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DONO DE BAR DEVIA BEBER

(Chico Ribeiro Neto)

Todo dono de bar devia tomar uma pra ficar mais inteirado dos assuntos. Há os contrários a essa ideia achando que “macaco não pode vender banana.”

Desconfie de dono de bar que não bebe. Ele está sempre mal humorado, é um porre. Tem horror a bêbado e cospe de lado a cada cerveja que abre. E ainda tem aquele que vai logo perguntando: “Vão tomar quantas, porque eu já tô fechando?”

Se dono de bar bebesse poderia encontrar no final da noite, fechando o bar, uma bela morena de preto que só toma Campari.

Dono de bar que não bebe vai dormir triste e acorda aborrecido. Vai de mesa em mesa perguntar se você está gostando, senta na sua mesa sem ser convidado e ainda come do seu tira-gosto. Fica com o zoião vendo a banda passar.

Desconfie, amigo, do dono de bar que diz não beber, porque ele acaba bebendo escondido, “pra não dar ousadia.”

Dono de bar que não bebe não conhece a alegria de gritar: “Essa agora é da casa!” Dono de bar que toma uma entra em sintonia com o bêbado, viaja junto com ele, que diz belos poemas, passeia nas estrelas e dorme com sereias no fundo do mar.

Se todo dono de bar bebesse, alguns deles iriam esquecer de anotar o meu fiado.

Todo dono de bar devia tomar uns goró, molhar a palavra e “morder o rabo da cobra”, pra deixar de ser chato e de ficar lá do balcão olhando pra gente com cara de Madalena arrependida.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

NO BANCO DA PRAÇA

Ali mesmo ele arriou o seu corpo, não se sabe se por cansaço, por fome ou por embriaguez. Quem passa vai seguindo sua vida cotidiana e nem está aí para o moço que dorme no banco da praça, que também é utilizado para um encontro, um bate-papo com um amigo ou até o namoro de um casal. O banco da praça é também um local onde muitos dão uma parada para refletir sobre os problemas e até apreciar o movimento dos carros, dos transeuntes ou observar o comportamento dos outros, como fazem os poetas e escritores quando querem escrever uma crônica da vida. É no banco da praça que artistas escultores se inspiram para construir estátuas de famosos, como Jorge Amado, João Ubaldo, Vinícius de Morais, na Bahia, e Carlos Drummond, no Rio de Janeiro. No entanto, o moço ali, numa praça de Juazeiro (Bahia), flagrado pelas lentes da minha máquina não passa de um simples desconhecido que pode ser até um andarilho qualquer ou mesmo um mendigo. Não deveria ter uma estátua em homenagem a esse anônimo para que as pessoas refletissem mais sobre o outro, o desamparado e abandonado pela sociedade, cada vez mais desumana e individualista que só pensa em si? Ronnie Von fêz “A Praça” (letra e música): A mesma praça/o mesmo banco/as mesmas flores, o mesmo jardim/tudo é igual, mas estou triste. No banco da praça também pode ser título de um belo poema com diversas conotações.

O BRUXO DA BOLA

Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Os deuses do Olimpo

Te deram o divino dom,

De ser o bruxo da bola,

Com ela fazer malabares,

Como violonista do som,

E tu preferiste:

Festa e luxo,

Boates, cabarés e bares.

 

Passastes

Como cometa no fluxo,

Esse bruxo da bola,

Na enrola de muito Mané,

Com sua mágica,

Grudava a redonda em seu pé.

 

Fostes o espetáculo do mundo:

Por duas vezes o melhor,

No drible um cartola,

Maior que Garrinha na ré,

Maradona, Messi e Pelé.

 

Caneta pra lá,

Banho de lua,

Pedala pra cá,

Deixastes

O adversário no chão,

Comendo grama,

Achando ser pão,

E a bola cola,

No bruxo da bola.

 

A torcida contra

Levanta e canta,

Para aplaudir,

Gritar e curtir,

O bruxo da bola.

 

No campo ele sorrir,

Faz outra marola,

O bruxo da bola.

Lá vai o bruxo da bola,

Com ela presa na sola,

E o estádio inteiro,

Encanta com o efeito,

Que no canto enganou,

Desolou na rede o goleiro,

E goza o bruxo da bola.

 

 

 

 

UM PRETEXTO PARA ACABAR DE VEZ COM OS ENCURRALADOS PALESTINOS

Os Estados Unidos, as nações europeias e os habitantes em geral deste planeta arrasado pelo aquecimento global não vão tomar nenhuma uma providência conjunta para dar um basta nesse genocídio dos judeus, comandados pelo neonazista Benjamin “Bibi” Netanyahu? Ainda têm os imbecis de plantão que dizem que estamos num mundo civilizado.

A pretexto dos atos de matança e dos sequestros dos Hamas em outubro do ano passado, esse facínora, o nome é esse mesmo, que muito lembra os filmes de faroeste, está exterminando, aos olhos omissos do mundo, os palestinos que estão vivendo agora em campos de concentração na estreita faixa de Rafah, morrendo de fome e de bombas jogadas pelo exército assassino de Israel.

Nada mais justifica essa atrocidade, esse horror humano que conta com o aval dos Estados Unidos imperialistas que já praticaram e ainda praticam invasões e matanças pelo mundo a fora, como na Guatemala, no Panamá, na América Central, nas Filipinas, no Iraque e vários países da África. Além do mais, eles são reféns do capital judeu.

Por outro lado, a ONU (Organização das Nações Unidas) há anos que perdeu totalmente sua credibilidade e faz simplesmente um papel ridículo de ficar apenas no blábláblá do bate-boca, enquanto os judeus assassinos, em nome do holocausto de Hitler, fazem o mesmo com os palestinos.

São cenas iguais ou piores que as vistas durantes a Segunda Guerra Mundial. A Inglaterra, que criou o Estado de Israel, em 1948, a França, a Alemanha, com sentimento de culpada, e outras potências, deixam o “Bibi” cometer seu genocídio cruel e anexar todo território da palestina.

Para resgatar dois judeus argentinos, o exército mata mais de 60, inclusive crianças e idosos. Cadê os tribunais internacionais e o de Haia que não mandam prender esse maluco que há anos vem encurralando os palestinos com seus muros e colônias. Encurrale um animal e terá uma resposta de ataque para se defender. Não é diferente do ser humano.

A grande maioria de Israel sempre apoiou o tirano Benjamin e agora quando são atacados de surpresa pelo Hamas se acham de inocentes. Os alemães de um modo geral, inclusive empresários e até intelectuais nunca foram inocentes quando a Rússia e os aliados invadiram o país levando tudo pela frente.

Qual moral que têm os judeus de falarem em terrorismo, se eles foram os primeiros a usar desse método para forçar a criação de um Estado? Porque até agora não instituíram o outro Estado da Palestina? Quando Abraão com seus descendentes chegaram naquele território já havia donos cultivando a terra e criando seus rebanhos.

OS CORONEIS ALOPRADOS E OS GENERAIS GOLPISTAS DE FRALDAS

A VATAPADA DESANDOU E DEU DISENTERIA TORAL. DOR DE BARRIGA DANADA. MUITA CAGADA E SUJEIRA.

Em 1964 (60 anos do golpe civil-militar) em plena Guerra Fria, o inimigo era a ameaça do comunismo, conforme alegam até hoje, e contava com o respaldo da Igreja Católica, da maioria da mídia, das elites e da classe média.

O esquema já vinha sendo tramado desde o suicido de Getúlio Vargas, em 1954, e culminou com a renúncia do maluco Jânio Quadros, em 1961, e a rejeição de João Goulart, o vice-presidente.

Em 1954/55, no governo tampão de Café Filho, uma turma de generais tentou tomar o poder e barrar as eleições legítimas, mas o general legalista Lott impediu a trama. Os milicos ficaram irados.

Cinquenta e oito anos depois de 1964 aparecem uns coronéis aloprados e uns generais de fraldas (uns falam ser de pijama porque já estão na reserva), comandados por um capitão-presidente da República (quem diria!), com um esquema burro de dar um golpe e anular a vitória e a posse da esquerda política, no caso o PT e companhia. Ah, esqueci de citar o bando de extremistas neonazistas supremacistas brancos e uma ala de pastores evangélicos.

Essa intentona golpista já vinha sendo programada antes das eleições de 2022 porque eles sentiam que iam perder e condenavam o pleito de ser fraudulento. Numa reunião no Palácio do Planalto (nem sabiam que o encontro estava sendo gravado), cada um arrotou a sua merda, a começar pelo capitão com seus palavrões impublicáveis. A reunião está sendo gravada? Não – responderam o capitão e o general Braga Neto.

Todos com medo (alguns aterrorizados com que estava ocorrendo, mas deviam obediência) até que surge o general de fralda, o Heleno e dá um alerta que o soco e a virada de mesa tinham que ser antes das eleições. Depois não adiantava mais nada. Sobre usar a Abin, o serviço de inteligência, para espionar o “inimigo”, o capitão mandou o general calar a boca.

Podemos dizer que foi um movimento dos coronéis aloprados, só que faltou eles combinarem tudo com o staff maior das Forças Armadas (a maioria não apoiava a maluquice).  Mesmo assim, eles continuaram maquinando, como Catilina, na Roma antiga, tanto que depois do resultado das eleições eles aceitaram os acampamentos dos seguidores do Bozó em frente dos quartéis (nunca vi aquilo em toda a minha vida).

Enquanto isso, o capitão-presidente, recluso e atônito em “seus palácios”, silenciou-se diante da derrocada e nem reconheceu a vitória do seu oponente. Ali ele ainda mantinha a esperança de que o jogo poderia ser virado, só que ele ficou praticamente isolado. Nessa hora os ratos pulam fora do barco e nem o boy serve mais um cafezinho para o chefe, como dizia o ex-governador da Bahia, Otávio Mangabeira.

No entanto, o capitão e seus coronéis ainda confiavam em seus seguidores fanáticos acampados e berrando, que lá atrás vestiam suas amarelinhas e de cartazes e bandeiras nas mãos pediam uma intervenção militar, no caso específico, uma ditadura onde seu “mito” continuaria a presidir o Estado. É bom lembrar que tudo isso começou com os movimentos para depor a Dilma Russelff da presidência.

O Lula tomou posse e, mesmo assim, eles tentaram dar a última cartada que, com a conivência de alguns tenentes-coronéis, invadiram, como verdadeiros vândalos bandidos, os três poderes em oito de janeiro de 2023 para pressionar as Forças Armadas a entrarem com suas tropas com o pretexto de manter a ordem pública (a GLP), conforme reza artigo da Constituição.

A esta altura, o capitão não voltaria mais. Uma junta militar tomaria o poder como em 1964. Acontece que seria um desastre para o Brasil e não haveria clima e respaldo internacional, principalmente dos Estados Unidos e países da Europa. O alto comando não iria entrar nessa fria. Muita gente seria presa, como os chefes dos três poderes, o ministro Alexandre de Morais, do Supremo Tribunal Federal (STF), muitos mentores da desordem e o próprio capitão psicopata que se encontrava nos Estados Unidos.

Agora a coronelada e seus “jagunços”, sem armas, estão mijando nas calças pelas atrapalhadas. Os generais de fraldas com seus cuidadores de idosos estão decepcionados com a merda que aprontaram. Muitos dos malucos que invadiram o STF, o legislativo e o executivo vendo o sol nascer quadrado. A vatapada desandou e deu disenteria total. Dor de barriga danada.

A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA NO CARNAVAL

Antigamente, isto há uns 30 ou 40 anos, o carnaval de Salvador tinha pouca violência nas ruas, começava na sexta-feira e ia até à meia noite da terça-feira ou um pouco mais em respeito à quarta-feira de cinzas celebrada pela Igreja Católica.

Essa era uma tradição de muitos anos quebrada pelo arrastão da quarta, inventado pela Timbalada do artista Carlinhos Brow. Outros artistas, como Ivete Sangalo, seguiram o esquema e o carnaval entra pela quarta até meio-dia, com músicas que são um verdadeiro lixo.

Não sou nenhum advogado da Igreja Católica, mas isso é uma prática de intolerância religiosa, justamente feita por quem tanto prega a tolerância quando se ataca os terreiros de candomblé.

Por condenação da Igreja, a Câmara Municipal de Vereadores de Salvador chegou a aprovar um projeto onde proibia o arrastão da quarta, mas o prefeito da época ACM Neto vetou. Ninguém fala mais no assunto e todo mundo entrou na onda. Essas pessoas não têm nenhuma moral de falar de intolerância religiosa.

Por falar em carnaval, que já tem mais de dois meses rolando em Salvador, no início os organizadores anunciaram numa movimentação em torno de dois bilhões de reais. Agora já subiu para seis bilhões ou até mais que isso.

Mesmo sendo um chute, mais de 90% desses valores ficam na mão dos mesmos de sempre, no caso os empresários da rede hoteleira, agências de viagens, as empresas de aviação e transportes terrestres, os donos de blocos, camarotes, de trios, as bandas, a grande mídia e os cantores, como o próprio Carlinhos, Bel Marques, Daniela Mercury (esta chamou Cristo de gay num show), Durval Lelis e tantos outros que mamam nas tetas do dinheiro público.

O resto são os barraqueiros, vendedores ambulantes, cordeiros e os operários que trabalham nas montagens e desmontagens dos palcos e camarotes. Os pobres que entram na folia se arrastam no asfalto e quando termina a festa estão endividados e com aquela ressaca danada, sem falar nas inúmeras doenças. Como são dependentes do SUS, esses lotam os postos de saúde e os hospitais.

Os governos estadual e municipal gastam milhões, enquanto tudo fica parado na Bahia, inclusive as cidades que não têm carnaval, como em Vitória da Conquista onde tudo é fechado. A polícia, de um modo geral, fica a serviço da elite e baixa o sarrafo nos mais pobres.

 

 

OS EDITAIS “BURROCRÁTICOS” E OS CRITÉRIOS DOS PROJETOS CULTURAIS

QUEM PERDE É A CIDADE QUE VAI DEIXAR DE ELABORAR E PUBLICAR UMA OBRA INÉDITA SOBRE A HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA EM VITÓRIA DA CONQUISTA

Confesso que sempre fui reticente e arredio em participar desses editais “burrocráticos” na área cultural, mas por incentivo de amigos terminei entrando nesse barco, mesmo desconfiando dos critérios utilizados no processo de seleção e eliminação.

Outro motivo pelo qual me levava a ficar de fora é o excesso de burocracia, que me atrevo a denominar aqui de “burrocracia”. Eles são publicados com um emaranhado de exigências que, de início, deixa o artista irritado e sobrecarregado.

Como a maioria não lida na área e se dedica apenas fazer sua arte (meu caso), a tendência é contratar um especialista para inscrever seu projeto. Diante de tantos pedidos de certidões e documentos, para os técnicos que elaboram esses editais, todos artistas são desonestos e trapaceiros.

Bem, vamos sair dessa introdução, ou “nariz de cera” no jargão jornalístico e falarmos do real que são os critérios duvidosos no processo de julgamento desses projetos pelos pareceristas contratos pela Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel. No caso específico estou me referindo ao edital da Lei Paulo Gustavo no âmbito municipal (o estadual recebeu um monte de queixas, denúncias e ações na Justiça).

No edital do município entrei com dois projetos, um do audiovisual para elaboração de um documentário sobre os treze anos do “Sarau A Estrada” e o outro com o propósito de lançar um livro inédito sobre a história da fotografia em Vitória da Conquista, um resgate do século passado aos tempos atuais.

Na primeira etapa, em ambos fui habilitado, mas terminei ficando na suplência. Pela sua importância histórica e por ter sido bem montado e amarrado, meu maior questionamento de ter sido praticamente excluído recai sobre o projeto literário de uma obra que deixa uma grande lacuna na memória de Conquista. Trata-se de uma pesquisa sobre a fotografia e os grandes fotógrafos que retrataram nosso município ao longo desses últimos cem anos.

Quero aqui deixar bem claro que não sou melhor que ninguém nesse setor. Não ia escrever sobre isso, mas resolvi encarar as bordoadas. A esta altura muitos já devem ter dito que minha queixa é típica de um perdedor que não sabe aceitar a derrota, ou que a crítica não procede.

Pode ser presunção da minha parte, mas não me sinto perdedor porque quem mais perde nisso é a cidade. Não estou simplesmente arguindo porque fiquei na suplência, mas me reservo no direito de duvidar dos critérios adotados por esses pareceristas.

Ouvi de um preposto da Secretaria de Cultura que eu devo ter ficado de fora por causa das cotas para negros e LGBTs estabelecidas na Lei Paulo Gustavo. Caso tenha sido este o motivo, considero um absurdo dos absurdos um projeto ser julgado pela cor da pele.

Não tenho nenhum medo de ser rechaçado dizer isso, mesmo porque sou um pardo. Nesse país tão miscigenado e misturado, o pardo é o mais prejudicado e confundido porque ele não é nem negro e nem branco. É uma coisa do meio, sem definição.

Muitos me recomendaram que eu recorresse à justiça, mas não vou fazer isso, porque com esta idade só iria me aporrinhar e me estressar mais ainda. Repito que não sou eu que está perdendo. Prefiro deixar aqui o meu protesto que também é de muitos que participam desses editais “burrocráticos”.

 

 

AS CARTAS E AS PROCISSÕES DAS ORDENS COM OS ESCRAVOS CRISTÃOS RESGATADOS

No último capítulo, “Celebrando a Escravidão”, do livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos”, o autor, historiador e pesquisador Robert C. Davis divulga as cartas dos cativos libertados, especialmente pelas ordens dos trinitários e mercedários. Descreve a figura do pecado e da redenção na escravidão, bem como as procissões espetaculares para comover os fiéis a participar de mais doações. Esses atos promoviam o trabalho das missões de resgates dos escravos na Costa da Berbéria (Túnis, Argel e Trípoli).

As negociações de remições de escravos entre as ordens e os senhores proprietários, reis, paxás, turcos e mouros, já naquela época dos séculos XVI e XVII, eram constituídas de trapaças, subornos e corrupções. Os escravos libertos caiam nas mãos do Estado, de seus tutores e passavam por um processo de humilhação e descriminação social, sem falar do período de quarentena que eram submetidos para voltarem às suas famílias. Como sempre, os mais pobres eram os mais excluídos da integração na sociedade.

O pecado, a misericórdia, a punição e a salvação são onipresentes nos escritos dos escravos brancos na Berbéria. Como diz Robert, todos abraçavam esses conceitos como forma de compreender qual seria o propósito de Deus para infligir tanto flagelo a seus fiéis. Certa vez o abade Pietro Caissotti perguntou qual será o crime desses pobres escravos para serem sujeitos a uma punição tão severa? Ele mesmo respondeu que suas culpas e crimes eram reconhecer Cristo como o mais divino salvador.

“Pelos meus pecados, fui capturado num lugar chamado Ascea” – disse um cativo, em 1678. Esses homens e mulheres sempre se colocavam como passíveis da ira de Deus num inferno especialmente criado com essa finalidade. Escreveu (as cartas duravam cinco, seis meses ou mais para chegarem aos seus destinatários) outro em 1735: “Sinto-me como se estivesse em outro mundo de sofrimentos e dos tormentos do inferno”. Outro descreveu como uma alma no purgatório à espera de algum tipo de alívio. “Minha grande aflição, a aflição do purgatório e das chamas do inferno”.

Segundo Robert, essa penitência, sob o cruel jugo da escravidão, significava para a maioria dos escravos que eles seriam “espancados, praguejados e chamados de cães infiéis” por seus carrascos. Eles eram expostos aos riscos mais severos. Alguns viam a escravidão de uma forma mais positiva. Seria uma maneira como Deus testava os fiéis, colocando à prova a força de sua devoção diante do flagelo da escravidão.

Muitos não passavam no teste e abandonavam suas crenças, “vivendo como meras bestas”, em total embriaguez e depravação. Outros abraçavam o islamismo, desistindo de suas almas, como se tivessem feito um pacto com o satanás – escreviam alguns observadores da época.

De acordo com o autor da obra, o mínimo que se esperava de seus familiares é que mantivessem contato com o escravo, na esperança de que suas cartas ajudassem a levantar seu ânimo para suportar os efeitos corrosivos da submissão sobre sua fé.

Muitas das mulheres, crianças e idosos, conforme ressalta Robert, perderam para a escravidão o homem que trazia o sustento para dentro de casa, e agora, tendo de enfrentar a fome, rebaixavam-se e deixavam a fé de lado para recorrer à mendicância, ao crime ou à prostituição, para sobreviver.

Eram os lamentos que os cativos reportavam em suas cartas e acusavam, por vezes, suas comunidades e terras natais por não responderem aos seus clamores. “Ai de nós, pobres e abandonados, sem ninguém movido por compaixão, já que, com essa esperança… poderíamos continuar vivendo e crendo, sem abjurar em decorrência de muitas chibatadas que temos de tolerar nas mãos desses bárbaros”. Quem abjurava à sua fé e depois retornava ao cristianismo, era condenado à morte.

Os problemas dos agentes redentores estatais ficaram piores com o passar do tempo por causa da escassez de financiamento confiável, informação fidedigna sobre quem estava escravizado e habilidades comerciais para negociar com os proprietários. Os religiosos trinitários e mercedários eram mais espertos e começaram a mudar o quadro no final do século XVII.

No início dos anos 1700, os muçulmanos na Berbéria que investiam em escravos expandiram seus negócios nesse mercado cada vez mais, pois estavam interessados no lucro rápido advindo dos resgates, ao invés de explorar a mão-de-obra deles. Segundo registros do observador Laurent D´ Arvieux, por conta da Coroa Espanhola, os escravos dessa nacionalidade eram comprados e libertados com mais presteza.

Também os trinitários, criados na França no tempo das Cruzadas, eram talentosos negociadores, quando, em 1762, ofereceram seus serviços aos venezianos. Mesmo proibidos de coletar ofertas nesse território, os padres se colocaram apenas como agentes de remição do governo veneziano. Eles forneceram ao Senado Veneziano uma vasta coleção de materiais convincentes, como listas impressas com todos escravos que tinham remido em nome de outros estados clientes, bem como uma tabela comparativa entre os resgates que pagavam e os cobrados pelos “hereges e judeus”.

Por negociarem a libertação de escravos há anos, os trinitários e mercedários eram treinados em gerenciar os resgates com destreza. Sabiam dos truques que os proprietários usavam para elevar o preço. Usavam de artimanhas, como comprar o médico do rei, para declarar que o escravo estava doente, fazendo acreditar que o cativo corria o risco de morte. Terminavam adquirindo o escravo por uma quantia irrisória.

PROCISSÕES DE EX-ESCRAVOS

Como habilidosos, bons pregadores e arrecadadores na Espanha e na França, eles levaram aos estados italianos uma combinação de misericórdia e organização que encontrou forte eco nos sentimentos religiosos da península. Eles eram conhecidos por suas grandes procissões de ex-escravos, eventos que o padre Camillo di Maria chegou a chamar de “um triunfo da paz, da liberdade e do júbilo…”

Essas procissões eram incrivelmente populares entre as pessoas de todas as classes. Eram espetáculos urbanos mais característicos na Itália do século XVIII. Quando os cativos libertos eram apresentados aos romanos, em 1701, “as ruas ficavam lotadas com as inúmeras carruagens e com a aglomeração de pessoas, desde a Igreja de Santa Sussanna até o Palácio Apostólico do Quirinal.

Um acadêmico chegou a chamar essas procissões de fuzuê, que não passava de um meio para gerar contribuições, um espetáculo que visava, nada mais nada menos, estimular as emoções e, assim, as doações das pessoas mais religiosas.

O historiador narra uma procissão que houve em janeiro de 1764, quando houve uma parada com 91 escravos pela cidade de Veneza, com gastos em torno de 2.550 ducados, um valor cinco a dez vezes à quantia arrecadada nessas ocasiões.

Dentro do esquema dessas ordens, todo contingente de ex-escravos, os padres que os acompanhavam e seus auxiliares eram submetidos a uma quarentena. No século XVII, um período de isolamento era necessário e obrigatório para qualquer um que chegasse à Itália do norte da África e do Levante, porque estavam assolados de praga.

Após terminada a quarentena, os ex-escravos eram reunidos numa das igrejas relacionadas à ordem redentora. Era costume entre os mercedários, nas procissões que realizavam na Espanha e na França, vestir os escravos libertos com trapos que usavam na Berbéria, ornando-os também com correntes, porém quebradas.

Os padres redencionistas compravam humanos como qualquer outro traficante de escravos. Assim também pensavam muitos que viviam na Berbéria, conscientes de que não apenas missionários e cônsules estavam acostumados a alugar escravos cristãos como criados. Os padres redentores frequentavam o mercado badistão e davam seus lances ao lado de traficantes de escravos turcos e mouros.

Mesmo depois de comprados, os escravos, de certa forma, continuavam na posse dos padres, simbolizados pelas fitas no lugar das correntes durante as procissões. Os que contribuíam com alguma parte do resgate, tinham mais liberdade de ação, voltando diretamente para suas casas sem ter de antes viajar para a capital. Escravos pobres tinham noção de suas dívidas que estavam contraindo perante os padres e seus conterrâneos.

As procissões significavam um processo de purificação. A própria recompra tinha conotações interessantes. Os padres redencionistas compraram humanos como qualquer outro traficante de escravos. Homens e mulheres deixavam de ser mercadorias de um senhor muçulmano para serem tutelados pelos padres e pelo Estado. Logo que chegavam às cidades, eles eram entregues às autoridades estatais e confinados em quarentena por mais de um mês por causa da praga.

Os clérigos, na maioria jesuítas, trabalhavam para recatequizá-los, purificar suas almas da influência do islã. Muitos dos escravos remidos entravam em depressão, especialmente aqueles mais pobres que tinham poucas opções de trabalho, a não ser retornar ao mar e arriscar serem escravizados novamente. Quando estavam na escravidão, muitos apelavam para as elites para serem libertados, com a promessa de serem seus escravos.

QUAL É O BUSÍLIS?

(Chico Ribeiro Neto)

– O pai de Mateus tem um livro que tem todas as palavras do mundo!

Pedro, com uns 6/7 anos, ouviu de meu filho Mateus que eu tinha um livro com todas as palavras do mundo. Ele duvidou, subiram pro meu apartamento, peguei o Aurélio e disse a Pedro para escolher qualquer palavra. Ele escolheu Casa e Borboleta. Depois que as viu no dicionário, desceu correndo para contar a descoberta aos outros amigos do prédio.

Gosto das palavras que reforçam o que são. Palavras cheias, redondas, agressivas, sonoras. Também das pequenas, suaves, sibilantes e serenas.

É um gosto formado, o saboreio das palavras.

Arregaçado é forte. Como desenxabido, desmiolado e desassuntado. Gravilhão, covarde, serelepe, ingratidão e saudade.

O que dizer de andaluzia, facínora e cravinote? Vendaval, estripulia, grávida, rabanete e saramunete.

Mequetrefe, borogodó, beleléu, balacobaco, faniquito, galalau, piripaque, muquifo.

Traulitada, malamanhado, escafedeu-se e se picou. Carne de pescoço, bule-bule, linguarudo, culhudeiro, milico e porradeiro. Escopeta, mulambo, galinha d’angola, sarapatel, língua de vaca.

Avenca, estrovenga, berimbau, facão, bainha, tainha, girassol e peixeira. Estrupício, urucubaca, xexelento, mixuruca, sacripanta e maciota. Piriguete, molinete, sorvete, ensopado, embriagado.

Rebucetê, chumbrega, espelunca, galalau, mequetrefe, fiofó, tribufu, pindaíba, bulhufas e gororoba.

Pra terminar, tem aquela frase que vira russo quando dita rapidamente: “Se aqui nevasse usar-se-ia esqui?”

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

A BODADA ESTÁ SOLTA

Por entre caminhões no posto de combustível, nos restaurantes, ranchos ou cruzando a BR-407 no árido sertão dos cactos, umbuzeiros e mandacarus, de Senhor do Bonfim a Juazeiro, numa distância de 120 quilômetros, o que mais se ver é a bodada (bodes e cabras), passeando ou pastando. Na sequidão, esses animais raspam o bagaço, reviram lixos e correm pra lá e pra cá atrás do alimento. Nas chuvas aproveitam a fartura viçosa para encher suas barrigas. São dóceis e lá se vão os cabritinhos e a as cabritinhas atrás de seus pais. Sem cercas reforçadas, eles são criados soltos pelos seus donos e quase ninguém mais presta atenção em seus movimentos. São livres para andar à vontade. Vez por outra, lá estão os motoristas desviando deles. Junto com os jumentos que, infelizmente, estão em extinção, a bodada também é símbolo desse Nordeste rico e cultural, de um povo simples que não perde a fé e a esperança. Há séculos, o bode já faz parte desse cenário e sua carne é uma iguaria apreciada na forma de assado, frito ou cozido com uma boa quiabada, cebola, farofa, pimenta e tomate. Quem não gosta de um bode, do forró, do baião e do xote, só pode ser doente da cabeça ou do pé, como se canta com relação ao samba, também um ritmo que nasceu em nosso querido Nordeste de Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Câmara Cascudo, José de Alencar, Ruy Barbosa, Vandré, Zé Ramalho, Chico César, Caetano, Gilberto Gil e tantos outros poetas, compositores, músicos e escritores de sangue bom. O bode também está em nossa literatura e nas canções quando se fala dessa terra de sertanejo forte e persistente. Deixem nossa bodada solta passear!





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