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O MATUTO E O VALENTE

– Eles vivem a brigar igual a cachorro e gato, mas não se desgrudam um do outro – comentavam os moleques da rua que temiam os parceiros, um matuto e o outro visto como valente por nome de Jairo.

– Brigam entre eles, ficam sem se falar por certo tempo, mas ninguém se atreve a enfrentar os dois. Um toma as dores do outro na hora do “pega pra capar”. Eu estou fora – dizia o colega de conversa em tom de medo.

Por volta do final da década de 50, com uns 11 ou 12 anos, sai da roça a mando do meu pai para morar em Piritiba e fazer o primário. Antes disso, passei pelas mãos de várias professoras leigas – memorável recordação da professora Nina – para aprender o bê-á-bá, mas continuava um analfabeto. Fazia uns garranchos nos papéis e lia alguma coisa com dificuldade.

Era um tímido matuto roceiro magricela que foi residir na cidadezinha recém emancipada na casa do casal Nemézio e Maricas. Além de seus dois filhos, eles criavam um rapazola negro pouco mais velho do que eu, que trabalhava como escravo. Só tinha direito à comida e a uns trocados.

Seu nome era Jairo e me aliei a esta família sendo o sexto integrante numa residência um tanto apertada. Meu objetivo era estudar e, para tanto, meu pai pagava as despesas e ainda ajudava com quilos de farinha e feijão produzidos em sua roça.

Eu era um estranho do ninho e, como matuto desajeitado e desengonçado, de roupas roceiras (calça curta) comecei a ser vítima de apelidos e deboches (bullying) na escola e nas ruas entre os outros meninos da cidade.

Não só sofria bullying (na época ninguém sabia o que era isso) como apanhava como saco de pancada. Jairo era um negro magro que tinha um soco de direita, ou de esquerda, não me lembro bem, que derrubava um armário. Ninguém se engraçava com ele porque só recebia pancada.

O matuto padecia dia e noite nas mãos daqueles moleques e ninguém o temia. Era só chamar para a briga e ele saia com o rabo por debaixo das pernas como cão sarnento, Jairo não, este era o valente respeitado, pau para toda obra.

De tanto apanhar e ser ridicularizado, um dia o matuto deu um estalo maluco na cuca, ou uma sacada, e colocou na cabeça que tinha que lutar no braço com o Jairo, o mais valente. Sabia que ia tomar porrada, mas já estava calejado mesmo! Não importava a surra. Era por uma boa causa.

Numa roda de moleques, nos jogos de gude e pinhão – a intenção era que que muitos fossem testemunhas da peleja – sem motivos, o matuto começou a provocar Jairo com palavrões, inclusive de ladrão e outros termos politicamente incorreto, para os tempos atuais.

Como morava comigo na mesma casa, a princípio Jairo evitou enfrentar o matuto. A molecada não acreditava no que estava vendo. Ninguém ousava brigar com ele porque sabia que seu punho era certeiro.

Como Jairo se fez de covarde, o matuto caiu dentro e logo recebeu uma lapada que o deixou no chão. O matuto levantou, sacudiu a poeira e deu nova investida. Até que deu uns tapas aqui e acolá, mas o matuto apanhou feio. Caia e levantava.

Para não bater mais e sangrar de morte o matuto, Jairo saiu e deixou a turma. Apanhou, mas foi o dia “D” da libertação dos bullying contra o maturo.

Em pouco tempo a notícia correu nas ruas de que o matuto tinha lutado contra Jairo. A partir dali ele passou a ser o segundo mais valente da cidade. Impôs respeito e até dava ordens para os outros.

Acabaram-se as sacanagens contra ele. Se um grupo adversário de uma rua resolvesse provocar o matuto, era só Jairo encostar que todo mundo debandava. Se o matuto entrasse num entrevero, Jairo tomava as dores, e vice-versa.

Vez ou outra os dois brigavam e ficavam dias sem se falarem. O mais curioso era que ambos dormiam no mesmo quarto, e um não dirigia a palavra ao outro. Passamos a ser “inimigos”, mas amigos porque um defendia o outro nas confusões.

Em jumentos com garotes, éramos agueiros (vendedores de água), lenhadores e fazíamos outros serviços para Nemézio. Naquela época não tinha energia elétrica em Piritiba, água encanada e a maioria dos fogões era a lenha. Todo lucro ficava para o dono dos jegues.

Foi assim que o matuto encontrou uma saída para se livrar das humilhações dos atrevidos e riquinhos metidos a bestas da cidade. Quando o matuto terminou o primário foi ser sacristão de padre em Mundo Novo e depois estudar no seminário de Amargosa.

Jairo, o grande amigo valente, já era um rapaz criado, mas não dava para continuar sendo escravo daquele casal que tanto lhe explorou e não lhe deu estudos e bens.

Pobre e sem quase nada, resolveu pegar um pau-de-arara para São Paulo. Tempos depois soube que se meteu em bandidagem na capital paulista e foi assassinado, não se sabe se pela polícia, por algum comparsa traidor ou em alguma briga, pois o Jairo sempre foi “pavio curto”.

 

NORDESTINOS “PAULISTAS”

– Oh, minha tia Zeferina, que animal é aquele no pasto que fica o tempo todo urrando? E aquela fruta pretinha no quintal? E essa ave toda pitadinha?

– Deixa de ser metido a besta moleque! Depois que foi para São Paulo fica aí dando uma de “paulista” e esquece que é um nordestino. Você sabe que é um jumento, teu irmão, que lhe transportou na cacunda quando menino com carga d´água, feijão e mandioca. A fruta é jabuticaba e a ave é um saquê, galinha africana, Severino!

Pois é, esse caso eu ouvi há longos anos do seu Gorgônio sobre certos jovens que se juntavam aos retirantes pau-de-arara e iam para São Paulo no início para os meados do século XX fugidos da seca para não morrerem de fome.

Numa simples analogia, São Paulo era como se fosse a terra prometida e o povo nordestino os judeus escravos que fugiram dos faraós pelo deserto, guiados por Moisés. Nessas retiradas sempre existia um líder para conduzir os famélicos à procura de trabalho e dias melhores.

Contavam os mais velhos que, depois de determinado tempo dando duro por aquelas terras estranhas, muitos retornavam para visitar seu torrão natal e seus parentes com sotaque paulista, com pinta de rico e se fazia de desconhecido das coisas, dos hábitos, das frutas e até dos animais nordestinos.

– Quase sempre os moços abestalhados vinham de lá com um rádio movido à pilha no ombro, com o som na maior altura, com pose de “paulista”. Era a maior novidade da época – me disse certa feita seu Tertuliano.

– Voltavam com aquela lábia de cantadas bregas aprendidas na capital, para conquistar as moças da roça. Muitas se encantavam e ficam mal faladas quando apanhavam barriga. O pai brabo fazia o cabra se casar na ponta do punhal. Outros caiam no mundo depois do assucedido e nunca mais apareciam.

–  Quando pintava por aqui esse tipo “paulista” idiota, a família ficava de sobreaviso e não deixava a filha encostar perto do sujeito, nem dançar com ele num forró – resmungou o velho Tertuliano, que também foi um retirante e gostava de contar casos e causos do sertão nordestino e das épocas de seguidão de rachar o chão, boi berrar de sede na cacimba e criança morrer nos braços das mães, muitas delas viúvas de seus maridos vivos que ficavam por lá e até arranjavam outra companheira.

Os nordestinos arribavam de pau-de-arara deixando tudo para trás, como nos versos de “Triste Partida”, do poeta maior Patativa do Assaré, cantada por Luiz Gonzaga. Quando a chuva molhava a terra e as aves voavam o verde da caatinga, os retirantes faziam o caminho de volta para refazer a plantação.

Os tempos foram passando, e o interessante é que a viagem de retorno, mesmo aqueles que só vinham de férias, visitar parentes ou curtir as festas juninas, era feita de ônibus e não mais de pau-de-arara.

Por falar nisso, alguém aqui já pegou algum ônibus em trânsito vindo do Sul com destino às cidades nordestinas do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba ou outro estado da região?

Certa feita peguei um de Vitória da Conquista a Juazeiro e foi uma loucura! Tive que suportar a noite toda um cara com um rádio na maior altura (agora é tudo no celular ligado numa caixa, sei lá), Dentro do veículo sujo você tropeça ou se bate em tudo quanto é bugiganga, missangas, caixas, sem falar em crianças chorando.

– Seu motorista, manda aquele cara baixar ou desligar o som! Cadê o ar condicionado? Aqui está um calor do inferno! Essa criança não para de chorar – gritam os passageiros! E o cheiro forte da sujeira?

Uma vez um amigo me contou que passou por essa experiência para nunca mais repetir. Atualmente tem gente que traz até drogas nas malas e em caixas falsas de presentes, sem contar que cada um traz sua farofa.

– Ah, nessa viagem me deparei com alguns desses nordestinos ainda com sotaque paulistano, como se renegasse o Nordeste. Deve ser daqueles que não come mais o cuscuz, só hambúrguer e sanduiche. Quanto ao jegue, é até perdoável porque fizeram a malvadeza de matar nosso animal símbolo nordestino.

 

 

 

 

 

 

PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM VITÓRIA DA CONQUISTA É A PIOR POSSÍVEL

Sabemos que é em toda Bahia e, no Brasil também, mas estou me referindo, especificamente, a Vitória da Conquista onde a prestação de serviços é a pior possível. É de matar o cliente de raiva e provocar um estresse que pode até levar uma pessoa a um hospital.

Na maioria das vezes, é cruel o que o vendedor do serviço faz com o cliente logo após a contratação. Você vai a uma loja e adquiri o produto, uma cama, janelas, portas, mesas, peças de cozinha ou outra coisa qualquer. Na hora de vender, o cara lhe trata bem ao ponto de mentir sobre a qualidade do material e seus usos.

O inferno começa no processo de entrega (isto você já pagou a metade ou o total do preço), o funcionário ou gerente da loja lhe promete levar o pedido no outro dia em tal hora pela manhã. Apertos de mãos e o comprador sai confiante e satisfeito, mas depois é só decepção.

O consumidor fica no aguardo ou coloca alguém para receber a compra. O entregador não aparece. Você entra em contato e alguém lhe avisa que não foi possível, só no final da tarde. Acontece a mesma coisa, e nada. O funcionário (a) diz que houve um contratempo e agora só no outro dia.

O que se percebe é que não existe gestão organizada, e a ordem do dono do estabelecimento é vender o quanto puder, com a promessa de entregar logo a mercadoria. Ocorre que “embola o meio de campo”, os passes saem errados e os empregados ficam a bater cabeça. Eles terminam levando toda a culpa.

Quando se reclama, aí aparecem as desculpas fajutas e fecham a cara. Depois da venda, a impressão que se tem é que eles estão fazendo um favor para o idiota do consumidor. Coisa é quando se contrata alguém para fazer o orçamento de um serviço em sua casa.

O procedimento do prestador também não difere. Ele marca um horário e não aparece, ou vem horas depois, até no outro dia, sem lhe dar a mínima satisfação. Essa situação não é apenas das pequenas empresas, com menor estrutura, mas também entre médias e grandes.

Quanto as pequenas, essa péssima prestação de serviços ao cliente é um dos fatores que as levam a ter morte prematura porque não se organizam e aceitam pedidos além da capacidade de atendimento, na ânsia e na ganância de lucrar de uma só vez, aí dão com os “burros n´água”. Por essas atitudes, terminam quebrando a cara, ou seja, fecham as portas logo cedo e ficam a lamentar.

Terror mesmo é quando se contrata um pedreiro ou “empreiteiro” de obra! Ai, meu amigo, haja nervos de aço para aturar a enrolação, as faltas, as sujeiras, a demora em concluir o serviço, as desculpas mentirosas, a falta de consideração e respeito. O indivíduo lhe deixa nervoso ao ponto de lhe provocar um infarto. O mais irritante é que ele acha que está com razão.

Sobre essa péssima prestação de serviços em Conquista, fico aqui a pensar com meus botões a respeito dos ciclos de palestras oferecidas pelo Sebrae! Trabalhei mais de um ano no Sebrae fazendo assessoria de comunicação e cansei de ouvir os papos desses convidados para ensinar o empresariado como ganhar mais dinheiro.

A maioria das conversas é de autoajuda, como o empreendedor ser otimista, não desistir diante das dificuldades, como fazer dinheiro, ter sucesso no negócio e outros blábláblás. Se o patrão só pensa em ganhar dinheiro e explorar a mão-de-obra, dificilmente o empregado trabalha satisfeito.

É preciso ter mais senso humanista. Ouve-se pouca coisa sobre como tratar bem e ser humano com o empregado. Gente não é somente feita de lucro e capital. Com tantas orientações e treinamentos, por que a prestação de serviços é tão ruim? Poucos procuram o Sebrae?

OS COMPADRES (MADRES) DO SÃO JOÃO

Poucos se lembram ou sabem – nem me refiro aqui a essa nova geração – como era o São João na roça onde a principal personagem era a fogueira. Sem ela não existia a festa. As comidas típicas extraídas do milho e da mandioca, o foguetório e o forró eram peças complementares, mas importantes para fechar o ritual da cultura popular.

Além dos forrozeiros para o conhecido arrasta-pé no chão batido, que fazia subir aquela poeira das sandálias e alparcatas, a fogueira era a alegria que fazia compadres verdadeiros para o resto da vida, mais do que aqueles que batizavam os filhos de outros amigos na igreja.

– Olá amigo Zezinho, vamos ser compadres de São João? – Indagava todo contente o João de Diná, que consentia com muito prazer e satisfação. E aí Mariazinha, vamos ser comadres? Vamos sim, amiga Joana de Calixto.

Formados os pares, parceiros ou parceiras, lá pela madrugada, quando a fogueira era só brasas, começava-se o ritual, se não me engano, de juntos pularem três vezes com uns dizeres numa espécie de oração em homenagem a João Batista.

Pronto, os compadres e as comadres se saudavam e selavam o compromisso até a morte. Era um juramento forte e sagrado entre amigos e amigas. Essas cenas de amizades sempre ficaram em minha cabeça, desde quando era moleque e adorava a celebração junina.

A criançada também fazia essa “brincadeira” no outro dia quando a fogueira era só cinzas. Nessa era das novas tecnologias, da internet, das redes sociais e dos ritmos bregas estrangeirados, onde o nosso São João foi descaracterizado, nem sei mais se existe essa tradição cultural na roça.

Lembro quando o dia se tornava noite na data de São João e meu pai recebia os convidados com aquele foguetório e abraços. Os homens e as mulheres chegavam logo cedo montados em seus animais, jumentos, cavalos, burros, éguas e mulas. Era aquela saudação festeira. Os que moravam mais próximo vinham a pés entre as trilhas e estradas de chão.

Todos traziam a canjica, a pamonha, o milho assado e cozido, o beiju, o aipim e outras comidas típicas juninas. Ah, não podia faltar também a cachaça (a pinga), o quentão e o licor. Não tinha a cerveja, mesmo porque não existia a energia e a geladeira. Era tudo na base do fifó e do lampião, ou lamparina, isso para quem possuía.

Para animar a festança, sempre aparecia um sanfoneiro, um tocador de zabumba e de triângulo. Além dos casados, compareciam os solteiros e as moças namoradeiras, mas tudo era feito na base do respeito, nada de dança agarradinha de rostos colados. Isso não impedia de surgir um namoro.

– Olha compadre, sua filha está de olho em meu filho, ou vice-versa. Cuidado com sua cabrita porque meu bode está solto. Os pais ficavam de butuca para os apaixonados não caírem no mato e irem às vias de fato.

Se acontecesse isso, a donzela ficava mal falada, e o rapaz era obrigado a se casar, no mais tardar no outro São João. A vigilância dos pais ainda era maior quando surgia na festa aquele tipo baiano que se debandou para São Paulo e vinha só passar o São João em sua terra natal.

O moço chegava com aquele molejo e sotaque paulista estrangeirado, com um papo de paquerador que aprendeu na capital, todo se achando de rico, se fazendo de não conhecer as coisas nordestinas. – Aquele ali é metido a besta só porque foi para São Paulo – cochichava alguém para o outro.

Às vezes, o cabra se fazia de besta e achava as comidas até estranhas. Algumas roceiras caiam na lábia do safado. Ai, meu amigo, o “paulista” estava ferrado na peixeira do pai brabo. Fora isso, tudo era só festa, cantorias, comidas, bebidas e prosas boas até o dia clarear. Como era bom o São João na roça entre os compadres e as comadres!

ACABOU A FARINHA

(Chico Ribeiro Neto)

Não há pior notícia num domingo de manhã: “A farinha acabou”. E logo hoje que vai ter ensopado de boi com verduras e bastante caldo! Aí não dá. Os melhores lugares onde comprar farinha boa geralmente fecham aos domingos. Farinha de supermercado não presta.

Não sei comer sem farinha. Boto até no macarrão. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Antigamente, quando se queria chamar alguém de pobre e o bacalhau era muito barato, havia o ditado: “Pra quem é, farinha e bacalhau basta”.

Passar na feira, encher a mão com farinha e jogar na boca ZAP é uma forma de testar a qualidade da farinha. Outros a testam na palma da mão pra ver se está mesmo torrada.

Quando mamãe Cleonice morava em Aracaju, eu levava farinha de Salvador toda vez que ia lá. “A farinha daqui parece uma crueira”, queixava-se ela.

Há uma definição da farinha feita por um nordestino, citado uma vez pelo apresentador Rolando Boldrin: “Farinha presta pra três coisas: aumenta o que tá pouco, engrossa o que tá ralo e esquenta o que tá frio”.

Meu filho Mateus, quando era pequeno, na praia de Piatã, gostava de encher a boca de farofa, olhar pra sua cara e dizer a palavra “fofa”.

Quem não lembra do “mingau de cachorro”? Ninguém come bem sem farinha ou sem um bom molho de pimenta.

Tenha sempre em casa dois quilos de farinha. Quando um acabar, tem outro.

(Veja crônicas anteriores em leiamais.ba.com.br)

 

O PÔR-DO-SOL, AS CABRAS E O LIXO

Nas cidades grandes existem muitas cenas visíveis que se tornam invisíveis porque os olhos das correrias ficam cegos para o olhar mais apurado da coisa existencial. No entanto, as imagens que brotam das lentes poéticas nos fazem enxergar o invisível para muitos que passam e não observam. É o caso desse pôr-do-sol, das cabras pastando no final da tarde e o lixo dos humanos mal-educados na Avenida Sérgio Vieira de Mello, no Bairro Sobradinho, em Vitória da Conquista, que se localizada na boca do sertão, na saída para Anagé. Se pararmos um pouco e esquecermos os problemas da vida cotidiana por alguns instantes, vamos ouvir também o canto dos pássaros em algum lugar, como nas praças e avenidas arborizadas. Num semáforo ou numa árvore, você pode até descobrir um ninho de passarinho, uma casa de João de Barro e até uma coruja solitária na comieira de uma casa ou de um prédio. Basta uma pequena parada para uma reflexão dos sentidos numa rua ou banco e você vai escutar o silêncio do ronco dos motores e a agitação estressada do povo. Os gritos podem ser só sussurros.  O pôr-do-sol e as cabras celebrando suas últimas refeições do dia me fizeram lembrar o cenário roceiro do campo onde o sertanejo faz parte desse conjunto bucólico, menos o lixo que, infelizmente, é uma caraterística das cidades, sobretudo as de médio e grande porte. Nos centros urbanos, a grande maioria nem vê a lua cheia passar, muito menos o luar pratear o terreiro, o quintal e a serra. A poesia e a vida se perdem no progresso, e este é o preço que se paga pela corrida do ouro. Fico com o pôr-do-sol e as cabras. Rejeito o lixo que agride nosso meio ambiente.

CARA DE IDIOTA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O país exporta

Grãos do agronegócio,

A fome bate na porta,

E eu nem sou sócio.

 

A violência risca

O sangue na pista,

E me chamam de comunista.

 

O patrão explora,

O trabalhador implora,

A viola nos consola,

A bandeira é verde-amarela,

E todo mundo passa o tempo

Grudado na tela

Das redes sociais,

Enquanto os ricos

Aumentam seus capitais,

E eu aqui com cara de idiota,

Dando uma de patriota.

 

Uns numa mansão de jardim,

Outros comendo capim.

 

Nos semáforos

Os espaços são de aços

De pedintes famintos,

Nas favelas voam balas,

Nos labirintos.

 

O pobre em seu canto

Ora para seu santo protetor,

E no posto de saúde

Falta o safado doutor;

Na escola jogam pedra

No idealista professor.

 

A gente é manada do senhor,

E a igualdade tão sonhada,

A elite nos roubou.

 

O nordestino padece

Na igreja com sua prece,

E eu aqui com cara de idiota

Dando uma de patriota.

 

 

O BRASIL É ASSIM…AOS TRANSCOS E AOS BARRANCOS NA BANGUELA

Desde que foi invadido pelas esquadras de Pedro Álvares Cabral há 525 anos, a terra de Vera Cruz ou Brasil vem sendo tocada aos troncos e barrancos, de altos e baixos. Muitas vezes, mete-se uma banguela para pegar a ladeira. Sobrevive à base de escândalos, corrupção e até sob efeito de psicotrópicos.

Depois de mais de 500 anos, e hoje com 200 milhões de habitantes, está no topo dos países com o maior percentual no índice de cobrança de impostos, cerca de 28% do Produto Interno Bruto (PIB), o que significa dizer que conta com uma elevada arrecadação de recursos que o colocaria no rol das nações desenvolvidas.

O Brasil é ainda a oitava ou nona economia do mundo e, por contradição, um dos mais atrasados na educação, com um dos índices de desigualdade social mais profundo onde o cidadão recebe o mínimo em termos de prestação de serviços. É ainda o país com uma das maiores concentrações de renda nas mãos de poucos. Ainda é a oligarquia quem manda nas decisões.

Pois é, o Brasil é assim, com muito dinheiro arrecadado do povo, onde uma grande parte fica com os três poderes, principalmente o legislativo, gasto com os malfeitos, e o que sobra se perde no ralo por falta de um planejamento sério nos investimentos. Para comprovar isso, existem milhares de exemplos.

Vamos somente aqui centrar fogo na construção de obras, milhares delas paradas e superfaturadas. Enquanto na China ou em outros países europeus, por exemplo, se faz uma ponte de 300 a quinhentos metros em um mês, no nosso Brasil leva-se mais de um ano, com custos quatro a cinco vezes maiores, contando aí os aditivos e roubos durante a demorada construção.

Agora mesmo, uma ponte com sua estrutura condenada sobre o Rio Jequitinhonha, se não me engano na BR-101, que não ultrapassa 500 metros, demandará um ano para ser construída, segundo informações do próprio Denit- Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. A China faria em menos de um mês.

Outro exemplo onde o Brasil vai sendo administrado aos trancos e aos barrancos é o escândalo referente à Via Bahia, concessionária das BR-116 e 324, que passou anos enchendo os bolsos de dinheiro com os pedágios e não cumpriu com o que estava previsto no contrato, de pelo menos duplicar toda pista de Feira de Santana a Cândido Sales passando por Vitória da Conquista.

A única coisa que a empresa fez foi a duplicação de Feira até o povoado de Paraguaçu, pouco mais de 70 quilômetros. Não deu a devida manutenção da pista e ainda embolsou 900 milhões de reais do governo federal (dinheiro do povo) para desistir do contrato.

Agora o Denit está gastando os tubos para consertar o asfalto e deixar tudo beleza para realizar uma outra licitação, senão empresário nenhum participará do leilão. A vencedora deverá fazer o mesmo, e o Brasil passa anos e anos nesse empurra-empurra vivendo aos trancos e aos barrancos.

Lembro quando foi feito o Anel Viário de Vitória da Conquista. Na época entrevistei o deputado federal Coriolano Salles sobre as emendas para a obra e ele dizia que constava do projeto a construção de viadutos e passarelas nos acessos à cidade.

São mais de 20 anos e nada foi realizado. Agora vem o Denit e o Governo do Estado com a promessa de fazer a duplicação da BR-116 até o aeroporto de Conquista além dos viadutos nos contornos. Dá para acreditar nesse papo político? Durante esse tempo, muita gente morreu nos acidentes.

Quando terminaram o aeroporto de mais de 10 anos de duração, a licença para seu funcionamento somente seria liberada se fizesse um viaduto no cruzamento da BR-116. Para desenrolar a autorização, o próprio Governo do Estado garantiu que iria construir o viaduto. São mais de cinco anos e lá está um armengue da Via Bahia que levou todo nosso suado dinheiro.  É assim, o Brasil só vai aos trancos e aos barrancos.

SEJA BEM-VINDO À “SUÍÇA BAIANA”

É, meu amigo companheiro, a onda agora é chamar Vitória da Conquista de “Suíça Baiana”, nas propagandas da Prefeitura Municipal, inclusive nos noticiários da mídia. Caímos mesmo no ridículo! Até parece que não estamos no agreste nordestino.

Para muitos, infelizmente, aqui não é Nordeste! Botaram o nome de sudoeste quando o correto seria sudeste. Vitória da Conquista é outra coisa controversa. Se já é Vitória, para que essa de Conquista? Pois é, são polêmicas que sempre estão em rodas de conversa.

– Bem, já que é assim, para o visitante e turista, seja bem-vindo à nossa fria terra “Suíça Baiana” onde faltam médicos, medicamentos e outros produtos nos postos de saúde. Muitas unidades, principalmente na zona rural, são precárias, algumas fechadas e outras necessitando de urgentes reformas.

-Seja bem-vindo à “Suíça Baiana” onde escolas e creches não funcionam adequadamente. O transporte escolar é problema. Para as crianças e jovens com alguma deficiência não existem professores especializados para o acompanhamento individual. Vez ou outra, mestres entram em greve reivindicando melhorias.

– Seja bem-vindo à Suíça Baiana onde os equipamentos culturais, como o Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha estão fechados há anos e o tempo se encarregando de destruir o que ainda resta. Os artistas estão sem espaços para realizar seus ensaios e espetáculos.

Não temos um Plano Municipal de Cultura que norteie as diretrizes de uma política para o setor que foi sepultada pela prefeita. O nosso Conselho Municipal de Cultura não atua a contento. O patrimônio histórico arquitetônico foi derrubado e alguns casarões carecem de manutenção.

O mais vergonhoso é que numa cidade de cerca de 400 mil habitantes, a terceira maior da Bahia, não existe um museu municipal que conte sua história, boa parte perdida. Os dois pequenos e acanhados museus, o Regional e o Padre Palmeiras, são da administração da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia -Uesb.

Seja bem-vindo à “Suíça Baiana” onde a prefeita cometeu o maior pecado e absurdo de terceirizar a tradicional festa junina, expulsando o nosso autêntico forró pé de serra, o arrasta-pé, para dar lugar ao axé, o arrocha, o sertanejo e outros ritmos de cantores de letras lixo, sem conteúdo.

O nosso sagrado São João cultural, com danças, fogueiras, bebidas e comidas típicas foi banido para dar espaço ao estilo elitizado carnavalesco com camarotes, muito barulho, zoeira e rebolados no palco de mulheres seminuas.

Os artistas e as bandas locais ficaram com as migalhas dos recursos. Os cachês dos carnavalescos Leu Santa, Ivete Sangalo e Wesley Safadão são de 400 a 500 mil reais e são pagos antecipadamente pelo povo. Os outros recebem depois de forma parcelada.

Seja bem-vindo à nossa “Suíça Baiana” onde o transporte público é deficitário, com ônibus velhos e que rodam superlotados. Os usuários sofrem nos pontos dos “buzús” com os atrasos. Não existe uma infraestrutura eficiente para atender a demanda da população que cresceu nos últimos 30 anos.

Seja bem-vindo à “Suíça Baiana” onde o abastecimento de água regularizado ainda é uma incerteza depois de anos de racionamento. O projeto de construção de uma nova barragem se arrasta há mais de 10 anos. Quando bate a seca, os habitantes ficam apreensivos diante da possibilidade de escassez de água.

 

É essa a nossa “Suíça Baiana” onde a temperatura mais baixa alcançada no ano fica em torno dos 8 a 10 graus. Sua altitude é de 900 a mil metros. Aqui não temos os Alpes gelados dos esquis, mas temos a Serra do Periperi que foi arrasada pela predadora e destruidora mão humana. O meio ambiente foi destruído.

Seja bem-vindo à nossa “Suíça Baiana” onde prevalece, como em todo Brasil, uma profunda desigualdade social e uma alta concentração de renda entre poucos. Nos semáforos, praças e avenidas, pedintes e crianças vendem balas para sobreviver.

É, meu amigo camarada, mas em nossa “Suíça Baiana” vamos ter praia com ondas em sofisticadas piscinas, somente para os ricos. Os pobres vão para a prainha de Anagé, do Rio Gavião, distante pouco mais de 50 quilômetros, em pleno agreste sertanejo.

Vamos ter a vantagem porque na “Suíça da Europa” não tem praia, só gelo.  Temos aqui uma feirinha livre no Bairro Brasil que é uma belezura de produtos da agricultura familiar e um mercado para comer um bode, um mocotó ou uma deliciosa buchada, que os suíços não têm por lá. Ganhamos na bagunça.

 

COISA DE LOUCO!

Depois de tantas que já fiz em minha vida de andanças por essa Bahia, somente agora com essa idade vim cair na real de que mudança é mesmo coisa de louco! O processo maluco começa quando você vende sua casa ou resolve trocar de aluguel para outra residência.

Durante a venda e a compra, a pessoa encara uma tremenda burocracia de papéis e pagamentos de impostos. O inquilino também sofre porque o dono do imóvel exige fiador ou caução. E a procura de outro local que lhe agrade? Nesse início de caminhada você já se sente estressado e aí vem o esgotamento.

Calma, que ainda tem muita confusão por vir. Quando se encontra a moradia, a gente acha que os problemas se acabaram. Que nada, meu camarada, ainda tem muitas léguas para percorrer! Sua irritação e raiva só estão começando. Haja nervos de aço para suportar as contrariedades!

Na maioria das vezes, o maluco da mudança se agrada com a “nova” residência, fica todo alegre e até comemora com os amigos, mas quando entra, aparecem os pepinos, e os maiores são aqueles referentes à parte hidráulica e elétrica. Essas questões não são visíveis no primeiro olhar. É como adquirir um carro usado na mão de terceiro.

E o dia ou dias da mudança dos bagulhos com o transportador? É outro tormento! Bom mesmo é pobre que mora num barraco porque contrata um carroceiro e leva os panos de bunda de uma só vez. Pior que a arrumação é a desarrumação. Por mais que a pessoa seja organizada, termina se perdendo e passa semanas procurando as coisas, muitas delas quebradas.

A única mudança onde você não leva nada é na morte. Essa a família lhe despacha num caixão e joga a terra por cima. Durante a vida, a mudança para a morte é a última. Quanto a nova moradia, ninguém sabe decifrar. Existem apenas conversas.

Bem, de volta ao assunto material cruel, imagine quando se é obrigado a fazer algumas reformas no “novo” imóvel? A esta altura o camarada já perdeu o juízo e aí vai ter que pagar um psiquiatra para se tratar. Quando se está nessa reta de quase chegada ou final da trabalheira, o agente da mudança descobre que a prestação de serviços em Vitória da Conquista e na Bahia, principalmente, é de péssima qualidade.

Não vou mais descrever sobre o inferno que é uma mudança porque todo ser humano já conhece isso muito bem e até evita   pronunciar esta palavra. Além de ser coisa de louco, mudança é sinônimo de agonia, de estresse e esgotamento físico e mental.

É trauma que se leva para o resto da vida. Quem já não passou por isso? Não existe mudança sem dor e, por mais que se faça, nunca se aprende como fazer uma sem problemas. Cada mudança vem cercada de transtornos e imprevistos. É coisa de louco!





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