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SALVE, SALVE TODOS OS POETAS!

Enxergar o invisível aos olhos dos outros; ver o que muita gente não vê; protestar; denunciar; descrever o belo e o feio; cantar o amor; pegar o horizonte e o pôr-do-sol com a mão; entrar na alma de alguém; saber como extrair espinhos de uma árvore; fazer chorar e rir; e ainda dizer que a vida é assim mesmo, com ou sem sentido.

Quem sou eu para entrar na alma do poeta, este esquecido de hoje, pouco lido e nem lembrado no seu dia 20 de outubro! Mesmo com um pouco de atraso, salve, salve todos poetas! Alô cumpadi Walter, Papalo Monteiro, Dorinho, Mano Di Souza, Edilsom Barros lá do Ceará, Dean lá da Paraíba, Carlos Moreno, Baduxa, Alisson Menezes, Evandro Correia e tantos outros!

Alguém pode até dizer que Castro Alves é o nosso poeta maior, nosso craque das Espumas Flutuantes e do Navio Negreiro, mas isso não importa tanto quando ainda temos um time imbatível, como Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Cassimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvaro de Azevêdo, Raul Seixas, Raquel de Queiroz, Cora Coralina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e uma penca de imortais.

Pena que nos tempos atuais com um governo negacionista inimigo da cultura, nossos jovens estejam cada vez mais alienados e recebendo uma instrução que criminaliza o conhecimento e o saber. Lamentável, mas para muitos esses nomes não passam de jogadores de futebol, ou outra coisa qualquer, menos poeta.

Infelizmente, não é somente a poesia que está esquecida e depreciada. O dia do escritor também passa batido. A nossa mídia anda tão sem conteúdo, e mais preocupada com seu interesse comercial que nem comemora e celebra o Dia do Jornalista, 7 de abril, quanto mais cobrir uma pauta do Dia do Poeta ou do Escritor!

“SAINDO DO ARMÁRIO”

Uma exposição da nossa companheira colega jornalista-fotógrafa, Edna Nolasco, realizada na Casa do Idoso, retratou o mundo LGBT como muita propriedade e beleza de imagens extraídas das suas lentes, por sinal a sua maior especialidade quando no manejo da máquina fotográfica, na escolha certa da luz e da sua expressividade. Um trabalho muito bonito e sensível feito em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Fotografia é como poesia, e Edna sabe muito bem fazer isso. Pelo seu tempo de atuação na área e experiência, ela já é, sem dúvida, uma fotógrafa baiana consagrada pela sua sensibilidade no olhar e registrar os fatos e acontecimentos. Em “Saindo do Armário” é mais uma de suas exposições que nos encanta por saber entrar na alma da natureza humana, no caso específico do tema em questão, mas sua lente se move também em outros assuntos do fotojornalismo. Edna aprendeu a clicar certo no momento certo, e isso, por si só, é uma arte de uma grande artesã da fotografia de Conquista e da Bahia.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (II)

Continuação dos nossos versos sobre personagens nordestinos num formato de peça teatral e estilo cordelista. Autoria de Jeremias Macário

De lá parti para a primeira nação de silvestres Piauí,

E no calor de Teresina, um rolé pelo Mercado Popular,

E na Capivara decifrar as rochas rupestres inscrições,

Dos povos que deixaram em seus traçados as lições,

Delas fui parlar com o estudioso sábio Assis Brasil,

Poeta e escritor de mão cheia do “Gavião Vaqueiro”,

Que me jurou ter saído das curvas do “Delta do Parnaíba”,

Sua terra que lhe escrevinhou “A Aventura no Mar”,

E ainda narrou como se deu a saga do “Cavalo Cobridor”;

Citou Graciliano, seu Rosa, Clarice Lispector, sim senhor!

 

Cruzei travessias de cruzes e fui lá pro meu Ceará,

Torrão Tapuia da tribo “Guarani” de José de Alencar,

Que me mostrou seu tinteiro e a sua pena de pincel,

Que de “Iracema “ fizeram a índia dos lábios de mel,

E depois segui a rota do “Falcão” pela noite Fortaleza;

Me amarrei de primeira com uma cubana havanesa,

E de ressaca da farra fui pra praça da Catedral da Sé,

De onde parti para ouvir o canto de Patativa do Assaré,

Que fez rasgar a sanfona 12 baixos de Luiz Gonzaga,

No som profundo cordelista da sua “Triste Partida”,

Como na voz da cotovia, se perde de vista na correria

O nordestino magro faminto que foi levantar a paulista.

 

Nas asas da Patativa de lá voei alto ao som de Ravel,

Pelas corredeiras e cachoeiras vi paisagens de rapel;

Renovei minha alma aflita pra riscar versos sertanejos,

Com Humberto Teixeira lá na cidade velha de Iguatu,

E saber como ele parceirou e criou o “Rei do Forró”,

Que se eternizou no mundo no voo da “Assa Branca”,

Puxando baião e xaxado teclado no dó, ré, mi, fá, lá sol,

Nas feiras caipiras, onde conquistou gregos e troianos,

Estrangeiros viajantes do túnel e até nômades ciganos.

 

Pelas pegadas do santo guerreiro de nome “Conselheiro”,

Ouvi sua pregação espiritual de criar sua comunidade,

De almas seguidoras sagradas nas profundezas da Bahia,

Onde profetizou em Sobradinho que o sertão ia virar mar,

E armou sua comuna aldeia Canudos onde fincou sua cruz,

Que o exército tirano do Brasil massacrou mais de 100 mil,

Num banho de sangue de cabeças cortadas e nas balas de fuzil,

Mas o monte de fiéis até o último homem com bravura resistiu,

A mais uma barbárie da história contraditória que nos traduz.

 

O SAL E A DESERTIFICAÇÃO DO NORDESTE

Fotos do jornalista Jeremias Macário

O sertanejo ainda esperançoso e crente em não desistir da luta, porque, antes de tudo, é um forte, como dizia Euclides da Cunha, mete a mão na terra e removendo-a entre os dedos, com a voz embargada, diz, meu filho, essa aqui já está morta pelo sal. Não serve mais para plantar. Ao seu redor ainda tem algum pedaço que com a chuva ainda produz alguma coisa acanhada de milho, feijão, abóbora e o andu.

A seca secular, ou mesmo milenar, de muitas histórias de fome, de meninos mirrados de pés no chão, dos natimortos e dos retirantes para o sul, narrada e decantada pela imprensa, trovadores, repentistas e cancioneiros ainda persiste nas promessas dos governantes políticos desde o Brasil Colonial e Imperial. Sempre se pregou que é possível conviver com ela, mas tudo se esbarra nos projetos e políticas públicas de melhoria da vida desse homem, os quais nunca se concretizaram.

Autores em seus romances, poetas e cantadores, como Raquel de Queiroz, em “O 13”, Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, Ariano Suassuna com seu “Auto da Compadecida”, João Cabral de Mello Neto, em “Vida Severina”, Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elomar, Xangai, Glauber Rocha com seu cinema de cangaço e tantos outros retrataram essa árida sisuda do inclemente rei Sol que impede as sementes de germinarem ou queima o pasto e a lavoura.

O nordestino acredita em mudar seu destino, mas só recebe esmolas e alguns carros-pipas para matar a sua sede e a dos seus animais. Continua trabalhando na terra cansada que está virando deserto e sal. Para piorar, as carvoarias dos gananciosos escravizam seu povo e deixam um rastro de destruição na caatinga.  Ao invés de água e ajuda para o plantio de sua subsistência, recebe sal e amargura. Uns ficam, mas muitos já foram embora para outras paragens.

Ao longo dos tempos, de mais de 500 anos, as secas cruentas, cada uma pior que outra, estão registradas em livros, manchetes de jornais e reportagens de TV. Além das estiagens de rachar a terra, os nordestinos ainda foram vítimas dos coronéis que tomaram e invadiram suas propriedades com seus jagunços de fuzis nas mãos. As volantes e o cangaço praticaram suas violências, roubando e estuprando suas famílias.

Na maior parte do tempo, a paisagem é cinzenta entre os engaços e bagaços de espinhos das juremas. Quando batem as águas, o colorido faz renovar as almas, mas é por pouco tempo. Logo entra outra temporada de aridez anunciando a desertificação do Nordeste. A caça que ainda enganava o estômago por uns tempos, não existe mais. Nem se ouve mais o canto da juriti, da nambu no final da tarde e nem o piar da perdiz. Só o sereno fino faz o orvalho da manhã. É um aviso de que mais cedo ou mais tarde o sertanejo, com lágrimas nos olhos, tem que bater em retirada do seu torrão.

As narrações são as mesmas quase todos os anos, como agora na Bahia onde mais de 100 municípios (mais de um milhão de pessoas) vivem em estado de emergência, mesmo os que se situam próximos do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, outro castigado pela destruição humana, que pode desaparecer ou virar sal (sua foz já é salgada). Nas estradas poeirentas ainda corta algum carro-pipa – a indústria da seca e do voto – que coloca um pouco d´água em uma ou outra cisterna vazia, mas só poucos são contemplados.

A transposição do São Francisco foi mais uma ilusão perdida no horizonte da política enganosa. A corrupção corroeu boa parte das obras em rachaduras e ferrugens. Os canais correm solitários na sequidão, e a poucos quilômetros dali, como em Remanso, só se vê lata d´água na cabeça, ou crianças e mulheres tocando jumentos com carotes e em carroças para tentar pegar o precioso líquido em algum lugar distante.

 Como uma piada cínica de mau gosto, o Governo da Bahia anuncia mais um projeto de transposição do “Velho Chico” até a Bacia do Rio Paraguaçu, outro em estado terminal, passando por São José do Jacuípe e outros municípios. É mais um daqueles programas para inglês ver. Há muitos anos já ouvi falar nessa água do Salitre (Juazeiro) até São José do Jacuípe. Agora resolveram dar mais uma riscada no mapa de papel amarrotado e sujo de mentiras.

Os homens da tecnologia e da política prometem que a obra estará concluída em dez anos. Talvez meu neto de um ano nem chegue a ver esse canal chegar até a Barragem Pedra do Cavalo. Aqui em Vitória da Conquista, há mais de 15 anos estão para construir uma barragem para abastecer em definitivo a cidade. Ainda tem gente que acredita nessa lorota eleitoral.

Por falar no Paraguaçu, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) vai reduzir em 50% os volumes outorgados em toda sua bacia, mantendo apenas as licenças para o consumo humano. A Barragem Pedra do Cavalo está com 28% da sua capacidade de armazenamento contra mais de 50% em outubro do ano passado.

O Rio Utinga, um dos afluentes do Paraguaçu (nasce em Barra da Estiva e corta 86 municípios), está mais seco outra vez e num cenário bem pior que nos outros anos. “A situação está difícil para nós. Na roça perdemos tudo e os bichos estão berrando de sede” – lamenta um morador do povoado São José, na zona rural de Lençóis. O vaqueiro é outro personagem nordestino em plena extinção. Não existe mais gado para tocar. Nem as cabras estão resistindo, e as pessoas estão brigando pela distribuição da água da Barragem Zabumbão, como em Paramirim e outros municípios vizinhos.

Enquanto isso, misturada a pedregulhos, a terra nua está cada vez mais salinizada. Ainda existem alguns oásis que florescem, mas não mais com aquela cor viçosa e fértil de outrora. É o prenúncio da desertificação do nosso Nordeste que pode se tornar num Saara brasileiro para o trânsito de camelos transportando turistas de outras terras.

 

A FOME E OS OSSOS

Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num depósito insalubre e num caminhão estacionado correram o mundo. Esse é o nosso país do slogan de Pátria Amada, ou Pátria Esfomeada?

O bispo do santuário de Nossa Senhora Aparecida a chamou de Pátria Armada. Ele me fez lembrar as falas de D. Helder Câmara quando sempre clamou por justiça social, dizendo que isso não é comunismo. Como sentir orgulho de ser brasileiro quando milhões passam fome e catam restos de comida no lixo? Tudo nos faz voltar aos tempos do romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.

Não se trata de ser de esquerda ou de direita. No século XVI a falta de trabalho penalizou toda Europa Ocidental. Houve uma invasão dos indigentes, e os reis decretavam leis proibindo a mendicância e a vagabundagem. Os mendigos eram marcados com ferro em brasa. Qual dos dois era o pior? A fome roendo no estômago, ou o ferro? Nem precisa responder.

Em nosso Brasil de hoje, conforme pesquisas do IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros passam 24 horas sem ter o que comer por alguns dias. Dependem de uma cesta básica das campanhas de doações. Nem todos conseguem mais ajudar porque as famílias estão endividas com a alta da inflação.

Ainda de acordo com as pesquisas, 24 milhões de pessoas não têm certeza de como vão se alimentar no dia a dia, e já reduziram a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse cenário macabro, não se dá mais para se falar em qualidade por causa da substituição de um produto por outro mais barato.

Pelas contas do IBGE, 74 milhões também estão mergulhados na incerteza se vão ingressar na penúria. Ronda aquele clima de ansiedade e até depressão quando se houve os noticiários na mídia quanto a escalda nos preços dos alimentos, e a possibilidade de amanhã fazer parte do contingente dos mais de 14 milhões de desempregados.

Com a vacinação acelerando e o número de mortes e casos reduzindo, talvez agora o maior medo seja a fome, principalmente dos milhões que recebem um ou dois salários mínimos e têm família para sustentar. Estamos no país do medo, vivendo num presente de pobreza sem futuro.

Pode até ser desanimador e exagero demasiado, mas quem hoje ainda come um pedaço de carne misturada com feijão e arroz pode amanhã estar catando osso e pelancas num carro fedorento, ou num túnel de lixo, servindo de imagem para registrar a degradação humana.

O desespero pode levar o povo faminto a invasões em estabelecimentos, a chamada convulsão social, se bem que o brasileiro não chega a se rebelar a esse ponto. As leis dos reis vão proibir a mendicância e ferrar com brasa os mendigos?

MARIA BETÂNIA É A NOVA IMORTAL DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA!

É uma exclamação, mas poderia também ser uma interrogação no título, pois gostaria que alguém me explicasse melhor com argumentos sólidos e consistentes do porquê ela ter sido eleita para a Academia de Letras da Bahia. Maria Betânia é escritora, ensaísta, poeta, letrista ou coisa assim? Pelo que sei ela é uma grande interprete de autores e compositores da música popular brasileira.

O seu talento na área lhe abre as portas para uma academia de letras? Sendo assim, Ivete Sangalo, Bel Marques, Lu Lelis, Margarette Menezes, Cláudia Leite e tantos também pode ser indicados. Com esse time vamos formar a academia de letra axé music. Cada um tem o seu devido valor, mas dentro da sua área, no seu terreiro.

Não quero aqui ser espírito de porco ou simplesmente do contrário, mas acho que é um desprestigio com escritores e pesquisadores que passam a vida queimando os neurônios para lançar suas obras. Não estão dizendo que ela também não queima neurônios para apresentar sua arte. No momento, não existe nenhum escritor baiano merecedor de uma cadeira na academia?

Li alguns comentários nos jornais e na mídia sobre a nova imortal, se não me engano cadeira de número 18. Uns a favor e outros contra. Não por inveja, despeito ou coisa assim, confesso que os a favor não me convenceram com a tal cultura da oralidade e porque ela interpreta grandes nomes da literatura, como Fernando Pessoa e Clarice Lespector.

Talvez seja meio burro, de Q.I. muito baixo, para entender a dimensão do fato da baiana santamarense dos Velosos ter sido escolhida para a Academia de Letras da Bahia. Seus dotes de cantora e de intérprete, que são praticamente unanimidade entre os apreciadores de uma boa música, são suficientes para lhe colocar nesse olimpo das letras?

Na minha modesta opinião, entendo ser um desrespeito para com o escritor, poeta ou acadêmico das letras, já tão esquecido devido ao baixo nível de conhecimento e leitura em nossa cultura nos tempos de hoje, principalmente nesse governo federal que elegeu a cultura como seu maior inimigo.

Assim sendo, as academias de letras devem sim prestigiar a classe e não banalizar. Tem um ditado que diz que cada macaco em seu galho, como já cantava o velho e saudoso Riachão. Betânia tem sua importância no cenário da música brasileira, com os versos de autores que saem dentro de sua alma. Reconheço seu grau de inteligência e talento e não tenho nada contra sua pessoa, mesmo porque nem a conheço pessoalmente.

Em 2017 o norte-americano Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e foi uma gritaria. Ele zombou do título e nem foi lá nas homenagens. Bob ainda se justificava por seus poemas e fortes letras de protesto. É um grande compositor reconhecido internacionalmente. Vamos devagar que o andor é de barro!

Um escritor ou músico pode também ser eleito para a Academia de ciências? Li um comentário no jornal baiano onde a pessoa indagava se ele poderia receber o Prêmio Gremmy sem conhecer uma nota musical? Existem na Bahia bons escritores, inclusive no interior, que lutam desbravadamente para lançar um livro, sem apoio nenhum de uma editora porque a empresa nem se presta a ler o trabalho de um desconhecido.

As editoras só atendem aos apadrinhados e só veem o lado comercial. Infelizmente, nesse capitalismo selvagem que só enxerga o lucro, as coisas funcionam assim. Essas indicações, ao invés de estimular aqueles que se dedicam à arte da palavra, como o bom artista pinta um quadro, só desestimulam. Dizia Nelson Rodrigues que toda unanimidade é burra.

 

 

AS DIVINDADES E OS ORIXÁS DE SOYINKA NO PASSADO E PRESENTE AFRICANO

Wole Soyinka é um poeta e escritor nigeriano que pautou sua produção literária no passado e presente (o colonial e o pós-colonial) do seu povo africano, fazendo alusões às divindades e aos deuses orixás no universo ioruba.

Quem interpreta o acadêmico no livro “Intelectuais das Áfricas” é a professora de Letras, Divanize Carbonieri. Soyinka nasceu em Abeokuta, na Nigéria, em 1934. Seus pais eram anglicanos que viviam num enclave de cultura europeia e religião cristã.

No entanto, havia uma certa mistura entre as línguas, costumes e crenças, como assinala Divanize. Era um mundo cristão que não abandonou as matrizes nativas. Na Universidade de Leeds, na Inglaterra, concluiu seus estudos em literatura inglesa. Ele se esforçou para adquirir conhecimento acadêmico a partir da cosmologia e mitologia iorubas.

Eliana Lima Reis que estudou sua infância, diz que o discurso de Soyinka parte de uma perspectiva dupla quando fala de dentro da sua cultura. mas também de fora.

O professor Aníbal Quijano, que descreve sobre colonialidade do poder, afirma que a colonização das Américas e de outras partes do mundo pelos europeus, instituiu a divisão da população em raças que foram hierarquizadas numa estrutura de poder que ainda permanece.

“As raças consideradas inferiores são atribuídas as formas de trabalho pior remuneradas”… Para Divanize, o escritor Soyinka pode ser classificado como um autor pós-colonial. Ele sofreu percalços na Nigéria. Foi preso em 1967 por dois anos porque, na Guerra de Biafra,  tentou negociar um acordo de paz. Mesmo depois de solto, manteve seu pensamento crítico contra os governos de regimes ditatoriais.

Em 1986 foi o primeiro africano a receber o Prêmio de Literatura. Continuou sendo perseguido e deixou o país nos anos 90, no governo de Sani Abacha. Divanize faz uma alusão da poética de Soyinka com o fenômeno Abiku (criança-espírito) na cultura ioruba.

Abiku é um espírito que não quer permanecer na terra. Ele vai e volta do outro mundo, em busca do espírito das crianças. As mães que sofrem abortos constantes e vê seus filhos morrerem (natimortos) ou na infância sofrem com a ação de Abiku. Para detê-lo, as pessoas fazem rituais no sentido de que Abiku permaneça na casa e nela se ambiente, não levando mais criança consigo para outra vida.

As casas são choupanas miseráveis cheias de buracos onde entram morcegos e corujas. A intenção é que ele não leva mais ninguém do mundo dos vivos. As casas têm condições de pobreza extrema, de existência com paredes de bambu que não suportam o harmattan (vento do deserto do Saara), tanto que só servem para alimentar o fogo.

O eu-lírico suplica a Abiku que fique, que outra vez não parta procurando buscar nele o afeto pela mãe e que escolha a esfera dos humanos. Porém, Soyinka, com sua poética, apresenta uma visão diferente. Ele trata o Abiku com zombaria e escárnio. Diz que nada pode aprisioná-lo na terra, numa referência à morte.

Soyinka expressa em sua obra que tudo o que as pessoas fizerem para mantê-lo vivo, na verdade, só servirá para assegurar-lhe ainda mais a morte. Ele anseia verdadeiramente pelo mundo que deixou para trás ao nascer. Em sua poética, destaca que, nem mesmo a dor da mãe é capaz de demovê-lo; ele será para ela como uma cobra sorrateira que dá o bote e morde quando menos se espera, injetando na vítima um veneno letal. Se a mãe esperava obter alegria com seu nascimento, isso é um aviso de que ele só trará tristeza.

Nos versos de Soyinka, existe a noção de que o ser humano está diante de algo que não pode controlar racionalmente. O que prevalece, na ótica de Soyinka, é o ponto de vista do mundo dos espíritos, de onde provém Abiku, e os rituais realizados pelos humanos são inúteis.

Na cosmologia ioruba, a realidade está dividida em três esferas: o mundo dos não-nascidos, o mundo dos mortos ou ancestrais e o mundo dos vivos. Em seu romance The Interpreters (1965), a trama se desenvolve em torno de um grupo de intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos, e que agora se desdobram em cidades nigerianas.

Eles desempenham a função de interpretes entre a cultura ocidental e a cultura nativa africana. É uma tradução marcada por niilismo e decepção. A desilusão se dá, principalmente, em relação à elite que chegou ao poder após a descolonização do país que se revelou tão ou mais nefasta do que os antigos colonizadores.

Os deuses orixás iorubas sempre estão presentes em suas obras, retratando Oxalá, Ogum, Xangó e outros. Nesse mundo, Soyinka opta pela personalidade de Ogum que, mesmo errando, se arisca para alcançar a autorrealização. Vamos abordar essa questão no nosso próximo comentário.

INSTITUTO DOS CIGANOS PEDE CPI NA ASSEMBLEIA PARA APURAR CHACINA

O Instituto de Cultura, Desenvolvimento Social e Territorial do Povo Cigano do Brasil encaminhou ofício de número 0105ª para os presidentes da Assembleia Legislativa da Bahia, Adolfo Emanuel Monteiro de Menezes, e da Comissão de Direitos Humanos e Segurança Pública, deputado Jacó,  solicitando abertura de uma CPI ampla (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as mortes dos ciganos em Vitória da Conquista por policiais militares há três meses, bem como os recentes sequestros e extorsões contra esse povo em Camaçari e região.

No documento, o Instituto, por meio do seu presidente Rogério Ribeiro e do vice, José Paulo, declara que os ciganos foram vítimas de sequestros e extorsões em Camaçari e região. “Precisamos de um auxílio rápido e uma resposta urgente referente a esses casos, pois os ciganos estão muito assustados com o aumento da criminalidade. Vale ressaltar que as vítimas vêm se recusando a prestar queixa na delegacia, temendo represálias dos bandidos, pois há indícios fortes de participação de policiais”.

SEQUESTROS E ROUBOS

De acordo com os dirigentes da entidade, “necessitamos urgentemente de policiamento preventivo, ostensivo e constante, para coibir e enfrentar a onda de violência. São muitos casos de sequestros, assaltos, roubos e furtos, dia após dia, com violências crescentes em plena luz do dia, que alarmam os ciganos”. Como exemplo, eles citam o sequestro na tarde de sábado, dia 3 de julho último, por volta das 14h, em Camaçari, no Parque das Mangabas.

Relatam que a vítima estava com seu cunhado, quando de repente quatro homens uniformizados de policiais abordaram os ciganos que correram da perseguição. Os policiais deram tiros para cima freando a correria. Na abordagem foi apreendido a chave do veículo da vítima e o celular. Somente depois o seu cunhado foi liberado.

Os criminosos de fardas levaram a vítima com destino a Cajazeiras de Abrantes, a cerca de 25 km do local do sequestro. A vítima ficou em posse dos sequestradores por onze horas. Durante este período, os criminosos usaram o celular da vítima para negociar o pagamento do resgate no valor de R$ 200 (duzentos mil). Em alguns trechos da negociação o sequestrador ameaçou cortar a orelha do cigano.

O irmão da vítima tentou acalmar o elemento, oferecendo 20 mil reais, argumentando que não dispunha do valor requerido. O criminoso continuou com suas ameaças de que iria fazer um vídeo cortando a orelha do cigano, exigindo o não envolvimento da polícia no caso. Depois de muita conversa, os sequestradores aceitaram o pagamento de 40 mil reais.

Depois de sofrer espancamentos, o cigano foi liberado, isto é, trancado e   algemado dentro do veículo, em Cajazeiras de Abrantes, em um mato. Sobre o ocorrido, os dirigentes do Instituto ressaltaram que o delegado de repressão a extorsão mediante sequestros do Estado da Bahia, Adailton de Souza Adam, vem realizando um excelente trabalho e pedem apoio das vítimas para elucidar os sequestros contra os ciganos de Camaçari/BA.

“A preocupação com o aumento de sequestros e violência contra os Ciganos da Bahia precisam de trabalho repressivo por parte da Segurança Pública, no sentido de facilitar a identificação dessas pessoas, que promovem esses delitos. A CPI vem no momento oportuno. Não queremos generalizar. Sabemos que a Polícia Militar e a Polícia Civil têm membros que prezam pela transparência, imparcialidade, ética, zelo e comprometimento com a segurança pública”.

EM CONQUISTA

Na ocasião, Rogério e Paulo apresentaram algumas ocorrências evolvendo policiais da Bahia, como a chacina em Vitória da Conquista há três meses (13 de julho) quando oito pessoas foram mortas depois de dois policiais terem sido assassinados por uma família de ciganos, no distrito de José Gonçalves.

No Ofício, o Instituto pede que as mortes dos Ciganos em Vitória da Conquista e região também sejam apuradas, destacando que entre as oito vítimas, um adolescente e um empresário não eram da etnia.

No revide dos policiais, muitos ciganos foram torturados, perseguidos e ameaçados de morte O Instituto, na ocasião, encaminhou um relatório minucioso, com base em investigações, para diversos órgãos de segurança e ligados diretamente na causa dos direitos humanos na Bahia e no país.

Rogério Ribeira aponta atitudes, por ele condenáveis, por parte da corporação policial da região, como o fato de  militares receberem elogios  pelas mortes de três ciganos em Anagé; investigação desarticulada entre a polícia civil e a polícia militar; fragilidade no acolhimento das testemunhas pelo programa PROVITA; policiais justiceiros querem matar, não querem prender; Governo da Bahia permaneceu em silêncio;  falta de eficiência nas investigações; corporativismo local; e risco de novas execuções.

Ele argumenta que o Brasil tem um compromisso internacional ao ter assinado, em 2007, o protocolo facultativo da Convenção da ONU contra a tortura. No entender de Rogério, a CPI é um mecanismo para a busca de informações e para contribuir com a discussão de uma nova política de segurança pública, principalmente nas abordagens policiais.

“O parlamento não pode se omitir frente a fatos que estão comprovados. O Instituto Cigano do Brasil-ICB não compactua com nenhum tipo de violência e repudiamos todo ato dessa natureza, qualquer ordem ou origem. Sempre vamos defender o amplo diálogo e não iremos aceitar que os ciganos inocentes sejam vítimas de ação truculência absurda e desnecessária. Os “criminosos” devem responder na justiça pelos seus atos” – assinalou.

 

A MISÉRIA E A BAIA DE TODOS OS SANTOS

De um lado a miséria brasileira que bate nos portões do Palácio Rio Branco, em Salvador, sede de muitos governos desde o primeiro Thomé de Souza, que nunca resolveram as gritantes desigualdades sociais, apesar das promessas políticas de esperança. Faltam prioridades nas políticas públicas, principalmente nas áreas da educação e da saúde. Do outro lado, a bela paisagem da Baía de Todos os Santos que deixa soteropolitanos e turistas deslumbrados e encantados com tanta beleza. Ambas as imagens são históricas em nossas vidas, mas, com relação à primeira, milhares passam por ela todos os dias e nem olham. São indiferentes. Quanto a segunda, todos param para olhar e tirar fotos de recordação. São contrastes captados pelas lentes do jornalista e escritor Jeremias Macário em sua última visita à capital, no mês passado. A miséria é cada vez mais agravante, o que condena o Brasil a ser um dos piores na colocação do desenvolvimento humano, A Baia de Todos os Santos, descoberta há mais de 500 anos, foi degradada pela ação do homem e sofre os efeitos da poluição e do aquecimento global.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (I)

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, no formato de peça teatral e estilo cordelista, ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS será publicado nesta coluna Na Rota da Poesia todas as quintas-feiras. Fala do Nordeste e suas riquezas culturais, destacando personagens mais importantes da nossa história, como escritores, poetas, trovadores e repentistas. Aborda diversas linguagens artísticas da nossa região, inclusive a cultura popular. É uma homenagem ao Nordeste.

Peguei estrada por esse mundão nordestino,

De norte a sul, leste oeste de cenário faroeste;

Apertei a mão do matuto ao cara intelectual;

Falei com doutor, escritor, poeta e até Marechal;

Comi poeira e também asfalto ardente em fogo;

Viajei de carona, carro-de-boi e pau-de-arara;

Filmei aves sabiás, assanhaços, papagaios e arara,

Com minha mochila andarilha em meu rumo e tino,

Me chamaram de profeta e vidente dos tempos,

Porque já avisava de um tal vírus mortal corona,

Com cara feia de coroa de olho apertado da china,

O mais tinhoso cabra da peste dessa terra latina.

Que nesse chão rachado chamaram de Severina.

 

Em minhas andanças messiânicas, vulcânicas,

Cortei toda Serra da Capivara e varei o Araripe,

Dessa turca locas místicas Capadócia Nordestina,

De praias paradisíacas rodei pelas dunas de Jipee.

 

Minha primeira paragem foi lá no Maranhão,

Onde me encantei com os azulejos portugueses,

E em São Luis antigo me embriaguei várias vezes,

Nas noites etílicas de expressões bucólicas e líricas;

Entrei no maracatu, no reague e no bumba meu boi,

E até no blues dos negros melaço da cana caiena,

Rolei nas ondas de areias finas e de tantos sóis;

Ardi minha pele com uma bela sensual morena,

Nadei em lagoas lendárias de ondulados lençóis,

E depois fui conversar com o Ferreira Gullar,

Que me ensinou como laçar as palavras no ar.

E a rimar verbo, substantivo com o árido sertão.

 

Ah!, seu moço, não podia deixar de abraçar o poeta

Catulo da Paixão Cearense que é mesmo maranhense,

Gente simples com quem ouvi muitos casos caipiras,

Que eternizou o “Luar do Sertão” onde fez sua festa,

Virou hino dos apaixonados amantes do Brasil ao Japão,

Assim Catulo me ensinou a luarar e apreciar as safiras.

 





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