SARAU ENCANTADO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vou cortando estrada,
Nesse Sarau Encantado,
Pelo vento do saber,
Onde nasceu o Vinho Vinil
Nesta terra do frio.
Nesse Sarau Encantado,
De Vitória da Conquista,
Tem noites etílicas de debate,
Onde só se respira arte,
Causos e histórias,
Violeiros e cantorias,
E declamação de poesias.
São quinze anos de estrada,
Nesse Sarau Encantado,
De conquistas e vitórias,
Na troca de conhecimento,
Que até se esquece o tempo,
Quando se vara a madrugada,
De estradeiros na mesma toada.
Aqui vai minha louvação,
Para essa longa jornada,
Canto, canto minha canção,
Na paz, amor e harmonia
Na labuta pela cultura,
E pela nossa democracia.
Em nosso Sarau encantado,
Vou seguindo minha estrada,
De mãos e braços dados,
Com meus versos improvisados.
ANISTIA TEM O SENTIDO DE IMPUNIDADE
Carlos González – jornalista
“Sem anistia!”. O pedido é feito pela multidão que acompanha a flagelação e crucificação de Cristo, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. O cartum, do desenhista Laerte, publicado na capa da “Folha de S. Paulo” na edição de Sexta-Feira da Paixão, é um apelo, totalmente justificável, que faz mais de 60% da população brasileira a um grupo de deputados que já mostrou, em diversas ocasiões, que são movidos pelo ódio aos seus adversários políticos. A palavra “anistia”, nos dias atuais, soa como grosseira, obscena, como uma ação inconsequente de uma minoria que atenta contra o Estado Democrático de Direito.
A anistia deve ser “ampla, geral e irrestrita”, assim exige o ex-presidente Jair Bolsonaro, líder do movimento golpista, que visava a derrubada do governo legitimamente eleito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O plano do golpe previa a morte de Lula, do seu vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Uma explicação chinfrim à nação num discurso em cadeia de rádio e televisão, seguida do estabelecimento do estado de sítio, seriam os primeiros atos do novo período ditatorial.
Assistidas por milhões de brasileiros pela TV, as cenas de vandalismo contra as sedes dos três Poderes, na tarde de 8 de janeiro de 2023, significaram uma das etapas do plano traçado pelos líderes golpistas. O jogo teve que ser interrompido porque o time titular não entrou em campo – a tropa permaneceu nos quartéis, indiferente às prisões de centenas de “civis patriotas”, os autênticos “buchas de canhão”, expressão que usávamos no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR).
Antes dos atos terroristas, marcharam como idiotas na frente dos acampamentos, vestindo a camisa amarela desbotada da Seleção, usando, criminosamente, a Bandeira Brasileira como se fosse um pano de chão.
Às vésperas de se tornar um presidiário – nos anos 80 passou 15 dias detido numa unidade do Exército, por ter reclamado do soldo que recebia -, Bolsonaro foi chamado de “mau militar” pelo general Ernesto Geisel na entrevista concedida aos historiadores Maria Celina de D’Araújo e Celso Castro. Na ocasião, Geisel procurava com os líderes no Congresso Nacional uma fórmula para entrega do poder aos civis.
Inconformado com o fim das sessões de tortura, Bolsonaro planejou colocar bombas, que ele mesmo fabricaria, na Vila Militar, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e na represa do Guandu, sistema crucial para o abastecimento de água potável do Rio de Janeiro. A culpa pela tragédia, abortada em tempo, seria colocada sobre os adversários da ditadura, chamados de comunistas, atentados que, sem dúvida, estenderia o regime autoritário, por tempo indeterminado.
Dividir o pão com aqueles que têm fome; preservar a Amazônia; proteger o imigrante; abraçar a inclusão social; combater os preconceitos; condenar as guerras e o extermínio do povo palestino pelo exército de Israel, são atos e gestos que personificam aqueles que promovem uma sociedade mais justa e igualitária. Na cartilha dos bolsonaristas, os que agem ou pensam dessa forma são comunistas, ideologia atribuída até mesmo ao Papa Francisco, cujo falecimento foi comemorado por facções golpistas. Quanto aos neopentecostais, seus pastores e bispos adotam como padrão a Teologia da Prosperidade. São chamados de mercadores da fé. Pregam a ideia de que se deve buscar a riqueza, o que eles conseguem, à custa das doações dos incultos e pobres seguidores.
Qual o interesse das igrejas neopentecostais em se aliar a um grupo político, de extrema direita, conservador e preconceituoso? A resposta foi dada há 11 anos num artigo publicado pelo reverendo Carlos Eduardo Calvani, da Igreja Anglicana no Brasil. “Não nos iludamos. Os evangélicos têm um projeto de tomada do poder”, revelou Calvani, citando como orientadores Malafaia, Feliciano, Macedo e Soares. O sobrenome Messias deve ter influenciado na escolha do candidato ao Planalto. Membro de uma família católica italiana do interior paulista, Jair trocou, por conveniência, de religião, recebendo o batismo nas águas do rio Jordão, em Israel.
Pastores em todo o país foram orientados a obter os votos necessários junto às suas “ovelhas”, que os levariam – desafio a quem achar um membro da Igreja Católica na política – a ocupar cadeiras nas casas legislativas. A tarefa foi fácil. Na lista dos deputados que pedem urgência na tramitação do projeto de anistia há pastores, generais, coronéis, além de um vampiro, do PL capixaba. Com um substancial currículo criminoso, o capitão expulso de Exército deve encabeçar a lista daqueles que pedem perdão. Não será surpresa se forem incluídos nessa relação os pastores Fernando Aparecido da Silva e Joel Miranda, condenados a 21 anos de prisão pelo estupro e assassinato do menor Lucas Terra, crime ocorrido em Salvador, em 21 de março de 2001. Os criminosos estão em liberdade aguardando novo julgamento, protegidos pela Igreja Universal (IURD).
Filiados aos partidos Liberal (PL), União Brasil, Progressistas (PP). Republicanos e Avante, 10 deputados baianos, com suas assinaturas na lista, apoiam a impunidade. São eles: Alex Santana, Capitão Alden, Márcio Marinho, Pastor Isidório, Roberta Roma, João Carlos Bacelar, José Rocha (há 47 anos no Congresso em defesa dos dirigentes da CBF), João Leão, Cláudio Cajado e Leur Lomanto Júnior.
A senilidade não permitiu ainda que Lula vislumbrasse qualquer ameaça no horizonte. Seus líderes no Senado e na Câmara dos Deputados não se dispuseram a frear o movimento que exige o perdão para os golpistas. Entre os 264 parlamentares que assinaram a lista, 146 fazem parte, de alguma forma, da base do governo, ocupando inclusive ministérios. O presidente aumentou para 39 o número de ministérios para poder abrigar todos os partidos, exceção ao PL, e os seus ambiciosos membros.
O LAUDÊMIO É UMA TAXA TIPO “JABUTI” IMORAL COBRADO PELA IGREJA
O professor Durval Menezes me induziu, ou melhor, me estimulou a falar um pouco sobre a cobrança da taxa chamada laudêmio pela Igreja Católica todas as vezes que você faz a compra de um imóvel em Vitória da Conquista, o que é um absurdo.
Fiz alusão a essa taxa “Jabuti” em meu comentário de ontem (dia 20/04/25) “Na Espera de um Novo Papa”, e o mestre me provocou. É uma polêmica que já perdura há cerca de 200 anos em Vitória da Conquista. Somos obrigados a engolir mais essa escorcha capitalista herdada dos tempos coloniais.
Laudêmio é uma taxa cobrada pela União em transações de compra e venda de imóveis localizados em áreas de aforamento, como terrenos da marinha que estão em regiões litorâneas. A taxa varia de 2,5 a 5% do valor do imóvel e surgiu quando o Brasil ainda era uma colônia de Portugal.
Como se vê, não é o caso de Vitória da Conquista, mas aqui nós temos o laudêmio da Igreja Católica, paga pelo comprador de um imóvel, que funciona como uma compensação financeira que permite a transferência do domínio útil do bem para um novo proprietário. Ela é legal, constitucional ou não passa de um abuso imoral?
Com a palavra os advogados e o poder judiciário, mas na minha modesta visão fico com o abuso de enriquecimento ilícito. Gostaria de saber para onde vai toda essa dinheirama arrecadada, que não é pouca coisa, pois todos os dias existem dezenas desse tipo de comercialização nos cartórios?
Durval nos auxilia sobre essa questão dizendo que a taxa não se refere apenas quando se compra uma casa ou apartamento, mas também na transação de terrenos em Conquista. Se a pessoa compra, paga o laudêmio e se depois vender, quem adquirir é obrigado a desembolsar novamente a taxa, cujo valor varia de acordo com o preço do imóvel – destacou o professor. Isso pode ser uma ou 100 vezes. É um tipo de imposto replicado que não se acaba nunca.
Em seu livro “Os Coronéis da Conquista”, Durval escreve um capítulo onde se reporta sobre essa taxa do laudêmio, com base no argumento levantado pelo advogado Evandro Gomes que questionou esse abuso na justiça. De acordo com Evandro, a Igreja Católica jamais poderia ter direito a essas terras do “Sertão da Ressaca”. Elas não foram doadas à Igreja Católica pelo rei de Portugal porque pertenciam aos índios, os legítimos donos.
Na verdade, a doação foi feita pelo fundador da cidade João Gonçalves da Costa a uma Casa de Oração, sem a autorização do rei. Portanto, se a doação foi irregular, pela lógica o mesmo ocorre com a taxa que permanece até hoje, consentida pela justiça e os órgãos públicos que devem abocanhar uma parte desse bolo.
Essa doação à Casa de Oração, segundo pesquisa realizada por Evandro Gomes, foi feita por volta de 1814/15 num tabelionato e não tinha nenhuma validade e representação jurídica, mesmo porque João Gonçalves não era o verdadeiro dono.
Para Evandro Gomes, a cobrança do laudêmio é totalmente irregular. Lembro que quando atuava na Sucursal do Jornal A Tarde, levantamos uma matéria sobre este assunto onde se criou uma grande polêmica entre a população e os defensores da Igreja Católica.
Acontece que o tempo passou e não se tratou mais do assunto. O protesto e a revolta contidos só aparecem quando alguém adquire um imóvel e, entre os impostos pagos à Prefeitura Municipal, lá aparece o “jabuti” do laudêmio. O corretor de imóvel apenas afirma que se a taxa não for paga, não sai o documento de escritura do imóvel.
NA ESPERA DE UM NOVO PAPA
Depois de longos dias de tratamento pulmonar com questões respiratórias, o Papa Francisco se foi com seus 88 anos, depois de um pontificado de 12 anos onde ele defendeu abrir as portas para os excluídos, mas encontrou resistências de uma ala conservadora e acomodada da igreja. Agora é esperar o esquema político acirrado de uma votação de disputas pelo poder. Logo mais teremos “abemus papa” através da chaminé de fumaça branca. Depois da morte vem a expectativa dos católicos.
Quando foi eleito pelo conclave cardinalício (hoje são 252 votantes), lembro bem que sua primeira fala foi em tom de apelo aos padres e bispos para que saíssem de suas casernas, poltronas e escritórios e fossem ao encontro dos pobres, desvalidos, descriminados e mais necessitados.
Nascido Jorge Mario Bergolio, em 1935, escolheu o nome de Francisco como símbolo de desprendimento. Condenou a ostentação e o luxo dos próprios sacerdotes da Igreja Católica. Começou dando um puxão de orelha naqueles que não largam seu conforto e até sugeriu vender o ouro e bens valiosos da instituição milenar do cristianismo.
A verdade é que não encontrou respaldo dos conservadores que não abrem mão de suas zonas de conforto. Muitos preferiram continuar com seus anéis, crucifixos, báculos, estolas e mitras banhados a ouro, mais parecidos com aquelas figuras medievais da inquisição que detinham o poder do Estado e mandavam em reis e rainhas.
Em Vitória da Conquista, por exemplo, os bispos e arcebispos que aqui dirigiram a arquidiocese só aparecem nas cerimônias religiosas, como Semana Santa, época do Natal, festa da padroeira e outras solenidades festivas das paroquias. Não existem aparições entre os pobres como recomendava o papa.
Fora de seus cerimoniais católicos, eles praticamente não são vistos em eventos sociais, culturais e políticos onde as comunidades e as categorias mais esquecidas do poder público precisam deles como âncoras. Nunca vi um deles num evento cultural defendendo a causa da classe, numa mobilização de professores, num ato político ou numa sessão especial na Câmara de Vereadores.
Esses bispos e arcebispos acham que o lugar deles é só na igreja fazendo suas homilias e pregações apenas para os fiéis, ministrando suas liturgias. Eles entendem que não pertencem ao mundo “profano” lá fora. Têm que cuidar só das coisas de Deus, como se as outras não fossem também Dele.
Quando Cristo andava pela Palestina, ele fazia o contrário e pregava aos seus apóstolos para irem justamente ao encontro das ovelhas desgarradas, dos menosprezados. Ele visitava as casas mais humildes e até comparecia em festas de casamento.
Posso até estar errado, mas a impressão que passa é que a função deles se resume simplesmente e rezar as missas solenes e administrar os bens da igreja que não são poucos. Até hoje quando se vende uma casa em Conquista, paga-se um tal de laudêmio que é imoral e absurdo.
Esse papa que se foi não comungava com isso e até abriu os braços para os gays, LGBTs, para os negros que foram escravizados, para os trabalhadores explorados pelo capitalismo selvagem, para os refugiados, para os povos indígenas e condenava essa hipocrisia dos seus padres, bispos e cardeais. Foi corajoso quando foi firme em punir aqueles que praticaram a pedofilia.
Não estou aqui para dar lição de moral, mas bem que eles poderiam refletir essas questões. Falam de sacrifício para seus fiéis, mas optam pela vida boa, sombra e água fresca. Não estou dizendo que são todos, mas poucos seguem o ensino do seu mestre. Fiquei oito anos no seminário e presenciei muitas coisas erradas, de se pregar uma coisa e fazer outra.
Esse papa quis e teve a intenção de reformar e transformar a igreja, adequando-a aos tempos modernos, mas encontrou barreiras dos conversadores enrustidos e muitos até o chamavam de comunista esquerdista por mandar que tirassem a bunda do sofá e fossem a campo trabalhar. Ele sempre desejou missionários em seu reino e não parasitários.
Suas cartas e encíclicas (quatro), como a Laudato Si (Louvado Sejas) e a Fratelli Tutti (Todos Irmãos) estão aí para serem lidas e cumpridas. Diziam que somos nós o ser humano parte orgânica desta “Casa Comum”. Em sua visão, todos os homens são iguais e abominava as desigualdades sociais.
Não são missivas moralistas, mas de grande força e coragem contra os poderosos mandatários, contra os destruidores do meio ambiente que só pensam em lucrar, contra os gananciosos, contra os tiranos das guerras e contra seu próprio rebanho de pastores que não ouviram seu chamado.
Ele desejou uma igreja moderna e libertária de suas amarras. Condenou os massacres de Israel contra os palestinos e foi até xingado pelo presidente do seu país de origem. Ele foi uma continuação do Papa João XXIII, especialmente no tocante à aproximação da igreja com os fiéis.
Outro grande feito dele foi arrumar as finanças do Banco do Vaticano que estava praticamente falido pela corrupção dos cardeais. Denunciou os corruptos dentro da hierarquia católica. Ele assumiu o comando de uma igreja esclerosada que excomungava os homossexuais.
Depois de morto, chovem falsos elogios daqueles materialistas que repugnavam suas propostas de mudanças, o que dá nojo de se ouvir, mas o que importa é que seu pontificado deixa um grande legado em prol do bem comum. Agora é esperar que seu sucessor seja um iluminado e não dê um passo atrás ou venha apagar essa chama de esperança. Tudo depende de uma votação onde, quer queira ou não, existe num jogo político e conchavos.
MAIS RIDÍCULO E BESTIAL
O ser humano está cada vez mais ridículo e bestial sendo consumido de forma inconsciente pela máquina do consumismo triturador. Mais parece um bando de “Maria Vai Com as Outras”, sem significado e sem sentido. Faz as coisas de forma maquinal e entra na onda das filas como uma manada em disparada, não importando se lá na frente existe um abismo existencial. Nem está aí para o que está fazendo e para onde vai. Quem eu sou e para onde vou – eis o problema.
Antigamente – e não é nenhuma questão de saudosismo – a Semana Santa, para católicos e não católicos, era um período de jejuns, recolhimento, penitência e de pouca comida na mesa, no máximo um peixe, ovos, arroz, feijão, verdura ou salada, isto para quem tinha um razoável poder aquisitivo. Acho que sou uma pessoa antissocial que abomina essas histerias festivas.
Nos tempos atuais, induzidos pela propaganda da mídia, a ideia é se empanturrar. As pessoas correm desesperadamente para as compras em supermercados e feiras. Gastam o que não podem em fartas comidas, muitas das quais exóticas. É uma verdadeira comilança na Sexta Feira Santa, contrariando os preceitos da Igreja.
É uma loucura ver tanta gente em filas para comprar um bacalhau e os tais ovos de páscoa, sem entender suas verdadeiras origens e significados. Simplesmente entram no embalo da chamada “carneirada” da força engenhosa da publicidade. Tem gente que entra numa fila por acaso, e todos querem fazer tudo igual.
O termo páscoa vem do hebraico “passach”, uma celebração judaica que comemora a libertação do povo hebreu por Moisés da escravidão do Egito, passando pelo Mar Vermelho. Portanto, significa passagem. No ritual, os hebreus imolam um cordeiro que serve de alimento com pão ázimo.
Os cristãos se basearam nessa “passach” para celebrar a ressurreição de Cristo. A liturgia é definida com base no equinócio da primavera e nas fases da lua. O cristianismo se valeu do judaísmo para também festejar sua própria páscoa.
Quanto aos ovos, a origem é multifacetada, com raízes em crenças pagãs e práticas cristãs. Os ovos sempre foram símbolo de fertilidade e renascimento, presentes nas festas antigas da primavera. No Brasil, a ideia de pintar os ovos e escondê-los para as crianças encontrarem foi trazida pelos imigrantes alemães. Com o tempo, os ovos passaram a ser presentes populares.
A troca de ovos era uma prática utilizada nas festividades da primavera em homenagem à deusa pagã Ostara (renascimento da natureza). Os coloridos tornaram-se parte das comemorações. Com o cristianismo, o ovo passou a ser ressurreição de Jesus. Trata-se de uma incorporação ritualística à sua liturgia.
Os ovos feitos de chocolate surgiram no século XVIII quando confeiteiros franceses começaram a esvaziar ovos de galinha e recheá-los com as pastas fabricadas dos frutos do cacau.
A invenção comercial do chocolate se expandiu e os ovos se tornaram símbolos da páscoa cristã moderna. Com o tempo, os ovos passaram a ser presentes populares, com embalagens chamativas coloridas para atrair os consumidores.
Como se vê, a origem dos famosos ovos de chocolate tem um cunho mais comercial que cristão. Os comerciantes capitalistas se apropriaram dos símbolos religiosos para ganhar mais dinheiro e se deram bem, tanto que a correria pelos ovos de chocolate é desvairada e coletiva. Todo mundo procura fazer a mesma coisa e nem quer saber os motivos. Muitos nem gostam de chocolate.
Essa onda coletiva está na natureza humana desde as primeiras civilizações, mas aumentou ainda mais nos tempos modernos, principalmente a partir da força da propaganda, da internet e das redes sociais com a mão mágica da mídia. Será que esses ingredientes indigestos são capazes de levar gente a um suicídio coletivo? Feliz páscoa para todos e bom chocolate!
NO BONDE DA VIDA
(Chico Ribeiro Neto)
Tô em Salvador, final da década de 50. Pego nas Mercês o bonde da Companhia Circular Carris da Bahia para a Praça da Sé.
No Terminal da Sé, depois de despongar do bonde, compro um amendoim torrado na hora que vem naquele funil de papel que sempre esconde no fundo 2 ou 3 caroços.
Caminho com meu Vulcabrás novinho e vou para o Cine Excelsior “pegar uma tela”. Sabe quem sentou do meu lado depois do filme começado? A Mulher de Roxo, figura tradicional da Rua Chile. Estava vestida de noiva, segurava um buquê e ria muito durante todo o filme.
Saio do Excelsior (que soube vai ser reformado pela Prefeitura de Salvador), pego a Rua Carlos Gomes e como um pastel chinês no Good Day. Queijo ou carne? Só tinha duas opções.
Atravesso a rua e quase sou atropelado por uma camionete Studebaker. Xingo o motorista e ele me xinga. Quem mandou ficar olhando pra morena de calça fio Helanca que acabou de passar?
No Relógio de São Pedro compro na mão de um velho um monóculo que mostrava alguma cena picante de um filme impróprio até 18 anos. Mais adiante, vizinho à Igreja de São Pedro, um cara vendia revistas pornô, com desenhos de Zéfiro, que ficavam escondidas dentro de inocentes revistas “Manchete”. A senha era essa: “Tem catecismo?”
Passo na farmácia e compro um Colubiazol, um sal de frutas Eno, um Enteroviofórmio, uma Cibalena e um sabonete Eucalol, aquele que vem a estampa.
Na porta da Lobrás (Lojas Brasileiras) tem uma máquina de fazer sorvete. Tem sorvete de todas as cores, mas acho tudo de um gosto só.
Vixe! Ainda não fiz o dever de casa! Dona Cleonice vai pegar no meu pé assim que eu chegar. O Vulcabrás apressa o passo.
Faço o dever correndo, pois preciso ir encontrar com a turma na esquina das ruas Tuiuti e Gabriel Soares. As meninas passam pra lá e pra cá e adoro os cabelos e o andar de Tânia.
Antes de dormir, depois de rezar uma Salve Rainha, um Pai Nosso e uma Ave Maria, subo no muro pra ver uma balzaquiana, de califon e anágua, se preparando para o Soirée Dançante do Clube Fantoches da Euterpe.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
O SUCATÃO DA POLUIÇÃO
O nome é “Sucata da Esperança”, localizado no Sobradinho, próximo do Miro Cairo, mas não tem nada de esperança, só desgosto, estresse e tristeza. A empresa bem que poderia ser denominada de “Sucatão da Poluição” sonora das máquinas e criadora de fuligens que incomodam diariamente os moradores daquela comunidade. O movimento das máquinas é infernal e tira o sossego das pessoas, mas o pior de tudo é a fuligem que solta no ar e deixa as casas infestadas de sujeiras, sem contar as doenças respiratórias que a poluição provoca. A comunidade que fica em seu entorno já se reuniu e fez uma abaixo-assinado à prefeitura municipal solicitando a sua relocalização para outro ponto mais adequado, mas até agora não deu em nada. São montes e montes de sucatas e ferros velhos que servem de moradia para todo tipo de insetos, ratos e outros animais peçonhentos. O local também é uma fonte de criação de mosquitos da dengue. É um absurdo que até o momento o poder executivo, a Câmara de Vereadores, o Ministério Público e órgãos sanitários da cidade não tenham tomado nenhuma providência para retirar de uma vez aquele sucatão que tanto vem prejudicando e perturbando os moradores há muitos anos, mesmo com um pedido de socorro por escrito. Os moradores daquele bairro não aguentam mais e precisam ser ouvidos em suas justas reivindicações. As pessoas não suportam mais tanta sujeira. Resido em Vitória da Conquista há mais de 30 anos e confesso que não sabia que existia um sucatão daquela dimensão naquele local tão impróprio para o ser humano conviver diariamente em meio a tanta poluição. Aquilo ali é um atentado à saúde pública e já passou da hora de ser totalmente interditado.
UM PÔR DO SOL DE FEVEREIRO DA TERRA FRIA
Autoria de Fernanda Quadros
Poema extraído da coletânea “Vozes que Ecoam na Joia do Sertão Baiano” – editora Versejar, organizada pelas poetisas Chirles Oliveira e Ybeane Moreira.
As tardes da terra fria
Se vão vestidas
De vermelho quente.
As noites chegam no quadrado
Redonda e branda
Pintam tudo de laranja cinza.
A escuridão derramada,
Afaga a saudade
Na imensidão estrelada.
Lá, a Terra Quente,
Distante
Aqui, a Terra Fria,
Desconcertante.
MEDIDA PROTETIVA, DINHEIRO E FELICIDADE
A impressão que temos é que o ser humano gosta de ser enganado, principalmente o brasileiro que tem um baixo nível de percepção intelectual e questionamento. Existe um monte de coisas em nosso Brasil onde as autoridades e os poderes constituídos passam o tempo todo nos iludindo, passando imagens como verdadeiras, quando são falsas e mentirosas.
Uma das maiores ilusões que o cidadão ou a cidadã aceita é a tal medida protetiva, criada pelo judiciário para “proteger” a mulher agredida e ameaçada de morte pelo marido ou namorado. O cara usa de violência contra a esposa e aí o delegado ou delegada impõe a ele a tal medida protetiva, isto é, ele não pode se aproximar da vítima.
O mais engraçado e ilusório é que as pessoas da sociedade e a própria mulher acreditam nessa estorinha da carochinha. Ora, se o indivíduo foi “punido” com a tal medida protetiva, gostaria de saber e indagar se algum agente público (soldado ou policial) vai acompanhar o cara 24 horas para evitar que ele cometa o crime?
A resposta é bem clara que não, pois não existe um contingente suficiente nas corporações militares para realizar esse trabalho de seguir o agressor o tempo todo. Então, meu amigo e amiga, essa medida é falsa e só funciona na teoria. Na prática ela sempre tem resultado em morte e assassinato.
Ainda recentemente a mídia anunciou que uma mulher foi morta pelo marido ou namorado que estava sob medida protetiva. O mais grave era que o elemento ainda carregava uma tornozeleira. Ele tirou o equipamento e, tranquilamente, foi lá e deu cabo da mulher. Como este, são dezenas e centenas de casos que acontecem nessa situação. Portanto, é uma medida enganosa. Acredite se quiser.
O mesmo ocorre nessas tais prisões domiciliares, sobretudo para os bandidos chamados de colarinho branco, os corruptos no popular. O juiz expede o alvará de soltura da cadeia para o sistema domiciliar com tornozeleira e estabelece diversas condições, como não sair de casa, não usar celular, não conversar com cúmplices, não receber visitar e outras exigências que não são cumpridas.
Como a tal medida protetiva, perguntaria se alguém do judiciário ou da polícia vai vigiar o sujeito para que ele não cometa delitos? Não me venham com essa que o cabra está sendo observado virtualmente. É mais uma mentira, uma fake news. A gente prefere ser enganado e acreditar.
Outro faz de conta é “vamos investigar e apurar os fatos” quando existe abuso de puder ou de autoridade por parte da polícia, negligência médica, crime de mando, erros judiciais ou acidentes dolosos. A imprensa noticia o fato e, como sempre, o episódio criminoso cai no esquecimento. A sociedade não cobra e outros absurdos ocorrem com a mesma intensidade, com a conversa fiada de que haverá punição “doa em quem doer”. Prevalece sempre a impunidade.
Outro papo furado é a pessoa, para consolar o outro que está em situação difícil e endividado financeiramente, dizer que dinheiro não traz felicidade. Pode até ser que em certas circunstâncias, como no caso de doença grave e terminal de um amigo ou parente, essa frase seja assertiva.
No entanto, no geral, o dinheiro traz sim felicidade para realizar seus desejos e sonhos, mesmo porque vivemos num sistema capitalista onde o danado cobiçado é o deus maior. Quando a pessoa está sem nenhuma grana e num beco sem saída, ela fica desesperada; entra em depressão; fica irritada, mal-humorada e até violenta. Em muitas ocasiões, a falta do money provoca até separação entre casais; desagrega famílias; e resulta em infelicidade.
Nos acostumamos a aceitar determinadas coisas sem questionar se estão corretas ou não, se são enganação ou não, porque somos comodistas e individualistas por natureza. Em algumas questões, por baixa capacidade cognitiva e intelectual e outras porque distanciamos muito do coletivo e escolhemos não darmos ao trabalho do refletir e pensar o que é certo e errado, bem como diferenciar o normal do anormal.
CÂMARA DE VEREADORES QUER NOVA SEDE
Quando os vereadores se reúnem com a prefeita com intuito de construir uma nova sede para a Câmara Municipal, isso me faz lembrar dos equipamentos culturais que estão fechados há anos por falta de reforma, mesmo diante de tantos pedidos dos artistas, com documentos e abaixo-assinados.
O argumento dos parlamentares, que já contaram com o apoio do poder executivo através da concessão de um terreno, é de que o prédio na rua Coronel Gugé com o antigo anexo da rua Zeferino Correia, erguido em 1910, não comporta mais o contingente de 23 vereadores (há 30 anos eram 11) e que a plenária tem espaço limitado para receber os participantes das sessões.
Nosso povo tem pouca memória quando eles mesmo disseram que o aumento no número de edis não iria implicar em custos para os contribuintes. Trata-se de uma grande falácia para enganar a nossa gente que está sempre sendo manipulada e é, infelizmente, comprada na hora da votação.
O aumento de vereadores não tem como não gerar mais custos no orçamento municipal, com mais gabinetes, salários para o vereador e seus auxiliares, verbas de indenização e outros benefícios concedidos pelos cofres públicos, boa parte vinda do Fundo de Participação dos Municípios.
Outra enganação é que a plenária ou o auditório já está limitado para receber os conquistenses que frequentam as sessões. Ora, aquele auditório Carmem Lúcia só lota poucas vezes em sessões especiais em homenagem a uma determinada categoria ou em eventos mais solenes. Na maioria das reuniões ali está sempre vazio.
Portanto, considero mais um absurdo a prefeitura despender mais recursos para construir outra sede luxuosa quando não atende as reivindicações do setor cultural que vem lutando pela abertura do Teatro Carlo Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha, na rua Dois de Julho, cujos espaços estão sendo destruídos pela ação do tempo. É por essas e outras que venho afirmando que a prefeita Sheila Lemos sepultou nossa cultura.
Pelos últimos números, existem no Brasil 60.311 vereadores. Até 2013 eram 51.748. O país gasta anualmente cerca de 24 bilhões de reais com os mais de 60 mil vereadores, dinheiro que poderia muito bem ser empregado nas áreas da educação e da saúde.
Até o período do regime militar, no início da década de 60, o vereador não era remunerado e as câmaras funcionavam bem melhor em termos de prestação de serviços à população.
Em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade da Bahia com cerca de 400 mil habitantes, só são realizadas duas sessões por semana, com pautas de poucos projetos e mais de indicações e moções de aplausos.
Além das câmaras de vereadores e assembleias legislativas, temos um Congresso Nacional (531 deputados e 81 senadores) mais caro do mundo, conservador e que legisla visando seus próprios interesses, num país com o mais profundo índice de desigualdade humana. Podemos dizer que é o maior cancro do Brasil.















