ENERGIAS POSITIVAS E OS BORDÕES
Existem entrevistas na mídia sobre determinados assuntos onde os personagens sempre soltam aqueles bordões que já se transformaram em marca registrada, inclusive por parte do entrevistador que, muitas vezes, faz aquela pergunta imbecil de deixar qualquer um de queixo caído.
Muitas falas saem da boca de turistas endinheirados que estão passeando numa boa, sem tantas preocupações como a maioria do trabalhador brasileiro que recebe um salário mínimo e faz milagres para atravessar o mês, com uma feira regrada e ainda pagar as contas. Trata-se de uma dura realidade da nossa profunda desigualdade social.
– Aqui é uma maravilha de beleza. Essa gente é acolhedora e hospitaleira. Sinto fortes energias positivas nesse lugar – diz o turista ou a turista para o repórter. É claro que tudo é muito bonito porque a pessoa já chega com um pacote ou uma lista na mão para visitar os centros históricos e os lugares mais aprazíveis da natureza.
Turista não pega ônibus lotado, trânsito engarrafado no horário do rush e nem chega perto das periferias para ver barracos pendurados nos morros, ruas sujas de lixo e esburacadas. Em Salvador, por exemplo, com tantas festanças e exotismos, o visitante de fora fica deslumbrado e tome “energia positiva”.
É claro que o vendedor ambulante, o guia e até o morador têm que ser receptivos porque estão de olho na grana do gringo ou do visitante de outro estado, daí essa coisa de energia positiva, sem falar que o turista está ali curtindo o seu luxo.
De pau para cassete, quando a questão é violência brutal, bárbara e fútil com mortes, seja do lado militar ou civil, o que mais se ouve dos membros familiares mais próximos da vítima, com olhos lacrimejantes de tanto chorar, são as frases “que a justiça seja feita” ou “queremos justiça”, que nunca chega ou tarda a chegar a passos de cágado.
Por sua vez, as autoridades soltam aqueles bordões de que tudo será apurado e investigado o mais rápido possível, doa a quem doer. Isso acontece muito quando um policial comete um desatino, um desvio de conduta e abuso de autoridade. Muitas vezes incriminam um inocente para ficarem livre do caso.
– Uma delícia de sabor, um manjar dos deuses. Esses termos com gestos nos olhos e nos lábios de saboridade e deleite são de repórteres quando provam uma receita alimentar feita por um chefe de cozinha. Já ouviu alguém dizer que o bolo, o pudim ou um prato qualquer estão sem sal, gosto diferente e o tempero está forte? O paladar sempre está na ponta da língua.
E entrevista com jogador de futebol? Ele sempre passa o dedo no rosto, a mão no pescoço ou na cabeça e fala um monte de besteiras repetitivas desconexas. Quando ganha o jogo ou faz o gol, foi Deus quem fez ou foi a mão de Deus. Só falta dizer que foi o pé Dele. Até parece que Deus é torcedor do tipo “folha seca” que está sempre mudando de lado.
Por falar em futebol, também existem aquelas perguntas idiotas por parte de “profissionais” da mídia esportiva. Certa vez um coleguinha perguntou para o técnico como ele está vendo o jogo. Como estava perdendo e irritado, de pronto o cara respondeu: Estou vendo daqui do outro lado das quatro linhas. “E aí Baiaco, sem você, como o Bahia vai ficar? Comigo ou sem migo, meu time vai ganhar.
Existem outros bordões que não falham nunca em reportagens que mostram a natureza do lugar, tais como: É uma paisagem deslumbrante, de tirar o fôlego. Têm ainda aquelas entrevistas onde o repórter diz tudo que o entrevistado ia falar. Não faz uma pergunta.
São tantos outros bordões que as pessoas falam maquinalmente, inclusive nas festas de final de ano, que não vou ficar aqui enchendo o saco de vocês, sem falar em perguntas cretinas, como indagar para um presidiário lascado numa cadeia suja fedorenta se ele vai bem. “Como está, tudo bem? Dá vontade de mandar para aquele lugar que ninguém que ir.
CASSIUS, BRUTUS E DECIMUS
Intrigas palacianas, ciúmes, inveja ou em defesa da liberdade e da República contra Julius César, um ditador tirano que almejava ser rei quando retornasse da Guerra Parta? O assassinato mais famoso da história de Roma de um conquistador que cruzou o Rio Rubicão na Gália Italiana, em 49 a.C., contra as ordens do Senado, é cheio de interrogações pelas antigas fontes que narraram o acontecimento.
Cassius, Brutos e Decimus, que serviram a César e por anos lutaram ao seu lado, foram os principais conspiradores que apunhalaram o poderoso em de março de 44 a.C., conforme descreve o historiador Barry Strauss em sua obra “A Morte de César”. Segundo ele, uma das fontes mais confiáveis é o do escritor Nicolaus de Damasco.
Outra versão diz que a clemência e o privilégio dado por César os seus inimigos durante a Guerra Civil, entre 49 a 45 a.C. foram outros motivos que levaram seus algozes a cometerem o terrível assassinato.
Sobre Gaius Cassius Longinus, Barry destaca que em janeiro de 45 a.C. ele aceitou a César como “um velho mestre, relaxado e tolerante”. Pouco mais de um ano depois, em fevereiro de 44 a.C., Cassius decidiu-se por matá-lo. “É improvável que a conspiração pudesse ter acontecido antes de fevereiro. Um dos motivos para isso seria a falta de incentivo: César não depusera os tribunos do povo nem rejeitara a coroa até fevereiro”.
Cassius se orgulhava de ter tido vários cônsules em sua família, inclusive seu pai, um homem que fora derrotado em combate pelo gladiador rebelde Espártaco. Em 53 a.C., ele viveu seu grande momento no Oriente Romano.
Serviu como governador-tenente e comandante substituto para Marcus Licinius Grassus, o governador da Síria. Tal como a maioria dos governantes romanos, ele era um homem ganancioso. Cassius extorquia os provincianos. Ele chegou a invadir a Judéia e dizem que escravizou cerca de trinta mil judeus.
Quando adveio a Guerra Civil, ele apoiou Pompeu. Em 48 a.C., Cassius recebeu o comando de uma frota naval que ele empregou contra as forças de César, na Sicília e no sul da Itália. Sua deserção foi uma grave ofensa e um insulto para os filhos de Pompeu. Mesmo assim, ele pôde dizer que continuava a servir à República ao promover a paz. César deu-lhe boas vindas e fez dele um de seus generais.
Quanto a Marcus Junius Brutus, o autor da obra afirma que ele foi essencial para a conspiração contra Julius César. “Não fosse Brutos, não haveria assassinato. Os conspiradores insistiam em sua presença. Diziam que seria preciso um rei para matar a um rei. Pelo menos, Brutus era praticamente um príncipe republicano”.
Supostamente, ele provinha de uma das mais antigas famílias da República: aquela que destronara reis. Ele contava com um registro público de mais de uma década de defesa da liberdade e oposição à ditadura. Em 54 a.C., por exemplo, ele se pronunciou contra uma proposta de concessão de uma ditadura a Pompeu.
Dois anos mais tarde, ele argumentaria que um homem que cometesse um assassinato pelo bem da República deveria ser considerado inocente. De acordo com Nicolau de Damasco, ele foi respeitado durante toda sua vida pela clareza de sua mente, pela fama de seus ancestrais e por seu caráter supostamente razoável.
Na versão do grego Plutarco, Brutos e Cassius recrutaram Decimus Junius Brutus Albinus. Para Strauss, o historiador da obra, pode ter sido o contrário. “Uma coisa é certa, Decimus desempenhou um papel central. Se Brutus foi o coração da conspiração e Cassius foi o cabeça, Decimus foi seus olhos e ouvidos”.
Decimus era um amigo íntimo e confidencial de César. “ O autor antigo que enfatiza o papel de Decimus na conspiração contra César é Nicolaus de Damasco, ao qual Shakespeare jamais leu. Ele tampouco leu Cassius Dio ou as cartas de Cícero, outras fontes que atribuem importância a Decimus”.
Segundo Barry, foi Decimus quem César escolheu para acompanhá-lo ao jantar na noite de 14 de março. “Decimus era a melhor fonte de informação quanto aos pensamentos e planos do ditador e a melhor esperança de mover César para qualquer direção que fosse necessária. Ele é amplamente reconhecido pelas fontes antigas como um dos principais agentes da conspiração”.
Aos trinta anos de idade, ele tinha um registro brilhante. Era um nobre de pedigree impecável e um dos confidentes de César. Foi um grande comandante na Gália, tanto na Guerra Gaulesa como na Civil. Ele chegou a governar a província para César, entre 48.a.C e 45. Tudo indica que ele também tenha sido pretor em Roma.
DE VERSOS E DE SONHOS
(Chico Ribeiro Neto)
Meu sonho tá escrito
num pergaminho
ou no guardanapo manchado de vinho.
Meu sonho mora num ninho.
Tá escrito nos olhos dos netos,
nas borboletas, nas grutas
e no mais escondido cantinho.
Meu sonho é desafio,
tá no mar ou no rio?
Debaixo da lama ou da cama?
Meu sonho pega um bonde nas Mercês
desce o Elevador Lacerda
e pega um avião pra Xangai.
Está no pião rodando na mão,
na Assunção e na floresta dentro da noite.
Meu sonho é perdido e achado,
por isso eu o guardo.
Meu verso é a matinê da alma
que me acalma.
Passeia no alambrado do estádio de futebol,
entre o dó e o si bemol.
Tá entre o errado e o certo,
entre a corda e a caçamba,
entre o visto e o coberto.
Meu verso é caminho.
Está no movimento do barco ancorado,
no grito do afogado
e na alegria do primeiro mergulho.
Meu verso gosta
do caderno espiral,
da escrita matinal
e da letra bem feita,
igual a roupa nova.
Está no buzo encostado no ouvido,
no grito do porco ao receber a primeira facada,
naquela flor que ninguém sabe o nome
e no choro da criança com fome.
Meu verso mora na lágrima do palhaço,
na cachaça do peão
e no bêbado que canta “Dolores Sierra”.
Meu verso brinca de se esconder
debaixo da saia da morena.
(Um 2025 de paz a todos os meus leitores)
MUNDÃO DO PROGRESSO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Êta mundão do progresso!
Que deixou meu verso,
Quebrado na beira da estrada,
Só se ouve o ronco do motor,
Valei-nos, oh Deus, Nosso Senhor!
Não passam mais as boiadas,
Nem os tropeiros estradeiros,
Com suas missangas e bruacas,
Abrindo cancelas e estacas,
Subindo e descendo ladeiras,
Nos mata-burros das poeiras.
Êta mundão do progresso!
Está tudo virado pelo avesso,
Entra tecnologia, sai a razão,
Mas ainda sobrou uma nesga,
De crença, amor e religião,
Nesse meu vasto sertão,
E eu aqui só de bobeira,
Vendo gente dando rasteira.
Êta mundão do progresso!
Não se vê mais rezadeira,
Coisa difícil é mulher rendeira,
Estão acabando com nossa tradição,
Mataram até nosso São João,
Está indo nossa cultura do ler,
Trocada pelo celular na mão,
Só se tem tempo para o vil ter,
E esqueceram do nosso ser.
FELIZ ANO NOVO, OU FELIZ MEU VELHO?
Mais um ano que se passa e, cronologicamente, a terra, o tempo e a humanidade vão ficando mais velhos em linha reta ao seu fim. É como um aniversário onde a partir de cada ano nos tornamos mais idosos. Pelo menos nós somos finitos. Quanto ao universo, não sei.
Com isso, não estou aqui condenando os “bordões” Feliz Natal e Feliz Ano Novo porque têm o sentido do desejo que sejam melhores para todos. Não se trata de expressar tristeza, mas apenas uma reflexão crítica, fugindo um pouco do deboche e do sarcasmo.
Veio-me agora à mente a reforma do calendário instituído pelo ditador romano Julius César, isto por volta do final de 46 a.C. O calendário lunar de Roma, baseado em uma no de 354 dias, se encontrava fora de sincronia com as estações do ano. César, então, fez uma reforma que marcou época ao implementar o calendário solar, com o ano de 365 dias, mas um bissexto a cada quatro passados. O novo calendário teve início em 1º de janeiro de 45.a.C.
Pois é, mas, mesmo que não fossem feitas essa e outras correções (século XVIII), o tempo em si continuou correndo em seus passos cadenciados, como no tic-tac da invenção do relógio, com altas e baixas na cadeia evolutiva ou decadente da humanidade. Os ponteiros continuaram a girar dando suas badaladas silenciosas.
Infelizmente, vivemos uma época conturbada em nossas vidas onde o ser humano está em baixa em seu grau humanista, embora nos orgulhemos do progresso e da evolução tecnológica que têm seu alto preço a pagar. Quando nos referimos sobre cultura, conhecimento, saber, solidariedade, individualismo e egoísmo, ouvimos muito a frase “decadência da humanidade”.
Estamos num planeta em ebulição em termos de tragédias naturais e humanas com guerras genocidas. Os holocaustos se repetem. Muita gente ainda não acredita que estamos em pleno aquecimento global, mesmo os cientistas registrando recordes de temperaturas. Triste que este cenário não tende a melhorar.
Dizem que a última década foi a mais quente da história, tudo por conta da destruição da natureza e a elevação do nível de gases tóxicos no meio ambiente. Essa depredação vem ocorrendo há séculos e sempre digo que não existe mais retorno para deter o fim da humanidade no planeta terra. Ela sobrevirá, nós não.
Alguém a essa altura que está lendo meu texto pode estar avaliando que estou sendo macabro na passagem do ano. É que procuramos manter certa distância da realidade e da verdade. Talvez por isso é que, inconscientemente, emperramos as mudanças. Não é apenas desejar melhorar.
Não é o Ano Novo, ou Velho pela idade do tempo, que vai parar as guerras e a onda desenfreada de violência, cada vez mais bárbara, brutal e cruel. Não é o Ano Novo que vai reduzir a fome e a pobreza de quase um bilhão de habitantes terráqueos.
Todas as datas, sejam lunares ou solares, são motivos para festanças e comemorações como faziam as antigas civilizações passadas. Nesse aspecto, herdamos esses costumes e hábitos da nossa ancestralidade, o que é natural. Somos dionisíacos.
São motivos para tomarmos umas cachaças, quentes ou geladas, enchermos a pança, nos abraçarmos, nos alegrarmos, confraternizarmos, nos embebedarmos, cairmos nos bacanais e orgias e desejarmos um Feliz Ano Novo. No outro dia é vida que segue, e para tudo falta tempo, até para responder uma mensagem.
Natal e Ano Novo são épocas de aplacarmos os sentimentos ruins de raiva, brigas e xingamentos, sem ressentimentos. Esses comportamentos podem soar como falsidade, mas é assim que agimos, adiando as respostas ácidas para depois.
Portanto, Feliz Ano Novo para todos. Só paz e amor, e que essas duas palavras perdurem durante todo ano, mas, infelizmente, não é assim, meus caros amigos, que a banda toca. Pode ter certeza que ela vai sempre desafinar. É a ordem natural das coisas e da vida que não pode ser revertida. Pelo menos, procure ser melhor um pouco.
VOU ME EMBORA PARA SODOMA
Que me desculpe o nosso grande poeta pernambucano Manuel Bandeira, mas não vou me embora para Passárgada. Eu vou mesmo é para Sodoma, e nem importa se serei queimado pelo fogo ardente do seu Deus, só não quero é virar estátua de sal.
Em Sodoma, meu amigo, tem festa o ano inteiro e um montão de baticum na maior altura de músicas lixos que perfuram o tímpano de qualquer um. É loucura total! A massa alienada é só uma multidão que tira o pé do chão e grita com histeria ao som estridente dos rebolados dos cantores de uma estrofe só. É o Tchan! Tchan! Tchan! Vou na dancinha na boca da garrafa! “Sabe nada, inocente!
Lá, meu caro Bandeira, também tem mulheres de fartura, energias gostosas, principalmente para o gringo estrangeiro que entra na muvuca e fica doidão. Rolam muitas drogas e descem todos das ladeiras, de todos os cantos da cidade, como águas de cachoeiras, para adorar seus ídolos de cultura fútil artificial.
Vou mesmo é para Sodoma onde não preciso de talheres para comer. Meto minha mão grande e vale mais aquele papo cheio de gírias e gingas, prosas boas, para convencer meu parceiro ou minha parceira.
No litoral, tem praias apinhadas de biquínis e tangas, e nem estou aí para os pecados. Quero mesmo é me esbaldar. Ninguém liga para as sujeiras. Lá serei rei na minha rede, com sombra e água fresca de coco, dando uma de bobeira. Passo o tempo nas nuvens mirando o azul do céu escaldante e as ondas do mar. Tem sol para cada um.
Ah, ia me esquecendo! Tem ainda o carnaval e entro naquela devassidão do arrastão atrás dos trios elétricos ensurdecedores do axé e do arrocha. Vale tudo, e ninguém nem importa quando a polícia baixa o cacete nos brigões. É tudo liberal!
Dizem que lá tem a melhor festança do mundo. Não vai demorar para todo mundo cair na folia pelado, numa boa. É tudo exótico no rufar dos tambores durante uma semana. Os pobres caem dentro do fuzuê do asfalto e os ricos ficam olhando tudo lá de cima dos seus camarotes de bacanais e orgias. Não tem conversa de intelectual para encher o saco de ninguém.
É isso aí, já decidi e vou mesmo para Sodoma, me esbaldar na depravação dessa zorra, sem culpa de pecado. Quem não gostar que vá para a porra, e de lá estou seguindo para Gomorra, sem olhar para trás, curtir aqueles morros e ser abençoado pelo Cristo Redentor. Quem quiser que me siga.
O VELHO, O NOVO E OS BANHOS
Longe de mim contestar as crenças e superstições feitas na passagem de um ano para o outro, com o sentido de descarrego das más energias, como as pessoas geralmente acreditam.
Na verdade, herdamos essas porções culturais desde as civilizações mais antigas dos nossos antepassados, não importando se vivemos na era evolutiva da tecnologia virtual e agora da inteligência artificial.
Na noite da passagem do bastão do velho para o novo – uma data como qualquer outra – brindamos e saudamos essa entrada como se estivemos atravessando um portal com significado de renovação. O relógio continua marcando seu tic-tac. O tempo não para, como diz a canção do poeta. Sem essa de velho e novo, de novo e velho. Tudo dá no mesmo, se tudo continua no mesmo lugar. O negócio é curtir e farrear que ninguém é de ferro, como faziam os sumérios, os celtas, os romanos e outras civilizações.
Esquecemos que o novo nos torna mais velho, como uma criança que acaba de dar a luz, ou nasce do ventre da barriga da mãe. Para saudar esse novo/velho, cada um tem sua cor preferida, na maioria o branco da paz, o vermelho da paixão, o verde da esperança, o amarelo ouro da prosperidade e assim segue cada uma tendo seu significado e sua crença.
– Só não pode é usar o preto e o roxo, meu camarada! Podem dar azar. Por que, então, não misturar e vestir todas as cores? Assim a pessoa seria uma felizarda por ter tudo junto de uma só vez durante todo ano. Não seria mais coerente ter um pedaço de cada cor?
Um amigo meu foi mais longe na ousadia e disse que a pessoa que veste branco no Ano Novo também está de calcinha ou cueca da mesma cor, para não contrariar a entidade.
– Que nada, cara, pode ser azul, vermelho, verde ou rosa para unir as bênçãos divinas.
– Pode também estar sem nada por debaixo. Depende das intenções individuais de cada um – respondeu o outro ao lado que estava ouvindo o “jogar conversa fora, ou o papo furado e fútil.
E essas coisas de lentilhas, de nozes, avelãs, passas, castanhas e outras comidas importadas? Cada um também tem o seu lugar e significado de prosperidade. Não pode é comer galinha, senão vai ficar o ano todo ciscando, ou caranguejo que anda para trás.
– Lá vem você novamente com essa! Talvez por isso é que o pobre só vive lascado. Prato de pobre é feijão, arroz, farinha e um pedaço de carne, isto quando acha. Não tem também essa de cor.
– Que nada, atualmente existem as cestas básicas e as doações, pelo menos no Natal e no final de ano. Depois volta para a rotina do feijão com arroz, ou uma bolacha num copo de água, que nem é potável.
Nessa época também são recomendados os banhos de folhas para descarrego, limpar o corpo e entrar Ano Novo com novas energias para ter boa saúde, ganhar dinheiro e ficar rico.
– Bobagem! Essa é uma invenção de pobre e malandragem de vendedor, para ganhar uns trocados a mais e tomar umas cachaças. Tem gente ruim, miserável, mão de vaca, avarento e egoísta que não tem banho que tire suas energias negativas.
– É bicho, pior que nessa você está certo. Tem gente que tem que tomar banho é de cansanção, caiçara, urtiga, espinhento ou mato brabo.
– Banho que nada! Corrupto, fanático extremista e malfeitor de colarinho branco precisam tomar é uma surra dessas ervas, e que sejam bem venenosas, para matar a carne e o espírito, sem deixar vestígio na terra.
– Olha, meu irmão, o papo está bom e foi bem cultural, coisa de intelectual, mas vamos mesmo é tomar umas e comer aquele leitão gorduroso, acompanhado de colesterol por todos os lados, que está nos esperando na mesa. Se demorarmos, não sobra nada! Vixe! Estamos com cores diferentes, ficando mais velhos e sem banho de folhas. Feliz Ano Novo!
A MORTE DE CÉSAR
ROMA ANTIGA E O ASSASSINATO MAIS FAMOSO DA HISTÓRIA.
Como ditador perpétuo por dez anos, Gaius Julius César (100 a 44 a.C.), foi um dos maiores conquistadores da história; contrariava e não gostava do Senado; detestava a velha nobreza romana; era admirado pelo povo para o qual lhe concedeu benefícios e depois se voltou contra ele; ostentava poder e riqueza; tinha vários inimigos; e aspirava ser rei. Ele se considerava um dignitas (dignidade, valor e honra). Tudo isso lhe custou a vida em 44 a.C.
Pela sua trajetória como um dos maiores conquistadores que expandiu o Império Romano por quase toda Europa, da Irlanda, Norte da África, Grécia, parte da Ásia e Oriente até as cercanias do Irã, foi considerado um semideus ou deus dos romanos. Foi o pivô de uma guerra civil (49 a.C.), mas o Senado lhe encheu de honrarias e bajulações, incitando-o a ser rei. César zombou dos Tribunos do Povo, provocando a ira da plebe; sabotou eleições; esnobou riquezas; e terminou estimulando o ódio de conspiradores que queriam sua morte.
Julius César era um populista e foi um dos primeiros na história a criar um tipo de política pública para os pobres quando reduziu os aluguéis, deu terras e criou um sistema de assentamento para os colonos. Disse que os romanos deveriam ser vistos como habitantes cidadãos e não súditos, mas, depois foi hostilizado por uma ardilosa trama política dos seus inimigos, quando tentaram lhe empurrar para o reinado.
Quem escreveu a respeito do seu assassinato e quem foi César, o terror das mulheres (quando chegava a Roma os maridos da elite que se cuidassem), foi o historiador, pesquisador e arqueólogo Barry Strauss, mestre na Universidade Cornell, especialista em história militar da antiguidade, escritor de vários livros e premiado pelo governo italiano.
Na abertura da obra, ele faz um elenco dos personagens dessa história, desde Otávio que depois se tornou Augustus, o primeiro imperador, ao general Marcus Antonius, Marcus Junius Brutus, traidor, aproveitador dos provincianos que colaborou na morte de César, Gaius Cassius Longinus, apoiador de Pompeu, derrotado pelo ditador na guerra civil, Decimus Junius Brutos, o terceiro e principal conspirador que lhe deu o golpe fatal, Sérvilia, amante de César e também conspiradora, Catão que preferiu se suicidar a render-se ao conquistador, Cleópatra, do Egito, amante de César e Marco Antônio, o grande tribuno e orador Cícero (Marcus Tulius Cícero), Dolabella, um autêntico vira-casaca e o grande general Pompeu.
Barry faz um relato das grandes conquistas e da vida de César, principalmente na Hispania e conta como ele provocou a segunda guerra civil, iniciada em 49 a.C. Ele desobedeceu às ordens do Senado e cruzou o rio Rubicão. Por lei ele não podia atravessar o outro lado do rio com seu exército gaulês. Passou por cima do Senado e Pompeu decretou guerra a César que terminou entrando vitorioso em Roma. César era uma lenda.
“Cada guerra refletia os insolúveis problemas que assolavam Roma, desde a miséria na Itália, a opressão nas províncias, a política cegamente egoísta e reacionária da velha nobreza ao encantamento por um ditador carismático que pretendia que as coisas fossem feitas à sua maneira” – descreveu o autor do livro. O poder em Roma não estava nas mãos do Senado ou do povo, mas do exército.
Persuasivo e violento, César queria mudar o mundo, arrebatado pelo seu amor a Roma e desejo de dominador. Seus exércitos, formados por centuriões (capitãs), tribunos militares (coronéis) e soldados, bem pagos e privilegiados com benesses, mataram e escravizaram milhões de pessoas, inclusive mulheres e crianças.
Dentre seus oficiais, César escolheu Decimus, Antônio e Otávio, o jovem de 18 anos, seu predileto para lhe substituir. Decimus provinha de uma família nobre que dizia descender do fundador da República, Lucius Junius Brutos. Alguns falavam que ele era filho ilegítimo de César. Conquistou a Batalha do Atlântico que dominou a Bretanha.
Pompeu e Catão eram seus maiores opositores. Este último jovem idealista era ridicularizado por achar que Roma fosse a República de Platão. A República, na verdade, não passava de uma Cloaca de Rômulo, o lendário fundador.
Com Decimus, seu fiel escudeiro, o ditador levou oito anos (58 a 50 a.C.) para conquistar a beligerante região a que os romanos chamavam de Gália dos Cabelos Longos. Era um território que incluía a França, Bélgica, Holanda e uma parte da Alemanha. No final, a Gália fez de César o homem mais rico de Roma.
Depois de mais de uma década a serviço do ditador, Decimus retornou para casa rico como um herói. Ele assumiu a função de pretor (oficial de alto escalão que administrava a justiça). César o promoveu como governador da Gália Italiana.
Brutus, Cassius e Decimus, este último o líder personagem-chave, foram os principais mentores do atentado contra César que cometeu erros de relações públicas e instaurou uma crise de confiança no império. César abusou da amizade de seus algozes porque não foram recompensados, quebrando uma regra romana.
Em 49 a.C., para algumas fontes, César parecia um segundo Aníbal, o comandante que cavalgou desde o Ocidente e invadiu a Itália. Em 44 a.C. o ditador se assemelhava a um segundo Alexandre, o Grande, pois pretendia travar uma guerra no Oriente, em Partia (Irã) e voltar triunfante como rei. César já era um ditador perpétuo, declarado um deus e desprezava o Senado e o povo. Foi acusado de protestar por não pretender ser rex. Os romanos temiam que ele substituísse a República por uma monarquia.
Vamos ficar por aqui sobre essa história de Julius César. No próximo capítulo vamos falar dos fatos e principais incidentes que culminaram na conspiração e no fatal assassinato de César que realizou grandes reformas em Roma, como a do calendário anual lunar de 354 dias, para o solar com 365 dias e um ano bissexto a cada quatro passados. Esse calendário teve início em primeiro de janeiro de 45 a.C.
Vamos descrever um pouco sobre o general Marcus Antonius, os quatro cavaleiros, os melhores homens que representavam os privilégios herdados, centrada na nobreza romana que deveria continuar a governar o império, bem como sobre os populistas, alinhados às mudanças, defensores dos pobres, os sem-terra, os estrangeiros, os nobres pressionados por dívidas e pelos homens de toda Itália. Naquela época, não havia partidos em Roma. César chegou a ser um populista, mas Brutus pensava o contrário.
UM PACOTINHO DE PAZ
(Chico Ribeiro Neto)
Ainda bem não se recuperou da Black Friday, Dona Liquida vai ao ataque nas compras de Natal; ela, que não perde uma promoção e corre atrás de sorteios. “Tempo bom era quando a gente podia comprar tudo e pagar em 36 meses”, diz saudosa.
Tá todo mundo oferecendo 1 milhão de reais. Tem até uma rede de lojas que está oferecendo 1 milhão e meio. E Dona Liquida corre atrás, vai a todas e já deu até entrevista pra TV dizendo o que é que vai fazer com 1 milhão: “Comprar um bocado de coisa que tá precisando lá em casa”.
Dona Liquida foi atrás da promoção de um shopping que oferece um prato decorado por um artista renomado. Mas tem que comprar 700 reais e botar mais 10 pra poder ganhar o prato. Ela, que só tinha gasto 500 nesse shopping, correu logo pra gastar mais 200 pra ganhar o prato, depois de acrescentar mais 10.
Ela, que já acorda cantando Jingobel, descobriu essa semana que o presépio da casa está velho. “Esse Menino Jesus tá muito sujinho”. Comprou um Menino Jesus maiorzinho. “Na Carlos Gomes eu vi uns Reis Magos lindos”.
Se Dona Liquida fosse uma Rainha Maga, não levaria só ouro, incenso e mirra. Levava um carrinho de supermercado, desse grandão, cheio de compras para a Sagrada Família. “Imagine quantos cupons eu não ia ganhar?”
E a árvore? “Essa sala tá precisando de uma árvore maior”. Dona Liquida passa as noites preenchendo cupons. Já aprendeu a entrar na Internet para se cadastrar em outros sorteios. Comprou ontem 10 detergentes porque dá direito a um cupom pra ganhar um carro.
Ela tem cartão de tudo que é loja. Quando a coisa aperta, corre pro cartão da irmã.
“É pena que tá perto de acabar o Natal”, diz Dona Liquida, “mas já tô pensando nas bandeirolas para Carnaval, e depois vem o São João. Minha filha, vi uns balõezinhos lindos na Avenida Sete”.
Dona Liquida, que mora sozinha e já comprou o caixão numa promoção, sonha na noite de Natal não com um sapatinho, mas com um container transbordando de presentes. “Quantos cupons não dão aqui, hein?”
(Trecho final da crônica “Presente para a Senhora”, de Carlos Drummond de Andrade:
“ – Não precisam tomar trabalho comigo. Nem fazer despesa. Fico muito grata a vocês pela intenção. Basta cada um me trazer um pacotinho de paz, ouviram?
– Onde a gente arranja isso, mãe?
– Sei lá. O melhor é não procurar muito. Tragam pacotinhos vazios. A paz deve estar lá dentro.”)
Feliz Natal a todos os meus leitores.
VIDA NO CAMPO
Sábado passado (dia 21/12) estive no sítio do meu amigo, poeta, compositor e músico Dorinho Chaves e sua companheira Conceição (Conça), acompanhado da minha esposa Vandilza Gonçalves, e utilizei as lentes fotográficas da minha máquina para registrar momentos descontraídos da vida no campo em contato direto com a natureza. O final da tarde e o início da noite me proporcionaram belas recordações quando menino na roça com meus pais, observando as plantações, o curral dos animais (bovinos e caprinos), o gado chegando do pasto, as imponentes árvores, o cair do pôr do sol e o próprio Dorinho dando alimento para os bodes e galinhas, antes de bater uma viola com uma cantoria sertaneja de histórias e costumes da terra, não as que temos hoje que só falam de sofrência e de amores melosos e insossos, sem o sabor das saudades de outrora.
Tudo foi muito agradável, e as recordações sobre a vida no campo me tocaram mais ainda quando o dia se despediu e a noite nos recebeu de braços abertos através do seu luar, clima propício para se degustar um vinho. Para quem me conhece, nem preciso dizer que adoro a roça e que meu desejo é retornar às minhas raízes depois de mais de 60 anos na corrida labuta urbana. Posso garantir que o viver no campo é o melhor terapeuta que cura as dores da alma em pouco tempo, sem precisar sentar ou deitar num divã de um psicanalista. A própria natureza lhe oferece isso e muito mais, sem nada cobrar de volta. Ela é generosa. A vida no campo reúne o passado, o presente e o futuro num pacote só de amor onde o espírito pode se sentir verdadeiramente em paz.



















