:: 6/fev/2026 . 23:18
AS CRENDICES NORDESTINAS QUE REGIAM A VIDA DOS CANGACEIROS
Pelo seu próprio misticismo secular religioso, o Nordeste sempre foi uma região pródiga em crenças e superstições populares. Essas crendices regiam a vida dos cangaceiros desde os episódios e sinais mais comezinhos da natureza, incluindo a fauna e a flora.
A professora e escritora Marilourdes Ferraz, em sua obra “O Canto do Acauã” comenta que “ao trilhar uma certa rota, os cangaceiros retornavam imediatamente por outro caminho se uma acauã, ou acoã, como o chamavam, cruzasse os céus sobre suas cabeças com o canto característico do agouro”.
Mesmo havendo necessidade de uma viagem para atacar o inimigo ou resolver algum negócio, eles desistiam do intento se entre as dezoito horas e as vinte e duas horas da noite anterior ouvissem o canto do galo.
As primeiras segundas-feiras do mês de agosto eram dias em que evitam fazer encontros com as forças das volantes. Para eles, eram dias considerados aziagos, no seu linguajar “dias e águas”. No entanto, quando ocorria por acaso, não tinha jeito, todos entravam na luta.
Quando um cangaceiro estava deitado no chão, o outro não passava por cima do seu corpo ou das suas pernas sob pena de haver feroz briga devido ao “enguiço” causado. Tinha que haver o “desenguiço”.
Outra crendice consistia em não se dar passadas por cima dos calçados, nem de armas devido a “atrasos” na vida que isso poderia causar. Não conduziam o rifle ou fuzil atravessado às costas, formando uma cruz, por ser um mau presságio. A cruz tem um simbolismo relacionado com a morte.
Os cangaceiros desistiam de uma viagem se os sabiás se reunissem agitados junto ao grupo. Essas crendices também se estendiam às volantes e aos sertanejos em geral. Quando passavam próximo a uma cruz, todos se benziam para que seus corpos continuassem “fechados”. De um modo geral, as pessoas cristãs, ou mesmo não religiosas, praticam esse hábito e ainda fazem posições de reverencia.
A condução, junto ao corpo, de espelhos ou alpercatas atraiam balas. Se um cachorro uivasse em redor da casa ou se as corujas cacarejassem na comieira, esses sinais eram interpretados como “mau agouro”. Pedregulhos correndo nas telhas e gado mugindo à noite indicavam que alguma pessoa da família iria morrer.
Pela superstição, sentar à porta tornava o corpo “aberto”, isto é, vulnerável a ferimentos. Matar uma cobra era o mesmo que atrair balas. Os uivos de raposas eram agourentas e tornavam as pessoas cismadas. Os ofícios de Nossa Senhora deviam ser assistidos de joelhos. Os que assistiam em pé não teriam sucesso em suas atividades.
Lampião tinha seus artifícios para se livrar de emboscadas e provocar o despistamento. Muitas vezes, em viagem, ele tirava o chapéu e colocava-o no ombro. Às vezes apanhava um ramo verde de árvore e cruzava-o no caminho. Depois dava ordem para que todos se dispersassem e se encontrassem em outro local, ou mudava de rota.
Essas crendices e superstições não estavam somente ligadas aos cangaceiros, mas aos nordestinos em geral. Muitas dessas crenças permanecem em nossas memórias e se arrastam pelo tempo, especialmente entre as velhas gerações.
Quando menino, lembro que meus pais e os antigos respeitavam determinados crenças que foram adquiridas de seus antepassados e ancestrais, sobretudo aquelas ligadas à religiosidade. O terço, por exemplo, tinha que ser rezado de joelhos.
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