e o cara foi ao DP para fazer a ficha funcional. O chefe do DP folheou sua carteira profissional e viu anotações de emprego de “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Última Hora”, “Revista Manchete” e perguntou:

– O senhor trabalhou nesses lugares todos?

– Não, isso aí é mentira, eu falsifiquei tudo.

Para complementar a renda (jornalista em geral ganha pouco), trabalhei como redator num semanário onde ia duas vezes por semana. Entre outras atribuições, eu tinha que escrever sobre uma mulher de biquini (as fotos sempre eram sempre nas pedras do Farol da Barra) que ocupava a última página. O diagramador colocava as fotos da bunduda na página e me intimava: “Preciso de 15 linhas”. A mulher apareceu para ser entrevistada. Não leu nem “O Pequeno Príncipe”, e eu tinha que produzir suadas 15 linhas para fechar a página. Uma bunda nas pedras da praia e uma mulher sem assunto. “Luta mais vã”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

O PASSARINHO

Na chegada do estacionamento do Centro Cultural Oscar Niemeyer, na arborizada Goiânia, quando lá estive em março, fui agraciado pela benção do cantarolar de um pássaro (não sei seu nome) e bateu em meu peito o desejo de ser um passarinho, talvez na inspiração do poeta.  Como ele não parava de cantar, resolvi abrir o diafragma da minha máquina e clicar o divino solitário num galho de árvore. “Atravancando meu caminho. Eles passarão… Eu passarinho”, de Mário Quintana, poeta gaúcho de Alegrete, no estado do Rio Grande do Sul, que vive hoje sua pior calamidade de inundações da sua história. Aqueles que atrapalham a vida do eu lírico serão passageiros. Me afastei e ele continuou com seu canto mágico, talvez a chamar sua companheira ou companheiro de voo. Nas grandes cidades, as pessoas andam tão atribuladas e preocupadas com seus problemas para resolver no dia a dia, que nem escutam o canto dos pássaros. Aqui em meu quintal ainda tenho o privilégio de suas companhias entre as árvores e plantas, como do beija-flor que está sempre a bater suas assas e com o bico alimentar o néctar das flores. Muitas vezes chegam a entrar em meu alpendre numa visita de cortesia.

EU SEI…

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Eu sei…

Que não adianta

Procurar um sentido

Para a vida,

Se somos apenas aprendizes,

Grãos de areia,

Presos na teia,

Desse universo infinito,

Onde devemos cuidar

Bem das nossas raízes,

Para enfrentar tanta lida,

Nesse embate controverso;

Ser silêncio na hora certa,

Com a mente alerta.

 

Eu sei…

Que o tempo não espera;

Estamos em outra era

Da deusa tecnologia,

Que supera a filosofia,

O conhecer e o saber.

Eu sei que o mundo mudou:

Uns dizem para melhor,

Outros para pior,

Dominado pela alienação,

Na pista da contramão.

 

Eu sei…

Que o amor não é o mesmo,

Que não conta só sonhar,

Tem que realizar,

Nessa terra desembestada,

De ódio e guerra infestada,

Onde cada um tem sua vez,

Nessa loucura da insensatez.

OS POBRES SÃO OS QUE MAIS DOAM E O AQUECIMENTO GLOBAL CHEGA AOS RICOS

OS CIENTISTAS SEMPRE AVISARAM QUE OS PAÍSES POBRES SERIAM OS PRIMEIROS ALVOS DO AQUECIMENTO GLOBAL, COMO VEM OCORRENDO, MAS O FENÔMENO TEM SIDO TÃO INTENSO QUE ESTÁ CHEGANDO A VEZ DOS RICOS, COMO AGORA NO RIO GRANDE DO SUL.

Se for colocar na ponta do lápis, os pobres e os trabalhadores são os que mais doam materiais e dinheiro para as vítimas das tragédias, como no caso mais recente das enchentes do Rio Grande do Sul. Até o momento, o Estado só entrou com o apoio logístico (forças armadas, corpo de bombeiros, polícia e outros órgãos) no socorro aos desabrigados e desalojados. Prometem injetar recursos.

Cadê os membros do Congresso Nacional, das assembleias legislativas, das câmaras municipais, dos ministros, inclusive do STF (Superior Tribunal Federal), do STJ (Superior Tribunal de Justiça), do STE (Superior Tribunal Eleitoral) e outros tribunais regionais que não dão exemplo à nação cedendo pelo menos um mês dos seus polpudos proventos (salários, verbas de indenização, de gabinete e demais penduricalhos), para ajudar os atingidos por esta anunciada catástrofe?

Como sempre, o negócio desses engomadinhos de papos politiqueiros e aparecer nas mídias, principalmente nas redes televisivas. Até o momento só aprovaram o decreto do governo federal de calamidade pública e liberaram algumas verbas das emendas parlamentares que não são deles, mas do contribuinte que paga seus impostos.

A partir de agora entra o processo burocrático para chegar o dinheiro do tesouro até as prefeituras. Alardeiam que vão realizar obras de contenção, de modo que tais inundações que, por certo virão por aí, não causem tantos estragos e mortes. Pelo que já vimos, não dá para acreditar nessa gente. O tormento não termina quando as águas baixarem. Muito pelo contrário! Logo vamos ter serviços inacabados, basta nosso jornalismo ser mais esperto e acompanhar os fatos no dia a dia, mas ele também comete seus pecados originais.

Com caras de bonzinhos de que estão muito abalados com o drama dos gaúchos, vejo políticos e até governante tirando sua lasquinha política da situação na entrega de doações com o chapéu dos outros. Daqui a alguns meses começam a estourar os atos de corrupção de alguns grupos inescrupulosos que tiraram proveito da desgraça alheia.

Será que após essa catástrofe humana, a maior da sua história no Rio Grande do Sul, a União e o próprio estado vão elaborar projetos consistentes de prevenção, como fizeram os holandeses e outros países na Europa? O mais provável é o desvio de verbas, não passando de limpeza das ruas, prédios e avenidas. Os pobres continuarão a sofrer as consequências.

Vão reconstruir estradas, pontes e cidades visando a prevenção contra as mudanças climáticas do aquecimento global?  Vão deixar de perfurar poços de petróleo, respeitar os códigos florestais, não desmatar, abandonar os combustíveis fósseis, reduzir as emissões de metano e parar de entupir o planeta de lixo?

O SÃO JOÃO GORDO DAS ELEIÇÕES

Para conquistar votos da massa, vem aí o São João gordo das eleições, com contratações milionárias pelas prefeituras de cantores e cantoras de músicas lixo do axé music, dos arrochas, das sofrências, das timbaladas, dos pagodes, dos sertanejos e outros ritmos que nada têm a ver com o nosso forró arrasta-pé, patrimônio imaterial nacional.

Muitos prefeitos, como Santo Antônio de Jesus, Jequié e de outros municípios já estão anunciando suas “altas” atrações. Vai ser uma competição acirrada de quem tem mais “bala na agulha”, isto é, grana nos cofres, para destruir com nossas tradições culturais. O interessante é que nessas épocas os milhões aparecem como num passo de mágica.

Lá vêm Wesley Safadão, Luan Santana, Ivete Sangalo. Bel Marques, Leo Santana, “boiadeiros” e “boiadeiras”, DJs que vão levar os gordos cachês e deixar os autênticos forrozeiros, especialmente os artistas da terra a ”ver navios”, com as merrecas sobras pagas meses depois, com muita luta e cobranças.

Se em anos que não existem eleições as prefeituras já fazem uma farra e uma lambança com o dinheiro público, cujos executivos e executivas sempre alegam não terem recursos para atender as prioridades (saúde, educação, saneamento básico), imaginem agora na boca das eleições! É o período da caça aos votos da ignorância.

Do nada saem os milhões para remunerar esses cantores com polpudas verbas de 200, 300 e até 500 mil por noite de lambadas e muitas mulheres rebolando nos palcos. Parece uma mágica, mas não é! É mesmo o dinheiro do nosso povo que, incauto e sem instrução, deixa ser engabelado pelo papo desses prefeitos, de que estão trazendo mais rendas e visibilidade para seus municípios.

Um outro argumento é de que: É disso que o povo gosta, o que no fundo significa um menosprezo para com a nossa população, de que ela aprecia porcarias, e não de música boa que fala das raízes da terra, dos costumes e dos hábitos nordestinos. O nosso forrobodó está sendo assassinado a cada ano que passa, não somente na música, como também na gastronomia, nas vestimentas e nos trejeitos.

Existe uma lei, se não me engano, inclusive da Bahia, que determina que os ritmos e os artistas do nosso rico forró sejam priorizados nas festas juninas, mas eles (os prefeitos) não só desobedecem como dão um jeitinho brasileiro de misturar algumas bandas forrozeiras nos intervalos desses megas-shows milionários.

Outros têm o cinismo e a safadeza de colocarem apresentações de quadrilhas, atrações de culturas locais e alguma coisa do nosso folclore em horários esvaziados do dia, como na parte da manhã ou da tarde. Os “pesos pesados” das lixeiras musicais, de letras pobres, de sentidos duplos e até machistas jogam nos horários nobres das noites, geralmente nas vésperas do São João.

Como se não bastassem esses arrastões assassinos contra o nosso forró, tão prestigiado e divulgado por todo esse Brasil a fora pela sanfona do nosso rei do baião, Luiz Gonzaga, ainda existem os cachês superfaturados, colocando empresas laranjas intermediárias nas negociações escusas e corruptas.

Com raras intervenções no cumprimento da lei, o nosso Ministério Público, a Justiça e outros órgãos fiscalizadores, lamentavelmente, têm sido omissos. A nossa sociedade, os artistas em geral e as entidades que defendem as nossas tradições também têm suas parcelas de culpa por essa devassa que fazem contra nossa cultura genuinamente nordestina.

Muita gente pergunta o que é cultura? Eu diria que cultura nesse país é acabar com a nossa tradição, nosso patrimônio histórico, nossos monumentos, nossas expressões orais, nossa memória e nossa história. O que estão fazendo com o nosso São João, por exemplo, é uma anticultura.

 

O USO PERVERSO DA TRAGÉDIA

Carlos Albán González – jornalista

“El jarrón malo no se rompe” (vaso ruim não quebra), dizia meu avô Ricardo, imigrante espanhol da província de Pontevedra.. Pois bem, o ex-presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez procura tratamento médico-hospitalar, apresentando um edema na perna esquerda. Enquanto isso, seus seguidores se articulavam, utilizando a tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul, para divulgar notícias falsas, em prejuízo das ações de resgate da população.

Transferido para um centro médico mais adiantado em São Paulo, o ex-presidente, diagnosticado com um quadro de erisipela, luta contra uma bactéria do gênero estreptococo. Pelo menos, por alguns dias, na companhia dos antibióticos para combater a doença, ele deixa a cena política e não atrapalha o governo federal, que tem procurado minorar o sofrimento do povo gaúcho.

Sempre é bom lembrar que nos anos de governo do ex-capitão o Brasil sentiu os efeitos impiedosos de outro tipo de tragédia. O país perdeu cerca de 700 mil vidas para a Covid-19, e continua perdendo (são mais de 3 mil este ano). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 30% dessas mortes seriam evitadas se não houvesse um atraso por parte do governo federal na aquisição de vacinas.

Em Porto Alegre, Fernanda de Escóssia, diretora-executiva de Aos Fatos, plataforma de investigação contra a desinformação, revelou que as “fake news” estavam prejudicando o trabalho de alguns grupos de socorristas, como os barqueiros, que estão salvando as vidas das pessoas que moram nas ilhas do Rio Guaíba e da Lagoa dos Patos.

Os diplomados pelo Gabinete do Ódio, que funcionou no Palácio do Planalto no governo Bolsonaro, divulgaram que a Capitania dos Portos e o governo do Estado estavam multando os donos de barcos, muitos deles voluntários, que não possuíam habilitação.

O desmentido veio de imediato, assim como a informação de que o Planalto patrocinou o show de Madonna, no Rio de Janeiro. O ministro Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação  Social da Presidência, teve que procurar os jornais para informar que  o megaevento na Praia de Copacabana foi bancado por uma cervejaria e por um banco.

“Isso é muito cansativo. A todo instante temos que parar nossa assistência às milhares de vítimas desse desastre ambiental para desfazer as declarações de pessoas que zombam da vida humana, tripudiando sobre os mortos”, demonstrou Escóssia sua revolta em entrevista ao jornal “A Folha de S. Paulo”. O efeito dessas “fakes” é muito perverso, gerando ondas de pânico entre as pessoas que estão perdendo tudo que construíram.

Escóssia aconselha as pessoas a não se tornarem “inocentes úteis”, repassando conteúdos suspeitos. Na oportunidade, denunciou o que chamou de “monetização da tragédia”, ou seja, influenciadores sociais estão ganhando dinheiro com a divulgação das mentiras criadas pelos bolsonaristas. Nesse movimento de profissionalização das “fake news” estão engajadas as redes sociais e os financiadores, aqueles mesmos que apostaram e perderam no golpe do 8 de janeiro.

O Nordeste venceu

Na tarde de domingo, Bolsonaro, torcedor do Flamengo e do Palmeiras, confortavelmente instalado num leito do hospital, ligou a TV para assistir Botafogo x Bahia pela série “A” do Brasileirão. Nem precisou dizer para quem iria torcer. Vestiu a camisa alvinegra do clube carioca, na certeza, muito provável, de que o time nordestino seria esmagado no gramado do Estádio Nílton Santos. No começo da noite o humor de Bozó já não era o mesmo. Motivo: o Nordeste venceu.

Daqui da terra fico a imaginar a revolta do jornalista e escritor João Saldanha, vendo a camisa do Glorioso no corpo de um declarado simpatizante da ditadura militar de 64 e dos atos desumanos da tortura. Na condição de técnico da Seleção Brasileira, João Sem Medo desafiou um dos generais da ditadura, Emílio Garrastazu Médici, que forçava a convocação do atacante Dadá Maravilha. O desfecho da história todos conhecem.

Como agiriam hoje figuras históricas que vestiram o sagrado manto da Estrela Solitária. Cito alguns deles: Manga, Nílton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo e Amarildo. O melhor Botafogo de todos os tempos – de 1957 a 1964 – era o único time no Brasil que enfrentava o Santos de Pelé, de igual para igual, e base, juntamente com a equipe paulista, das seleções nacionais de 1958, 1962 e 1970, tricampeã do mundo.

 

 

AS FORTES ENCHENTES NO RIO GRANDE DO SUL E UM BRASIL DESPEDAÇADO

Asfaltos e pontes sonrrisais, barragens de barro, cidades construídas em terrenos inapropriados, falta de uma proteção consistente em locais de risco e destruição ao longo dos anos do meio ambiente contribuíram em muito para essa tragédia das enchentes de grandes proporções, nunca vista no Rio Grande do Sul.

Chamam todo esse drama de mudanças climáticas bruscas, ou interferência do El Nino, mas, na verdade, é a ação do aquecimento global que a humanidade não quer ver. A situação já está chegando ao ponto crítico que está atingindo os mais ricos dos centros de maior poder aquisitivo, os quais imaginavam que ficariam incólumes.

É hilária, triste, deprimente e primitiva a imagem de homens da defesa civil, se não me engano, colocando sacos de areia e tentando conter a força da água do Rio Guaíba na capital que teve uma boa parte inundada, inclusive todo centro histórico.

As comportas também não resistiram e, nessas horas, não há muita coisa a se fazer, só esperar e contabilizar os prejuízos e as centenas de mortos e desaparecidos. Todo país acompanha as cenas estarrecedoras, cuja responsabilidade maior é do próprio ser humano.

Entre as entrevistas, vi uma mulher culpar a natureza. A humanidade ainda não caiu a ficha de que a terra está em ebulição em decorrência de séculos de depredação do meio ambiente e de que já estamos vivendo em pleno aquecimento global, sem mais retorno porque o consumismo só faz aumentar.

O culpado por tudo isso, minha senhora, é o homem. A natureza apenas está dando a sua resposta pelas agressões sofridas há séculos. Sempre repito e comento que o Brasil era visto antigamente como um paraíso do mundo, sem terremotos, vulcões, tempestades, tufões, tornados e ciclones. Muitos desses fenômenos já estão aqui entre nós, especialmente no sul.

Em minha modesta opinião, digo que temos um Brasil, despedaçado, despreparado, sem estrutura e sem planejamento. Tudo é feito no improviso. Some a tudo isso a corrupção em todos setores, instituições e órgãos governamentais. Alguém aí acredita que depois de tudo haverá mudanças no comportamento preventivo?

Na maioria, as obras são superfaturadas e construídas com materiais de segunda ou quinta categoria. Bastam os rios subirem seus volumes de água para arrastarem pontes e abrirem crateras nos asfaltos, alagando tudo pela frente, principalmente casas feitas em locais inapropriados. Criam-se os gabinetes de crises, as estratégias de socorro e depois tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido.

Na capital gaúcha, por exemplo, nunca se preocuparam em levantar barreiras concretáveis mais altas para evitar uma invasão das águas das chuvas mais torrenciais como acabam de ocorrer. Depois é só limpar os estragos e tudo continua na mesma como se essa tragédia seja a única da história.

Quando acontecem essas catástrofes, como esta agora do Rio Grande do Sul, os governos estadual e federal, sem contar as doações das populações, gastam milhões e bilhões de reais que deveriam ter sido evitados se lá na frente tivessem feito as devidas prevenções, mas o Brasil não é de planejar, prefere a corrupção.

O povo mais pobre é o mais castigado, que fica desalojado e na dependência das campanhas de caridade, mas a intensidade dessas mudanças climáticas (secas, ciclones, tornados e outros fenômenos), provocadas pela ação perversa do ser humano, já está também chegando aos ricos, que devastam o meio ambiente, florestas e margens de rios para edificarem suas mansões.

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” X

Em sua última viagem pela África, entre 2008/09, V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, nascido em Trinidad, descreve a África do Sul como um outro continente não tropical, de uma outra civilização. Em seu livro-reportagem “A Máscara da África”, partindo de Uganda, ele passou pela Nigéria, Gabão, Congo, Gana e Costa do Marfim.

No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, Naipaul descreve que, “dois dias depois, no centro de Joanesburgo, vi o que tinha acontecido com uma área pós-apartheid da cidade. Os brancos apreensivos com o que o fim do apartheid (durou 36 anos) poderia causar, tinham ido embora, simples assim, e os africanos se mudaram para o lugar, mas não pessoas da região, e sim gente desimpedida dos países ao redor, Moçambique, Somália, Congo e Zimbábue”.

Naipaul cita o escritor Rian Malan, nascido em 1954, de que os brancos construíram uma base lunar para sua civilização; quando ela desmoronou, não havia nada ali para negros ou brancos. “Quarenta anos antes, em Ruanda, às margens do lago Kivu, eu tinha visto uma colônia de férias belga bem mais simples arrebatada pela floresta e pela gente da floresta”.

Os notáveis edifícios e rodovias foram reduzidos a favelas, difíceis de serem reconstruídas. “Havia descobertas adicionais a se fazer dentro daquela nova favela. Um velho e robusto armazém tinha sido ocupado por novas mercadorias, o que parecia uma paródia do que teria existido aqui. Era um mercado de artigos de curandeirice.

“Havia artigos que os curandeiros exigiam que seus clientes comprassem, para serem usados pelo curandeiro como ele bem entendesse, normalmente para fazer remédios que o infeliz enfeitiçado tinha de beber. Os mais inofensivos eram os maços de ervas utilizados para fumigar um cômodo ou uma casa tornar desagradável à vida de um espírito do mal”.

“E logo chegávamos ao reino dos horrores: Partes de corpos de animais expostas numa espécie de plataforma. O ambulante estava sentado num tamborete baixo ao lado de seus artigos, que eram armazenados no próprio mercado. Entre os produtos existiam cabeças de cavalos e cervos rachados ao meio por golpes afiados de facão”.

De acordo com Naipaul, o cheiro era abominável. Além das partes dos corpos dispostos horizontalmente na banca do ambulante, havia pedaços de estômago pendurados em cordões, como peças de pano, de modo que o especialista pudesse escolher ou examinar o que quisesse.

Os ambulantes vendiam porquinhos-da-índia, sacrificados de maneira ritual, com uma faca no coração, um modo muito doloroso. Seu sangue fresco era tomado sob indicação do curandeiro como parte do sacrifício.

“O povo da África do Sul havia travado uma grande batalha. Eu esperava que uma grande batalha tivesse dado origem a um povo maior, um povo cujas práticas mágicas pudessem apontar um caminho para a frente ou para algo mais profundo – observou Naipaul.

Segundo o escritor, “não havia aqui nada de beleza que eu encontrara na Nigéria entre os iorubas, com seu culto, como me pareceu do mundo natural; nada aqui parecia com a ideia gabonesa de energia, vinculada à ideia e ao assombro das florestas portentosas”. Ele fala ainda sobre a rua dos adivinhos, com espaços exíguos e balcões brancos para os clientes ocuparem.

Naipaul escreve também sobre o Museu do Apartheid e apresenta sua guia Fátima, muito discriminada por ser coloured, ou seja, uma pessoa mestiça. Pelo lado materno tinha um bisavô inglês e seu avô paterno era negro, mas a família falava africâner e odiava a pele negra. Sua bisavó era xhosa. As meninas xhosas na escola tinham uma identidade, mas ela não.





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