VOU ME EMBORA PRA SODOMA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu poeta Manuel Bandeira,
Deixa eu entrar
Em sua roda de capoeira!
Mas não vou para sua Passárgada,
Estou indo pra Sodoma,
Porque lá tem festa o ano inteiro,
Baticum pra gingo estrangeiro,
Uma fartura de mulheres,
De energias gostosas,
Pra comer, não preciso de talheres,
Vou na mão, no papo e nas prosas,
Por isso, meu caro Bandeira,
Vou me embora pra Sodoma,
Como na antiga Roma.
Tudo lá é devassidão,
Rufam os tambores na multidão,
Tem músicas lixo de montão;
Descem todos das ladeiras,
Como águas de cachoeiras,
E nem importo ser queimado,
Pelo fogo ardente do seu Deus,
Se todos já somos plebeus.
Só não quero virar estátua de sal,
Pois ainda tem o esfrega do carnaval.
Isso aqui é uma zorra,
Com cultura de massa alienada,
Nessa loucura da muvuca,
Nem é preciso ser bom da cuca!
Meu amigo Bandeira,
Você está dando uma de bobeira,
Pior é ficar em estado de coma,
Vou me embora pra Sodoma,
Quem quiser que vá pra porra,
E de lá sigo pra Gomorra,
No embalo, eu vou, eu vou
Ver o nosso Cristo Redentor,
E cair no samba, sim senhor!
ATESTADOS DE ÓBITOS NÃO CURAM AS FERIDAS ABERTAS PELA DITADURA
O governo federal agora, através da Comissão da Verdade, que apenas nominou, descreveu e provou a existência de torturas, está retificando os atestados de óbitos mentirosos dados aos familiares dos presos políticos mortos e desaparecidos nos porões da ditadura militar-civil-burguesa nos idos de 1964 até o final dos anos 80, quando cerca de 500 foram vítimas desse brutal regime de exceção.
Os parentes se sentem mais aliviados, mas o ato em si não passa de uma política de consolo e não representa nenhuma reparação histórica porque os torturadores e os generais mandantes do arbítrio (muitos já morreram, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra) não foram presos e punidos como aconteceu em vários países da América do Sul, como Uruguai, Argentina e Chile.
Portanto, mesmo com esses atestados, muitos dos quais sem a presença dos corpos para a realização de seus ritos funerários tradicionais, principalmente dos abatidos e esquartejados na Guerrilha do Araguaia nos anos 70, as feridas continuam abertas e não se fez a devida justiça contra os carniceiros para que uma ditadura nunca mais ocorra no Brasil.
É uma pena que esta memória esteja praticamente perdida pelo negacionismo atual dos extremistas e pela falta de reparos que deveriam ter sido feitos lá atrás. As esquerdas têm muita culpa no cartório porque ficaram contemporizando, por covardia mesmo e porque entraram na onda de que o “revide” seria um revanchismo, o que não tem nada a ver.
A anistia geral e irrestrita de 1979 foi uma enganação e empurrada goela abaixo dos brasileiros porque os bárbaros torturadores e aqueles que desapareceram com os corpos prensados em usinas de cana-de-açúcar e fábricas, bem como esquartejados e jogados pedaços de seus membros em alto mar e rios, deveriam ter sido punidos severamente no rigor da lei.
No Brasil de agora estão mais uma vez querendo anistiar os nazifascistas de oito de janeiro de 2023 que pretenderam dar um golpe de Estado contra a democracia quando invadiram os três poderes para implantar mais uma ditadura no pais, sem contar os generais e os coronéis de pijama que planejaram derrubar o governo eleito pelo voto popular. Se isso ocorrer, é mais um absurdo histórico e uma brecha para a volta da dita cuja dos apoiadores de uma intervenção militar.
Não me venham com essa de que a outra parte também matou e assassinou agentes das forças armadas na luta armada. Mesmo com tendências comunistas ou não, todos ali estavam no combate pela liberdade e contra a tirania e, quando se tem esse propósito em mente, matar torna-se um direito passível de absolvição como inocente.
Na Roma de Julius César ditador, que queria ser rex monarca, por volta de 49 a 44 a.C., Marcus Junius Brutus, em 54 a.C., de acordo com o historiador Barry Strauss, se pronunciou contra uma proposta de concessão de uma ditadura a Pompeu. “Dois anos mais tarde, ele argumentaria que um homem que cometesse um assassinato pelo bem da República deveria ser considerado inocente”.
Não consigo entender um atestado de óbito sem a presença do corpo, caso específico do deputado Rubens Paiva relatado no filme “Ainda Estou Aqui”, mesmo especificando a causa mortis, e isto depois de mais de cinquenta anos de negação da verdade.
Não sou cineasta, mas, em minha opinião, não achei correto na filmagem o momento de alegria da leitura do atestado pela atriz Fernanda Torres de maneira festiva. Fora o lado sentimental, nada a comemorar se a família verdadeira e real não fez o enterro do seu corpo.
O propósito não é aqui falar sobre o filme, mas como uma coisa está entrelaçada a outra, houve uma comemoração estrondosa pela atriz ter ganhado o Globo de Ouro pela sua atuação. Não que ela não seja merecedora, mas foi muito favorecida pela atual situação geopolítica, como uma resposta à direita extremista e fanática que está tomando conta do planeta.
Por sua vez, infelizmente, como poucos neste Brasil de hoje não conhecem sobre a história da ditadura de 1964, a grande maioria festejou euforicamente o troféu inédito de uma brasileira, sem ter a menor consciência política da importância do seu papel no filme como esposa de Rubens Paiva, bem como do conteúdo da filmagem.
As pessoas pularam apenas como se estivessem ganhando uma copa mundial de futebol, só por ter recebido essa homenagem inédita, como se fosse um desabafo do complexo de vira lata. O significado maior está na retratação do filme como mais uma prova de que a ditadura existiu e foi cruel.
Muitos que assistiram não entenderam o elo histórico. Em minha concepção, outra falha no roteiro foi não ter mostrado cenas de tortura do personagem Rubens Paiva quando do seu sumiço após a prisão. Isto poderia ter dado mais força e visão do que foi a ditatura. Na época dos anos 70 ele vivia com sua esposa Eunice e filhos num apartamento.
PRAIAS SUPERLOTADAS, DOENÇAS E MUITA CONFUSÃO NAS FÉRIAS DE ANO
Mesmo quando era mais jovem, farrista de primeira e vivia minhas boemias, nunca suportei frequentar uma praia superlotada onde cada pessoa não tem direito nem a um metro quadrado de areia. Imagina agora com essa minha idade! Só de ver as imagens, me deixa irritado e estressado. Acho até que sou um anormal, um antissocial de primeira que tem medo de gente.
Sempre procurei praias mais distantes, calmas e menos badaladas para curtir minhas cachaças e dar aquele mergulho tranquilo no mar com minha família e meus amigos. Mesmo quando não tinha carro, saia de casa mais cedo de ônibus e retornava no final da tarde, ao escurecer, quando o movimento esvaziava.
Nessa época do ano quando a maioria viaja de férias, a impressão é que os paulistas, como rebanhos em manada, resolvem pegar a estrada para a Baixada Santista e aí é aquele tormento, a começar pelos engarrafamentos e, quando chegam lá, têm que disputar uma nesga de praia, muitas delas contaminadas pelos esgotos. E os restaurantes? Nem se fala! Pega-se fila para tudo. Que agonia!
Não consigo entender essa preferência em se tornar fermento em bolo de multidões onde uns ficam se batendo com os outros, respirando o mesmo ar boca a boca. Para levantar e ir dar uma refrescada na água é aquela loucura, e o pior é tomar banho em conjunto onde gente mija e caga no bater das ondas!
Esse surto de virose, por exemplo, na Baixada Santista, não é nenhuma novidade. Esse “terror” de gente num mesmo lugar é comum no Rio de Janeiro, em Copacabana, Leblon e no Piscinão de Ramos, o ponto mais popular dos pobres. Em Salvador nós temos como referência de lotação, do tipo freio de arrumação, a Barra, Barra Avenida, Boa Viagem, Ribeira e Boca do Rio.
Na Barra, em Salvador, nesse período de férias, finais de semana e nos feriadões, você olha lá do cais ou de algum apartamento próximo e só enxerga sombreiros e as águas coalhadas de turistas e moradores da capital. Dizem que é chique ir para a Barra porque, às vezes, de forma hisporádica, Caetano Veloso aparece por lá com mais alguns famosos amigos.
Não sou nada famoso, mas quando estudante lascado sem dinheiro, era um grande frequentador da Barra, isso porque ia na paleta da Residência Universitária, no Corredor da Vitória, até a Barra dar uns mergulhos e nadar. Caminhava um pouco mais de dois quilômetros. Não era nenhum exercício físico. Era falta de grana mesmo. Veja bem, isso só ocorria em dias da semana.
Nesses locais tão cheios e espremidos, os casais são obrigados a evitar brigas e discussões, senão chama a atenção da praia toda, embora existam os barraqueiros e barraqueiras que quebram o pau. O papo tem que ser maneirado porque ali tem de idoso a criança. Não dá muito para estirar as pernas e nem pensar naquele namoro mais erótico.
Quando trabalhava e ganhava um salário razoável só tirava minhas férias fora dessa época do ano quando a cancela estava mais livre, sem essa de boiada em disparada, principalmente quando se trata de viajar para esses litorais congestionados, como no Nordeste. Tá louco, meu! Tô fora dessa parada, mas tem gente que adora!
ENERGIAS POSITIVAS E OS BORDÕES
Existem entrevistas na mídia sobre determinados assuntos onde os personagens sempre soltam aqueles bordões que já se transformaram em marca registrada, inclusive por parte do entrevistador que, muitas vezes, faz aquela pergunta imbecil de deixar qualquer um de queixo caído.
Muitas falas saem da boca de turistas endinheirados que estão passeando numa boa, sem tantas preocupações como a maioria do trabalhador brasileiro que recebe um salário mínimo e faz milagres para atravessar o mês, com uma feira regrada e ainda pagar as contas. Trata-se de uma dura realidade da nossa profunda desigualdade social.
– Aqui é uma maravilha de beleza. Essa gente é acolhedora e hospitaleira. Sinto fortes energias positivas nesse lugar – diz o turista ou a turista para o repórter. É claro que tudo é muito bonito porque a pessoa já chega com um pacote ou uma lista na mão para visitar os centros históricos e os lugares mais aprazíveis da natureza.
Turista não pega ônibus lotado, trânsito engarrafado no horário do rush e nem chega perto das periferias para ver barracos pendurados nos morros, ruas sujas de lixo e esburacadas. Em Salvador, por exemplo, com tantas festanças e exotismos, o visitante de fora fica deslumbrado e tome “energia positiva”.
É claro que o vendedor ambulante, o guia e até o morador têm que ser receptivos porque estão de olho na grana do gringo ou do visitante de outro estado, daí essa coisa de energia positiva, sem falar que o turista está ali curtindo o seu luxo.
De pau para cassete, quando a questão é violência brutal, bárbara e fútil com mortes, seja do lado militar ou civil, o que mais se ouve dos membros familiares mais próximos da vítima, com olhos lacrimejantes de tanto chorar, são as frases “que a justiça seja feita” ou “queremos justiça”, que nunca chega ou tarda a chegar a passos de cágado.
Por sua vez, as autoridades soltam aqueles bordões de que tudo será apurado e investigado o mais rápido possível, doa a quem doer. Isso acontece muito quando um policial comete um desatino, um desvio de conduta e abuso de autoridade. Muitas vezes incriminam um inocente para ficarem livre do caso.
– Uma delícia de sabor, um manjar dos deuses. Esses termos com gestos nos olhos e nos lábios de saboridade e deleite são de repórteres quando provam uma receita alimentar feita por um chefe de cozinha. Já ouviu alguém dizer que o bolo, o pudim ou um prato qualquer estão sem sal, gosto diferente e o tempero está forte? O paladar sempre está na ponta da língua.
E entrevista com jogador de futebol? Ele sempre passa o dedo no rosto, a mão no pescoço ou na cabeça e fala um monte de besteiras repetitivas desconexas. Quando ganha o jogo ou faz o gol, foi Deus quem fez ou foi a mão de Deus. Só falta dizer que foi o pé Dele. Até parece que Deus é torcedor do tipo “folha seca” que está sempre mudando de lado.
Por falar em futebol, também existem aquelas perguntas idiotas por parte de “profissionais” da mídia esportiva. Certa vez um coleguinha perguntou para o técnico como ele está vendo o jogo. Como estava perdendo e irritado, de pronto o cara respondeu: Estou vendo daqui do outro lado das quatro linhas. “E aí Baiaco, sem você, como o Bahia vai ficar? Comigo ou sem migo, meu time vai ganhar.
Existem outros bordões que não falham nunca em reportagens que mostram a natureza do lugar, tais como: É uma paisagem deslumbrante, de tirar o fôlego. Têm ainda aquelas entrevistas onde o repórter diz tudo que o entrevistado ia falar. Não faz uma pergunta.
São tantos outros bordões que as pessoas falam maquinalmente, inclusive nas festas de final de ano, que não vou ficar aqui enchendo o saco de vocês, sem falar em perguntas cretinas, como indagar para um presidiário lascado numa cadeia suja fedorenta se ele vai bem. “Como está, tudo bem? Dá vontade de mandar para aquele lugar que ninguém que ir.
CASSIUS, BRUTUS E DECIMUS
Intrigas palacianas, ciúmes, inveja ou em defesa da liberdade e da República contra Julius César, um ditador tirano que almejava ser rei quando retornasse da Guerra Parta? O assassinato mais famoso da história de Roma de um conquistador que cruzou o Rio Rubicão na Gália Italiana, em 49 a.C., contra as ordens do Senado, é cheio de interrogações pelas antigas fontes que narraram o acontecimento.
Cassius, Brutos e Decimus, que serviram a César e por anos lutaram ao seu lado, foram os principais conspiradores que apunhalaram o poderoso em de março de 44 a.C., conforme descreve o historiador Barry Strauss em sua obra “A Morte de César”. Segundo ele, uma das fontes mais confiáveis é o do escritor Nicolaus de Damasco.
Outra versão diz que a clemência e o privilégio dado por César os seus inimigos durante a Guerra Civil, entre 49 a 45 a.C. foram outros motivos que levaram seus algozes a cometerem o terrível assassinato.
Sobre Gaius Cassius Longinus, Barry destaca que em janeiro de 45 a.C. ele aceitou a César como “um velho mestre, relaxado e tolerante”. Pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 44 a.C., Cassius decidiu-se por matá-lo. “É improvável que a conspiração pudesse ter acontecido antes de fevereiro. Um dos motivos para isso seria a falta de incentivo: César não depusera os tribunos do povo nem rejeitara a coroa até fevereiro”.
Cassius se orgulhava de ter tido vários cônsules em sua família, inclusive seu pai, um homem que fora derrotado em combate pelo gladiador rebelde Espártaco. Em 53 a.C., ele viveu seu grande momento no Oriente Romano.
Serviu como governador-tenente e comandante substituto para Marcus Licinius Grassus, o governador da Síria. Tal como a maioria dos governantes romanos, ele era um homem ganancioso. Cassius extorquia os provincianos. Ele chegou a invadir a Judéia e dizem que escravizou cerca de trinta mil judeus.
Quando adveio a Guerra Civil, ele apoiou Pompeu. Em 48 a.C., Cassius recebeu o comando de uma frota naval que ele empregou contra as forças de César, na Sicília e no sul da Itália. Sua deserção foi uma grave ofensa e um insulto para os filhos de Pompeu. Mesmo assim, ele pôde dizer que continuava a servir à República ao promover a paz. César deu-lhe boas vindas e fez dele um de seus generais.
Quanto a Marcus Junius Brutus, o autor da obra afirma que ele foi essencial para a conspiração contra Julius César. “Não fosse Brutos, não haveria assassinato. Os conspiradores insistiam em sua presença. Diziam que seria preciso um rei para matar a um rei. Pelo menos, Brutus era praticamente um príncipe republicano”.
Supostamente, ele provinha de uma das mais antigas famílias da República: aquela que destronara reis. Ele contava com um registro público de mais de uma década de defesa da liberdade e oposição à ditadura. Em 54 a.C., por exemplo, ele se pronunciou contra uma proposta de concessão de uma ditadura a Pompeu.
Dois anos mais tarde, ele argumentaria que um homem que cometesse um assassinato pelo bem da República deveria ser considerado inocente. De acordo com Nicolau de Damasco, ele foi respeitado durante toda sua vida pela clareza de sua mente, pela fama de seus ancestrais e por seu caráter supostamente razoável.
Na versão do grego Plutarco, Brutos e Cassius recrutaram Decimus Junius Brutus Albinus. Para Strauss, o historiador da obra, pode ter sido o contrário. “Uma coisa é certa, Decimus desempenhou um papel central. Se Brutus foi o coração da conspiração e Cassius foi o cabeça, Decimus foi seus olhos e ouvidos”.
Decimus era um amigo íntimo e confidencial de César. “ O autor antigo que enfatiza o papel de Decimus na conspiração contra César é Nicolaus de Damasco, ao qual Shakespeare jamais leu. Ele tampouco leu Cassius Dio ou as cartas de Cícero, outras fontes que atribuem importância a Decimus”.
Segundo Barry, foi Decimus quem César escolheu para acompanhá-lo ao jantar na noite de 14 de março. “Decimus era a melhor fonte de informação quanto aos pensamentos e planos do ditador e a melhor esperança de mover César para qualquer direção que fosse necessária. Ele é amplamente reconhecido pelas fontes antigas como um dos principais agentes da conspiração”.
Aos trinta anos de idade, ele tinha um registro brilhante. Era um nobre de pedigree impecável e um dos confidentes de César. Foi um grande comandante na Gália, tanto na Guerra Gaulesa como na Civil. Ele chegou a governar a província para César, entre 48.a.C e 45. Tudo indica que ele também tenha sido pretor em Roma.
DE VERSOS E DE SONHOS
(Chico Ribeiro Neto)
Meu sonho tá escrito
num pergaminho
ou no guardanapo manchado de vinho.
Meu sonho mora num ninho.
Tá escrito nos olhos dos netos,
nas borboletas, nas grutas
e no mais escondido cantinho.
Meu sonho é desafio,
tá no mar ou no rio?
Debaixo da lama ou da cama?
Meu sonho pega um bonde nas Mercês
desce o Elevador Lacerda
e pega um avião pra Xangai.
Está no pião rodando na mão,
na Assunção e na floresta dentro da noite.
Meu sonho é perdido e achado,
por isso eu o guardo.
Meu verso é a matinê da alma
que me acalma.
Passeia no alambrado do estádio de futebol,
entre o dó e o si bemol.
Tá entre o errado e o certo,
entre a corda e a caçamba,
entre o visto e o coberto.
Meu verso é caminho.
Está no movimento do barco ancorado,
no grito do afogado
e na alegria do primeiro mergulho.
Meu verso gosta
do caderno espiral,
da escrita matinal
e da letra bem feita,
igual a roupa nova.
Está no buzo encostado no ouvido,
no grito do porco ao receber a primeira facada,
naquela flor que ninguém sabe o nome
e no choro da criança com fome.
Meu verso mora na lágrima do palhaço,
na cachaça do peão
e no bêbado que canta “Dolores Sierra”.
Meu verso brinca de se esconder
debaixo da saia da morena.
(Um 2025 de paz a todos os meus leitores)
MUNDÃO DO PROGRESSO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta mundão do progresso!
Que deixou meu verso,
Quebrado na beira da estrada,
Só se ouve o ronco do motor,
Valei-nos, oh Deus, Nosso Senhor!
Não passam mais as boiadas,
Nem os tropeiros estradeiros,
Com suas missangas e bruacas,
Abrindo cancelas e estacas,
Subindo e descendo ladeiras,
Nos mata-burros das poeiras.
Êta mundão do progresso!
Está tudo virado pelo avesso,
Entra tecnologia, sai a razão,
Mas ainda sobrou uma nesga,
De crença, amor e religião,
Nesse meu vasto sertão,
E eu aqui só de bobeira,
Vendo gente dando rasteira.
Êta mundão do progresso!
Não se vê mais rezadeira,
Coisa difícil é mulher rendeira,
Estão acabando com nossa tradição,
Mataram até nosso São João,
Está indo nossa cultura do ler,
Trocada pelo celular na mão,
Só se tem tempo para o vil ter,
E esqueceram do nosso ser.
FELIZ ANO NOVO, OU FELIZ MEU VELHO?
Mais um ano que se passa e, cronologicamente, a terra, o tempo e a humanidade vão ficando mais velhos em linha reta ao seu fim. É como um aniversário onde a partir de cada ano nos tornamos mais idosos. Pelo menos nós somos finitos. Quanto ao universo, não sei.
Com isso, não estou aqui condenando os “bordões” Feliz Natal e Feliz Ano Novo porque têm o sentido do desejo que sejam melhores para todos. Não se trata de expressar tristeza, mas apenas uma reflexão crítica, fugindo um pouco do deboche e do sarcasmo.
Veio-me agora à mente a reforma do calendário instituído pelo ditador romano Julius César, isto por volta do final de 46 a.C. O calendário lunar de Roma, baseado em uma no de 354 dias, se encontrava fora de sincronia com as estações do ano. César, então, fez uma reforma que marcou época ao implementar o calendário solar, com o ano de 365 dias, mas um bissexto a cada quatro passados. O novo calendário teve início em 1º de janeiro de 45.a.C.
Pois é, mas, mesmo que não fossem feitas essa e outras correções (século XVIII), o tempo em si continuou correndo em seus passos cadenciados, como no tic-tac da invenção do relógio, com altas e baixas na cadeia evolutiva ou decadente da humanidade. Os ponteiros continuaram a girar dando suas badaladas silenciosas.
Infelizmente, vivemos uma época conturbada em nossas vidas onde o ser humano está em baixa em seu grau humanista, embora nos orgulhemos do progresso e da evolução tecnológica que têm seu alto preço a pagar. Quando nos referimos sobre cultura, conhecimento, saber, solidariedade, individualismo e egoísmo, ouvimos muito a frase “decadência da humanidade”.
Estamos num planeta em ebulição em termos de tragédias naturais e humanas com guerras genocidas. Os holocaustos se repetem. Muita gente ainda não acredita que estamos em pleno aquecimento global, mesmo os cientistas registrando recordes de temperaturas. Triste que este cenário não tende a melhorar.
Dizem que a última década foi a mais quente da história, tudo por conta da destruição da natureza e a elevação do nível de gases tóxicos no meio ambiente. Essa depredação vem ocorrendo há séculos e sempre digo que não existe mais retorno para deter o fim da humanidade no planeta terra. Ela sobrevirá, nós não.
Alguém a essa altura que está lendo meu texto pode estar avaliando que estou sendo macabro na passagem do ano. É que procuramos manter certa distância da realidade e da verdade. Talvez por isso é que, inconscientemente, emperramos as mudanças. Não é apenas desejar melhorar.
Não é o Ano Novo, ou Velho pela idade do tempo, que vai parar as guerras e a onda desenfreada de violência, cada vez mais bárbara, brutal e cruel. Não é o Ano Novo que vai reduzir a fome e a pobreza de quase um bilhão de habitantes terráqueos.
Todas as datas, sejam lunares ou solares, são motivos para festanças e comemorações como faziam as antigas civilizações passadas. Nesse aspecto, herdamos esses costumes e hábitos da nossa ancestralidade, o que é natural. Somos dionisíacos.
São motivos para tomarmos umas cachaças, quentes ou geladas, enchermos a pança, nos abraçarmos, nos alegrarmos, confraternizarmos, nos embebedarmos, cairmos nos bacanais e orgias e desejarmos um Feliz Ano Novo. No outro dia é vida que segue, e para tudo falta tempo, até para responder uma mensagem.
Natal e Ano Novo são épocas de aplacarmos os sentimentos ruins de raiva, brigas e xingamentos, sem ressentimentos. Esses comportamentos podem soar como falsidade, mas é assim que agimos, adiando as respostas ácidas para depois.
Portanto, Feliz Ano Novo para todos. Só paz e amor, e que essas duas palavras perdurem durante todo ano, mas, infelizmente, não é assim, meus caros amigos, que a banda toca. Pode ter certeza que ela vai sempre desafinar. É a ordem natural das coisas e da vida que não pode ser revertida. Pelo menos, procure ser melhor um pouco.
VOU ME EMBORA PARA SODOMA
Que me desculpe o nosso grande poeta pernambucano Manuel Bandeira, mas não vou me embora para Passárgada. Eu vou mesmo é para Sodoma, e nem importa se serei queimado pelo fogo ardente do seu Deus, só não quero é virar estátua de sal.
Em Sodoma, meu amigo, tem festa o ano inteiro e um montão de baticum na maior altura de músicas lixos que perfuram o tímpano de qualquer um. É loucura total! A massa alienada é só uma multidão que tira o pé do chão e grita com histeria ao som estridente dos rebolados dos cantores de uma estrofe só. É o Tchan! Tchan! Tchan! Vou na dancinha na boca da garrafa! “Sabe nada, inocente!
Lá, meu caro Bandeira, também tem mulheres de fartura, energias gostosas, principalmente para o gringo estrangeiro que entra na muvuca e fica doidão. Rolam muitas drogas e descem todos das ladeiras, de todos os cantos da cidade, como águas de cachoeiras, para adorar seus ídolos de cultura fútil artificial.
Vou mesmo é para Sodoma onde não preciso de talheres para comer. Meto minha mão grande e vale mais aquele papo cheio de gírias e gingas, prosas boas, para convencer meu parceiro ou minha parceira.
No litoral, tem praias apinhadas de biquínis e tangas, e nem estou aí para os pecados. Quero mesmo é me esbaldar. Ninguém liga para as sujeiras. Lá serei rei na minha rede, com sombra e água fresca de coco, dando uma de bobeira. Passo o tempo nas nuvens mirando o azul do céu escaldante e as ondas do mar. Tem sol para cada um.
Ah, ia me esquecendo! Tem ainda o carnaval e entro naquela devassidão do arrastão atrás dos trios elétricos ensurdecedores do axé e do arrocha. Vale tudo, e ninguém nem importa quando a polícia baixa o cacete nos brigões. É tudo liberal!
Dizem que lá tem a melhor festança do mundo. Não vai demorar para todo mundo cair na folia pelado, numa boa. É tudo exótico no rufar dos tambores durante uma semana. Os pobres caem dentro do fuzuê do asfalto e os ricos ficam olhando tudo lá de cima dos seus camarotes de bacanais e orgias. Não tem conversa de intelectual para encher o saco de ninguém.
É isso aí, já decidi e vou mesmo para Sodoma, me esbaldar na depravação dessa zorra, sem culpa de pecado. Quem não gostar que vá para a porra, e de lá estou seguindo para Gomorra, sem olhar para trás, curtir aqueles morros e ser abençoado pelo Cristo Redentor. Quem quiser que me siga.
O VELHO, O NOVO E OS BANHOS
Longe de mim contestar as crenças e superstições feitas na passagem de um ano para o outro, com o sentido de descarrego das más energias, como as pessoas geralmente acreditam.
Na verdade, herdamos essas porções culturais desde as civilizações mais antigas dos nossos antepassados, não importando se vivemos na era evolutiva da tecnologia virtual e agora da inteligência artificial.
Na noite da passagem do bastão do velho para o novo – uma data como qualquer outra – brindamos e saudamos essa entrada como se estivemos atravessando um portal com significado de renovação. O relógio continua marcando seu tic-tac. O tempo não para, como diz a canção do poeta. Sem essa de velho e novo, de novo e velho. Tudo dá no mesmo, se tudo continua no mesmo lugar. O negócio é curtir e farrear que ninguém é de ferro, como faziam os sumérios, os celtas, os romanos e outras civilizações.
Esquecemos que o novo nos torna mais velho, como uma criança que acaba de dar a luz, ou nasce do ventre da barriga da mãe. Para saudar esse novo/velho, cada um tem sua cor preferida, na maioria o branco da paz, o vermelho da paixão, o verde da esperança, o amarelo ouro da prosperidade e assim segue cada uma tendo seu significado e sua crença.
– Só não pode é usar o preto e o roxo, meu camarada! Podem dar azar. Por que, então, não misturar e vestir todas as cores? Assim a pessoa seria uma felizarda por ter tudo junto de uma só vez durante todo ano. Não seria mais coerente ter um pedaço de cada cor?
Um amigo meu foi mais longe na ousadia e disse que a pessoa que veste branco no Ano Novo também está de calcinha ou cueca da mesma cor, para não contrariar a entidade.
– Que nada, cara, pode ser azul, vermelho, verde ou rosa para unir as bênçãos divinas.
– Pode também estar sem nada por debaixo. Depende das intenções individuais de cada um – respondeu o outro ao lado que estava ouvindo o “jogar conversa fora, ou o papo furado e fútil.
E essas coisas de lentilhas, de nozes, avelãs, passas, castanhas e outras comidas importadas? Cada um também tem o seu lugar e significado de prosperidade. Não pode é comer galinha, senão vai ficar o ano todo ciscando, ou caranguejo que anda para trás.
– Lá vem você novamente com essa! Talvez por isso é que o pobre só vive lascado. Prato de pobre é feijão, arroz, farinha e um pedaço de carne, isto quando acha. Não tem também essa de cor.
– Que nada, atualmente existem as cestas básicas e as doações, pelo menos no Natal e no final de ano. Depois volta para a rotina do feijão com arroz, ou uma bolacha num copo de água, que nem é potável.
Nessa época também são recomendados os banhos de folhas para descarrego, limpar o corpo e entrar Ano Novo com novas energias para ter boa saúde, ganhar dinheiro e ficar rico.
– Bobagem! Essa é uma invenção de pobre e malandragem de vendedor, para ganhar uns trocados a mais e tomar umas cachaças. Tem gente ruim, miserável, mão de vaca, avarento e egoísta que não tem banho que tire suas energias negativas.
– É bicho, pior que nessa você está certo. Tem gente que tem que tomar banho é de cansanção, caiçara, urtiga, espinhento ou mato brabo.
– Banho que nada! Corrupto, fanático extremista e malfeitor de colarinho branco precisam tomar é uma surra dessas ervas, e que sejam bem venenosas, para matar a carne e o espírito, sem deixar vestígio na terra.
– Olha, meu irmão, o papo está bom e foi bem cultural, coisa de intelectual, mas vamos mesmo é tomar umas e comer aquele leitão gorduroso, acompanhado de colesterol por todos os lados, que está nos esperando na mesa. Se demorarmos, não sobra nada! Vixe! Estamos com cores diferentes, ficando mais velhos e sem banho de folhas. Feliz Ano Novo!











