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ACORDA GENTE!

Poema de autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Ave Maria, Nossa Senhora!

Que conhece nossa história:

De derrota e vitória.

Acorda gente!

Que o aguaceiro bateu toda noite,

E foi trovoada de açoite,

Nessa seca caatinga cinzenta,

De dores e sabores,

Onde chuva é água benta:

Hora de plantar a semente,

Pra colher o fruto da terra,

Sem essa de guerra.

 

Acorda gente!

Que Lampião já levantou,

Pra varar todo sertão,

Com seu apetrecho e bornal,

Carabina e punhal.

 

Acorda gente!

Vamos embora trabalhar!

Olha os pássaros a cantar,

Os sapos a coaxar na lagoa;

O gavião alto voa,

Até o bezerro faz sua festa,

A nambu e a juriti

Cantam de lá,

Que o verde vai voltar.

 

Acorda gente!

Do campo e da cidade!

Viva a liberdade!

Todos juntos acreditar,

Porque ainda vale a pena,

Entrar nessa cena,

Lutar e sonhar.

OS MATERIAIS ESCOLARES SÓ TRAZEM SÍMBOLOS E FIGURAS DE HERÓIS DOS EUA

– Tenho aqui algumas bolsas e mochilas mais baratas com as cores e a bandeira do Brasil, mas ninguém quer. Preferem os materiais escolares com os símbolos, imagens, termos e figuras de heróis norte-americanos – disse um lojista do centro comercial de Vitória da Conquista, não deixando de criticar essa cultura secular de desvalorização pelo nosso produto e às suas personagens folclóricas.

Concordei com sua posição e entrei em algumas papelarias da cidade à procura de materiais escolares em geral (mochilas, cadernos e outros artigos) que trouxessem em suas capas ou nas partes externas figuras que remetessem ao nosso folclore brasileiro, como o saci-pererê, curupira, o boitatá, boto cor de rosa, a iara, cuca, caboclo d´água, a caipora, bem como imagens dos nossos rios e biomas (Pampas, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e a Amazônia).

Para mim não foi nenhuma decepção porque já imaginava que não iria encontrar, mas nos deixa envergonhado de como não valorizamos os que é nosso. Temos mesmo complexo de inferioridade. Não é uma questão de ser um patriota ufanista do tipo integralista e moralista que bate continência para uma bandeira dos Estados Unidos e ainda defende uma intervenção militar.

Nas capas dos cadernos e bolsas só vi figuras de super-heróis dos ianques, como homem aranha, super-homem, the flex, batman, capitão américa, hulk, zorro, mulher maravilha  e tantos outros que nem sei bem os nomes. Você pode também encontrar fotos de pontos turísticos de Paris (França) como Tour Eiffel, Champs Elisée e Museu do Louvre.

Fiquei a imaginar se algum país do mundo usa nossos símbolos em seus objetos escolares. Com certeza que não. A começar pelos EUA, milhões deles nem sabem localizar nosso país geograficamente nas Américas. Muitos chamam o Brasil de Buenos Aires e outros acham até que somos selvagens e exóticos.

É lamentável o desprezo pela nossa cultura ao ver nossas crianças e jovens (também os pais) totalmente absorvidos pela enxurrada de filmes e propagandas que invadem nossos mercados com seus heróis e personagens através dos cinemas e das televisões! Eles passam a cultuar e a idolatrar o que vem de fora e pouco dá valor ao nacional.

Temos um país rico, tanto no seu folclore como em termos de paisagens e parques, como a Chapada Diamantina, na Bahia, Veadeiros, no Centro Oeste, o parque arqueológico, no Piauí, a Serra do Araripe, (Ceará), o pantanal e a floresta amazônica! Não podemos ainda deixar de citar as grutas, cavernas e rios, como o São Francisco, Paraná, Amazonas, Paraguaçu e tantos outros.

Muita parte dessa riqueza está sendo destruída pelos desmatamentos, garimpos e pelo fogo. Para reforçar a consciência ambiental, principalmente nos mais jovens, essas imagens e figuras culturais não poderiam estar estampadas em nossos materiais escolares, ao invés dos estrangeiros?

O Congresso Nacional não poderia criar um projeto de lei, sancionado pelo presidente da República, obrigando os fabricantes desses materiais imprimirem figuras e imagens que representassem o nosso Brasil? Não se trata de censura e de impedimento de se abrir para outras culturas. É uma questão de valorizar nosso patrimônio material e imaterial.

Cada nação mais desenvolvida, como os Estados Unidos, França, Inglaterra, Japão, Coréia do Sul, Finlândia e os países nórdicos, por exemplo, procuram cuidar bem e preservar suas memórias e histórias. O nosso Brasil vai numa direção contrária quando prestigia mais o que vem do exterior e menospreza o nacional.

 

SORRIA! VOCÊ ESTÁ NA BAHIA

Carlos González – jornalista

Depois de desembarcar no Aeroporto 2 de Julho e atravessar o verdejante bambuzal, o viajante é convidado a sorrir, por estar chegando à Bahia. O turista, que já recebeu o “bem-vindo” de uma “baiana” com traje excessivamente colorido, abre um sorriso de orelha a orelha. Mas, o morador de Salvador, que está indo para a Barra e bairros vizinhos, já prevê o que vai encontrar nesta época do ano.

A virada do ano, que se estende por quatro dias, abre o calendário de festas em Salvador, que, normalmente, deveria ir até o Carnaval. Nada disso. Criado por Carlinhos Brown, o “Arrastão” reúne timbaleiros e foliões no desfile que contraria os católicos, por coincidir com o início da Quaresma. Em 2019, os vereadores votaram (38 a 2) pelo fim da manifestação, mas o prefeito na época ACM Neto vetou o projeto de lei.

Nesses três primeiros meses do ano, Salvador se transforma na “Capital da Folia”. São ensaios de blocos, lavagens de escadarias e de becos, bênçãos das terças-feiras, festivais, fuzuê, pôr do sol no Farol, homenagem a Santinha, coroação do Rei Momo, pré-Carnaval nos bairros da periferia, lançamento de camarotes, banhos a fantasia e os embalos da ressaca (na semana seguinte ao Carnaval).

Candidato a reeleição, o prefeito Bruno Reis vira “arroz de festa”. Comparece inclusive às festinhas pré-carnavalescas, animadas por um cantor sertanejo, nos bairros da periferia da cidade, promovidas por candidatos a uma cadeira na “gaiola de ouro da Praça Municipal”.

Segundo o último Censo, a população de Salvador é de 2.418.005 habitantes. Nos últimos 12 anos a capital perdeu 257 mil residentes, que migraram para municípios vizinhos, em busca de emprego, segurança e de serenidade. A cidade ocupa a 17ª posição no quesito per capita familiar entre as 27 capitais do país e o Distrito Federal. No Nordeste está abaixo de Fortaleza, Recife, João Pessoa, Aracaju e Natal.

Meu colega e amigo Jeremias Macário lembrou neste mesmo espaço que há em Salvador mais beneficiários dos programas de renda do governo federal do que em São Paulo. Jovens de famílias pobres estão migrando para o Paraná e Santa Catarina, onde, além de sofrerem discriminação por serem nordestinos, se submetem a trabalhos análogos a escravidão.

Com apoio da Rede Bahia, Reis aposta todas as suas fichas em manter o circo armado até o dia das eleições municipais. Ele calcula que bilhões vão abarrotar os cofres da prefeitura com a chegada para o Carnaval de 800 mil turistas a Salvador, sem fazer correção dos que trazem a barraca nas costas e acampam em qualquer lugar, e dos que estão hospedados em navios de cruzeiros.

Depois da abertura do Circuito Dodô (Barra-Ondina), o Carnaval virou uma indústria que beneficia uma minoria, com a colaboração de uma massa que não tem consciência da realidade em que vive. O complexo industrial da folia, onde o Rei Momo é uma figura decorativa, é constituído pelos empresários musicais, cantores de axé, donos de blocos e de camarotes, corretores de imóveis, e os ramos de bebidas, hotéis, bares e restaurantes. Pequenos comerciantes de lanches e bebidas, comprimidos pelos foliões, passam uma semana em suas barracas, em péssimas condições higiênicas.

SOS Barra

“Tire este camarote do meu caminho que eu quero passar”. Este apelo está numa das faixas colocadas em vários pontos da Avenida Oceânica. O protesto é de iniciativa da Amabarra (Associação dos Moradores e Amigos da Barra), que há anos vem pleiteando junto aos gestores municipais e ao Ministério Público a mudança do Circuito Dodô para outro local.

Uma pesquisa feita no ano passado desaprovou a transferência para a avenida Octávio Mangabeira (trecho da Boca do Rio). A votação se estendeu a toda cidade, quando deveria ficar restrita aos residentes na Barra e Graça, que nesta época do ano são prisioneiros em suas próprias casas.

O Carnaval na Barra foi um dos motivos que me trouxe a Conquista. Por nove anos, como morador do bairro, onde se paga o IPTU mais caro de Salvador, testemunhei a ocupação do espaço público por enormes camarotes, que começam a ser montados um mês antes. Este ano, o dono de um deles levantou muros num dos trechos da praia de Ondina, com acesso exclusivo para os frequentadores, que pagam uma fortuna por um ingresso.

Participei de reuniões da Amabarra, onde comerciantes que nada têm a ver com o Carnaval fecham seus estabelecimentos por mais de uma semana; associados sobressaltados davam conhecimento da presença nas ruas do bairro de assaltantes de diversos pontos da cidade; outros manifestavam o receio de caminhar ou usar a bicicleta nas pistas da avenida devido a construção dos camarotes sobre os passeios; outros relatavam os entraves causados aos veículos, inclusive ambulâncias.

Podem me chamar de saudosista, mas do autêntico Carnaval da avenida Sete, das cadeiras amarradas nas árvores e postes, do desfile das grandes sociedades (Fantoches, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso) e dos bailes nos clubes sociais, sobraram o trio elétrico de “Armandinho, Dodô e Osmar”, a passagem dos blocos afros e o bloco sexagenário “Paroano Sai Milhó”, “um oásis no Carnaval de Salvador”, como definiu Caetano Veloso.

 

 

 

 

 

 

 

COM TANTAS FESTAS, SALVADOR PODERIA SER A CAPITAL MAIS DESENVOLVIDA DO PAÍS

Dizem o governo e seus representantes que só no carnaval giram dois bilhões de reais na economia, sem contar as outras festas (todo ano), mais intensas a partir do início de dezembro até final de fevereiro. Fala-se em um milhão ou mais de turistas vindos de todas as partes do Brasil e do exterior.

Pouco divulgam sobre os milhões de reais e até bilhão na segurança, na logística e nos cachês gordos dos artistas para os mesmos afortunados, cujos nomes todos já sabem muito bem, de cor e salteado.  Não sou contra prestigiar os afoxés, mas o estado vai dar neste ano quinze milhões de reais só para essas agremiações. Muitos “sabidos” passam a mão numa parte.

Desses dois bilhões, 98 ou 99% caem nos bolsos dos mais ricos e poderosos. O restante fica com o pessoal do asfalto, como os vendedores ambulantes, barraqueiros, cordeiros, seguranças e operários que armam os camarotes e outros palcos. Não existe distribuição de renda equitativa e a pobreza na capital só aumenta.

Está comprovado que se festas fossem fator preponderante de desenvolvimento econômico e social, Salvador seria a capital mais desenvolvida do país e não teria tantos índices negativos na educação, no saneamento básico, na saúde e na qualidade de vida. Não existiriam tantos moradores de rua e milhares passando fome.

A desigualdade humana é gritante e tenebrosa. Quase metade dos 14 milhões de habitantes da Bahia recebe o Bolsa Família, uma das maiores ou a maior em quantidade de beneficiários e valores gastos pelo Tesouro do Brasil, tanto que o “pente fino para apurar as irregularidades atingiu mais o estado. O desemprego tem também seu alto nível na média nacional. Pelo IBGE, houve uma redução populacional.

Vá discutir isso com os donos de hotéis, de agências de viagens da aviação, dos camarotes, dos trios elétricos, dos blocos, dos cantores de músicas/lixo preconceituosas, donos da grande mídia, com os políticos e até proprietários de apartamentos da orla marítima que alugam seus imóveis entre dez a trinta e cinco mil reais por sete ou oito dias de folia!

Eles vão partir com argumentos falsos e mentirosos; falar que você é esquerda/comunista derrotista, vagabundo de merda e são capazes de lhe encher de porrada. Teve um aí que abriu a boca para dizer que o carnaval emprega mais que a construção civil, só se for durante apenas no período, e olhe lá. Não apresentou dados concretos.

Os pobres também não vão gostar, porque estes estão na pior das desgraças e, por não terem consciência política, educação, serem altamente submissos e escravos dos patrões, se contentam com o pouco, com as migalhas que caem das mesas da elite dominadora do capital.

Eles até riem e agradecem nas entrevistas. Todos querem mais festas e feriadões prolongados. O miserável físico e mental prefere o circo ao invés do pão. Ele dá um jeitinho para enganar o estômago e vai levando a vida como ela é, a vagar por aí na base dos “bicos” e até através das malandragens golpistas.

Essa é a realidade nua e crua, meu amigo, e ninguém quer mudar porque o rio só corre para o mar. A cultura é essa e já vem de séculos. Quanto mais festas, mais votos e os eleitores caem dentro da urna. Sem ao menos refletir e questionar, os jornalistas, que adoram bajulação, anunciam que tudo é de graça. Como de graça se o dinheiro sai dos cofres públicos, pago pelo contribuinte?

Tudo é vendaval! Tudo é festa e curtição! Quanto mais muvuca e fuzuê, melhor para os abonados e pobres. Na Bahia, o ano só começa em março, deixando um rastro de ressaca, doenças, crimes, violências, mortes, principalmente no trânsito. Enquanto isso, muitos setores da economia (comércio e indústria) ficam parados.

Vamos todos às festas porque ninguém é de ferro, não importando se elas extrapolam o senso comum. Nas cidades do interior onde não existe carnaval tudo é fechado na segunda, terça e até meio dia de quarta-feira de cinzas.

Os que podem e até aqueles sem condições financeiras pegam as estradas, se endividando. Entopem mais ainda o meio ambiente de sujeiras e gases tóxicos, contribuindo para agravar o aquecimento global. Depois é só colocar a culpa no El Nino e nas mudanças climáticas.

SITUAÇÕES SEMELHANTES ENTRE A ESCRAVIDÃO NEGRA E A DOS CRISTÃOS BRANCOS

Nas duas escravidões, a africana entre os séculos XVI e XIX e a dos cristãos ou brancos na região da Berbéria (Argel, Túnis e Trípoli) nos séculos XVI ao XVIII, existiram algumas semelhanças, conforme atesta o livro “Escravos Cristãos, Senhores Muçulmanos” do historiador e pesquisador Robert Davis.

Não se pode quantificar os cenários de degradação e sofrimento dessas escravidões que esses cativos passaram, uns nas Américas pelos países europeus, de ordem comercial, e os outros na Berbéria, praticada pelos mouros, turcos e muçulmanos, de cunho mais religioso, como represália. No entanto, ocorreram métodos parecidos na forma de tratamentos.

Assim como várias etnias africanas trazidas da África para as Américas não se entendiam e até brigavam entre si, também os cristãos andavam às turras quando se tratava de católicos romanos, ortodoxos e correntes protestantes. No cativeiro, as intrigas eram muitas, mas aconteciam momentos de se unir nas resistências.

As senzalas negreiras eram locais degradantes, abafados e superlotados, propícios às promiscuidades, e sempre fechados ao anoitecer depois de um dia cansativo de trabalho. Na Berbéria, esses “aposentos” lotados eram denominados de banhos públicos ou prisões, com praticamente as mesmas regras impostas pelos feitores, capatazes ou responsáveis por guardar os escravos. As portas eram trancadas no final do dia para não haver fugas.

Robert Davis faz esses relatos baseados em testemunhos (D´Aranda, João Mascarenhas, Pierre Dan e padres) que foram vítimas dessa escravidão, além de pesquisadores no assunto. Ele fala dos escravos dos banhos públicos, aqueles desafortunados que eram comprados pelos governantes e depois remetidos à vida nos dormitórios/prisões, os quais os cativos chamavam de bains, baños ou bagni.

Segundo Davis, há indícios que essas mansões sombrias de horror começaram em Constantinopla onde antigas casas de banhos se tornaram em confinamentos de escravos em 1500. Na Berbéria, elas foram construídas para abrigar cativos dos governantes e particulares.

De acordo com as pesquisas, o primeiro banho público, o Bagno Beyliç, surgiu em Argel, em 1553, durante o período de Barbarosa, com capacidade para dois mil cativos. Esses prédios se multiplicaram com o tempo, passando a seis em Argel, nove em Túnis e um em Trípoli. Nos anos de 1660, Argel já possuía oito, quinze em Túnis e cinco em Trípoli.

O interessante é que os nomes desses banhos públicos eram sempre de santos, como St. Roche, Lorenzo, São Miguel, Santo Antônio, Santa Luzia, São Sebastião, São Leonardo, Trindade, Santa Catarina, São Francisco, Santa Cruz e tantos outros.

Em Argel, por exemplo, o banho público St. Roche, pertencia ao senhor Ali Pegelin, o mais poderoso e rico de toda região. “É tentador pensar que esse sistema alternativo de nomenclaturas agia como forma de resistência planejada por parte dos escravos e dos abolicionistas cristãos, contra o domínio e autoridade islâmica vigente…”

Muitos desses nomes eram deturpados e escritos de maneira incorreta. O do Paxá era chamado de Banho do Estado, ou do rei. Os trinitários e mercedários, responsáveis pelas capelas (as fazendas dos senhores das Américas também tinham suas capelas) disputavam entre si e com os missionários da Congregação de Propaganda Fide.

De acordo com o autor da obra, esses tipos de desavenças entre os ocupantes dos banhos, principalmente quando envolviam os papassi ou sacerdotes, eram motivos de graça para os turcos. Os senhores gostavam de incitar as discórdias entre seus escravos, com intuito de enfraquecer a resistência.

“O principal ponto de tensão, ao menos nos séculos XVI e XVII, era a religião, “embora isso possa ser apenas parte do exagero entre padres e missionários católicos que representavam a menor fonte de estudos”. Em Argel e Túnis, os católicos eram maioria nos banhos escravos, ao passo que as cidades marroquinas teriam mais britânicos e holandeses. Trípoli era povoada por cativos gregos, segundo alguns relatos.

Outra coisa abordada pelo historiador diz respeito aos dialetos africanos, enquanto na Berbéria se usava a língua franca (substantivos e verbos) como meio de comunicação entre os senhores proprietários e os cativos, para emitir ordens.

Além das capelas, os banhos também contavam com as tabernas onde os bêbados perturbavam os atos religiosos com palavrões e xingamentos. Como esses dormitórios/prisões, somente para homens, eram superlotados (todos dormiam amontoados) havia muita promiscuidade.

Outro traço era o homossexualismo praticado entre escravos que, por outro lado, sofriam assédio sexual por parte dos seus proprietários, reis, paxás e governantes, tendo como maiores alvos escravos novos e os jovens garotos de nove a 15 anos. Eles eram bem tratados nos palácios e induzidos a se converter ao islamismo. Na verdade, não havia uma repressão velada quanto ao ajuntamento homossexual.

ESCREVA SEU SONHO

(Chico Ribeiro Neto)

Dormir é vital. Insônia é terrível. Se eu deitar de barriga pra cima começam a aparecer os problemas. De barriga pra baixo não dá porque a barriga não ajuda. Deitar do lado direito é mais ou menos. Mas só dá pra dormir bem e sonhar (ou ter pesadelo) quando deito do lado esquerdo. Uma fórmula infalível para ter pesadelo: comer feijoada à noite.

Apois não é que algumas pesquisas me dão razão? “Dormir do lado esquerdo beneficia a drenagem linfática do sistema nervoso central”, garante um estudo publicado na revista científica The Journal of Neuroscience. “Nosso coração está do lado esquerdo do corpo, e dormir dessa forma  impede a obstrução da artéria aorta, que bombeia sangue para o resto do sistema sanguíneo”, diz o médico William Cristopher Winter, do Hospital Martha Jefferson, nos Estados Unidos. Outros estudos revelam ainda que dormir do lado esquerdo facilita a digestão.

No entanto, um estudo de 2004, publicado pela revista “Sleep and Hypnosis”, concluiu que pesadelos eram muito mais frequentes entre pessoas que dormiam viradas para o lado esquerdo: 40,19% disseram ter tido sonhos negativos, enquanto apenas 14,69 dos que dormiam virados para a direita queixaram-se do mesmo. A qualidade do sono também era melhor entre os que escolhiam a direita (a posição de dormir).

Já uma pesquisa da revista “Dreaming” aponta que pessoas que dormem de bruços têm mais chances de terem sonhos eróticos do que as demais. Nessa me dei mal, pois não consigo dormir de bruços.

Um dos sonhos mais bonitos e intrigantes que já tive é que eu vinha pulando de nuvem em nuvem. Era um jogo muito perigoso, onde somente nas nuvens você estava num abrigo seguro. Não podia errar e também não podia estacionar numa nuvem, tinha que ficar sempre pulando de uma para outra. Se errasse, caía no precipício do universo. Acertei todas as nuvens, mas acordei assustado.

Meu irmão Cleomar (falecido), que era paraplégico, sonhou uma vez com um despertador (daqueles gordinhos com duas perninhas) correndo atrás dele.

Uma vez contei a meu neto Pedro, então com uns 4 ou 5 anos, que eu sonhei em pé em cima da asa de um avião em pleno vôo. Ele estava almoçando, deu uma engolida no feijão e disse: “Se fosse de verdade você já tinha morrido”.

Os colchões primam pela propaganda. Um comercial do colchão de molas Epeda, de 1970, publicado numa revista, mostra um casal feliz deitado de lado num colchão sob um cobertor e o apelo: “Casais de todo o Brasil: Uni-vos”. Mais embaixo outra frase arrematava: “Só dorme separado quem não tem Epeda”.

Descobri essa pérola na Internet, sem autoria: “Velho acorda cedo pra criticar quem acorda tarde”. Duas frases sobre insônia, também de autores desconhecidos: “Para evitar insônia, eu estou ficando acordado logo de uma vez”; “É muita vontade de dormir para pouco sono”.

Algumas frases de famosos sobre o sono:

“O ruim dos filmes de Far West é que os tiroteios acordam a gente no melhor do sono” (Mário Quintana).

“A indiferença é o sono da alma” (Charles Favart).

“Os sonhos são a literatura do sono” (Jean Cocteau).

“Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono” (Millôr Fernandes).

“O despertador é um acidente de tráfego do sono” (Mário Quintana).

Quem nunca teve um sonho lindo e de manhã não se lembra de mais nada? Escreva o seu sonho. Acordando durante a madrugada, escreva logo. Tenha sempre à mão, perto da cama, um caderno e uma caneta para anotar seu sonho ou pesadelo ou pelo menos as palavras-chave que lembrem a história. Se não quiser escrever, desenhe seu sonho ou pesadelo. Precisamos registrar as belas fantasias e as assombrações. Ambas cabem nos corações.

(Veja crônicas anteriores em leiamais.com.br).

 

 

 

E OS REPAROS DO CRISTO?

Quando estava na presidência do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista (2021/23) surgiu uma denúncia, no início de 2022, de arquitetos e até de pessoas ligadas ao artista Mário Cravo, criador da obra, de que a escultura do Cristo da Serra do Periperi estava necessitando de reparos na parte interna e externa, inclusive de que se esses serviços não fossem feitos, a imagem poderia ficar irrecuperável.  No meado do ano levamos esse alerta para a prefeita Sheila Lemos, numa audiência que tivemos com ela na prefeitura. Prontamente ela respondeu que aquelas informações não tinham fundamento e que havia sido feita uma vistoria e nada foi constatado em termos de estragos em seu material na parte interna. Não foram apresentados laudos comprovando que o monumento não estava correndo risco de perda. No entanto, olhando com mais cuidado, qualquer leigo visitante vai perceber sujeiras na parte externa do Cristo, tanto em sua imagem como na cruz. Se não me engano, o monumento está completando 44 anos e, durante este período, não tem recebido a devida manutenção por parte dos governantes. Alguns deles fizeram uns “puxadinhos” em torno do Cristo, como está sendo realizado agora e sempre dão o nome de revitalização. A verdade é que Ele e sua área nunca receberam grandes obras que atraíssem mais visitas dos moradores e gente de fora. Continua abandonado e quando alguém chega ali é recepcionado por uma cachorrada. Algo tem que ser feito para mudar esse vergonhoso quadro. Já que o poder público não tem dado a devida importância, por que não passar a administração do Cristo para o setor privado ou uma instituição como a Igreja Católica, para explorar o ponto e torná-lo turístico, num cartão postal da cidade, como acontece em outros lugares?

O COVEIRO E A PROTISTUTA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você que se acha

Sabido batuta,

Diz que a profissão

Mais do mundo antiga,

É a de prostituta,

Coisa que me intriga,

Coveiro é minha opção.

 

A atividade mais velha,

É a de coveiro,

Quando o primitivo,

Enterrou seu parceiro,

Com seu ritual nativo,

Disse o primeiro amém,

Em paz para o outro além.

 

A prostituta é sorriso e alegria,

Entre as luzes do cabaré;

Escuta lamentos de psicologia,

E no quarto faz sua putaria,

Finge que goza como uma Salomé.

 

De poucas palavras e sério,

Na labuta do cemitério,

O coveiro vê e ouve o que não quer:

Até de besta corno Mané;

Gentes falsas de óculos escuros;

Choros, lágrimas e histerias;

Amantes de casos obscuros,

Onde uns elogiam o defunto,

Outros que já deveria ter ido;

Juram sinceridade de pé junto,

E o assassino que reza pro falecido.

EM NOME DE DEUS…

EM NOME DE DEUS, PELAS PRÓPRIAS MÃOS DOS PONTÍFICES SACERDOTES DO TEMPLO JUDAICO, O CRISTO QUE PREGAVA PAZ E AMOR, FOI CRUCIFICADO PELOS ROMANOS.

Os conservadores extremistas-negacionistas de direita, em nome de Deus, Pátria, Tradição e Família disseminam o ódio e a intolerância, a homofobia, a xenofobia, misoginia e o racismo. Conluiem com milicianos e bandidos para matar seus opositores. Tudo em nome de Deus e de um moralismo hipócrita. Negam a ciência e trocam a vida pela morte.

Em nome de seu Deus, evangélicos jogam pedras e atiram em terreiros de candomblé. Radicais de esquerda também dividem e separam. Até movimentos negros, ao invés de procurar unir em prol da igualdade de todas as raças, partem para o revide com iniciativas que mais hostilizam que conciliam.

Em nome de Deus, os generais, com apoio de diversos segmentos da sociedade civil (Igreja Católica e parte da mídia brasileira) deram um golpe de Estado, em 1964, (o episódio está completando 60 anos agora em 2024) e impuseram uma ditadura que calou a nossa liberdade de expressão por mais de 20 anos. O regime torturou, matou e desapareceu com milhares de presos políticos em nome de Deus.

O imperialismo ocidental colonizador (Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha, Bélgica, Itália e outros países) declararam e ainda declaram guerras, invadiram e bombardearam nações em nome de Deus. Eles se dizem bons e os outros os maus infames.

Em forma de resistência, os Hamas atacaram e os judeus de Israel (o “Bibi” neonazista), que se acham eleitos de Deus, transformaram a palestina num inferno em campos de concentrações. Cada um com seu Deus para cometer os piores crimes e assassinatos humanitários.

Oh quantas matanças e massacres sanguinários na história da humanidade em nome de Deus (Javé, Jheová), tudo ligado a um fanatismo doentio religioso! Depois de milhões de anos, evoluímos na industrialização, na ciência e na tecnologia, mas continuamos brutos e estúpidos usando o nome de Deus em vão, inclusive destruindo sua benfazeja natureza. Foi sua pior criação? Que evolução é essa?

As tribos primitivas das cavernas, os africanos com seus orixás, os gregos do Olimpo (Esparta e Atenas), os babilônios da Mesopotâmia (o Crescente Fértil), os persas (Irã), os faraós do Egito, os romanos (Júpiter), celtas, gauleses e vikings já evocavam seus deuses para fazer guerras e matar sem piedade. Faziam dos derrotados prisioneiros escravos-cativos nas galés e porões dos navios negreiros, e ainda entoavam seus rituais com oferendas para agradecer suas “vitórias” aos seus supremos.

Nessa viagem por esse túnel da vida, muitas vezes de trevas, obscurantista, iluminado e renascentista, voltemos aos nossos tempos modernos, que de modernos e civilizados nada temos, mesmo porque persistimos na prática das atrocidades, do ódio, das intolerâncias e dos horrores contra o nosso outro ser, tudo em nome de Deus.

As preces de ontem e de hoje são feitas para trucidar o inimigo, como oravam David e os reis da Judéia.  Maomé, em Medina, evocou o seu Deus para expandir seus califados de terror. O Estado Islâmico e outras organizações criminosas oram para eliminar o que eles chamam de infiéis. Até o simples bandido pede a Deus que seu roubo ou assalto sejam um sucesso.

Em nome de seus deuses, os maias, incas, astecas, sumérios e etnias da África, Ásia e Oceania sacrificaram seus próprios humanos em atos macabros de derramamento de sangue, inclusive crianças e donzelas, quando algo de errado estava ocorrendo em suas comunidades. A crença era de que os sacrifícios apaziguavam a ira dos espíritos de suas entidades e as coisas voltariam ao normal.

Em nome de Deus, os Cruzados e os Templários cristãos, com aquiescência dos papados, partiram armados da Península Ibérica em batalhas sangrentas até a chamada Terra Santa (Jerusalém) para expulsar e matar os turcos, mouros e muçulmanos, deixando um rastro de destruição e escombros por onde passaram.

Em nome de Deus a Igreja Católica Apostólica Romana criou a inquisição para queimar nas fogueiras todos aqueles que os representantes da instituição os consideravam de hereges e bruxos por não comungarem de suas mesmas ideias e pensamentos.

Em nome de Deus, tanto cristãos como islâmicos e até budistas decretaram e ainda decretam as denominadas guerras santas onde cada lado tinha e tem como objetivo exterminar seu rival. Os portugueses e espanhóis, em nome de Deus, atravessaram o Atlântico com suas ordens religiosas de padres e massacraram os nativos indígenas, vistos por eles como pagãos e profanos.

Em nome de Deus instituíram a escravidão africana por 350 anos e aprisionaram nas Américas cerca de 12 milhões de cativos, sujeitos a trabalhos forçados, torturas, chibatadas e castigos desumanos, tratados como se não fossem gente. Missionários da Igreja Católica também fizeram parte desse horror em nome de Deus.

Em nome de Deus, como forma de represália religiosa e sob as ordens de Constantinopla, os paxás e reis islâmicos mouros da região da Berbéria, (Argel, Túnis e Trípoli), expulsos da Espanha, Portugal e França, também escravizaram os cristãos ou brancos entre anos 1500 a 1800.  São uns contra os outros em nome de Deus.

COPINHA, UMA FEIRA DE NEGÓCIOS

Carlos González – jornalista

Os que estão saudosos daquele nosso futebol sem objetividade, sugiro assistir – acesse Paulista ou CazéTV no YouTube – até o dia 25 a Copa São Paulo de Futebol Júnior, promovida pela Federação Paulista de Futebol (FPF), onde quase 3 mil jovens, com menos de 20 anos, misturando o português com dialetos indígenas da Amazônia, o baianês e o gauchês, são expostos numa vitrine, esperando serem vistos e “comprados” por clubes europeus e da elite do futebol brasileiro.

A Copinha pode ser comparada a uma feira de negócios, onde o produto exposto é um ser humano ainda na juventude. Nas arquibancadas a técnica e o porte físico (o Vitória escalou um zagueiro de 2,05 metros) dos atletas são atentamente examinados por empresários da bola, olheiros daqui e dos clubes europeus e agentes de empresas de apostas.

O torneio também é aproveitado por clubes-empresa. Garimpada em campos de várzea, sua mercadoria é lapidada antes de seguir para São Paulo. Fundado em Irecê em 2018 o Nova Canaã é administrado pela Igreja Universal e por uma fábrica de sucos. Jogou a Copinha em 2022 e 2023. Está se mudando para o Distrito Federal, sob a justificativa de que a disputa do “Baianão” da 2ª Divisão implica em percorrer grandes distâncias.

Criado por empresários chineses, em 2020, no bairro paulistano da Mooca, e associado ao Orlando City, da liga norte-americana, o Indochina tem como um dos seus objetivos “revelar e formar novos jogadores”. Esta é a mesma linha do Patriota, fundado no mesmo ano por empresários de Curitiba, adotando o verde e o amarelo como suas cores.

A primeira oportunidade para subir na carreira e o primeiro sonho concretizado acabam de ser anunciados: o meia Sidney, 17 anos, deixou a cidade de Guaratinguetá, onde se achava com a delegação sub-20 do Bahia, direto para a Inglaterra, para se incorporar aos profissionais do Tricolor que fazem uma pré-temporada no centro de treinamento do Manchester City. A indicação foi do técnico Rogério Ceni.

O futebol não é igual para todo o mundo. Os jogadores do Carajás tiveram bastante tempo para sonhar em mudar de vida e ajudar suas famílias. Num ônibus sem ar condicionado (o equipamento quebrou no começo da fatigante jornada), a delegação do clube sediado em Parauapebas, no Pará, viajou 2,1 quilômetros em 42 horas até Araraquara, em São Paulo. Nas paradas para as refeições os jogadores dispunham de pouco tempo para movimentar as pernas.

– A gente sabe que para chegar ao topo tem que fazer sacrifícios. A passagem do ano foi na estrada, longe de nossos familiares, mas valeu a pena, porque é recompensador participar desse torneio – comentou o atacante Valdívia, autor de um dos gols contra o São Paulo. Nessa partida, o Carajás chegou a abrir 2 a 0, sofrendo nos minutos finais a virada do adversário. As inevitáveis e dolorosas cãibras nas pernas, causadas pela exaustiva viagem, afastaram os paraenses mais cedo do torneio.

A Copinha foi criada em 1969 pela Prefeitura de São Paulo. Em 1987, o então prefeito Jânio Quadros suspendeu a promoção, assumida no ano seguinte pela FPF. O ingresso de clubes de outros estados ocorreu a partir de 1971. Entre 1993 e 1997 foram convidados times das Américas do Sul e Norte, da Europa e da Ásia. Nesses 55 anos, além do cancelamento em 1987, a bola não rolou em 2021 por causa da pandemia.

O Corinthians é o maior vencedor da competição com 10 troféus, seguido de Fluminense e Internacional, com cinco. A melhor campanha de um representante do Norte-Nordeste é atribuída ao Bahia, vice-campeão em 2011, perdendo a final para o Flamengo. Além do Bahia, o futebol baiano é representado este ano pelo Vitória, Jacuipense e Conquista.

 

 





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