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A BAÍA DE TODOS OS SANTOS E UMA CAPITAL DESUMANA

Quinhentos e vinte anos (1º de novembro) que o português cartógrafo América Vespúcio e o espanhol Gaspar Lemos cruzaram Kirimurê, dos Tupinambás, chamada por eles de Baia de Todos os Santos, em homenagem ao dia dos santos estabelecido pela Igreja Católica. Na Baía se instalou a cidade da Bahia que depois foi denominada de Salvador, hoje com cerca de quatro milhões de habitantes.

Nela, a segunda maior do mundo, com 1233 quilômetros quadrados, depois de Bengala, no Oceano Índico, singraram os saveiros que abasteciam de alimentos e produtos os primeiros habitantes. Vieram os barcos a vapor e os grandes navios embarcando e desembarcando mercadorias para várias e de várias partes do mundo.

Temos hoje portos instalados na Baia que tiveram que acompanhar a evolução tecnológica para atender a demanda das indústrias, do agronegócio e do setor de serviços. Pena que o fruto desse avanço só chegou para poucos, para uma elite privilegiada que sempre escravizou nosso povo. Depois de 520 anos temos uma capital desumana e violenta.

Em termos humanos regredimos depois de 520 anos, apesar de um parque industrial (Centro Industrial de Aratu e Polo Petroquímico de Camaçari), um centro comercial e de serviços pujantes. Em seu entorno periférico temos morros e baixadas de pobreza e de miséria, gente passando fome e mendigando nas ruas. O nível de desemprego é um dos maiores do Brasil.

As máquinas atualmente são computadorizadas, e o manejo delas é quase todo feito através de teclados e botões. As escolas e as universidades formam cabeças pensantes, mesmo diante de toda precariedade, mas não evoluímos no quesito humano. Nesses 520 anos, a matança indiscriminada e as injustiças sociais só fizeram prosperar.

A Salvador da Baía de Todos os Santos virou uma selva de pedras, com grandes edifícios comerciais e residenciais. Carros luxuosos cruzam as avenidas e viadutos e até já tem metrô, mas não conseguiu vencer e superar os preconceitos raciais e a intolerância religiosa.

Sempre foi governada pelas oligarquias exploradoras da mão de obra barata e concentradora de renda. Do alto do Elevador Lacerda, do Corredor da Vitória, da Ribeira, do Porto da Barra e em toda a extensão da sua orla as paisagens da Baía são deslumbrantes, mas ela é feia e suja em seu interior mais pobre nos morros e favelas.  É uma capital para turista ver determinados pontos.

Além da regressão humana (nem estou aqui falando de educação e saúde), a Baía de Todos os Santos está degradada, poluída e virando um cemitério de plásticos, latas e outros tipos de lixos. Não é mais a Kirimurê dos indígenas que foram expulsos para dar passagem para ao homem branco do tráfico negreiro, com suas maldades, roubos e atos de corrupção.

 

NUNCA A IMPRENSA TRADICIONAL FOI TÃO ODIADA, HOSTILIZADA E EXCLUÍDA

O LIVRO É A FONTE DA VIDA, GUARDIÃO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE QUE NOS TIRA DA ESCURIDÃO PARA A LUZ.  INFELIZMENTE NÃO É ASSIM LEMBRADO, NEM NO DIA NACIONAL DO LIVRO (29 de outubro).

Com o advento das redes sociais, esse governo negacionista de extrema-direita, fascista e autoritária, bem como autoridades, políticos e as celebridades que comungam da mesma ideologia, deixaram de dar entrevistas presenciais no olho a olho aos jornais, revistas, rádios e aos canais de televisão. Essa mídia tradicional noticiosa passou a ser odiada, hostilizada e excluída dos seus depoimentos.

Como forma de não se comprometer com perguntas dos jornalistas, e numa atitude própria de ferir e amordaçar a liberdade de expressão, eles resolveram usar a tática das postagens no Instagram, Yutube, Twitter, Facebook e no WhatsApp. Com isso, no conforto do seu celular, tablete ou do computador, esse pessoal diz o que bem entende sobre assuntos e temas importantes que a opinião pública gostaria de conhecer com mais detalhes e sem engodos.

A começar pelo capitão-presidente, eles odeiam e têm medo de encarar, por exemplo, uma coletiva de profissionais da imprensa. Quando raramente existe, não respondem a perguntas e ainda desdenham, xingam e desrespeitam repórteres que estão ali no ofício do seu trabalho de levar informações à população, principalmente a menos esclarecida.

As coletivas (raras) viraram monólogos do interlocutor que já leva pronta a sua fala e depois dá as costas para os jornalistas, numa clara demonstração de escárnio e de total despreparo do cargo que ocupa na esfera governamental. Não têm a mínima compostura! Esse cenário lembra bem o período do “off” da ditadura civil-militar de 1964, se bem que agora bem pior e atentatório à liberdade.

Existe uma lacuna muito grande de reportagens na mídia com determinadas celebridades, ministros, secretários e gente do primeiro escalão do governo. Nas matérias jornalísticas em geral, o que mais vemos são trechos em aspas de declarações extraídas de postagens feitas nas redes sociais por essa gente que detesta a mídia profissional. Na grande maioria, seus “recados” são mentirosos e falsos.

Quando aparecem, esses personagens do retrocesso e preconceituosos, racistas e homofóbicas simplesmente se retiram de uma entrevista ou agride com palavrões o repórter quando se faz uma pergunta que não é do agrado deles. A entrevista, para eles, tem que ser bajulatória e imbecil, no mesmo nível deles.

Um exemplo bem explícito disso é do capitão-presidente em recente programa da TV Jovem Pan News. Ele se irritou com uma pergunta sobre “rachadinha” feita pelo humorista André Marinho e deixou a entrevista. Marinho perguntou se o “rachador” tinha que ir para a cadeia. O Bozó respondeu que não iria aceitar provocação. “Recolha-se ao seu jornalismo”.

Esse é apenas um exemplo, mas existem tantos outros onde ele se comportou como um moleque, com palavras de baixo calão, e não como um presidente da República. Assim, ele dá voz a outros da sua turma fazerem o mesmo, na tentativa de expurgar os tradicionais veículos de comunicação que não praticam fake news.

Infelizmente, a classe jornalística, e eu faço parte dela há quase 50 anos, sempre foi desunida e não tem uma representação forte da Federação Nacional e de seus sindicatos e associações. Passou do tempo da categoria tomar uma atitude de boicote contra esses elementos que repudiam os profissionais sérios e éticos, que procuram exercer suas funções com lisura. Alguma coisa tem que ser feita em repúdio, com mais firmeza!

No entanto, isso é outro problema porque as grandes empresas monopolistas da nossa mídia têm seus compromissos capitalistas e visam interesses comerciais particulares, quer como apoiadoras desse governo ou como opositoras. Por serem tendenciosas, elas não são confiáveis. Sem representação da classe, nossos jornalistas se tornam reféns desse mercado da notícia.

Esse quadro odioso e hostilizante contra a imprensa profissional abre mais espaço para a proliferação das chamadas fake news onde os embusteiros postam o que querem nas redes sociais, visitadas pela grande maioria da população inculta que não leem jornais e revistas. Assim, eles manipulam suas ideias macabras como bem entendem.

O ANGOLANO QUE EXTRAIU DO POVO SUA PRODUÇÃO LITERÁRIA

Uanhenga Xitu, escrito por Washington Santos Nascimento, no livro “Intelectuais das Áfricas”, escutou as tradições e costumes de seu povo para dele fazer sua produção literária, uma mistura da cultura colonial europeia com o nativo. Em suas obras, consideradas oraturas, procurou angolanizar a literatura, tendo como base o Kimbundu da região de Icolo-Bengo.

Foi um intelectual que falou para o povo, como os escritores Antônio Jacinto, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, dentre outros que procuraram visar a valorização da sociedade e da história nativa, ou como eles mesmos disseram, “angolizar” Angola. Eles denunciaram as relações de trabalho precárias e violentas da Angola colonial.

Xitu nasceu em 24 de agosto de 1924, em Calomboloca a 100 quilômetros da capital Luanda, por ele chamada de “Manana”. Faleceu em 2014 depois de ter transitado em outros países como França, Portugal, Alemanha e também no Brasil. Além dos portugueses, a região onde nasceu foi marcada pela presença de missionários metodistas estrangeiros, sobretudo norte-americanos.

Washington afirma que o impacto das missões não limitou apenas à construção de centros religioso, conversão das populações e tradução da Bíblia para as línguas africanas, mas também criaram plantações de novos produtos agrícolas, ensinaram ofícios e promoveram a alfabetização do tipo colonial.

Em Angola, as estradas de ferro (linha Benguela) foram elementos essenciais de colonização e penetração econômica portuguesa no interior que permitiram o desenvolvimento das cidades de Malange, Nova Lisboa, Silva Porto e Sá de Bandeira, bem como dos portos de Lobito e Moçamedes.

Como seu primo Adriano Sebastião, desde cedo Xitu passou a estudar nas escolas missionárias metodistas da região, segundo ele, por serem mais acolhedoras e se preocuparem com a escolarização das populações locais, mais que as missões católicas.

Ressalta Washington que a percepção de uma realidade segregadora provocada pelas ações do colonialismo português, incentivou Xitu a entrar na resistência, mesmo tendo uma situação social melhor que a maioria da população. “Me meti na política por causa da crueldade do colonialismo”. Com a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), entre 1945-1969, a violência era norma na capital praticada pelos delegados de postos.

Em Luanda, Xitu foi preso no dia 29 de março de 1959 pela PIDE acusado de participar de atividades políticas consideradas subversivas e atentatórias à integridade do regime colonial. Fez parte do chamado “processo dos 50”. Na época estava casado e contava com 11 filhos. A sobrevivência de sua esposa teve a ajuda de alguns portugueses progressistas membros das igrejas católica e protestante.

Cumpriu parte de sua pena na prisão do Tarrafal, em Cabo Verde, entre 1962-1970. Foi membro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Ele se considerava um “mais velho” que propriamente escritor. Disse que, cada um de nós, “os mais velhos”, resume em si a memória de centenas de anos.

Xitu começou a escrever em 1945, com 21 anos de idade, mas somente em 1974 conseguiu editar suas primeiras obras, mesmo não sendo um profissional, destacando O Meu Discurso (1974), Mestre Tomada, Bola com Feitiço, Manana, Vozes na Zenzala, Maka na Zenzala, Discursos do Mestre Tomada, O Ministro e tantos outros, contribuindo para o processo de angolanização da literatura.

Fora O Ministro, o tempo que aparece em suas obras é a primeira metade do século XX até o início da luta pela independência (1960). Ele preferiu fazer uma análise política da opressão colonial a partir de fatos paralelos. Gostava de dizer que não era um escritor, mas um “apanhador” de dados, ouvindo o povo.

De acordo com Washington, seus trabalhos nunca tiveram a pureza da língua ou todas as categorias gramaticais do cânone europeu. Pertencia a uma linhagem antiga de escriturários da senzala… Leu muito Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis e Eça de Queirós.

Na cadeia, escreveu muitos livros e dizia que a escrita servia para por suas ideias em ordem, fiel do meu longo cativeiro. Afirmava que, quando estava na prisão pensava nos tempos da sua terra, “naquilo que eu tinha vivido e naquilo que eu tinha escutado da boca dos meus mais velhos”.

Suas obras, segundo ainda Washington, podem ser consideradas como oraturas (literatura oral), produto de um acervo de histórias trazidas da tradição oral e registradas sob a forma de escrita. Na apresentação de Manana, ele diz que aquele livrário não teria português caro, não. Português do liceu, não. Do Dr., não. Do funcionário, não. De escritório, não. Só tem mesmo português d´agente, lá do bairro, lá da senzala, lá do quimbo (kimbundu).

Em seus livros existem uma diversidade de temas, mas o principal eixo é o trânsito entre a ancestralidade e a modernidade, o rural e o urbano, como em Mestre Tomada, seu trabalho mais conhecido. Além da sua crítica à assimilação colonial, ele denunciava o racismo e a discriminação social, exemplo de Os Discursos do Mestre Tomada.

Xitu passava a mensagem de que uma nova Luanda (e Angola), mais justa e democrática deveria ser construída pela juventude, a partir da união entre brancos e negros, urbanos e rurais. Em Mungo, denuncia as relações de trabalho extremamente precárias e violentas da Angola colonial. Em O Ministro, faz duras críticas aos políticos aduladores que se afastam do povo.

O escritor foi também um dos principais pesquisadores angolanos a investigar as divindades religiosas tradicionais, sobretudo as ligadas aos kimbundus (Quimbundos)  Kimbanda (Quimbanda) era outro personagem dos seus escritos, responsável pelo processo de cura.  Em seus livros descreve os gênios da natureza, como as kiandas, kiximbi e kitutas. Um dia perguntaram a ele se acreditava em feitiço. Respondeu que não, mas acreditava nas pessoas que acreditavam em feitiço.

UM LUGAR ACONCHEGANTE!

Com muito trabalho e sacrifício, o nosso amigo e companheiro, mais conhecido como Jhesus, frequentador assíduo do nosso “Sarau a Estrada”, que em breve estará de volta com o nosso pessoal, montou, no Bairro Jurema (primeira travessa na subida da Avenida Bartolomeu em direção à Rodoviária), o bar e restaurante “Rancho Imperial”, um lugar agradável e aconchegante para se relaxar e bater um bom papo com amigos e pessoas amadas. Estive lá (foto de Jeremias Macário) com minha esposa Vandilza Gonçalves e adorei o ambiente de uma boa música nos finais de semana. Quem já foi gostou e voltou para comemorar, tomar umas geladas e comer um tira-gosto, principalmente de uma porção de quibe preparado pelo próprio Jhesus, admirador e declamador dos poemas do nordestino Querino. É uma boa pedida para aliviar o estresse do trabalho de semana e ouvir as cantorias de grandes artistas locais que primam pela música popular brasileira de bom gosto.

Por falar em Sarau, depois de quase dois anos fora do circuito cultural por causa da pandemia, planejamos fazer um reencontro na primeira semana de dezembro, de forma descontraída para matar as saudades desse tempo de separação obrigatória. Esperamos contar com as presenças de todos companheiros (vacinados com a segunda dose), inclusive de Jhesus, o mais novo empresário da noite conquistense.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (III)

Continuação do nosso poema-teatro, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fala da cultura nordestina, destacando seus principais personagens, como escritores, poetas, trovadores, historiadores, cordelistas e repentistas.

Em todo lugar ia fazendo mais uma descoberta nordestina,

Agora na companhia de uma cabrocha hipada lá de Cabrobó,

Assim com ela passei pela famosa cidade de sal do Mossoró,

Onde Lampião recuou sua tropa e mandou baixar a carabina;

Quebrou outra caatinga carcará pra fugir da Volante assassina.

 

Comendo cascalho atravessei todo o Rio Grande do Norte,

No encalço atrevido para entrevistar o cangaceiro Lampião,

No bagaço cinzento, com papel e a arma da caneta na mão,

Mas o cabra farejador sentiu meu cheiro e logo me tocaiou,

Quando descampei numa ribanceira e avistei uma pedreira,

Do lajedo como dum nada o punhal em meu bucho encostou.,

E logo gritou: macaco! Vou arrancar suas tripas pros urubus;

Foi quando as pernas tremeram no susto do voar dos nambus.

 

Espera ai, capitão! Não cometa esse desatino, só quero lhe ver;

Sou afilhado do Padim Cícero do Juazeiro, jornalista e escritor,

Vim aqui para narrar sua epopeia nessa terra de cactos e umbus;

Fotografar vosmicê e sua companheira de toda lida Maria Bonita,

E assim domei a fera que já sangrou coronéis, soldados e doutor.

 

Na volta corrida pela trilha me deparei com o temido Corisco,

Com um parabelo de papo amarelo mirou bem na minha testa,

E disse seu tira da peste! Ajoelha e reza pro assado da festa;

Falei Corisco, não me entrego não, sou compadre de Lampião,

Mostrei seu “biête” que me dava passagem por toda essa região,

E ai baixou sua arma, e com coragem cortei a árida paisagem,

Numa carreira fui parar em Natal, do Forte dos Reis Magos,

Fazer chamegos e vadiagem, e das potiguaras receber afagos.

 

Mergulhei no litoral de dunas e me banhei no mar de lagos;

Ariei o espírito para encarar o folclorista Câmara Cascudo,

Que relutou em não aceitar em sua casa um estranho difuso,

Mas intruso insisti que só queria conhecer seu vasto estudo,

E ele aturou paciente, e culto resolveu baixar seu escudo,

Para mostrar seus escritos sobre os ritos da cultura Brasil,

De cabo a rabo dessa terra de tanta expressão de faces mil,

Dos costumes nordestinos de várias personagens divinos;

Tudo estava em seus rascunhos feitos no ritmo do vinil,

Dos deuses gregos narrando suas viagens de eternos hinos,

E naquele encanto, como um menino, pedi sua benção,

Para louvar minha jornada com o calor da sua benta mão.

 

O CARNAVAL DA MORTE E A CPI DO NADA

Foi só o número de mortes e casos da Covid-19 baixar para os empresários, que só visam lucro, pressionar o prefeito de Salvador, Bruno Reis, para realizar o carnaval no início do próximo ano, mesmo contrariando posições de infectologistas e patologistas. Eles não estão nem aí para a vida! São uns genocidas, corruptos e psicopatas.

Caso aconteça a festa, pode desde já ser chamada de mensageira de mais mortes. Assim, todo esforço empreendido no sentido de exterminar este maldito vírus do nosso convício pode ir por água abaixo. O mais irônico (é subestimar a inteligência dos outros) é que o evento pode ocorrer dentro dos protocolos recomendados pela ciência.

Gostaria de saber como seguir essas normas numa festa de massa, de multidões alcoolizadas pulando corpo a corpo nas ruas e avenidas de Salvador, ainda mais com turistas vindos de todas partes do Brasil e de outros países, com todo tipo de variante? Será que algum cientista aí pode me explicar se isso é possível?

Além de ser da morte, pode ser apelidado também de carnaval da insensatez, quando em muitas nações europeias está se registrando uma alta de contaminações, como no Reino Unido e no Leste Europeu. Como a prefeitura vai controlar a entrada de foliões negacionistas brasileiros e de outros lugares que não se vacinaram?

Vai ser um carnaval de bandinhas e pequenos blocos isolados, sem os megatrios elétricos e os famosos camarotes? Vai ser uma festa fechada com uma quantidade determinada de pessoas? Não me venham com essa de que os acessos serão controlados somente para aqueles que já foram imunizados com a segunda dose.

Segundo as estatísticas, no Brasil de hoje, 18 milhões ainda não receberam essa segunda dose, e aí é onde mora o perigo da danada voltar com toda força. Além do mais, nem se sabe quantos milhões de psicopatas não tomaram nem a primeira dose, seguindo a voz de um maluco capitão-presidente que associou vacinas a AIDS.

Além de ser temerário e colocar o dinheiro acima da vida, esse carnaval ainda pode comprometer o São João, em junho. Nesse caso, sem contar as vidas perdidas, o prejuízo pode ser ainda bem maior. Não se sabe ainda qual a posição do Governo do Estado, mas em se tratando de ano de eleições, tudo pode ocorrer.

A CPI DO NADA

Outro assunto que, se me permitem, quero aqui abordar em nossa conversa é sobre o final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado, depois de longos seis meses de xingamentos, discussões e relatos de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

Existem partes, como da empresa paulista de saúde, que tratavam os pacientes como cobaias, utilizando o Kit Covid, que mais lembram os crimes nazistas de extermínio de judeus, ciganos e discriminados durante a segunda Guerra Mundial.

Apesar de todo esse aparato de barbaridades, apontado no relatório, principalmente cometidas por um genocida presidente, alguém aí acha que essa CPI vai dar em alguma coisa com aquele procurador Geral da República no cargo? O Augusto Aras é simplesmente um pau mandado do capitão e envergonha a imagem da Bahia de Ruy Barbosa e tantas outras personalidades importantes da nossa história. Nesse nosso Brasil atual, é claro que essa CPI não vai dar em nada.

Mesmo assim, entendo que essa Comissão serviu para expor a podridão dos fatos de um presidente desequilibrado, sem nenhuma condição de exercer a função maior da pátria maltratada. Serviu para mostrar as tramas das corrupções, embora seguidores da morte digam que ele é um governo sem malfeitos. Serviu para mostrar como aconteceu o genocídio de milhares e milhões de brasileiros, por pura negligência de um governo que queria adotar a imunidade por rebanho e não comprar vacinas.

O Bozó se acha um deus onipresente (coisa de maluco mesmo) que age como ministro da Saúde (um manda e o outro obedece), procurador da República, diretor Geral da Polícia Federal, ministro da Educação, do Meio Ambiente, que está sendo destruído, e das Relações Exteriores, principalmente.

No nosso país de hoje, infelizmente, não é possível se fazer um diagnóstico ou um Raio X do Brasil. É o absurdo dos absurdos, e nem historiadores, sociólogos, cientistas políticos e psiquiatras conseguem explicar esse inexplicável. Por mais que seja forte e mestre das palavras, que se use o raciocínio lógico, fica difícil dar uma definição exata sobre que Brasil é esse e como chegamos a esse ponto tão trágico!

QUE DEMOCRACIA É ESSA?

Dizem que temos uma “República Democrática de Direito”, termo introduzido na Constituição de 1988, mas que democracia é essa onde praticamente a população tem pouca participação nas decisões do governo? O que temos, na verdade, é um República Oligárquica de Direito, somente voltada para alguns.

Nesses mais de 500 anos, desde os tempos coloniais, tivemos mais tempo de governos autoritários, comandados pelos interesses de uma elite burguesa capitalista discriminatória que sempre fez de tudo para negar qualquer ascensão aos mais pobres e manter as injustiças sociais, que “democráticos”.

Sempre vivemos sob a tutela da submissão e do chicote. Acho engraçado e irônico, até mesmo uma piada, quando tem gente que repete, maquinalmente, que todos somos iguais. Isso não existe num país de 20 milhões de famélicos e 14 milhões de desempregado. Vivemos no momento, com um capitão-presidente, uma subdemocracia, num regime político incompleto.

Há pouco mais de 30 anos saímos de uma ditadura civil-militar de generais a serviço do capital, que oprimiu, torturou e matou centenas de opositores. Depois entramos num neoliberalismo e num populismo onde um presidente, para se manter no poder, se coligou com a pior espécie de empresários e políticos corruptos. O resto, todos sabem no que deu.

Não vou falar nesse atual governo, porque não merece comentários, nem que se gaste muito tempo de discussão. Simplesmente voltamos à Idade da Barbárie, da estupidez e do atraso. Não estamos aqui discutindo ideologias de direita, esquerda ou extrema-direita.

Nunca na história chegamos a esse ponto. É um caso de psiquiatria, para ser analisado por uma equipe especializada em distúrbio mental, ou talvez os espíritas e a cultura ioruba expliquem através das reencarnações vindas de nossos antepassados para o presente.

Não é apenas uma eleição de presidente, governadores e parlamentares que dita que vivemos num regime democrático. O voto como é exposto e formulado no Brasil, num formato arcaico de complô para que tudo continue no mesmo, nas mãos das castas dos três poderes, não passa de uma farsa de cabresto para fisgar os ignorantes e incultos.

Democracia é muito mais que isso. Democracia não é ter um dos piores índices do mundo em desigualdade social. Democracia não é tirar nota baixa em educação; ter mais de 60% da população sem saneamento básico; e nem ter milhões morrendo nos corredores dos hospitais por falta de atendimento médico.

Democracia não é só você abrir a boca e falar o que pensa dos governantes (isso hoje está até sendo vigiado), nem tampouco xingar quem quer que seja e, muito menos, atentar contra a liberdade.

Vivemos há séculos num engodo histórico de que estamos em plena democracia. Isso não passa de uma grande mentira. Temos e sempre tivemos um regime tupiniquim sui generis, não existente em parte nenhuma do mundo.

A IDEOLOGIA CONTRA A FOME

Bilionários passeiam no espaço com seus foguetes e lá de cima dizem que a terra é toda azul, quando, na verdade, ela já está cinzenta e esburacada de tanta destruição. Nela os furacões, os ciclones, as nuvens de poeiras, as tempestades de ventos, os vulcões, as enchentes, os terremotos, a fumaça das queimadas, as secas e a fome estão fazendo dela o planeta em extinção.

Cada um discute e defende sua ideologia do ódio e da intolerância quando todos deveriam se unir em torno de uma só ideologia para combater essa outra pandemia que mata milhões lentamente por ano. Para esta, a ciência nunca vai criar uma vacina que a cure. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas tem 20 milhões passando fome.

De acordo com pesquisas, mais da metade da população, ou seja, mais de 100 milhões estão em insegurança alimentar. O Brasil está no mesmo patamar nutricional de 2004. Diversas organizações e grupos isolados têm procurado atuar em campanhas de doações para auxiliar essas pessoas em vulnerabilidade.

Sabemos que essas ações são paliativas porque, conforme demonstrativo do quadro, o problema só faz aumentar. Essa pandemia não exige intubação, mas tem um kit comprovado de cura que é chamado de comida na mesa de todos, três vezes por dia. Seu protocolo de proteção é bem conhecido e não tem contraindicação. Não precisa de máscara e de álcool, e as pessoas podem se aglomerar quando estão de barriga cheia.

Na terra, que do alto se mostra azul, mas não é bem assim, quase um bilhão passa fome diariamente, principalmente nos continentes africano e sul-americano. Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontam 17 anos de retrocesso na política de combate à fome. Lamentavelmente ela virou moeda de voto, e esse processo nunca se acaba.

No Nordeste, o índice de insegurança alimentar chega a 72%, muito acima do número nacional que é de 55%. Com tanta miséria, ainda existe o Dia Mundial da Alimentação, ocorrido no último sábado, mas quase ninguém se lembrou disse porque não existe a ideologia da fome.

Enquanto isso, nas redes sociais proliferam os xingamentos, as fake news, os textos cheios de erros de português com “conteúdos” homofóbicos, racistas e de intolerância religiosa. Cada um cria em si o seu Deus moralista, vingativo, de medo, hipócrita, mentiroso, mas nem está aí para os famintos jogados nas sarjetas das ruas. Com suas bíblias surradas pensam apenas em converter os outros. Acham que tudo é desígnio de Deus, outros de Zeus, Javé ou Jheová.

RIGIDEZ NAS REGRAS EMPERRA PROCESSO VACINAL EM CONQUISTA

Funcionário público qualificado não é sempre o que cumpre à risca as regras emitidas pelo chefe do poder ou por seu superior da área, mas aquele que sabe flexibilizar na hora correta para dar andamento e acelerar o trabalho. No caso particular, estou me referindo ao processo de vacinação em Vitória da Conquista que termina sendo emperrado por causa de determinada rigidez nas regras impostas.

No dia de ontem (22 de outubro) pela manhã, com meu cartão da Covid-19 completando exatamente seis meses da segunda dose (22 de abril) me dirigi ao Posto de Saúde da Vila América para receber a dose de reforço, mas fui barrado porque ainda não tinha completado 75 anos (faltam três meses). A fila estava pequena (cerca de 10 pessoas) e percebi que havia imunizantes sobrando.

Tentei convencer o funcionário que estava encarregado de averiguar a documentação de que a data de seis meses entre a segunda e a terceira estava correta, mas ele não cedeu ao meu argumento, mesmo tendo pouca gente na fila de vacinação. Apenas me disse que tinha que cumprir as duas regras básicas. Quero deixar bem claro que não estava ali querendo privilégios ou furar a fila de ninguém.

Ora, se já estava no local, na condição de idoso, e a demanda era pequena, por que não flexibilizar e adiantar mais uma vacinação? Caso houvesse 100 ou mais pessoas, iria entender que deveria cumprir a norma estabelecida da idade, para não tomar o lugar de outrem, mas não era a situação.

Como não fui acolhido na minha modesta argumentação, fui obrigado a retornar à minha casa sem receber a vacina. Muitas pessoas já passaram por esse mesmo problema e resolveram não mais retornar, o que significa um retardo na imunização contra o vírus, como vem acontecendo em Vitória da Conquista.

Em minha opinião, o que está faltando é mais entendimento e comunicação entre as equipes de vacinação. Nem estava me atentando para a idade, mas observando o prazo de seis meses estabelecido nas recomendações da ciência. Como a procura estava pequena e havia doses suficientes, seria até mais sensato adiantar a aplicação para avançar o processo e lá atrás não perder o medicamento por invalidez.

Conquista ainda está efetuando a dose de reforço para idosos a partir dos 75 anos, enquanto outras cidades, como Salvador, já planejam atingir o público jovem de 30 anos. Nesse ritmo, Conquista só vai alcançar esse grupo no próximo ano, principalmente com essa rigidez nas regras, deixando de vacinar uma pessoa por causa de uma pequena diferença na idade, com pouca gente na fila.

AS CULTURAS OCIDENTAL E NATIVA NA VISÃO DO INTELECTUAL SOYINKA

No livro “Intelectuais das Áfricas”, no capítulo em que a professora Divanize Carbonieri fala do nigeriano Wole Soyinka, são comentadas duas obras importantes do africano, o romance The Interpreters e a peça A Dance of the Forests que tratam do passado ancestral do período colonial e do presente representado na pós-independência.

Seus personagens do presente, na verdade, viveram num passado onde cometeram crimes e erros que agora refletem numa Nigéria emancipada, cujas elites negras são tão ou mais nefastas que os colonizadores. Os personagens do agora precisam se redimir de seus pecados para que haja uma renovação do país.

O romance The Interpreters (1965) se desenrola em torno de um grupo de jovens intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos e agora atuam em cidades de seu país natal.

Eles desempenham a função de interpretes entre a cultura ocidental, que assimilaram em sua educação, e a cultura nativa africana. Como explica Divanize, é uma tradução marcada por niilismo e decepção. A desilusão se dá em relação à elite nativa que chegou ao poder após a descolonização do país e que se revelou pior que os antigos colonizadores.

O romance descreve narrativas que questionam as consequências do colonialismo, mas também os resultados dos movimentos nativos de resistência depois que eles chegaram ao poder. Não parece existir nenhuma solução fácil e pronta para a Nigéria, conforme narrativas dos personagens do romance. Eles são tomados por dúvidas e incertezas.

O nacionalismo que havia alimentado protagonistas de acontecimentos anteriores, agora se tornou problemático, porque não respondeu às expectativas dos africanos. Casos de corrupção, golpes, guerras étnicas, desmandos e estabelecimento de regimes ditatoriais foram alguns dos feitos dos governantes nativos que haviam lutado sob a bandeira da unificação nacional e se beneficiado de seus resultados.

No livro, os deuses ou os orixás iorubas, são retratados através de seus personagens, como na pintura que Kola produz sobre eles, como modelos para dar forma humana a essas entidades divinas. No romance, Soyinka entra no aspecto da apostasia do artista que procura se afastar de uma sociedade corrompida, a qual não tem mais esperança de reformar. No entanto, ele ensina que “o artista não deve paralisar suas ações pelo medo de ser punido pelas forças restritivas e autoritárias de sua sociedade”.

Os protagonistas de Soyinka são homens para quem um retorno completo à tradição não é mais possível nem desejável, pois eles têm a missão de sair da inércia e construir, na Nigéria, uma nova moderna nação. Entre os deuses orixás do universo ioruba, Soyinka prefere Ogum que, mesmo errando, quando foi embebedado por Exu, se arrisca para conseguir a autorrealização.

Para Spyinka, foi a única divindade que buscou o caminho do conhecimento e utilizou os recursos da ciência para abrir uma passagem através do caos primordial para a reunião dos deuses com o homem. Ogum pode ser entendido como um artista porque ele é o primeiro ferreiro, o primeiro a forjar suas armas a partir do metal. Ele representa o espírito criativo da humanidade.

Na concepção de Soyinka, Oxalá apresenta as qualidades de acomodação dos indivíduos e da sociedade como um todo. Em Ogum, ele enxerga a energia de ação necessária para que as sociedades sejam transformadas e avancem para seu progresso.

Na peça “A Dance of the Forests”, escrita para celebrar a independência da Nigéria, em 1960, a figura do deus Ogum surge novamente para dar forma à visão mítica, estética e política de Soyinka. Também a obra está marcada pela decepção. O que deveria ser euforia pela independência, o que existe é uma ênfase na amarga reavaliação do passado e de suas continuidades no presente.

Seu caráter de desilusão se dá pela constatação de que os erros cometidos no passado pela coletividade não serviram de lições para que o presente da jovem nação nigeriana fosse mais acertado. O fim da dominação estrangeira não significa necessariamente que as coisas serão melhores porque os próprios africanos têm que se haver com a responsabilidade de suas falhas no passado para construir uma realidade mais justa na atualidade.

O cenário da peça é uma cidade ioruba que, em séculos passados foi governada pelo imperador Mata Kharibu. Um grupo de pessoas invoca a presença de seus ancestrais para fazer parte da Reunião de Todas as Tribos.

Eles esperavam que o Rei da Floresta lhes enviasse figuras éticas e de moral que tivessem realizado grandes feitos quando eram vivos. No entanto, o Rei da Floresta manda espíritos perturbados, vítimas desse passado glorioso que retornam para confrontar os descendentes de seus malfeitores.

Na cultura ioruba, os vivos são reencarnações de seus ancestrais. Feitos grandiosos no passado refletem uma vida dignificada no presente. O oposto também é verdadeiro. Os personagens dos mortos tentam se aproximar dos vivos que lhes fizeram mal em vidas passadas, visando buscar ajuda para obter a reparação pelo seu sofrimento. Os vivos não estão dispostos a dar ouvidos aos ancestrais. Os protagonistas da peça cometem malfeitos no presente, repetindo os mesmos erros do passado. Vida e morte, construção e destruição são os temas que estão na base da peça de Soyinka.





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