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“OUSMANE SEMBÈNE E A ÁFRICA TRADUZIDA EM PALAVRAS E IMAGENS”

Pescador, pedreiro e estivador que se tornou um escritor e cineasta intelectual, soube muito bem retratar, como nenhum outro, as realidades africanas e ultrapassou fronteiras sendo reconhecido internacionalmente por acadêmicos de renome. Através da literatura e do cinema, o senegalês Ousmane Sembène (1923-2007) foi para seu povo africano, não somente do seu país, uma espécie de imagem-despertador do passado, do presente e do futuro.

Quem bem interpretou sua trajetória de vida foi o historiador e professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina, Silvio Marcus de Souza Correia, na obra “Intelectuais das Áfricas.  Numa linguagem compreensível, ele diz que, “desde a publicação do seu primeiro livro, em 1956, até o lançamento do seu último filme em 2004, o reconhecimento internacional do seu trabalho fez de Sembène um dos mais importantes intelectuais africanos do século XX”.

Sobre o termo intelectual, o professor afirma ser alguém que reflete sobre questões e dilemas do seu tempo com base em teorias, e cujo trabalho acadêmico ou artístico tem a capacidade incomum de contribuir para o conhecimento de determinadas realidades sociais.

Se o conceito de intelectual for mesmo esse, foi o que o senegalês procurou fazer como escritor-cineasta, com ética e sem viés religioso ou partidário político. Sembène fez os africanos acordarem para suas realidades sempre atuando com o passado pré-colonial, o presente e o futuro pós-colonial.

O autodidata que criou sua consciência política através da leitura, Sembène dedicou-se, depois de passar por vários países, como a França, à arte de escrever romances e novelas e fazer filmes numa época em que escritor e cineasta era reconhecido como intelectual e não raro como maître à penser, conforme assinalou o historiador Sílvio Marcus que o considera como “pai do cinema africano”.

“Sua obra foi pródiga em temas ligados ao passado colonial e aos dilemas da África contemporânea. Assim como sua experiência de vida foi matéria prima para muitos romances, novelas e filmes, Ousmane fez da historiografia uma fonte de suma importância para a sua ficção” – diz o professor de Santa Catarina.

Em sua narrativa sobre Sembène, o historiador chega a citar o filósofo Jean Paul Sartre que, em 1949, enfatizou a importância da negritude enquanto movimento de afirmação identitária para africanos, afro-caribenhos e afro-americanos, e também o quanto essa literatura era inovadora.

De acordo como o historiador, para alguns, como Sembène, a negritude tinha um valor literário, porém escapava-lhe a realidade social dos trabalhadores negros. Não demorou muito para a literatura africana de expressão francesa ser renovada por uma nova geração de escritores.

Sembène foi um desses. Militante marxista, passou por Marselha, na França, como estivador, e logo depois criou uma seção do Movimento de Liberação da Guiné e do Cabo Verde, em 1959.

No mesmo ano participou do segundo congresso de escritores e artistas negros, em Roma. No ano seguinte publicou seu romance Les Bouts de Bois de Dieu e renunciou sua nacionalidade francesa saindo do Partido Comunista e outras organizações políticas para se entregar totalmente à arte.

Em 1961, o senegalês partiu para Moscou para estudar cinema. Depois de sua temporada na Rússia, Sembéne visitou alguns países africanos e se radicou em seu país para criar, em Dacar, a Filmes Domirey. Segundo Sílvio, o escritor-cineasta acreditava no poder de transformação por meio da literatura. Porém, ele se convenceu de que o cinema tinha um maior alcance do que a literatura entre aquela gente com quem simpatizava.

O senegalês levou para as telas algumas novelas e romances de sua autoria, como Lá Noire de… em 1966, exibido na França e no Senegal, onde recebeu, respectivamente, o prêmio Jean Vigo e o grande prêmio do Festival Mundial de Artes Negras. Foi o primeiro longa-metragem de um cineasta da África Subsaariana.

Nos anos seguintes ele foi membro e presidente de vários juris de festivais da sétima arte, inclusive no Rio de Janeiro. Em 1968 filmou sua novela intitulada Mandato, agraciado com o prêmio especial no festival de Veneza. Em 1988, o senegalês realizou um dos seus mais importantes filmes de longa, o Camp de Thiaroye, coroando seu trabalho de cineasta aos 65 anos.

Para Sembène, tanto a palavra como a imagem deveriam servir à desconstrução do discurso neo-colonial que tanto fez uso de palavras e imagens. Como assinala Silvio, para o senegalês, a literatura tinha a missão de fazer os leitores refletir sobre suas condições de existência e lhes mostrar que é possível melhorá-las. Seus romances quase sempre tinham um personagem principal capaz de refletir sobre a condição humana e de buscar alternativas com impacto social.

“Assim como na literatura, o cinema lhe oferecia a oportunidade de formular um contradiscurso, uma nova linguagem para mostrar uma outra África, diferente daquela folclórica. As imagens de uma África exótica era produto de um imaginário ainda colonial” – escreve Sílvio sobre o cineasta.

Sembène chegou a afirmar, certa vez, que os filmes projetados nas telas africanas nada tinham a ver com os africanos. Dizia que o trabalhador africano carece de imagens reveladoras de uma realidade encoberta ou distorcida pelo colonialismo.

Sílvio Marcus destacou que, mesmo que seus personagens sejam suas criações, muitas delas foram inspiradas em pessoas que ele conheceu ao longo da vida como pescador, pedreiro, estivador, soldado, imigrante, sindicalista, escritor e cineasta.

Em seus filmes, ele mostrava como essas pessoas viviam, como puderam resistir e como morreram. Fazia questões para o passado a partir do seu presente. Para ele, o real histórico era matéria para transformar em arte. “Eu sou por um cinema militante. Eu acredito que é possível realizar filmes que sirvam de ponto de partida a debates”- declarava Sembène.

 

A SALVADOR DOS BONS TEMPOS

Oh quanta saudades da Salvador (Bahia) das décadas dos meados do século passado quando ainda não havia tanta violência e a cidade era convidativa para os boêmios da noite, sem perigo de assaltos, sem contar a calmaria do dia, com um trânsito de pessoas e veículos sem sinais de estafa!

Lembro dos finais da década de 60 até os anos 80 quando curtia as noitadas com os amigos sem a preocupação de horário para retornar para casa, muitas vezes a pé dando minhas baforadas de cigarro ao ar e apreciando as paisagens da Baia de Todos os Santos.

Da Cidade Baixa do Mercado Modelo subia pela Ladeira da Montanha ao Gravatá dos cabarés cortando a Avenida Carlos Gomes ao Braseiro, ou Avenida Sete de Setembro – Piedade – Campo Grande até o Corredor da Vitória. Saudades do prédio de “A Tarde” (hoje Hotel Fasano) onde comecei a laborar em início de 1973 como Revisor e depois Repórter de Redação!

A Rua Chile ainda era famosa com seus personagens cativos como a Mulher de Roxo, a escadaria rolante das Americanas, artistas e intelectuais papeando nos cafés e bares. O velho Cacique e o Anjo Azul estavam sempre com suas portas abertas para se farrear até o dia clarear.

Como era prazeroso assistir o pôr-do-sol do final da tarde caindo sobre a bela paisagem da Baia de Todos os Santos vendo no horizonte a orla de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, tendo ao lado o Teatro São João e o Edifício Sulacap! Tomar um banho de mar sossegado no Porto e na Barra Avenida, acompanhado do Farol e do Edifício Oceânico!

Naquela época ainda era bom viver em Salvador porque ainda se podia respirar a qualidade do ar, não o de hoje tão poluído e arriscado por causa da violência da bandidagem.  Tomar um cravinho com os amigos e as morenas no Centro Histórico com suas arquiteturas seculares, e depois pegar o buzú na Barroquinha, Baixa dos Sapateiros, ou descer o Elevador Lacerda!

Quantas boas lembranças daqueles tempos de andanças e causos para contar nas noites de boemias com companheiros e colegas de trabalho! Não tenho mais saudades da Salvador de hoje onde a cidade ficou mais desumana, e as pessoas pouco se conhecem. Não tenho mais saudades dessa Salvador estressada do corre-corre pelo ter que reduz nosso tempo de vida. Tenho saudades da Salvador do ser, do curtir e do existir.

BEM ACOMPANHADO

“Viva o Povo Brasileiro” é uma das obras-primas do jornalista e escritor baiano de Itaparica, João Ubaldo Ribeiro, que fala das nossas origens ancestrais, mistura do índio com o português, o negro, o turco sírio-libanês e do nosso caboclo. Esse caldeirão de ingredientes, para muitos indigesto, gerou a nossa cultura miscigenada. Em homenagem ao grande escritor, foi erguido na Praça da Luz, na Pituba, uma estátua onde ele apresenta a premiada obra. Até aí tudo bem, mas o inusitado é o personagem do idoso morador anônimo de rua que praticamente passa todo dia ao seu lado, como um vigia ou escutador das imortais palavras do escritor de tantos livros, artigos e crônicas em jornais e revistas. No flagrante da sua máquina fotográfica, o jornalista Jeremias Macário ouviu dele (o morador) que se sentia bem acompanhado do homenageado por tão bem ter retratado na literatura o povo brasileiro. Coincidência ou não, João Ubaldo em seus trabalhos literários e em seus comentários sempre escreveu sobre essa tão profunda desigualdade social e clamou por justiça e direitos humanos para todos. A impressão é que o idoso ali se aportou em segurança, na fé e na esperança de dias melhores. Em seu silêncio, parecia refletir sobre seu passado e presente, não sabendo ao certo o seu futuro. Só de uma coisa ele tinha certeza de que se sentia bem acompanhado do escritor.

O QUE RAUL DIRIA?

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Se vivo fosse, o que Raul diria?

Que ninguém quer mais alugar o Brasil,

A Amazônia vai virar uma pastagem,

Sem índios, só garimpos e pilhagem,

Na onda assassina vil dessa psicopatia.

 

O que mesmo Raul diria?

Sou a mesma mosca a lhe atanazar,

Em sua sopa venosa da loucura,

Estúpida que pede a volta da ditadura.

 

O que mesmo Raul diria?

Ainda sou a metamorfose ambulante,

Que cospe na cara do facínora farsante,

Negador da ciência e da letal pandemia.

 

O que mesmo Raul diria?

Que soltaram todos os capones,

Deletaram provas e os telefones,

No país do samba e da hipocrisia.

 

O que mesmo Raul diria?

Essa via é trevas da Idade Média,

Com milhões nas filas da fome,

De gente sem nome a penar todo dia.

 

O que mesmo Raul diria?

Ele ainda falaria de amor e dor,

Tocaria outra canção alternativa,

Para esta sociedade alienada primitiva.

 

O que mesmo Raul diria?

Que tenho medo, muito medo,

Das pedras que rolam a chorar,

Nas gigantes ondas revoltas do mar.

 

O que mesmo Raul diria?

Que se continua aceitando a mentira,

De que Deus é quem quer assim,

E que assim seja seu castigo e ira.

 

O que mesmo Raul diria?

Que o nosso Brasil regrediu,

Como há dois mil anos atrás,

Quando a terra era quase vazia.

 

O que mesmo Raul diria?

Que você vive como gado em manada,

Com a morte escancarada no sofá,

Aceitando o cloro pra seu vírus curar.

 

O que mesmo Raul diria?

Que não tente errar outra vez,

Na tentação do pecado capital,

Na estação do mal todo mês.

 

O que mesmo Raul diria?

Alibabá tem milhões de ladrões,

Pra fazer sucesso tem que a bunda rebolar,

E fingir que é o enviado de Javé e Alá.

 

O que mesmo Raul diria?

Hei anos vinte e vinte e um de horror!

Muito fanatismo evangélico e militar,

Lixo, violência e estação sem cor.

 

O que mesmo Raul diria?

Com esse diabo nem lero levar,

Que ele só quer do ser humano,

Levar para o sacrifício do altar.

 

 

 

 

A PRESERVAÇÃO DA NOSSA HISTÓRIA AINDA RESISTE A DURAS AMEAÇAS

Quem não conhece o seu passado não pode vislumbrar o seu futuro. É uma pena lamentável que a cultura em nosso país esteja sendo destruída por falta de um maior apoio dos governantes. As instituições vivem sempre em crise, com a cuia na mão, sob ameaça de perder seus valiosos e inestimáveis acervos, como é o caso do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, guardiã da Independência da Bahia (2 de julho de 1823).

Em minha recente viagem a Salvador fui visitar o meu amigo diretor do Instituto, Fernando Souza, quando, na oportunidade, fiz a doação dos meus livros “Uma Conquista Cassada – cerco e fuzil na cidade do frio” e “Andanças” – causos, versos e prosas. Ouvi relatos das dificuldades para manutenção do Instituto Histórico que guarda nossa preciosa história em livros, jornais e revistas inéditos, muitos dos quais originais não mais encontrados em outros lugares.

Encravado na Avenida 7 de Setembro, em frente da Praça da Piedade, palco da condenação dos líderes da Revolução dos Alfaiates (Conjuração Bahiana), e ao lado do Gabinete Português, outra casa de grande valor cultural, o Instituto por si só é a própria história da Bahia que deveria estar em boas condições financeiras para preservar seu acervo, mas não é isso que ocorre.

Em conversas sobre essa questão do desprezo e até odiosa posição política contra nossa cultura, ouvi de Fernando que o Teatro da Gamboa (não desmerecendo suas atividades em prol da cultura) recebe do Governo do Estado uma maior subvenção financeira que o Instituto Histórico. Não dá para entender esse tipo de tratamento desproporcional.

Além do aporte de livros (mais de 50 mil), o Instituto possui várias relíquias do nosso poeta maior Castro Alves, como uma mexa do seu cabelo e suas obras mais importantes, intituladas “Espumas Flutuantes” e “Navio Negreiro”, grande parte escrito durante sua última viagem de navio do Rio de Janeiro para a Bahia quando já se encontrava doente.

Mesmo com parcos recursos, a direção da Casa conseguiu digitalizar grande parte dos principais jornais baianos e espera começar esse mesmo processo a partir de todo seu acervo, de modo a disponibilizar conhecimento e saber aos interessados pesquisadores pela internet. Pelo Instituto já passaram grandes nomes como de Pedro e Jorge Calmon (meu chefe de Redação do jornal A Tarde), Consuelo Pondé (tive o privilégio de ser seu aluno), Theodoro Sampaio e tantos outros que lutaram para manter a instituição em funcionamento.

Quero agradecer a boa receptividade e acolhida do meu amigo Fernando e sua equipe de trabalho, bem como agradecer pelos livros recebidos sobre “Manuel Querino”, de autoria dos colegas Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar, “Mestre Josaphat – um militante da democracia”, de Luiz Almeida e a “Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia”, editada em 2020, que traz um estudo sobre “Luiz Gama – o advogado dos escravos”, de autoria de Nelson Câmara.

MUSEU CONSAGRA SALVADOR DOS GRANDES ARTISTAS DA NOSSA MÚSICA

Há muito tempo que Salvador precisava ter um museu que resgatasse a riqueza musical de seus grandes artistas que ganharam fama nacional e internacional, como João Gilberto, Gilberto Gil, Raul Seixas, Caetano Veloso, Dodô e Osmar, Luis Caldas, Tom Zé, Capinam, Assis Valente, Morais Moreira e tantos outros nomes que nos orgulham.

Com um projeto iniciado lá no governo de ACM Neto, finalmente “A Cidade da Musica da Bahia” foi inaugurada na semana passada no antigo casarão de azulejos da Cidade Baixa, na Praça Cairú, em frente do Mercado Modelo e do Elevador Lacerda, numa boa localização que revive a nossa história.

Em viagem à capital por motivo familiar, tive o privilégio de ser um dos primeiros a visitar e conhecer seu grandioso acervo musical, com um estilo que não deixa nada a dever a outras casas dessa natureza em outros países avançados. Foi como entrar no túnel do tempo! Foi um planejamento de anos que valeu a pena, com um pessoal bem treinado no quesito atendimento ao turista.

Posso dizer que fiquei encantado com o que vi lá dentro sobre a Bahia Musical, se bem que faço minhas restrições a muitos personagens de “compositores” sem conteúdos em suas letras, com músicas que deixam muito a desejar, como é o caso do axé dos tempos mais atuais. Muita coisa é lixo, na minha concepção.

No computo geral, é, sem dúvida, um apanhado histórico que fica registrado para a posteridade. Lá dentro existe uma interação muito grande entre os atores dessa linguagem artística com o público. Existem estilos para todos os gostos, como do karaokê, o funk, o sertanejo, o arrocha até o pop, a bossa nova, o samba, o reague e outras misturadas características da Bahia.

Ao entrar, me senti dentro da cultura baiana em se tratando da sua expressiva musicalidade que irradia o mundo. Lá dentro você recebe uma gama de conhecimento sobre os variados tipos de samba, a capoeira, sobre o conjunto das batidas percussionistas em harmonia com o candomblé, o rock de Raul Seixas e as festas de carnaval, Santa Bárbara, de Largo e tantas outras que atraem milhões de turistas brasileiros e do exterior.

O museu, que só enriquece mais Salvador, está em três andares do prédio todo forrado de azulejos, com cabines que apresentam ao visitante um leque variado de artistas e gente que contam as histórias dessa capital da música. O local ainda possui um estúdio de gravação para quem estiver interessado em musicar seu trabalho, uma biblioteca com obras valiosas, não apenas sobre o tema do museu, uma loja de objetos de lembrança da terra e uma lanchonete.

Lá dentro existem várias salas de exibições dos carnavais e das principais festas, com belas performances dos cantores e compositores. É claro que não podiam ficar de fora os trios elétricos criados por Dodô e Osmar, sem deixar de citar o Tapajós. Diante do poder aquisitivo do soteropolitano, considero alto o ingresso de 20 reais inteira e 10 meia.

FEIRA DE AMBULANTES NO CENTRO DEIXA A CAPITAL COM PÉSSIMA IMAGEM

Fotos do jornalista Jeremias Macário

Quando morei em Salvador durante 23 anos até início dos anos 90 andava livre pelas calçadas das avenidas 7 de Setembro (imediações da Piedade e Relógio de São Pedro com a Ladeira de São Bento) e Joana Angélica, sem a preocupação de me bater numa barraca ou banca de feira livre. Saudades daquelas noites de boemia descendo até a Barroquinha ou a Ladeira da Montanha com o Gravatá!

Nos últimos anos isso ficou impossível porque aquela área mais parece um mercado indiano ou turco ao ar livre. Estive lá na semana passada para conversar com um amigo diretor do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e fiquei, sinceramente, horrorizado com um quadro que envergonha Salvador pelo seu aspecto de feiura.

Não recomendo a visita de nenhum turista porque ele vai levar para sua terra uma péssima impressão da capital e de seus governantes que deixaram aquelas avenidas serem invadidas, mais por questões eleitoreiras que sociais. Será que não existiria outra alternativa para resolver o problema de desemprego, com a consequente informalidade?

A travessa entre o Relógio de São Pedro com a Avenida Joana Angélica até o Colégio Central se transformou numa verdadeira feira de livre de verduras, frutas e outros produtos expostos a céu aberto, sem o mínimo cuidado de higienização. Aquilo ali é um atentado à saúde pública! Até a entrada da Estação da Lapa está tomada de ambulantes.

Nos locais você se depara com barracas, tendas e bancas de camelôs onde se encontra de tudo, de verduras, hortaliças, tecidos, roupas, aparelhos de som, celulares, cintos, sapatos e uma grande variedade de objetos domésticos. Muitos produtos são vendidos no chão mesmo.

As feiras livres das cidades do interior são bem mais organizadas do que aquele amontoado de vendedores que ocuparam aquelas avenidas que fazem parte do Centro Histórico. Aquilo ali é a cara de um Brasil pobre de milhões de desempregados e muita gente vinda de fora atrás de um trabalho fixo, que passaram a viver de bicos nas ruas, comercializando bugigangas.

Não dá para transitar naquelas artérias da capital, só mesmo para quem tem um negócio para resolver ou tem um emprego fixo. Não tem como uma pessoa com problema de deficiência física andar naquelas avenidas. As calçadas estão arrebentadas e a sujeira está por todo lugar.

A Praça Castro Alves e a Avenida Chile perderam totalmente seu glamour dos tempos antigos, mesmo com os hotéis Fasano (antigo prédio do jornal A Tarde) e o Palace. É um centro vazio que perdeu seu colorido e suas atrações de antigamente onde por ali passeavam todos os dias a Mulher de Roxo e outras personagens importantes, como artistas, intelectuais, políticos, governadores e prefeitos. Até o Cine Glauber Rocha (reativado) está ameaçado de ser fechado por falta de patrocinadores, depois da saída do Itaú-Unibanco do circuito.

Não temos mais o Teatro São João, as escadarias das Lojas Americanas, o Adamastor do pai de Glauber Rocha, os bares e as cafeterias que sempre estavam cheios. O quadro é de total abandono, não mais frequentado por turistas e apreciadores daqueles pontos em frente à Baia de Todos os Santos, uma paisagem deslumbrante e bucólica de encher os olhos.

“MUITO ALÉM DO VÉU”

Ainda sobre a socióloga marroquina Fatema Mernissi, a principal temática de suas obras foi sobre a desigualdade feminina no mundo árabe-islâmico. De acordo com a historiadora Isabelle de Castro, ela questiona como reverter a submissão das mulheres, considerando que a legislação de família ainda é dominada pelos ditames e tradições da jurisprudência religiosa, mesmo no Marrocos, os julgamentos ocorrem em tribunais do Estado e não por um corpo de juristas religiosos como acontece em outros países mulçumanos, como a Arábia Saudita.

Sua obra “Além do Véu: dinâmicas masculino-femininas em uma sociedade mulçumana” é fruto de um período em que a sociedade local enfrentava novos desafios, ainda presentes, como a maior inserção das mulheres no sistema educacional e o consequente crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho.

Ela realizou trabalho de campo em seu país visando esclarecer a natureza das relações entre ambos os sexos. “Essa questão básica nos preocupa a todos e é particularmente vital para mim, uma mulher vivendo em uma sociedade mulçumana” – afirmou.

Em seus estudos e escritos, destacou que no islã as mulheres são vistas como seres poderosos e perigosos. Diante disso, segundo ele, as instituições criadas pela religião como o véu, a poligamia, o repúdio, a segregação sexual, podem ser vistas como estratégias criadas pelos homens para controla-las. Em outras palavras: “A ordem social, então, serve como uma tentativa de subjugar seu poder e neutralizar seus efeitos desordenados”.

No entender de Fatema, as mulçumanas estão em um diálogo silencioso, mas explosivo em uma frágil classe dominante, que não tem como barrar esse processo de transformação da sociedade. A legislação marroquina define que é papel do homem ser o único provedor da família. No entanto, a manutenção da exclusão feminina no processo impede o avanço econômico.

Quanto a esse aspecto, ela cita que durante o conflito Irã-Iraque, a entrada de muitas mulheres no mercado de trabalho foi vital para a manutenção da economia e do esforço de guerra em ambos os países. A elite dominante não quer ver isso e desconsidera o papel da mulher. Isso dificulta o desenvolvimento nos países islâmicos.

Em Além do Véu, Fatema indaga o porquê de os direitos femininos serem tão escassos em países de maioria mulçumana? A religião é contrária aos direitos da mulher. A lei islâmica tem como base, além do Alcorão, os hadiths, relatos chancelados por especialistas como verdadeiros de ações e dizeres do profeta Muhammad. Argumenta que a consolidação da religião revolucionou o tratamento dado às mulheres com novas leis. Sabe-se que a prática do infanticídio feminino foi abolida com a ascensão do islã.

Em seus argumentos, assinala que duas esposas do profeta foram atuantes, inteligentes e independentes. Aisha, por exemplo, foi a primeira mulher a se lançar e assumir uma carreira política. Foi ela quem liderou a primeira resistência armada contra um califa.

Destaca que, o ataque à posição das mulheres teria se solidificado sobre o quinto califa que implantou um poder absolutista, quando houve o estabelecimento da sucessão do califado por via dinástica.

A experiência de igualdade buscada entre os primeiros mulçumanos e estabelecida pelo profeta esvaiu-se. As mulheres seriam condenadas a viver com o hijab, o lenço que cobre os cabelos femininos, um resquício da guerra civil travada entre Medina e Meca, e por pressão dos próprios companheiros do profeta.

Os especialistas (uma elite masculina) promoveram uma interpretação predominantemente patriarcal e misógina. “Você encontra no Alcorão centenas de versos que apoiam os direitos das mulheres  de uma forma ou de outra, e somente alguns poucos que não fazem. Eles capturaram esses poucos e ignoraram os outros”.

Fatema tentou conciliar sua fé com seus ideais de igualdade.  Demonstrou que isso seria possível com um outro olhar sobre os textos clássicos. Ela procurou não criticar os dogmas da religião, mas seus intérpretes.

 

 

O GAVIÃO E A SECA

Pelas lentes do fotógrafo José Silva, o gavião voa baixo no sol escaldante do agreste do sertão farejando uma presa para matar a fome, mas o chão está rachado pela seca que não deixou muita coisa para se alimentar. Sem flora e sem fauna, ele é um dos últimos solitários nessa paisagem cinzenta a esperar que uma graça desça dos céus, como também o catingueiro que perdeu suas lavouras e o gado. Ainda com um fio de fé e esperança, o roceiro mira todos os dias para o alto à procura de uma nuvem e um vento mais forte que deem sinais de chuva, mas nada de um cheiro dela no ar. Ele é resistente e forte como o gavião que continua a voar, e dificilmente bate em retirada. O carro-pipa corta a estrada de cascalho, cobrindo de poeira os engaços e bagaços, mas a água não chega para todos. Sempre dizem que o homem pode conviver com a seca, mas os projetos para que isso se torne realidade não saem do papel. Os programas se estacionam nas promessas vãs dos políticos. Na cultura religiosa foi Deus que assim quis, mas isso é só uma tentativa de acomodar o sertanejo para que ele continue submisso aos poderosos. Mesmo com a seca, o gavião não vai parar de fazer a sua caça e, se nada encontrar, ele bate asas para bandas mais distante, e retorna à sua terra natal nos bons tempos, como faz o sertanejo.

A DOR DO RETIRANTE

Nova versão de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, Senhor Deus!

O açude secou,

Tudo ao sol se evaporou,

No lajedo o mandacaru,

Nessa imensidão do tempo,

Sem o sinal do vento,

Nem no agreste uma flor.

 

Ah, Senhor Deus!

Vou embora do Nordeste,

Deixar o meu sertão,

Com a benção da minha mãe,

Pra noutra terra ser peão,

Ser escravo dos capitais,

E vagar nas transversais.

 

Ah, Senhor Deus!

A dor doida corta o peito,

Como facada no lamento,

Ver esse feito da minha gente,

Partir como retirante,

De fome sem lavoura e alimento.

O rebanho e sem semente,

Sem nascer um rebento.

 

Ah, Senhor Deus!

Na grande cidade das esquinas,

Filhos soltos desgarrados,

Sinaleiras de meninos e meninas,

Vivendo de parcas esmolas,

Como alvo das chacinas,

Balas perdidas sem escolas,

Nas selvas de pedras infernais.

 

Ah, Senhor meu Deus!

Nos socorra se quiser,

Para um dia nós voltar,

Pra nossas roças plantar,

Fartura pra renovar a fé,

Sem nunca mais na vida,

Em terra de estranhos,

Viver a mendigar.





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