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COPINHA, UMA FEIRA DE NEGÓCIOS

Carlos González – jornalista

Devido à grandiosidade que adquiriu nesses 53 anos, a Copinha se transformou numa feira internacional de negócios, onde o único produto é o Homem, em seus primeiros 20 anos de vida. Esse mercado humano, que funciona sem a fiscalização de nossas autoridades, é oficialmente batizado de Copa São Paulo de Futebol Júnior, popularmente conhecida como Copinha.

Analisada pelo lado esportivo o torneio tem enormes virtudes, sendo a principal delas de trazer aos dias hoje o futuro do futebol brasileiro. Os méritos são da Prefeitura de S. Paulo, com o apoio da Federação Paulista de Futebol (FPF). Em sua 51ª edição, a tradicional competição nacional – deixou de ser disputada em 1987, por desinteresse do então prefeito Jânio Quadros, e, no ano passado, por causa da pandemia – reúne cerca de 3.000 atletas de 128 clubes, representantes dos 27 estados e de Brasília, com jogos em 30 cidades paulistas e final programada para próximo dia 25.

Empresários do mundo do futebol; “olheiros” e “espiões” enviados pelos grandes clubes da Europa, Oriente Médio, China e Japão; organizações comerciais, de entretenimento, educacionais e até a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), estão percorrendo nesses dias o interior paulista, com a finalidade de vender sua mercadoria, ou adquirir jovens talentos, a baixo custo, devido a desvalorização do real.

Aqui na Bahia, em Irecê, foi criado em outubro de 2018 o Canaã F.C., resultado da parceria entre a Igreja Universal e um projeto social da região. Sob o lema “Atletas com Cristo”, obedientes aos pastores e proibidos de dar palavrões, seus jogadores, os primeiros no grupo 31, acreditam que dessa vez “um de nós vai deixar o sertão baiano”.

Além do Canaã, figuram na relação dos participantes da Copinha times desconhecidos do torcedor, como o Perilma (mantido por uma fábrica de bolachas e rapadura de Campina Grande, na Paraíba); Ibrachina (os donos são japoneses). Todos eles apostam chegar ao mesmo nível do Red Bull Bragantino, representante do Brasil na próxima Taça Libertadores, graças ao apoio de uma forte multinacional.

A sanção em 2021 da lei que regulamenta o clube-empresa tem atraído o interesse de empresários nacionais e internacionais em clubes brasileiros, que estão passado por um grande aperto financeiro. Além do Cruzeiro, Cuiabá e Bragantino, estão em processo de negociações, Botafogo (RJ), Atlético (PR), Coritiba, América (MG) e Chapecoense.

Esperança e frustração

O River recebeu na véspera a notícia de que o governo do Piauí desistira de pagar a viagem ao interior de São Paulo. Os dirigentes do clube saíram atrás dos R$ 17 mil pedidos por uma empresa de ônibus. Resolvido o problema, a delegação deixou Teresina na noite de 29 dezembro, chegando a São José dos Campos na madrugada de 2 de janeiro, poucas horas antes da estreia, onde seus atletas foram alvos de cãibras, por força do longo tempo sem atividade física.

Neste momento, o Ríver, desclassificado na fase de grupos, está voltando ao Piauí, numa viagem muito mais espinhosa do que a ida, devido a substituição, na bagagem, da esperança na vitória pela frustração da derrota. O mesmo sentimento deve acompanhar atletas (de Abraão Lincoln a John Kennedy) das 64 equipes que não passaram da 1ª fase. Uma exceção talvez seja o goleiro Tomate, do Assuá (RN), convidado a fazer testes no Atlético Mineiro, após chorar desapontado diante das câmeras de TV

A opção

O desemprego, a fome, a falta de moral entre os homens públicos, o fanatismo religioso e a violência que crescem nas favelas e na periferia das cidades, são fatores que levam o jovem, que está chegando à idade adulta, a mirar o horizonte, pensando no amanhã. O quê o Brasil coloca a sua escolha: correr atrás de uma bola, fazer carreira no tráfico de drogas ou colocar uma Bíblia debaixo do braço e virar pastor.

A fortuna e a vida de prazeres exibidas por poucos brasileiros antes de chegar aos 32 anos servem de exemplo para milhões de jovens. A Copinha ou a “Copa dos Empresários”, como também é chamada, funciona como um vestibular.

Nordestinos

Em 1972, o Bahia se tornava um dos primeiros clubes do País convidado para disputar a Copinha, criada em 1969, com a presença única de representantes paulistas. A melhor campanha do clube baiano ocorreu em 2011, com a conquista do vice-campeonato. O torneio tem como maior vencedor o Corinthians, com 10 títulos, seguido do Fluminense e Internacional, com cinco. A participação de clubes estrangeiros se deu entre 1993 e 1997.

Na edição deste ano foram inscritos 27 clubes do Nordeste, com passagem de 12 para a segunda etapa, incluindo Bahia, Canaã e Jacuipense; Vitória e Camaçariense já estão na estrada. Chamam atenção por sua originalidade, além do Canaã, o Chapadinha (MA), Falcon (SE) e Perilima (PB)

 

 

 

“EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É REI”

No noticiário de esportes da TV Bahia e outras emissoras, a impressão que se tem é que no estado só existem dois times, o próprio Bahia e o Vitória, um na segunda divisão e o outro na terceira. O campeonato estadual, que eles chamam de “Baianão” (até hilário), está próximo, mas quando se fala de futebol, a “resenha” só faz comentários dos dois, que só dão vexames nos campeonatos brasileiros. É uma vergonha só!

Não é somente na televisão, a mídia em geral só dá cobertura jornalística para o Bahia e o Vitória. Esquecem do Vitória da Conquista, Juazeirense, Atlético de Alagoinhas, Jacuipense, Bahia de Feira, Fluminense de Feira e outros. Quase sempre a final é disputada entre os dois, pois como diz o ditado popular, “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.

Saudades do futebol baiano daqueles tempos do Botafogo, do Ipiranga, Galícia, Leônico e outros que tinham bons times valentes, grandes torcidas e jogadores famosos que sabiam como levar a redonda até o gol, com dribles desconcertantes. Os cartolas do Bahia e do Vitória cuidaram de acabar com o nosso futebol, em muitos anos o melhor do Nordeste. Hoje é um dos piores e feios de se ver nos gramados. No momento, é o gavião comendo o carcará em tempo de seca.

A mídia esportiva também é culpada por tudo isso, porque se “vendeu” ao dar todo tempo e espaço para Bahia e Vitória, com argumento de que só eles davam e ainda dão audiências por terem maiores torcidas. O tempo se encarregou de provar de que não é bem assim, e o jornalismo tem que se esforçar para ser imparcial e ajudar também os pequenos.

Vem aí o “baianinho”, que é uma vergonha em termos de estrutura física dos clubes e profissionalismo, principalmente com relação às equipes do interior, desprovidas de patrocinadores, sem estímulo, sem torcida e jogadores de quinta categoria, com raras exceções. É tempo de pegar estradas e viajar de ônibus com sanduiches na mochila para chegar cansado no campo na hora do jogo.

Aqui, Bahia e Vitória são considerados grandes, mas quando começam os campeonatos brasileiros (agora séries B e C) viram anões, e é aquele sofrimento do torcedor apelando para secador, promessas ao Senhor do Bonfim, visitas a pai de santo e de olho na tabela para contar os pontos. Os repórteres, editores e apresentadores de programas passam mais o tempo fazendo isso, e xingando os árbitros, ao invés de mostrar o outro lado da questão. O maior craque do Bahia e do Vitória tem o nome de “Secador”, que joga nos dois times, ao mesmo tempo.

Acompanhava muito o noticiário do futebol baiano e frequentava o estádio da Fonte Nova até na década de 70 quando torcia pelo meu Galícia, que foi estraçalhado pelos cartolas donos do futebol da Bahia e abandonado pela colônia espanhola (alô meu amigo Gonzalez). Nas rádios, tvs e jornais, mais de 90% das notícias eram e ainda são reservadas para Bahia e Vitória. O decadente campeonato baiano hoje deveria ser só entre os dois, o B contra o C.

 

NA LINHA DE FRENTE DA EDUCAÇÃO

Logo no início da pandemia, um vírus desconhecido, a mídia deu o maior destaque para os trabalhadores da saúde que estiveram na linha de frente para salvar vidas. Foram chamados de heróis, e imagens apareciam na televisão de médicos e enfermeiros apressados nos corredores dos hospitais tratando dos doentes.

Na área da educação, poucas matérias foram elaboradas sobre o grande esforço que tiveram, e ainda têm, os professores para lidar com a tecnologia da internet, para oferecer aulas remotas a estudantes isolados em suas casas sem aprender as lições de matemática, português, geografia, história, ciências, biologia e outras disciplinas.

Conheço casos de professores que tiveram que se desdobrar para cumprir suas tarefas de mestres e até colocaram dinheiro do bolso para comprar equipamentos e aprender como chegar ao outro lado da linha do aluno (muitos ficaram para trás por não dispor de internet em casa).

As prefeituras não deram o devido suporte para esses profissionais que estiveram na linha de frente da educação e foram heróis anônimos incansáveis que tudo fizeram parta passar conhecimento e saber. Sabemos que as perdas foram grandes, mas o trabalho deles foi hercúleo para minimizar os prejuízos, levando ainda em consideração que o nível da educação no país é baixo.

Agora, com o retorno presencial (não totalmente), os professores vão ter que se virar mais ainda para reforçar o aprendizado dos alunos que estão atrasados nas matérias, sem contar os milhares que abandonaram as escolas e precisam de estímulo do corpo docente para retornar aos estudos.

Além de não ser bem remunerada pelo poder público como deveria, a categoria não dispõe dos recursos materiais necessários para passar um ensino de qualidade, e é pouco reconhecida pela sociedade como profissão essencial para o desenvolvimento de um país.

A educação também salva vidas (não somente a saúde), mas num país de incultos como o Brasil, as pessoas dificilmente param para refletir nesse aspecto fundamental que é o ensino. Nenhum governo colocou em sua política a educação como prioridade porque aprenderam a aproveitar da ignorância, do analfabetismo e da falta do saber para se perpetuarem no poder através do voto.

Com todas as dificuldades pela frente, como nessa pandemia que obrigou o isolamento e fechou as escolas, os professores de um modo geral foram os heróis da linha de frente, se bem que não gosto de citar essa palavra herói porque foi muito banalizada nos últimos tempos. Eles fizeram aquilo que não estava ao seu alcance, e tiveram que se atualizar e a se adequar, sem o apoio ideal dos governantes.

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (I)

Em fevereiro próximo (de 13 a 18) comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Nosso blog (Encontro com os Livros) vai fazer uma série de artigos sobre o assunto (pesquisa de Jeremias Macário) em homenagem ao evento, que foi um divisor de águas entre o passado e o novo na história das artes, abrangendo todas as linguagens artísticas. Este é o nosso primeiro comentário que segue todas as sextas-feiras.

A Semana de Arte Moderna de 1922 – uns estudiosos do assunto registram o período de 11 a 18 de fevereiro e outros de 13 a 18 – está recheada de controvérsia, divergências, brigas e separações entre grupos idealizadores. Ela nasceu com ideias futuristas da Itália através de Marinetti (seguidor de Mussolini), com princípios libertários nacionalistas visando substituir os velhos estilos e gêneros do passado parnasiano pelo novo, conforme assinalam críticos literários, como Alfredo Bosi e José de Nicola.

No geral ela bebeu da vanguarda europeia antes e depois da I Guerra Mundial e se inspirou em movimentos expressionista, dadaísta e cubista, principalmente. Com os acontecimentos políticos após o evento houve uma divisão e alguns enveredaram para o nacionalismo ufanista da direita fascista integralista. A concepção futurista foi banida pelo próprio Oswald de Andrade, um dos pensadores do movimento.

Os três principais espetáculos da Semana, no Teatro Municipal de São Paulo (dias 13, 15 e 17 de fevereiro), que neste ano está comemorando seu centenário, juntamente com a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta Militar do Forte de Copacabana (depois veio o tenentismo e a Coluna Prestes) e o bicentenário da Independência do Brasil, foram de muita confusão, algazarras, vaias, ofensas e críticas veladas aos escritores, poetas, pintores e aos artistas participantes.

Os mentores do movimento, Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras (Alfredo Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira”) e Di Cavalcanti (“Literatura Brasileira, de José de Nicola) depois seguiram caminhos diferentes na política, com o racha no grupo. Por ironia, o encontro contou com forte patrocínio do setor financeiro paulista, apesar dos escritos literários (a maior expressão veio da literatura), focar seus alvos contra os hábitos e costumes sociais da burguesia rural e urbana.

RETROSPECTIVA

Para entendermos melhor o que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, devemos fazer uma retrospectiva dos fatos desde a primeira década do século XX, a I Guerra Mundial (1914-1918) e as renovações de pensamentos ocorridas na Europa, especialmente na França, Alemanha e Itália. Esse turbilhão de ideias, como sempre acontece, chegou mais atrasado no Brasil de Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e outros.

Em sua crítica, Bosi faz uma definição do modernismo como um clima estético e psicológico, citando Graça Aranha, o único intelectual da velha guarda que passa do pré-moderno e adere ao modernismo, mas que permanece com sua posição política de direita. Na realidade, esse movimento traz consigo um novo código diferente do parnasiano de Olavo Bilac e do simbolismo, como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto.

O escritor Lima Barreto já introduzia em sua literatura traços modernos em seus romances, bem como Monteiro Lobato, um conservador crítico ferrenho da Semana, Guilherme de Almeida, Menotti e Oswald de Andrade. No entanto, nem tudo que foi modernista parecia moderno, conforme descrevem os literatos.

Lima Barreto e Graça de Aranha pertenciam a camadas sociais bem diferentes (o primeiro de origem pobre), mas tinham forte sentimento nacional ao ponto de palmilharem juntos a revolução literária dos anos 20 e 30. Em sua visão, Bosi pondera que, se por modernismo entende-se ruptura com os códigos literários do primeiro vintênio, a rigor não houve escritor pré-modernista.

Antes da Semana já havia exemplos de inconformismo cultural através da crítica literária às estruturas das velhas gerações nos primeiros vinte anos do século XX. Portanto, dentro desses códigos literários podem ser considerados de pré-modernistas Euclides da Cunha, João Ribeiro, Lima Barreto e Graça de Aranha.

Na verdade, como exemplifica Bosi, existia sim um espírito modernista no ar por meio de inovações artísticas que mais tarde iriam polarizar, a exemplo de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, dentre outros.

Nos primeiros anos da I Guerra Mundial, os ventos desses ideais já sopravam. Na Europa, a literatura dava sinais de crise. Em Paris, Oswald conheceu o futurismo de Marinetti, em 1909. Este acabou aderindo ao fascismo de Mussolini. Em 1912 aconteceu o manifesto “Fundação no Figaro” e Paul Fort lançava seus versos livres.

No Brasil, Manuel Bandeira plantou as primeiras sementes do modernismo. Ronald de Carvalho ajudou, em 1915, fundar a revista de vanguarda portuguesa “Orpfeu” que propagou a poesia de Fernando de Pessoa e Sá Carneiro.

Também Tristão de Ataíde e Graça de Aranha conheceram as vanguardas europeias simbolizadas na poesia de Sérgio Milliet. Mesmo com críticas e polêmicas, o termo futurismo, visto como barbarismo, começa a circular nos jornais brasileiros por volta de 1914. Antes disso, em 1910, na Bahia, foi publicado um folheto sobre o manifesto de Marinetti, excluído durante a Semana de Arte Moderna. Outro fato que marcou essas mudanças foi o artigo de Ernesto Bertarelli sobre as lições do futurismo, no jornal “Estado de São Paulo”.

Essas inovações simbolistas de versos livres eram muito contestadas, mas começavam a aparecer até no meio sertanista de Cornélio Pires, Paulo Setúbal e Catulo da Paixão Cearense. Como diz Bosi, era um híbrido de culto ao popular e ao nacional.

As manifestações, surgidas na Europa através de uma série de exposições, terminaram desaguando no encontro da Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo da burguesia culta paulista e carioca, que mudou o quadro literário, o carro-chefe do evento junto com as artes plásticas.

Antes da Semana, porém, o fato mais importante que movimentou a cultura paulista foi a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Apesar de criticada, sua mostra de pinturas, com traços expressionista e cubista, serviu de guia para as novas tendências. O evento de São Paulo recebeu uma crítica virulenta de Monteiro Lobato (conservador), com o artigo “Paranoia ou Manifestação”?, publicado no jornal “Estado de São Paulo”.

Os trabalhos de Anita (estudou artes plásticas na Alemanha) tiveram o apoio de solidariedade de Oswald, Menotti del Picchia e Mário de Andrade contra as críticas de Lobato. Em sua bagagem da Europa, ela trazia novos elementos plásticos da Alemanha e dos Estados Unidos.

Em sua obra de “Literatura Brasileira”, Alfredo Bosi descreve que de 1917 a 1922, um grupo jovem e atuante no meio literário paulista bebeu das poéticas do pós-guerra, mas, mesmo assim, ainda mantinha o tradicionalismo provinciano brasileiro.

Ainda em 1917, Mário de Andrade estreou na literatura com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema” sobre a I Guerra. Na época, Bandeira considerou os versos ruins, dizendo que tinham resquícios condoreiros. Oswald lança “Os Condenados”, um romance ainda de estilo híbrido na análise de Bosi.

Menotti, um dos mais ativos da Semana, publica os livros de “Poemas do Vício e da Virtude” (1913), ainda parnasiano, Juca Mulato” (poemeto regionalista), “Moisés” (poema bíblico) e as “Máscaras” (1917), com vícios do decadentismo. As obras foram bem aceitas pelo público. Em 1922, ele escreve o romance “O Homem e a Morte” que narra as aventuras de um artista paulista com um estilo entre o romântico e o impressionista.

 

O AMANHECER DE 2022

Por detrás daquele monte, lá no horizonte do sertão de cores avermelhadas de Vitória da Conquista, da minha rua, tenho a graça de flagrar com minhas lentes o amanhecer de 2022, num sábado primeiro em final de comemoração com meu amigo fotógrafo José Silva e seus dois filhos. Ao lado da minha dedicada e alegre esposa Vandilza, foi uma noite de muita música, prosa e causos dos nossos tempos de repórter nas caatingas deste sudoeste baiano. O sentimento foi de que aquele raiar de luzes ainda cortando alguns restantes fios soltos da noite, estava ali no portão a nos esperar para fazer sua saudação de um bom ano de esperança e fé, mesmo diante de tantas incertezas, imprevistos e imprecisões. Não resta dúvida que aquela imagem é uma prova viva da força da natureza que ainda com sua bondade nos acolhe, apesar da depredação e da ingratidão do homem. O clarear do dia solta suas partículas vermelhas como se brotassem da terra para nos benzer dos males do campo e das cidades. É uma pequena, mas grandiosa mostra do poder do universo, pouco apreciado nesses tempos de correrias e falta de sensibilidade do ser humano. É o momento onde a alma extasiada se encanta e se cala. Por alguns segundos, deixamos de nos preocupar com os mistérios e o sentido do existir. É a vida que ainda pulsa!

SONHO DE PESADELO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia eu sonhei,

Que era menino da roça,

A cantarolar com os pássaros,

Sofrer, Assanhaço e o Bem-te-Vi,

E um dia meu pai me deu uma coça,

Porque não rezei antes de dormir.

 

Ai sonhei que o menino sonhou,

Em fugir para a grande cidade,

Cedo com a sua mochila,

Atravessou aquele monte,

Com os passos de um gigante,

Pra ser um sujeito da civilidade,

E um dia ser um senhor doutor.

 

Ai meu sonho virou pesadelo,

Num labirinto sem novelo,

Minotauro matava Tseu,

Ninguém de mim se comoveu,

Virei freguês da conta do mês,

Escravo vendedor de um burguês.

 

No morro traficante da favela,

Fiz serviço até de sentinela,

Vi passarinho voar sem asa,

Bota e fuzil arrombar casa,

Fumaça tóxica girando no ar,

A dor da fome no asfalto,

E o sangue a riscar no assalto.

 

Ai sonhei outra vez,

Não mais era um pesadelo,

Sonhei até o fio do cabelo,

Que era um lavrador,

Tinha um sítio no Caldeirão,

Dois filhos e um grande amor,

Tomando cafés no bule,

Quente torrado do pilão,

Nas conversas entre compadres,

Noite a dentro até a madrugada,

Tinha meu cuscuz, feijão e salada,

De manhã os pés nos orvalhos,

Animais balançando chocalhos,

Sem aqueles prédios de grades,

 

Sonhei que era bem mais feliz,

Um homem mais educado,

Com a natura ao meu lado,

Amando e sendo bem amado,

Na vida que sempre quis,

Traçando meu próprio enredo,

Sem mais ter pesadelo,

Nem bala pelas esquinas do medo.

OS POBRES E A EXTORSÃO DOS PASTORES

Reza a Constituição Federal que é dada ao cidadão o direito de professar a sua fé através de uma religião da sua escolha, o que significa que existe a liberdade de criação de qualquer igreja em território brasileiro. No entanto, constitui crime o abuso dessa liberdade para praticar extorsões contra os pobres e pessoas vulneráveis que são facilmente vitimadas pela lavagem cerebral de pastores evangélicos inescrupulosos.

No Brasil de hoje temos várias pandemias de doenças, não apenas da Covid-19, da dengue, da gripe influenza e outras. Uma delas que está assolando nossa gente mais inculta e sem instrução, é o fanatismo religioso, mais parecido com o talibã do Afeganistão ou aquele islamismo radical que degola cabeças em nome de Deus.

Talvez aqui ainda seja pior, porque muitos pastores de determinadas igrejas se tornaram verdadeiros bandidos. Se houvesse justiça, eles estariam na cadeia. Em troca de um pedaço no reino do céu, o povo mais sofrido com as mazelas do nosso país está sendo iludido a deixar o pouco que tem na mão de um pregador de araque que só visa o dinheiro.

Mesmo com as tragédias e catástrofes, como as mais recentes na Bahia, a inflação que corrói a merreca de um salário mínimo ou o auxílio do Bolsa Família, o desemprego e a informalidade galopante, esses criminosos não dão trégua e estão sempre de plantão. Eles arrancam tudo do ingênuo fiel em nome da “fé religiosa”.

Contra esses pastores safados que têm bens móveis e imóveis, carros, mansões e comem do bom e do melhor, a justiça brasileira (Ministério Público, OAB, os tribunais e a própria polícia) nada faz para fechar essas igrejas e prender seus pastores que vivem da extorsão dos pobres. São os mercadores do templo e, se Cristo voltasse, chicoteava todos eles.

Além da exploração desenfreada, eles enganam com curas e milagres que não existem. Armam truques que levantam paralíticos de cadeiras de roda, cegos passam a enxergar, mudos a falar e surdos a ouvir. Eles tratam de pessoas com AIDS e do vírus da Covid com chás, grãos de feião ou ervas do mato. É um absurdo o que vem acontecendo há anos, e nada é feito para parar com esses vigaristas, falsários e estelionatários.

As pessoas que vêm do campo para as cidades e passam a morar nas periferias são alvos prediletos dessas igrejas que existem em qualquer praça ou esquina de rua. Os mais necessitados são atraídos com promessas de ajuda e melhoria de vida. Como não contam com assistência social do poder público, essa gente torna-se refém desses pastores que têm como maior “missão” o lucro. Ganham por comissão pelo que arrecadam desses pobres. Repassam a maior parte para seus chefes.

No Brasil essas igrejas fanáticas atuam livremente, mas em outros países, como no continente africano, estão sendo expulsas pelos governos. Como na época dos descobrimentos, o argumento desses chamados “missionários da fé” é sempre o de catequizar os chamados “pagãos” que não seguem sua religião. O papo é ainda salvar almas perdidas, mas praticam mesmo é a extorsão.

UM PAÍS DE “CIENTISTAS” COM BAFO DE CACHAÇA

O Brasil de hoje mais parece um país de botequim onde todos ali naquele ambiente de cachaça, ou cerveja mesmo, entende de tudo, e cada um dá o seu palpite, mesmo sem o devido conhecimento de causa. Cada um quer se aparecer mais que o outro e passa informações deformadas que ouviu de algum imbecil. Vale aquele ditado de quem ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.

Por que você ler tanto nas redes sociais, principalmente agora nesses tempos pandêmicos, neófitos sem nenhum saber científico opinando o que é certo e errado, como se fosse um cientista? Na minha profissão, por exemplo, todo mundo entende de jornalismo, e não adianta tentar argumentar o contrário. Será mesmo mania de brasileiro achar que entende de tudo? É um país de “cientistas” com bafo de cachaça.

Por que milhares de pessoas não seguem o que diz a ciência, conduzida por cientistas que dedicam toda sua vida a estudar para oferecer soluções viáveis de curas de doenças graves, como essa maldita Covid-19 e suas variantes? As fake news aparecem como avalanches, ou como tsunamis devastadores.

Como um ignorante sem nada entender da área pode se colocar contra, por exemplo, à vacinação de crianças de cinco a onze anos? Para completar, ainda solta um monte de “cargas d´água”. O pior é que ainda tem gente que concorda! Outros falam de medicina, sem ao menos nada saber sobre a anatomia do seu próprio corpo!

Por onde tenho andado, muitas vezes ouço barbaridades, coisas sem nexo, sem nenhuma lógica e sem fundamento. Faço tudo para me controlar e sigo em frente porque em nada adianta contra- argumentar com um bruto que pode partir para a violência e até lhe matar.

O nosso país se tornou num grande botequim de bêbados, enquanto as doenças se espalham deixando um rastro de destruição de vítimas. Temos quase 620 mil mortos pela Covid, número que poderia ter sido bem menor, não fossem esses “cientistas de botequim”. Com um governo negacionista, só poderia dar nisso.

Agora, a vacinação das crianças está sendo obstruída e retardada pelo Ministério da Saúde, comandado por um médico que jogou seu diploma no lixo e por um capitão-presidente expulso do exército. Está vindo aí uma nova onda da ômicrom, misturada com a gripe da influenza, porque os infectologistas e epidemiologistas foram substituídos pelos “cientistas de botequins”.

Essa de qualquer brasileiro se meter a saber de tudo, não acontece somente na ciência. Temos uma massa ignara e inculta que se arvora entender de direito, de engenharia, arquitetura, de história e outras áreas do saber. Ele é até visto como um grande intelectual e culto.

Tem aquele bêbado nojento e petulante que dá uma de dono da verdade e assegura para o outro ao lado que aquilo que ele está falando é o certo. Ah de quem contrariá-lo! É uma briga na certa! Quando ele sai trocando as pernas, cambaleando, ainda tem gente que o elogia como o cara que tem muito conhecimento. Basta ter um palavreado bonito e arrotar um monte de besteiras! Afinal de contas, estamos num país de “cientistas” falantes, com bafo de cachaça!

TODOS QUEREM UM ANO MELHOR

Tenho lido nos jornais e ouvido nos meios eletrônicos ”receitas” de psicólogos, economistas, religiosos, consultores e até de escritores de livros de autoajuda de como ter um ano melhor do que o que passou. Na verdade, todos querem ter um ano melhor, mas não basta querer.

Não é o ano que muda a gente, mas, ao contrário, é a gente que muda o ano. A passagem festiva, comemorada há séculos, é só um calendário. Se refletirmos bem, ele nos torna mais velhos, e não adianta fazer metas e promessas, se não houver a mudança interior, a força de vontade.

Nesse Brasil atual, tão difícil de viver e de se conviver uns com os outros, da falta de respeito mútuo, tudo se torna mais complicado, principalmente depois de dois anos de pandemia e com outro surto batendo em nossa porta. Não entra aqui a questão de ser, ou não pessimista. Temos que encarar a realidade de que o esforço para as coisas melhorarem tem que ser maior.

Quando juntamos todos problemas que o país atravessa num só cesto (são muitos se formos citá-los), confesso que bate no peito aquela angústia, mas logo penso no espírito guerreiro de não cair na tentação do desistir enquanto existe vida. É mais uma prova que tenho que enfrentar, e só posso fazer isso seguindo em frente.

Portanto, não existem receitas, porque cada pessoa é um ser diferente, com suas questões existenciais e sentimentos próprios. Seu ano não pode ser bom, se você não aceitar o outro como ele é, se você não dedicar uma parte do seu tempo ao conhecimento e ao saber e se não for mais humildade e menos presunçoso, mesmo que ganhe na loteria.

Falei aqui que não existem receitas mágicas de como viver um bom ano, mas se continuar falando e escrevendo mais, vou cair nos mesmo erros de quem acha que tem o caminho para a felicidade. Como diz o poeta cancioneiro, se cair, levante outra vez na busca do seu ideal. Todos querem um ano melhor, mas nem todos chegam lá.

NOSSOS LIVROS COMEÇAM A FLORESCER NO JARDIM DAS MENTES BRASILEIRAS

Até que afinal de contas uma luz começa a surgir lá no fim do túnel da nossa cultura, um jardim tão pisoteado nos últimos anos. Essa esperança faz o sol nos tirar das trevas através do livro. Acabo de ler uma boa notícia do Painel do Varejo de Livros. Ele diz que entre os meses de janeiro a novembro deste ano, a venda de livros superou em 33% o ano de 2020, e em 31% o ano de 2019, antes da pandemia.

É uma boa nova cultural entre tantas macabras neste ano que se finda com a destruição do nosso patrimônio histórico, com a negação da nossa memória e o retrocesso em direção aos tempos da Idade Média. O aumento da leitura, não importa os estilos e gêneros, é um sinal do florescer das mentes, porque ela oferece mais visão ao indivíduo que passa a expressar melhor suas ideias.

Espero que neste 2022, a venda de livros nas livrarias que ainda restam (muitas foram fechadas) supere a do ano que se vai. Isso pode até dar um ânimo no mercado livreiro, mas o governo federal, um negacionista e retrógrado, já trama o pior contra a nossa combalida cultura, que é a intenção de elevar os impostos para os livros. Isso poderá tornar menos acessível às classes de menor poder aquisitivo.

Ler é florescer as mentes. Ler um livro é como plantar mais uma semente do conhecimento e do saber no quintal do nosso jardim. A maioria dos nossos grandes escritores sempre tiveram uma infância e uma juventude de leitura, principalmente nos tempos em que se tinha fome de cultura, e se devorava livros, e não redes sociais em celulares de ódios e intolerâncias, cheias de fake news.

Sobre a leitura, um alimento para a alma faminta, aqui listaria uma série de benefícios para o espírito que poderia até virar bordões chatos como de final de ano, mas o livro é um templo sagrado que o ser humano deve sempre frequentar, não importando sua religiosidade. É um rememorar o passado para o conhecer das nossas origens; entender melhor a realidade do presente; e abrir novos caminhos para um futuro melhor.

Se o brasileiro está lendo mais, isso logo vai refletir na sociedade, e vamos ter mais capacidade de agir e reagir contra as mentalidades atrasadas. Vamos ter gente falando melhor, e transformações sociais virão por aí. É um sinal de que estamos saindo dessa letargia, desse apagão mental e de que está despontando aí o senso crítico. Incentivar o hábito de ler é lutar por uma país melhor, como disse o escritor e poeta Leandro de Assis, autor do livro “O Poder Transformador da Leitura: Hábitos e Estratégias para Ler Mais”.

Como diz o escritor, precisamos de mais espaços para a leitura, como a criação de mais bibliotecas, estímulo às livrarias e projetos do poder público para lançar novos talentos da literatura. Em Vitória da Conquista, por exemplo, precisamos resgatar a nossa cultura em reverência aos grandes nomes que projetaram nossa cidade através das letras.

Umas das estratégias seria a criação de um Plano Cultural para Conquista através de uma Fundação, para dar normas às diretrizes políticas culturais. Nesse sentido, o novo Conselho Municipal de Cultura tem, neste ano de 2022, a obrigação de fazer decolar esse plano, deixando um legado para as novas gerações.

Acredito que um país culto é um país desenvolvido onde seus cidadãos passam a ser donos de si mesmos, elegendo políticos comprometidos com a educação e a cultura. Só assim poderemos extirpar de uma vez os preconceitos racistas, a homofobia, a xenofobia, a misoginia, e olhar os outros sem diferenças. A cultura exerce influência também no nível econômico e social das pessoas, reduzindo as desigualdades.

 

 





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