julho 2024
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  


O QUE FIZERAM COM A NOSSA CULTURA?

Para começar nosso papo, diria que amarraram a nossa debilitada cultura num tronco; deram umas chibatadas de sangrar sua carne; e esqueceram ao léu do tempo, sem dar água e alimento. Outros teriam mais a comentar e a contestar. Quem sabe, até não concordar! No caso específico, estou me referindo a Vitória da Conquista, mas pode ser extensivo a Bahia e ao Brasil.

Estou recebendo aqui nas redes sociais, através do “Grupo Cultural do Sarau A Estrada”, a notícia de que será realizada nesta sexta-feira (dia 26/04), no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, uma plenária itinerante do Conselho Estadual de Cultura (CEC), com objetivo de levar as discussões sobre políticas culturais para os territórios e dialogar com os artistas, gestores e fazedores culturais.

Não sabia que em Conquista existe uma política cultural, a não ser o calendário do São João (neste ano deve bombar com as eleições) e do Natal (iluminação da Praça Tancredo Neves). Anunciam que são as primeiras sessões itinerárias deste ano e anunciam que vão dialogar com os artistas. Vamos lá prosear, e depois?

No início do ano passado, se não me engano, estiveram aqui gestores da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia – SecultBa, com o intuito de conversar para promover um salão de artes plásticas. Estive lá presente como presidente do Conselho Municipal de Cultura e, como resultado lamentável, nada aconteceu.

Cadê as conferências de cultura? Nem tivemos conhecimento dos relatórios municipal e estadual. Soube que lá em Salvador só teve shows musicais, blábláblá, papo para boi dormir, burocracia e nada mais. Estamos de saco cheio de tudo isso. Queremos resultados, coisas concretas e não ficar discutindo o sexo dos anjos.

Ah, diz o chamado do Conselho que o principal assunto da pauta da plenária itinerante (haja gastos!) será a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) que investirá mais de 220 milhões de reais na Bahia. É muita grana! Mais um monte de burocracias, exigências e umas atrapalhadas de pareceristas como ocorreu na Lei Paulo Gustavo onde os bons projetos ficaram de fora. Apresentei a proposta de levantar a história da fotografia em Vitória da Conquista e, como tantos outros, fiquei de fora.

Sou até suspeito de reclamar, mas minhas notas foram boas. A explicação que me deram é que fui superado pelas cotas. Ouvi relatos e a revolta de outros, com bons projetos que também foram excluídos. Por que todos estes pareceristas têm que ser de fora? O que é melhor para a nossa cidade?

Bem, voltando à plenária itinerante do dia 26, a informação é que a comissão provisória vai discutir e formular propostas para a execução da PNAB – Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura no Estado. Na ocasião, serão apresentadas as bases da Lei número 14.399, de oito de julho de 2022, e tome burocracia irritante. Depois haverá escuta da comunidade cultural do território.

Informa ainda que, na oportunidade, os artistas terão a chance de conversar diretamente com os gestores da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia – SecultBa. Serão entregues moções de aplausos a artistas fazedores de cultura de destaque no território sudoeste, melhor sudeste. Moções, sem ações?

Gostaria de saber se eles, os membros do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e os prepostos da Secult sabem que a nossa cultura em Conquista foi sepultada pelo poder executivo? Sabem que os equipamentos culturais Teatro Carlos Jheová, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha estão fechados há anos e que o tempo está se encarregando de destruí-los? Sabem que não temos um Plano Municipal de Cultura?

A Secretaria do Estado vai trazer soluções concretas e recursos financeiros para abrir esses espaços que tanto fazem falta aos artistas em geral nas suas diversas linguagens (música, teatro, literatura, dança, artes plásticas, audiovisual e outras interpretações artísticas)? Estão sabendo que os artistas daqui estão sem locais para fazer seus ensaios e apresentações?

Sabem que a Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer – Sectel não tem verbas e orçamento para apoiar ações culturais no município? Sabem que o governo do estado não coloca dinheiro no Fundo Municipal de Cultura?  Sabem que cada segmento, como escritores e outros, fazem seus eventos na “tora”, por conta próprio, sem nenhuma ajuda ou subvenção do poder público? Sabem que nem veio a público o relatório da Conferência Municipal de Cultura realizada no final do ano passado?

Não queremos ôba-ôba e sim que tirem a cultura amarrada no tronco e dê a ela água e alimentação para que sobreviva. Queremos um papo reto e não desse emaranhado burocrático. Os artistas não suportam mais essas plenárias que, no final, cada um vai para seu canto e tudo continua como dantes na Casa de Abrantes.

 

UM PAÍS DOENTE DO CORPO E DA MENTE

Um país sem saneamento básico (mais de 40% da nossa população não dispõem desse serviço) é um país doente do corpo e, sem educação, cultura e leitura, é também doente da mente. Hoje, 23 de abril, é o Dia Internacional do Livro, pouco lido nos tempos atuais porque o celular fofoqueiro e superficial se tornou bem mais valioso.

Portanto, infelizmente, somos um país doente do corpo e da mente, fácil de ser manipulado pela politicagem rasa em épocas de eleições. Não se trata de ser negativista quando se tem a realidade escancarada. O Brasil é um país que está no pódio das desigualdades sociais no ranque mundial, e as regiões Norte e Nordeste são as mais pobres e doentes, conforme estatísticas do IBGE.

Dengue, zica, chikungunya, febre amarela, leptospirose, varíola, sarampo, catapora, poliomielite, cólera, febre ourochoupe, malária e tantas outras fazem parte do nosso rol de doenças em pleno século XXI, muitas das quais nem existem mais nos países desenvolvidos. Há vacinas para combater essas “pestes”.

“Melhor prevenir que remediar” – diz o ditado popular, ou sabedoria popular, mas nosso país prefere remediar gastando fortunas de milhões e bilhões com vacinas e remédios caros importados. Os planos de saneamento básico (fala-se em bilhões de investimentos no setor) são sempre adiados e postergados.

Os gastos públicos são astronômicos nos três poderes (as três castas dominadoras), gerando déficits fiscais primários (gasta-se mais do que se arrecada) no que termina faltando dinheiro para educação (greves nas universidades), para a saúde e o saneamento básico, que é uma prevenção às doenças. Germes, vírus, bactérias estão soltos matando os mais pobres e superlotando as unidades precárias do SUS.

É uma vergonha porque o Brasil é um país rico e tem muitos recursos (não é falta de dinheiro) que são desviados, mal-usados, boa parte destinada às mordomias e a projetos mirabolantes superfaturados que nunca são concluídos. Por isso é que somos doentes do corpo e da mente.

Este nosso país precisa é de um bom administrador Phd que exerça o cargo de diretor executivo, como se fosse uma empresa privada que controla seus gastos, onde o presidente seja apenas uma figura política, mas o cancro do Congresso Nacional, o espírito de porco, impede todo processo de desenvolvimento e nos afunda cada vez mais na pobreza e na ignorância.

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO

Com a colaboração do companheiro jornalista Carlos Gonzalez

Como se não bastasse a doença física do corpo, também somos “lelés da cuca”, ou seja, doentes da mente. Não temos nada a comemorar neste Dia Internacional do Livro (23/04), só lamentar porque somente poucos ainda cultivam o hábito da leitura. A maioria prefere o celular na mão curtindo as fofocas, as mentiras e os besteiróis. A onda é ser seguidor de qualquer idiota.

Segundo informações do amigo Fernando Michelena, a data surgiu de uma proposta da União Internacional de Editores, aprovada pela Unesco, em 1995. O dia coincide com o falecimento, em 1616, de três grandes escritores, Miguel de Cervantes Saavedra, William Shakespeare e Garcilaso de la Veja, o Inca.

A grande maioria das escolas públicas brasileiras, cerca de 70%, não tem bibliotecas. As grandes livrarias (Saraiva, Cultura, Civilização Brasileira) fecharam suas portas. Para não falar de Europa, na América Latina, o Brasil é um dos países com menos livrarias, sendo de longe superado pela Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, México e Peru. Todos têm um Prêmio Nobel de Literatura e nós nunca tivemos um nome laureado.

A maioria em massa prefere ter o samba no pé, o axé, o pagode, o arrocha e outros ritmos de músicas lixos no rebolado do corpo do que ter a leitura, o conhecimento e o saber na mente. Não sei qual o pior, ser doente do corpo ou doente da mente. Cada um que tire suas conclusões.

De acordo com pesquisa feita pelo meu companheiro jornalista Carlos Gonzalez, “enquanto livrarias ícones, como Saraiva e Cultura, fecharam as portas, castigadas pela queda de receita e altos custos das lojas físicas, outras redes juntaram os cacos dessa crise e vêm ocupando o espaço. De olho na experiência dos antigos concorrentes, buscam trilhar caminhos novos e evitar os erros de quem não sobreviveu às mudanças desse mercado”.

Publicado em 7 de outubro de 2023, a Justiça de São Paulo decretou a falência da rede de livrarias Saraiva. O pedido foi feito pela própria empresa, que já teve a maior rede de livrarias do país, em meio ao processo de recuperação judicial, por causa de uma dívida de R$ 675 milhões.

Gonzalez observa que a chegada da operação de venda de livros físicos da Amazon no Brasil provocou um choque no mercado. Especialistas avaliam que a tentativa da Saraiva e Cultura de acompanhar a disputa de descontos praticada pela gigante americana do e-commerce foi uma das principais razões que as levaram a fechar as portas.

   “Nos últimos dez anos, o número de livrarias de rua no Brasil caiu de 3.073 para 2.972, segundo dados da Associação Nacional das Livrarias. É um número não apenas absurdamente baixo para um país com 5.568 municípios, mas altamente concentrado: 1.167 lojas somente em São Paulo e 353 em Minas, o segundo Estado no ranking (para se ter uma ideia, apenas a cidade de Buenos Aires, na Argentina, tem 619 livrarias)”. 

Recente edição do jornal inglês The Guardian publicou matéria sobre a paixão de Buenos Aires pelos livros. A reportagem, ilustrada com foto da livraria El Ateneo Grand Splendid, revela que a capital da Argentina tem mais livrarias por habitantes do que qualquer outra cidade do planeta. São 734 estabelecimentos para uma população de 2.8 milhões. Uma média de 25 livrarias para cada 100 mil pessoas. Só para ter uma ideia, em Londres esse número despenca para 10 lojas para cada 100 mil habitantes.

Durante a Convenção Nacional de Livrarias, realizada pela ANL (Associação Nacional de Livrarias)  em agosto passado, a entidade lançou a 5ª edição do Anuário Nacional de Livrarias com levantamento de dados de 2023. A pesquisa detectou que o Brasil tem 2.972 livrarias espalhadas pelos cinco cantos do país.

Nos últimos anos, o varejo livreiro, especialmente as livrarias, passaram por muitos desafios: crise no mercado do livro, queda das principais varejistas do país e, mais recentemente, a pandemia do coronavírus que fechou as portas das lojas por um longo período. O Anuário, segundo a ANL, tem por objetivo mapear a localização das livrarias e identificá-las, bem como contribuir para ações empresariais futuras de investimento no setor livreiro.

De acordo com os dados do anuário, o Sudeste lidera com 1.814 espaços, seguido pelo Sul (561), Nordeste (334), Centro-Oeste (165) e Norte (98). O estudo também especifica as livrarias. Em primeiro lugar estão as lojas de Interesse Geral / Literatura, com 1.047 pontos; em segundo Infantil / Juvenil / Quadrinhos, com 914 e em terceiro, as Evangélicas com 321. Católicas (290), Técnicas / Científicas (158), Sebos / Novos / Usados (102), Didáticas (52), Idiomas (46) e Espíritas (36). Outras religiões (6) também aparecem na contagem.

“Podemos considerar que os dados apresentados nos trouxeram informações positivas de modo geral”, considera a organização do Anuário. Em 2022, cerca de 100 novas livrarias abriram no Brasil e em 2023, o resultado é mais positivo do que negativo. “Não ouve declínio do varejo do livro, mas sim uma reinvenção, consolidação e enfrentamento positivo do comércio livreiro”.

No intervalo entre o último anuário – publicado em 2013 – e o atual, a queda no número de livrarias foi de 1,8%, um declínio considerado mínimo por Marcus Teles, presidente da ANL. O presidente da entidade também faz algumas ressalvas de que há livrarias faltantes, isto porque o Anuário computou dados entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro semestre de 2023.

Desde deste então, houve uma movimentação no setor com a Saraiva fechando diversas lojas e a Travessa indo na direção contrária – só para citar dois exemplos. Segundo Marcus, há uma diferença de pouco mais de 2% entre lojas que abriram e fecharam após a publicação do estudo.

Outras questões lembradas por Teles são as livrarias de saldo e de livros usados. “Temos vários pontos que devem ser analisados para considerar um espaço como livraria ou não: tem que estar aberta o ano inteiro, ter um número relevante de exemplares sendo vendidos, só para citar alguns exemplos.

Anuário contou com contribuição da Catavento Distribuidora, Disal Distribuidora, Distribuidora Loyola, Distribuidora de Livros Curitiba, Inovação, Rede Livrarias Leitura e Distribuidora e AEL-RJ.

 

A SABEDORIA POPULAR

A cultura oral, originária dos nossos ancestrais, é fascinante, pena que ela é pouco estudada e registrada nos compêndios acadêmicos. Com os tempos modernos, principalmente com os avanços das novas tecnologias da internet, ela vai sendo deixada para trás. Nossos jovens não mais guardam as tradições dos mais velhos, A música ainda resgata muitas coisas boas.

Uma dessa preciosidades da nossa oralidade, na grande maioria anônimas, são os ditos populares ou a também chamada de sabedoria popular. Junto a isso existem ainda os pensamentos de poetas, filósofos, intelectuais e até de políticos (os bons, sérios e éticos que são raridades) que nos fazem refletir e nos dão lição de vida. Alguns são contestáveis e até caíram no desuso.

Os caminhoneiros costumam colocar algumas frases nas traseiras de seus caminhões, algumas não mais politicamente corretas, especialmente quando se referem ao sexo feminino. Sempre apreciei esses ditos populares e vou aproveitar aqui para citar alguns, tais como, quem tem telhado de vidro, não joga pedra no do vizinho, roupa suja se lava em saca, pé que não anda não dá topada, o tolo que pouco fala passa por sábio, é melhor ficar calado do que dizer besteiras, antes prevenir que remediar, quem avisa amigo é, papagaio come o milho, periquito leva a fama, antes um cachorro amigo do que um amigo cachorro (essa é boa!), amor é uma flor que nasce no coração do trouxa e peru de fora come calado.

Tem tantas outras por aí que são incontáveis. Umas são sábias e outras nem tanto. Muitas não podem mais serem ditas porque os tempos mudaram e podem ser vistas como ofensas racistas, xenófobas, machistas e que ferem o brio das pessoas.

No entanto, a sabedoria popular que faz parte da nossa cultura, está também nas superstições, simpatias e outras crenças. A cauã quando canta numa baixada ou cacimba no final de uma tarde é mau agouro e tem mortes no meio, como aconteceu na Guerra do Tamanduá, no distrito de Campo Formoso, na época pertencente a Vitória da Conquista e hoje Belo Campo.

Alguns casos e causos dos tempos antigos se tornaram lendas na boca do povo, como de fantasmas, de homem que virava lobisomem em noite de lua cheia, a mula sem cabeça e o cavaleiro solitário.

Este causo eu ouvi contar quando menino na roça do meu pai. Gente que morava perto da estrada dizia que ele, em certas noites, saia de uma cancela de uma mata cavalgando em correria todo de preto. A cancela batia forte, mas dela não se via ninguém sair. Conta que uma vez um casal que morava à beira da estrada ouviu o tropel do animal e caiu dentro da capoeira e só voltou quando o dia amanheceu.

Tem a estória da Nega do Leite que passava na frente das casas nas roças lá pela madrugada e não parava de conversar. Daí o ditado popular de se dizer que tal pessoa conversa igual a Nega do Leite. Uma noite fiquei na varanda de casa esperando ela passar, mas cai no sono e não vi nada. Quando se falava de fantasmas, de almas penadas que saiam por aí fazendo assombrações, meu pai levava na gozação e afirmava que tinha mais medo dos vivos que dos mortos.

 

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” VIII

No livro “a Máscara da África”, o autor V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura, indaga ao seu amigo Rossatanga sobre o processo de iniciação. Ele responde que tinha ouvido muito acerca da iniciação quando jovem. “Todos no Gabão falam disso, ou ao menos parece. Ela requer um mestre, uma cerimônia com danças e tambores que dura a noite toda, e comer a raiz amarga de uma planta alucinógena, a iboga”.

Naipaul quis saber se nesse ritual de honra ao ancestral também está contida a ideia de virtude. Segundo Rossatanga, “não. Os ancestrais estão lá somente para oferecer resposta para nossos problemas e nos dar o que queremos. Você não tem voz na aldeia nem nos problemas dela se não tiver sido iniciado”.

Quanto ao fruto da banana, ele afirma que é um símbolo sexual da virilidade do menino, que se alimenta dela e o resto das frutas é esfregado em seu corpo. Com respeito às mulheres, ressaltou que elas têm o poder real. “Uma mulher pode não exercer o poder, mas o transmite ao seu filho”.

“Somos uma sociedade matrilinear, e as mulheres dão a vida. Esse país não foi feito para homens. O corpo das mulheres é mais forte e, por isso, são feiticeiras”. Informou ainda que “existem diversos sacrifícios rituais em que os olhos são removidos e a língua arrancada de vítimas vivas. Todo dia há um sacrifício ritual”.

Naipaul também conversou com o professor Gassiti, que também era farmacêutico por conta própria, e quis saber dele sobre a planta milagrosa do Gabão, o iboga. Respondeu que desde tempos imemoriais, a iboga tem sido usada em rituais de iniciação, e esses rituais são exclusivos do Gabão. “Podem ser chamados de patrimônio gabonês. A primeira tribo a conhecer a iboga foram os pigmeus”.

Foram os pigmeus que passaram todo esse conhecimento para outras tribos. “Eram os verdadeiros mestres e agora um americano tem uma patente e ganha milhões com ela”. De acordo com Naipaul, os pigmeus, o pequeno povo, foram os primeiros habitantes da floresta e se tornaram mestres para outras tribos. Conheciam outras incontáveis plantas, suas propriedades curativas ou venenosas. Foram os primeiros a desvendar a iboga alucinógena. Sobre este pequeno povo, vamos falar na próxima postagem.

UNIÃO APOSTA NA FOLIA

Carlos Albán González – jornalista

O diretório estadual do União Brasil acredita que manter o eleitor sacudindo os braços no meio de uma multidão, diante de um palco, ouvindo música de má qualidade, irá certamente favorecer seus candidatos a prefeitos e vereadores nas eleições municipais deste ano. Não importa se as necessidades básicas da comunidade, como saúde e educação – menciono apenas duas – sejam colocadas de lado.

Principal aliado do PL de Jair Bolsonaro, o União Brasil emplacou três ministros no governo Lula (Turismo – Celso Sabino; Comunicações – Juscelino Filho; e Integração e Desenvolvimento Regional – Waldez Góes). Enquanto o morador do Alvorada dorme, os bolsonaristas unidos trabalham dentro e fora do Congresso para minar o Executivo.

Afilhado de ACM Neto, Bruno Reis está praticamente eleito para mais quatro anos à frente da Prefeitura de Salvador. Com 40 pontos de vantagem sobre Geraldo Júnior (MDB), candidato lançado pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), somente uma “zebra” desmentirá as pesquisas.

“Salvador é a capital da folia”, frase dita objetivamente como condenatória pelos brasileiros do Sul e Sudeste do País, que, no entanto, sonham em vir conhecer o modo de ser do baiano carnavalesco. Bruno, com sagacidade, soube muito bem se aproveitar dessa “falta do que fazer” de uma grande parcela da população para criar um calendário de festivais musicais, para deleite dos empresários e artistas da folia.

Aluna bastante interessada em aprender os truques da política nesses três anos em que governou Vitória da Conquista, Sheila Lemos trocou os métodos inflexíveis do bolsonarista e evangélico Herzem Gusmão, pela argúcia de ACM Neto, cujo objetivo este ano é eleger os prefeitos dos municípios com mais de 200 mil habitantes, mas já idealizando governar o Estado a partir de 1º de janeiro de 2027.

Sheila é uma das peças no tabuleiro de xadrez do Neto. A ordem veio de Salvador: dê circo a esse povo, que nos finais de semana não tem lazer, nem cultura e nem esportes; não tem um sítio com piscina, e nem dinheiro para viajar até as praias de Ilhéus e Porto Seguro.

Sexta-feira (19) e sábado (20), na área externa do Shopping Boulevard, 18 mil foliões vão participar da Miconquista. Os ingressos foram trocados por dois quilos de alimentos. As atrações anunciadas: Ivete Sangalo, Bell Marques, Jau, Timbalada e outras; Safadão e Kannalha devem aparecer. O aedes aegypti mandou fazer a fantasia. A Prefeitura só não explicou quem vai pagar o cachê, as passagens aéreas, hospedagem e alimentação da comitiva carnavalesca, que deve reunir uns 80 integrantes.

Desperta, oposição! Exiga transparência. Imprensa, investigue!  No momento, Conquista está na liderança dos municípios da Bahia com maior número de óbitos e de pessoas contaminadas pelo mosquito da dengue. As unidades de Saúde estão superlotadas, principalmente de moradores da zona rural e distritos. Muitos deles, depois de uma longa espera, são mandados para casa.

O Sudoeste Digital denunciou que a Secretaria Municipal de Saúde está maquiando os números da doença, “informando uma suposta redução dos casos, quando a situação é inversa”. O descaso com a saúde da população mais pobre ficou evidente na recente visita da ministra da Saúde Nísia Trindade a Conquista. A prefeita não foi ao seu encontro, mesmo sabendo que a ministra veio trazer recursos e ambulâncias para o município. A descortesia se prende ao fato de a alcaide ter ojeriza ao presidente Lula e aos seus assessores.

Os festejos juninos estão chegando. Prefeitos baianos, em clima de eleições, começaram a utilizar recursos da saúde e educação em contratações milionárias com cantores de axé, funk, sertanejo. Resumindo: lixo musical. O Tribunal de Contas dos Municípios deve ficar atento para os gastos.

 

 

UM CONHAQUE PRA FALAR DE AMOR

(Chico Ribeiro Neto)

“Já beijou na boca? Tem gosto de quê?”, perguntava o Caderno de Confidências aos adolescentes da década de 60.

É igual a ver o céu. A primeira namorada é uma sucessão de risos, emoções, sustos e sobressaltos. O coração bate forte, as pernas tremem, será que é verdade? Peguei na mão dela, subiu um arrepio no corpo todo.

Na hora do primeiro beijo a gente treme todo. Tinha um negócio de fechar o olho que eu nunca entendi bem.

Tinha uma zorra de uma técnica de onde botar a língua. Uma vez eu engasguei e comecei a tossir. Uma amiga me contou que treinava o movimento da língua num copo com gelo.

Aí estava consolidado. Beijou na boca já é namorado. E a rua inteira começava a falar: “Sabe da última?”.

Tinha um negócio de falar pra namorar: “Sabe, a gente já é amigo, mas eu sinto falta de algo mais próximo, entende?”. Aí você ouve um “talvez” que tem todo o sabor de um “Não”. Ou então ouve o terrível “vou pensar”, que de certo modo também tem cara de “não”, mas é melhor do que o “talvez”.

Tenho um primo que paquerava uma moça que ficava na janela. Ela correspondia aos olhares, mas cadê coragem pra falar? Um dia ele tomou um conhaque, foi lá e pediu para ela descer até a porta. Quando ela chegou na porta, começou a chover. Ele deu graças a Deus e foi embora. No dia seguinte dois conhaques resolveram o problema.

Lembro Carlos Drummond de Andrade:

“Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.” (Última estrofe de Poema de Sete Faces).

Nada mais humilhante do que sentir uma dor de barriga, daquelas brabas, na casa da namorada. É coisa pra terminar o namoro tal a vergonha que a gente passa.

No meu tempo de adolescente, década de 60, uma boa forma de começar um namoro era chamar a pretendida para ir ao cinema. Apagou a luz, acendem-se os beijos. A mão escorregava lentamente pelos ombros dela e, quando chegava perto do peito, era imediatamente afastada. Nem sempre…

Tava na hora de trocar as fotos com ela. Foto minha nenhuma prestava. Eu estava de calça curta em todas. Lembro que minha primeira calça comprida demorou pra lavar, pois eu não tirava pra nada. Só lavou depois de muita insistência de minha mãe Cleonice.

“O primeiro amor não fala… quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito… diz tudo” (Joaquim Manuel de Macedo).

Primeiro amor, primeiro beijo. Sabor de chiclete, calor do cinema, a gente pegando fogo, e a vida seria outra a partir daquele dia.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

OS TERRENOS E A DENGUE

Não acredito muito nessa de que a maior parte do mosquito da dengue esteja alojada nas casas de Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com maior índice da doença e de mortes. Não tenho dados científicos que comprovem, mas entendo que grande parte das pessoas é picada pelo mosquito nas ruas onde o bicho mais encontra moradia. A maior parte está nos terrenos abandonados, como este localizado na rua Veríssimo Ferraz de Melo (Rua “G”), no Bairro Felícia, com um matagal de capim de quase dois metros de altura. Só nesta rua, num espaço de 50 metros, existe mais outro na esquina da Avenida Felícia. Além dos terrenos abandonados que se tornaram lixeiras em toda cidade, existem ainda os esgotos abertos, o empoçamento de águas nas ruas de chão e locais de oficinas velhas que viraram sucatas de peças de veículos. É a partir desse quadro de sujeiras que afirmo que o maior culpado por essa epidemia em Conquista é o poder público que não fiscaliza e não faz cumprir a lei que exige que os proprietários de terrenos cuidem de seus imóveis, mantendo-os limpos, cercados ou murados. Essa imagem clicada pela nossa máquina é apenas um exemplo entre centenas e até milhares de terrenos nesse estado lamentável em nossa cidade, onde são criadouros de mosquitos de todas as espécies, insetos, ratos e cobras. Sem uma operação de limpeza geral desses terrenos, desentupimento e consertos dos esgotos em conjunto com a Embasa e pavimento das ruas esburacadas que viram lamaçais com as chuvas, não adianta carros fumacês. O poder público (município, estado e União) estão gastando milhões com a saúde, recursos que deveriam ser evitados se antes tivesse tomado essas providências. É uma vergonha Conquista ocupar o topo dessa epidemia na Bahia.

 

MESTRES DA FLORESTA

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Em nossa escolástica,

Lá no Gabão,

No ventre da mãe África,

Moram os espíritos ancestrais,

Dos curandeiros pigmeus,

Mestres da floresta,

Alma da flora e dos animais.

 

Eles são os mestres,

Dentro deles está a floresta,

Princípio da energia e magia,

Primitiva, alta e densa,

Com seus mitos e crença,

De diferentes sons e tons,

Sombras do dia,

Da noite, o breu,

Luz para o pigmeu.

 

Eles são os mestres,

Pigmeus da floresta,

Pais da raiz iboga,

No ritual da iniciação,

Da lenda odzaboga,

Na onírica viagem

Da filosófica alucinação.

 

Eles são os mestres,

Pigmeus da floresta,

Dos tambores musicais,

Artistas da pintura e da escultura,

Reis dos magos alados,

Das tribos fangs desprezados.

 

Eles são os mestres,

Pigmeus da floresta,

O pequeno povo coragem,

Que seus mortos, não enterra,

Para não poluir a terra,

Do banto fez a passagem,

Na fonte da cura espiritual,

Que arranca todo mal.

COMO ERAM AS PAQUERAS

Pelos idos dos anos 60 e 70, as paqueras rolavam mais descontraídas, se bem que tinham também seus limites para avançar. Não havia aquela preocupação de hoje em ser classificado no rol da importunação e do assédio sexual. Existia aquele negócio do psiu, oi beleza, bom dia, boa tarde e boa noite, coisa linda e até saia o “gostosa!”, com cantadas hoje considerados cafonas.

Me lembro bem dos anos 70, em Salvador, estudante sem dinheiro, lascado mesmo, que morava na Residência Universitária da Ufba. Era um tanto tímido, recém-saído do seminário e vindo do interior, sem traquejo e jeito para lidar com as “minas”. Havia até mulher que me dava bandeira e perdia com receio de chegar junto.

Nas tardes de domingo ia com um colega ao Campo Grande para paquerar as empregadas domésticas que, de forma politicamente incorreta e depreciativa, as chamavam de “graxeiras”. Coisa horrorosa! Outras vezes era na Barra ou Rio Vermelho. Para nós eram pontos estratégicos em finais de semana.

A gente fazia até umas “pegadinhas” com uns caras chatos, simulando uma ligação de que tinha uma garota lhe esperando em tal lugar, só que era uma armação. O sujeito virava o “bicho” e nos xingava. Sem grana no bolso, quase todo mundo vivia na “sequidão sexual”, como se falava no popular.

Até parece que elas nos esperavam, sozinhas ou acompanhadas nos bancos das praças. As intenções pareciam as mesmas: Dar uns agarros, umas namoradas e contar mentiras sobre o nome e onde morava. Elas eram bem arrumadinhas e simples, com aquelas colônias antigas e vestidos de bolinhas ou chitas. A grande maioria tinha origens interioranas.

– Você fica com aquela e eu fico com a outra. Tudo bem, sem brigas na divisão. Qualquer coisa servia. Bom dia ou boa tarde, o dia está lindo, qual seu nome e você é donde? Eram os primeiros papos para engatar uma conversa e, com muita demora, pegar na mão e ir escorregando para outras partes do corpo. – Não venha com sua mão boba – repelia a moça, mas depois deixava! Beijos quentes e grudados!

Tinham os mais atrevidos e extrovertidos que iam mais diretos. No meu caso sentia até medo de tomar um fora. Como disse antes, não levava jeito, mas dava para o gasto. Muitas vezes chegava aos beijos e apertos, com aquele fogo todo que o “danado” lá dentro ficava todo excitado. Não importava se era menina, coroa e nem ligava para a cor da pele. Aconteciam coisas hilárias. Dificilmente se pegava um gênero errado. Nada de papo difícil.

Outras vezes ia ali para o Gabinete Português de Leitura, na Piedade, com um amigo e ficava de butuca de olho numa mulher, fazendo de conta que estava lendo ou pesquisando alguma coisa. Tinham os horários e dias certos das paqueras.

Quando pintava uma boa, não dava para levar num bar e restaurante por causa da conta. Entrava o “jogo de cintura” para dar uma desculpa. No caso de duas juntas, às vezes você queria uma, mas era a outra que estava de olho no paquerador. Na base do bilhetinho escondido, dava para pegar as duas, num outro encontro.

Nos bares, quando conseguia botar um dinheirinho no bolso, ficávamos na espreita tomando umas cachaças para esquentar, mas, as mulheres pouco frequentavam esses lugares, principalmente sozinhas, no máximo acompanhadas. Não dava muito reague, como se dizia no popular.

Nas festinhas de radiolas (os assustados) ou nos eventos de ruas, tínhamos que tomar umas quentes para ter coragem e chegar até a “mina”. Muitas vezes era mais paquerado do que paquerador. Ainda valia o olhar, como sinal de que a mulher estava a fim de você.

Na maioria, arranjávamos uma namorada, mas não tinha muita opção de lugar para levar, a não ser aqueles com alguma grana na carteira. Geralmente os namoros de esfrega-esfrega eram nos cantos, becos e nos escondidos. Não existia tanta violência naquela época e, na hora do vamos ver, nem estava aí para ninguém. Vida de pobre era assim e a “caça” era escassa.

Naqueles tempos os jovens, mesmo com mais dificuldades para a sobrevivência e sem muitas alternativas, eram mais alegres, divertidos e com amizades sinceras, sem essas frescuras de traumas por causa de apelidos e gozações uns com os outros.

Hoje são mais estressados, fechados e reclusos com seus celulares grudados nas mãos. Dão poucas importâncias às famílias e passam mais o tempo trancados em seus quartos. São menos sociáveis e nem respeitam mais os idosos, quanto mais os pais.

Com esse pavor de tudo ser considerado como assédio sexual, não se “bole” mais com as “minas” nas ruas e lugares fechados, embora as mulheres sejam mais independentes e frequentem mais bares, restaurantes e festas sozinhas. As pessoas ficaram mais arredias e se sentem vigiadas pelas câmaras. É aquela coisa de cada um ficar na sua.

Bons tempos daquelas paqueras de antigamente com frases hoje tidas como cascas grossas, mas quando dava certo, os papos tinham mais conteúdos. Hoje só saem besteiróis. As conquistas eram mais “suadas” e, na maioria, as paqueras terminavam em casamentos duradouros.

Muitas coisas ocorriam também nos transportes públicos, nos ônibus, kombis, mas poucos tinham telefones para marcar os próximos encontros. Tudo tinha que ser resolvido na hora.

 

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia