CONQUISTA E A EDUCAÇÃO
Estava aqui imaginando quando cheguei em Vitória da Conquista, no início de 1991, vindo de Salvador para chefiar a Sucursal do jornal A Tarde, cuja sede funcionava próximo do Cemitério da Saudade. O Hotel Aliança, na Barão do Rio Branco, era minha moradia e todos os dias cortava o centro passando pela rua Laudicéia Gusmão. Lanchava na padaria São José e sempre apreciei a floricultura ao lado, na pracinha, até hoje em funcionamento. Com certeza, é uma das mais antigas de Conquista. Já era uma cidade em ebulição depois de consolidada a implantação do polo cafeeiro na década de 1970, mas ainda carente em termos de educação de nível superior. Existia apenas a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, recém-criada na forma da lei pelo governo estadual. O reitor era Pedro Gusmão e o prefeito nosso saudoso tricolor das Laranjeiras, Murilo Mármore, com quem tive a honra de fazer várias matérias, muitas das quais com críticas jornalísticas à sua administração. Ele era um democrático e compreendia a minha função. Naquela época, os empresários e a sociedade começavam a se mobilizar para trazer novas instituições de ensino para a cidade. Muitos jovens, após findo o período escolar médio, tinham que ir para Salvador ou outras capitais do país para se graduarem numa especialidade. O comércio se expandia, mas só tínhamos três supermercados de destaque, o Jequié, o Superlar e Economia do Lar. Final dos anos 90 para início dos anos 2000, Conquista começou a experimentar um boom em seu desenvolvimento, graças à chegada das faculdades particulares e tempos depois de núcleos da Universidade Federal da Bahia. Era uma outra etapa na vida da capital do sudoeste ou sudeste. Como chefe da Sucursal, nossa equipe de repórteres focava suas críticas contra a depredação da Serra do Periperi, que começou desde os anos 40 e 50 com a abertura da BR-116. Foi um grande embate para combater os exploradores de areias, pedras, terras e até os caçadores de aves. Nosso trabalho era duro e sério ao ponto de sermos ameaçados. André Cairo, do Movimento Contra a Morte Prematura era uma das nossas principais fontes de informações na luta em defesa do meio ambiente e pela preservação da Serra.
MEU CANTO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu canto não é de amor,
Não tem rosa e flor.
É mais de pranto e dor.
Ele pede passagem,
Para contar sua viagem,
Através do tempo,
Que o vento levou,
Na tempestade da saudade,
Da angústia existencial,
Do nascer e viver,
Até a finitude do morrer.
Meu canto é agreste,
Vem lá do meu Nordeste,
Retirante explorado,
No estalo da chibata,
Do chão seco estorricado,
Terra forte ferida,
Da poeira castigado,
Do poluído ar,
Roupa a quarar,
Filho da enxada,
Da foice e do machado.
Meu canto,
Em me resiste,
De que a felicidade
É alma passageira,
Da vida que nos passa,
Aquela rasteira,
E nos deixa a ilusão,
De que ela é toda bela,
Como pintura de aquarela,
Mas tem ácido de limão.
O ÚLTIMO FOLIÃO
(Chico Ribeiro Neto)
“Se aqueta, menino. Nada de pular Carnaval esse ano. Você só tem 13 anos! Para o ano, quem sabe!”
“Vai pra casa, meu tio! Você não tem mais idade pra tá aqui!”
O último folião pegou o trio de Luiz Caldas saindo da Vitória, em 1985, cantando “Nega do Cabelo Duro”, o maior sucesso do Carnaval. O bicho pegou e tinha uma grávida em nosso grupo, já com uns 7 a 8 meses. A multidão imprensou ela no portão de um prédio, implorei ao porteiro para abrir o portão e ele se negou. A grávida foi no embalo.
Paramos numa barraca do Campo Grande onde comemos um delicioso ensopado de carneiro com farinha e pimenta. Depois daí a grávida foi embora.
Desço a Ladeira de São Bento no bloco Camaleão. O povo vende saquinhos de água e cerveja pelas laterais do bloco, que ainda não tinha estrutura de bar nem sanitários.
Nas décadas de 70/80 (não sou bom em datas) não havia catador de latinhas. A Avenida Sete de Setembro ficava repleta de latas de cerveja que o povo ia chutando pros cantos e que só eram recolhidas pela Limpurb na manhã seguinte.
Não passava nenhum trio elétrico na Praça Castro Alves há mais de uma hora. Começamos a batucar com latinhas na mão e em pouco tempo se formou uma imensa roda. Baiano sabe como se alegrar.
Vou atrás da “Caetanave”, com Caetano Veloso cantando “Chuva, Suor e Cerveja”, onde arranjei uma namorada que tinha uma namorada. “Não se perca de mim…”
Dou uns quatro beijos numa linda morena no pastel chinês da Rua Carlos Gomes, mas ela escapole e vai embora com o trio. Vizinho ao pastel chinês havia uma loja de armas, a “Winchester”.
Tinha um cara que morava em Brasília e pedia aos amigos de Salvador que lhe enviassem a mortalha depois do Carnaval. Não rasgar nem fazer pano de chão, mandar pra ele, que deve ter feito uma boa coleção.
O Clube de Engenharia, na Rua Carlos Gomes, ponto de encontro da turma de esquerda.
Meu amigo Biúca, que mandou fazer uma batina legítima de franciscano, com capuz e tudo, e saiu pela rua distribuindo bênçãos e ganhando beijos.
O cara que saía todo fantasiado de latinhas de cerveja.
O cara que desfilava pela Avenida Sete segurando uma gaiola vazia e com um cartaz pendurado no peito: “Minha rolinha fugiu. Quem viu minha rola?”
O último folião dá uma “prise” na lança-perfume Metálico Rodouro e beija a última foliã. Ela está descalça, a maquiagem borrada, a mortalha cai de um ombro. Depois, ele sobe na estátua do poeta, na Praça Castro Alves, abre os braços para a Baía de Todos os Santos e canta: “Se a canoa não virar/ Olê, olê, olá/ Eu chego lá…” (“Marcha do Remador”, de Antônio Almeida e Oldemar Magalhães).
Em casa, um confete verde me espreita, espremido entre os tacos da sala.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
CADÊ A PRESENÇA DA CÂMARA NA CULTURA?
Conversei com alguns membros do Conselho Municipal de Cultura sobre a atual situação do colegiado que não está conseguindo se reunir em suas ordinárias por falta de quórum, embora tenha questões importantes para tratar, como a reforma e abertura dos equipamentos culturais de Vitória da Conquista e a criação do Plano Municipal de Cultura.
De acordo com um conselheiro, o legislativo municipal é um dos maiores culpados por esta falta de quórum, pois seus indicados (dois titulares e dois suplentes) pela Mesa Diretora simplesmente não comparecem aos encontros, sempre marcados para toda segunda-feira de cada mês.
Esse problema sempre foi antigo. Na minha gestão, por exemplo, como presidente do Conselho, de 2021 a 2023, uma das minhas maiores lutas era tentar convencer esses representantes a se fazerem presentes às reuniões, mesmo porque a assembleia, conforme seu regimento interno, não tem a prerrogativa de expulsar os faltosos do poder executivo e legislativo.
Somente os chefes desses poderes podem substituir os indicados que não estejam cumprindo com seus compromissos. No caso dos eleitos que não comparecem às reuniões (três faltas seguidas), a presidência do Conselho só pode decretar a vacância e convocar nova eleição quando se trata de membros da sociedade civil.
Os vereadores foram eleitos pela população e uma de suas principais responsabilidades é justamente representar o povo através das comissões criadas pela Casa (agora mesmo foram instaladas as de Saúde e Assistência Social e de Fiscalização dos Atos do Executivo) e junto aos conselhos, como o da Cultura.
Essa ausência no Conselho Municipal de Cultura já é uma prática que se repete há anos, tendo em vista que já escutei as mesmas queixas de outros presidentes. Será que a Câmara Municipal de Vereadores de Conquista detesta cultura? Existe alguma discriminação às artes e aos artistas e às suas diversas linguagens?
No momento em que a nossa cultura está atravessando um dos momentos mais difíceis e de abandono em toda sua história, é a ocasião mais do que oportuna da Câmara de Vereadores, representante da nossa sociedade, vir dar seu total apoio e contribuição a este setor, mas parece que ninguém liga para isso porque, como muitos entendem, não dá voto.
Não preciso aqui elencar os inúmeros problemas que praticamente paralisaram a nossa cultura (só está sendo tocada pelos abnegados por conta própria), destacando o fechamento do Teatro Carlos Jheovah, do Cine Madrigal e da Casa Glauber Rocha, cujos imóveis estão sendo destruídos pelo tempo.
Outra questão é a criação de um Plano Municipal de Cultura, de forma que Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia, tenha uma política pública que norteie as atividades culturais. Existem outras inúmeras demandas, mas vamos ficar somente nestes pontos cruciais para começar o processo de revitalização da cultura.
A Câmara Municipal de Vereadores vai continuar em silêncio sobre este assunto? Os indicados ao Conselho não vão participar das reuniões mensais? O legislativo não vai convocar, por exemplo, os artistas, intelectuais, as entidades, as academias e tantos outros interessados para discutir o problema, no sentido de encontrar uma solução ou saída para ressuscitar a nossa cultura do túmulo em que se encontra? Com a palavra os vereadores.
O MUNDO ESTÁ CAPOTANDO
Está difícil falar de coisas boas – disse para mim um amigo meu lá das bandas do Ceará. Tem até avião capotando em pista de gelo, coisa inédita que aconteceu no aeroporto de Toronto, no Canadá – completou, para logo elencar uma série de fatos que nos dá arrepios e até vontade de ficar longe dos noticiários.
– É, meu camarada, o mundo está mesmo capotando, principalmente agora com esse maluco do Trump que quer invadir o Canal do Panamá, anexar o Canadá, comprar a Groelândia e transformar a Faixa de Gaza num balneário do Oriente. O ruivo está agora fazendo uma aliança com o Putin, da Rússia, o que nos faz lembrar o acordo de Hitler com Stalin, no início da II Guerra Mundial. Deu no que deu!
– Agora é cada um por si no mercado internacional com as taxações das transações comerciais. Estão dizendo que é o trilionário Elom Musk que está governando os Estados Unidos. O próprio filho dele, uma criança de quatro ou cinco anos, (o que ele estava fazendo na Casa Branca?) mandou o Trump calar a boca enquanto o pai soltava o verbo num monte de besteiras.
Até me juntei a ele em suas catilinárias. Parece que o mundo está capotando mesmo com as altas temperaturas batendo recordes. O pior é que muita gente ainda não acredita que estamos em pleno aquecimento global. Até os aparelhos de ar condicionado não estão aguentando o calor de 50 graus. Do jeito que está, não adianta fazer piscina de gelo.
Mesmo com o mundo pegando fogo, os caras só querem saber de perfurar petróleo nas profundezas da terra e dos mares, inclusive o Brasil. – Ora, se a Guiana, nossa vizinha ali do lado pode, nós também podemos e queremos ganhar dinheiro – berrou o presidente da República, que se tornou coisa privada. O Congresso Nacional é o nosso calcanhar de Aquiles, ou um cancro. As emendas parlamentares são as maiores fontes de corrupção.
Por falar em Brasil, meu amigo espírito de porco não contou conversa e mandou sua pesada catapulta para derrubar muralha feita com óleo de baleia. – Porra, o nosso país já está capotado há séculos. É tanto tempo, meu caro, que os brasileiros nem sentem mais que vivem de cabeça para baixo. O sangue corre certinho e ninguém fica asfixiado. Somos os mais resistentes paus-de-arara e povo nenhum ganha para a gente numa olimpíada. Fomos feitos à prova de tortura – esbravejou.
Não seja tão exagerado assim! Tentei contemporizar falando das riquezas naturais, das lindas praias, das belas paisagens das nossas chapadas, sobretudo a nossa aqui da Bahia, a Diamantina, o espírito de solidariedade nas doações, da criatividade que a nossa gente tem para se virar e sair dos maiores perrengues, mas ele não quis conversa e mandou mais torpedo de lá.
– Não me venha com seu blábláblá, com seu palavreado tipo vaselina, graxa de motor ou de parafuso de roda de carro. Vocês ficam ai o tempo todo falando de paz e amor enquanto o planeta arde em ódio, intolerância e ganância. É cada um querendo lascar com o outro. O inferno é aqui mesmo, sem purgatório!
O cara estava mesmo virado no moi de centro ou nos seiscentos que me fez lembrar do filme “Dia de Cão”, que muita gente deve conhecer. Ele afirmou não acreditar mais nesse papo de certos filósofos de que ainda vamos viver numa sociedade humanística e solidária.
Para ele, o mundo está mesmo capotando, e numa ribanceira. Não quis mais alimentar essa prosa cavernosa com cara de funeral. Trocamos umas ideias sobre futebol, música, literatura e poesia. Nem pensar em religião, porque ainda ia ser mais complicado e desgastante. Na certa ia dizer que ela é uma das principais causas do mundo estar capotando.
DO ANALÓGICO AO VIRTUAL
Ninguém quer mais saber da época do pilão de café ou fazer uma omelete num prato batendo os ovos com uma colher até ficar no ponto. Era gostoso e dava satisfação. Vivíamos no tempo do analógico onde o telefone fixo e aquela velha televisão de duas cores preto e branco eram nossas maiores invenções, sem contar o antigo rádio a pilha que levavam pancadas quando davam interferências e ruídos. Às vezes, voltavam ao normal.
Como diz um dos ditados mais populares: Éramos felizes e não sabíamos, como nas brincadeiras de criança. Pouco se falava de angústias existenciais, estresses, sintomas de pânicos, traumas diversos e outros problemas psicológicos.
Depressão tinha o nome de fossa e nem se ouvia falar em psicanálise. A sabedoria estava nos mais velhos. Eles hoje nem são mais consultados. Um conselho ao pé do ouvido nos tirava das enrascadas. Atualmente respondemos que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia.
Hoje tudo é elétrico e tecnológico, da cozinha ao quarto de dormir e somos vigiados dia e noite pelas câmaras. Vivemos em plena era virtual onde as pessoas passam a maior parte de suas vidas agarrados num celular que lhe enche de informações, umas corretas e milhares de falsas, sem falar que este aparelho conseguiu colocar os bandidos dentro da sua casa para lhe infernizar com seus ardilosos golpes.
É claro que existem as vantagens e as facilidades, principalmente quando se trata de ganhar mais dinheiro, mas reclamamos da correria e de que o tempo passa bem mais rápido, o que é uma tremenda ilusão. O tempo é o mesmo, nós é que não somos mais os mesmos.
Aliás, por mais que sejam os problemas e os aperreios, sempre temos na ponta da língua palavras e expressões de otimismo, de que a vida é bela e que tudo vai melhorar, em nome de Deus. Para as doenças físicas, da alma ou do espírito, como queiram, nos apegamos a todo tipo de autossugestões, seitas e religiões.
Os vídeos virtuais nos mostram que dançar nos acalma, alivia nossas tensões e nos dá paz espiritual. Ter bons sentimentos serve até de remédio no tratamento do câncer. Os programas de televisão estão sempre ditando normas de como devemos agir diante das adversidades e querem nos ensinar como devemos fazer as coisas certas, como se existisse um padrão que valesse para todos, quando, na verdade, cada caso é um caso.
Mesmo com todas essas dicas e antídotos contra o baixo astral e as contrariedades, não podemos esquecer que depois de uma dança relaxante, de uma festa de porre com os amigos, de passar horas ouvindo boas músicas ou cuidando de nossas plantas e hortas, a realidade volta a ser o nosso carrasco, embora sejam meios de revigoramento das forças.
Sem ser saudosista, e sendo, na era analógica éramos mais humanos e solidários uns com os outros. Confiámos bem mais nas pessoas e as amizades eram mais sinceras e calorosas. O virtual já diz tudo. Ah, meu amigo, não seja tão duro assim com a vida – estará a esta altura alguém me dando essa repreensão e até me esconjurando. Vai de retro satanás! Será que deve ser a idade?
Hoje somos mais fake news e nem percebemos, ou simulamos que fazer belas e líricas poesias de amor é mais politicamente correto do que falar, por exemplo, do sofrimento, da exploração dos poderosos, da exclusão, da miséria e das desigualdades sociais. Temos mais medos e evitamos discutir ou expor nossas entranhas por receio de sermos excluídos das rodas de bate-papos.
FONTES ANTIGAS DE “A MORTE DE CÉSAR”
O escritor e historiador Barry Strauss, de “A Morte de César” nos apresenta no final da sua eloquente obra as fontes antigas em que ele se baseou para realizar seu estudo acadêmico. Barry cita Plutarco, Apiano, Nicolaus de Damasco, Cassius Dio, Suetônio, dentre outros que podem ser pesquisados.
De acordo com ele, a moderna e a mais influente pesquisa sobre a transição da República Tardia para o Império Primordial é o livro de Sir Ronald Syme (A Revolução Romana, de 1939). O foco principal do trabalho é Augustus, mas o livro contém capítulos sobre os últimos anos de César e a conspiração contra ele.
Alguns dos temas abordados por Syme são o uso personalístico da política para a obtenção do poder, o papel chave desempenhado por Otávio na incitação das tropas contra o Senado em 44 e 43 a.C., e a realidade da monarquia por trás da retórica de Augustus quanto a restauração da República.
“O que podemos compreender da conspiração que matou César depende, em larga medida, do que podemos depreender das fontes antigas”. Robert Etienne traz este ponto à baila em seu excelente livro “Les Ides de Mars: La Fin de César ou de la dictature?” – “Os idos de Março: O Fim de César ou da Ditadura? ”
Plutarco, que foi a principal fonte de Shakespeare, enfatiza o papel desempenhado por Brutus e seu idealismo – ressalta Barry, ao acrescentar que Nicolaus, a quem o dramaturgo inglês não leu, acentua o sangue frio e mesmo as motivações cínicas dos conspiradores e ele também faz de Decimus um personagem chave.
Na análise do autor de “A Morte de César”, acadêmicos antigos tendem a desprezar as opiniões de Nicolaus porque ele trabalhou para Augustus. “Recentemente, os trabalhos de acadêmicos como Malitz e Toher reabilitaram Nicolaus como uma fonte contemporânea a sagaz…” Nicolaus foi um estudioso dos escritos de Aristóteles e Trucidides, duas mentes brilhantes quando se trata de política.
A vida de César é uma fonte inspiradora para muitos livros. “Para um homem de poucas palavras é difícil encontrar um pequeno volume melhor do que o excelente trabalho de J.P.V.D. Balsdon, intitulado Julius Caesar”.
Para alguns historiadores e pesquisadores, os assassinos de César (15 de março de 44 a.C.) eram aristocratas arrogantes, enquanto César seguia as regras da lei e contava com o apoio do povo romano. O tribuno Cícero disse que Decimus almejava fama e grandeza. Outros que os conspiradores tinham ciúmes mesquinhos.
Sobre o que César teria dito a Brutus, veja-se o artigo de P. Arnaud, “Toi aussi, mon fils, tu mangeras ta part de notre pouvoir – Brutos le Tyrani? (“Tu Também, Meu Filho, Comerás a Tua Parte do Nosso Poder – Brutus, o Tirano?”)
Quando César foi apunhalado (mais de vinte vezes) pelos conspiradores, na versão de Shakespeare, quando ele viu Brutus, teria dito “Et tu, Brute? ou “Até tu, Brutus”. Suetônio já escreve que ele falou em grego : Kai su, Teknon, que significa “Tu também, filho”.
A MELANCIA DO CONDOMÍNIO
(Chico Ribeiro Neto)
A empregada me deu a notícia: estava nascendo um pé de melancia no canteiro do prédio que dá para o “hall”. Foi ela quem – num instante de saudade do interior – plantou num dia em que estava a chupar uma talhada e, displicentemente, jogou uns caroços ali. Pois não é que a planta vingou?!
Comecei a matutar de quem seria essa melancia brotada na chamada área de uso comum. Achei bom iniciar as consultas – talvez até propor uma assembleia geral do condomínio – enquanto ela está pequenininha. Seria cortada em 50 talhadas, proporcionais aos apartamentos do condomínio? Quem jogou as sementes tem direito a uma talhada maior? Quem molhou todo dia também não deve receber mais?
Procurei o Regimento Interno. Tal disposição não figura em nenhuma de suas cláusulas. Pensei, então, em incluir um artigo mais ou menos assim:
Artigo 248 – As frutas ou quaisquer hortigranjeiros plantados em áreas comuns do prédio serão de propriedade do condomínio, a quem compete decidir pelo destino final dos produtos: se serão vendidos ou consumidos pelos próprios condôminos.
Sendo melancia, a segunda hipótese é melhor. Nada como um pedaço de melancia gelada contra uma ressaca domingo de noite. Pelo que sei, o pessoal do prédio ia fazer fila para receber seu quinhão comedidamente repartido pelo síndico.
Outra decisão a ser tomada também em assembleia: iria se limitar as áreas de plantio? Iria se determinar os tipos de hortigranjeiros que poderiam ser plantados? Já pensou se alguém resolver plantar milho, como está se fazendo agora no Terminal da França, graças à leseira total que se abateu sobe a Prefeitura de Salvador? Ou plantar cana, mamão, abacate ou jaca?
Um vizinho levantou outro problema: depois da reforma agrária e da nova Constituição, era preciso se ficar muito atento com relação à posse e uso da terra. A empregada que lançou os caroços da melancia poderia, com o tempo, ficar com direito a uma parte do canteiro, principalmente depois que o usucapião urbano ficou definido a partir de cinco anos.
Para resolver isso, o lançamento das sementes, também conhecido como plantio, somente poderia ser feito por empregado do condomínio ou alguém expressamente autorizado pelo Conselho de Administração para esse fim. Senão, ia se correr o risco de ter que enfrentar uma manifestação, na porta do prédio e com a televisão filmando, com o pessoal gritando palavras de ordem: “Já cheguei/ E não vou/ A melancia é/ De quem plantou”.
Outro assunto a ser discutido é a despesa com adubos e herbicidas, sem contar o salário do agrônomo. Primeiro, ia se verificar se haveria algum agrônomo no prédio pra assumir a assistência técnica dos hortifrúti, ficando dispensado do pagamento do condomínio.
Mais um tributo seria acrescido aos já pagos pelo Condomínio: O Imposto Territorial Rural (ITR), cobrado pelo Incra, que não sei mais se ainda existe, mas, se acabou, já criaram outro órgão para a coisa que esse governo gosta mais de fazer: cobrar.
Faço votos de que, enquanto dure essa discussão, o vigia lance mão de uma amolada faca, numa dessas noites de lua em que o verde da melancia chega a brilhar, e passe no canteiro rapidamente, sorvendo-a em rápidas talhadas, contando com a preciosa ajuda do porteiro, por sinal o autor da ideia de jogar as cascas na lixeira do prédio vizinho.
(Crônica publicada no jornal “A Tarde” em 12/7/1989)
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
VEM AÍ O NOSSO REGISTRO
Flagrante do nosso último sarau, realizado no dia 08/02/2025, onde as portas estão abertas a qualquer interessado. Fotos de D´Almeida
Estamos quase chegando lá. Vem aí o registro oficial do nosso Sarau A Estrada, justamente nos seus 15 anos de existência a serem comemorados agora em julho quando, em 2010, um grupo de amigos (Jeremias Macário, Mano Di Souza e José Carlos d´Almeida) decidiu criar o “Vinho Vinil” que logo depois transformou-se no formato de sarau. A comissão organizadora, formada por Cleo Flor, Dal Farias, Alex Baducha e Eduardo Morais está cuidando do processo. Segundo informações de Morais, mais de 90% do projeto já está concluído. A partir dessa etapa, teremos diretoria e conselho fiscal, além de um regimento interno que irá conduzir melhor nossos trabalhos culturais. O registro está sendo viabilizado graças à colaboração voluntária mensal dos participantes do sarau através da criação de um fundo financeiro. É bom deixar claro que a contribuição não é obrigatória e qualquer interessado pode participar dos nossos eventos bimensais, sem nenhum impedimento. Com o registro, o Sarau A Estrada passará a ser uma entidade cultural de utilidade pública sem fins lucrativos, com seu corpo de associados. Essa formalização poderá ser concedida em ato de lei pela Câmara de Vereadores, o que possibilitará o Sarau celebrar parcerias com outros órgãos e empresas na arrecadação de recursos visando a realização de atividades artísticas em Vitória da Conquista. A comissão também está idealizando os meios necessários para uma comemoração dos seus 15 anos. Outra ideia é realizar um documentário sobre a história do sarau mais longevo de Conquista.
MENINO MOLEQUE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando menino traquino,
Franzino nordestino,
De pai roceiro e carpinteiro,
Cresci na labuta da mandioca,
Que da terra saia
Como se fosse minhoca.
Depois fui para cidade pequena,
Da minha querida Piritiba,
Enfrentar outra cena:
Como menino moleque,
Paquerei uma morena,
Onde fiz o primário,
E de lá fui para o seminário,
Para ser padre vigário.
Estudei o latim e o grego,
Até o português e o francês;
Larguei a batina,
Porque não era minha sina,
E rumei pra capital,
Só com meu embornal.
Ainda aprendiz,
A rua era o meu lar,
Passei no vestibular
Para o curso de jornalismo,
Onde aprendi tanto ismo;
Duelei com a sorte
Como sertanejo forte;
Inventei ser escritor
Menino moleque,
Que nunca sonhou ser doutor,
Apenas um respeitado senhor,
Lá do interior.















